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terça-feira, 27 de junho de 2006

Um livro para atiçar o preconceito anti-baha'i

Um dos mais activos e interessantes blogs que tenho acompanhado é Baha'i Faith in Egypt. É de autoria de um baha’i egípcio e todas as semanas no surpreende com alguma novidade sobre a situação dos baha’is naquele país. A opinião de quem pertence a uma minoria religiosa num país islâmico, e neste momento é testemunha privilegiada de uma batalha judicial pelos direitos civis dessa minoria fazem deste blog uma local de visita obrigatório. Pergunto-me porque é que não há baha'is iranianos com blogs semelhantes…

Num post recente, Bilo, o autor do Baha'i Faith in Egypt, refere a edição de um livro que apela à morte dos Baha'is no Egipto. Este livro acaba de ser publicado e está a ser distribuído às livrarias e quiosques do país.

O livro, intitulado Bahaismo - As suas Crenças e Objectivos Coloniais (104 paginas) é da autoria do Dr. Khaled Abdel-Halim el-Sayouty sob a supervisão do Ministério dos Assuntos Islâmicos e do Conselho Supremo Islâmico. Além da já usual difamação e distorção que estes livros contêm sobre a religião bahá'í e os seus seguidores, tem também uma declaração do Centro de Investigação Islâmico de Al-Azhar onde se apela de forma clara à morte dos Baha'is.


Na pag. 99 deste livro escreve-se: "Al-Azhar insta os que têm autoridade na República Árabe do Egipto a manterem-se firmes contra esta congregação maligna que é contrária à Fé de Deus e à ordem pública nesta sociedade. Os julgamentos de Deus devem ser executados contra eles, a lei que merecem deve ser aplicada e devem regressar ao pó juntamente com os seus ensinamentos. Isto é uma protecção para todos os cidadãos contra a apostasia e as suas crenças que se afasta do verdadeiro caminho de Deus. Os que cometeram crimes contra a verdade do Islão e a sua nação devem desaparecer da vida, para que não possam afastar-se do Islão".

sábado, 24 de junho de 2006

Ser Baha'i, no Egipto

Segue-se a tradução de uma artigo de Mariam Fam, divulgado pela Associated Press (em 22 de Junho), e publicado em vários jornais e sites noticiosos (Washington Post, Forbes, ABCNews, Yahoo). As frases a bold são apenas aspectos do artigo que me parecem merecedores de destaque. Nos últimos dias, a situação dos baha'is no Egipto também mereceu a atenção do jornal francês La Croix( Bataille judiciaire autour de la reconnaissance des baha'ïs en Egypte).
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CAIRO - Oculto nos bolsos de Labib Iskandar está um pedaço de papel cuidadosamente dobrado com os cantos gastos que nos conta a história de uma comunidade que luta pelo reconhecimento. É um recibo que Iskandar recebeu quando solicitou o documento de identificação informatizado que o Egipto começou a emitir – há mais de cinco anos

Iskandar é um bahai, um membro de uma comunidade religiosa que considera um Persa do séc. XIX, Bahá'u'lláh, como um profeta – um desafio à crença muçulmana que Maomé foi o último profeta. Dado o papel central do Islão na vida do Egipto, o governo não emite um cartão de identidade para um baha'i, mas apenas para muçulmanos, cristãos ou judeus.



O actual documento de identificação de Labib Iskandar
vai perder a validade no final do ano.

O assunto surgiu nas notícias em Abril, quando um tribunal decidiu que os membros da pouco conhecida comunidade baha'i do Egipto tinham o direito de ter a sua religião registada em documentos oficiais. Esse facto levantou um clamor e o Ministro do Interior apressou-se a preencher um recurso; no mês passado, um outro tribunal congelou o caso.

No entanto, a controvérsia mantém-se. Alguns clérigos muçulmanos declaram abertamente que a Fé Baha’i é uma heresia, e os defensores dos direitos civis queixam-se que esta abordagem com mão de ferro ameaça que surjam motins semelhantes aos que ocorreram em muçulmanos e a minoria cristã [copta] em Alexandria.

Apesar da disputa afectar apenas os baha'is do país - cerca de 2000 pessoas entre os 72 milhões de egípcios – proporciona um vislumbre de como uma sociedade outrora cosmopolita se afundou numa cultura onde o fanatismo esmaga as protecções teóricas de liberdade religiosa.

