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quarta-feira, 29 de junho de 2005

Vahid

Em 29 de Junho de 1850, Vahid foi martirizado. Trata-se de uma das figuras mais conhecidas dos primeiros tempos das religiões Babi e Baha'i. Bahá'u'lláh referiu-se a ele como "essa figura única e incomparável do seu tempo". Para assinalar esta data, aqui fica um pequeno relato do que foram os seus encontros com o Báb.

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Quando em meados do século XIX, a religião do Báb se começou a espalhar pela Pérsia, vários elementos do clero e do governo quiseram averiguar a natureza daquele movimento. O Xá Muhammad (pai do Xá Nasiri'd-Din) pretendeu avaliar a veracidade das informações que ia recebendo; para esse fim pediu a uma das pessoas em quem mais confiava que se deslocasse a Shiraz e entrevistasse pessoalmente o Báb, e lhe desse uma opinião mais formulada sobre a natureza e propósitos daquela nova religião.

O homem escolhido para essa missão foi Siyyid Yahyay-i-Darabi[1], para os baha'is ficou conhecido como Vahid. O monarca confiava na imparcialidade, competência e visão espiritual deste homem; muitos dirigentes religiosos admiravam a sua eloquência e conhecimentos. Dizia-se que conhecia quase todo o Alcorão do cor e que tinha memorizado mais de trinta mil tradições islâmicas.


Em Shiraz, graças a um amigo que se tinha convertido à religião babi, Vahid conseguiu ser recebido várias vezes pelo Báb. No primeiro encontro, começou por falar durante mais de duas horas sobre temas metafísicos do Islão, excertos mais obscuros do Alcorão, e tradições e profecias misteriosas sobre os Imans[2]. O Báb foi ouvindo todas as suas questões e foi dando respostas breves e concisas; Vahid não conseguia evitar um crescendo de admiração com a lucidez das repostas. Os seus sentimentos iniciais de orgulho e superioridade intelectuais desvaneceram-se lentamente. Quando a entrevista terminou, confidenciou ao amigo: "Ele consegue responder com palavras simples às minhas questões e maiores perplexidades. Senti-me tão humilhado que só pensava em vir-me embora".

Ao iniciar-se a segunda entrevista, Vahid (que tinha uma memória prodigiosa) percebeu que se tinha esquecido de todas as questões que queria colocar ao Báb. Começou a falar de assuntos irrelevantes para o inquérito; mas imediatamente percebeu que o Báb estava a responder, com a mesma lucidez e simplicidade, às questões que ele se havia esquecido. Estranhando a coincidência, pediu para se retirar.

Para a terceira entrevista desejou que o Báb revelasse um comentário ao Sura de Kwathar[3]. Aquilo seria para ele uma derradeira prova da divindade do Báb. Pensou para si próprio que se Ele, sem ser solicitado, revelasse um tal comentário, e de forma diferente dos tradicionais comentadores do Alcorão, então isso seria um prova inequívoca do carácter divino da Sua missão; caso contrário recusaria reconhecer-Lhe esse estatuto.

Assim que entrou na presença d’Ele foi tomado por um invulgar sentimento de medo. O Báb levantou-Se segurou-lhe na mão e disse-lhe: "Procura em Mim o que quer que seja o desejo do teu coração. Eu to revelarei." E perguntou-lhe: "Se eu revelasse um comentário ao Sura de Kawthar, reconhecerias as Minhas palavras como nascidas do Espírito de Deus?" As lágrimas correram pelo rosto de Vahid e apenas conseguiu balbuciar umas palavras.

Pouco depois, o Báb pediu um estojo de canetas e papel e começou a revelar um comentário ao Sura de Kawthar. Vahid foi testemunha da revelação desse comentário; o Báb murmurava as palavras rapidamente e a caneta, em igual ritmo, registava essas palavras. E assim continuou até ao pôr do sol, quando o Báb deu o comentário por completo. Nessa ocasião pousou as canetas e pediu chá; pouco depois começou a ler o texto em voz alta.

O estilo das Suas palavras, o vigor dos argumentos e o tom poético do texto deixaram Vahid profundamente impressionado. Quando terminou a leitura, o Báb pediu a Vahid e a um secretário que procedessem à transcrição rigorosa do texto, validando as referências às tradições islâmicas citadas. Foi tarefa que os ocupou durante três dias.

Aqueles três encontros de Vahid com o fundador da religião babí alteraram o rumo da sua vida. Aceitou de forma plena e sincera a Mensagem do Báb e passou então a dedicar-se à divulgação da nova religião, viajando pela Pérsia. Vários milhares de pessoas aceitaram a Fé depois de ouvirem as suas palavras; alguns dos primeiros crentes desses tempos também tomaram conhecimento da nova religião graças aos seus esforços. No decorrer de uma dessas viagens chegou mesmo a encontrar-se com Bahá'u'lláh, em Teerão.

Vahid escreveu um relato detalhado dos seus encontros com o Báb e entregou-o ao camareiro do Xá, para que fosse apresentado ao monarca. Quando este soube da conversão de Vahid, comentou com o primeiro ministro: "Fomos informados que Siyyid Yahyay-i-Darabi se tornou babi. Se isto é verdade, então temos que deixar de menosprezar a Causa deste Siyyid[4]".

Os seus dias terminariam durante os massacres que se seguiram após o cerco ao forte de Khajih, em Nayriz. Vahid foi estrangulado e o seu cadáver, arrastado por um cavalo foi exibido pela cidade. Dez dias mais tarde, o próprio Báb seria martirizado em Tabriz.

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NOTAS
[1] - O termo Darabi indica a proveniência. Vahid nasceu em Darab.
[2] - Sucessores de Maomé
[3] - O capítulo mas pequeno do Alcorão
[4] – Refere-se ao Báb

terça-feira, 21 de junho de 2005

Nayriz

Há exactamente 155 anos, no dia 21 de Junho, várias centenas de Babis foram massacrados em Nayriz, no sul da Pérsia. Foi um dos poucos momentos em que na história da religião Babi, os crentes pegaram em armas para se defender. Foi também um dos eventos trágicos daquele ano de 1850, que culminaria com o fuzilamento do Báb.

