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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Compreender a vida e o mundo


Ao longo da história, homens e mulheres desenvolveram muitas e diversificadas visões do mundo, concepções muito diferentes do que significa a vida no mundo, sobre quais são os problemas humanos fundamentais, e como podemos solucionar esses problemas. Cada grande civilização, e mesmo cada tribo, desenvolveu um ou mais modelos (ou imagens) conceptuais para compreender, interpretar e orientar a vida humana; e os seres humanos moldaram (e readaptaram) as suas vidas, instituições, valores e práticas de acordo com essas várias visões da realidade e dos humanos. É das visões primordiais deste tipo que nasceram as diferentes tradições religiosas. Nas suas práticas, instituições e rituais religiosos, os humanos descobriram orientação para a vida, encontraram uma interpretação sobre o significado da existência humana e a forma como deve ser vivida. Ou podemos dizer ainda, que foi a sua busca por orientação na vida, a sua tentativa de alcançar um entendimento sobre a existência humana e a forma como deve ser vivida, que os humanos criaram e desenvolveram as várias tradições religiosas, dando assim vida aos diversos significados que hoje temos.

Religious Diversity, Historical Consciousness and Christian Theology in The Myth of Christian Uniqueness, p. 7

sábado, 8 de junho de 2013

Bases para uma Cristologia Bahá'í

O texto que se segue é uma tradução do post A Basic Bahá’í Christology, de Hankownings, publicado no blog A Rational Faith. O conteúdo do texto servirá certamente de base a muitas conversas e debates. 
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Compreender a pessoa de Jesus Cristo e o seu significado Divino é importante não só para a sua posição teológica na Fé Bahá'í, mas também porque a linguagem usada para ligar o aspecto humano de Cristo com o Seu aspecto Divino tem implicações sociais. Por exemplo, tal como escrevi num post anterior, a masculinidade de Cristo é considerada como parte da sua "identidade essencial" na doutrina Católica, na medida em é usada para negar às mulheres o acesso ao sacerdócio. Outro exemplo: James Cone afirma que "Jesus é negro" na análise dos relatos dos Evangelhos, que descrevem que Jesus e Deus estão do lado dos oprimidos, notando que Jesus pertencia a uma minoria judaica na Palestina romana e que subverteu os valores culturais judaicos e romanos.

A fim de chegar a uma cristologia social básica, precisamos de examinar a linguagem usada para descrever e explicar Cristo nas Escrituras Bahá'ís. Excluindo-se as muitas passagens em que "Cristo" é uma metonímia para o Cristianismo, as que lidam com o significado teológico da sua divindade e da sua morte (que eu abordei noutras ocasiões), e as que simplesmente o citam como orador, as seguintes passagens revelam algo sobre a natureza e pessoa de Cristo. Nota: de maneira nenhuma isto é uma lista exaustiva, especialmente porque 'Abdu'l-Bahá fez centenas de referências a Cristo.

Nas Escrituras do Báb:

  • Cristo encarna "O Verbo", é o filho de Maria, não é um "terceiro de três", e não é, em essência, igual a Deus (Qayyúmu'l-Asmá)

Nas Escrituras de Bahá'u'lláh:
  • "Aquele que ajudámos com o Espírito Santo" (Proclamação de Bahá'u'lláh)
  • "O Espírito de Deus" [Também um nome de Cristo usado no Alcorão] (Proclamação de Bahá'u'lláh)
  • "Filho de Maria", "O Filho", "Manifestante do Todo-Misericordioso", "Quinta-essência da Fé " (Chamamento do Senhor dos Exércitos)
  • "Posteriormente, com a aprovação de Annas, o mais erudito dos teólogos do seu tempo, e Caifás, o sumo-sacerdote, a Sua bendita pessoa sofreu o que a pena tem vergonha de mencionar e é incapaz de descrever. O mundo inteiro com toda a sua imensidão já não conseguia mantê-lo, até que finalmente Deus o elevou ao céu." (Chamamento do Senhor dos Exércitos)
  • Era aguardado ansiosamente pelos judeus, mas foi rejeitado pelos seus sábios (Selecções, XXXV)
  • "Aquele com quem os doutores judeus discutiram" (Epístola ao Filho do Lobo)
  • "Aquele que não casou" (Epístola ao Filho do Lobo)
  • "Sua santidade" (Epístola ao Filho do Lobo)
  • Foi-lhe negado um lugar de descanso; resistiu (Epístola ao Filho do Lobo)
  • "Veio com soberania e poder" (Chamamento do Senhor dos Exércitos)
  • "A fragrância da Sua vinda foi libertada sobre eles e a Sua beleza foi revelada" (Chamamento do Senhor dos Exércitos)
  • "Foi sacrificado como redenção pelos pecados e iniquidades de todos os povos da terra" - o que Cristo quis e pediu (Selecções, XXXII)
  • "Infundiu toda a criação com uma nova capacidade", "derramou o esplendor da Sua glória sobre todas as coisas criadas" (Selecções, XXXVI).
  • Realizou os milagres de conduzir os descrentes à fé (Selecções, XXXVI)
  • Rejeitado pelos dirigentes judeus, sofreu, manteve a sua posição em "paz", exteriormente parecia fraco, interiormente estava cheio de Poder Divino - um verdadeiro "Rei" - enfrentou esses terríveis "inimigos" que levaram à sua morte (Kitab-i-Íqán)
  • Era capaz de "perceber pensamentos," podia "perdoar os pecados" (Kitab-I-Íqán)
  • Podemos deduzir através das várias referências que Bahá'u'lláh aprovava o Evangelho de João; o Kitab-i-Íqán também afirma a validade espiritual da narrativa cristã.