"Antigamente, tudo era mais simples; todos sabiam que eu era baha'i e não tinha qualquer problema com isso" diz Iskandar, um professor de engenharia de 59 anos. "Não havia preconceitos. O fanatismo só agora veio à superfície"

A família cujo processo levou à decisão do tribunal sobre a Fé Baha’i recusou falar aos jornalistas. Mas a experiência dos baha’is no Egipto pode ser vista através de Iskandar e da sua família.

A sua certidão de nascimento e o seu anterior documento oficial de identificação identificam-no como baha'i. Os seus filhos têm certidões de nascimento semelhantes. Mas quando o seu filho mais velho, Ragi, de 24 anos, pediu o cartão de identidade, os funcionários oficiais concordaram em colocar um traço - para indicar um espaço em branco - na secção da religião.

Mais tarde quando o seu filho Hady, de 19 anos, pediu um cartão de identidade, foi-lhe dito que se devia identificar como uma das três religiões oficialmente reconhecidas e nunca mais recebeu os seus documentos, conta Iskandar.

"Ficamos muito preocupados quando eles saem à noite e regressam tarde a casa, especialmente o filho mais novo, pois como ele não tem documentos de identificação, isso pode trazer-lhe problemas" conta Iskandar. "Porque eles são jovens, eles podem aborrecer-se e dizer «Vamos embora do Egipto!»" – uma opção que o velho Iskandar rejeita.

Lahib Iskandar"Eu sou um egípcio. Nasci no Egipto ... e não vou deixar o Egipto" diz ele.

O velho Iskandar pôde requerer o novo documento de identificação, mas nunca o recebeu. Os requerimentos dos seus dois filhos para novos documentos de identificação nem sequer foram aceites. E no final do ano o Egipto não vai reconhecer os antigos documentos de identificação, agora substituídos pelos novos cartões informatizados.

Iskandar lembra-se de frequentar todas as actividades baha’is até que um deceto presidencial de 1960 dissolveu as assembleias baha’is. Em Outubro do ano passado, a sua irmã faleceu e a família não conseguiu obter uma certidão de nascimento por causa da sua fé.

Eles não querem reconhecer a Fé Baha’i. Muito bem. Não há problema. Mas como cidadão egípcio é, ou não, meu direito obter uma certidão de nascimento e um documento de identificação? pergunta ele. “Porque é que querem que eu mude de religião? Porque é que querem que eu seja hipócrita? Eu recuso mentir”.

Abdel Moeti Bayoumi, um intelectual muçulmano, afirma que o pedido dos baha’is de reconhecimento em documentos oficiais fortaleceria um sistema sectário que podia fracturar o país.

Acredite no que quiser acreditar, você e os seus filhos, enquanto o fizer em casa e com portas fechadas”, afirmou ele. “Mas não subverta a ordem pública”.

Bayoumi é um membro do centro de investigação islâmico de Al-Azhar, uma proeminente instituição do saber muçulmano sunita. Tal como muitos intelectuais muçulmanos acredita que o Bahaismo [sic] é uma dissidência do Islão e não uma religião por direito próprio. Afirma que as crenças e práticas baha’is – incluindo considerar Bahá'u'lláh como um profeta – ofendem os muçulmanos.

Acrescentou que os baha’is tiveram sorte pelo facto do Ministro do Interior ter recorrido do veredicto de Abril, pois caso contrário os extremistas podiam tê-los atacado.

Uma declaração de Al-Azhar instava o Egipto a “manter-se firme contra este grupo que agride a religião de Deus”. Instava o governo a criminalizar a Fé Baha’i, e outra declaração do centro de investigação de Al-Azhar, jogando com os sentimentos anti-israelitas da região, argumentava que o Bahaismo[sic] “serve os interesses do Sionismo

Os baha'is afirmam que os os seus lugares sagrados em Israel são usados para desacreditar a sua comunidade. Bahá'u'lláh faleceu em Akko, no que fazia parte do então Império Otomano – e faz parte de Israel. O centro mundial dos 5 milhões de baha’is está em Haifa, Israel, e eles têm outros lugares sagrados na Turquia e no Irão.

Hossam Bahgat, director do Egyptian Initiative for Personal Rights, que acompanhou o caso dos baha’is afirmou que a ignorância dos egípcios em matéria de fé alimentou uma “campanha de difamação.

É outra manifestação da abordagem limitada e de mão pesada com que o Ministro do Interior trata os assuntos religiosos. Existem fortes semelhanças entre estes eventos e os tumultos de Alexandria em termos de falta de tolerância” afirmou ele, referindo-se aos confrontos que opuseram muçulmanos e cristãos e causaram dois mortos e quarente feridos em Abril.