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O episódio de Nayriz está profundamente ligado a um dos mais distintos discípulos do Báb: Siyyid Yahyay-i-Darabi, mais conhecido por Vahid (em português, "Incomparável"). Vahid era um homem de confiança do Xá que tinha sido encarregado por este de investigar as actividades do Báb e dos Seus seguidores e que acabou por aceitar a religião babi. O seu prestígio na Pérsia e, especialmente, entre os Babis era enorme. Para onde quer que viajasse a sua presença era sempre aguardada com grande interesse.

No início de 1850, depois de passar por Yazd - onde proclamou abertamente o aparecimento do Qaim na pessoa do Báb - seguiu viagem para a região de Nayriz. A sua fama e influência precedia-o e numa das povoações da região - Chinar-Sukhtih – onde a maioria da população tinha aceite a nova religião, a sua chegada era aguardada com expectativa. Ao contrário, o governador de Nayriz, Zaynu'l-'Abidin Khan, encorajado pelo clero muçulmano, estava determinado a impedir a sua permanência na região; chegaram mesmo a ameaçar os habitantes com severas represálias se permitissem a estadia de Vahid naquelas terras. Esta ameaça foi reforçada com a preparação de mil soldados para enfrentar a chegada de Vahid.



As ameaças do governador esmoreceram a fé de alguns babis e estimularam o entusiasmo de outros. Ao ter conhecimento das ameaças e intenções do governador, Vahid preocupou-se primeiramente com a segurança dos Babis que viajavam consigo. Decidiu ocupar o pequeno forte de Khajih nas imediações de Chinar-Sukhtih, onde outros babis se juntaram ao seu grupo; seguidamente ordenou que se reforçassem os muros do forte e da povoação.

Alguns dias mais tarde os soldados do Governador cercaram o forte. Após os primeiros confrontos (em que foi morto o irmão do governador e dois dos seus sobrinhos foram feitos prisioneiros), o governador pediu um reforço militar (canhões e cavalaria) ao Governador-Geral de Shiraz. Mas a determinação dos babis era enorme e nem a chegada desses reforços - com ordem para exterminar os sitiados - foi suficiente para tomar o forte.

O governador de Nayriz tentou outro método: a traição. Enviou uma mensagem aos sitiados onde afirmava ter sido induzido a atacar os babis por pessoas indignas; que começava agora a conhecer o verdadeiro carácter dos ensinamentos daquela religião quem em nada denegria o Islão, nem encontrava motivações políticas entre os babis que pudessem meter pôr em causa a segurança do país; e para dissipar todas as dúvidas e evitar mais derramamento de sangue, solicitava que os chefes babis viessem a falar com as autoridades no exterior do forte.

Apesar de perceber as intenções do Governador, Vahid abandonou o forte, na companhia de cinco babis e dirigiu-se ao acampamento militar, onde durante três dias foi saudado com grandes celebrações. Durante esses dias os oficiais fingiram grande interesse pelaspalavras de Vahid e satisfizeram todos os seus pedidos. Exteriormente manifestavam respeito e admiração pelas suas palavras, mas em segredo engendravam um estratagema para tomar o forte.

Pediram a Vahid que escrevesse uma mensagem aos companheiros que ainda estavam no forte, solicitando-lhes que abandonassem o local, pois a tropa não lhes faria qualquer mal. Vahid decidiu escrever duas mensagens; a primeira correspondeu aos pedidos dos sitiantes; a segunda alertava os babis para não se deixarem enganar pelas maquinações do Governador. No entanto, o portador desta segunda mensagem acabou por a levar às mãos do Governador e nunca foi entregue aos Babis. Apenas a primeira mensagem chegou ao forte.

Após aqueles três dias, os babis sitiados aguardavam com ansiedade instruções de Vahid; ao lerem a única mensagem que lhes foi entregue, abandonaram o forte e dirigiram-se a Chinar-Sukhtih. Logo à entrada dessa localidade foram emboscados e começaram a ser massacrados. Entretanto, no campo dos sitiantes começaram a insultar Vahid e a recordar-lhe os nomes dos familiares do Governador que tinha morrido nos combates. O tom agressivo da linguagem foi subindo e acabaram por amarrar Vahid e sujeitá-lo a várias humilhações.

Em Chinar-Sukhtih a população pôs-se em fuga; várias famílias, com crianças e idosos, tentaram fugir para as montanhas; outros esconderam-se onde podiam na povoação. Várias casas foram incendiadas e outras saqueadas. A maioria dos homens capturados foi executada; as mulheres e crianças, agredidas e aprisionadas. Parte dos cativos foi obrigada a desfilar pelas ruas de Nayriz, no meio de insultos e espancamentos; outros foram levados para Shiraz, onde, perante os cadáveres desmembrados dos seus entes queridos, também foram obrigados a desfilar pelas ruas da cidade.



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NOTAS
Descrições mais detalhadas do Episódio de Nayriz:
* Narrative of Mulla Muhammad Shafi' Nayrizi (inclui os incidentes de 1850 e 1853)
* The Nayriz Upheaval (The Dawnbreakers)
* If Walls Could Speak - An eyewitness account of the Bábís of Nayriz

quinta-feira, 19 de maio de 2005

Yazd

Há alguns anos atrás, quando num noite de sábado cumpria o típico programa "jantar e cinema", um dos amigos bahá'ís comentou o facto de uma moça da comunidade já com quase vinte anos, nunca ter autorização para sair de casa. Era estranho, mas era verdade. Os pais não autorizavam que ela se juntasse àquele grupo que se reunia ao sábado à noite para comer uma pizza e ver um filme. Uma outra rapariga do grupo, de origem iraniana, esclareceu: "Pois... os pais dela são de Yazd". Ninguém percebeu o que aquilo queria dizer. Por fim esclareceu: "As pessoas de Yazd têm fama de ser muito duros. Foi lá que ocorreram os martírios mais brutais da história bahá'í."

Não sei até que ponto esta descrição é realidade ou um mero estereotipo. Hoje ao recordar um dos mais brutais dos martírios que ocorreram em Yazd, não pude deixar de recordar esta conversa.

OS SETE MÁRTIRES DE YAZD

O ano de 1891 foi particularmente violento para os bahá'ís da Pérsia. Um pouco por todo o país vários crentes foram martirizados, assustando a comunidade e levando-a a passar a uma situação de semi-clandestinidade. A cidade de Yazd[1] foi palco de um dos mais horríveis martírios desse ano: num único dia, sete crentes foram assassinados de forma incrivelmente cruel.