Nas Escrituras de 'Abdu'l-Bahá:
  • Cumpriu espiritualmente as profecias judaicas; é um cumprimento não literal (Respostas a Algumas Perguntas)
  • Agiu de formas que os Papas não reflectiram (Promulgação da Paz Universal)
  • O Alcorão relata o nascimento de Cristo, e confirma a infância (Promulgação da Paz Universal)
  • Afirmou Moisés como um Profeta; ressuscitou espiritualmente; confirmam-se relatos básicos do evangelho (Promulgação da Paz Universal)
  • Reflectia Deus; representava o Poder Espiritual (Promulgação da Paz Universal, Respostas a Algumas Perguntas)
  • Promotor da Unidade (Promulgação da Paz Universal)
  • As diferentes visões teológicas cristãs devem-se à ausência de sucessor designado (Promulgação da Paz Universal)
  • "A realidade de Cristo é ilimitada" (Promulgação da Paz Universal)
  • A linguagem trinitária é simbólica; não é literalmente expressiva do ser de Deus (Respostas a Algumas Perguntas)

Nos escritos de Shoghi Effendi:
  • Não nomeou um sucessor ou intérprete infalível (Ordem Mundial de Bahá'u'lláh)
  • A mensagem de Cristo focava-se na redenção individual, não necessariamente na Unidade Mundial (Ordem Mundial de Bahá'u'lláh)
  • Os Bahá'ís amam Cristo; mas Cristo, conforme revelado nas igrejas cristãs, está coberto por tradições religiosas e não inteiramente autêntico quanto à verdadeira natureza de Cristo (Light of Divine Guidance)
  • O nascimento Virginal é afirmado como milagroso, mas isso ainda é diferente do que a ciência considera um "nascimento virginal" (High Endeavors, 87)
  • A Alma de Cristo é pré-existente (High Endeavors)
  • A vida de Cristo assemelha-se à vida do Báb (Presença de Deus)
  • "Os discípulos de Cristo" (presumivelmente imitando Cristo) abandonaram todos os bens terrenos e, na pobreza, viajaram pelo mundo proclamando Cristo e a Sua mensagem (Bahá'í Administration)
  • "A Filiação e Divindade de Jesus Cristo são destemidamente afirmadas, a inspiração divina do Evangelho é plenamente reconhecida, a realidade do mistério da Imaculada da Virgem Maria é confessado, e a primazia de Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, é mantida e defendida." (O Dia Prometido Chegou)
  • A Bíblia não é literalmente histórica; está subordinada ao Alcorão e às Escrituras Bahá’ís (Directives from the Guardian)

Assim, pode-se afirmar que, para os Bahá’ís, o relato do Evangelho reflecte Jesus tal como entendido no contexto da Revelação Bahá'í - que também aceita o Alcorão. Então, o que é que revela sobre a nossa compreensão de Cristo e da Revelação que nos separa do Cristianismo contemporâneo? Embora existam diferenças teológicas óbvias, aqui estou principalmente preocupado com as implicações sociais.