A socióloga política Hoda Zakareya afirma que o Egipto – que até 1950 era o lar de um número significativo de judeus, arménios, gregos e outros – tornou-se menos tolerante.

Acrescentou que a crescente influência de grupos islâmicos, tais como a Irmandade Muçulmana, que pretendem galvanizar as pessoas através da religião e não do nacionalismo, contribuíram para a mudança: “A Irmandade afirma que pretende reconstruir a fracturada consciência colectiva com base na religião. Mas as pessoas estão-se a dividir, e não a unir, em torno do Islão”.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

A voz de uma Maioria Silenciosa

Ontem, um dia após o adiamento da decisão do Supremo Tribunal Administrativo sobre os direitos civis dos baha'is no Egipto, o jornal "al-Kahera News" (um semanário muito respeitado, propriedade do Ministério da Cultura) publicou um artigo sobre a religião baha'i e a campanha de difamação que tem sido alvo naquele país.

O autor, Muhammad Shebl, apela ao fim da campanha de ódio conduzida pelos fundamentalistas islâmicos, e lembra aos seus leitores que os ensinamentos do Islão defendem a unidade da humanidade, tal como os Baha’is o têm feito. Além disso, justifica as suas afirmações com várias citações do Alcorão, claramente equilibradas e tolerantes.

Shebl adverte os seus leitores para o seguinte facto: "de acordo com a Lei Islâmica, não se podem forçar os baha’is a converterem-se ao Islão". E acrescenta: "Deus criou o homem e quis que ele fosse livre; por isso deu-lhe uma mente para perceber as coisas por si próprio; e Deus adiou o acerto de contas com o homem para a vida eterna. Se alguém neste mundo odeia os seus semelhantes devido às suas crenças, isso provocará a ira de Deus, pois desse modo cometem um grande pecado e ofendem-No. Se Deus desejasse obrigar todos os seres humanos a adorá-Lo, de algum forma já o teria feito; mas Ele preferiu dar-lhes livre arbítrio de modo a poder responsabilizá-los."

O Sr. Shebl também afirma que "se os baha'is fossem apóstatas [como têm sido acusados pelos Islamitas], então a sua punição só deve acontecer no Dia do Julgamento".

O autor salienta repetidamente a importância da liberdade de escola de cada ser humano, e o facto de não competir a ninguém - excepto Deus - fazer um juízo sobre as crenças dos outros. Também acrescenta que os Muçulmanos não podem limitar o seu reconhecimento ao Islão, Cristianismo e Judaísmo, mas devem reconhecer e tolerar todas as outras religiões, incluindo Baha'is, Budistas, Hindus, etc...

Segundo o autor do blog Baha'i Faith in Egypt, apesar da campanha de descrédito lançada por fundamentalistas islâmicos, este e outros artigos recentes nos principais jornais egípcios ilustram uma onda de tolerância e aceitação por parte daqueles que são capazes de moldar a opinião pública naquele país. Aparentemente representam a voz de uma maioria silenciosa que tem esperança num futuro brilhante e tranquilo.

Fonte: Egypt's Baha'is: Rise of Support in Official Press

segunda-feira, 19 de junho de 2006

É hoje!

É hoje que o Supremo Tribunal Administrativo do Egipto vai apresentar a sua decisão final sobre um recurso do Governo Egípcio no caso da negação de documentos de identidade oficiais a um casal de bahá’ís.

Este caso despertou a atenção de observadores de direitos humanos e de liberdade religiosa no Médio Oriente, quando no passado mês de Abril, o Tribunal Administrativo reconheceu o direito dos bahá'ís a ver a sua religião reconhecida em documentos oficiais; em Maio, o governo egípcio - sob a pressão de sectores conservadores da sociedade egípcia - recorreu da decisão para o Supremo Tribunal Administrativo.

Tanto a decisão inicial, como o recurso do governo tiveram ampla cobertura no Egipto e no mundo árabe; as implicações ultrapassam a pequena comunidade bahá'í daquele país. Segundo Hossam Bahgat, director da Egyptian Initiative for Personal Rights (EIPR) "...este caso não é importante apenas para os Baha'is, mas para todos os egípcios, pois vai estabelecer um precedente em termos de cidadania, igualdade e liberdade religiosa. Há um enorme interesse neste caso."