No dia 19 de Maio daquele ano, por ordem do governador e encorajamento do mujtahid local[2], sete crentes foram acorrentados e obrigados a desfilar pelos bazares, pelas principais ruas e praças da cidade. Eram acompanhados por uma multidão eufórica que gritava e cantava, aguardando freneticamente as suas execuções. Foram martirizados em diferentes locais da cidade. Alguns bahá'ís[3] que testemunharam os martírios foram obrigados a decorar as suas lojas para celebrar o evento.




O primeiro destes sete mártires foi 'Ali-Asghar, um jovem de vinte e sete anos. Depois de ser estrangulado, os restantes seis companheiros foram obrigados a arrastar o seu corpo pelas ruas da cidade. Um pouco mais à frente, Mullah Mihdi, um idoso de oitenta e cinco anos foi decapitado. Mais uma vez, os restantes companheiros foram obrigados a arrastar o seu cadáver até outro bairro da cidade onde executaram outro companheiro 'Aqa Alí. Todos estes crimes foram cometidos perante uma multidão entusiasmada que os insultava, agredia e festejava a sua morte.

Posteriormente seguiram até à casa do mujtahid local onde foi degolado um quarto companheiro, Mullá 'Alíy-i-Sabzivári; o seu corpo foi despedaçado perante os gritos da multidão eufórica. Logo a seguir, num outro bairro, perto das Portas de Mihriz, Muhmmad-Baqir sucumbiu aos suplícios. O cortejo dirigiu-se, então, para o Maydan-i-Khan onde os últimos condenados, os dois irmãos com pouco mais de vinte anos, 'Alí Ashgar e Muhhammad-Hasan, foram decapitados. A cabeça de um deles foi colocada numa lança, exibida como troféu e posteriormente apedrejada; o seu cadáver foi lançado contra a porta da casa da sua mãe, onde várias mulheres entraram para dançar e celebrar.

Ao final da tarde, os cadáveres arrastados para fora da cidade onde foram amontoados e apedrejados; os judeus da cidade foram obrigados a levar o que restava dos seus corpos e a lançá-los num fosso na planície de Salsabil.

Ante o entusiasmo da população, o governador decretou feriado para o povo; o comércio foi encerrado e várias ruas iluminadas para que os festejos pudessem prosseguir durante a noite.

Este foi um mais bárbaros actos cometidos contra a comunidade bahá’í durante os chamados tempos heróicos[4]. É relativamente fácil encontrar referências a este massacre em vários livros bahá'ís. Nos próximos posts apresentarei testemunhos de ocidentais que testemunharam o evento.

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NOTAS
[1] - Sobre a história das perseguições em Yazd ver também YAZD, IRAN e Persecutions of Babis in 1888-1891 at Isfahan and Yazd.
[2] - Doutor de Lei Islâmica
[3] - Existe um relato de um comerciante, chamado Haji Mirza, que afirma que, quando a multidão passou na rua, o próprio Bahá'u'lláh teria passado em frente à sua loja, pouco metros atrás dos mártires (na época Bahá'u'lláh estava exilado em ‘Akká). Haji Mirza saiu imediatamente do estabelecimento para seguir Bahá'u'lláh; Este terá feito um gesto apontado na direcção da loja, indicando que ele devia voltar para trás. Haji Mirza regressou à loja e dali viu que Bahá'u'lláh estava próximo do grupo de mártires quando um deles foi executado. Esta estranha visão fê-lo perceber que os mártires não estavam sós no momento da execução. Para mais pormenores, ver Adib Taherzadeh, The Revelation of Baha'u'llah, vol. 3, p. 194
[4] - Yazd voltaria a ser palco de perseguições ainda mais intensas em 1903.

sexta-feira, 22 de abril de 2005

O Xá Nasiri'd-Din(2)

O segundo post sobre o Xá Nasiri'd-Din e a epístola que Bahá'u'lláh lhe enviou.

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BABIS E BAHÁ’ÍS

Nasiri'd-Din foi o único monarca que acompanhou o nascimento da religião do Báb. Teve conhecimento do seu surgimento, assim que os adeptos babís se espalharam pela Pérsia. Quando ainda era apenas herdeiro do trono, assistiu a uma proclamação do Báb perante uma assembleia de clérigos e dignatários do Azerbaijão persa. Nessa ocasião o Báb terá proclamado: "Eu sou, eu sou, eu sou o Prometido! Eu sou Aquele cujo nome invocais há mil anos, a cuja menção vos levantais, cujo advento há muito desejais testemunhar, e a hora cuja revelação haveis implorado a Deus que apressasse. Em verdade vos digo: incumbe aos povos, tanto do Oriente como do Ocidente, obedecer à Minha palavras e cumprir a aliança com a Minha pessoa"[1]


O Xá Nasiri'd-Din numa visita à Europa

Em Agosto de 1852 foi alvo de uma tentativa de assassinato por parte de três babís; apesar destes terem confessado ter agido por sua iniciativa individual, esse acontecimento deixaria o seu reinado marcado por uma profunda animosidade contra Babis e Baha’is, animosidade essa que foi prontamente aproveitada pelo clero muçulmano.

O seu rancor foi sendo alimentado por várias vários opositores de Bahá'u'lláh que fizeram chegar ao monarca informações segundo as quais Bahá'u'lláh conspirava contra ele; caluniavam e acusavam Bahá'u'lláh, distorciam os Seus ensinamentos. Não seria, porém, de admirar que o "problema bahá'í" fosse mais uma questão para a qual o Xá pedia o envolvimento dos seus ministros.


EPÍSTOLA DE BAHÁ’U’LLÁH

De entre as epístolas reveladas aos governantes do Seu tempo, a epístola ao Xá da Pérsia (Lawh-i-Sultán) é a mais longa. Nesta, o fundador da religião baha’i proclama ser portador de uma mensagem divina e apela ao Xá para que olhe pelo povo da Pérsia com justiça e generosidade. Ao longo do texto, repetem-se exortações para que o Xá não dê atenção aos seus bens materiais, recordando que foram muitos os monarcas do passado cujos palácios hoje se encontram em ruínas, cujos tesouros se perderam, e cuja glória desapareceu. Mais do que os bens materiais a distinção do ser humano está nos seus actos, na sua rectidão e na sua piedade.

