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sábado, 30 de março de 2019

Como o Ocidente descobriu Tahirih

Por Hussein Ahdieh.


Depois de ter sido executada, a fama e o nome de Tahirih – poetisa Babi e defensora dos direitos das mulheres – espalhou-se quase imediatamente pelo Ocidente.

Justin Sheil, um general e diplomata britânico que serviu como representante da rainha Vitória na corte do rei da Pérsia, enviou a primeira referência conhecida da execução de Tahirih num despacho datado de 22 de Agosto de 1852:

Entre os que sofreram a morte encontrava-se uma jovem mulher, filha de um famoso professor de Direito em Mazindaran, que tinha estado detida durante três anos em Teerão. Ela era venerada como profetisa pelos Babees [Babis], e a designada entre eles como “Koorat ool ain” – “Pupila dos olhos” [na verdade, Qurrat’ul-Ayn significa “Consolo dos Olhos”]. Ela foi estrangulada por ordem do Xá. O Sedr Azim opôs-se a estes actos, mas a raiva e a vingança do Xá não lhe permitiram prestar atenção ao conselho (Moojan Momen, The Babi and Baha’i Religions, 1844-1944, Some Contemporary Western Accounts, p. 135.)

No dia seguinte, o príncipe Dolgorukov, embaixador russo na Pérsia, enviou o seguinte despacho:

… Durante muito tempo, esteve presa em Teerão, sob vigilância de Mahmud Khan, o chefe da polícia, um mulher Babi (Tahirih). Apesar disto, ela aparentemente encontrou forma de se encontrar diariamente com muitos membros da sua seita. Ela foi estrangulada num jardim, na presença de Ajudan-Bashi… (Ibid., p. 143)

Pouco depois, a execução de Tahirih era tema de um artigo de jornal The Times (de Londres), em 13 de Outubro de 1852. O título do texto era “Como castigam a traição Pérsia”.

Em 1852 a Fé Babi era pouco conhecida no Ocidente; e a Fé Bahá’í – que lhe sucedeu e completou -ainda não tinha surgido. Bahá’u’lláh, o profeta fundador da Fé Bahá’í – era nessa época um dos principais Bábis, e estava encarcerado numa prisão de Teerão, devido às suas crenças.

O artigo no jornal The Times, de Londres, incluía muito pormenores que ‘Abdu’l-Bahá – filho e sucessor de Bahá’u’lláh – mais tarde incluiria no seu livro Memorials of the Faithful. Nesse livro, ‘Abdu’l-Bahá recorda Tahirih e descreve o momento do seu martírio:

Trouxeram-na para o jardim onde o carrasco aguardava… colocaram-lhe um lenço entre os lábios e enfiaram-no pela sua garganta. Depois ergueram o seu corpo imaculado e lançaram-no num poço ali no jardim, e lançaram sobre ele terra e pedras. Mas Tahirih regozijava-se; ela tinha ouvido com a luz do coração as notícias do seu martírio; fixou os olhos no Reino celestial e ofereceu a sua vida. (‘Abdu’l-Bahá, Memorials of the Faithful, p. 203)

O primeiro livro a incluir uma referência a Tahirih foi “Glimpses of Life and Manners in Persia”, de Lady Mary Sheil, publicado em 1856:

Houve uma outra vítima. Esta era uma mulher jovem, filha de um mullah de Mazindaran, que, tal como o seu pai, tinha aceite os princípios do Bab. Os Babees, veneravam-na como uma profetisa; e chamavam-lhe Khooret-ool-eyn, palavras árabes que significam Pupila dos olhos. Depois da insurreição Babees ter sido subjugada na província, ela foi levada para Teerão e detida, mas foi bem tratada. Quando se deram estas execuções, ela foi estrangulada. Foi um acto cruel e desnecessário. (Lady Mary Sheil, Glimpses of life and manners in Persia, citada por Farzaneh Milani em Veils and Words, The Emerging Voices of Iranian Women Writers, p. 97)

O diplomata britânico Robert Grant Watson escreveu um livro intitulado A History of Persia – cobrindo a história na Pérsia na primeira metade do século XIX – que foi publicado em 1866. Nesse livro, Watson faz uma breve referência a Tahirih: “… a filha de um célebre professor de Direito, que era considerada pelos Babis como uma profetisa…” (pag. 409)

O primeiro livro – numa língua ocidental – sobre a história do Bab e dos seus seguidores foi The Báb and the Bábis: Religious and Political Unrest in Persia in 1848-1852, escrito em russo por Aleksandr Kazem-Bek, e publicado em 1865. Kazem-Bek era um filólogo que se dividia entre os mundos russo e persa; nasceu no Azerbaijão, viveu na Pérsia e faleceu em S. Petersburgo.

Em 1865, um médico austríaco, Jakob Polak, afirmou ter presenciado a execução de Tahirih – uma afirmação que nunca foi confirmada:

Testemunhei a execução de Qurret el ayn, que foi executada pelo ministro da guerra e seus ajudantes; a bela mulher suportou uma morte lenta com uma força sobre-humana (citado por Moojan Momen in The Babi and Baha’i Religions, 1844-1944, Some Contemporary Western Accounts, pp. 26-27)

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Texto original: How the West Found Out about Tahirih (www.bahaiteachings.org)

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Hussein Ahdieh nasceu em Nayriz, no Irão. Na sua adolescência foi viver para os Estados Unidos, onde mais tarde estudou História da Europa e concluiu um Doutoramento em Educação. Foi um elemento chave na criação da Harlem Preparatory School, de Nova Iorque; foi director do Programa de Estudos Superiores da Universidade de Fordham. É autor dos livros Abdu'l-Bahá in New York, AWAKENING: A History of the Babí and Bahá'í Faiths in Nayriz e de numerosos artigos e ensaios.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Bahá’u’lláh recebe o primeiro Cristão

Por Christopher Buck e Joshua Hall.


No artigo anterior falámos de Faris, o médico sírio que se tornou o primeiro Bahá’í de origem cristã, em 1868.

Também referimos o conhecido escritor e historiador Bahá’í, Nabil-i A’zam, ou Nabil-i Zarandi (1831–1892), que ‘Abdu’l-Bahá elogiou nos seguintes termos:
Este homem distinto era erudito, sábio e tinha um discurso eloquente. O seu génio nato era pura inspiração, o seu dom poético era como um fluxo de cristal. (‘Abdu’l-Bahá, Memorials of the Faithful, p. 35)
O relato de Nabil sobre a decisão de Faris em tornar-se Bahá’í prossegue da seguinte forma:
Em resposta às nossas petições, havia uma Epístola, em caligrafia de Revelação [a escrita rápida que Mirza Aqa Jan registava à medida que Bahá’u’lláh falava], uma Carta do Mais Grandioso Ramo, e um papel com nuql [rebuçado] de amêndoas... Na Epístola, Faris,o médico, era particularmente elogiado.
Um dos presentes escreveu:
Várias vezes testemunhei evidências de um poder que nunca conseguirei esquecer. E assim aconteceu hoje. O navio estava em movimento, quando vimos um barco ao longe. O capitão parou o navio, e este jovem relojoeiro chegou até nós, e gritou pelo meu nome. Aproximámo-nos e ele deu-nos o teu envelope. Todos os olhares estavam sobre nós, os exilados. No entanto, ninguém questionou a acção do capitão. (Nabil-i A’zam, de uma história não publicada, traduzida por H.M. Balyuzi, Baha’u’llah, The King of Glory, p. 268)
E agora a narrativa completa de Bahá’u’lláh, escrita pouco depois da Sua chegada a Akká:
Em nome de Deus, o Eterno, o Imutável.

Ó tu que colocaste o teu olhar sobre o semblante divino, dando ouvidos à voz d’Aquele que sofreu o encarceramento várias vezes no caminho de Deus, o teu Senhor e Senhor dos mundos. Sabe, pois, que a Beleza Antiga partiu da Terra do Mistério devido àquilo que as mãos dos opressores forjaram. Anteriormente, Ele caminhara na terra, revelando a cada momento os versículos que arrebataram o povo ao Concurso no Alto, e expondo provas que fizeram desfalecer os anjos próximos de Deus.

