Uma declaração de vários líderes religiosos mundiais.
(com legendas em português)
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quinta-feira, 15 de junho de 2017
sábado, 18 de março de 2017
Pode a Religião renunciar à Exclusividade e à Finalidade?
Por David Langness.
Para dar o salto do pluralismo religioso para a unicidade, cada uma das grandes religiões do mundo deve renunciar às suas pretensões de exclusividade e finalidade.
Aquelas pretensões de acesso privilegiado e absoluto à verdade - do tipo "somos o único caminho para Deus" ou "somos a palavra final e absoluta de Deus" - criaram alguns dos mais amargos conflitos entre os povos da Terra. As religiões que insistem na finalidade ou na exclusividade têm causado incontáveis mortes e tragédias como resultado dessas pretensões sectárias, opondo-se a outras religiões, governos ou povos, e criando ódio em vez de harmonia:
Ironicamente, os fundadores das grandes Religiões mundiais não reivindicaram exclusividade ou finalidade para seus ensinamentos; em vez disso, todos eles reconheceram as Religiões que tinham aparecido anteriormente e anunciaram futuras Religiões. Toda a religião tem profecias que prometem novos profetas, e toda religião se baseia também nas suas predecessoras. Todas as religiões aguardam o reaparecimento dos seus Mensageiros, porque todos os Mensageiros prometeram regressar.
É por isso que os Bahá’ís não reivindicam finalidade, exclusividade ou superioridade para a sua Fé; e é por isso que Bahá'u'lláh - o profeta e fundador da Fé Bahá'í - exorta a humanidade à unidade:
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Texto original: Can Religion Renounce its Claims to Exclusivity and Finality? (www.bahaiteachings.org)
Artigo anterior: Podemos esperar um futuro pluralista e inter-religioso?
David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
Para dar o salto do pluralismo religioso para a unicidade, cada uma das grandes religiões do mundo deve renunciar às suas pretensões de exclusividade e finalidade.
Aquelas pretensões de acesso privilegiado e absoluto à verdade - do tipo "somos o único caminho para Deus" ou "somos a palavra final e absoluta de Deus" - criaram alguns dos mais amargos conflitos entre os povos da Terra. As religiões que insistem na finalidade ou na exclusividade têm causado incontáveis mortes e tragédias como resultado dessas pretensões sectárias, opondo-se a outras religiões, governos ou povos, e criando ódio em vez de harmonia:
Vimos que aquilo que traz divisão no mundo da existência causa a morte. De igual modo, no mundo do espírito, opera a mesma lei. Portanto, cada servo do Deus Único deve ser obediente à lei do amor, evitando todo o ódio, a discórdia e o conflito. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp. 139-140)Os ensinamentos Bahá’ís, que sempre renunciaram ao carácter destrutivo dessas pretensões, afirmam que estas não surgiram originalmente com os Profetas e Mensageiros que fundaram cada Religião, mas com as interpretações posteriores influenciadas pelo poder do clero de cada tradição. Além disso, os seguidores das religiões têm muitas vezes permitido que uma devoção excessivamente zelosa aos seus fundadores os leve a acreditar que a sua fé particular é a palavra final ou exclusiva de Deus, e seguidamente negam a possibilidade de aparecimento de qualquer religião posterior.
Ironicamente, os fundadores das grandes Religiões mundiais não reivindicaram exclusividade ou finalidade para seus ensinamentos; em vez disso, todos eles reconheceram as Religiões que tinham aparecido anteriormente e anunciaram futuras Religiões. Toda a religião tem profecias que prometem novos profetas, e toda religião se baseia também nas suas predecessoras. Todas as religiões aguardam o reaparecimento dos seus Mensageiros, porque todos os Mensageiros prometeram regressar.
É por isso que os Bahá’ís não reivindicam finalidade, exclusividade ou superioridade para a sua Fé; e é por isso que Bahá'u'lláh - o profeta e fundador da Fé Bahá'í - exorta a humanidade à unidade:
Não pode haver dúvida alguma de que os povos do mundo, de qualquer raça ou religião que sejam, derivam a sua inspiração de uma única Fonte Celestial e são súbditos de um único Deus. A diferença entre os preceitos sob os quais vivem deve ser atribuída aos diversos requisitos e exigências da época em que foram reveladas. Todas elas, exceptuando-se apenas umas poucas que são o resultado da perversidade humana, foram decretadas por Deus e são um reflexo da Sua Vontade e do Seu Propósito. Levantai-vos e, armados com o poder da fé, despedaçai os deuses das vossas imaginações vãs, os semeadores da dissensão entre vós. Apegai-vos àquilo que vos aproxima e vos une. (SEB, CXI)Em 2002, a Casa Universal de Justiça - o corpo eleito democrática e globalmente, que administra a Fé Bahá'í - enviou uma declaração sobre este importante assunto aos líderes religiosos do mundo de todas as Fés. A declaração reflectiu sobre o apelo de Bahá'u'lláh, acima citado, e concluía pedindo a todas as religiões que renunciem às suas reivindicações de exclusividade ou finalidade:
Tal apelo não exige o abandono da fé nas verdades fundamentais de qualquer um dos grandes sistemas de crenças do mundo. Bem pelo contrário. A fé tem o seu próprio imperativo e é a sua própria justificação. O que os outros acreditam - ou não acreditam - não pode ser a autoridade em qualquer consciência individual digna do nome. O que as palavras acima instam inequivocamente é à renúncia a todas as pretensões de exclusividade ou finalidade que, ao envolver as suas raízes em torno da vida do espírito, se tornaram o principal factor na sufocação dos impulsos à unidade e na promoção do ódio e da violência. (A Casa Universal da Justiça, Abril de 2002, Aos Líderes Religiosos do Mundo)Este urgente apelo Bahá’í aos líderes das Religiões do mundo vai muito além da mera tolerância religiosa, diversidade ou pluralismo. Vai ao coração da nossa compreensão de Deus. Desafia todos os líderes religiosos a compreender mais profundamente a verdade das suas próprias crenças, a considerar o futuro do mundo nesse contexto e, finalmente, a reconhecer e agir segundo a promessa básica de toda a religião - a promessa de Deus de trazer a paz e a unidade à humanidade:
Que o fanatismo e a intolerância religiosa sejam desconhecidos, que toda a humanidade adira ao vínculo da fraternidade, que as almas se associem em perfeito acordo, que as nações da terra hasteiem o estandarte da verdade e as religiões do mundo entrem no templo divino da unicidade, pois as fundações das religiões celestiais são uma realidade única. A realidade não é divisível; ela não admite a multiplicidade. Todos os Santos Manifestantes de Deus proclamaram e promulgaram a mesma realidade. Convocaram a humanidade para a própria realidade, e a realidade é uma só. As nuvens e as brumas das imitações obscureceram o Sol da Verdade. Devemos abandonar essas imitações, dissipar essas nuvens e brumas e libertar o Sol das trevas da superstição. Então o Sol da Verdade brilhará mais gloriosamente; todos os habitantes do mundo estarão unidos, as religiões serão uma só; seitas e denominações reconciliar-se-ão; todas as nacionalidades fluirão para o reconhecimento de uma única Paternidade e todos os níveis da humanidade se reunirão ao abrigo do mesmo tabernáculo, sob o mesmo estandarte. (’Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 95-96)
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Texto original: Can Religion Renounce its Claims to Exclusivity and Finality? (www.bahaiteachings.org)
Artigo anterior: Podemos esperar um futuro pluralista e inter-religioso?
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
domingo, 12 de março de 2017
Podemos esperar um futuro pluralista e inter-religioso?
Por David Langness.
Quem é pessimista consegue ver conflitos religiosos por toda a parte – mas quem é optimista, vê o surgimento do movimento inter-religioso.
As acções sensacionais e violentas de extremistas religiosos podem dominar capas de jornais e noticiários, mas isso representa apenas as opiniões contundentes e radicais de uma pequena minoria. O que as capas dos jornais muitas vezes não reflectem - e que a maioria das pessoas não sabe - é o crescente poder de uma nova tendência global para a cooperação e intercâmbio inter-religioso, conhecido como o movimento inter-religioso.
Já passou mais de um século desde o Parlamento das Religiões do Mundo, em Chicago, em 1893, onde membros e líderes de todas as religiões se uniram para pedir a compreensão global, cooperação e paz entre as religiões. Muitos dos Hindus, Budistas, Sikhs, Muçulmanos, Judeus, Bahá'ís e Cristãos (Católicos, Ortodoxos, Protestantes e Evangélicos) do mundo participaram nesse apelo. Ajudaram a formar o movimento inter-religioso, o que permitiu que se fizesse o apelo para aliança e colaboração. O movimento começou mesmo ter impacto na teologia e nas políticas das maiores entidades religiosas do mundo. A Igreja Católica declarou formalmente que os muçulmanos são parte do plano de salvação de Deus, e o Papa recentemente referiu-se ao povo judeu como os "nossos queridos e amados irmãos mais velhos". Está a nascer uma nova era de paz religiosa, e quem olhar com atenção verá que está a acontecer por toda a parte.
Em milhares de cidades por todo o planeta, membros de todas as religiões uniram-se para formar um movimento inter-religioso único, novo, descentralizado e difuso, sem precedentes em qualquer outro momento da história humana. Pastores, sacerdotes, rabinos, mulláhs, imãs e monges, juntamente com milhões de fiéis, começaram a reunir-se e a trabalhar em conjunto com seus parceiros de outras religiões. Os encontros devocionais inter-religiosos, os serviços inter-religiosos e as apresentações inter-religiosas tornaram-se comuns. Cada vez mais, as barreiras que costumavam manter as religiões separadas estão a diminuir e desaparecer.
Existem agora diversas organizações inter-religiosas, incluindo o Parlamento das Religiões do Mundo, Religions for Peace, United Religions Initiative, Interfaith Youth Core e muitas mais.
Se o movimento inter-religioso tem um lema, ele provavelmente vem de Hans Kung, o teólogo e presidente da Fundação para a Ética Global:
No mesmo documento citado acima, escrito aos líderes religiosos do mundo em 2002, o corpo administrativo eleito da comunidade internacional Bahá’í - a Casa Universal de Justiça - apelou para um único e importante primeiro passo: a "renúncia a todas as pretensões de exclusividade ou finalidade que, ao envolver as suas raízes em torno da vida do espírito, têm sido o principal factor no sufocar dos impulsos à unidade e na promoção do ódio e da violência." (Idem, p. 4)
Como podem as religiões - agora que entraram numa nova era de discurso inter-religioso e colaboração - renunciar às suas pretensões de exclusividade ou finalidade? No próximo artigo desta série, vamos explorar essa questão crucial.