Após a anterior decisão do Tribunal Administrativo a favor dos Bahá’ís, onde se ordenava ao Governo Egípcio que emitisse documentos de identidade e certidões de nascimento nas quais constasse correctamente a religião professada pelos Bahá’ís, várias forças sociais, nomeadamente membros da Universidade de Al Azhar e da Irmandade islâmica, levantaram-se em protesto contra a decisão, manifestando-se contra qualquer tipo de reconhecimento da Fé Bahá’í como religião. Essa reacção desencadeou um debate generalizado em jornais e blogs no mundo árabe sobre a liberdade religiosa.

"As pessoas estão mobilizadas de ambos os lados", afirmou Bahgat. "Há os que apoiam os Baha’is e os que os consideram como uma ameaça à sociedade e ao Islão"

No site do EIPR encontra-se uma descrição da audição no tribunal no passado dia 15 de Maio (em que o Governo apresentou o recurso) que é bem reveladora do nível de tensão que rodeia este caso:

"Os advogados e outros indivíduos presentes na sala do Tribunal interromperam e perturbaram o advogado de defesa cada vez que ele tentava usar da palavra, chamando-lhe «infiel» e fazendo-lhe ameaças de violência física. Sendo impossível restabelecer a ordem na sala de audiências, o tribunal suspendeu a sessão, retomando os trabalhos à porta fechada. Quando a sessão foi suspensa, oficiais da segurança do tribunal recusaram-se a proteger os advogados que estavam rodeados por uma multidão que os ameaçava, empurrava, obstruíam o caminho e impediam de abandonar o local."

Bani Dugal, representante da Comunidade Internacional Bahá'í nas Nações Unidas afirmou: "É nossa esperança que neste caso o Tribunal não permita que as emoções se alterem ao ponto de poder obscurecer a sua decisão sobre um assunto relacionado com o direito dos indivíduos professarem as suas crenças u um direito firmemente apoiado pela lei egípcia e pela lei internacional."

"Os Bahá'ís representados neste caso, e por extensão, toda a Comunidade Bahá’í do Egipto, apenas pedem que lhes sejam concedidos os mesmos direitos que outros cidadão egípcios. Neste caso trata-se do direito a não terem a sua religião correctamente identificada em documentos oficiais. Essa informação incorrecta, além de ser fraudulenta, para os bahá’ís representa uma negação da sua fé."

"Não se trata de forçar o governo egípcio ou qualquer outra pessoa, a aceitar ou reconhecer a origem divina da Fé Bahá'í. Trata-se apenas do facto dos Bahá’ís, tal como todos os cidadãos egípcios, necessitarem de documentos de identificação oficiais. E sem esses documentos, os Baha’is egípcios não podem ter legalmente um emprego, educação, assistência médica, serviços financeiros, e estão privado de liberdade de movimentos", acrescentou a Srª Dugal.


ACTUALIZAÇÃO:

Segundo um blog de um baha'i egípcio, o Supremo Tribunal Administrativo decidiu adiar a decisão para o dia 16 de Setembro.


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Notícia Original (BWNS):

Egyptian Government challenges Baha'is' civil rights on appeal -- Court hearing set for Monday, 19 June, in Cairo

Sobre este assunto:
Mais Notícias do Egipto
Bahá'ís do Egipto: Governo vai recorrer da decisão do Tribunal
Tribunal Egípcio reconhece direitos dos Baha'is

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Radio Cairo

Ontem a Radio Cairo emitiu uma entrevista com o Dr. Abd-ellah el-Sammack, professor de Estudos Religiosos na Universidade de al-Azhar. Apesar da Rádio Cairo ser uma rádio Oficial do Governo Egípcio, não foi convidado qualquer baha’i para debater os pontos de vista apresentados.

Conta quem ouviu a entrevista que as palvras do entrevistado foram um misto de factos elementares e falsidades gritantes. O professor referiu alguns princípios da religião Bahá’i como a unidade de Deus, a unidade das religiões, a igualdade de direitos entre homens e mulheres, e eliminação de todas as formas de preconceito e a promoção da paz mundial.

Mas estas referências foram intercaladas com coisas do tipo "a Fé Bahá'í teve a sua origem na Rússia e foi promovida pelo comunismo". Só quem não conhece absolutamente nada da história baha’i pode afirmar uma coisa destas. Quem pode ignorar que Bahá'u'lláh era persa, que o primeiro templo baha'i (construído no actual Turquemenistão) foi confiscado pelas autoridades soviéticas e muitos baha’is naquele país foram perseguidos?