Por Deus, as brisas perfumadas da Revelação divina foram sopradas sobre as regiões do oriente e do ocidente, e isto, em verdade, é uma graça abundante. Ao perceber estas fragrâncias, o osso decomposto despertou e ressuscitou, de acordo com a permissão de Deus, o Rei, o Omnipotente, o Belíssimo. Sob todas as condições, colocámos sob cada pedra, pérolas de palavras perspícuas e jóias de explicação; em breve, levantar-se-á Aquele que proclamará perante todas as pedras: “Ele é, em verdade, o Bem-Amado dos Mundos!”

Os dias passaram até que chegámos à beira-mar. Quando o Mais Grandioso oceano embarcou na Arca, os habitantes do Mais Alto Paraíso gritaram o nome de Deus, por Cuja ordem foi posta em movimento e dirigiram-se à Arca dizendo: “Bem-Aventurada sejas, pois Aquele que é a Esperança dos Mundos pôs os pés sobre ti”.

Seguidamente, a Arca começou a navegar sobre o mar, e ouvimos de cada uma das suas gotas aquilo que nenhum homem consegue ouvir, e o teu Senhor conhece bem a verdade daquilo que digo. Quando chegámos a uma das cidades da terra, percebemos-lhe a fragrância do Todo-Misericordioso, e assim que inalámos as brisas da santidade que dali sopravam, o mar acalmou-se e a Arca parou sobre ele. No entanto, por Deus, as ondas deste mar não ficarão calmas para sempre.

Perante o Rosto Divino veio um de entre a comunidade de Cristo com uma eloquente missiva em mão. Ao quebrar o selo, percebemos os perfumes de santidade daquele que se incendiou com o fogo do amor pelo teu Senhor, o Todo-Misericordioso. Tão arrebatado estava pelos êxtases da Revelação, que ele se separou de todas as coisas e segurou-se firmemente ao cordão que estava suspenso entre o céu e a terra. Lemos as palavras da sua missiva, e quem desejar, poderá lê-las para que possa observar como os dedos do poder do teu Senhor, o Mais Exaltado, o Omnipotente, o Todo-Poderoso, podem voltar os corações dos homens para Ele.

Que bom seria se tivesses estado perante Nós e escutado o Jovem a recitar aquela missiva na entoação de Deus, o Omnipotente, o Todo-Poderoso, o Sapientíssimo! Desta forma, Deus cria o que deseja como sinal do Seu poder; mas as pessoas, envoltas nos véus do ego estão entre os desatentos. Por Deus! A criação desse homem é maior aos olhos de Deus do que a criação dos céus e da terra. Quando leres a sua missiva, exclama: “Exaltado seja Deus, que desperta quem Ele deseja no Seu poder; Ele, em verdade, é o Revivificador dos Mundos!” (tradução provisória de Joshua Hall)
Esta notável epístola de Bahá’u’lláh começa por se dirigir ao destinatário, Rad’ar-Ruh (ou “Espírito Contente”, um nome dado a Mulla Muhammad-Rida-yi Manshadi por Bahá’u’lláh)

Provavelmente, naquele tempo, não houve contacto directo com o próprio Faris Effendi, mas esta epístola de Bahá’u’lláh (a “Beleza Antiga”) refere os seus múltiplos encarceramentos no passado e o primeiro Cristão a tornar-se Bahá’í. A caminho de um novo encarceramento, Bahá’u’lláh continuou a revelar escrituras de sabedoria divina, agitando as almas dos ouvintes receptivos.

Bahá’u´lláh caracteriza a Sua revelação como tendo âmbito universal (“as brisas perfumadas da Revelação divina foram sopradas sobre as regiões do oriente e do ocidente”) e tendo poder para revivificar os espiritualmente mortos (“o osso decomposto despertou e ressuscitou, de acordo com a permissão de Deus”). Esta referência à ressurreição tem um significado espiritual, e não físico.

Depois Bahá’u’lláh usa metáforas como “pérolas” e “jóias” colocadas sob “cada pedra” (corações empedernidos). Seguidamente, Bahá’u’lláh compara o navio a vapor da Austrian-Lloyd à Arca de Noé, o que, na simbologia Bahá’í, representa a comunidade dos espiritualmente despertos – neste caso, os seguidores de Bahá’u’lláh.

O texto prossegue com a alusão a Alexandria (“uma das cidades da terra”). O “um de entre a comunidade de Cristo” que veio à presença de Bahá’u’lláh era Constantino, o relojoeiro, que trouxe “uma eloquente missiva em mão”, a carta de Faris Effendi para Bahá’u’lláh.

O texto da epístola de Bahá’u’lláh não distingue claramente entre Constantino e Faris. Num certo sentido, estes dois indivíduos aparecem juntos, cada um representando o outro. Alcançar a presença de Bahá’u’lláh e sentir a Sua majestade divina e o Seu poder carismático, teve um grande efeito em Constantino, que ficou agitado até às profundezas da sua alma com os “êxtases da Revelação”. Quanto à carta de Faris, Bahá’u’lláh afirma que “Quem desejar, pode lê-la”. Mas como? Ao anexar o conteúdo da carta ao final da Sua epístola, Bahá’u’lláh disponibiliza-a a todos nós. No próximo artigo desta série vamos ler a carta de Faris.

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Texto original: Baha’u’llah’s Welcome to the First Christian Baha’i (www.bahaiteachings.org)

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Joshua Hall é um Bahá’í que vive no Montana (EUA). Os seus interesses incluem linguística e estudo de religiões comparadas. Tem uma paixão especial pelo estudo e tradução de textos árabes das Escrituras Bahá’ís.
Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 5 de janeiro de 2019

O primeiro Cristão a tornar-se Bahá’í

Por Christopher Buck.


Gostaria que conhecessem o Dr. Faris Effendi, um médico sírio que foi o primeiro Cristão a tornar-se Bahá’í.

A história de como o Dr. Effendi percebeu que Bahá’u’lláh era Aquele que Cristo tinha predito – em termos espirituais e simbólicos tinha cumprido as profecias – é muito interessante.

Em Agosto de 1868, Bahá’u’lláh era um prisioneiro do Império Otomano e foi exilado de Edirne (antes conhecida como Adrianópolis) para Gallipoli, e dali para a cidade-prisão de Akka (hoje “Acre” ou “Akko”) na Palestina (hoje Israel).

Na manhã de 21 de Agosto de 1868, Bahá’u’lláh e a Sua comitiva – todos eles prisioneiros – foram colocados a bordo de um navio a vapor da companhia Austrian-Lloyd. Os exilados – que seriam 72 segundo um relato – eram acompanhados por uma escolta militar constituída por dois oficiais e dez soldados.

A bordo do navio, Bahá’u’lláh, em tom de gracejo, disse para os Seus companheiros: “Não seria divertido se o navio se afundasse?” E apressou-Se a acrescentar – com total confiança e evidente presciência – esta garantia: “Mas não se afundará, mesmo que seja atingido por todas as ondas.”

Segundo um relato, inicialmente, Bahá’u’lláh e os Seus companheiros não sabiam o seu destino. Todo o que lhes tinham dito é que iam ser levados para “uma prisão desconhecida, numa terra desconhecida”. (ver Hasan M. Balyuzi, Bahá’u’lláh: The King of Glory (Oxford: George Ronald, 1980), p. 264.) Mais tarde foi dito aos exilados que iam ser levados para Akka.

As condições a bordo do navio eram indescritíveis e posteriormente foram referidas como “onze dias de horror”. Com pouca comida, o convés sobre-lotado e espaço insuficiente até para dormir, a maioria dos exilados ficou “muito indisposta”. Um dos companheiros adoeceu e teve de ser levado para o hospital em Esmirna, onde faleceu. ‘Abdu’l-Bahá organizou-lhe um funeral simples.

Alguns dias mais tarde, na manhã de 27 de Agosto de 1868, o navio austríaco chegou ao porto de Alexandria. Ali, Bahá’u’lláh e os Seus companheiros foram transferidos para outro vapor austríaco.

Porto de Alexandria (Egipto) em meados do séc. XIX
Entretanto, sem que os exilados soubessem, Nabil-i A'ẓam – um dos dezanove Apóstolos de Bahá’u’lláh e famoso historiador Bahá’í – tinha ido ao Egipto apelar ao governador turco para que libertasse outros sete ou oito prisioneiros Bahá’ís que ali se encontravam detidos (ver Shoghi Effendi, God Passes By, p. 178). Ninguém, entre os Bahá’ís, sabia exactamente onde é que esses crentes se encontravam presos em Alexandria.