Primeiro, afirmo que a revelação Bahá'í pode interpretar-se a si própria - e com isso pretendo dizer que podemos usar conceitos em certas passagens para interpretar outras passagens. Uma vez que a Fé proclama uma genuína igualdade social, além de igualdade ontológica entre todos os seres humanos, independentemente da sua identidade ('Abdu'l-Bahá: Philadelphia Talk, 9 de junho de 1912), podemos afirmar que a cristologia Bahá'í não faz da masculinidade de Cristo a parte essencial de seu ser "Cristo". Penso que isto está ainda mais patente em diversos autores Bahá'ís que usam apenas os títulos masculinos "Filho" e "Filho de Maria" para se referir à sua humanidade na sua essência e ao seu género na circunstância. Por outro lado, a Fé não condiciona a posição do Manifestante ao sexo masculino; apesar de todos os Manifestantes conhecidos até hoje terem sido homens, isso não limita necessariamente todos os futuros Manifestantes a serem do sexo masculino, e Deus tem capacidade para nomear uma mulher como Manifestante (Bahá'u'lláh, Súriy-i-Vafa). Por estes motivos, não acho que seja possível fazer declarações ou apoiar argumentos teológicos de discriminação de género baseadas na figura de Cristo.

Em termos de raça, Jesus é reconhecido como um Judeu, mas em oposição à elite judaica e aparentemente sem poder. Ele é, portanto, uma minoria face à cultura dominante dos romanos, assim como uma minoria dentro de sua própria cultura judaica. Apesar disso, somos informados de que, como um reflexo do poder de Deus e da "Quinta-essência de Fé", ele tem pleno poder espiritual. Creio que isto subscreve pelo menos uma afirmação fundamental da teologia da libertação de Cone, de que Deus, em Cristo - na perspectiva Bahá'í - parece ser um Deus que favorece os pobres, os fracos e os oprimidos.

Além da Cristologia de género e racial, a principal representação de Cristo é aquele que subscreve a unidade. Ele é uma personalidade sagrada que morre tanto para redenção individual como para a união das pessoas. Apesar de Shoghi Effendi esclarecer que a mensagem de Cristo não inclui um imperativo da Unidade Mundial - tal como a mensagem Bahá'í - 'Abdu'l-Bahá ainda afirma que a mensagem de Cristo transcendeu o contexto e uniu com linhas religiosas os povos europeus culturalmente distintos. Obviamente, esta não era uma unidade completa ou permanente, pois tanto cismas religiosos como separações políticas dividiram a Europa várias vezes; mas chegou a um ponto onde todas as potências europeias professavam Cristo e as virtudes cristãos eram padrão de vida. Neste sentido, a cristologia Bahá'í ignora a identidade específica de Cristo e foca-se nas qualidades da sua personalidade que levam à unidade - qualidades que os Bahá’ís acreditam que ambos os sexos e todas as raças devem cultivar como a paz, misericórdia e compaixão. É neste quadro que os Bahá’ís vêem Jesus Cristo, no Novo Testamento e no Alcorão.

Assim, o Cristo Bahá'í - pelo menos do meu ponto de vista limitado - serve melhor como um ponto de partida para debates sobre Teologia Feminista e Teologia da Libertação do que o Cristo tradicional do Cristianismo, na medida em que temos acesso directo a um Cristo livre de limitações contextuais de género ou raça, e também porque - como Shoghi Effendi reconhece - não contem um Cristo enterrado sob a tradição cristã.

No entanto, não creio que tudo isto represente uma análise completa ou adequada de uma "Cristologia" Bahá'í, mas servirá como uma introdução geral ao debate e representa uma lista que poderei usar em posts futuros. Além disso, acho que a Fé Bahá'í fica mais beneficiada por uma "Teologia da Manifestação" - uma espécie de Cristologia comparativa que analisa não apenas Jesus, mas também Maomé, Bahá'u'lláh, Moisés, e os outros. O Kitab-i-Íqán fornece um exemplo básico disso. No Cristianismo, a Cristologia serve não só para articular a crença propriamente dita, mas também explicar Deus a uma audiência humana - o que na Fé Bahá'í se realiza melhor através dos Manifestantes, sem um foco exclusivo num deles. Enquanto o Cristianismo se concentra exclusivamente sobre a figura de Cristo, os Bahá'ís têm nove Manifestantes cujas vidas e contexto social fornecem as bases para formulações teológicas.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Viver com a diferença, reconsiderar pressupostos


Como podem pessoas e comunidades com concepções radicalmente diferentes sobre o mundo e a vida humana, e visões muito diversificadas sobre os problemas mais urgentes que enfrentam os seres humanos e a formas mais eficazes de enfrentar esses problemas, chegar a um entendimento e apreciação dos caminhos dos outros seres humanos? Considerando toda a sua diversidade, como podem os seres humanos aprender a viver juntos de forma frutuosa, produtiva e pacífica, no mundo complexamente interligado de hoje, em vez de entrarem ciclicamente em conflito e contenda que pode degenerar num holocausto nuclear que nos destruirá a todos? Estas questões levantam assuntos especiais para os Cristãos devido às pretensões absolutistas sobre a revelação divina e verdade absoluta que frequentemente é considerada como aspecto central da fé; estas pretensões merecem um cuidadoso escrutínio teológico.