Tal como o fez com outros governantes, também nesta epístola Bahá’u’lláh refere alguns aspectos da governação. No texto é denunciado o comportamento de alguns oficiais e figuras do estado que em vez de trabalhar em prol do progresso do país e serviço ao Xá, preferem denunciar algumas pessoas como Babis, apenas com o intuito de os matar e saquear as suas propriedades.[2]

Um dos excertos mais conhecidos desta epístola é aquele em que Bahá’u’lláh se descreve como Manifestante de Deus. Era um homem como os outros, não tinha conhecimentos ou erudição especial, mas a Revelação Divina fê-Lo expressar a vontade de Deus e proclamar uma nova Mensagem.

Alguns excertos:

Ó Rei! Eu era apenas um homem como os outros, adormecido em meu leito, quando eis que os sopros do Todo-Glorioso manaram sobre Mim e Me deram o conhecimento de tudo o que já existia. Isso não provém de Mim, mas d’Aquele que é Todo-Poderoso e Omnisciente. E Ele ordenou-Me que levantasse a Minha voz entre a terra e o céu, e por isso Me sucedeu o que fez correr lágrimas de todo os homens de compreensão. A erudição comum entre os homens, não a estudei; nem entrei nas suas escolas. Pergunta na cidade em que residi, a fim de teres a certeza de que Eu não sou dos que falam falsamente. Este Ser é apenas uma folha movida pelos ventos da Vontade do teu Senhor, o Todo-Poderoso. Alvo de todo louvor.
(...)
Contempla este Jovem, ó rei, com os olhos da justiça: então, julga com verdade, daquilo que Lhe sucedeu. Verdadeiramente, Deus fez-te a Sua sombra entre os homens e sinal do Seu poder para todos os que habitam na terra. Julga tu entre Nós e aqueles que Nos injuriaram sem prova e sem um Livro esclarecedor. Os que te rodeiam amam-te por seus próprios interesses, enquanto este Jovem te ama por ti mesmo, nenhum desejo nutrindo a não ser o de te fazer aproximar do trono da graça e te dirigir à direita da justiça.
(...)
Oxalá Me permitisses, ó Xá, enviar-te aquilo que poderia alegrar os olhos e tranquilizar as almas e fazer toda pessoa sensata acreditar que o conhecimento do Livro está com Ele... Se não fosse o repúdio dos insensatos e a conivência dos sacerdotes, Eu teria proferido palavras que extasiariam os corações, transportando-os para um reino cujos ventos se fazem ouvir, murmurando "Nenhum Deus há senão Ele!..."[3]

Esta Epístola foi revelada em Adrianópolis, mas só seria enviada para o Xá durante o exílio de Bahá'u'lláh em 'Akká. A história do portador e da forma como foi entregue ao Xá é particularmente interessante e merece um post à parte.

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NOTAS
[1] - Adib Taherzadeh, The Revelation of Baha'u'llah, vol. 2, p. 336
[2] – Nos meios políticos e religiosos da Pérsia naqueles anos, um método normal de destruição de um inimigo era acusá-lo de ser Babi. Antes da vitima poder provar a sua inocência, seria castigada, por vezes com a pena de morte
[3] – Os excertos desta epístola já traduzidos para inglês encontram-se aqui.

terça-feira, 19 de abril de 2005

O Xá Nasiri'd-Din (1)

Passam hoje 114 anos sobre a morte do Xá Nasiri'd-Din. Este monarca persa reinou durante a última metade do sec. XIX e testemunhou o surgimento das religiões babi e baha’i naquele país. Esta efeméride é serve de pretexto aos meus próximos posts.

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INTRODUÇÃO

Quem fale um pouco com iranianos sobre o passado do Irão facilmente percebe o orgulho que sentem na sua história. Tiveram reis extraordinários, ministros e governantes respeitáveis, sacerdotes e místicos admiráveis, poetas e intelectuais famosos, artistas e construtores fantásticos. Mas a história de qualquer nação, ou povo, tem altos e baixos. A dinastia Qajar[1] (1796-1925) ocupou o Trono do Pavão num tempo em que a Pérsia se deixou asfixiar pelas pressões da vizinha Rússia e da Grã-Bretanha. A primeira ia alargando os seus territórios e influência no Cáucaso; a segunda afirmava-se como uma grande potência mundial.

O monarca dessa dinastia que reinou durante mais tempo foi Nasiri'd-Din; durante a última metade do séc. XIX, ele confiou o destino político da Pérsia a sucessivos primeiros-ministros. Além das pressões russa e britânica, existiam também influências económicas, sociais e tecnológicas que iam abalando a sociedade persa. Foi durante esses tempos conturbados que as religiões Babí e Bahá’í surgiram na Pérsia.

O Xá Nasiri'd-Din

Em 1848, Nasiri'd-Din encontrava-se em Tabriz, capital provincial do Azerbaijão persa, quando recebeu a notícia da morte de seu pai, o Xá Muhammad. Nunca tinha sido o filho predilecto, ao contrário do seu irmão Abbas. O novo Xá, com 19 anos, era muito imaturo para o novo cargo; os seus interesses principais centravam-se nas mulheres e na caça. Alguns historiadores referem que estes foram sempre os interesses do Xá ao longo da sua vida; os assuntos da governação eram sempre confiados aos ministros.

AMIR KABIR, O PRIMEIRO-MINISTRO

O seu preceptor, Amir Kabir, acompanhava-o desde muito novo. Quando o príncipe Nasiri'd-Din sucedeu ao seu pai, Amir Kabir foi nomeado conselheiro, e posteriormente, primeiro ministro. Amir Kabir é invariavelmente descrito como um homem inteligente e brilhante cuja grande sonho era devolver ao Irão o seu antigo estatuto de potência próspera e respeitada; os seus métodos de governação, porém, revelariam um homem totalitário e brutal.

Os primeiros anos da governação do novo monarca com o seu primeiro-ministro mostravam que a Pérsia se tentava modernizar. Com o Xá frequentemente alheado dos assuntos da governação, Amir Kabir não olhava a meios para modernizar o país: organizou um sistema postal e reestruturou as finanças do estado; eliminou despesas supérfluas, reorganizou o exército e estimulou a economia; lançou as primeiras campanhas de vacinação e fundou a primeira universidade persa. Nas províncias fronteiriças colocou governadores de lealdade inquestionável. Além disto, estabeleceu sólidas relações diplomáticas com os otomanos, e criou obstáculos à influência britânica e russa no país.