Quando o navio austríaco ancorou na baía de Alexandria, vários exilados Bahá’ís desembarcaram para ir comprar mantimentos. Por sorte, um dos exilados, Aqa Muhammad-Ibrahim-i-Nazir, passou perto da prisão. Nabil, reconheceu-o ao longe e gritou-lhe.

Nessa prisão, Nabil tinha conhecido um Cristão que tinha tentado “salvar” a sua alma, tentando convertê-lo ao Cristianismo. Mas, segundo Nabil, os papeis inverteram-se rapidamente. “O médico estava naquela prisão. Ele tentou converter-me à Fé Protestante. Tivemos longas conversas e ele tornou-se Bahá’í.” Tratava-se do Dr. Effendi, também conhecido como “Faris, o sírio”, que estava preso devido a grandes dívidas. Nabil registou a sua narrativa:
No octogésimo primeiro dia do meu sonho, do terraço da prisão, vi Aqa Muhammad-Ibrahim-i-Nazir a passar na rua. Chamei-o e ele subiu. Perguntei-lhe o que fazia ali e ele disse-me que [Bahá’u’lláh] e os companheiros estavam a ser levados para Akka… e que ele tinha desembarcado na companhia de um polícia para fazer algumas compras.

O polícia, disse ele, “não me vai deixar ficar aqui muito mais tempo. Vou e informarei [‘Abdu’l-Bahá] da tua presença aqui. Se o barco se demorar aqui mais tempo, talvez venha visitar-te outra vez”. Ele deixou-me em brasas e foi-se embora.

O médico [Faris Effendi] não se encontrava ali nessa ocasião. Quando apareceu, encontrou-me lavado em lágrimas e recitando as seguintes palavras: “O Bem-Amado está ao meu lado e eu estou longe d’Ele; estou nas margens das águas da proximidade, e, no entanto, estou privado. Ó Amigo! Leva-me, leva-me a um lugar no navio da proximidade. Estou desamparado, estou vencido, sou um prisioneiro”.

Foi à noite que Faris... veio e viu a minha agonia. Disse-me: “Dizias-me que no octogésimo primeiro dia do teu sonho devias receber um motivo de regozijo, e que hoje é o octogésimo primeiro dia. Agora, pelo contrário, vejo-te profundamente perturbado”.

Respondi: “Na verdade, a causa de regozijo aparecei, mas ai de mim! A data está na palmeira e nossas mãos não podem alcançá-la”. Ele disse: “Conta-me o que aconteceu; talvez eu possa fazer alguma coisa”.

E assim, contei-lhe que [Bahá’u’lláh] estava no navio. Ele, tal como eu, ficou profundamente perturbado e disse: “Num dos próximos dias que não seja Sexta-feira… podemos, nós dois, obter permissão para ir a bordo do navio e estar na Sua presença. E ainda podemos fazer mais alguma coisa. Escreve o que quiseres; eu também vou escrever. Amanhã, um conhecido meu vem cá. Nós entregamos-lhe estas cartas para ele as levar ao navio”.

Escrevi a minha história e juntei alguns poemas que tinha escrito na prisão. Faris, o médico, também escreveu uma carta e descreveu a sua grande mágoa. Era muito comovedor. Colocámos tudo num envelope, que entregámos a um jovem relojoeiro chamado Constantino, para entregar ao início da manhã. Dei-lhe o nome do Khadim [Mirza Aqa Jan] e de alguns outros companheiros, disse-lhe como os podia identificar, e salientei que não devia entregar o envelope enquanto não encontrasse um deles.

Ele saiu de manhã. Nós ficámos a ver no topo do telhado. Primeiramente ouvimos um sinal e depois o barulho do movimento do navio; ficámos perplexos, com medo de não termos conseguido. Depois o navio parou e começou novamente após quinze minutos. Estávamos na expectativa quando, de repente, chegou Constantino. Entregou-me um envelope e um pacote embrulhado num lenço e gritou: “Por Deus! Eu vi o Pai de Cristo!”

Faris, o médico, beijou os seus olhos e disse: “O nosso destino foi o fogo da separação, o teu foi a bênção de ver o Bem-Amado do Mundo.” (Nabil-i A'ẓam, de uma história não publicada, traduzida por H.M. Balyuzi, Baha’u’llah, the King of Glory, pags. 267–268.)
Imagine-se o quão surpreendido deve ter ficado Constantino, o relojoeiro, ao contemplar Bahá’u’lláh pela primeira vez! Aquela primeira impressão tornou-se uma impressão permanente, quando ele – pleno de espanto e admiração – gritou para Faris: “Por Deus! Eu vi o Pai de Cristo!”

Estávamos no dia 28 de Agosto de 1868. Três dias mais tarde, Faris foi libertado da prisão, conforme prometido por Bahá’u’lláh. O segundo navio austríaco, com Bahá’u’lláh e os seus companheiros a bordo, partiu para Haifa.

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Texto original: The First Christian to Become a Baha’i (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 11 de agosto de 2018

As revoluções de 1848 e a sua relevância nos dias de hoje

Por Tom Lysaght.


Há muito que o ano de 1848 é conhecido na Europa como “O Ano da Revolução”.

O rei Luís Filipe foi forçado a abdicar do trono francês e fugiu do país disfarçado de comerciante. Enquanto a república era proclamada em França, a Hungria declarava a sua independência da Áustria. Em Viena, enquanto os revolucionários entravam no palácio real, o rei Ferdinando abdicava do trono e fugia da Áustria. Nos estados italianos, os rebeldes seguiam o exemplo húngaro e austríaco e expulsavam os vice-reis e governantes, e o Papa ficava apreensivo. Durante a noite, vestido como se fosse um simples sacerdote, o Papa Pio IX fugiu de Roma. Em Inglaterra, 100.000 membros do movimento Cartista reuniam-se para marchar em direcção ao Parlamento. A Suécia, a Irlanda e a Dinamarca também tiveram as suas revoltas em 1848.

Convenção de Seneca Falls
Uma revolta mais pacífica - mas não menos radical e transformadora - ocorreu numa aldeia no norte do estado de Nova Iorque nesse mesmo ano. Esse movimento foi único pelo facto da quase totalidade dos seus 300 participantes serem mulheres; a excepção foi Frederick Douglass, um abolicionista e ex-escravo.

A Convenção de Seneca Falls é considerada a primeira conferência sobre direitos das mulheres. Curiosamente, os anúncios sobre este encontro apareceram nos jornais no dia 14 de Julho, o mesmo dia em que terminava outra conferência, onde se anunciava a emancipação da mulher. Infelizmente, o mundo Eurocêntrico ignorou durante muito tempo o que aconteceu na aldeia de Badasht, na Pérsia, local cujo nome um dia será tão familiar para nós como Belém.

Em 2017, deu-se um reconhecimento extraordinário evento. Em várias celebrações realizadas em todos os países do mundo, celebrou-se o bicentenário do nascimento de Bahá’u’lláh, uma das duas personagens que convocaram essa conferência profundamente marcante.

De facto, houve dois eventos tremendos na Pérsia em Julho de 1848, que podem ser coonsiderados como a principal causa das repercussões revolucionárias que sentiram no resto do mundo durante esse ano.

Desde essa década, reis e clérigos começaram a ser despojados de poder e caíram às mãos do povo.

Nessa mesma década de 1984, uma febre milenarista varreu os mundos Judaico-Cristão e Muçulmano. Rabinos e académicos Judeus, como Judah Alkalai e A.H. Silver consideravam 1840 como o tempo do Messias; “adventistas” como William Miller afirmavam que 1844 era a data prometida pela Bíblia para o regresso de Cristo; templários alemães foram viver para a Palestina e construíram as suas casas no sopé do Monte Carmelo para estarem próximos quando ocorresse a Segunda Vinda; os Muçulmanos consideravam o ano 1260 A.H. (1844 EC) como o momento em que o Qaim (ou o Mahdi) – o Prometido do Islão – surgiria como salvador espiritual.