Religious Diversity, Historical Consciousness and Christian Theology in The Myth of Christian Uniqueness, p. 3

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Diálogo e linguagem religiosa

Para estabelecer um diálogo é necessário falar a mesma linguagem que o nosso interlocutor. E para uma linguagem ser comum, não basta partilhar de palavras iguais; os significados destas palavras também têm de ser os mesmos.

No caso do diálogo inter-religioso será que temos uma linguagem comum? Em cada religião encontramos conceitos e termos únicos; e também podemos encontrar palavras comuns no vocabulário de diferentes religiões. Mas será que essas palavras comuns significam a mesma coisa?

Será que termos como “revelação”, iluminação”, “pecado”, “inferno” ou “paraíso” têm significados comuns para todos os crentes?

Consideremos as seguintes palavras de Bahá'u'lláh:
Nós, em verdade, viemos por vossa causa e suportamos os infortúnios do mundo para vossa salvação. (Bahá'u'lláh, Epístola Mais Sagrada)
A maioria dos Bahá’ís ao ler esta frase tem um entendimento específico sobre a palavra “salvação” e capta um determinado entendimento desta frase. Mas um Cristão pode entender esta palavra noutro sentido, e fazer uma leitura diferente desta frase. Torna-se claro que as leituras que fazemos dos textos sagrados estão sempre condicionadas pela nossa perspectiva, pelo nosso lugar no universo das religiões.

O problema surge quando recusamos a validade de outras perspectivas, ou insistimos infundadamente na superioridade da nossa perspectiva.

Quando uma confissão (ou um crente) pretende que se usem estes termos apenas com o significado que lhes é familiar e recusam entender ou aceitar outros significados, então que diálogo inter-religioso poderemos ter?

Quando se tenta descrever as outras religiões com a nossa própria linguagem religiosa (em vez de usar as linguagens dessas religiões) que espécie de diálogo estamos a construir?

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O exclusivismo religioso é incompatível com a realidade actual

Especialmente no mundo globalizado dos nossos dias, em que os destinos, não só das nações como também de continentes inteiros, estão profundamente entrelaçados, a aceitação da realidade de outras fés é crucial para a paz e a felicidade humana. Além do mais, devido à comunicação moderna, ao turismo e à economia global, as religiões do mundo mantêm entre si um contacto diário. A era que em uma tradição e fé podia existir num ambiente completamente isolado desapareceu para todo o sempre. Tendo em conta esta nova realidade no nosso mundo, a única alternativa ao pluralismo religioso é um sentimento crescente de divisão e conflito. Por isso, em suma, o exclusivismo representa uma perspectiva incompatível com a realidade.

Dalai Lama, Caminhos da Fé, pag. 154

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Médico Divino

Quando receita um medicamento, um médico qualificado leva em conta a constituição física específica do paciente, a sua idade, o seu estado físico ou a sua predisposição para reacções negativas a certas substâncias, para além de outros factores. Dependendo destas condições, o médico prescreverá o medicamento. Mesmo quando se trata de um mesmo paciente, um médico qualificado terá de levar em conta a reação do doente à dose prescrita, bem como as diferentes composições do medicamento, a fim de que possa ajustar tanto a dose como a composição às diferentes etapas do processo de cura. De igual forma, um mestre espiritual qualificado adapta os seus ensinamentos, mantendo sempre uma profunda sensibilidade face às necessidades específicas de uma determinada situação. Portanto, quando se refere aos ensinamentos de Buda, um budista não pode dizer «este ensinamento é o melhor», como se uma tal avaliação pudesse ser independente do contexto específico.

