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sábado, 11 de abril de 2020

A bela e triste história de amor do Báb e Sua Esposa

Por Kathy Roman.


Sou uma pessoa muito sentimental e adoro ler uma emocionante história de amor - e quando a história é verdadeira, então ainda melhor!

Uma das minhas narrativas preferidas na história da Fé Bahá’í é a história do Báb e da mulher que Ele apreciava acima de todas as outras: a Sua esposa Khadijih Bagum.

Tudo começou quando o Báb e Khadijih eram crianças. Eram primos em segundo grau e brincavam juntos, até que chegaram à idade em que, segundo as tradições islâmicas da sociedade persa, já não era permitido que estivessem juntos e se vissem. Quando o Báb completou 23 anos, a Sua mãe começou a procurar uma esposa para Ele.

Na mesma ocasião, Khadijih, que tinha cerca de 20 anos, teve um sonho vívido:
Uma noite vi no mundo dos sonhos, Fátima, a filha de Maomé, vindo a nossa casa e desejando que uma de nós se casasse com o seu filho. Eu e as minhas irmãs recebemo-la com afecto e cortesia. Quando ela se sentou, olhou-nos intensamente; depois levantou-se, aproximou-se de mim e beijou a minha testa. (Munirih Khanum, Episodes in the life of Munirih Khanum, Marriage of Khadijah to the Bab, pp. 32-33.)
Khadijih, acrescenta:
Na manhã seguinte, levantei-me e senti-me leve e feliz, mas tinha vergonha de contar o meu sonho a alguém. Na tarde desse mesmo dia, a mãe do Báb veio a nossa casa. Juntamente com as minhas irmãs, recebemo-la, e para minha surpresa, tal como tinha visto no meu sonho, ela levantou-se, aproximou-se de mim sorrindo, beijou a minha testa e abraçou-me. Após uma conversa normal, ela saiu. A minha irmã mais velha segredou-me ao ouvido que ela tinha vindo pedir a minha mão para o filho. Respondi: “Tenho tanta sorte!” Depois relacionei o meu sonho da noite anterior e disse a realização do meu sonho tinha trazido imensa alegria ao meu coração. (Idem)
Carta do Báb à Sua Esposa
O Báb e Khadijih casaram logo a seguir; o jovem casal estava muito apaixonado. Mas pouco depois do casamento, Khadijih teve um sonho assustador. Um leão feroz apareceu no seu pátio e ela agarrou-o com os braços à volta do pescoço. O leão arrastou-a pelo pátio dando duas voltas e meia. Quando Khadijih acordou na manhã seguinte, contou o sonho horrível ao seu marido. Ele explicou-lhe o significado do sonho – as suas vidas juntas não durariam mais do que dois anos e meio. E assim começou uma mudança nas suas vidas, com o casal a preparar-se para as muitas adversidades que viriam.

Um ano mais tarde, Khadijih, grávida do primeiro filho, ficou muito doente durante parto, colocando em risco a sua vida e a vida do bebé. A mãe do Báb assustada pela mãe e pela criança, pediu ao Báb que salvasse ambos. O Báb pegou num espelho e escreveu nele uma oração. Pediu à sua mãe que segurasse o espelho em frente da sua esposa Khadiji. Seguidamente, nasceu um menino a quem deram o nome de Ahmad. Mas pouco depois do seu nascimento, o bebé morreu.

A mãe de Báb ficou muito zangada e perturbada por o filho não ter conseguido salvar a mãe e o bebé, mas o Báb explicou que Deus não o destinara a ter filhos.

Seguidamente o Báb, que amava imensamente a sua mulher, escreveu-lhe estas palavras de conforto:
Ó bem-amada!... Não serás uma mulher, como outras mulheres, se obedeceres a Deus na Causa da Verdade, a maior das Verdades… Sê paciente em tudo o que Deus decretou. Em verdade, o teu filho Ahmad está com Fátima, a Sublime, no Paraíso santificado. (H.M. Balyuzi, The Bab, p. 47)
Khadijih, iluminada e espiritualmente amadurecida, notou que o seu amado marido não era um homem como os outros. Mas não tinha percebido o quão diferente ele era, até uma noite inesquecível. Algum tempo antes do Báb declarar a Sua Missão, Khadijih Bagum teve um encontro fascinante com o seu marido. No meio da noite, o Báb levantou-Se da cama e não voltou durante horas. Preocupada, Khadijih foi à Sua procura.
... ela viu a sala superior da Casa imersa em luz. Perguntou a si própria qual seria a fonte de toda aquela luz, e de onde teriam vindo todas aquelas lamparinas. Mas esta não era luz tangível; era luz divina, e ela não estava a ver com os seus olhos físicos, mas com a sua visão interior… Ali viu um Sol que iluminava o mundo e uma lua brilhante no meio da sala, com as Suas mãos levantadas em direcção ao céu. Apesar dos seus olhos estarem fixos na luz deslumbrante que emanava do Seu ser, um sentimento de temor e medo apossou-se dela. Queria sair dali, mas não era capaz de se mover. O seu temor cresceu tanto que se sentia entorpecida. (citado por Baharieh Rouhani Ma’ani, Twin Divine Trees, p. 34)
Na manhã seguinte, o Báb disse-lhe:
Sabei que o Deus Omnipotente se manifesta em Mim. Eu sou Aquele Cujo advento o povo do Islão esperou durante mil anos. Deus criou-Me para uma grande Causa, e tu testemunhaste a revelação divina. Apesar de eu não ter desejado que Me visses nesse estado, Deus, porém, assim o quis para que não houvesse qualquer espaço no teu coração para dúvida ou hesitação. Idem, p. 35)
Khadijih Bagum disse que assim que ouviu O Báb a proferir aquelas palavras, ela acreditou n’Ele… e o seu coração ficou calmo e seguro. Posteriormente, o Báb revelou uma oração para a sua amada Khadijih, para ser recitada nos momentos em que Ele estivesse ausente ou quando ela receasse pela sua segurança. Ele disse:
Na hora da tua perplexidade, recita esta oração antes de ires dormir. Eu próprio aparecer-te-ei e afastarei a tua ansiedade. (Nabil, The Dawn Breakers, p. 143)
O Báb e a Sua esposa Khadijih partilharam uma vida intensa de sacrifício, num momento que seria mais tarde conhecido como “A Hora da Alvorada” – o início de uma nova religião mundial. Apesar da feroz perseguição religiosa, separação forçada, e perda trágica do filho recém-nascido, os dois permaneceram firmemente dedicados um ao outro, e a Deus. O Báb descreveu a mágoa que sentiu quando se separaram:
Meu doce amor... Deus é minha testemunha que desde o momento da nossa separação, a mágoa tem sido tão intensa que não se pode descrever... (H.M. Balyuzi, Khadijih Bagum: Wife of The Bab)
Os dois recém-casados, muito apaixonados, estiveram pouco tempo juntos neste mundo. Mas durante esse curto período de tempo apreciaram cada dia e superaram cada adversidade. O seu amor resistiu até ao fim do tempo e estarão unidos em todos os mundos de Deus.

Tal como o Báb predisse, dois anos e meio depois do sonho de Khadijih com o leão, Ele foi martirizado… mas essa é outra história bela e trágica.

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Texto original: The Bittersweet Love Story of The Bab and His Beloved Wife (www.bahaiteachings.org)

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Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

O homem que conheceu Bahá’u’lláh

Por Joseph Roy Sheppherd.


Sentei-me no chão de uma sala cheia de gente, em casa do artista David Villasenor e ouvi o sr. Samandarí a falar em persa e a contar uma história sobre os momentos em que esteve na presença de Bahá'u'lláh.

Eu estava a ouvir um homem que conhecera Bahá'u'lláh, o fundador da Fé Bahá'í.

Imaginem, se conseguirem, o que é estar na presença de alguém que conheceu um mensageiro divino, Cristo, Buda ou Moisés. Tal como eu, iam querer absorver todos os detalhes daquilo que essa pessoa viu, ouviu e sentiu. Nesse dia, Tarazu'llah Samandari era um homem idoso com noventa e dois anos de idade e o seu filho Mihdi traduzia as suas palavras.

O sr. Samandari tinha dezassete anos quando fez a sua primeira longa viagem, desde a Pérsia até à colónia penal de Akka, onde Bahá'u'lláh estava preso há muitos anos. A viagem demorara várias semanas, mas valia a pena. Durante seis meses ficou na companhia da família de Bahá'u'lláh, e em várias ocasiões ouviu Bahá'u'lláh revelar as palavras de Deus à medida que ditava epístolas e orações.