Apesar dessas expectativas e profecias da década 1840, e das mudanças sociais revolucionárias iniciadas nesse tempo, a maioria dos Judeus ainda espera pelo seu Messias, tal como a maioria dos Cristãos aguarda o regresso de Cristo, e a maioria dos Muçulmanos espera pelo seu Qa’im. Estariam as expectativas e profecias incorrectas? Será que as mudanças sociais mundiais da década de 1840 forma mera coincidência? No seu livro O Ladrão na Noite, William Sears aborda este enigma.
Quando uma abundância esmagadora de provas aponta apenas para uma conclusão possível, e essa conclusão Mostra estar errada, nunca é sensato descartar todas as evidências como estando erradas. É mais sensato assumir que talvez as evidências estejam correctas, e que outra interpretação totalmente diferente dos factos, ou uma conclusão completamente diferente se possa extrair dessas mesmas provas. (p.30)
Os Bahá’ís apresentam uma conclusão alternativa.

As profecias bíblicas referem que “duas testemunhas” (Apocalipse 11:3) são necessárias para dar início ao tão aguardado Dia Prometido; por seu lado, o Alcorão profetiza que “dois toques de trombeta” (39:68) anunciarão o dia da renovação. Em Julho de 1848, na Pérsia, foi reunido um tribunal para inquirir um conhecido homem santo, considerado herético, e conhecido como Báb (“A Porta”). No entanto, o Báb usou essa oportunidade de julgamento público para proclamar perante as mais altas instituições persas, que Ele era o Prometido aguardado, não só pelo Islão, mas também por todas as religiões.

Simultaneamente, num outro local mas com o mesmo propósito do Báb, Bahá’u’lláh era o principal impulsionador daquela histórica conferência de Badasht, onde a emancipação da mulher foi primeiramente proclamada por Tahirih, uma poetisa e heroína Babi.

Poderiam um prisioneiro e um nobre persas ser os dois portadores de uma nova mensagem divina para a humanidade? É precisamente isso que os Bahá’ís em todo o mundo celebram durante os anos dos bicentenários dos nascimentos de Bahá’u’lláh e do Báb. Mas porque o primeiro princípio da sua religião é a livre e independente pesquisa da verdade, Eles não queriam que nos limitássemos a acreditar neles. No fundo, a religião não pode continuar a ser uma consequência do local onde nascemos ou uma questão de fé cega. Em vez disso, Eles querem que investiguemos as fontes:
Em verdade digo, este é o Dia em que a humanidade pode contemplar a Face e ouvir a Voz do Prometido. Ergueu-se o Chamamento de Deus e a luz do Seu semblante levantou-se sobre os homens. Compete a todo o homem eliminar todo o vestígio de palavras fúteis da tábua do seu coração, e olhar, com mente aberta e sem preconceitos, os sinais da Sua Revelação, as provas da Sua Missão, e as marcas da Sua Glória. Grande é, de facto, este Dia! As alusões que lhe são feitas em todas as Sagradas Escrituras como o Dia de Deus atestam a sua grandeza. A alma de todo o Profeta de Deus, de todo o Mensageiro Divino, estava sequiosa por este Dia maravilhoso. As diversas raças da terra, de igual modo, desejavam alcançá-lo… Deus permita que a luz da unidade possa envolver toda a terra. (Baha’u’llah, Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, VII)

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Texto Original: The Revolutions of 1848, and Their Relevance Today (www.bahaiteachings.org)

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Tom Lysaght é autor de várias peças de teatro, nomeadamente “Heralds of the Covenant” (que foi exibida Durante o Congresso Mundial Bahá’í de 1992). Foi director da Radio Baha’i do Lago Titcaca (Peru) e é autor do site Your Creative Stage que pretende lançar o teatro como instrumento de construção de comunidades.

sábado, 14 de abril de 2018

Tahirih: a Emancipadora das Mulheres no Médio Oriente

Por Linda Ahdieh.

Em meados do século XIX, um jovem persa chamado Siyyid Ali Mohammad - o Bab - anunciou ser o Prometido de Deus.

Os fiéis Muçulmanos, que durante anos desejaram a vinda do Prometido, viram-se subitamente perante dúvidas, alegria enorme e esperança desenfreada. O Báb (que significa “o Portão”) afirmava que tinha chegado uma nova Fé e desafiou as pessoas a investigarem livremente as Suas afirmações. Alguns ficaram inebriados de amor pelo Báb e abraçaram a sua causa. Outros, confusos, continuaram perdidos na procura da verdade. E houve ainda outros que, com o maior preconceito e descrença, e temendo perder o seu estatuto e autoridade, tentaram apagar a chama da recém-nascida Fé Bábi.

Inspirados por profecias dos textos sagrados e pela orientação e ensinamentos dos seus mestres espirituais, várias pessoas procuravam a verdade e viajavam em busca do Prometido. Antes do Bab proclamar publicamente a Sua nova Fé, dezoito seguidores (conhecidos na história como Letras dos Viventes) reconheceram-No de forma independente e levantaram-se para divulgar os Seus ensinamentos.

Entre as dezoito Letras dos Viventes havia uma única mulher. Ela aderiu à fé do Báb numa época em que as mulheres eram, na prática, servas dos homens e estavam absolutamente privadas de qualquer poder, reconhecimento ou voz. As pessoas acreditavam que as mulheres eram fracas, que eram criadas apenas para ter filhos e cuidar do lar, e que não tinham qualquer papel na sociedade.

Num ambiente desses, o aparecimento de uma mulher altamente educada, revolucionária e corajosa, com sabedoria e conhecimento incomparáveis, foi um acontecimento único e espantoso. Esta mulher nobre e distinta, chamada Fatimeh, era como uma estrela brilhante, iluminando a Pérsia com as suas palavras poéticas e acções corajosas. Tornou-se uma figura mítica, que ainda hoje é reverenciada.

Casa de Tahirih em Qazvin.
Fatimeh era filha de um conhecido clérigo muçulmano de Qazvin. O seu tio também era um clérigo particularmente influente e tinha autoridade absoluta na cidade. Desde muito nova, Fatimeh estudou profundamente os temas religiosos. Teve a sorte de poder aceder à biblioteca particular do seu pai e da sua prima, o que lhe permitiu passar grande parte do seu tempo a aprender, estudar e investigar. Rapidamente, a sua compreensão profunda e o poder das suas palavras eloquentes atraíram os corações de muitos dos seus familiares e amigos, e sua fama como erudita e pensadora poderosa cresceu.

Com os seus estudos - e apesar da forte oposição do pai e do tio - ela desenvolveu um interesse pelos ensinamentos dos Shaykhi Sufis. Por fim, reconheceu a verdade dos ensinamentos do Shaykh Ahmad Ahsai - que tinha previsto o aparecimento do Prometido - e começou a corresponder-se com o seu sucessor, Siyyid Kazim Rashti. O seu estilo de escrita e os temas da sua investigação foram tão convincentes e profundos que Siyyid Kazim lhe concedeu o título de “Consolo dos Olhos” (Qurratu'l-Ayn).

Os alunos de Siyyid Kazim, que sabiam sobre o seu profundo conhecimento, pediram-lhe que lhes fosse permitido aprender com ela. Ela aceitou o pedido deles e - porque uma mulher naquele tempo e lugar não podia enfrentar homens em público - deu as aulas por detrás de uma cortina, respondendo às muitas perguntas sobre religião e jurisprudência dos seus novos alunos. Isso aumentou a sua fama nos países vizinhos. Ter uma mulher professora na escola de jurisprudência era algo inédito!

Durante esses anos, a notícia do aparecimento do Báb espalharam-se pelas cidades e montanhas, e chegaram a Fatimeh, primeiramente num sonho, quando ela:
... jejuava de dia, praticava disciplinas religiosas, passava a noite em vigílias e entoava orações. Certa noite, quando se aproximava o amanhecer, deitou a sua cabeça na almofada, perdeu toda a consciência desta vida terrena e teve um sonho; na sua visão, um jovem, um Siyyid, vestindo um manto preto e um turbante verde, apareceu-lhe no céu; ele parado no ar, a recitar versículos e a rezar com as mãos erguidas. Imediatamente, ela memorizou um desses versículos e escreveu-o no seu caderno quando acordou. Depois do Bab anunciar a Sua missão... um dia, [ela] estava a ler uma parte de um texto, e encontrou o mesmo versículo, que tinha escrito após o sonho. Imediatamente deu graças, e caiu de joelhos curvando a testa no chão, convencida de que a mensagem do Bab era a verdade. (‘Abdu’l-Bahá, Memorials of the Faithful, pp. 193-194)
Numa carta e em algumas linhas de poesia, ela transmitiu ao Bab o seu reconhecimento da Sua mensagem. Ao receber a carta de Fatimeh, o Bab aceitou a sua fé - e ela tornou-se a única mulher entre as Letras dos Viventes.