Este pequeno excerto das palavras de Dalai Lama despertou a minha curiosidade. Para mim, comparar os fundadores das grandes religiões mundiais a Médicos Divinos não é original. É algo recorrente nas Escrituras Bahá’ís. Deixo aqui dois exemplos:

Os Profetas de Deus devem ser vistos como médicos cuja tarefa consiste em promover o bem-estar do mundo e dos seus povos, para que, através do espírito da unidade, possam curar a doença de uma humanidade dividida. A ninguém é dado o direito de questionar as suas palavras ou denegrir a sua conduta, pois eles são os únicos que podem declarar ter compreendido o paciente e diagnosticado correctamente as suas enfermidades. Homem algum, por mais perspicaz que seja a sua percepção, pode esperar jamais alcançar as alturas que a sabedoria e a compreensão do Médico Divino atingiram. Não é de admirar, portanto, que o tratamento prescrito pelo médico neste dia não seja idêntico, àquele anteriormente prescrito. Como poderia ser de outro modo, quando os males que afectam o sofredor necessitam, em cada fase de sua doença, um remédio especial? De igual modo, cada vez que os Profetas de Deus iluminaram o mundo com o brilho esplendoroso do Sol do conhecimento Divino, eles, invariavelmente, convocaram os seus povos a abraçar a luz de Deus através dos meios que melhor satisfizessem as exigências do tempo em que apareceram. Assim eles puderam dissipar as trevas da ignorância e derramar sobre o mundo a glória do Seu próprio conhecimento. É para a mais íntima essência desses Profetas, portanto, que a visão de todo homem de discernimento se deve dirigir, na medida em que o seu único e exclusivo propósito sempre foi guiar os errantes e dar paz aos aflitos... Estes não são dias de prosperidade e triunfo. Toda a humanidade está atacada por múltiplas enfermidades. Esforça-te, pois, para lhe salvar a vida por meio do remédio salutar preparado pela mão omnipotente do infalível Médico.

(Bahá'u'lláh, Selecção dos Escritos de Bahá’u’llah, sec. XXXIV)

A existência do mundo pode ser comparada à vida do homem, e os Profetas e Mensageiros de Deus a médicos competentes. O ser humano não pode permanecer na mesma condição: diferentes enfermidades ocorrem e cada uma tem um remédio especial. O médico hábil não usa o mesmo remédio para todas as doenças e todos os males; ele altera os remédios e medicamentos de acordo com as necessidades das doenças e constituições. Se uma pessoa tiver uma doença grave causada por uma febre, um médico competente dar-lhe-á remédios refrescantes; e quando, noutra ocasião, a condição desta pessoa tiver mudado, e a febre for substituída por um calafrio, sem dúvida que o mesmo médico descartará o remédio refrescante e permitirá o uso de outros, de efeito contrário. Essa mudança na prescrição é exigida pelo estado do paciente, e é uma prova evidente a habilidade do médico.

('Abdu'l-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas, cap 20)

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Supermercado de Religiões

Falo frequentemente de um «supermercado de religiões». Da mesma forma que qualquer supermercado se gaba da qualidade e variedade dos seus produtos alimentares, também o mundo das religiões pode vangloriar-se da sua rica diversidade de ensinamentos. Quanto à razão porque certas pessoas consideram certos ensinamentos religiosos mais apelativos e eficazes que outros, enquanto outras reagem de forma negativa aos mesmos ensinamentos, isso tem a ver (do ponto de vista do Budismo e das religiões clássicas da Índia) com o condicionamento de cada pessoa, incluindo o seu karma. De uma perspectiva teísta, esta é uma questão que depende dos misteriosos desígnios de Deus. De facto, esta é a razão principal por que aconselho as pessoas a manterem-se fiéis à sua fé tradicional.

Dalai Lama, Caminhos da Fé, pag. 160

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Aceitar as diferenças entre as religiões

Dado que acredito profundamente na natureza positiva do potencial humano, defendo a ideia de que uma harmonia entre as grandes religiões do mundo é possível. No entanto, só poderemos alcança-la se promovermos um verdadeiro entendimento entre as religiões. A compreensão mútua deve assentar em fundamentos sólidos que incluem, entre outros factores, um reconhecimento explícito das verdadeiras diferenças entre as fés. Uma abordagem bem-sucedida não pode ocultar as diferenças, promover uma visão vaga de que todas as religiões acabam por ser uma só, nem tentar fundir todos os seus valores positivos numa espécie de fé universal. Pelo contrário, terá de envolver a articulação explícita e a celebração dessas mesmas diferenças, visto que as diferenças entre as religiões representam a beleza da infinita sabedoria de Deus (de um ponto de vista teísta) e a riqueza do espírito humano.