Outra das distorções foi: "Os Baha’is são considerados pelo governo israelita como seus cidadãos e estão sob sua protecção em toda a parte do mundo". Este é daqueles disparates típicos da propaganda anti-baha'i alimentada por fundamentalistas islâmicos. Quem sabe um pouco sobre a Fé Bahá'í, tem a noção que os bahá’ís não se envolvem em actividades subversivas contra os governos dos países onde vivem e honram os seus deverem de cidadania.

O Dr. el-Sammack também afirmou: "A Fé Bahá’í aboliria totalmente o Islão e todos os seus ensinamentos e leis". Será possível falar da religião baha'i sem conhecer o conceito de "revelação progressiva"? Os baha’is entendem que todas as religiões provêem de um único Deus e que os Manifestantes apresentam ensinamentos adequados à maturidade e necessidades dos povos. Quem se torna baha'i tem de aceitar que Maomé era Profeta, tal como quem se torna Muçulmano tem de aceitar que Jesus também era Profeta? Será isto assim tão difícil de entender?

quinta-feira, 4 de maio de 2006

Bahá'ís do Egipto

Governo vai recorrer da decisão do Tribunal

O governo egípcio vai recorrer da decisão de um tribunal administrativo que decidiu a favor dos direitos da pequena minoria baha'i, afirmou o ministro dos assuntos religiosos Mahmoud Hamdi Zakzouk. Perante o Parlamento, o ministro declarou que a base do recurso seria a opinião do principal clérigo muçulmano, o Sheikh de al-Azhar, segundo o qual "o Bahaismo não é uma religião revelada reconhecida pelos muçulmanos".

Zakzouk falava num debate parlamentar em que vários deputados manifestaram a sua oposição à decisão do tribunal administrativo a favor de um casal baha'i que há dois anos vinham exigindo que o governo os registasse como baha'is. Na ocasião, diversos grupos de direitos civis acolheram a decisão do tribunal como uma vitória da liberdade de religião.

Vários membros do Parlamento atacaram os baha'is como perversos e extremistas e recordaram que a sua sede internacional está situada na cidade israelita de Haifa. Um deputado da oposição (Gamal Akl, da Irmandade Muçulmana) não hesitou mesmo em afirmar que os baha'is são infiéis que devem ser mortos devido ao facto de terem mudado de religião.

"O problema dos baha’is é que eles são movidos por mãos israelitas. Desejamos que o Ministro do Interior não seja alvo da chantagem deste grupo perverso", afirmou Mustafa Awadallah, outro deputado da Irmandade Muçulmana.

Zainab Radwan, do Partido Nacional Democrático (do governo), justificou a sua posição a favor do reconhecimento dos bahá'ís nos documentos civis de identificação: "Há interesse em saber quem eles são, de forma a impedir que se infiltrem nos diferentes níveis da sociedade e espalhem a sua doutrina extremista e perversa".

A constituição Egípcia garante liberdade religiosa, mas na prática o governo está relutante a reconhecer outras religiões que não o Islão, Cristianismo e Judaísmo, que muitos muçulmanos acreditam ter um estatuto mais elevado. O tratamento da comunidade baha'i do Egipto (cerca de 2000 pessoas) tem sido motivo de fricção entre o governo daquele país e várias organizações de direitos humanos.

LINKS:
State to appeal ruling that favours Egypt's Baha’is (notícia original)
US body criticizes religious freedom in allies
Tribunal Egípcio reconhece direitos dos Baha'is
Muslim Brotherhood (Wikipedia)
Muslim Brotherhood (site oficial em inglês)



O MEU COMENTÁRIO:

1. As declarações dos deputados egípcios – defendendo a pena de morte para os membros de uma minoria religiosa ou o controlo rigoroso dos movimentos dos seus membros – fazem lembrar os tempos das mais sombrias ditaduras europeias do século XX. Que benefícios teve a Europa com a opressão de qualquer grupo social, político ou religioso? Infelizmente, os políticos egípcios parecem não querer aprender com os erros dos europeus.

E quando um representante de um partido de pretensa inspiração islâmica defende a pena de morte para os membros de uma minoria religiosa, bem nos podemos questionar: que religião é essa onde se acredita que Deus pode beneficiar com a morte de alguém?

No Ocidente, este tipo de afirmações por parte de um deputado seriam motivo de enorme escândalo; provavelmente seriam um suicídio político. Mas neste caso é provavel que passem despercebidas à maioria dos media e dos políticos ocidentais.