Isto demonstrava que, na nova revelação, mulheres e homens são iguais, e que as mulheres rapidamente conquistariam um lugar central na sociedade.

Após reconhecer a nova revelação, Fatimeh dedicou a sua vida à divulgação os ensinamentos do Báb. Isso trouxe-lhe muitos problemas e enorme sofrimento. À medida que a sua fama crescia, aumentava a oposição pública da sua família contra ela. Fatimeh ignorou os ataques, e através das suas palavras escritas e proferidas, chegou a muitos Bábis em todo o país e regou a árvore da sua fé.

Em 1848, deslocou-se à aldeia de Badasht, onde participou numa importante conferência planeada por Bábis proeminentes para anunciar a nova revelação e revogar a lei muçulmana. Nesta conferência, recebeu o título de "Tahirih" - “a Pura”.

Durante a conferência de Badasht, Tahirih desempenhou um papel histórico que simbolizou a separação da Fé Bábi de anteriores dispensações religiosas. As suas acções ilustraram a absoluta independência da revelação do Báb e também elevaram o estatuto e a condição das mulheres em todo o Médio Oriente. Na conferência, Tahirih retirou o véu que lhe cobria o rosto em público - um acto simbólico absolutamente chocante para aquele tempo e lugar - e aconselhou todas as mulheres a levantarem-se e a reivindicarem os direitos humanos dados por Deus, encorajando-as a lutar na área da educação e serviço social. Defendeu aberta e radicalmente a emancipação das mulheres.

Dois anos após a conferência, foi detida e levada para Teerão; ficou presa e em 1852 foi assassinada por ordem da corte real. Como milhares de Bábis durante esse tempo, ela deu a sua vida pelas suas crenças. A história reconheceu a grande contribuição de Tahirih para a reforma social e colocou-a entre aquelas mulheres cujos nomes iluminarão para sempre a história da humanidade. Edward G. Browne, um conceituado orientalista britânico, escreveu:
O aparecimento de uma mulher como Qurratu'l-Ayn é em qualquer país e em qualquer época um fenómeno raro, mas num país como a Pérsia é um prodígio, ou melhor, quase um milagre. Igualmente devido à sua maravilhosa beleza, aos seus raros dons intelectuais, à sua fervorosa eloquência, à sua destemida devoção e ao seu glorioso martírio, ela destaca-se de forma incomparável e imortal entre as suas compatriotas. Se a religião Bábi não tivesse outra pretensão de grandeza, isto seria suficiente: produziu uma heroína como Qurratu'l-Ayn.

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Texto Original: Tahirih: the Great Emancipator of Middle Eastern Women (www.bahaiteachings.org)

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Linda Ahdieh Grant pertence à sétima geração de Bahá’ís. Tem Doutoramento na John Hopkins University School of Public Health e foi professor de epidemiologia. É casada em tem dois filhos. Actualmente é professora na School of Public Health at Emery University, em Atlanta, Georgia.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Bahá’u’lláh e a Revolução Russa

Por Baron Harper.


Há um século atrás, Vladimir Lenine levou o partido bolchevique - que ele tinha fundado - a derrubar o governo provisório de Alexander Kerensky.

A revolução que Lenine preparou arduamente durante anos teria amplas consequências nas décadas que se seguiram a 1917. Sendo reconhecidamente ateu, Lenine aderiu ao movimento revolucionário na Rússia czarista. Mais tarde, o seu fervor revolucionário intensificou-se quando o seu amado irmão mais velho foi enforcado por conspirar para assassinar Czar Alexandre III.

Vladimir Lenine
Lenine era um leitor ávido de literatura política revolucionária - incluindo “O Capital” de Karl Marx - e tornou-se marxista em 1889. Quando tentava unificar os grupos marxistas russos, esforçou-se por minar a veneração dos trabalhadores pelo Czar e afirmou que o capitalismo estava a destruir rapidamente a comuna agrícola - uma comunidade autónoma de famílias camponesas. Lenine acreditava que o proletariado - o povo da classe trabalhadora - nunca poderia entender que, ao derrubar capitalismo, só seria possível construir o socialismo marxista com um núcleo duro de revolucionários que governasse esse movimento.

Lenine nasceu durante o reinado do Czar Alexandre II, que reinou entre 1865-1881 e que foi saudado como o "Czar libertador" por ter libertado os camponeses servos. Na Rússia, a servidão era um estado de sujeição que vinha desde a Idade Média, em que as pessoas eram obrigadas a prestar serviços a um senhor e à sua terra.

Conhecido pelas opiniões liberais, Alexandre II foi um dos oito soberanos a quem Bahá’u’lláh Se dirigiu nas Suas singulares Epístolas aos reis e governantes na década de 1860. Para Alexandre II e os governantes que, no século XIX, exerciam autoridade absoluta civil e eclesiástica, escreveu:
Harmonizai as vossas diferenças e reduzi os vossos armamentos, para que o fardo das vossas despesas possa ser aliviado e para que as vossas mentes e corações possam ficar tranquilos. Sarai as dissensões que vos dividem… Ficámos a saber que aumentais as vossas despesas todos os anos e que colocais o respectivo fardo sobre os vossos súbditos. Em verdade, isto é mais do que eles podem suportar e é uma penosa injustiça. (SEB, CXVIII)
Especificamente para o Czar Alexandre II, Bahá’u’lláh declarou:
Em verdade, ouvimos aquilo que suplicastes ao teu Senhor, quando comungavas em segredo com Ele. Por isso, a briza da Minha benevolência soprou, e o mar da Minha misericórdia agitou-se, e respondemos-te em verdade. O teu Senhor, verdadeiramente, é o Omnisciente, o Sapientíssimo. (The Summons of the Lord of Hosts, p. 83)
Bahá’u’lláh disse aos governantes mais poderosos do mundo que os seus reinos terminariam se eles não prestassem atenção aos Seus avisos. Dirigindo-se ao Czar Nicolau II, escreveu:
Ó orgulhosos da terra! Acreditais que viveis em palácios enquanto Aquele Que é o Rei da Revelação reside na mais desolada das moradas? Não, por Minha vida! É em túmulos que habitais, se apenas o percebêsseis! (Idem, p. 87)
As políticas liberais do Czar tiveram a oposição dos nobres que perdiam posição e influência. Posteriormente, Alexandre II aceitou as suas pressões e iniciou uma política reaccionária que provocou uma desilusão generalizada, niilismo, agitação e terrorismo no seu império - e o que levou ao seu assassinato em 1881.

O seu filho, Alexandre III, que reinou de 1881-1894, prosseguiu uma política de repressão severa e hostilidade desafiadora para as vozes inovadoras e progressistas que apelavam para mudanças sociais. Ele acreditava que a ortodoxia, a autocracia e a nacionalismo russos salvariam a Rússia da agitação revolucionária. Invertendo algumas das reformas liberais do seu pai, decretou que o seu autoritarismo não teria limites.

Alexandre III morreu de nefrite aos 49 anos, em 1894. Quando o seu sucessor, Nicolau II, que reinou entre 1894-1917, se viu imperador da Rússia, perguntou ao seu primo: "O que vai acontecer comigo e com toda a Rússia?"

O Czar Nicolau II
Destinado a ser o último dos Romanov, que governavam desde 1613, Nicolau, com 26 anos, casou apressadamente com a princesa Alice (Alexandra), tornando-se ela a única pessoa em que podia confiar. Como Czar, Nicolau decidiu governar segundo o modelo do seu falecido pai. A sua política resoluta de repressão e absolutismo contribuiria para o declínio do Império Russo, acabando com a sua hegemonia e deixando de ser uma das grandes potências do mundo.