Dalai Lama, Caminhos da Fé, pags. 138-139

sábado, 25 de agosto de 2012

As incertezas da Nostra Aetate

Para o Bispo Pierro Rossano, que durante anos trabalhou na Secretaria do Vaticano para as Religiões Não-Cristãs, o “Vaticano II foi explícito neste ponto” - a salvação atinge, ou pode atingir, os corações dos homens e mulheres através dos sinais visíveis e experienciais das várias religiões”. Para o sempre cauteloso Karl Rahner, porém, a decisão estava em aberto: “O problema essencial para o teólogo foi deixado em aberto [pelo Vaticano II]… A qualidade teológica das religiões não-Cristãs permanece indefinida”. Por outras palavras, os bispos não afirmaram nem negaram que as religiões podem ser autênticas condutas pelas quais o Espírito flui para as vidas dos povos fora da igreja. E talvez o motivo para não terem abordado esta questão tenha sido por decidirem deliberadamente não o fazer. O Vaticano II, desde o início, foi definido pelo Papa João XXIII como pastoral e não doutrinal. Isso significa que queria falar para os povos e não para os teólogos.

Paul F. Knitter, Introducing Theologies of Religions, p. 77

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Dalai Lama: Todos podemos ser pluralistas

A criação de uma genuína harmonia inter-religiosa baseada na compreensão, não depende da aceitação de que todas as religiões são similares, nem de que conduzem ao mesmo ponto. Não obstante, defendo a ideia de que são precisamente os seus diferentes ensinamentos metafísicos que proporcionam, em cada caso, a verdadeira base para um admirável sistema ético enraizado na compaixão. Não tenho a menor dúvida de que um crente sincero pode, com integridade, ser um pluralista em relação às demais religiões, sem negar por isso o seu compromisso com a doutrina da sua própria fé.

Dalai Lama, Caminhos da Fé, pag. 12

sábado, 18 de agosto de 2012

Nostra Aetate

As afirmações da declaração sobre pessoas religiosas fora da igreja foram apresentadas com um pano de fundo da reafirmação daquilo que tem sido ensinado desde o Concílio de Trento: que o amor e a presença salvífica de Deus não se podem encerrar no interior das paredes da igreja. (Na verdade, o Vaticano II foi ainda mais longe e proclamou explicitamente que mesmo os ateístas confessos que seguem a sua consciência estão, verdadeiramente, ainda que inconscientemente, a seguir a voz de Deus, e assim são “salvos” [Constituição Dogmática da Igreja (Lumen Gentium)], 16). Pela primeira vez na história da Igreja, a Declaração sobre as Religiões oferece uma descrição específica de como é que as principais religiões históricas procuram responder a “esses profundos mistérios da condição humana”. Sumariza brevemente as crenças e práticas básicas do Hinduísmo, Budismo e Islão, e faz uma referência positiva a “outras religiões [primazes] que se encontram em toda a parte”. A Declaração reconhece e saúda explicitamente o “sentimento religioso profundo” que anima todas estas tradições. Afirma que os seus ensinamentos e práticas representam os que é “verdadeiro e sagrado” e “reflectem um raio de Verdade que ilumina todos os povos”. E seguidamente a Declaração lança uma “exortação” a todos os Católicos que nunca receberam dos seus pastores: que “prudente e amorosamente”, “dialoguem e colaborem” com outros crentes e assim, “testemunhando a fé e vida Cristã, reconheçam, preservem e promovam os bens espirituais e morais que se encontram entre estas pessoas” (NA, 2)

Paul F. Knitter, Introducing Theologies of Religions, p. 76

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Dalai Lama: Exclusivismo vs. Compaixão

Quando observo o mundo actual, vejo perigosas forças de polarização. Em cada religião há tendências preocupantes que pretendem denegrir as outras fés; há também uma polarização crescente entre os crentes e aqueles que não têm nenhuma religião. Tais atitudes servirão apenas para fomentar a suspeita e desconfianças mútuas. No entanto, creio que aqueles que defendem o exclusivismo partem de fundamentos profundamente errados quanto aos alicerces essenciais em que assenta a espiritualidade religiosa. É um dever de todos os seres humanos que aspirem à perfeição espiritual - não apenas dos líderes das religiões do mundo, mas também de cada indivíduo crente - afirmar o valor fundamental da compaixão que existe tanto no coração da natureza humana como no cerne dos ensinamentos éticos de todas as principais religiões do mundo. Só desta forma podemos desenvolver verdadeiramente o reconhecimento do valor das outras fés, e, a partir desta base, cultivar um respeito genuíno.