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Texto original: Can We Possibly Have a Pluralistic, Interfaith Future? (www.bahaiteachings.org)
Artigo seguinte: Pode a Religião renunciar à Exclusividade e à Finalidade?
Artigo anterior: Pode alguma Religião ter o Exclusivo da Verdade?
David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
Quem é pessimista consegue ver conflitos religiosos por toda a parte – mas quem é optimista, vê o surgimento do movimento inter-religioso.
As acções sensacionais e violentas de extremistas religiosos podem dominar capas de jornais e noticiários, mas isso representa apenas as opiniões contundentes e radicais de uma pequena minoria. O que as capas dos jornais muitas vezes não reflectem - e que a maioria das pessoas não sabe - é o crescente poder de uma nova tendência global para a cooperação e intercâmbio inter-religioso, conhecido como o movimento inter-religioso.
Já passou mais de um século desde o Parlamento das Religiões do Mundo, em Chicago, em 1893, onde membros e líderes de todas as religiões se uniram para pedir a compreensão global, cooperação e paz entre as religiões. Muitos dos Hindus, Budistas, Sikhs, Muçulmanos, Judeus, Bahá'ís e Cristãos (Católicos, Ortodoxos, Protestantes e Evangélicos) do mundo participaram nesse apelo. Ajudaram a formar o movimento inter-religioso, o que permitiu que se fizesse o apelo para aliança e colaboração. O movimento começou mesmo ter impacto na teologia e nas políticas das maiores entidades religiosas do mundo. A Igreja Católica declarou formalmente que os muçulmanos são parte do plano de salvação de Deus, e o Papa recentemente referiu-se ao povo judeu como os "nossos queridos e amados irmãos mais velhos". Está a nascer uma nova era de paz religiosa, e quem olhar com atenção verá que está a acontecer por toda a parte.
Em milhares de cidades por todo o planeta, membros de todas as religiões uniram-se para formar um movimento inter-religioso único, novo, descentralizado e difuso, sem precedentes em qualquer outro momento da história humana. Pastores, sacerdotes, rabinos, mulláhs, imãs e monges, juntamente com milhões de fiéis, começaram a reunir-se e a trabalhar em conjunto com seus parceiros de outras religiões. Os encontros devocionais inter-religiosos, os serviços inter-religiosos e as apresentações inter-religiosas tornaram-se comuns. Cada vez mais, as barreiras que costumavam manter as religiões separadas estão a diminuir e desaparecer.
Existem agora diversas organizações inter-religiosas, incluindo o Parlamento das Religiões do Mundo, Religions for Peace, United Religions Initiative, Interfaith Youth Core e muitas mais.
Se o movimento inter-religioso tem um lema, ele provavelmente vem de Hans Kung, o teólogo e presidente da Fundação para a Ética Global:
Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões.Mas muito antes de o movimento inter-religioso ter começado, os ensinamentos Bahá’ís recomendavam exactamente a mesma coisa:
Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões.
Na medida em que a realidade essencial das religiões é apenas uma e a sua aparente desconformidade e pluralidade está na adesão às formas e às imitações que surgiram, torna-se evidente que essas causas de diferença e divergência devem ser abandonadas para que a realidade subjacente possa unir a humanidade no seu esclarecimento e desenvolvimento. Todos os que se apegam à realidade única estarão de acordo e unidos. Assim, as religiões convocarão as pessoas para a unicidade do mundo da humanidade e para a justiça universal; assim, proclamarão a igualdade de direitos e exortarão os homens à virtude e à fé na misericórdia amorosa de Deus. A base subjacente das religiões é uma única; não há diferença intrínseca entre elas. Portanto, se observarmos os mandamentos essenciais e fundamentais das religiões, a paz e a unidade amanhecerão, e todas as diferenças de seitas e denominações desaparecerão. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 98)Porque é que tudo isso começou a acontecer agora? Os Bahá’ís acreditam que isso aconteceu devido à revelação de Bahá'u'lláh, que apela à unidade de todas as religiões:
É evidente que um número crescente de pessoas está a começar a perceber que a verdade subjacente a todas as religiões é - na sua essência – apenas uma. Este reconhecimento não surge através de uma resolução de disputas teológicas, mas como uma consciência intuitiva nascida da experiência cada vez mais alargada dos outros e de uma aceitação do nascimento da unicidade da própria família humana. Fora da confusão das doutrinas religiosas, dos rituais e dos códigos legais herdados de mundos desaparecidos, surge a sensação de que a vida espiritual - tal como a unidade manifesta em diversas nacionalidades, raças e culturas - constitui uma realidade ilimitada igualmente acessível a todos...O que será necessário para alcançar essa meta sublime da unificação da religião? Pode parecer um sonho impossível, mas que passos no caminho rumo à unificação poderíamos dar agora?
... a Comunidade Bahá’í tem sido uma vigorosa promotora de actividades inter-religiosas desde a sua criação. Além das associações estimadas que estas actividades criam, os Bahá’ís vêem no esforço das diversas religiões para se aproximarem uma resposta à Vontade Divina para uma raça humana que está a entrar na sua maturidade colectiva. Os membros da nossa comunidade continuarão a ajudar de todas as maneiras possíveis. Contudo, devemos afirmar claramente aos nossos parceiros neste esforço comum a nossa convicção de que o discurso inter-religioso - se quiser contribuir de maneira significativa para curar os males que afligem uma humanidade desesperada - deve agora abordar honestamente e sem mais subterfúgios - as implicações daquela verdade abrangente que trouxe o movimento à existência: que Deus é um só e que, para lá de toda a diversidade de expressão cultural e interpretação humana, a religião é igualmente uma só. (A Casa Universal da Justiça, Abril de 2002, To the World’s Religious Leaders, pp. 4-6)
No mesmo documento citado acima, escrito aos líderes religiosos do mundo em 2002, o corpo administrativo eleito da comunidade internacional Bahá’í - a Casa Universal de Justiça - apelou para um único e importante primeiro passo: a "renúncia a todas as pretensões de exclusividade ou finalidade que, ao envolver as suas raízes em torno da vida do espírito, têm sido o principal factor no sufocar dos impulsos à unidade e na promoção do ódio e da violência." (Idem, p. 4)
Como podem as religiões - agora que entraram numa nova era de discurso inter-religioso e colaboração - renunciar às suas pretensões de exclusividade ou finalidade? No próximo artigo desta série, vamos explorar essa questão crucial.
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Texto original: Can We Possibly Have a Pluralistic, Interfaith Future? (www.bahaiteachings.org)
Artigo seguinte: Pode a Religião renunciar à Exclusividade e à Finalidade?
Artigo anterior: Pode alguma Religião ter o Exclusivo da Verdade?
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
O Simbolismo de Sodoma
Por Frances Worthington.
Se pesquisarmos na internet, podemos encontrar milhares de referências a livros que dizem algo sobre o simbolismo de do episódio bíblico de Sodoma.
Estes livros variam na forma como vêem Sodoma: um mandamento claro para sermos hospitaleiros com estranhos; um modelo das mais baixas formas de desejo físico; uma advertência sobre as consequências do pecado; uma descrição literal do castigo espiritual que aguarda os pecadores; uma sentença contra a homossexualidade; uma comparação entre a forma como se espera que os seguidores de Deus ajam e a maneira como os descrentes se comportam; e um aviso sobre o que pode acontecer aos crentes como Lot, que erguem a sua casa entre os ímpios. Também tem sido entendido como um sinal de que apenas os descendentes físicos de Abraão seriam os herdeiros das bênçãos das suas alianças com Deus: apesar de ser um crente fiel, Lot não era descendente directo de Abraão e, por isso, não estava destinado a ser o fundador de uma tribo que iria continuar a jurar lealdade à nova revelação.
Mas outra perspectiva, espiritualmente mais credível, para ver o episódio de Sodoma e Gomorra é entendê-lo como uma descrição do que pode acontecer quando um grupo de pessoas aceita uma religião em palavras, mas não em actos:
A sua perversão é mostrada pela forma anti-natura com que desejam os anjos - querem usar os anjos para os seus próprios propósitos, em vez de os tratar com honra. Quando Lot tenta afastar os sodomitas das suas perversões (ou seja, ele oferece-lhes os ensinamentos de uma nova e pura Palavra de Deus, simbolizado pelas suas duas filhas virgens), os homens recusam-se inflexivelmente a mudar o seu comportamento. Eles estão satisfeitos com aquilo que são - desobedecem à antiga religião e ignoram a nova. A sua cegueira espiritual significa que eles não conseguem ver qualquer razão para fugir à maldade da desobediência, e por isso a sua aniquilação (física, espiritual ou ambas) é inevitável.
Avisados pelos anjos, Lot reúne os membros da sua família e abandonam Sodoma antes da sua destruição. A esposa de Lot, descrita por Maomé como sendo falsa ao marido, lamenta amargamente ter que deixar a cidade onde foi feliz. Ela volta-se e olha para trás, sentindo saudades da maldade que deixara, um acto de deslealdade que a congela numa estátua de sal.
As implicações místicas desta imagem cristalina podem ser exploradas se examinarmos as propriedades úteis e nocivas do sal tal como são descritas nas Escrituras. Uma das primeiras passagens sobre sal que vem à mente é a pergunta de Jesus: "Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar?" (Mt 5:13)
De acordo com 'Abdu'l-Bahá, Jesus refere-Se aos perigos das "dissensões e falta de unidade entre os Seus seguidores", salientando que se os apóstolos - o "sal" - não estiverem unidos, o delicioso sabor do trabalho que fazem será perdido. Existem vários outros versículos bíblicos que usam sal como metáfora de uma qualidade que é desejável ou valiosa, incluindo esta de S. Paulo: "Que a vossa palavra seja sempre amável, temperada de sal, para que saibais responder a cada um como deveis." (Col 4:6)
Maomé usa as imagens do sal de várias formas, mas uma das mais intrigantes é a maneira pela qual Ele fala do reino espiritual e o mundo material como oceanos gémeos. Um oceano contém água (espiritual) fresca, enquanto o outro é salgado. Ambos os oceanos proporcionam comida e riqueza, mas apenas a água fresca é doce e agradável de beber:
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Texto original: The Symbolism of the City of Sodom (www.bahaiteachings.org)
Frances Worthington é uma escritora apaixonada por bibliotecas, jardins e diálogo inter-religioso. É autora do livro Abraham: One God, Three Wives, Five Religions (Abraão: um Deus, três Esposas, cinco Religiões) e vive em Greenville, South Carolina.
Se pesquisarmos na internet, podemos encontrar milhares de referências a livros que dizem algo sobre o simbolismo de do episódio bíblico de Sodoma.