Tarazu’llah Samandari
Na sua memória viva e lúcida, cada cena era como uma fotografia na sua mente. Ao relatar os eventos que testemunhara, ele descrevia até os pequenos detalhes. Contou que numa certa ocasião, Bahá'u'lláh pediu-lhe que distribuísse rosas a todas as pessoas presentes; ele apreciava a honra de ter prestado até esse pequeno e simples serviço. As suas histórias eram como pequenas janelas em diferentes momentos e lugares, onde podíamos ver com os seus olhos. Ele vira os primeiros Bahá'ís vindo de longe e caminhando como peregrinos, num esforço para conhecer pessoalmente o Autor dos ensinamentos Bahá'ís, que eles tinham lido e adoptado como a sua religião. Durante os primeiros anos de encarceramento de Bahá'u'lláh, os peregrinos aproximavam-se das portas da prisão e suplicavam que os deixassem entrar. Isto deixava os guardas da prisão confusos. Não conseguiam perceber como é que alguém podia querer tentar entrar na prisão.

Aqueles que obtinham permissão para entrar ficavam durante semanas ou meses em condições imundas e nauseabundas só para estar próximo de Bahá'u'lláh, o mensageiro de Deus. Naquela época as doenças alastravam na cidade-prisão, e por isso os peregrinos corriam um risco muito real de contraírem um problema fatal antes de saírem da cidade. Por vezes os peregrinos eram afastados e não lhes era permitido entrar. Tinham de se contentar em ficar para lá do fosso que cercava a cidade, e viam apenas a mão de Bahá'u'lláh que lhes acenava de uma das janelas gradeadas da sua cela. Ficavam com o coração despedaçado e caminhavam centenas de quilómetros de regresso às suas terras, tendo visto apenas a Sua mão.

À medida que o Sr. Samandari descrevia o que tinha visto, nós sentados víamo-nos envolvidos nas imagens das suas palavras. Ele tinha tido a sorte de chegar num momento em que as pessoas tinham mais facilidade em obter permissão para visitar Bahá'u'lláh. Contou-nos como a personalidade de Bahá'u'lláh convenceu os guardas e o governador da própria cidade-prisão. Reconheceram a Sua inocência e, mesmo sem a permissão dos seus superiores governamentais, permitiram-Lhe que vivesse fora das muralhas de Akká.

Através do tradutor, o Sr. Samandari descrevia humildemente a bondade e majestade de Bahá'u'lláh; eram memórias de um tempo em que ele era um jovem da minha idade. Quando terminou, houve quem perguntasse como era ter sido Bahá'í durante a época do próprio mensageiro de Deus. Ele afirmou que era uma honra em ter servido Bahá'u'lláh durante a Sua vida e posteriormente, e que é dever de todos responder às necessidades dos tempos em que se vive e fazer o que podemos como Bahá'ís.

Percebi que de certa maneira não tinha perdido o encontro com Bahá'u'lláh. É certo que eu não sentia que o desconhecia pois tinha lido os seus livros e reconhecido a origem divina dos Seus ensinamentos. E até conheci alguém que O conheceu. Acima de tudo, eu tornei-me um Bahá'í ao reconhecer a verdade dos ensinamentos Bahá'ís. Não era importante que tivesse visto Bahá'u'lláh com os meus próprios olhos ou ouvido o tom da sua voz com meus próprios ouvidos; o importante eram as suas palavras e ensinamentos. A mensagem ainda cá estava, mesmo que o mensageiro de Deus tivesse partido:
A luz é boa em qualquer lâmpada que esteja acesa! Uma rosa é bela em qualquer jardim que floresça! Uma estrela tem o mesmo esplendor quer brilhe no oriente ou no ocidente. Libertai-vos de preconceitos para que possais amar o Sol da Verdade em qualquer horizonte que ele se erga! Percebereis que a luz Divina que brilhou em Jesus Cristo também brilhou em Moisés e em Buda. Quem procura zelosamente chegará a esta verdade. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 137)
Na sala, alguém perguntou sobre o falecimento de Bahá'u'lláh. A voz do sr. Samandari ficou subitamente pesarosa; de forma relutante contou que estava entre os peregrinos visitantes e Bahá'ís residentes em Akka que foram chamados à presença de Bahá'u'lláh quando Ele estava deitado na cama, sendo cuidado pela Sua família. O sr. Samandari, que ainda era um jovem, percebeu que Bahá'u'lláh estava a morrer.

Fez uma pausa de depois repetiu o que Bahá'u'lláh disse ao grupo angustiado de Bahá'ís dedicados. A voz de Bahá'u'lláh era clara, mas suave devido à febre que contraíra. Falou da importância da unidade. A forma como o sr. Samandari falava e os seus gestos humildes, mesmo antes das suas palavras serem traduzidas do persa, tornavam óbvio o amor que ele tinha por Bahá'u'lláh. Antes de se despedir e se retirar, o sr. Samandari deu-nos a mesma mensagem que Bahá'u'lláh lhe tinha transmitido: que devemos estar unidos e promover a unidade no mundo:
Este é o Dia em que os mais excelentes favores de Deus foram derramados sobre os homens, o Dia em que a Sua mais poderosa graça foi incutida a todas as coisas criadas. Incumbe a todos os povos do mundo reconciliarem as suas diferenças e, em perfeitas paz e unidade, permanecer à sombra da Árvore da Sua protecção e amorosa generosidade. (Baha'u'llah, Gleanings, IV)

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Texto original: Meeting the Man Who Met Baha'u'llah (www.bahaiteachings.org)

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Joseph Sheppherd faleceu 2015. Foi um antropólogo e arqueólogo linguístico e cultural. Viveu nos Estados Unidos, Reino Unido, Panamá, Colômbia e Eslováquia. Passou vários anos entre os povos das selvas dos Camarões e da Guiné Equatorial. Foi professor, escritor, escultor, artista gráfico, artesão e pintor. Publicou 10 livros onde abordou diversos temas, desde assuntos profissionais até aos temas Bahá'ís, passando pela poesia, ficção e literatura infantil.

sábado, 30 de março de 2019

Como o Ocidente descobriu Tahirih

Por Hussein Ahdieh.


Depois de ter sido executada, a fama e o nome de Tahirih – poetisa Babi e defensora dos direitos das mulheres – espalhou-se quase imediatamente pelo Ocidente.

Justin Sheil, um general e diplomata britânico que serviu como representante da rainha Vitória na corte do rei da Pérsia, enviou a primeira referência conhecida da execução de Tahirih num despacho datado de 22 de Agosto de 1852:

Entre os que sofreram a morte encontrava-se uma jovem mulher, filha de um famoso professor de Direito em Mazindaran, que tinha estado detida durante três anos em Teerão. Ela era venerada como profetisa pelos Babees [Babis], e a designada entre eles como “Koorat ool ain” – “Pupila dos olhos” [na verdade, Qurrat’ul-Ayn significa “Consolo dos Olhos”]. Ela foi estrangulada por ordem do Xá. O Sedr Azim opôs-se a estes actos, mas a raiva e a vingança do Xá não lhe permitiram prestar atenção ao conselho (Moojan Momen, The Babi and Baha’i Religions, 1844-1944, Some Contemporary Western Accounts, p. 135.)

No dia seguinte, o príncipe Dolgorukov, embaixador russo na Pérsia, enviou o seguinte despacho:

… Durante muito tempo, esteve presa em Teerão, sob vigilância de Mahmud Khan, o chefe da polícia, um mulher Babi (Tahirih). Apesar disto, ela aparentemente encontrou forma de se encontrar diariamente com muitos membros da sua seita. Ela foi estrangulada num jardim, na presença de Ajudan-Bashi… (Ibid., p. 143)

Pouco depois, a execução de Tahirih era tema de um artigo de jornal The Times (de Londres), em 13 de Outubro de 1852. O título do texto era “Como castigam a traição Pérsia”.

Em 1852 a Fé Babi era pouco conhecida no Ocidente; e a Fé Bahá’í – que lhe sucedeu e completou -ainda não tinha surgido. Bahá’u’lláh, o profeta fundador da Fé Bahá’í – era nessa época um dos principais Bábis, e estava encarcerado numa prisão de Teerão, devido às suas crenças.