Apesar destas realizações notáveis, Amir Kabir é recordado por ter sido ele a dar a ordem de execução do Báb; acredita-se que o Xá teria sido pouco influente nessa decisão. Apesar de Amir Kabir ser repetidamente descrito na literatura baha’i como um dos mais poderosos inimigos dos Babis, é interessante ter recordar umas palavras de 'Abdu'l-Bahá sobre este governante:
"Apesar do facto de ele ter oprimido esta Causa como ninguém mais o fez, Mirzá Taqi Khan[2], o Primeiro Ministro, em assuntos de Estado e política, estabeleceu o que foram as fundações verdadeiramente firmes, e isto, apesar de nunca ter frequentado escolas europeias. Na verdade, a verdadeira educação promove a condição do indivíduo de forma a que ele consiga sabedoria, consciência e confirmações divinas"[3]
O DECLÍNIO

O sucesso das realizações de Amir, e os seus programas de redução de despesas desnecessárias, valeram-lhe vários ódios e muitas inimizades. Estes surtiram uma série de intrigas palacianas que culminaram primeiramente na deposição e exílio, e posteriormente na sua execução. Com o fim da influência de Amir, termina também um ciclo reformista inicial do primeiros anos de governação do Xá Nasiri'd-Din; muitas das iniciativas de Amir Kabir foram abandonadas, a economia perdeu os seus incentivos, a vacinação foi esquecida; apenas a universidade continuou a funcionar conforme planeado. além de tudo isto, os governantes seguintes agravariam um estilo de governação despótica e profundamente corrupto.

O Xá Nasiri'd-Din visitou países europeus, encontrou-se com a Rainha Vitória e com o Kaiser Guilherme I. Visitou a Rússia, a Holanda e a Áustria. Estabeleceu ainda vários tratados com países estrangeiros, tratados esses que alguns historiadores consideram terem aberto demasiadamente as portas às influências estrangeiras. Alguns desses acordos (nomeadamente, a cedência da indústria do tabaco aos britânicos) provocaram motins e problemas com o clero.

Em Abril de 1891, Nasiri'd-Din e o país preparavam as celebrações do seu jubileu. No dia 19 desse mês, o Xá dirigiu-se ao santuário de 'Abdu'l-'Azim (túmulo de um líder religioso e local de peregrinação). Quando concluiu as suas orações, um partidário de um grupo oposicionista (Siyyid Jamalu'd-Din) disparou sobre o monarca, que morreu pouco depois. Diz-se que pouco antes de morrer teria pronunciado as seguintes palavras "Se sobreviver, vou governar de maneira diferente!"

Funeral do Xá Nasiri'd-Din

O Xá Nasiri'd-Din foi um dos governantes do século XIX em cujas mãos estava o destino de milhões de seres humanos; tal como vários governantes europeus, exercia o poder de forma arbitrária, tirânica e, por ventura, mais brutal. Sendo governante do país natal de Bahá'u'lláh, não é de admirar que ele tivesse sido um dos destinatários das epístolas que o fundador da religião Bahá'í dirigiu aos reis e governantes do Seu tempo. No próximo post será sobre essa epístola, a Lawh-i-Sultán.

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NOTAS
[1] - Ver também Qajar Dynasty
[2] - Outro nome pelo qual Amir Kabir também era conhecido
[3] - Zarqani, Badá’í’ul-Athar, Vol 2, p.144, citado em The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, pags 160.

sexta-feira, 8 de abril de 2005

Há 152 anos: o início do exílio em Bagdade

Em 8 de Abril de 1853, Bahá'u'lláh chegou a Bagdade, na companhia de alguns familiares. Iniciava-se do primeiro exílio. Na altura, a cidade era uma capital provincial do império Otomano, com cerca de 60.000 habitantes. A cidade, cuja construção foi ordenada pelo Califa Al-Mansur, entre 762 e 766 EC, frequentemente designada por Cidade da Paz (Madinatus Salam), já perdera o esplendor de tempos gloriosos. Tinha sido capital de um império que se estendia do Egipto à Índia. Mas os saques dos Mongois (1258 e 1401) e a conquista pelos Otomanos (1534) marcaram definitivamente a sua decadência.

O exílio vivido em Bagdade iniciou-se num tempo em que os babís sentiam profundamente as perseguições vividas na Pérsia e também a ausência de uma liderança clara na sua comunidade. Desde o martírio do Báb, vários crentes tinham reclamado ser "herdeiros espirituais" do fundador da religião Babi; outros anunciavam serem o Prometido anunciado pelo Bab. Este ambiente de agitação e intriga levou a que Bahá'u'lláh se afastasse durante uns tempos de Bagdade e fosse viver como um dervish durante dois anos nas montanhas do Sulaymanieh.


Bagdade, no início do Sec. XIX

Nos anos seguintes anos seguintes os babís foram reagrupando-se em torno de Bahá'u'lláh; muitos viajavam desde as cidades persas para O visitar em Bagdade. A Sua casa tornou-se local de peregrinação para os Babis[1]. Alguns crentes dessa época deixaram interessantes testemunhos sobre o quão importante era para eles visitar pessoalmente Bahá'u'lláh. O texto seguinte é um excerto de uma carta de um tio do Báb que se deslocara propositadamente ao Iraque para falar com Ele. As palavras do autor são bem reveladoras do fascínio que Bahá’u’lláh provocava nos primeiros crentes.

...Alcancei a presença de Sua Honra Bahá - que a paz esteja sobre Ele - e desejava que pudesses ter estado presente! Ele tratou-me com o máximo afecto e cortesia, e atenciosamente pediu-me para ficar durante a noite. É uma verdade absoluta que a privação da Sua magnânime presença é uma penosa perda. Que Deus me conceda o privilégio de alcançar a Sua presença perpetuamente[2]
O exílio em Bagdade é recordado pela revelação de dois livros sobejamente conhecidos nas Escrituras Bahá’ís: As Palavras Ocultas, que contém um conjunto de conselhos e advertências espirituais que ajudam o ser humano na sua caminhada para o Criador; o tom poético e místico das palavras de Bahá’u’lláh fizeram deste livro um dos mais populares entre os crentes. O Livro da Certeza, o segundo livro mais importante das escrituras baha’is e simultaneamente a obra teológica mais relevante das escrituras de Bahá’u’lláh; este livro contém uma descrição detalhada do propósito e natureza da religião, explica as passagens mais misteriosas do Corão, e dos Antigo e o Novo Testamentos, e descreve o papel dos Mensageiros de Deus como intermediários entre Deus e a humanidade.