Dalai Lama, Caminhos da Fé, pag. 11-12 

sábado, 11 de agosto de 2012

Uma teologia cristã das religiões

Se Rahner foi o primeiro a explorar um caminho para uma nova teologia cristã das religiões, o segundo Concílio do Vaticano (1962-64) apresentou-a. O concílio fica como um marco na história daquilo que a Igreja Cristã disse sobre outras fés e sobre si própria em relação a elas. Nunca antes tinha a Igreja, nas suas declarações oficiais, tratado tão extensivamente sobre as outras religiões; nunca antes tinha dito coisas tão positivas sobre elas; nunca antes tinha apelado a todos os Cristãos a encarar estas religiões de forma séria e a dialogar com elas. Comparada com a visão “Fora da Igreja não há Salvação” – que era o resultado dos séculos V a XVI - o Vaticano II, mais do que um marco, é um desvio na estrada. O próprio Rahner recordou mais tarde que muitos dos bispos do concílio não compreenderam plenamente quão novo e exigente era este caminho. Se o tivessem, talvez se tivessem movido mais devagar.

Paul F. Knitter, Introducing Theologies of Religions, p. 75

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Dalai Lama: Exclusivismo Religioso

A fronteira entre o exclusivismo - o facto de pensarmos que a nossa religião é a única legitima - e o fundamentalismo é perigosamente ténue; a fronteira entre o fundamentalismo e o extremismo é ainda mais ténue. Para todo e qualquer seguidor das principais religiões, chegou o momento de se perguntar: «No mais íntimo de mim, qual é a minha atitude em relação aos seguidores de outros credos?» Nós os crentes, já não podemos permitir-nos o luxo de manter uma atitude que, ainda que tolerante, não afirme um respeito absoluto pelas outras religiões. Depois do 11 de Setembro, a defesa de um fanatismo religioso exclusivista já não é um assunto privado de perspectiva individual, visto que tem o potencial de afetar as vidas de todos.

Dalai Lama, Caminhos da Fé, pag. 9-10

terça-feira, 17 de julho de 2012

Encontro Inter-Religioso na ES Maria Amália


Encontro Inter-Religioso na Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho., Lisboa.
Programa "A Fé dos Homens", transmitido na RTP2, em 16-Julho-2012

terça-feira, 10 de julho de 2012

A teologia das religiões, segundo Rahner

Rahner usou uma analogia para convidar os Cristãos para uma nova forma de abordar pessoas de outras fés. Missionário Cristão, Rahner recomenda que não se deve começar uma conversa sobre o Divino com um Hindu, tal como um professor não deve falar da Austrália com um aluno bávaro da 1ª classe! Este aluno nunca ouviu falar da Austrália; o professor está a começar do zero. Esse provavelmente não é o caso do Hindu, insiste Rahner. Deus tem estado presente e deu-se a conhecer ao Hindu muito antes do missionário chegar. E o missionário deve estar preparado para se surpreender com o que Deus já fez através do Hinduísmo – surpresas que podem ter uma ou duas coisas a ensinar ao missionário. A teologia das religiões, segundo Rahner, apela a um tipo de relacionamento diferente entre o Cristianismo e as outras religiões… Não se trata de as pessoas das outras religiões terem questões para as quais os cristãos têm as respostas. Existem perguntas e respostas de ambos os lados.

Paul F. Knitter, Introducing Theologies of Religions, p. 72

sábado, 30 de junho de 2012

Como é que Deus "salva" ou transforma...?

Será o entendimento Evangélico da salvação apenas através da fé e da graça a única forma de compreender e experimentar como o Divino toca e transforma os humanos? Poderão os Evangélicos impor uma forma particular de experimentar Deus, tal como se encontra na Bíblia, às outras religiões? Por exemplo, poderá a experiência muçulmana de “submissão a Deus”, ou a mensagem de Buda sobre iluminação, ou o sentido Hindu de moksha como unidade total com Brahman, o Derradeiro, ou o sentido chinês de viver na harmonia do ying-yang – poderão estes ser também formas diferentes de experimentar e falar sobre como Algo Mais entra ou emana do ser humano de forma a mudar o individuo e o mundo?

Se existem outras formas pelas quais o Divino “salva” e transforma, outras formas que são importantes não apenas para outros povos mas para toda a humanidade, então o diálogo não é apenas uma “competição sagrada” em que as várias reivindicações do tipo “único e exclusivo” tentam perceber que tem razão. Terá de ser um diálogo em que as religiões terão de se confrontar e corrigir mutuamente; tem de ser um diálogo em que as religiões devem cooperar, em vez de competir. Se Deus se revela e salta através de muitas religiões e não apenas uma, então o diálogo deve permitir que as religiões, ouvindo-se mutuamente, aprendam mais sobre este Deus que é sempre mais do que alguma delas pode alguma vez saber.