Estes livros variam na forma como vêem Sodoma: um mandamento claro para sermos hospitaleiros com estranhos; um modelo das mais baixas formas de desejo físico; uma advertência sobre as consequências do pecado; uma descrição literal do castigo espiritual que aguarda os pecadores; uma sentença contra a homossexualidade; uma comparação entre a forma como se espera que os seguidores de Deus ajam e a maneira como os descrentes se comportam; e um aviso sobre o que pode acontecer aos crentes como Lot, que erguem a sua casa entre os ímpios. Também tem sido entendido como um sinal de que apenas os descendentes físicos de Abraão seriam os herdeiros das bênçãos das suas alianças com Deus: apesar de ser um crente fiel, Lot não era descendente directo de Abraão e, por isso, não estava destinado a ser o fundador de uma tribo que iria continuar a jurar lealdade à nova revelação.
Mas outra perspectiva, espiritualmente mais credível, para ver o episódio de Sodoma e Gomorra é entendê-lo como uma descrição do que pode acontecer quando um grupo de pessoas aceita uma religião em palavras, mas não em actos:
Ó Povo! A palavra deve ser demonstrada com actos, pois o testemunho íntegro da Palavra é a acção. Um sem o outro não aliviará a sede dos necessitados, nem abrirá a porta dos olhos dos cegos. (Bahá'u'lláh, Star of the West, Volume 1, p. 7)Nesta perspectiva, o episódio olha para a história e também apresenta uma profecia, pois o mesmo tipo de hipocrisia religiosa ocorreu repetidas vezes durante os últimos milhares de anos. Os profetas e mensageiros angélicos representam as religiões enviadas por Deus - tais como a religião de Noé, a religião de Moisés, e a religião de Jesus - enquanto Sodoma representa aqueles que afirmam ser seguidores destas religiões. Quando os anjos examinam o comportamento dos sodomitas, torna-se óbvio que, apesar de fingirem ser religiosos, eles foram pervertendo o verdadeiro objectivo da sua fé.
A sua perversão é mostrada pela forma anti-natura com que desejam os anjos - querem usar os anjos para os seus próprios propósitos, em vez de os tratar com honra. Quando Lot tenta afastar os sodomitas das suas perversões (ou seja, ele oferece-lhes os ensinamentos de uma nova e pura Palavra de Deus, simbolizado pelas suas duas filhas virgens), os homens recusam-se inflexivelmente a mudar o seu comportamento. Eles estão satisfeitos com aquilo que são - desobedecem à antiga religião e ignoram a nova. A sua cegueira espiritual significa que eles não conseguem ver qualquer razão para fugir à maldade da desobediência, e por isso a sua aniquilação (física, espiritual ou ambas) é inevitável.
Avisados pelos anjos, Lot reúne os membros da sua família e abandonam Sodoma antes da sua destruição. A esposa de Lot, descrita por Maomé como sendo falsa ao marido, lamenta amargamente ter que deixar a cidade onde foi feliz. Ela volta-se e olha para trás, sentindo saudades da maldade que deixara, um acto de deslealdade que a congela numa estátua de sal.
As implicações místicas desta imagem cristalina podem ser exploradas se examinarmos as propriedades úteis e nocivas do sal tal como são descritas nas Escrituras. Uma das primeiras passagens sobre sal que vem à mente é a pergunta de Jesus: "Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar?" (Mt 5:13)
De acordo com 'Abdu'l-Bahá, Jesus refere-Se aos perigos das "dissensões e falta de unidade entre os Seus seguidores", salientando que se os apóstolos - o "sal" - não estiverem unidos, o delicioso sabor do trabalho que fazem será perdido. Existem vários outros versículos bíblicos que usam sal como metáfora de uma qualidade que é desejável ou valiosa, incluindo esta de S. Paulo: "Que a vossa palavra seja sempre amável, temperada de sal, para que saibais responder a cada um como deveis." (Col 4:6)
Maomé usa as imagens do sal de várias formas, mas uma das mais intrigantes é a maneira pela qual Ele fala do reino espiritual e o mundo material como oceanos gémeos. Um oceano contém água (espiritual) fresca, enquanto o outro é salgado. Ambos os oceanos proporcionam comida e riqueza, mas apenas a água fresca é doce e agradável de beber:
Ele libertou os dois mares que se conheceram um ao outro ... De cada um, ele trouxe pérolas grandes e pequenas... Nem os dois mares são parecidos: o fresco, doce e agradável de beber; o outro salgado, amargo; no entanto, de ambos comeis peixe fresco, e exibis ornamentos para usais... (Alcorão 35:13; 55: 19-32)Os ensinamentos Bahá'ís usam o mesmo contraste entre água doce e salgada para demonstrar a insensatez de rejeitar a doçura da espiritualidade e favorecer a amargura do materialismo:
Sim, uma vez que os povos do mundo não procuraram nas Fontes luminosas e cristalinas do conhecimento divino o sentido interior das santas palavras de Deus, então ansiaram, afligiram-se e vaguearam sedentos no vale da vã fantasia e da desobediência. Desviaram-se para longe das águas frescas que aliviam a sede e reuniram-se ao redor do sal que arde amargamente. (Baha’u’llah, The Book of Certitude, parag. 111)Aplicando todos estes exemplos das Escrituras à mulher de Lot, ela torna-se sal que perde o sabor. Ela está em desunião com a verdade religiosa, porque está mais ligada aos tesouros do mar salgado, simbolizadas por Sodoma, do que às verdades frescas trazidas por Abraão e pregadas pelo seu marido. Ela recusa beber das nutritivos e vivificantes "fontes cristalinas do conhecimento divino" e apenas pretende imergir no oceano amargo da existência física, um desejo que faz com que ela fique coberta com os seus sedimentos que a imobilizam espiritualmente.
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Texto original: The Symbolism of the City of Sodom (www.bahaiteachings.org)
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Frances Worthington é uma escritora apaixonada por bibliotecas, jardins e diálogo inter-religioso. É autora do livro Abraham: One God, Three Wives, Five Religions (Abraão: um Deus, três Esposas, cinco Religiões) e vive em Greenville, South Carolina.
sábado, 12 de setembro de 2015
Por uma ecologia integral
Por Arthur Dahl.
A encíclica do Papa Francisco, no capítulo 4, apela a uma ecologia integral, que respeite claramente as suas dimensões social e humana:
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Texto original: An Integral Ecology, Based on Oneness (bahaiteachings.org)
Arthur Lyon Dahl foi investigador do Museu de História Natural de Washington e consultor da UNCED (United Nations Conference on Environment and Development). É autor de diversas publicações e actualmente é Presidente do Forum Ambiental Internacional, em Genebra (Suiça)
Os Profetas de Deus devem ser considerados como médicos cuja tarefa consiste em promover o bem-estar do mundo e de seus povos, para que, através do espírito da unidade, possam curar a doença de uma humanidade dividida (Bahá'u'lláh, SEB, XXXIV)Depois de diagnosticar as muitas doenças - tal como Bahá'u'lláh, o Fundador da Fé Bahá'í, fez no século XIX e as instituições internacionais Bahá'ís têm feito mais recentemente - a recente encíclica do Papa Francisco descreve a transformação fundamental das necessidades mundiais para resolver os seus graves problemas ambientais e económicos. Não será suficiente - declaram os ensinamentos Bahá'ís e a encíclica papal - realizar uma série de acções urgentes e parciais para os problemas imediatos da poluição, degradação ambiental e esgotamento dos recursos naturais:
Deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático. (¶111)
Se a crise ecológica é uma expressão ou uma manifestação externa da crise ética, cultural e espiritual da modernidade, não podemos iludir-nos de sanar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais… Com efeito, não se pode propor uma relação com o ambiente, prescindindo da relação com as outras pessoas e com Deus. (¶119)
Não haverá uma nova relação com a natureza, sem um ser humano novo. (¶118)
O que está a acontecer põe-nos perante a urgência de avançar numa corajosa revolução cultural. A ciência e a tecnologia não são neutrais, mas podem, desde o início até ao fim dum processo, envolver diferentes intenções e possibilidades que se podem configurar de várias maneiras. Ninguém quer o regresso à Idade da Pedra, mas é indispensável abrandar a marcha para olhar a realidade doutra forma, recolher os avanços positivos e sustentáveis e ao mesmo tempo recuperar os valores e os grandes objectivos arrasados por um desenfreamento megalómano. (¶114)
Não podemos segregar o coração humano do ambiente exterior e dizer que assim que um deles for reformado tudo será melhor. O homem é orgânico com o mundo. A sua vida interior molda o ambiente e é, também ela própria, profundamente afetada por este. Um actua sobre o outro e cada mudança permanente na vida do homem é o resultado destas reacções mútuas. (de uma carta escrita em nome da Casa Universal de Justiça, de Março de 1985).Os primórdios dessa mudança já são aparentes. "A humanidade autêntica, que convida a uma nova síntese, parece habitar no meio da civilização tecnológica de forma quase imperceptível" (¶112). Este tema também foi abordado nas declarações da Comunidade Internacional Bahá'í nas Nações Unidas, tais como "Repensar a Prosperidade: Forjando Alternativas para a cultura de consumismo" (2010)
A encíclica do Papa Francisco, no capítulo 4, apela a uma ecologia integral, que respeite claramente as suas dimensões social e humana:
A ecologia estuda as relações entre os organismos vivos e o meio ambiente onde se desenvolvem. E isto exige sentar-se a pensar e discutir acerca das condições de vida e de sobrevivência duma sociedade, com a honestidade de pôr em questão modelos de desenvolvimento, produção e consumo. Nunca é demais insistir que tudo está interligado. (¶138)"Mas, ao mesmo tempo, torna-se actual a necessidade imperiosa do humanismo", diz o Papa Francisco, "que faz apelo aos distintos saberes, incluindo o económico, para uma visão mais integral e integradora" (¶141). "A ecologia humana implica também algo de muito profundo que é indispensável para se poder criar um ambiente mais dignificante: a relação necessária da vida do ser humano com a lei moral inscrita na sua própria natureza." (¶155). É animador ver o Papa a abordar temas a que muitos de nós temos dedicado as nossas vidas, e que por isso reflectem claramente a perspectiva Baha'i:
Isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos... É fundamental buscar soluções integrais que considerem as interacções dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise sócio-ambiental. As directrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza. (¶139)
Todos se devem unir e concordar: todos são gotas de um rio, águas de um mar, brisas de um jardim, regatos que fluem de uma fonte, pássaros voando de uma montanha, jacintos que adornam um parque intoxicados com um vinho, e com os seus corações arrebatados por uma melodia. ('Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 10, p. 173.)Na sua encíclica, o Papa também reconhece a necessidade de abordagens que atinjam o nível da comunidade local e que tornem a ciência mais acessível. A ecologia apela a uma maior atenção às culturas locais quando se estudam os problemas ambientais, favorecendo um diálogo entre a linguagem técnico-científica e a linguagem do povo. A cultura é mais do que simplesmente o que herdámos do passado; é também, e acima de tudo, uma realidade viva, dinâmica e participativa, que não pode ser excluída quando repensamos a relação entre os seres humanos e o meio ambiente. Isso inclui a importante contribuição das culturas indígenas e a necessidade de uma maior participação no planeamento urbano.