O exílio em Bagdade duraria 10 anos. Em 1863, as autoridades Otomanas e persas decidiram exilar Bahá’u’lláh em Constantinopla.

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NOTAS
[1] – A Casa de Bahá’u’lláh em Bagdade e a Casa do Báb em Shiraz são consideradas nas escrituras baha’is como locais de peregrinação.
[2] - Khánidán-i-Afnan, pag. 42-43, citado em The Revelation of Bahá'u'lláh, vol. I de Adib Taherzadeh

quinta-feira, 7 de abril de 2005

O Passaporte

A figura seguinte mostra uma reprodução do passaporte emitido pelo Governo Persa para Bahá'u'lláh e Sua família, para a viagem que os levaria ao primeiro exílio, no Iraque.



Tradução:

Passaporte Impresso na Capital Suprema

Viajam com o portador quatro mulheres.
Levam consigo duas crianças do sexo masculino.

Mirza' Husayn-'Ali Nur-i

Número: (em branco)
Características: (em branco)
Idade: 35
Altura: Média
Olhos: Pretos
Sobrancelhas: Pretas
Barba: Preta
Bigode: Preto
Sinais Particulares: (em branco)

O portador deste passaporte é cidadão do Governo supremo do Irão. Por ordem de Sua Excelência o Primeiro-Ministro, está livre (dismissed) e vai viajar para os pavilhões supremos nos Santuários Sagrados[1]. Os guardas fronteiriços e oficiais de passaportes não devem impedir a sua passagem nas províncias, nas cidades e ou fronteiras, mas antes devem dar a devida consideração se necessário. A duração deste passaporte é de um ano, após o qual já não será válido.

Ano: 1269 [2]
Taxa: 500 Dinares

Por ordem escrita do Ministro dos Negócios Estrangeiros[3]
Emitido em Teerão, 1 Rabí'u'th-Thání[4]

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Notas
[1] - Santuários xiitas no Iraque, nas cidades de Bagdade, Najaf e Karbala
[2] - De acordo com o Calendário Lunar Islâmico
[3] - O nome do ministro está escrito à mão e não é perceptível na totalidade. Provavelmente será Mírzá Sa'íd Khán
[4] – Quarto mês do calendário islâmico. Há algumas dúvidas sobre se o dia é "1" ou "9". É quase certo que se trate do dia "1", pois este corresponde ao dia 12 de Janeiro de 1853, a data em que Bahá'u'lláh foi oficialmente exilado para o Iraque. (ver God Passes By, Shoghi Effendi, p. 108. Ver também The Revelation of Baha'u'llah, Adib Taherzadeh, 1975, vol: 1, p. 13.)

terça-feira, 5 de abril de 2005

1853: a caminho do Primeiro Exílio

Em 1852, um atentado contra o Xá da Pérsia provocou uma onda de perseguições contra a recém nascida comunidade Babí. Entre as figuras proeminentes dessa comunidade contava-se Bahá'u'lláh. Durante vários meses daquele ano, o nobre persa esteve encarcerado numa masmorra de Teerão, enquanto nos corredores do palácio real se moviam influências, quer para o condenar à morte, quer para Lhe poupar a vida.

Como resultado desse jogo de influências, e de alguma forma, fruto do Seu prestígio social e das pressões do embaixador russo[1], no final desse ano, o governo persa libertou Bahá'u'lláh e dando-Lhe um prazo de um mês para abandonar o país. Ao ser libertado, Bahá'u'lláh estava doente, não tinha casa onde morar (a sua residência tinha sido pilhada e vandalizada), e as Suas duas esposas e filhos encontravam-se a viver num bairro obscuro da capital. Valeu-Lhe, então, o apoio de um dos Seus irmãos. No espaço de um mês, Bahá'u'lláh pôde recuperar a sua saúde, enquanto se faziam os preparativos possíveis para deixar o país.

Em Janeiro do ano seguinte, Bahá'u'lláh e a Sua família[2] abandonaram Teerão, na companhia de um representante do governo iraniano e um oficial da embaixada russa. O governo russo tinha-se oferecido para receber aquele nobre persa no seu território, mas Ele preferiu ir para o Iraque, que na época era uma província Otomana.

A história e os detalhes desta viagem em direcção ao Iraque foram já descritas por vários historiadores bahá’ís[3]. Foram três meses em que tiveram de atravessar o agreste planalto iraniano coberto de neve. Anos mais tarde, Bahá'u'lláh numa das Suas Epístolas atribuiria os motivos do exílio à Vontade de Deus e descreveu as condições dessa viagem, referindo que os grupo de viajantes eram "homens frágeis acompanhados por crianças de tenra idade, num momento em que o frio era tão intenso que não se podia falar e o gelo e a neve tão densos que mal se podiam mover"[4].


Ilustração do Sec.XIX, mostrando uma caravana típica
que cruzava as estradas da Pérsia e do Iraque

Não obstante essas dificuldades, durante essa viagem, em várias paragens foi recebido cordialmente por vários nobres governadores e comerciantes. Por altura do Naw-Ruz (o ano novo persa) atravessou a fronteira. Para trás ficou a Pérsia, o país que O viu nascer, e que não voltaria a ver.

Não deixa de ser curioso perceber como em todas as religiões o exílio parece ser uma constante na vida dos seus Fundadores. Conhecemos a história da viagem de Abraão de Ur para a Terra Prometida, o êxodo de Moisés, a fuga da Sagrada Família para o Egipto e a migração de Maomé de Meca para Medina. Em todos esses momentos Deus protegeu os Seus Manifestantes e os Seu eleitos. E por incrível que pareça, o exílio do seu Fundador, acaba sempre por fortalecer e proteger essa nova religião.

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NOTAS
[1] – Sobre outras acções do Embaixador Russo em Teerão, ver
A Preocupação do Embaixador Russo e Sete Mártires de Teerão: a Reacção Russa.
[2] – Além das esposas e filhos (na época
‘Abdu’l-Bahá tinha nove anos), houve ainda dois irmãos que acompanharam Bahá’u’lláh no Seu primeiro exílio.
[3] – Ver
Bahá'u'lláh, the King of Glory, H. M. Balyuzi, cap. 19 (Release an Exile)
[4] – Citado em Presença de Deus, Shoghi Effendi, pag. 162-163

domingo, 13 de março de 2005

O Czar Alexandre II

Há 126 anos, no dia 13 de Março, o Czar Alexandre II era assassinado. Terminava um reinado que muitos historiadores, consideram simultaneamente despótico e modernizador. Pouco conhecido a respeito de Alexandre II é o facto de ele também ter sido o destinatário de uma epístola de Bahá'u'lláh.