O artigo no jornal The Times, de Londres, incluía muito pormenores que ‘Abdu’l-Bahá – filho e sucessor de Bahá’u’lláh – mais tarde incluiria no seu livro Memorials of the Faithful. Nesse livro, ‘Abdu’l-Bahá recorda Tahirih e descreve o momento do seu martírio:

Trouxeram-na para o jardim onde o carrasco aguardava… colocaram-lhe um lenço entre os lábios e enfiaram-no pela sua garganta. Depois ergueram o seu corpo imaculado e lançaram-no num poço ali no jardim, e lançaram sobre ele terra e pedras. Mas Tahirih regozijava-se; ela tinha ouvido com a luz do coração as notícias do seu martírio; fixou os olhos no Reino celestial e ofereceu a sua vida. (‘Abdu’l-Bahá, Memorials of the Faithful, p. 203)

O primeiro livro a incluir uma referência a Tahirih foi “Glimpses of Life and Manners in Persia”, de Lady Mary Sheil, publicado em 1856:

Houve uma outra vítima. Esta era uma mulher jovem, filha de um mullah de Mazindaran, que, tal como o seu pai, tinha aceite os princípios do Bab. Os Babees, veneravam-na como uma profetisa; e chamavam-lhe Khooret-ool-eyn, palavras árabes que significam Pupila dos olhos. Depois da insurreição Babees ter sido subjugada na província, ela foi levada para Teerão e detida, mas foi bem tratada. Quando se deram estas execuções, ela foi estrangulada. Foi um acto cruel e desnecessário. (Lady Mary Sheil, Glimpses of life and manners in Persia, citada por Farzaneh Milani em Veils and Words, The Emerging Voices of Iranian Women Writers, p. 97)

O diplomata britânico Robert Grant Watson escreveu um livro intitulado A History of Persia – cobrindo a história na Pérsia na primeira metade do século XIX – que foi publicado em 1866. Nesse livro, Watson faz uma breve referência a Tahirih: “… a filha de um célebre professor de Direito, que era considerada pelos Babis como uma profetisa…” (pag. 409)

O primeiro livro – numa língua ocidental – sobre a história do Bab e dos seus seguidores foi The Báb and the Bábis: Religious and Political Unrest in Persia in 1848-1852, escrito em russo por Aleksandr Kazem-Bek, e publicado em 1865. Kazem-Bek era um filólogo que se dividia entre os mundos russo e persa; nasceu no Azerbaijão, viveu na Pérsia e faleceu em S. Petersburgo.

Em 1865, um médico austríaco, Jakob Polak, afirmou ter presenciado a execução de Tahirih – uma afirmação que nunca foi confirmada:

Testemunhei a execução de Qurret el ayn, que foi executada pelo ministro da guerra e seus ajudantes; a bela mulher suportou uma morte lenta com uma força sobre-humana (citado por Moojan Momen in The Babi and Baha’i Religions, 1844-1944, Some Contemporary Western Accounts, pp. 26-27)

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Texto original: How the West Found Out about Tahirih (www.bahaiteachings.org)

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Hussein Ahdieh nasceu em Nayriz, no Irão. Na sua adolescência foi viver para os Estados Unidos, onde mais tarde estudou História da Europa e concluiu um Doutoramento em Educação. Foi um elemento chave na criação da Harlem Preparatory School, de Nova Iorque; foi director do Programa de Estudos Superiores da Universidade de Fordham. É autor dos livros Abdu'l-Bahá in New York, AWAKENING: A History of the Babí and Bahá'í Faiths in Nayriz e de numerosos artigos e ensaios.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Bahá’u’lláh recebe o primeiro Cristão

Por Christopher Buck e Joshua Hall.


No artigo anterior falámos de Faris, o médico sírio que se tornou o primeiro Bahá’í de origem cristã, em 1868.

Também referimos o conhecido escritor e historiador Bahá’í, Nabil-i A’zam, ou Nabil-i Zarandi (1831–1892), que ‘Abdu’l-Bahá elogiou nos seguintes termos:
Este homem distinto era erudito, sábio e tinha um discurso eloquente. O seu génio nato era pura inspiração, o seu dom poético era como um fluxo de cristal. (‘Abdu’l-Bahá, Memorials of the Faithful, p. 35)
O relato de Nabil sobre a decisão de Faris em tornar-se Bahá’í prossegue da seguinte forma:
Em resposta às nossas petições, havia uma Epístola, em caligrafia de Revelação [a escrita rápida que Mirza Aqa Jan registava à medida que Bahá’u’lláh falava], uma Carta do Mais Grandioso Ramo, e um papel com nuql [rebuçado] de amêndoas... Na Epístola, Faris,o médico, era particularmente elogiado.
Um dos presentes escreveu:
Várias vezes testemunhei evidências de um poder que nunca conseguirei esquecer. E assim aconteceu hoje. O navio estava em movimento, quando vimos um barco ao longe. O capitão parou o navio, e este jovem relojoeiro chegou até nós, e gritou pelo meu nome. Aproximámo-nos e ele deu-nos o teu envelope. Todos os olhares estavam sobre nós, os exilados. No entanto, ninguém questionou a acção do capitão. (Nabil-i A’zam, de uma história não publicada, traduzida por H.M. Balyuzi, Baha’u’llah, The King of Glory, p. 268)
E agora a narrativa completa de Bahá’u’lláh, escrita pouco depois da Sua chegada a Akká:
Em nome de Deus, o Eterno, o Imutável.

Ó tu que colocaste o teu olhar sobre o semblante divino, dando ouvidos à voz d’Aquele que sofreu o encarceramento várias vezes no caminho de Deus, o teu Senhor e Senhor dos mundos. Sabe, pois, que a Beleza Antiga partiu da Terra do Mistério devido àquilo que as mãos dos opressores forjaram. Anteriormente, Ele caminhara na terra, revelando a cada momento os versículos que arrebataram o povo ao Concurso no Alto, e expondo provas que fizeram desfalecer os anjos próximos de Deus.

Por Deus, as brisas perfumadas da Revelação divina foram sopradas sobre as regiões do oriente e do ocidente, e isto, em verdade, é uma graça abundante. Ao perceber estas fragrâncias, o osso decomposto despertou e ressuscitou, de acordo com a permissão de Deus, o Rei, o Omnipotente, o Belíssimo. Sob todas as condições, colocámos sob cada pedra, pérolas de palavras perspícuas e jóias de explicação; em breve, levantar-se-á Aquele que proclamará perante todas as pedras: “Ele é, em verdade, o Bem-Amado dos Mundos!”

Os dias passaram até que chegámos à beira-mar. Quando o Mais Grandioso oceano embarcou na Arca, os habitantes do Mais Alto Paraíso gritaram o nome de Deus, por Cuja ordem foi posta em movimento e dirigiram-se à Arca dizendo: “Bem-Aventurada sejas, pois Aquele que é a Esperança dos Mundos pôs os pés sobre ti”.

Seguidamente, a Arca começou a navegar sobre o mar, e ouvimos de cada uma das suas gotas aquilo que nenhum homem consegue ouvir, e o teu Senhor conhece bem a verdade daquilo que digo. Quando chegámos a uma das cidades da terra, percebemos-lhe a fragrância do Todo-Misericordioso, e assim que inalámos as brisas da santidade que dali sopravam, o mar acalmou-se e a Arca parou sobre ele. No entanto, por Deus, as ondas deste mar não ficarão calmas para sempre.

Perante o Rosto Divino veio um de entre a comunidade de Cristo com uma eloquente missiva em mão. Ao quebrar o selo, percebemos os perfumes de santidade daquele que se incendiou com o fogo do amor pelo teu Senhor, o Todo-Misericordioso. Tão arrebatado estava pelos êxtases da Revelação, que ele se separou de todas as coisas e segurou-se firmemente ao cordão que estava suspenso entre o céu e a terra. Lemos as palavras da sua missiva, e quem desejar, poderá lê-las para que possa observar como os dedos do poder do teu Senhor, o Mais Exaltado, o Omnipotente, o Todo-Poderoso, podem voltar os corações dos homens para Ele.