Debilitado por uma burocracia corrupta, humilhado numa guerra com o pequeno Japão em 1905, culpado pelo massacre do “Domingo Sangrento” (1389 pessoas) no mesmo ano, e arruinado pela morte de mais de 3.300.000 russos que ele quis liderar na Grande Guerra, Nicolau foi forçado a abdicar no início de 1917 - há um século. Ele e a sua amada consorte, juntamente com os seus cinco filhos, foram mantidos em prisão rigorosa pelo governo provisório de Kerensky até que surgisse a oportunidade de os exilar no estrangeiro. Em vez disso, os bolcheviques liderados por Lenine tomaram o poder em Outubro de 1917, e passado um ano executaram o czar e a sua família.

Ao acusar a conspiração leninista pela destruição brutal do primeiro governo democrático estabelecido na Rússia, a Casa Universal de Justiça condenou a revolução russa dos bolcheviques:
Durante longos anos, o sistema soviético criado por Vladimir Lenine conseguiu apresentar-se a muitos como um benfeitor da humanidade e o defensor da justiça social. À luz dos acontecimentos históricos, essas pretensões eram grotescas. A documentação agora disponível fornece provas irrefutáveis de crimes tão enormes e loucuras tão abismais que não tem paralelo nos seis mil anos de história registada. A um grau nunca antes imaginado, e nem sequer tentado, a conspiração leninista contra a natureza humana também procurou sistematicamente extinguir a fé em Deus... O seu efeito espiritual a longo prazo, tragicamente, era perverter, para o serviço da sua própria agenda amoral, os anseios legítimos de liberdade e justiça dos povos oprimidos em todo o mundo. (Century of Light, pp. 61-62)
Um século após a revolução russa, a crescente agitação entre populações civis em todo o mundo foi incapaz de criar um sistema justo e equitativo de governação internacional. Apesar de se apresentarem reivindicações, de se comprometerem lealdades, de se travarem batalhas, de se reformularem tratados e de se derrubarem governos, a verdade é que, em todo o mundo, os povos ainda se sentem desconfiados, em conflito e sem liderança. E podemos reflectir sobre uma das mais duras lições da Revolução Russa: que os bolcheviques substituíram uma autocracia indiferente por uma ditadura brutal, que se tornou responsável por engendrar atrocidades muito piores do que alguma vez se poderia ter imaginado sob domínio dos czares. Essa lição recorda-nos que as lutas tradicionais pela mudança podem piorar em vez de melhorar as condições - mas, ainda mais importante, lembra-nos que nenhum governante, por mais poderoso que seja, pode ignorar as advertências de um profeta de Deus. Bahá’u’lláh deu à humanidade um caminho para uma mudança positiva quando apelou aos governantes do mundo que estabelecessem a unidade através da justiça: "O propósito da justiça é o aparecimento da unidade entre os homens". (Tablets of Baha’u’llah, p. 66)

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Texto original: Baha’u’llah and the Revolution in Russia (www.bahaiteachings.org)

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Barron Harper é um consultor fiscal internacional. Aceitou a Fé Bahá’í em 1967, serviu em instituições Bahá’ís locais e nacionais nos Estados Unidos, Argentina e Portugal, e é autor de dois livros Bahá’ís - “Lights of Fortitude” (George Ronald Press) e “Unfurling the Divine Standard".

domingo, 9 de julho de 2017

Dr. William Cormick, o médico que tratou o Báb


Durante o seu cativeiro final, o Báb ficou ferido (mais do que o pretendido) ao ser espancado pelos guardas. Talvez porque os seus ferimentos eram visíveis para todos, as autoridades chamaram o melhor médico da região, o Dr. William Cormick, para O tratar. O relato do Dr. Cormick sobre os seus encontros com o Báb agora é parte da história Bábí-Bahá'í.

Cormick geralmente é descrito (não muito correctamente) como "um médico ocidental" ou "o único ocidental que conheceu o Báb" ou (incorrectamente) como "um médico inglês". Cormick nasceu em Tabriz, filho do Dr. John Cormick, do condado de Kilkenny, na Irlanda. E sua esposa era uma persa cristã. O Dr. John Cormick estabeleceu um consultório médico bem-sucedido e enviou o seu filho William para a Europa para ser educado e formado em medicina. Concluiu os seus estudos de medicina na Universidade de St. Andrews na Escócia, e depois regressou a Tabriz, onde trabalhou como médico.

Em 1850, o Dr. William Cormick estava apenas em Tabriz como resultado da política. Tinha sido médico do Príncipe Herdeiro da Pérsia, Nasir'd-Din Mirza e esperava-se que fosse com ele para Teerão como médico da corte quando o príncipe se tornou Shah em 1850. No entanto, esta deslocação impedida por motivos políticos e ele ficou em Tabriz, onde prosperou a exercer medicina; ficou rico e recebeu várias honras oficiais.

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Sobre este assunto:
-- The man who met the Báb
-- CORMICK, WILLIAM (Encyclopedia Iranica) 
-- Dr William Cormick
-- Dr. Cormick's Accounts of his Personal Impressions of Mirza 'Ali Muhammad, The Báb

sábado, 13 de maio de 2017

Em busca da Arca da Aliança

Por David Langness.


Provavelmente já viram o filme “Os Salteadores da Arca Perdida” (“Os Caçadores da Arca Perdida”, no Brasil), de Steven Spielberg, onde Indiana Jones vive aventuras emocionantes e cheias de acção, em busca da Arca da Aliança.

Nos “Salteadores”, a arca que Indiana Jones procura tem uma longa história de veneração e ocultação, e possui poderes notáveis devido às suas antigas origens religiosas. No filme, todos querem ficar com ela, e essa perseguição competitiva estimula a acção implacável do filme.


Spielberg não inventou a Arca da Aliança para desenvolver a sua história; ele pegou numa verdadeira lenda que tem raízes profundas em toda a história religiosa e cultural. A verdadeira Arca da Aliança aparece nas escrituras sagradas de diversas religiões, e define um rumo em todas as religiões abraâmicas. O Livro do Êxodo no Antigo Testamento descreve a Arca da Aliança como um cofre construído para guardar as duas tábuas da lei, as duas placas de pedra que continham os Dez Mandamentos revelados a Moisés:
E deu a Moisés (quando acabou de falar com ele, no monte de Sinai) as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus. (Êxodo 31:18)
Essas duas "placas" de pedra (referidas como “tábuas”) e o cofre de madeira banhada a ouro que as guardava desempenham papéis importantes no Antigo Testamento, no Novo Testamento e no Alcorão. No Livro do Êxodo, Deus ordena a Moisés que construa uma Arca para guardar a lei de Deus, e depois a Arca faz acontecer milagres poderosos, separando o Rio Jordão e ajudando a derrubar os muros de Jericó. A descrição detalhada no Êxodo diz-nos exactamente como é a Arca da Aliança – as suas medidas exactas, o seu revestimento de ouro, os seus dois querubins que adornam um kapporet ou uma capa de ouro, a que os cristãos chamam Propiciatório. Guardado no Santo dos Santos, o santuário interior do antigo Templo de Jerusalém, a Arca serviu como a representação física da lei de Deus e do pacto divino entre o Criador e a Sua criação.

Há milhares de anos que historiadores e teólogos debatem a realidade física da Arca da Aliança, e existem centenas de livros sobre o assunto. Moisés gravou - verdadeiramente - as duas placas de pedra com os Dez Mandamentos enquanto as recebia de Deus, e depois guardou-as numa verdadeira caixa de ouro?

Muitas seitas e denominações religiosas assumem esta história bíblica como literalmente verdadeira. Essa interpretação literal produziu dúzias de alegações e teorias sobre o paradeiro actual da Arca perdida, incluindo o Monte Nebo, perto do Rio Jordão, o túmulo do rei Tut no Egipto, numa caverna nas montanhas Dumghe, na África Austral, sob o Monte do Templo, em Jerusalém, escondido na catedral de Chartres, em França, enterrada numa colina na Irlanda ou disfarçada perto da Igreja Cristã Abissínia de Nossa Senhora do Monte Sião em Axum, na Etiópia. (Ninguém parece ter encontrado a Arca, excepto Indiana Jones.)

Outros vêem a Arca da Aliança apenas como um símbolo poderoso, representando a presença de Deus e a promessa aos hebreus. Mas porque as histórias bíblicas dizem que os seguidores de Moisés transportaram a Arca durante os quarenta anos em que andaram pelo deserto, depois de se libertarem da escravidão, ela acabou por representar o "receptáculo" da promessa de Deus, a Sua aliança sagrada mutuamente vinculativa com os Filhos de Israel. Esse pacto primordial declara essencialmente que Deus continuará a guiar os Seus filhos, desde que estes sigam os Seus mandamentos e "não tenham outros deuses além de Mim".