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Aleksandr Nikolayevich, conhecido nos livros de história como Czar Alexandre II, era o filho mais velho do Grão-Duque Nikolay Pavlovich (Nicolau I) e de Alexandra Fyodorovna. A sua infância e juventude foram vividas sob a personalidade dominante e autoritária do pai, e pelos incentivos da mãe ao seu desenvolvimento moral e intelectual. Alexandre sobiu ao trono em Fevereiro de 1855, em plena Guerra da Crimeia. A derrota russa nessa guerra provocou entre a elite militar um enorme desejo de mudança; a este desejo o novo Czar respondeu com uma série de reformas destinadas a modernizar o país e a colocá-lo entre os mais avançados do mundo.

Logo após a assinatura do tratado de paz em Paris (1865), Alexandre II lançou um programa de construção de linhas de caminho de ferro (foram construídos mais de 20.000 km durante o seu reinado); estas infra-estruturas fizeram despertar a economia numa sociedade que até então era predominantemente agrícola e feudal. Uma outra medida de modernização foi a abolição da servidão; a Acta da Emancipação publicada, de 1861, concedeu liberdade pessoal a dezenas de milhões de pessoas. Esse acto foi classificado por alguns historiadores como "a maior revolução social desde a revolução francesa". No entanto, isso só por si não permitiu o surgimento de uma nova classe de camponeses proprietários.

Foi também criado um sistema judicial comparável aos ocidentais; as reformas administrativas do estado levaram à criação de assembleias eleitas a nível local; os poderes dessas assembleias permitiram algumas melhorias no bem-estar social (educação, cuidados básicos de higiene e saúde e redução do analfabetismo). A reestruturação do exército em 1874 introduziu o recrutamento obrigatório, fazendo com que os jovens de todas as classes sociais prestassem serviço militar.

Alguns prisioneiros políticos foram libertados e foi permitido o regresso de exilados na Sibéria; foram também atenuadas as perseguições às minorias étnicas e religiosas do Império, e aboliram-se os castigos corporais. Como consequência destas tímidas reformas políticas, na Polónia surgiram manifestações nacionalistas. Mas Alexandre II não era propriamente um liberal. Continuou a reger-se por métodos autocráticos, convencido que seu poder tinha origem divina; a própria Rússia não parecia estar preparada para um governo constitucional ou representativo. Após escapar a um atentado em 1866, Alexandre II tomou medidas repressivas. Em 1877, entra em guerra com o Império Otomano (que já estava em guerra com a Sérvia); após uma série de derrotas iniciais, o exército russo acaba por triunfar e alcançar o mar de Marmara. Como consequência dessa guerra, a Bulgária separa-se do jugo Otomano e torna-se independente[1].

Em 1879, o ressurgimento do terrorismo revolucionário foca-se na pessoa do próprio Czar; Alexandre II foi alvo de vários atentados e respondeu com novas medidas ainda mais repressivas. Em 13 de Março de 1881, quando, após muitas hesitações, decidiu proclamar uma nova constituição (que conciliava algumas opiniões politicamente moderadas), foi assassinado num atentado à bomba.

Alguns historiadores descrevem Alexandre II simultaneamente como déspota e autor da modernização da Rússia no séc. XIX (apesar de nem todas as suas reformas terem sido bem sucedidas). Foi ele que abriu as portas para o declínio do imperialismo russo na Ásia: a venda do Alasca aos EUA (1867) foi "compensada" pela aquisição de territórios na China, pela fundação de Vladivostok como capital do extremo oriente (1860), pela subjugação definitiva do Cáucaso (1860’s) e pela conquista da Ásia Central (1870’s).

Os Bahá'ís e a Rússia

A Pérsia do século XIX, vivia sobre pressão britânica e russa. Já aqui referi como uma série de eventos que rodearam o surgimento da religião Babí não passou despercebido aos representantes diplomáticos russos e britânicos. Alguns crentes chegaram a refugiar-se na Rússia quando as perseguições se acentuavam na Pérsia; foi também na Rússia, na cidade de Isqabad[2], que se construiu o primeiro templo baha'i.


O Templo Bahá'í de Isqabad, na Rússia

Após o atentado ao Xá da Pérsia, iniciaram-se uma série de perseguições aos Babís. Bahá’u’lláh era um conhecido apoiante da causa do Báb. A Sua posição social (filho de um governador do antigo Xá) aumentava ainda mais os riscos que corria perante as perseguições que se avolumavam. Um dos Seus cunhados, funcionário da embaixada russa em Teerão, sugeriu-Lhe que Se refugiasse temporariamente na Rússia. Essa oferta foi reiterada pelo próprio embaixador russo que durante algum tempo tentou influenciar o governo persa a rever as suas decisões relativamente a Bahá'u'lláh.

No entanto, Bahá'u'lláh preferiu ficar em Teerão. Nos meses que se seguiram, Ele foi encarcerado na tristemente célebre Syha-Chal (em português, "o fosso escuro"). A atitude do embaixador russo foi recordada durante muito tempo, como um acto de generosidade para com o Fundador da religião baha’i.

A EPÍSTOLA DE BAHÁ'U'LLÁH

O Czar Alexandre II foi um dos foi um dos monarcas a quem Bahá'u'lláh dirigiu uma epístola. Essa missiva, em língua árabe, foi revelada durante o exílio em ‘Akká; o tom dessa epístola é semelhante de outras epístolas reveladas para outros reis e governantes do Seu tempo[3]. No texto Bahá'u'lláh anuncia abertamente a Sua condição e missão de Profeta, identifica-Se como o Pai Celestial e apela ao monarca para que aceite a nova Causa Divina.