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Texto original: An Integral Ecology, Based on Oneness (bahaiteachings.org)
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Arthur Lyon Dahl foi investigador do Museu de História Natural de Washington e consultor da UNCED (United Nations Conference on Environment and Development). É autor de diversas publicações e actualmente é Presidente do Forum Ambiental Internacional, em Genebra (Suiça)segunda-feira, 31 de agosto de 2015
Laudato Si’: Erradicar a Corrupção do Sistema Económico
Por Arthur Lyon Dahl.
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Texto original: Rooting Out the Corruption in our Economic Systems (bahaiteachings.org)
Arthur Lyon Dahl foi investigador do Museu de História Natural de Washington e consultor da UNCED (United Nations Conference on Environment and Development). É autor de diversas publicações e actualmente é Presidente do Forum Ambiental Internacional, em Genebra (Suiça)
Deve existir uma solução para os problemas sociais e questões económicas baseada na justiça para todos (’Abdu’l-Baha, Star of the West, Volume 6, p. 314.)Na sua recente encíclica sobre a pobreza e o ambiente intitulada Laudato Si ', o Papa refere frequentemente o problemas da corrupção:
…quando é a cultura que se corrompe deixando de reconhecer qualquer verdade objectiva ou quaisquer princípios universalmente válidos, as leis só se poderão entender como imposições arbitrárias e obstáculos a evitar.. (¶123)A encíclica critica a forma como os métodos e os objectivos da ciência e da tecnologia se tornam um paradigma epistemológico, com um reducionismo em que os produtos tecnológicos acabam por condicionar estilos de vida e moldar possibilidades sociais segundo regras ditadas pelos interesses de certos grupos poderosos. O paradigma tecnológico tornou-se tão dominante que seria difícil viver sem os seus recursos e ainda mais difícil de utilizá-los sem ser dominado pela sua lógica interna. Especialização tecnológica torna difícil ver o panorama geral:
A fragmentação do saber realiza a sua função no momento de se obter aplicações concretas, mas frequentemente leva a perder o sentido da totalidade, das relações que existem entre as coisas, do horizonte alargado: um sentido, que se torna irrelevante. Isto impede de individuar caminhos adequados para resolver os problemas mais complexos do mundo actual, sobretudo os do meio ambiente e dos pobres, que não se podem enfrentar a partir duma única perspectiva nem dum único tipo de interesses. Uma ciência, que pretenda oferecer soluções para os grandes problemas, deveria necessariamente ter em conta tudo o que o conhecimento gerou nas outras áreas do saber, incluindo a filosofia e a ética social. (¶110)Esta referência a uma ciência de "grandes questões" reflecte os apelos da comunidade científica para uma nova ciência da sustentabilidade integrada em todas as disciplinas. Também reflecte os ensinamentos Bahá'ís sobre entendimento básico e equilíbrio necessário entre a ciência e a religião:
Qualquer crença religiosa que não esteja de acordo com provas e investigações científicas é superstição, pois a verdadeira ciência é a razão e a realidade, e a religião é essencialmente a realidade e a razão pura; assim, os dois devem concordar. O ensinamento religioso que estiver em desacordo com a ciência e a razão é invenção humana e imaginação indigna de aceitação, pois a antítese e oposto do conhecimento é a superstição nascida da ignorância do homem. Se dizemos que a religião se opõe à ciência, então não temos conhecimento da verdadeira ciência ou da religião verdadeira, pois ambas se baseiam nos pressupostos e conclusões da razão, e ambos devem passar no seu teste. (Abdu'l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, p. 104.)A ampla crítica do Papa à corrupção alarga-se ao sistema económico, e à aceitação fácil de:
...a ideia dum crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos da finança e da tecnologia. Isto supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, que leva a «espremê-lo» até ao limite e para além do mesmo. (¶106)O poder absoluto do sistema financeiro só vai dar origem a novas crises, diz o Papa:
A crise financeira dos anos 2007 e 2008 era a ocasião para o desenvolvimento duma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para uma nova regulamentação da actividade financeira especulativa e da riqueza virtual. Mas não houve uma reacção que fizesse repensar os critérios obsoletos que continuam a governar o mundo. (¶189)
O paradigma tecnocrático tende a exercer o seu domínio também sobre a economia e a política. A economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano. A finança sufoca a economia real. Não se aprendeu a lição da crise financeira mundial e, muito lentamente, se aprende a lição do deterioramento ambiental… quando parece não preocupar-se com o justo nível da produção, uma melhor distribuição da riqueza, um cuidado responsável do meio ambiente ou os direitos das gerações futuras. … Não temos suficiente consciência de quais sejam as raízes mais profundas dos desequilíbrios actuais: estes têm a ver com a orientação, os fins, o sentido e o contexto social do crescimento tecnológico e económico. (¶109)
As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Às próximas gerações, poderíamos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo. O ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida actual – por ser insustentável – só pode desembocar em catástrofes, como aliás já está a acontecer periodicamente em várias regiões. A atenuação dos efeitos do desequilíbrio actual depende do que fizermos agora, sobretudo se pensarmos na responsabilidade que nos atribuirão aqueles que deverão suportar as piores consequências. (¶161)Os ensinamentos Bahá'ís concordam e exigem uma solução espiritual para crise económica e para a corrupção:
Nenhum livro religioso dos profetas do passado fala da questão económica, mas este problema foi resolvido completamente nos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Algumas leis foram reveladas para garantir o bem-estar de toda a humanidade. Tal como o homem rico gosta do seu repouso e dos seus prazeres rodeado por luxos, o pobre homem também deve ter um lar, dispor de sustento, e não viver carenciado. Enquanto isto não for realizado, a felicidade é impossível. Todos são iguais aos olhos de Deus; os seus direitos são um e não há distinção entre as almas; todos estão protegidos sob a justiça de Deus. ('Abdu'l-Baha, Star of the West, Volume 6, p. 5)
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Texto original: Rooting Out the Corruption in our Economic Systems (bahaiteachings.org)
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Arthur Lyon Dahl foi investigador do Museu de História Natural de Washington e consultor da UNCED (United Nations Conference on Environment and Development). É autor de diversas publicações e actualmente é Presidente do Forum Ambiental Internacional, em Genebra (Suiça)
domingo, 23 de agosto de 2015
Laudato Si': Riqueza Extrema e a Pobreza Extrema
Por Arthur Lyon Dahl.
Ao isolarmo-nos da realidade natural e espiritual, caímos na armadilha da sociedade de consumo. O nosso excessivo antropocentrismo atravessa-se no caminho da compreensão mútua e impede qualquer esforço para fortalecer os laços sociais. "Se o ser humano se declara autónomo da realidade e se se constitui dominador absoluto, desmorona-se a própria base da existência." (¶117) Centrámo-nos em nós próprios e demos prioridade absoluta às nossas conveniências imediatas, e relativizámos todo o resto. Qual foi o resultado? Individualismo desenfreado, com muitos problemas sociais relacionados com a actual cultura egocêntrica de satisfação imediata. O mercado tenta promover o consumismo extremo num esforço para vender os seus produtos; por isso, somos facilmente apanhados num consumismo compulsivo de compras e gastos desnecessários. Quando as pessoas se tornam egocentristas, a sua ganância aumenta:
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Texto original: Extreme Poverty and Extreme Wealth, Explained (bahaiteachings.org)
Arthur Lyon Dahl foi investigador do Museu de História Natural de Washington e consultor da UNCED (United Nations Conference on Environment and Development). É autor de diversas publicações e actualmente é Presidente do Forum Ambiental Internacional, em Genebra (Suiça)
Deus criou o mundo como um só – as fronteiras foram marcadas pelo homem. Deus não dividiu as terras ... É por isso que Bahá'u'lláh diz: "Que vão se vanglorie o homem que ama o seu país, mas que aquele que ama a sua espécie." Todos são uma família, uma raça; todos são seres humanos. ('Abdu'l-Baha, Abdu'l-Bahá in London, p. 55)Ao longo da sua nova encíclica sobre a pobreza e o ambiente, o Papa entrelaça preocupações ecológicas e sociais:
Não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver, no coração, ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos… exige-se uma preocupação pelo meio ambiente, unida ao amor sincero pelos seres humanos e a um compromisso constante com os problemas da sociedade. (¶91)No capítulo 3 da Laudato Si ', o Papa explora as raízes humanas da crise ecológica, com foco no paradigma tecnocrático dominante, no lugar dos seres humanos e na acção humana no mundo. Aqui, a consciência social do Papa é particularmente evidente:
Hoje, crentes e não-crentes estão de acordo que a terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos. Para os crentes isto torna-se uma questão de fidelidade ao Criador, porque Deus criou o mundo para todos. Por conseguinte, toda a abordagem ecológica deve integrar uma perspectiva social que tenha em conta os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos. O princípio da subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens e, consequentemente, o direito universal ao seu uso é uma regra de ouro do comportamento social… (¶93)
... deveriam indignar-nos sobretudo as enormes desigualdades que existem entre nós, porque continuamos a tolerar que alguns se considerem mais dignos que outros. Deixámos de notar que alguns se arrastam numa miséria degradante, sem possibilidades reais de melhoria, enquanto outros não sabem sequer o que fazer ao que têm, ostentam vaidosamente uma suposta superioridade e deixam atrás de si um nível de desperdício tal que seria impossível generalizar sem destruir o Planeta. Na prática, continuamos a admitir que alguns se sintam mais humanos que outros, como se tivessem nascido com maiores direitos. (¶90)Este foco na enorme desigualdade entre as pessoas, tão fortemente proclamado na Laudato Si' , é um eco claro do mesmo que encontramos nos ensinamentos Bahá'ís:
Um financeiro com riqueza colossal não deveria existir, enquanto perto dele houver um homem pobre em necessidade extrema. Quando vemos que se deixa a pobreza chegar a uma situação de fome, isso é um sinal certo de que em algum lugar se encontra a tirania. Os homens devem agir nesta matéria, e não devem adiar mais a alteração das condições que trazem a miséria da pobreza opressiva a um vastíssimo número de pessoas. Os ricos devem doar parte da sua abundância, suavizar os seus corações e cultivar uma inteligência compassiva, pensando naqueles pobres seres que sofrem com a falta de meios elementares de subsistência.