Que bom seria se tivesses estado perante Nós e escutado o Jovem a recitar aquela missiva na entoação de Deus, o Omnipotente, o Todo-Poderoso, o Sapientíssimo! Desta forma, Deus cria o que deseja como sinal do Seu poder; mas as pessoas, envoltas nos véus do ego estão entre os desatentos. Por Deus! A criação desse homem é maior aos olhos de Deus do que a criação dos céus e da terra. Quando leres a sua missiva, exclama: “Exaltado seja Deus, que desperta quem Ele deseja no Seu poder; Ele, em verdade, é o Revivificador dos Mundos!” (tradução provisória de Joshua Hall)
Esta notável epístola de Bahá’u’lláh começa por se dirigir ao destinatário, Rad’ar-Ruh (ou “Espírito Contente”, um nome dado a Mulla Muhammad-Rida-yi Manshadi por Bahá’u’lláh)

Provavelmente, naquele tempo, não houve contacto directo com o próprio Faris Effendi, mas esta epístola de Bahá’u’lláh (a “Beleza Antiga”) refere os seus múltiplos encarceramentos no passado e o primeiro Cristão a tornar-se Bahá’í. A caminho de um novo encarceramento, Bahá’u’lláh continuou a revelar escrituras de sabedoria divina, agitando as almas dos ouvintes receptivos.

Bahá’u´lláh caracteriza a Sua revelação como tendo âmbito universal (“as brisas perfumadas da Revelação divina foram sopradas sobre as regiões do oriente e do ocidente”) e tendo poder para revivificar os espiritualmente mortos (“o osso decomposto despertou e ressuscitou, de acordo com a permissão de Deus”). Esta referência à ressurreição tem um significado espiritual, e não físico.

Depois Bahá’u’lláh usa metáforas como “pérolas” e “jóias” colocadas sob “cada pedra” (corações empedernidos). Seguidamente, Bahá’u’lláh compara o navio a vapor da Austrian-Lloyd à Arca de Noé, o que, na simbologia Bahá’í, representa a comunidade dos espiritualmente despertos – neste caso, os seguidores de Bahá’u’lláh.

O texto prossegue com a alusão a Alexandria (“uma das cidades da terra”). O “um de entre a comunidade de Cristo” que veio à presença de Bahá’u’lláh era Constantino, o relojoeiro, que trouxe “uma eloquente missiva em mão”, a carta de Faris Effendi para Bahá’u’lláh.

O texto da epístola de Bahá’u’lláh não distingue claramente entre Constantino e Faris. Num certo sentido, estes dois indivíduos aparecem juntos, cada um representando o outro. Alcançar a presença de Bahá’u’lláh e sentir a Sua majestade divina e o Seu poder carismático, teve um grande efeito em Constantino, que ficou agitado até às profundezas da sua alma com os “êxtases da Revelação”. Quanto à carta de Faris, Bahá’u’lláh afirma que “Quem desejar, pode lê-la”. Mas como? Ao anexar o conteúdo da carta ao final da Sua epístola, Bahá’u’lláh disponibiliza-a a todos nós. No próximo artigo desta série vamos ler a carta de Faris.

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Texto original: Baha’u’llah’s Welcome to the First Christian Baha’i (www.bahaiteachings.org)

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Joshua Hall é um Bahá’í que vive no Montana (EUA). Os seus interesses incluem linguística e estudo de religiões comparadas. Tem uma paixão especial pelo estudo e tradução de textos árabes das Escrituras Bahá’ís.
Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 5 de janeiro de 2019

O primeiro Cristão a tornar-se Bahá’í

Por Christopher Buck.


Gostaria que conhecessem o Dr. Faris Effendi, um médico sírio que foi o primeiro Cristão a tornar-se Bahá’í.

A história de como o Dr. Effendi percebeu que Bahá’u’lláh era Aquele que Cristo tinha predito – em termos espirituais e simbólicos tinha cumprido as profecias – é muito interessante.

Em Agosto de 1868, Bahá’u’lláh era um prisioneiro do Império Otomano e foi exilado de Edirne (antes conhecida como Adrianópolis) para Gallipoli, e dali para a cidade-prisão de Akka (hoje “Acre” ou “Akko”) na Palestina (hoje Israel).

Na manhã de 21 de Agosto de 1868, Bahá’u’lláh e a Sua comitiva – todos eles prisioneiros – foram colocados a bordo de um navio a vapor da companhia Austrian-Lloyd. Os exilados – que seriam 72 segundo um relato – eram acompanhados por uma escolta militar constituída por dois oficiais e dez soldados.

A bordo do navio, Bahá’u’lláh, em tom de gracejo, disse para os Seus companheiros: “Não seria divertido se o navio se afundasse?” E apressou-Se a acrescentar – com total confiança e evidente presciência – esta garantia: “Mas não se afundará, mesmo que seja atingido por todas as ondas.”

Segundo um relato, inicialmente, Bahá’u’lláh e os Seus companheiros não sabiam o seu destino. Todo o que lhes tinham dito é que iam ser levados para “uma prisão desconhecida, numa terra desconhecida”. (ver Hasan M. Balyuzi, Bahá’u’lláh: The King of Glory (Oxford: George Ronald, 1980), p. 264.) Mais tarde foi dito aos exilados que iam ser levados para Akka.

As condições a bordo do navio eram indescritíveis e posteriormente foram referidas como “onze dias de horror”. Com pouca comida, o convés sobre-lotado e espaço insuficiente até para dormir, a maioria dos exilados ficou “muito indisposta”. Um dos companheiros adoeceu e teve de ser levado para o hospital em Esmirna, onde faleceu. ‘Abdu’l-Bahá organizou-lhe um funeral simples.

Alguns dias mais tarde, na manhã de 27 de Agosto de 1868, o navio austríaco chegou ao porto de Alexandria. Ali, Bahá’u’lláh e os Seus companheiros foram transferidos para outro vapor austríaco.

Porto de Alexandria (Egipto) em meados do séc. XIX
Entretanto, sem que os exilados soubessem, Nabil-i A'ẓam – um dos dezanove Apóstolos de Bahá’u’lláh e famoso historiador Bahá’í – tinha ido ao Egipto apelar ao governador turco para que libertasse outros sete ou oito prisioneiros Bahá’ís que ali se encontravam detidos (ver Shoghi Effendi, God Passes By, p. 178). Ninguém, entre os Bahá’ís, sabia exactamente onde é que esses crentes se encontravam presos em Alexandria.

Quando o navio austríaco ancorou na baía de Alexandria, vários exilados Bahá’ís desembarcaram para ir comprar mantimentos. Por sorte, um dos exilados, Aqa Muhammad-Ibrahim-i-Nazir, passou perto da prisão. Nabil, reconheceu-o ao longe e gritou-lhe.

Nessa prisão, Nabil tinha conhecido um Cristão que tinha tentado “salvar” a sua alma, tentando convertê-lo ao Cristianismo. Mas, segundo Nabil, os papeis inverteram-se rapidamente. “O médico estava naquela prisão. Ele tentou converter-me à Fé Protestante. Tivemos longas conversas e ele tornou-se Bahá’í.” Tratava-se do Dr. Effendi, também conhecido como “Faris, o sírio”, que estava preso devido a grandes dívidas. Nabil registou a sua narrativa:
No octogésimo primeiro dia do meu sonho, do terraço da prisão, vi Aqa Muhammad-Ibrahim-i-Nazir a passar na rua. Chamei-o e ele subiu. Perguntei-lhe o que fazia ali e ele disse-me que [Bahá’u’lláh] e os companheiros estavam a ser levados para Akka… e que ele tinha desembarcado na companhia de um polícia para fazer algumas compras.

O polícia, disse ele, “não me vai deixar ficar aqui muito mais tempo. Vou e informarei [‘Abdu’l-Bahá] da tua presença aqui. Se o barco se demorar aqui mais tempo, talvez venha visitar-te outra vez”. Ele deixou-me em brasas e foi-se embora.

O médico [Faris Effendi] não se encontrava ali nessa ocasião. Quando apareceu, encontrou-me lavado em lágrimas e recitando as seguintes palavras: “O Bem-Amado está ao meu lado e eu estou longe d’Ele; estou nas margens das águas da proximidade, e, no entanto, estou privado. Ó Amigo! Leva-me, leva-me a um lugar no navio da proximidade. Estou desamparado, estou vencido, sou um prisioneiro”.

Foi à noite que Faris... veio e viu a minha agonia. Disse-me: “Dizias-me que no octogésimo primeiro dia do teu sonho devias receber um motivo de regozijo, e que hoje é o octogésimo primeiro dia. Agora, pelo contrário, vejo-te profundamente perturbado”.