Num momento em que o Ocidente insiste em levar a democracia a países que ainda vivem sob ditaduras ou regimes autoritários, seria importante transmitir aos povos desses países que para viver num sistema democrático não é apenas necessário aceitar as regras da democracia; também se deve aceitar outro valor mais elementar: os direitos humanos.

2. O reconhecimento da religião bahá'í como religião independente há muito que é debatida no Egipto. Curiosamente, foi naquele país , em 1925, que um tribunal sunita reconheceu pela primeira vez a "Fé Bahá'í como uma nova religião, inteiramente independente" e que "portanto, nenhum baha'i pode ser considerado muçulmano".

3. O facto do Centro Mundial Bahá’í estar situado em Haifa (Israel) é ciclicamente usado pela propaganda fundamentalista islâmica para acusar os bahá’ís de serem “agentes sionistas” e aliados de Israel. O argumento é patético. Por um lado as leis bahá’is proíbem que os crentes desta religião se envolvam em actividades políticas ou em actos de subversão. Por outro lado, o Centro Mundial Baha’i está situado em Haifa porque foi para o norte da Palestina que em 1868 os governos otomano e persa exilaram Bahá'u'lláh. Além disso, o Centro Mundial Bahá’í nasceu antes do Estado de Israel.

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Tribunal Egípcio reconhece direitos dos Baha'is

Quando se fala de baha'is no Médio Oriente, nem tudo são más notícias. Hoje chegou uma boa notícia do Egipto: o Tribunal Administrativo reconheceu o direito dos baha'is egípcios a ver a sua religião reconhecida em documentos oficiais.

A decisão do tribunal é resultado de um processo avançado por um casal baha'i contra o Ministro do Interior, Habib al-Adly, em Junho de 2004. Nessa ocasião o ministro publicou uma lei que obrigava os baha'is a identificarem-se oficialmente como cristão ou muçulmanos. Posteriormente a essa decisão, os funcionários do Departamento de Assuntos Civis (DAC) confiscaram a documentação oficial do casal porque descrevia a sua religião como baha'i, uma minoria religiosa não reconhecida naquele país de maioria sunita.

Alguns observadores consideram que a decisão a favor da família foi - parcialmente - resultado de uma intensa campanha de grupos activistas defensores dos Direitos Humanos. Segundo, Hossam Bahgat, director do Egyptian Initiative for Private Rights, trata-se de "uma mensagem forte segundo a qual é direito de todo o cidadão egípcio adoptar a religião da sua escolha". Este activista recordou que "o DAC recusou emitir novos documentos de identificação excepto se a família concordasse em identificar-se como muçulmana".

Gamal Eid, director da Arab Network for Human Rights Information afirmou: “Este é um caso marcante. As autoridades sentiram-se tão ameaçadas com a exposição que recuaram e decidiram a favor dos direitos inerentes aos Baha’is”. Eid recordou que as dificuldades enfrentadas pela comunidade baha’i no Egipto “devem-se à intolerância das instituições muçulmanas procuram descrevê-los como apóstatas”. Apesar da comunidade baha’i ter sido frequentemente atacada na imprensa, alguns jornais independentes - como o Al-Dustour e o Al-Karama – têm vindo a trabalhar para despertar a opinião pública sobre os direitos dos baha’is.

Mas Gamal Eid não se ilude: "É improvável que a decisão, só por si, altere a situação dos baha’is. Mas constitui um passo na longa estrada para a criação de uma sociedade mais tolerante do ponto de vista religioso"

Estima-se que existam no Egipto cerca de 2000 baha’is. Nos anos 60 foi publicada uma lei que obrigava à dissolução das instituições baha’is. Apesar da legislação não criminalizar os seguidores desta religião, esta lei permitiu que as autoridades promovessem oficialmente a sua discriminação. Mais tarde, em 1983 houve uma grande polémica com o caso duas meninas que tinham sido ameaçadas de expulsão de uma escola se não apresentassem certificados de nascimento que as identificassem como muçulmanas. Nessa ocasião este mesmo Tribunal publicou uma lei semelhante à que agora foi publicada.

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LINKS:
Notícia original na IRINNews.org (também no AllAfrica, na Reuters e no ANDNetWork)
International Religious Freedom Report 2005 (ver capítulo sobre a situação no Egipto)
A Mãe de todos os Direitos Humanos (inclui referências aos baha'is egípcios)