Devem existir leis especiais que tratem destes extremos de riqueza e pobreza. Os membros do Governo devem considerar as leis de Deus quando elaborarem planos para dirigir os povos. Os direitos gerais da humanidade devem ser protegidos e preservados.
Os governos dos países devem seguir a Lei Divina que confere justiça igual para todos. Este é o único meio pelo qual podem ser abolidas a deplorável superabundância de grande riqueza e a miserável, desmoralizante e degradante pobreza. Enquanto isto não for feito, a Lei de Deus não será obedecida. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp 153-154.)
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| Taxa de Pobreza, baseada na Paridade de Poder de Compra |
Ao isolarmo-nos da realidade natural e espiritual, caímos na armadilha da sociedade de consumo. O nosso excessivo antropocentrismo atravessa-se no caminho da compreensão mútua e impede qualquer esforço para fortalecer os laços sociais. "Se o ser humano se declara autónomo da realidade e se se constitui dominador absoluto, desmorona-se a própria base da existência." (¶117) Centrámo-nos em nós próprios e demos prioridade absoluta às nossas conveniências imediatas, e relativizámos todo o resto. Qual foi o resultado? Individualismo desenfreado, com muitos problemas sociais relacionados com a actual cultura egocêntrica de satisfação imediata. O mercado tenta promover o consumismo extremo num esforço para vender os seus produtos; por isso, somos facilmente apanhados num consumismo compulsivo de compras e gastos desnecessários. Quando as pessoas se tornam egocentristas, a sua ganância aumenta:
...quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objectos para comprar, possuir e consumir. Num tal contexto, parece não ser possível para uma pessoa, que a realidade lhe imponha limites… a obsessão por um estilo de vida consumista, sobretudo quando pouco têm possibilidade de o manter, só poderá violência e destruição recíproca. (¶204)Qualquer sociedade que se foca exclusivamente na vida material da humanidade - afirmam o Papa e os ensinamentos Bahá'ís - interrompe o seu progresso espiritual e ignora o enorme impacto negativo que tem sobre a própria Terra.
O ser humano não é plenamente autónomo. A sua liberdade desvanece-se quando se entrega às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, da violência brutal. Neste sentido, ele está nu e exposto frente ao seu próprio poder que continua a crescer, sem ter instrumentos para o controlar. Talvez disponha de mecanismos superficiais, mas podemos afirmar que carece de uma ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro de um lúcido domínio de si. (¶105)
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Texto original: Extreme Poverty and Extreme Wealth, Explained (bahaiteachings.org)
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Arthur Lyon Dahl foi investigador do Museu de História Natural de Washington e consultor da UNCED (United Nations Conference on Environment and Development). É autor de diversas publicações e actualmente é Presidente do Forum Ambiental Internacional, em Genebra (Suiça)
sábado, 1 de agosto de 2015
A graça de Deus é uma só
Por Christopher Buck.
Quem acredita num Deus único, é monoteísta. Mas que tipo de monoteísta?
No seu artigo "Notas para uma Tipologia do Monoteísmo" (1957, em italiano), o ilustre académico italiano Alessandro Bausani apresentou e expôs o seu conceito de monoteísmos primários e secundários.
No texto anterior, descrevemos os "monoteísmos primários" (Judaísmo e Islão) que nasceram em ambientes politeístas (que Bausani designa como "naturalismo pagão") e os "monoteísmos secundários" (Cristianismo e Fé Bahá'í) que surgiram em ambientes monoteístas.
Portanto, de acordo com Bausani, historicamente o Judaísmo e o Islão foram mais agressivos na disseminação da sua Fé, uma vez que cada uma teve que lutar contra as sociedades idólatras prevalecentes. Judaísmo e Islão, além disso, começaram inicialmente por enfatizar os atributos divinos dos tremenda majestas (a tendência para causar enorme medo ou horror). Os monoteísmos secundários (Cristianismo e a Fé Bahá'í), em geral, foram menos agressivos e salientavam os atributos divinos dos fascinans (a tendência de atrair ou fascinar). Por outras palavras, o Judaísmo e o Islão salientam a natureza omnipotente de Deus, enquanto o Cristianismo e a Fé Bahá'í destacam a natureza mística de Deus.
No Judaísmo e no Islão, Deus ocupa a posição central. No Cristianismo e na Fé Bahá'í, a atenção desloca-se um pouco, e está centrada nos seus Fundadores (isto é, Jesus Cristo e Bahá'u'lláh).
Os monoteísmos secundários (Cristianismo e a Fé Bahá'í) atribuem um significado especial à dor e ao sofrimento, especialmente no caso do seu Fundador ou de personagens especiais, como, por exemplo, o "filho sacrificado de Deus" (Jesus Cristo) no Cristianismo, e o martírio do Bab na história Bahá'í (o Báb foi o arauto de Bahá'u'lláh, tal como João Baptista preparou o caminho para o advento de Jesus Cristo).
Os monoteísmos secundários concentram o divino - e a graça da salvação - na pessoa do fundador da religião. Portanto, quem afirma “Cristo é o Senhor" ou "Bahá'u'lláh é o manifestante de Deus” encontra a regeneração espiritual nessa mesma crença, e torna-se uma parte da comunidade universal dos crentes.
Poderia escrever muito mais sobre este assunto. Mas penso que já identificámos vários pontos-chave, e gostaria de acrescentar outros igualmente importantes. Quando Bausani analisa o Cristianismo e a Fé Bahá'í, ele diz que existe aqui uma "vasta semelhança entre estes dois monoteísmos". Vejamos porquê:
Para os Cristãos que exploram os ensinamentos Bahá'ís, ou para os Bahá'ís que vêm de origens cristãs, esses paralelismos fascinantes podem explicar muita coisa sobre a relação entre as duas religiões, e fazer eco dos apelos de Cristo e Bahá'u'lláh para o amor e a unidade:
Espero que estes textos sobre os dois artigos de Alessandro Bausani lancem uma nova luz sobre as religiões monoteístas, sobre os seus diferentes tipos, e sobre a sua ligação orgânica entre si.
A graça de Deus é uma só.
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Texto original: The Grace of God is One (bahaiteachings.org)
Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.
Quem acredita num Deus único, é monoteísta. Mas que tipo de monoteísta?
No seu artigo "Notas para uma Tipologia do Monoteísmo" (1957, em italiano), o ilustre académico italiano Alessandro Bausani apresentou e expôs o seu conceito de monoteísmos primários e secundários.
No texto anterior, descrevemos os "monoteísmos primários" (Judaísmo e Islão) que nasceram em ambientes politeístas (que Bausani designa como "naturalismo pagão") e os "monoteísmos secundários" (Cristianismo e Fé Bahá'í) que surgiram em ambientes monoteístas.
Portanto, de acordo com Bausani, historicamente o Judaísmo e o Islão foram mais agressivos na disseminação da sua Fé, uma vez que cada uma teve que lutar contra as sociedades idólatras prevalecentes. Judaísmo e Islão, além disso, começaram inicialmente por enfatizar os atributos divinos dos tremenda majestas (a tendência para causar enorme medo ou horror). Os monoteísmos secundários (Cristianismo e a Fé Bahá'í), em geral, foram menos agressivos e salientavam os atributos divinos dos fascinans (a tendência de atrair ou fascinar). Por outras palavras, o Judaísmo e o Islão salientam a natureza omnipotente de Deus, enquanto o Cristianismo e a Fé Bahá'í destacam a natureza mística de Deus.
No Judaísmo e no Islão, Deus ocupa a posição central. No Cristianismo e na Fé Bahá'í, a atenção desloca-se um pouco, e está centrada nos seus Fundadores (isto é, Jesus Cristo e Bahá'u'lláh).
Os monoteísmos secundários (Cristianismo e a Fé Bahá'í) atribuem um significado especial à dor e ao sofrimento, especialmente no caso do seu Fundador ou de personagens especiais, como, por exemplo, o "filho sacrificado de Deus" (Jesus Cristo) no Cristianismo, e o martírio do Bab na história Bahá'í (o Báb foi o arauto de Bahá'u'lláh, tal como João Baptista preparou o caminho para o advento de Jesus Cristo).
Os monoteísmos secundários concentram o divino - e a graça da salvação - na pessoa do fundador da religião. Portanto, quem afirma “Cristo é o Senhor" ou "Bahá'u'lláh é o manifestante de Deus” encontra a regeneração espiritual nessa mesma crença, e torna-se uma parte da comunidade universal dos crentes.
Poderia escrever muito mais sobre este assunto. Mas penso que já identificámos vários pontos-chave, e gostaria de acrescentar outros igualmente importantes. Quando Bausani analisa o Cristianismo e a Fé Bahá'í, ele diz que existe aqui uma "vasta semelhança entre estes dois monoteísmos". Vejamos porquê:
- Em primeiro lugar, no que toca às suas origens históricas, Bausani assinala que "ambos surgem como o cumprimento de uma «expectativa escatológica»”. Por outras palavras, Jesus Cristo e Bahá'u'lláh apareceram cumprindo as profecias das suas religiões-mãe, o Judaísmo e o Islão.
- Em segundo lugar, Bausani explica ainda que "ambos surgem em áreas espirituais dos monoteísmos primários" e nota "a influência de outras culturas". O Cristianismo nasceu de uma "cultura helenística-neoplatónica: o Judaísmo do tempo de Cristo”. Da mesma forma, a Fé Bahá'í surgiu a partir de uma "cultura maniqueísta-gnóstica iraniana”: o Irão xiita. "Assim o Cristianismo e a Fé Bahá'í surgiram cada uma sob a influência de uma forma especial de religiosidade monoteísta especialmente propícia ao nascimento de um «monoteísmo secundário»", afirma Bausani.
- Em terceiro lugar, afirma Bausani, "em ambos a ideia de Deus estava psicologicamente, se não teoricamente, subordinada à ideia do Fundador". Isso não significa que Jesus Cristo e Bahá'u'lláh, como fundadores do Cristianismo e da Fé Bahá'í, eram mais importantes do que Deus. Deus nos livre! Bausani simplesmente nota que, numa cultura onde a crença num Deus supremo existe há muito tempo, o advento de um novo profeta ou mensageiro de Deus atrairia naturalmente mais atenção.
- Em quarto lugar, continua Bausani, o Judaísmo e o Islão enfatizam a majestade e poder de Deus, enquanto o Cristianismo e a Fé Bahá'í dão mais importância à natureza misteriosa e amorosa de Deus.