Respondi: “Na verdade, a causa de regozijo aparecei, mas ai de mim! A data está na palmeira e nossas mãos não podem alcançá-la”. Ele disse: “Conta-me o que aconteceu; talvez eu possa fazer alguma coisa”.

E assim, contei-lhe que [Bahá’u’lláh] estava no navio. Ele, tal como eu, ficou profundamente perturbado e disse: “Num dos próximos dias que não seja Sexta-feira… podemos, nós dois, obter permissão para ir a bordo do navio e estar na Sua presença. E ainda podemos fazer mais alguma coisa. Escreve o que quiseres; eu também vou escrever. Amanhã, um conhecido meu vem cá. Nós entregamos-lhe estas cartas para ele as levar ao navio”.

Escrevi a minha história e juntei alguns poemas que tinha escrito na prisão. Faris, o médico, também escreveu uma carta e descreveu a sua grande mágoa. Era muito comovedor. Colocámos tudo num envelope, que entregámos a um jovem relojoeiro chamado Constantino, para entregar ao início da manhã. Dei-lhe o nome do Khadim [Mirza Aqa Jan] e de alguns outros companheiros, disse-lhe como os podia identificar, e salientei que não devia entregar o envelope enquanto não encontrasse um deles.

Ele saiu de manhã. Nós ficámos a ver no topo do telhado. Primeiramente ouvimos um sinal e depois o barulho do movimento do navio; ficámos perplexos, com medo de não termos conseguido. Depois o navio parou e começou novamente após quinze minutos. Estávamos na expectativa quando, de repente, chegou Constantino. Entregou-me um envelope e um pacote embrulhado num lenço e gritou: “Por Deus! Eu vi o Pai de Cristo!”

Faris, o médico, beijou os seus olhos e disse: “O nosso destino foi o fogo da separação, o teu foi a bênção de ver o Bem-Amado do Mundo.” (Nabil-i A'ẓam, de uma história não publicada, traduzida por H.M. Balyuzi, Baha’u’llah, the King of Glory, pags. 267–268.)
Imagine-se o quão surpreendido deve ter ficado Constantino, o relojoeiro, ao contemplar Bahá’u’lláh pela primeira vez! Aquela primeira impressão tornou-se uma impressão permanente, quando ele – pleno de espanto e admiração – gritou para Faris: “Por Deus! Eu vi o Pai de Cristo!”

Estávamos no dia 28 de Agosto de 1868. Três dias mais tarde, Faris foi libertado da prisão, conforme prometido por Bahá’u’lláh. O segundo navio austríaco, com Bahá’u’lláh e os seus companheiros a bordo, partiu para Haifa.

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Texto original: The First Christian to Become a Baha’i (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 11 de agosto de 2018

As revoluções de 1848 e a sua relevância nos dias de hoje

Por Tom Lysaght.


Há muito que o ano de 1848 é conhecido na Europa como “O Ano da Revolução”.

O rei Luís Filipe foi forçado a abdicar do trono francês e fugiu do país disfarçado de comerciante. Enquanto a república era proclamada em França, a Hungria declarava a sua independência da Áustria. Em Viena, enquanto os revolucionários entravam no palácio real, o rei Ferdinando abdicava do trono e fugia da Áustria. Nos estados italianos, os rebeldes seguiam o exemplo húngaro e austríaco e expulsavam os vice-reis e governantes, e o Papa ficava apreensivo. Durante a noite, vestido como se fosse um simples sacerdote, o Papa Pio IX fugiu de Roma. Em Inglaterra, 100.000 membros do movimento Cartista reuniam-se para marchar em direcção ao Parlamento. A Suécia, a Irlanda e a Dinamarca também tiveram as suas revoltas em 1848.

Convenção de Seneca Falls
Uma revolta mais pacífica - mas não menos radical e transformadora - ocorreu numa aldeia no norte do estado de Nova Iorque nesse mesmo ano. Esse movimento foi único pelo facto da quase totalidade dos seus 300 participantes serem mulheres; a excepção foi Frederick Douglass, um abolicionista e ex-escravo.

A Convenção de Seneca Falls é considerada a primeira conferência sobre direitos das mulheres. Curiosamente, os anúncios sobre este encontro apareceram nos jornais no dia 14 de Julho, o mesmo dia em que terminava outra conferência, onde se anunciava a emancipação da mulher. Infelizmente, o mundo Eurocêntrico ignorou durante muito tempo o que aconteceu na aldeia de Badasht, na Pérsia, local cujo nome um dia será tão familiar para nós como Belém.

Em 2017, deu-se um reconhecimento extraordinário evento. Em várias celebrações realizadas em todos os países do mundo, celebrou-se o bicentenário do nascimento de Bahá’u’lláh, uma das duas personagens que convocaram essa conferência profundamente marcante.

De facto, houve dois eventos tremendos na Pérsia em Julho de 1848, que podem ser coonsiderados como a principal causa das repercussões revolucionárias que sentiram no resto do mundo durante esse ano.

Desde essa década, reis e clérigos começaram a ser despojados de poder e caíram às mãos do povo.

Nessa mesma década de 1984, uma febre milenarista varreu os mundos Judaico-Cristão e Muçulmano. Rabinos e académicos Judeus, como Judah Alkalai e A.H. Silver consideravam 1840 como o tempo do Messias; “adventistas” como William Miller afirmavam que 1844 era a data prometida pela Bíblia para o regresso de Cristo; templários alemães foram viver para a Palestina e construíram as suas casas no sopé do Monte Carmelo para estarem próximos quando ocorresse a Segunda Vinda; os Muçulmanos consideravam o ano 1260 A.H. (1844 EC) como o momento em que o Qaim (ou o Mahdi) – o Prometido do Islão – surgiria como salvador espiritual.

Apesar dessas expectativas e profecias da década 1840, e das mudanças sociais revolucionárias iniciadas nesse tempo, a maioria dos Judeus ainda espera pelo seu Messias, tal como a maioria dos Cristãos aguarda o regresso de Cristo, e a maioria dos Muçulmanos espera pelo seu Qa’im. Estariam as expectativas e profecias incorrectas? Será que as mudanças sociais mundiais da década de 1840 forma mera coincidência? No seu livro O Ladrão na Noite, William Sears aborda este enigma.
Quando uma abundância esmagadora de provas aponta apenas para uma conclusão possível, e essa conclusão Mostra estar errada, nunca é sensato descartar todas as evidências como estando erradas. É mais sensato assumir que talvez as evidências estejam correctas, e que outra interpretação totalmente diferente dos factos, ou uma conclusão completamente diferente se possa extrair dessas mesmas provas. (p.30)
Os Bahá’ís apresentam uma conclusão alternativa.

As profecias bíblicas referem que “duas testemunhas” (Apocalipse 11:3) são necessárias para dar início ao tão aguardado Dia Prometido; por seu lado, o Alcorão profetiza que “dois toques de trombeta” (39:68) anunciarão o dia da renovação. Em Julho de 1848, na Pérsia, foi reunido um tribunal para inquirir um conhecido homem santo, considerado herético, e conhecido como Báb (“A Porta”). No entanto, o Báb usou essa oportunidade de julgamento público para proclamar perante as mais altas instituições persas, que Ele era o Prometido aguardado, não só pelo Islão, mas também por todas as religiões.

Simultaneamente, num outro local mas com o mesmo propósito do Báb, Bahá’u’lláh era o principal impulsionador daquela histórica conferência de Badasht, onde a emancipação da mulher foi primeiramente proclamada por Tahirih, uma poetisa e heroína Babi.