Paul F. Knitter, Introducing Theologies of Religions, p. 59

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Jesus é o único Salvador?

Se isto é verdade [Jesus é o único Salvador], e se é apenas com base na Bíblia e na tradição Cristã que os Cristãos sabem que Jesus é o único Salvador, então levanta-se uma outra questão: o que é que os Cristãos fazem quando o seu conhecimento de outras religiões lhes diz que, na verdade, pessoas de outras religiões fazem afirmações sobre os seus fundadores ou mestres que são muito semelhantes àquilo que os Cristãos dizem sobre Jesus? Podem não usar expressões como “Salvador” ou “Filho de Deus” (apesar de alguns o fazerem), mas falam sobre estes indivíduos como meios através dos quais se ouviu a voz de Deus (Muhammad), ou como um mestre através do qual chegaram ao esclarecimento e ao Nirvana (Buda), ou como o Glorioso que os ama e lhes diz o que realmente são (Krishna, Buda Amitaba). Garantidamente, temos de ter mais cuidado a fazer comparações fáceis e a usar o nosso telescópio Cristão para interpretar o universo dos povos de outras religiões. Tal como questiona Raimon Panikkar, se Jesus, Buda, Muhammad e Krishna não são “análogos” (expressam a mesma ideia e visão), não serão “homólogos” (desempenham a mesmo papel ou função)?

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Paul F. Knitter, Introducing Theologies of Religions, p. 58 


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Os Evangélicos face às outras religiões

Parece que os Cristãos Evangélicos têm de observar com mais cuidado para as outras religiões, com um olhar que seja mais directo, menos colorido por aquilo que a Bíblia lhes diz (ou por aquilo que eles pensam que a Bíblia lhes diz). As próprias religiões têm de ser a verdadeira fonte para a teologia das religiões, isto é, para aquilo que eles pensam sobre as religiões. Isto significa que os Cristãos devem pôr de lado a Bíblia quando estudam outras tradições ou falam com outros crentes? Não. Parece que isso seria impossível pois levamos sempre a pessoa que somos e todas as nossas condicionantes para qualquer novo encontro. Mas devemos estar prontos a mudar o que levamos para o encontro à luz daquilo que descobrimos no encontro. E isto parece exigir que os Cristãos estejam prontos a clarificar, corrigir e até, mudar aquilo que sabem da Bíblia à luz daquilo que aprendem com outras religiões. Provavelmente, isto não é uma questão de “corrigir aquilo que a Bíblia diz”, mas de corrigir aquilo que se pensa que a Bíblia diz.

E para resumir esta questão para os Evangélicos: não é necessário que os Cristãos reconheçam que existem duas fontes para qualquer teologia Cristã das religiões - simultaneamente a Bíblia (incluindo a tradição e experiência Cristã) e tudo o que os Cristãos possam aprender ao estudar outras tradições e falar com outros crentes? Cada fonte tem de ser equilibrada pela outra. Ambas têm de entrar numa espécie de diálogo entre si, em que cada lado deve estar disponível para ser clarificado ou corrigido pelo outro. Os Evangélicos insistirão que a Bíblia é sempre primordial para os Cristãos. E têm razão. Mas primordial não significa absoluta

Paul F. Knitter, Introducing Theologies of Religions, p. 57

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Como me posso colocar no lugar do outro?

Estarão eles [os Evangélicos] a ver o que querem ver, ou aquilo que pensam que a Bíblia lhes exige que vejam? Isto levanta a questão espinhosa e batida de como é possível (se é que é possível) colocarmo-nos no lugar de outra pessoa, para ver o mundo tal como ela vê. Usando as imagens utilizadas anteriormente, para ver o universo tal como um Budista o vê, tenho de usar um telescópio Budista. Mas isto significa que para ver aquilo que um Budista vê, tenho de esquecer aquilo que vejo através do meu? Será isto verdadeiramente possível? Conseguirei utilizar o telescópio de outra pessoa? Posso realmente ver o que eles vêem? Não irei sempre compreender o que “vir” através do seu telescópio de acordo com o que estou acostumado a ver através do meu? Ou de forma mais simples: vejo sempre e compreendo outros mundos através do meu próprio ponto de vista. Nunca consigo abandonar totalmente o meu próprio ponto de vista. Não consigo afastar-me do meu corpo Cristão e assumir um novo corpo Budista

Paul F. Knitter, Introducing Theologies of Religions, p. 57