Mas, independentemente da sua existência real ou alegórica, a Arca da Aliança representa um acordo amplo e eterno em todos os ensinamentos religiosos - a continuidade eterna da orientação de Deus para a humanidade:
... é um princípio básico da Lei de Deus que, em cada Missão Profética, Ele estabeleça uma Aliança com todos os crentes - uma Aliança que perdura até ao fim dessa Missão, até ao dia prometido quando a Personagem estipulada no início do Missão se manifesta. Considere-se Moisés, Aquele que conversou com Deus. Na verdade, no Monte Sinai, Moisés estabeleceu uma Aliança relativa ao Messias, com todas aquelas almas que viveriam no dia do Messias. E essas almas, apesar de terem surgido muitos séculos depois de Moisés, estavam, no entanto, - no que diz respeito à Aliança, que é intemporal - ali presentes com Moisés. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of ’Abdu’l-Bahá, nº 181)
Este princípio místico - que todo ser humano tem a oportunidade de participar numa aliança com Deus - existe também nos ensinamentos Bahá’ís. Na verdade, os Bahá’ís acreditam em dois tipos de alianças religiosas:
Existe... a Aliança Maior que cada Manifestante de Deus faz com os Seus seguidores, prometendo que na plenitude dos tempos um novo Manifestante será enviado, e obtendo deles o compromisso de O aceitar quando isto ocorrer. Há também a Aliança Menor que um Manifestante de Deus faz com os Seus seguidores para que eles aceitem o Seu sucessor depois d’Ele. Se assim fizerem, a Fé poderá permanecer unida e pura. Caso contrário, a Fé divide-se e a sua força gasta-se. (A Casa Universal da Justiça, Messages 1963 to 1986, p. 737)
Então, como podemos encontrar a Arca da Aliança? Os ensinamentos Bahá'ís dizem que cada um dos profetas, mensageiros e manifestantes de Deus trazem essa aliança com eles, para garantir aos seus seguidores e aos seus descendentes que Deus não os abandonará desprovidos de orientação agora e no futuro:
O Senhor do universo jamais levantou um profeta, nem fez descer um Livro, sem que tivesse estabelecido a Sua aliança com todos os homens, apelando à sua aceitação da Revelação seguinte e do Livro seguinte, na medida em que as efusões da Sua generosidade são incessantes e sem limites. (O Bab, Selections from the Writings of the Bab, p. 87)
Esta garantia, renovada em cada revelação, dá-nos uma sequência contínua de alianças espirituais ao longo da história. Todas as alianças proféticas do Antigo Testamento de Noé, Abraão, Moisés, Arão e David, prometem uma orientação e bênçãos divinas duradouras em troca da fidelidade do povo. Também prometem a vinda do Messias, e o Reino de Deus na Terra.

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Texto original: Finding the Ark of the Covenant (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Os Bahá’ís e os Nazis

Por David Langness


Há alguns anos atrás, quando terminei uma palestra alguém me perguntou: "Qual é a anti-Fé Bahá'í? Por outras palavras, há um grupo no mundo, que representa o ponto de vista diametralmente oposto dos ensinamentos Bahá'ís?"

Tive de pensar na questão durante um minuto. Essa pergunta nunca me tinha passado pela cabeça. Pela minha experiência, os Bahá’ís são tipicamente pessoas afectuosas, bondosas, gentis e acolhedoras; assim, tentei imaginar o que podia parecer o oposto.

Foi então que me lembrei que Heinrich Himmler proibiu a Fé Bahá'í na Alemanha nazi, em 1937; e percebi que o partido nazi e as suas acções, provavelmente, estão muito próximo daquilo que pode representar o completo oposto da Fé Bahá'í.

Os nazis acreditavam numa raça superior, na superioridade eugénica e na supremacia dos arianos sobre qualquer outro ser humano. Os Bahá’ís acreditam na unicidade da raça humana, na eliminação de todos os preconceitos e na unidade da humanidade. Os nazis acreditavam no domínio militar de um país sobre todas as nações. Os Bahá'ís acreditam na terra como um só país. Os nazis acreditavam na violência e guerra. Os Bahá’ís acreditam na paz mundial. Os nazis acreditavam em exterminar os seus inimigos. Os Bahá'ís acreditam que devemos amar os nossos inimigos. Os nazis acreditavam no ódio. Os Bahá'ís acreditam no amor.

Heinrich Himmler
Adolfo Hitler tornou-se o símbolo de todas as coisas más no mundo; mas Himmler, que eu nomearia como um concorrente a esse título, juntamente com Estaline e Mao, foi o principal responsável pelos campos da morte. Nesses campos de concentração - que ele montou, e controlou - supervisionou pessoalmente o extermínio de seis milhões de judeus, cerca de meio milhão de ciganos, provavelmente cinco milhões de polacos e russos, e os números incontáveis de gays e Bahá’ís.

A maioria de nós pensa nos campos de concentração nazis como um dos pontos mais baixos da história humana. Mas a maioria não sabe que os campos nazis não foram os primeiros.

Na verdade, o termo campo de concentração nem sequer é alemão; surgiu originalmente - acreditem ou não – com os britânicos, que o criaram durante a Segunda Guerra dos Bóeres (1899-1902) na África do Sul. Inicialmente criados como "campos de refugiados" para os civis forçados a sair das suas casas por causa da guerra, o exército britânico expandiu as suas implacáveis cidades-tenda em 1900 para "concentrar" todos os apoiantes e simpatizantes da guerrilha, incluindo mulheres e crianças - e impedir os Bóeres, os colonos brancos de língua africânder da África do Sul, de conseguir apoio ou vantagens entre a população.

Juntamente com os seus campos de concentração o exército britânico lançou-se em acções de "terra queimada" para destruir todas as plantações, gado, casas e quintas. Salgaram campos agrícolas e envenenaram poços. Porquê? A maioria concorda que a guerra foi travada, como tantas outras, por causa do ouro. Os britânicos e os bóeres queriam ambos controlar as vastas minas de ouro de Witwatersrand, que na época produziam uma parcela significativa da riqueza mineral do mundo - e ambos pensaram que poderiam roubar o ouro aos africanos .

Foram os britânicos os primeiros a transformar os centros de internamento em tempo de guerra em campos de concentração? Não. Os Estados Unidos foram os primeiros a fazê-lo; foi contra os nativos americanos, como os Navajos, no século XIX. Tenho um amigo próximo, uma artista Navajo, cuja bisavó foi internada em Fort Sumner por Kit Carson, o oficial genocida da cavalaria americana. Toda a sua família morreu, juntamente com milhares de pessoas. Mais ou menos ao mesmo tempo, os espanhóis criaram terríveis campos de internamento em Cuba, durante a Guerra dos Dez Anos (1868-1878). Os britânicos expandiram o conceito, e atingiram toda a África do Sul, limpando e despovoando vastas regiões do país. Enviaram a maioria dos combatentes Bóeres para prisões no estrangeiro, mas cerca de 28.000 mulheres e crianças Bóeres sofreram mortes terríveis, a maioria de doença e fome, nos brutais campos de concentração britânicos. Também se estima que mais de 14.000 africanos negros morreram nos seus próprios campos segregados.

Os alemães, que colonizaram o vizinho Sudoeste Africano (actual Namíbia), aprenderam rapidamente a táctica. Em 1904, o Exército Imperial Alemão criou vários campos de concentração e o Campo de Extermínio da Ilha de Shark teve um papel horrível no genocídio das tribos Herero e Namaqua.

Tudo junto, campos de concentração como os gulags soviéticos, as prisões de trabalho e “re-educação” dos chineses e os campos de trabalho forçado dos nazis assumem uma enorme e horrível dimensão durante o último século. Ninguém sabe quantas pessoas morreram em todos esses campos e, mas os historiadores estimam que entre 1 a 10 milhões morreram nos gulags, entre 15 a 27 milhões morreram nos campos de trabalho chineses. A maioria dos historiadores concorda que os campos nazis mataram pelo menos 10 a 11 milhões de civis e prisioneiros de guerra, entre 1933 e 1945.