Poderiam um prisioneiro e um nobre persas ser os dois portadores de uma nova mensagem divina para a humanidade? É precisamente isso que os Bahá’ís em todo o mundo celebram durante os anos dos bicentenários dos nascimentos de Bahá’u’lláh e do Báb. Mas porque o primeiro princípio da sua religião é a livre e independente pesquisa da verdade, Eles não queriam que nos limitássemos a acreditar neles. No fundo, a religião não pode continuar a ser uma consequência do local onde nascemos ou uma questão de fé cega. Em vez disso, Eles querem que investiguemos as fontes:
Em verdade digo, este é o Dia em que a humanidade pode contemplar a Face e ouvir a Voz do Prometido. Ergueu-se o Chamamento de Deus e a luz do Seu semblante levantou-se sobre os homens. Compete a todo o homem eliminar todo o vestígio de palavras fúteis da tábua do seu coração, e olhar, com mente aberta e sem preconceitos, os sinais da Sua Revelação, as provas da Sua Missão, e as marcas da Sua Glória. Grande é, de facto, este Dia! As alusões que lhe são feitas em todas as Sagradas Escrituras como o Dia de Deus atestam a sua grandeza. A alma de todo o Profeta de Deus, de todo o Mensageiro Divino, estava sequiosa por este Dia maravilhoso. As diversas raças da terra, de igual modo, desejavam alcançá-lo… Deus permita que a luz da unidade possa envolver toda a terra. (Baha’u’llah, Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, VII)

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Texto Original: The Revolutions of 1848, and Their Relevance Today (www.bahaiteachings.org)

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Tom Lysaght é autor de várias peças de teatro, nomeadamente “Heralds of the Covenant” (que foi exibida Durante o Congresso Mundial Bahá’í de 1992). Foi director da Radio Baha’i do Lago Titcaca (Peru) e é autor do site Your Creative Stage que pretende lançar o teatro como instrumento de construção de comunidades.

sábado, 14 de abril de 2018

Tahirih: a Emancipadora das Mulheres no Médio Oriente

Por Linda Ahdieh.

Em meados do século XIX, um jovem persa chamado Siyyid Ali Mohammad - o Bab - anunciou ser o Prometido de Deus.

Os fiéis Muçulmanos, que durante anos desejaram a vinda do Prometido, viram-se subitamente perante dúvidas, alegria enorme e esperança desenfreada. O Báb (que significa “o Portão”) afirmava que tinha chegado uma nova Fé e desafiou as pessoas a investigarem livremente as Suas afirmações. Alguns ficaram inebriados de amor pelo Báb e abraçaram a sua causa. Outros, confusos, continuaram perdidos na procura da verdade. E houve ainda outros que, com o maior preconceito e descrença, e temendo perder o seu estatuto e autoridade, tentaram apagar a chama da recém-nascida Fé Bábi.

Inspirados por profecias dos textos sagrados e pela orientação e ensinamentos dos seus mestres espirituais, várias pessoas procuravam a verdade e viajavam em busca do Prometido. Antes do Bab proclamar publicamente a Sua nova Fé, dezoito seguidores (conhecidos na história como Letras dos Viventes) reconheceram-No de forma independente e levantaram-se para divulgar os Seus ensinamentos.

Entre as dezoito Letras dos Viventes havia uma única mulher. Ela aderiu à fé do Báb numa época em que as mulheres eram, na prática, servas dos homens e estavam absolutamente privadas de qualquer poder, reconhecimento ou voz. As pessoas acreditavam que as mulheres eram fracas, que eram criadas apenas para ter filhos e cuidar do lar, e que não tinham qualquer papel na sociedade.

Num ambiente desses, o aparecimento de uma mulher altamente educada, revolucionária e corajosa, com sabedoria e conhecimento incomparáveis, foi um acontecimento único e espantoso. Esta mulher nobre e distinta, chamada Fatimeh, era como uma estrela brilhante, iluminando a Pérsia com as suas palavras poéticas e acções corajosas. Tornou-se uma figura mítica, que ainda hoje é reverenciada.

Casa de Tahirih em Qazvin.
Fatimeh era filha de um conhecido clérigo muçulmano de Qazvin. O seu tio também era um clérigo particularmente influente e tinha autoridade absoluta na cidade. Desde muito nova, Fatimeh estudou profundamente os temas religiosos. Teve a sorte de poder aceder à biblioteca particular do seu pai e da sua prima, o que lhe permitiu passar grande parte do seu tempo a aprender, estudar e investigar. Rapidamente, a sua compreensão profunda e o poder das suas palavras eloquentes atraíram os corações de muitos dos seus familiares e amigos, e sua fama como erudita e pensadora poderosa cresceu.

Com os seus estudos - e apesar da forte oposição do pai e do tio - ela desenvolveu um interesse pelos ensinamentos dos Shaykhi Sufis. Por fim, reconheceu a verdade dos ensinamentos do Shaykh Ahmad Ahsai - que tinha previsto o aparecimento do Prometido - e começou a corresponder-se com o seu sucessor, Siyyid Kazim Rashti. O seu estilo de escrita e os temas da sua investigação foram tão convincentes e profundos que Siyyid Kazim lhe concedeu o título de “Consolo dos Olhos” (Qurratu'l-Ayn).

Os alunos de Siyyid Kazim, que sabiam sobre o seu profundo conhecimento, pediram-lhe que lhes fosse permitido aprender com ela. Ela aceitou o pedido deles e - porque uma mulher naquele tempo e lugar não podia enfrentar homens em público - deu as aulas por detrás de uma cortina, respondendo às muitas perguntas sobre religião e jurisprudência dos seus novos alunos. Isso aumentou a sua fama nos países vizinhos. Ter uma mulher professora na escola de jurisprudência era algo inédito!

Durante esses anos, a notícia do aparecimento do Báb espalharam-se pelas cidades e montanhas, e chegaram a Fatimeh, primeiramente num sonho, quando ela:
... jejuava de dia, praticava disciplinas religiosas, passava a noite em vigílias e entoava orações. Certa noite, quando se aproximava o amanhecer, deitou a sua cabeça na almofada, perdeu toda a consciência desta vida terrena e teve um sonho; na sua visão, um jovem, um Siyyid, vestindo um manto preto e um turbante verde, apareceu-lhe no céu; ele parado no ar, a recitar versículos e a rezar com as mãos erguidas. Imediatamente, ela memorizou um desses versículos e escreveu-o no seu caderno quando acordou. Depois do Bab anunciar a Sua missão... um dia, [ela] estava a ler uma parte de um texto, e encontrou o mesmo versículo, que tinha escrito após o sonho. Imediatamente deu graças, e caiu de joelhos curvando a testa no chão, convencida de que a mensagem do Bab era a verdade. (‘Abdu’l-Bahá, Memorials of the Faithful, pp. 193-194)
Numa carta e em algumas linhas de poesia, ela transmitiu ao Bab o seu reconhecimento da Sua mensagem. Ao receber a carta de Fatimeh, o Bab aceitou a sua fé - e ela tornou-se a única mulher entre as Letras dos Viventes.

Isto demonstrava que, na nova revelação, mulheres e homens são iguais, e que as mulheres rapidamente conquistariam um lugar central na sociedade.

Após reconhecer a nova revelação, Fatimeh dedicou a sua vida à divulgação os ensinamentos do Báb. Isso trouxe-lhe muitos problemas e enorme sofrimento. À medida que a sua fama crescia, aumentava a oposição pública da sua família contra ela. Fatimeh ignorou os ataques, e através das suas palavras escritas e proferidas, chegou a muitos Bábis em todo o país e regou a árvore da sua fé.

Em 1848, deslocou-se à aldeia de Badasht, onde participou numa importante conferência planeada por Bábis proeminentes para anunciar a nova revelação e revogar a lei muçulmana. Nesta conferência, recebeu o título de "Tahirih" - “a Pura”.

Durante a conferência de Badasht, Tahirih desempenhou um papel histórico que simbolizou a separação da Fé Bábi de anteriores dispensações religiosas. As suas acções ilustraram a absoluta independência da revelação do Báb e também elevaram o estatuto e a condição das mulheres em todo o Médio Oriente. Na conferência, Tahirih retirou o véu que lhe cobria o rosto em público - um acto simbólico absolutamente chocante para aquele tempo e lugar - e aconselhou todas as mulheres a levantarem-se e a reivindicarem os direitos humanos dados por Deus, encorajando-as a lutar na área da educação e serviço social. Defendeu aberta e radicalmente a emancipação das mulheres.

Dois anos após a conferência, foi detida e levada para Teerão; ficou presa e em 1852 foi assassinada por ordem da corte real. Como milhares de Bábis durante esse tempo, ela deu a sua vida pelas suas crenças. A história reconheceu a grande contribuição de Tahirih para a reforma social e colocou-a entre aquelas mulheres cujos nomes iluminarão para sempre a história da humanidade. Edward G. Browne, um conceituado orientalista britânico, escreveu:
O aparecimento de uma mulher como Qurratu'l-Ayn é em qualquer país e em qualquer época um fenómeno raro, mas num país como a Pérsia é um prodígio, ou melhor, quase um milagre. Igualmente devido à sua maravilhosa beleza, aos seus raros dons intelectuais, à sua fervorosa eloquência, à sua destemida devoção e ao seu glorioso martírio, ela destaca-se de forma incomparável e imortal entre as suas compatriotas. Se a religião Bábi não tivesse outra pretensão de grandeza, isto seria suficiente: produziu uma heroína como Qurratu'l-Ayn.