- Em quinto lugar, prossegue Bausani, “em ambos os monoteísmos secundários, os martírios e os sofrimentos do Fundador e dos seus seguidores assumem uma importância vital, em nítido contraste com o que acontece nos monoteísmos primários". Salientando a importância da crucificação de Cristo, o martírio do Báb e os sofrimentos de Bahá'u'lláh, Bausani sugere: "Estes martírios e sofrimentos vão ao ponto de assumir um valor redentor no Cristianismo e uma importância mais genericamente purificadora e redentora no Babi-Bahaismo”. E destaca que, no caso de a crucificação de Cristo e do martírio do Báb (co-fundador da Fé Bahá'í), "a maior intensidade sagrada da pessoa do fundador" deve-se ao facto de que "os profetas não são mortos por pagãos, mas por pessoas que, para o bem e para o mal, são os representantes do Deus Uno, o povo de Deus."
- Em sexto lugar, Bausani observa que “ambos os monoteísmos secundários fundam instituições sagradas", apontando a "Igreja Carismática no Cristianismo" e "a «Ordem Administrativa», a Arca Redentora, Safina Hamra ["Arca Carmesim"], no Bahaismo”. Em português: a Igreja é uma instituição importante no Cristianismo. Também, na Fé Bahá'í, a "Ordem Administrativa" - uma série de conselhos locais, nacionais e internacionais eleitos pelos Bahá'ís em todo o mundo - é o centra da vida da comunidade Baha'i.
Para os Cristãos que exploram os ensinamentos Bahá'ís, ou para os Bahá'ís que vêm de origens cristãs, esses paralelismos fascinantes podem explicar muita coisa sobre a relação entre as duas religiões, e fazer eco dos apelos de Cristo e Bahá'u'lláh para o amor e a unidade:
Agora é o momento para os que amam Deus erguerem bem alto os estandartes da unidade, de entoarem, nas congregações do mundo, os versículos da amizade e do amor e para demonstrar a todos que a graça de Deus é uma só. Assim os tabernáculos da santidade serão erguidos nos pontos mais altos da terra, reunindo todos os povos à sombra protectora da Palavra da Unidade. (‘Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #7).Os meus agradecimentos ao investigador Baha'i Julio Savi pela sua tradução do segundo artigo de Bausani, a partir da qual foram obtidas as citações anteriores.
Espero que estes textos sobre os dois artigos de Alessandro Bausani lancem uma nova luz sobre as religiões monoteístas, sobre os seus diferentes tipos, e sobre a sua ligação orgânica entre si.
A graça de Deus é uma só.
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Texto original: The Grace of God is One (bahaiteachings.org)
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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.
domingo, 1 de fevereiro de 2015
Repensar a Trindade
Por Tom Tai-Seale.
Se desejamos reconciliar as religiões - encontrar alguma forma de alinhar mental e espiritualmente os seus Profetas e propósitos - temos que considerar o conceito cristão de Trindade.
A maioria dos Cristãos foi ensinada a acreditar na Trindade. Eu cresci a afirmar essa crença em cada serviço religioso a que assistia. Mas o que é que a trindade - a noção de um Deus trino - significa para os Cristãos? Podemos perceber que Trindade significa muitas coisas diferentes.
É claro que Jesus Cristo nunca ensinou qualquer conceito sobre Trindade; isso surgiu muito tempo depois do Seu martírio. A controvérsia trinitária surgiu no século III e ainda hoje agita os Cristãos. Ao reflectir sobre esta controvérsia teológica, o historiador Sócrates (não confundir com o filósofo pré-cristão) escreveu: “A situação parecia exactamente uma batalha nocturna, pois ambos os lados pareciam estar às escuras quanto às bases em que usavam para se atacarem uns aos outros” (citado em Early Christian Doctrines J.N.D. Kelly, Harper and Row, 1978, p. 239). Para muitos, a noite permanece, pois o significado de Trindade continua oculto numa estranha estrutura de palavras e conceitos.
E porque a Trindade é um conceito muito complexo, até os bons e fieis Cristãos cometem erros e distorcem coisas quando tentam descrevê-lo. No entanto, isso tem pouco efeito na alma ou na fé de qualquer pessoa. A Trindade é uma doutrina, uma construção mental que tem pouco a ver com a salvação.
A evolução da doutrina cristã da Trindade atravessou várias etapas, enquanto muitos estudiosos e concílios realizados em diferentes cidades debatiam e reagiam contra os significados e as diferenças dos termos difíceis; a doutrina aprovada oficialmente foi aquela que mais agradava ao imperador. A primeira doutrina trinitária a receber a aprovação imperial tomou forma no ano 325 EC, numa cidade da Ásia Menor chamada Niceia - não longe de Constantinopla. Niceia foi o local de uma conferência de bispos, convocada pelo Imperador Constantino. As traduções diferem ligeiramente, mas uma versão comum do credo de Niceia declara:
Apesar da aprovação do Imperador, o Credo de Niceia não pôs fim às discussões sobre o conceito cristão de Deus. De facto, o Credo apenas identificou os três elementos da Fé Cristã: Deus, Jesus (o Seu Mensageiro) e o Espírito Santo. As questões mais difíceis sobre a definição das três componentes e a forma como interagem ficaram reservadas para credos posteriores e as discussões continuam até hoje.
A perspectiva Bahá’í sobre esta questão começa por apresentar uma visão mais ampla sobre a própria religião. As Escrituras Bahá’ís salientam que a religião é, inevitavelmente, alterada quando os seres humanos tentam modifica-la e adaptá-la ao seu próprio gosto.
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Texto Original: Re-examining the Trinity (bahaiteachings.org)
Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.
Se desejamos reconciliar as religiões - encontrar alguma forma de alinhar mental e espiritualmente os seus Profetas e propósitos - temos que considerar o conceito cristão de Trindade.
A maioria dos Cristãos foi ensinada a acreditar na Trindade. Eu cresci a afirmar essa crença em cada serviço religioso a que assistia. Mas o que é que a trindade - a noção de um Deus trino - significa para os Cristãos? Podemos perceber que Trindade significa muitas coisas diferentes.
É claro que Jesus Cristo nunca ensinou qualquer conceito sobre Trindade; isso surgiu muito tempo depois do Seu martírio. A controvérsia trinitária surgiu no século III e ainda hoje agita os Cristãos. Ao reflectir sobre esta controvérsia teológica, o historiador Sócrates (não confundir com o filósofo pré-cristão) escreveu: “A situação parecia exactamente uma batalha nocturna, pois ambos os lados pareciam estar às escuras quanto às bases em que usavam para se atacarem uns aos outros” (citado em Early Christian Doctrines J.N.D. Kelly, Harper and Row, 1978, p. 239). Para muitos, a noite permanece, pois o significado de Trindade continua oculto numa estranha estrutura de palavras e conceitos.
E porque a Trindade é um conceito muito complexo, até os bons e fieis Cristãos cometem erros e distorcem coisas quando tentam descrevê-lo. No entanto, isso tem pouco efeito na alma ou na fé de qualquer pessoa. A Trindade é uma doutrina, uma construção mental que tem pouco a ver com a salvação.
A evolução da doutrina cristã da Trindade atravessou várias etapas, enquanto muitos estudiosos e concílios realizados em diferentes cidades debatiam e reagiam contra os significados e as diferenças dos termos difíceis; a doutrina aprovada oficialmente foi aquela que mais agradava ao imperador. A primeira doutrina trinitária a receber a aprovação imperial tomou forma no ano 325 EC, numa cidade da Ásia Menor chamada Niceia - não longe de Constantinopla. Niceia foi o local de uma conferência de bispos, convocada pelo Imperador Constantino. As traduções diferem ligeiramente, mas uma versão comum do credo de Niceia declara:
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| O Imperador Constantino, rodeado pelos Bispos no Concílio de Niceia |
Cremos em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis.O credo específica como ortodoxa a crença num único Deus, num único Senhor (Jesus Cristo) e no Espírito Santo.
E em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, unigênito do Pai, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai; por quem foram criadas todas as coisas que estão no céu ou na terra. O qual por nós homens e para nossa salvação, desceu (do céu), se encarnou e se fez homem. Padeceu e ao terceiro dia ressuscitou e subiu ao céu. Ele virá novamente para julgar os vivos e os mortos.
E (cremos) no Espírito Santo.
E quem quer que diga que houve um tempo em que o Filho de Deus não existia, ou que antes que fosse gerado ele não existia, ou que ele foi criado daquilo que não existia, ou que ele é de uma substância ou essência diferente (do Pai), ou que ele é uma criatura, ou sujeito à mudança ou transformação, todos os que falem assim, são anatematizados pela Igreja Católica e Apostólica.
(Early Christian Doctrines J.N.D. Kelly, Harper and Row, Publishers, 1978, p. 232)
Apesar da aprovação do Imperador, o Credo de Niceia não pôs fim às discussões sobre o conceito cristão de Deus. De facto, o Credo apenas identificou os três elementos da Fé Cristã: Deus, Jesus (o Seu Mensageiro) e o Espírito Santo. As questões mais difíceis sobre a definição das três componentes e a forma como interagem ficaram reservadas para credos posteriores e as discussões continuam até hoje.
A perspectiva Bahá’í sobre esta questão começa por apresentar uma visão mais ampla sobre a própria religião. As Escrituras Bahá’ís salientam que a religião é, inevitavelmente, alterada quando os seres humanos tentam modifica-la e adaptá-la ao seu próprio gosto.
No início todas as grandes religiões eram puras; mas os sacerdotes, dominando as mentes das pessoas, encheram-nas com dogmas e superstições, de modo que a religião gradualmente se tornou corrupta ('Abdu’l-Bahá, 'Abdu’l-Baha in London, p. 125)Vamos ver como é que este processo pode ocorrer, até àqueles que têm as melhores intenções.
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Texto Original: Re-examining the Trinity (bahaiteachings.org)
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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.
sábado, 22 de março de 2014
A Revelação Progressiva e as Religiões "Estranhas"
Por Tom Tai-Seale.
Somente uma sociedade construída sobre verdades espirituais profundas tem alguma possibilidade de resistir ao teste do tempo. Podemos construir essa sociedade se cada um de nós - independentemente das nossas origens religiosas, independentemente da grandeza das nossas convicções - fizer uma pausa para investigar os fundamentos da sua fé religiosa, à luz das novas informações sobre religião, que nos permitem a vivência numa sociedade global. Devemos ousar perguntar a nós próprios, que parte da nossa religião é essencial e que parte pode ser descartada? Em termos bíblicos, devemos determinar a diferença entre o trigo e o joio.
Claro que os Bahá’ís não acreditam que se possa fazer isso sem ajuda. Vamos precisar de uma validação divina. No entanto, podemos e devemos reconhecer a natureza do nosso dilema religioso: no meio de infindáveis e diferentes declarações intra-religiosas e inter-religiosas, o essencial deve ser verdade, e a verdade é só uma.