Embora dos Bahá'ís europeus fossem em número reduzido em 1930, os ensinamentos Bahá'ís tinham atraído um grupo significativo de intelectuais, escritores e artistas de alto perfil (muitos de origem judaica) na Alemanha, assim como nos países do Leste Europeu (a comunidade Bahá’í alemã foi fundada em 1905). Como resultado desse crescimento Himmler, em nome do governo alemão, proibiu a Fé Bahá'í em 1937. Consequentemente, muitos Bahá’ís morreram.

Como podem os seres humanos mostrar tanta crueldade? Esta série de artigos vai explorar esse período da história, analisará a pouco conhecida Bahá’í durante o regime nazi, e tentará responder a questões importantes descritas no parágrafo seguinte (retirado de uma declaração da Casa Universal de Justiça, o órgão dirigente internacional da Comunidade Bahá’í):
De um ponto de vista Bahá’í, o facto da humanidade adorar a ídolos inventados por si própria tem importância não por causa dos acontecimentos históricos associados a essas forças, por muito horríveis que sejam, mas pelas lições que nos ensinam. Olhando para o mundo crepuscular em que essas forças diabólicas pairavam sobre o futuro da humanidade, devemos questionar qual a fraqueza da natureza humana que a tornou vulnerável a essas influências. Ver em alguém como Benito Mussolini a figura do "homem do destino", sentir a obrigação de compreender as teorias raciais de Adolfo Hitler como algo diferente de resultados auto-evidentes de uma mente doente, acolher seriamente a reinterpretação da experiência humana através de dogmas que deram à luz a União Soviética de José Estaline – um propositado abandono da racionalidade por parte de um segmento considerável da liderança intelectual da sociedade exige uma explicação para posteridade. (Century of Light, p. 62)
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Texto Original: The Baha’is and the Nazis (bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e critico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

domingo, 30 de junho de 2013

Os Anos em Bagdade


Um extenso relato do período em que Bahá'u'lláh esteve exilado em Bagdade (1853-1863), que na época era uma capital provincial do Império Otomano. As circunstâncias da revelação de diversos livros e epístolas, as actividades de crentes e inimigos, e a declaração da Sua Missão no jardim de Ridvan são os principais tópicos deste livro.

A reler nestes dias.

Para quem preferir, existe uma tradução brasileira deste livro.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Casa de Bahá'u'lláh em Bagdade

No Facebook, um Bahá’í da Alemanha colocou um post curioso. Segundo ele, um livro intitulado "Traditional houses in Baghdad" de Ihsan Fethi e John Warren, encontra-se uma fotografia rara da “Mais Grandiosa Casa”, em Bagdade. As janelas do segundo andar são provavelmente do quarto de Bahá'u'lláh. A foto colorida na capa do livro exibe também uma parte da residência.

Aqui ficam as fotos.

  




A história Babi e Bahá'í em Nayriz

Para a minha lista de livros a comprar!


Awakening: A History of the Babi and Baha'i Faiths in Nayriz from Nayriz.Org on Vimeo.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Fortaleza de Chiriq


Fotografia da fortaleza de Chiriq (no Azerbeijão Persa) onde o Báb esteve detido durante vários meses.
Esta foto foi disponibilizada por Ramin Abrishamian, no grupo "Baha'i Studies", no Facebook. Inicialmente esta foto foi colocada na página "Old Tehran Pictures".

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Epístola da Sabedoria (7)

HISTORICIDADE

A ênfase nos valores éticos e a tendência para o monoteísmo existente em muitos filósofos gregos sugere que existiu na Grécia uma forte difusão dos valores culturais e religiosos da Palestina Hebraica. A ideia dessa influência dos hebreus sobre os helénicos já tinha sido avançada por Sto Agostinho na sua obra A Cidade de Deus (VIII:11)
Alguns têm pensado que tendo Platão ido ao Egipto, poderia ter ouvido Jeremias, ou lido os seus escritos proféticos durante a viagem. Eu mesmo consignei esta opinião em alguns dos meus livros. Mas um cálculo mais apurado das datas, tais como se contêm na história cronológica, mostra que Platão nasceu cerca de cem anos depois da época em que Jeremias profetizou… Platão não pôde, no decurso da sua viagem, nem ver Jeremias, morto desde há muito tempo, nem ler as suas Escrituras ainda não traduzidas para grego, língua em que era exímio. A menos, talvez, que, apaixonado estudioso como era, tenha delas tido conhecimento por intérpretes, como aconteceu com as egípcias – sem se tratar de uma tradução escrita… Mas sem dúvida que conseguiu, com as suas conversações, tomar conhecimento, na medida do possível, do seu conteúdo. (A Cidade de Deus, VIII:11)

Agostinho também nota que que o Antigo Testamento ainda não tinha sido traduzido para grego no tempo Platão e sugere que é a graça de Deus – e não contactos culturais directos – que explica as semelhanças entre a filosofia grega e as tradições culturais judaico-cristãs.

A sequência cronológica com que Bahá’u’lláh descreve os filósofos gregos, e a relação cronológica com outras personagens históricas tem sido alvo de debate (a, b, c). Existem discrepâncias entre a descrição que Bahá’u’lláh faz da história da Grécia antiga e as actuais teorias históricas. Vejamos o seguinte exemplo:

O texto da Epístola declara que Empédocles era "…contemporâneo de David"[25] e que Pitágoras "…viveu nos dias de Salomão"[25]. Segundo os historiadores modernos, David e Salomão terão vivido no século 10 aC. e Pitágoras viveu no século 6 aC; Empédocles viveu no século 5 aC. Assim encontramos uma grande discrepância entre as datas hoje aceites pela investigação histórica e a exposição cronológica apresentada na Epístola da Sabedoria.

O facto de estas inexactidões constarem numa Epístola de Bahá'u'lláh pode suscitar algumas dúvidas sobre a possibilidade dos textos sagrados conterem erros históricos.

Convém aqui termos presente que a Epístola não pretende descrever uma sucessão de eventos históricos sobre os quais não existem provas. O objectivo é demonstrar a forma como a tradição filosófica da Grécia antiga foi influenciada pelo monoteísmo profético dos hebreus. Essa demonstração é feita de acordo com o enquadramento histórico e filosófico com que o destinatário da Epístola estava familiarizado.

Além disso, é importante ter presente que o conhecimento que os muçulmanos possuíam sobre as biografias dos gregos antigos vinha dos neoplatónicos gregos e dos autores cristãos. A maioria dos historiadores islâmicos era pouco rigorosa relativamente à datação de eventos anteriores ao surgimento do Islão; havia algumas excepções como Abu-Rayhan Biruni (973-1050) e o sírio Abu’l Fidá.

O próprio 'Abdu'l-Bahá afirmou que a datação de eventos anteriores a Alexandre o Grande é pouco fidedigna(d). Desta forma, as datas atribuídas por historiadores islâmicos a eventos pré-islâmicos podem ser consideradas meras aproximações.

Sobre este assunto a Casa Universal de Justiça esclareceu:

“O facto de Bahá’u’lláh fazer estas afirmações para ilustrar princípios espirituais que pretende transmitir, não significa necessariamente que Ele defenda a sua exactidão histórica"(e)

Assim, parece correcto afirmar que a Epistola da Sabedoria contém uma afirmação factualmente incorrecta para os actuais padrões de conhecimento e investigação histórica; no entanto, essa afirmação era válida no meio cultural em que vivia Nabil-i-Akbar, o destinatário da Epístola. Também devemos ter presente que a Epístola da Sabedoria pretende mostrar uma verdade espiritual (Jerusalém exerceu uma influência espiritual sobre Atenas) e não um facto histórico. Assim, temos de acreditar que os conceitos básicos transmitidos na Epístola são verdades infalíveis e eternas, apesar de algumas frases específicas, que sustentam esses conceitos, possam ser incorrectas fora do seu contexto original.

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(a) - Problems of Chronology in Baha'u'llah's Tablet of Wisdom, Juan Cole (1979)
(b) – Some chronological Issues in the Lawh-i-Hikmat of Bahá'u'lláh, Peter Terry (1999)
(c) - A study of Pre-Islamic sources on the relation of Greek Philosophers and Jewish sages, Amin Egea, (2007)
(d) - Epístola datada de 1906 dirigida à Sra Ethel Rosenberg
(e) – Citado em "Hermes Trismegistus...", Keven Brown, p. 178