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Texto Original: Tahirih: the Great Emancipator of Middle Eastern Women (www.bahaiteachings.org)

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Linda Ahdieh Grant pertence à sétima geração de Bahá’ís. Tem Doutoramento na John Hopkins University School of Public Health e foi professor de epidemiologia. É casada em tem dois filhos. Actualmente é professora na School of Public Health at Emery University, em Atlanta, Georgia.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Bahá’u’lláh e a Revolução Russa

Por Baron Harper.


Há um século atrás, Vladimir Lenine levou o partido bolchevique - que ele tinha fundado - a derrubar o governo provisório de Alexander Kerensky.

A revolução que Lenine preparou arduamente durante anos teria amplas consequências nas décadas que se seguiram a 1917. Sendo reconhecidamente ateu, Lenine aderiu ao movimento revolucionário na Rússia czarista. Mais tarde, o seu fervor revolucionário intensificou-se quando o seu amado irmão mais velho foi enforcado por conspirar para assassinar Czar Alexandre III.

Vladimir Lenine
Lenine era um leitor ávido de literatura política revolucionária - incluindo “O Capital” de Karl Marx - e tornou-se marxista em 1889. Quando tentava unificar os grupos marxistas russos, esforçou-se por minar a veneração dos trabalhadores pelo Czar e afirmou que o capitalismo estava a destruir rapidamente a comuna agrícola - uma comunidade autónoma de famílias camponesas. Lenine acreditava que o proletariado - o povo da classe trabalhadora - nunca poderia entender que, ao derrubar capitalismo, só seria possível construir o socialismo marxista com um núcleo duro de revolucionários que governasse esse movimento.

Lenine nasceu durante o reinado do Czar Alexandre II, que reinou entre 1865-1881 e que foi saudado como o "Czar libertador" por ter libertado os camponeses servos. Na Rússia, a servidão era um estado de sujeição que vinha desde a Idade Média, em que as pessoas eram obrigadas a prestar serviços a um senhor e à sua terra.

Conhecido pelas opiniões liberais, Alexandre II foi um dos oito soberanos a quem Bahá’u’lláh Se dirigiu nas Suas singulares Epístolas aos reis e governantes na década de 1860. Para Alexandre II e os governantes que, no século XIX, exerciam autoridade absoluta civil e eclesiástica, escreveu:
Harmonizai as vossas diferenças e reduzi os vossos armamentos, para que o fardo das vossas despesas possa ser aliviado e para que as vossas mentes e corações possam ficar tranquilos. Sarai as dissensões que vos dividem… Ficámos a saber que aumentais as vossas despesas todos os anos e que colocais o respectivo fardo sobre os vossos súbditos. Em verdade, isto é mais do que eles podem suportar e é uma penosa injustiça. (SEB, CXVIII)
Especificamente para o Czar Alexandre II, Bahá’u’lláh declarou:
Em verdade, ouvimos aquilo que suplicastes ao teu Senhor, quando comungavas em segredo com Ele. Por isso, a briza da Minha benevolência soprou, e o mar da Minha misericórdia agitou-se, e respondemos-te em verdade. O teu Senhor, verdadeiramente, é o Omnisciente, o Sapientíssimo. (The Summons of the Lord of Hosts, p. 83)
Bahá’u’lláh disse aos governantes mais poderosos do mundo que os seus reinos terminariam se eles não prestassem atenção aos Seus avisos. Dirigindo-se ao Czar Nicolau II, escreveu:
Ó orgulhosos da terra! Acreditais que viveis em palácios enquanto Aquele Que é o Rei da Revelação reside na mais desolada das moradas? Não, por Minha vida! É em túmulos que habitais, se apenas o percebêsseis! (Idem, p. 87)
As políticas liberais do Czar tiveram a oposição dos nobres que perdiam posição e influência. Posteriormente, Alexandre II aceitou as suas pressões e iniciou uma política reaccionária que provocou uma desilusão generalizada, niilismo, agitação e terrorismo no seu império - e o que levou ao seu assassinato em 1881.

O seu filho, Alexandre III, que reinou de 1881-1894, prosseguiu uma política de repressão severa e hostilidade desafiadora para as vozes inovadoras e progressistas que apelavam para mudanças sociais. Ele acreditava que a ortodoxia, a autocracia e a nacionalismo russos salvariam a Rússia da agitação revolucionária. Invertendo algumas das reformas liberais do seu pai, decretou que o seu autoritarismo não teria limites.

Alexandre III morreu de nefrite aos 49 anos, em 1894. Quando o seu sucessor, Nicolau II, que reinou entre 1894-1917, se viu imperador da Rússia, perguntou ao seu primo: "O que vai acontecer comigo e com toda a Rússia?"

O Czar Nicolau II
Destinado a ser o último dos Romanov, que governavam desde 1613, Nicolau, com 26 anos, casou apressadamente com a princesa Alice (Alexandra), tornando-se ela a única pessoa em que podia confiar. Como Czar, Nicolau decidiu governar segundo o modelo do seu falecido pai. A sua política resoluta de repressão e absolutismo contribuiria para o declínio do Império Russo, acabando com a sua hegemonia e deixando de ser uma das grandes potências do mundo.

Debilitado por uma burocracia corrupta, humilhado numa guerra com o pequeno Japão em 1905, culpado pelo massacre do “Domingo Sangrento” (1389 pessoas) no mesmo ano, e arruinado pela morte de mais de 3.300.000 russos que ele quis liderar na Grande Guerra, Nicolau foi forçado a abdicar no início de 1917 - há um século. Ele e a sua amada consorte, juntamente com os seus cinco filhos, foram mantidos em prisão rigorosa pelo governo provisório de Kerensky até que surgisse a oportunidade de os exilar no estrangeiro. Em vez disso, os bolcheviques liderados por Lenine tomaram o poder em Outubro de 1917, e passado um ano executaram o czar e a sua família.

Ao acusar a conspiração leninista pela destruição brutal do primeiro governo democrático estabelecido na Rússia, a Casa Universal de Justiça condenou a revolução russa dos bolcheviques:
Durante longos anos, o sistema soviético criado por Vladimir Lenine conseguiu apresentar-se a muitos como um benfeitor da humanidade e o defensor da justiça social. À luz dos acontecimentos históricos, essas pretensões eram grotescas. A documentação agora disponível fornece provas irrefutáveis de crimes tão enormes e loucuras tão abismais que não tem paralelo nos seis mil anos de história registada. A um grau nunca antes imaginado, e nem sequer tentado, a conspiração leninista contra a natureza humana também procurou sistematicamente extinguir a fé em Deus... O seu efeito espiritual a longo prazo, tragicamente, era perverter, para o serviço da sua própria agenda amoral, os anseios legítimos de liberdade e justiça dos povos oprimidos em todo o mundo. (Century of Light, pp. 61-62)
Um século após a revolução russa, a crescente agitação entre populações civis em todo o mundo foi incapaz de criar um sistema justo e equitativo de governação internacional. Apesar de se apresentarem reivindicações, de se comprometerem lealdades, de se travarem batalhas, de se reformularem tratados e de se derrubarem governos, a verdade é que, em todo o mundo, os povos ainda se sentem desconfiados, em conflito e sem liderança. E podemos reflectir sobre uma das mais duras lições da Revolução Russa: que os bolcheviques substituíram uma autocracia indiferente por uma ditadura brutal, que se tornou responsável por engendrar atrocidades muito piores do que alguma vez se poderia ter imaginado sob domínio dos czares. Essa lição recorda-nos que as lutas tradicionais pela mudança podem piorar em vez de melhorar as condições - mas, ainda mais importante, lembra-nos que nenhum governante, por mais poderoso que seja, pode ignorar as advertências de um profeta de Deus. Bahá’u’lláh deu à humanidade um caminho para uma mudança positiva quando apelou aos governantes do mundo que estabelecessem a unidade através da justiça: "O propósito da justiça é o aparecimento da unidade entre os homens". (Tablets of Baha’u’llah, p. 66)

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Texto original: Baha’u’llah and the Revolution in Russia (www.bahaiteachings.org)

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Barron Harper é um consultor fiscal internacional. Aceitou a Fé Bahá’í em 1967, serviu em instituições Bahá’ís locais e nacionais nos Estados Unidos, Argentina e Portugal, e é autor de dois livros Bahá’ís - “Lights of Fortitude” (George Ronald Press) e “Unfurling the Divine Standard".

domingo, 9 de julho de 2017

Dr. William Cormick, o médico que tratou o Báb


Durante o seu cativeiro final, o Báb ficou ferido (mais do que o pretendido) ao ser espancado pelos guardas. Talvez porque os seus ferimentos eram visíveis para todos, as autoridades chamaram o melhor médico da região, o Dr. William Cormick, para O tratar. O relato do Dr. Cormick sobre os seus encontros com o Báb agora é parte da história Bábí-Bahá'í.