O primeiro passo na busca dessa verdade passa pelo questionar das nossas fontes de informação.
Pense, num minuto, nos seus conhecimentos sobre religião, sobre os seus sentimentos gerais em relação às várias religiões mundiais. Você considera algumas religiões como familiares e outras como estranhas? Muita gente pensa assim; então, comecemos por aí.
Aprendemos que as religiões são "estranhas" através de má informação. Geralmente isso começa quando aceitamos uma verdade parcial ou um exagero como uma verdade plena. Considere-se algumas desses falsos conhecimentos: os Hindus são politeístas; os Budistas não têm Deus; os Zoroastrianos têm dois deuses; os Judeus afastaram-se de Deus; os Cristãos acreditam que apenas eles serão salvos; os Muçulmanos espalham a sua religião pela espada... Na verdade, tudo o que muitas pessoas sabem sobre as outras religiões são falsos aforismos como estes. Usando esses entendimentos desajustados, muitos adeptos religiosos, fazem esforços consideráveis a menosprezar pessoas de outras religiões. Os ensinamentos Bahá’ís refutam completamente essa ideia. Bahá'u'lláh escreve:
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Texto Original: Progressive Revelation and “Foreign” Faiths
Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A & M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press
Fanatismo e adesão dogmática às velhas crenças tornaram-se a fonte central de animosidade entre os homens, o obstáculo ao progresso humano, a causa da guerra e conflito, o destruidor da paz, da serenidade e bem-estar no mundo. ('Abdu'l-Bahá, Promulgation of Universal Peace, p. 439).Para cada um de nós nesta extraordinária nova era na história da humanidade, o nosso dever mais sagrado significa examinar as nossas convicções religiosas. Como 'Abdu'l-Bahá sugere acima, o conflito religioso não é apenas o mais profundo inimigo da humanidade; a construção de uma estrutura de sociedade que nos inclua a todos também exige nos libertemos desse conflito.
Somente uma sociedade construída sobre verdades espirituais profundas tem alguma possibilidade de resistir ao teste do tempo. Podemos construir essa sociedade se cada um de nós - independentemente das nossas origens religiosas, independentemente da grandeza das nossas convicções - fizer uma pausa para investigar os fundamentos da sua fé religiosa, à luz das novas informações sobre religião, que nos permitem a vivência numa sociedade global. Devemos ousar perguntar a nós próprios, que parte da nossa religião é essencial e que parte pode ser descartada? Em termos bíblicos, devemos determinar a diferença entre o trigo e o joio.
Claro que os Bahá’ís não acreditam que se possa fazer isso sem ajuda. Vamos precisar de uma validação divina. No entanto, podemos e devemos reconhecer a natureza do nosso dilema religioso: no meio de infindáveis e diferentes declarações intra-religiosas e inter-religiosas, o essencial deve ser verdade, e a verdade é só uma.
O primeiro passo na busca dessa verdade passa pelo questionar das nossas fontes de informação.
Pense, num minuto, nos seus conhecimentos sobre religião, sobre os seus sentimentos gerais em relação às várias religiões mundiais. Você considera algumas religiões como familiares e outras como estranhas? Muita gente pensa assim; então, comecemos por aí.
Aprendemos que as religiões são "estranhas" através de má informação. Geralmente isso começa quando aceitamos uma verdade parcial ou um exagero como uma verdade plena. Considere-se algumas desses falsos conhecimentos: os Hindus são politeístas; os Budistas não têm Deus; os Zoroastrianos têm dois deuses; os Judeus afastaram-se de Deus; os Cristãos acreditam que apenas eles serão salvos; os Muçulmanos espalham a sua religião pela espada... Na verdade, tudo o que muitas pessoas sabem sobre as outras religiões são falsos aforismos como estes. Usando esses entendimentos desajustados, muitos adeptos religiosos, fazem esforços consideráveis a menosprezar pessoas de outras religiões. Os ensinamentos Bahá’ís refutam completamente essa ideia. Bahá'u'lláh escreve:
Que às diversas comunhões da terra, e aos múltiplos sistemas de crença religiosa, nunca seja permitido promover o sentimento de animosidade entre os homens, é, neste Dia, a essência da fé de Deus e da Sua religião. (Epístola ao Filho do Lobo, parag. 17).De facto, os Bahá’ís tentam combater e eliminar os desentendimentos e preconceitos religiosos a que as pessoas se agarram. Bahá'u'lláh aconselha:
Preparai-vos os vossos esforços, ó povo de Bahá, para que, porventura, o turbilhão da contenda e conflito religioso que agita os povos da terra possa ser imobilizado, para que todos os seus vestígios possam ser completamente eliminados. Por amor a Deus, e aos que O servem, levantai-vos ajudar esta sublime e monumental Revelação. O fanatismo e o ódio religioso são um fogo que devora o mundo, e cuja violência ninguém pode extinguir. A Mão do poder divino pode, só por si, livrar a humanidade desta aflição desoladora. (Epístola ao Filho do Lobo, parag. 18)Bahá'u'lláh aconselha os Bahá’ís: "Associai-vos com os seguidores de todas as religiões, num espírito de amizade e fraternidade". E Bahá’ís acreditam firmemente que:
... a verdade religiosa não é absoluta, mas relativa, que a Revelação Divina é um processo contínuo e progressivo, que todas as grandes religiões do mundo têm origem divina, que os seus princípios elementares estão em completa harmonia, que os seus objectivos e propósitos são o mesmo, que os seus ensinamentos são apenas facetas de uma verdade, que as suas funções são complementares, que diferem apenas em aspectos não-essenciais das suas doutrinas, e que as suas missões representam sucessivas etapas na evolução espiritual da sociedade humana. (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, p. v.)
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Texto Original: Progressive Revelation and “Foreign” Faiths
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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A & M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press
domingo, 23 de fevereiro de 2014
A religião provoca conflito?
Por Tom Tai-Seale.
A humanidade tem-se envolvido em guerras por causa da religião; pelo menos é isso, que dizem os livros de história.
Mas raramente o conflito "religioso" resulta apenas da religião. Se assim fosse, então o palco apropriado para a resolução seria a comparação, discussão e interpretação das escrituras. Definitivamente não é isto que acontece.
A religião tornou-se como uma luz que só é vista através de muitos candeeiros coloridos. Apesar dos candeeiros poderem ser bonitos, estes, inevitavelmente, vão colorir a luz com as especificidades da nossa interpretação. Por isso, quando nos deparamos com outras religiões, sentimo-las como diferentes da nossa, porque aquilo que primeiramente vemos é o candeeiro - e não a luz que o anima. Em vez de ver um povo que respondeu a uma luz evidente, da mesma forma que nós teríamos respondido à luz - se estivéssemos no seu lugar no espaço e no tempo - vemos uma religião diferente e questionamo-nos como subvertê-la. Os Bahá’ís acreditam na origem de todas as verdadeiras religiões há uma luz comum e que na unicidade desta luz os povos podem encontrar paz e concórdia:
Mas explorar a fé não é fácil num mundo que evolui rapidamente, impulsionado por uma explosão de tecnologia, comunicação social, viagens e informações - facto que está longe de ser acidental e que os Bahá’ís salientarão ter tido início em meados do século 19. Fomos lançados numa época em que as nossas próprias identidades foram desafiadas. A maioria dos nossos problemas devem-se ao facto de que não conseguirmos perceber as grandes mudanças desta era.
Apenas nas últimas décadas, a explosão da informação e as viagens fez todos nós cidadãos do mundo. O mundo inteiro tornou-se o nosso assunto - e isso inclui todas as suas religiões. A religião é transmitida formal ou informalmente. Antigamente, éramos educados numa única religião. Nestes dias, porém, a comunicação social traz todas as religiões para as nossas salas de estar. É claro que a qualidade da informação que recebemos é tão boa quanto a fonte - e os operadores dos meios de comunicação não podem ser considerados universalmente honestos. Mas, através da educação formal e informal, somos levados a conhecer todas as fés. Isso nunca aconteceu antes.
Assim, pela primeira vez, temos não só a capacidade, mas também o dever - como cidadãos do mundo - de comparar a religião na nossa investigação da verdade. Se falharmos, ou fizermos um mau trabalho, a nossa própria paz e segurança também irá sofrer. Porquê? Porque já não somos pessoas isoladas. Somos um só povo, embora tenhamos sido lentos a reconhecer isso. Nós somos o mundo, e, consequentemente, as suas religiões. Para estar à altura das exigências da nossa nova era, devemos avaliar de forma honesta as religiões com quem contactamos, e isso inclui nossa própria religião tradicional.
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Texto Original: Does Religion Cause Conflict? (bahaiteachings.org)
Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press
A humanidade tem-se envolvido em guerras por causa da religião; pelo menos é isso, que dizem os livros de história.
Mas raramente o conflito "religioso" resulta apenas da religião. Se assim fosse, então o palco apropriado para a resolução seria a comparação, discussão e interpretação das escrituras. Definitivamente não é isto que acontece.
A religião tornou-se como uma luz que só é vista através de muitos candeeiros coloridos. Apesar dos candeeiros poderem ser bonitos, estes, inevitavelmente, vão colorir a luz com as especificidades da nossa interpretação. Por isso, quando nos deparamos com outras religiões, sentimo-las como diferentes da nossa, porque aquilo que primeiramente vemos é o candeeiro - e não a luz que o anima. Em vez de ver um povo que respondeu a uma luz evidente, da mesma forma que nós teríamos respondido à luz - se estivéssemos no seu lugar no espaço e no tempo - vemos uma religião diferente e questionamo-nos como subvertê-la. Os Bahá’ís acreditam na origem de todas as verdadeiras religiões há uma luz comum e que na unicidade desta luz os povos podem encontrar paz e concórdia:
As fundações de todas as religiões divinas são a paz e a concórdia, mas têm-se desenvolvido desentendimentos e ignorância. Se estes desaparecerem, vereis que todos os agentes religiosos trabalharão pela paz e promulgação da unidade da humanidade. Pois a base de toda é a realidade; e a realidade não é múltipla ou divisível. ('Abdu'l-Bahá, Promulgation of Universal Peace, p. 122)Os grandes académicos religiosos do nosso tempo compreendem este princípio. Joseph Campbell escreve depois de concluir o conjunto de quatro volumes intitulado The Masks of God (As Máscaras de Deus):
Hoje, olhando para trás para os doze anos maravilhosos que passei nesse empreendimento recompensador, percebo que o seu principal resultado para mim foi a confirmação de um conceito que há muito tempo nutria fielmente: da unidade da raça do homem, não apenas na sua biologia, mas também na sua história espiritual, que em todos os lugares se revelou como se fosse uma sinfonia única, com os seus temas anunciados, desenvolvidos, amplificados e transformados, distorcidos, reafirmados, e hoje, como um grande fortissimo de todas as seções soando juntas, avança irresistivelmente para algum tipo de clímax poderoso, do qual emergirá o próximo grande movimento.De alguma forma todos os que já tiveram um momento para olhar de forma séria os diferentes candeeiros de qualquer religião revelada devem admitir que ali existe uma beleza. E onde há um belo candeeiro, deve haver uma bela luz para iluminá-lo. Como diz o Novo Testamento, um bom fruto só pode vir de uma boa árvore. Este reconhecimento da beleza das religiões, até mesmo da sua expressão externa, tornou-se muito importante. Pode, pelo menos, permitir-nos a conviver com outros grupos religiosos, enquanto fazemos investigações mais sérias sobre os fundamentos da fé.