Cormick geralmente é descrito (não muito correctamente) como "um médico ocidental" ou "o único ocidental que conheceu o Báb" ou (incorrectamente) como "um médico inglês". Cormick nasceu em Tabriz, filho do Dr. John Cormick, do condado de Kilkenny, na Irlanda. E sua esposa era uma persa cristã. O Dr. John Cormick estabeleceu um consultório médico bem-sucedido e enviou o seu filho William para a Europa para ser educado e formado em medicina. Concluiu os seus estudos de medicina na Universidade de St. Andrews na Escócia, e depois regressou a Tabriz, onde trabalhou como médico.

Em 1850, o Dr. William Cormick estava apenas em Tabriz como resultado da política. Tinha sido médico do Príncipe Herdeiro da Pérsia, Nasir'd-Din Mirza e esperava-se que fosse com ele para Teerão como médico da corte quando o príncipe se tornou Shah em 1850. No entanto, esta deslocação impedida por motivos políticos e ele ficou em Tabriz, onde prosperou a exercer medicina; ficou rico e recebeu várias honras oficiais.

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Sobre este assunto:
-- The man who met the Báb
-- CORMICK, WILLIAM (Encyclopedia Iranica) 
-- Dr William Cormick
-- Dr. Cormick's Accounts of his Personal Impressions of Mirza 'Ali Muhammad, The Báb

sábado, 13 de maio de 2017

Em busca da Arca da Aliança

Por David Langness.


Provavelmente já viram o filme “Os Salteadores da Arca Perdida” (“Os Caçadores da Arca Perdida”, no Brasil), de Steven Spielberg, onde Indiana Jones vive aventuras emocionantes e cheias de acção, em busca da Arca da Aliança.

Nos “Salteadores”, a arca que Indiana Jones procura tem uma longa história de veneração e ocultação, e possui poderes notáveis devido às suas antigas origens religiosas. No filme, todos querem ficar com ela, e essa perseguição competitiva estimula a acção implacável do filme.


Spielberg não inventou a Arca da Aliança para desenvolver a sua história; ele pegou numa verdadeira lenda que tem raízes profundas em toda a história religiosa e cultural. A verdadeira Arca da Aliança aparece nas escrituras sagradas de diversas religiões, e define um rumo em todas as religiões abraâmicas. O Livro do Êxodo no Antigo Testamento descreve a Arca da Aliança como um cofre construído para guardar as duas tábuas da lei, as duas placas de pedra que continham os Dez Mandamentos revelados a Moisés:
E deu a Moisés (quando acabou de falar com ele, no monte de Sinai) as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus. (Êxodo 31:18)
Essas duas "placas" de pedra (referidas como “tábuas”) e o cofre de madeira banhada a ouro que as guardava desempenham papéis importantes no Antigo Testamento, no Novo Testamento e no Alcorão. No Livro do Êxodo, Deus ordena a Moisés que construa uma Arca para guardar a lei de Deus, e depois a Arca faz acontecer milagres poderosos, separando o Rio Jordão e ajudando a derrubar os muros de Jericó. A descrição detalhada no Êxodo diz-nos exactamente como é a Arca da Aliança – as suas medidas exactas, o seu revestimento de ouro, os seus dois querubins que adornam um kapporet ou uma capa de ouro, a que os cristãos chamam Propiciatório. Guardado no Santo dos Santos, o santuário interior do antigo Templo de Jerusalém, a Arca serviu como a representação física da lei de Deus e do pacto divino entre o Criador e a Sua criação.

Há milhares de anos que historiadores e teólogos debatem a realidade física da Arca da Aliança, e existem centenas de livros sobre o assunto. Moisés gravou - verdadeiramente - as duas placas de pedra com os Dez Mandamentos enquanto as recebia de Deus, e depois guardou-as numa verdadeira caixa de ouro?

Muitas seitas e denominações religiosas assumem esta história bíblica como literalmente verdadeira. Essa interpretação literal produziu dúzias de alegações e teorias sobre o paradeiro actual da Arca perdida, incluindo o Monte Nebo, perto do Rio Jordão, o túmulo do rei Tut no Egipto, numa caverna nas montanhas Dumghe, na África Austral, sob o Monte do Templo, em Jerusalém, escondido na catedral de Chartres, em França, enterrada numa colina na Irlanda ou disfarçada perto da Igreja Cristã Abissínia de Nossa Senhora do Monte Sião em Axum, na Etiópia. (Ninguém parece ter encontrado a Arca, excepto Indiana Jones.)

Outros vêem a Arca da Aliança apenas como um símbolo poderoso, representando a presença de Deus e a promessa aos hebreus. Mas porque as histórias bíblicas dizem que os seguidores de Moisés transportaram a Arca durante os quarenta anos em que andaram pelo deserto, depois de se libertarem da escravidão, ela acabou por representar o "receptáculo" da promessa de Deus, a Sua aliança sagrada mutuamente vinculativa com os Filhos de Israel. Esse pacto primordial declara essencialmente que Deus continuará a guiar os Seus filhos, desde que estes sigam os Seus mandamentos e "não tenham outros deuses além de Mim".

Mas, independentemente da sua existência real ou alegórica, a Arca da Aliança representa um acordo amplo e eterno em todos os ensinamentos religiosos - a continuidade eterna da orientação de Deus para a humanidade:
... é um princípio básico da Lei de Deus que, em cada Missão Profética, Ele estabeleça uma Aliança com todos os crentes - uma Aliança que perdura até ao fim dessa Missão, até ao dia prometido quando a Personagem estipulada no início do Missão se manifesta. Considere-se Moisés, Aquele que conversou com Deus. Na verdade, no Monte Sinai, Moisés estabeleceu uma Aliança relativa ao Messias, com todas aquelas almas que viveriam no dia do Messias. E essas almas, apesar de terem surgido muitos séculos depois de Moisés, estavam, no entanto, - no que diz respeito à Aliança, que é intemporal - ali presentes com Moisés. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of ’Abdu’l-Bahá, nº 181)
Este princípio místico - que todo ser humano tem a oportunidade de participar numa aliança com Deus - existe também nos ensinamentos Bahá’ís. Na verdade, os Bahá’ís acreditam em dois tipos de alianças religiosas:
Existe... a Aliança Maior que cada Manifestante de Deus faz com os Seus seguidores, prometendo que na plenitude dos tempos um novo Manifestante será enviado, e obtendo deles o compromisso de O aceitar quando isto ocorrer. Há também a Aliança Menor que um Manifestante de Deus faz com os Seus seguidores para que eles aceitem o Seu sucessor depois d’Ele. Se assim fizerem, a Fé poderá permanecer unida e pura. Caso contrário, a Fé divide-se e a sua força gasta-se. (A Casa Universal da Justiça, Messages 1963 to 1986, p. 737)
Então, como podemos encontrar a Arca da Aliança? Os ensinamentos Bahá'ís dizem que cada um dos profetas, mensageiros e manifestantes de Deus trazem essa aliança com eles, para garantir aos seus seguidores e aos seus descendentes que Deus não os abandonará desprovidos de orientação agora e no futuro:
O Senhor do universo jamais levantou um profeta, nem fez descer um Livro, sem que tivesse estabelecido a Sua aliança com todos os homens, apelando à sua aceitação da Revelação seguinte e do Livro seguinte, na medida em que as efusões da Sua generosidade são incessantes e sem limites. (O Bab, Selections from the Writings of the Bab, p. 87)
Esta garantia, renovada em cada revelação, dá-nos uma sequência contínua de alianças espirituais ao longo da história. Todas as alianças proféticas do Antigo Testamento de Noé, Abraão, Moisés, Arão e David, prometem uma orientação e bênçãos divinas duradouras em troca da fidelidade do povo. Também prometem a vinda do Messias, e o Reino de Deus na Terra.

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Texto original: Finding the Ark of the Covenant (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.