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| A sétima cruzada contra Jerusalem, por Francisco Hayez |
Apenas nas últimas décadas, a explosão da informação e as viagens fez todos nós cidadãos do mundo. O mundo inteiro tornou-se o nosso assunto - e isso inclui todas as suas religiões. A religião é transmitida formal ou informalmente. Antigamente, éramos educados numa única religião. Nestes dias, porém, a comunicação social traz todas as religiões para as nossas salas de estar. É claro que a qualidade da informação que recebemos é tão boa quanto a fonte - e os operadores dos meios de comunicação não podem ser considerados universalmente honestos. Mas, através da educação formal e informal, somos levados a conhecer todas as fés. Isso nunca aconteceu antes.
Assim, pela primeira vez, temos não só a capacidade, mas também o dever - como cidadãos do mundo - de comparar a religião na nossa investigação da verdade. Se falharmos, ou fizermos um mau trabalho, a nossa própria paz e segurança também irá sofrer. Porquê? Porque já não somos pessoas isoladas. Somos um só povo, embora tenhamos sido lentos a reconhecer isso. Nós somos o mundo, e, consequentemente, as suas religiões. Para estar à altura das exigências da nossa nova era, devemos avaliar de forma honesta as religiões com quem contactamos, e isso inclui nossa própria religião tradicional.
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Texto Original: Does Religion Cause Conflict? (bahaiteachings.org)
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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press
sábado, 25 de janeiro de 2014
Reconciliar as Religiões
Por Tom Tai-Seale.
Vivemos numa época notável. A fotografia, tirada no espaço, do nosso belo planeta azul brilhante seguindo o seu rumo silencioso no vazio insondável prova que vivemos numa época notável. Quando olhamos para esta fotografia incrível, celebramos todas as invenções que a tornaram possível: a máquina fotográfica, o filme, os foguetões e os sistemas de gestão que se ousaram levar o ser humano ao espaço. Celebramos também a natureza evolutiva da nossa tecnologia e o seu ritmo incrivelmente rápido.
Paradoxalmente, podemos ter chegado ao espaço com nossas máquinas fotográficas a tempo de assistir à nossa auto-destruição. O nosso planeta, apesar da sua aparente unidade física, está profundamente dividido do ponto de vista social. Somos um mundo de pessoas desesperadamente agarradas às nossas identidades como membros de diferentes raças, nações, classes, sistemas económicos e religiões e trazendo para os nossos conflitos contínuos novas armas de cada vez maiores dimensões infernais. O progresso da ciência manteve com o nosso apetite por armas - mas não acompanhou o nosso progresso como pessoas. Continuamos apegados a rótulos que subvertem as nossas maiores aspirações humanas. Apesar de quase todas as pessoas acreditarem que os seres humanos, na sua essência, devem ser considerados como criaturas com alma - povo de Deus - essa afirmação entra em forte contradição com as nossas acções. Devemos reconhecer que temos sido incapazes de traduzir o nosso encontro com o Transcendente numa qualquer ordem social capaz de incluir toda a gente. Assim, os conflitos continuam e aprofundam-se.
Considerando os perigos dos nossos tempos, aceitar o conceito de que todas as pessoas são, na sua essência, o mesmo, é um acto religioso. Para os Bahá'ís, este acto de consciência constitui a base da fé de Deus para o nosso tempo e pode ser resumida frase muito conhecida de Bahá'u'lláh, o profeta e fundador da Fé Bahá'í:
Os ensinamentos Bahá'ís dizem "a religião é a expressão exterior da realidade divina"; como a realidade divina é apenas uma, os Bahá'ís acreditam que existe apenas uma religião essencial - e que as diferenças religiosas no mundo devem ser reconciliadas.
Os Bahá’ís aceitam que existem diferenças de religião. Bahá'u'lláh menciona as "diversas comunhões da terra e os múltiplos sistemas de crença religiosa". Mas é a inspiração de todas as religiões que os Bahá’ís afirmam ser única. Bahá'u'lláh escreve:
Curiosamente no entanto, se olharmos de perto para qualquer "conflito religioso", acabamos por perceber que há muito pouco da verdadeira religião envolvida no conflito. Em vez disso, conflitos pessoais, sociais ou culturais envolvem a religião, na tentativa de justificar a contenda. Os conflitos na maioria das vezes representam uma falha da religião - uma incapacidade das pessoas para investigar em conjunto a realidade única da verdade. Os conflitos surgem quando abandonamos a fé e procuramos armas nas cavernas das nossas velhas tradições e dogmas.
Nos próximos textos vamos ver como surgiu essa tendência, o que cada um pode fazer sobre isso, e como os ensinamentos Bahá’ís propõem abordar o problema com um remédio global, reconciliando as religiões numa fé unificada.
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Texto Original: Reconciling the Religions (bahaiteachings.org)
Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A & M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press
Vivemos numa época notável. A fotografia, tirada no espaço, do nosso belo planeta azul brilhante seguindo o seu rumo silencioso no vazio insondável prova que vivemos numa época notável. Quando olhamos para esta fotografia incrível, celebramos todas as invenções que a tornaram possível: a máquina fotográfica, o filme, os foguetões e os sistemas de gestão que se ousaram levar o ser humano ao espaço. Celebramos também a natureza evolutiva da nossa tecnologia e o seu ritmo incrivelmente rápido.
Paradoxalmente, podemos ter chegado ao espaço com nossas máquinas fotográficas a tempo de assistir à nossa auto-destruição. O nosso planeta, apesar da sua aparente unidade física, está profundamente dividido do ponto de vista social. Somos um mundo de pessoas desesperadamente agarradas às nossas identidades como membros de diferentes raças, nações, classes, sistemas económicos e religiões e trazendo para os nossos conflitos contínuos novas armas de cada vez maiores dimensões infernais. O progresso da ciência manteve com o nosso apetite por armas - mas não acompanhou o nosso progresso como pessoas. Continuamos apegados a rótulos que subvertem as nossas maiores aspirações humanas. Apesar de quase todas as pessoas acreditarem que os seres humanos, na sua essência, devem ser considerados como criaturas com alma - povo de Deus - essa afirmação entra em forte contradição com as nossas acções. Devemos reconhecer que temos sido incapazes de traduzir o nosso encontro com o Transcendente numa qualquer ordem social capaz de incluir toda a gente. Assim, os conflitos continuam e aprofundam-se.
Considerando os perigos dos nossos tempos, aceitar o conceito de que todas as pessoas são, na sua essência, o mesmo, é um acto religioso. Para os Bahá'ís, este acto de consciência constitui a base da fé de Deus para o nosso tempo e pode ser resumida frase muito conhecida de Bahá'u'lláh, o profeta e fundador da Fé Bahá'í:
A Terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos... Não vos considereis uns aos outros como estranhos. Sois os frutos de uma só árvore e as folhas do mesmo ramo. (Tablets of Baha’u’llah, p. 163).As crenças da Fé Bahá'í centram-se em torno dos princípios de um Deus único, uma só humanidade e uma fé. Se existe um único Deus e se a humanidade é, em essência, uma única, então depreende-se que deve haver apenas uma realidade divina que liga os dois. Essa realidade deve ser a forma verdadeira, ou essencial, da religião.
Os ensinamentos Bahá'ís dizem "a religião é a expressão exterior da realidade divina"; como a realidade divina é apenas uma, os Bahá'ís acreditam que existe apenas uma religião essencial - e que as diferenças religiosas no mundo devem ser reconciliadas.
Os Bahá’ís aceitam que existem diferenças de religião. Bahá'u'lláh menciona as "diversas comunhões da terra e os múltiplos sistemas de crença religiosa". Mas é a inspiração de todas as religiões que os Bahá’ís afirmam ser única. Bahá'u'lláh escreve:
Não pode haver dúvida alguma de que os povos do mundo, de qualquer raça ou religião, derivam a sua inspiração de uma só Fonte Celestial e são súbditos de um só Deus. (SEB, CXI)Sem dúvida que religião é a fonte de profundos conflitos entre os povos. Por esse motivo, muitas pessoas religiosas de ambos os lados de um conflito acreditam apaixonadamente serem os únicos detentores da verdade; e abandonar essa defesa da verdade levaria a uma descida pessoal e colectiva ao inferno, pois pensam que Deus pretende que mantenham as suas convicções.
Curiosamente no entanto, se olharmos de perto para qualquer "conflito religioso", acabamos por perceber que há muito pouco da verdadeira religião envolvida no conflito. Em vez disso, conflitos pessoais, sociais ou culturais envolvem a religião, na tentativa de justificar a contenda. Os conflitos na maioria das vezes representam uma falha da religião - uma incapacidade das pessoas para investigar em conjunto a realidade única da verdade. Os conflitos surgem quando abandonamos a fé e procuramos armas nas cavernas das nossas velhas tradições e dogmas.
Nos próximos textos vamos ver como surgiu essa tendência, o que cada um pode fazer sobre isso, e como os ensinamentos Bahá’ís propõem abordar o problema com um remédio global, reconciliando as religiões numa fé unificada.
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Texto Original: Reconciling the Religions (bahaiteachings.org)
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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A & M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press
sábado, 6 de julho de 2013
A historicidade da Religião
A abordagem histórica à compreensão da religiosidade humana, suas origens e funções, há muito que foi aceite no estudo académico da religião (incluindo no estudo do Cristianismo), mas nem sempre foi assumido como ponto de partida para a construção teológica Cristã. Quero sugerir, agora, que a auto-compreeensão teológica baseada na consciência histórica moderna pode proporcionar uma interpretação da fé Cristã que - sem destruir ou minar o significado central dos símbolos de Deus e Cristo na orientação da vida – permitirá aos Cristãos atribuir às outras religiões toda a sua integridade e significado, não as tratando de forma paternalista, nem as diminuindo.
Religious Diversity, Historical Consciousness and Christian Theology in The Myth of Christian Uniqueness, p. 8
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