Alguns excertos dessa epístola:

Ó Czar da Rússia! Dá ouvidos à voz de Deus, o Rei, o Santíssimo, e volve-te para o Paraíso, Lugar onde habita Aquele que, entre a Assembleia no Alto, possui os mais excelsos títulos e que, no reino da criação, é chamado pelo Nome de Deus, o Esplendoroso, o Todo-Glorioso. Acautela-te para que o teu desejo não te impeça de te volveres para a face do teu Senhor, o Compassivo, o Mais Misericordioso. Nós, em verdade, ouvimos aquilo que suplicaste ao teu Senhor enquanto comungavas secretamente com Ele. Por conseguinte, as brisas da Minha misericórdia agitaram-se e o mar da Minha mercê encapelou-se, e Nós respondemo-te, em verdade. O teu Senhor, verdadeiramente, é o Omnisciente, o Sapientíssimo. Enquanto Eu estava acorrentado e algemado na prisão, um dos teus ministros estendeu-Me o seu auxílio. Por esse motivo, Deus ordenou-te uma posição que o conhecimento de pessoa alguma pode compreender, salvo o Seu conhecimento. Guarda-te de desprezar essa posição sublime...

Acautela-te para que a tua soberania não te prive Daquele que é o Soberano Supremo. Em verdade, Ele veio com o Seu Reino, e todos os átomos clamam em voz alta: "Eis! O Senhor veio na Sua grande majestade!" Aquele que é o Pai já veio, e o Filho[4], no vale santo, exclama: "Eis-me, eis-me, ó Senhor meu Deus!" enquanto Sinai circula ao redor da Casa e a Sarça Ardente clama: "Veio o Todo-Generoso, montado sobre as nuvens! Bem-aventurado quem Dele se aproximar, e ai dos que estão afastados".[5]

Levanta-te entre os homens em nome desta Causa irresistível e convoca, então, as nações a Deus, o Excelso, o Grande. Não sejas dos que invocaram Deus por um dos Seus Nomes mas que, ao aparecer Aquele que é Objecto de todos os nomes, O negaram e Dele se afastaram, e, por fim, decretaram a Sua condenação, com injustiça manifesta. Considera e recorda os dias em que apareceu o Espírito de Deus[6], e Herodes O condenou. Deus, porém, ajudou-O com as hostes do invisível, protegeu-O com a verdade, e mandou-O para outra terra, segundo a Sua promessa. Ele, em verdade, ordena o que Lhe apraz. O teu senhor preserva, verdadeiramente, a quem Ele deseja, quer se ache no meio dos mares, na garganta da serpente ou debaixo da espada do opressor...[7]

Nunca houve resposta do Czar.

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NOTAS
[1] - A guerra Russo-Otomana é descrita por Eça de Queirós nas Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres. Eça manifestava um enorme desprezo político pelo Czar e pelo Sultão e não escondia a sua simpatia pelo povo russo.
[2] - A cidade de Isqabad pertence hoje ao Turquemenistão. O templo em causa foi confiscado após a revolução soviética e posteriormente destruído por um terramoto nos anos 30.
[3] - Ver Epístolas a
Napoleão III, à Rainha Vitória, ao Kaiser Guilherme I, ao Imperador Francisco José e ao Papa Pio IX.
[4] - Jesus
[5] – Note-se as imagens utilizadas por Bahá'u'lláh para mostrar que Ele é o Prometido de todas as religiões.
[6] - Jesus
[7] - O texto completo desta epístola encontra-se na Baha'i Reference Library.

terça-feira, 8 de março de 2005

Munirih Khanum

No dia 8 de Março de 1873 realizou-se o casamento de 'Abdu'l-Bahá com Munirih Khanum. Para assinalar essa efeméride que hoje se assinala, aqui fica um breve apontamento biográfico sobre a esposa de 'Abdu'l-Bahá.

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Na Pérsia do séc. XIX era normais os casamentos arranjados entre as famílias – especialmente entre a nobreza persa; a maioria destes casamentos eram acordados entre as famílias e os noivos (ainda crianças) nada podiam objectar às decisões dos progenitores. Quando 'Abdu'l-Bahá era criança, em Teerão, a família escolheu uma para Sua noiva, Shahr-banu. Era filha de um meio-irmão mais velho de Bahá'u'lláh. Após o exílio de Bahá'u'lláh e família para o Iraque, Shahr-banu continuou a viver em Mazindaran (junto ao mar Cáspio).

Em 1868, Bahá'u'lláh deu instruções a um dos seus tios para que levasse Shahr-banu para Teerão e aí se tratassem de todos os requisitos para a sua viagem até Adrianópolis. Uma das meio-irmãs de Bahá'u'lláh, que Lhe tinha grande inimizade, ao saber deste pedido, levou Shahr-banu para sua casa em Teerão e obrigou-a a casar com o filho do primeiro-ministro[1]. Esta situação deixou Shahr-banu profundamente abalada e deprimida; algum tempo mais tarde acabaria por morrer devido a uma tuberculose.

Conta-se que, pouco depois deste acontecimento, Bahá'u'lláh terá tido um sonho que descreveu a alguns crentes: "Sonhei que a face de uma linda moça que vive em Teerão e cuja mão foi pedida por Mirza Hasan para o Mais Grandioso Ramo[2], se tornou escura. E ao mesmo tempo apareceu a face de outra moça, cujo semblante era luminoso e cujo coração radiante. Escolhemo-la para esposa do Mais Grandioso Ramo".[3]

Fatimih Khanum nasceu numa das mais conhecidas famílias de Isfahan. O pai era descendente do Profeta Maomé; a mãe era filha de comerciantes abastados daquela cidade. Desde a sua infância, Fatimih Khanum viu-se envolvida em alguns dos principais eventos da história babi e baha'i. O seu pai, Mirza Muhammad-'Ali, tornara-se babi pouco depois da declaração do Báb, e conheceu-O pessoalmente em Isfahan; foi também um dos participantes na conferência de Badasht. Fatimih cresceu neste período em que a comunidade Babi se transformava em comunidade Baha'i. Isfahan tinha uma importante comunidade e a sua família era, em muitos aspectos, o pivot dessa comunidade.

Fatimih Kahnum, mais conhecida por Munirih Khanum,
a esposa de 'Abdu'l-Bahá (1880)

Em 1872, chegou a Isfahan um mensageiro de 'Akká. Dirigiu-se à casa onde morava a família de Fatimih Khanum e disse-lhes: "Trago-vos novidades maravilhosas. Estou encarregado de levar a filha do falecido Mirzá Muhammad 'Ali para a Terra Santa; faremos o caminho dos peregrinos que seguem para Meca. Deveis fazer os preparativos para deixar Isfahan no momento da Hajj, e viajaremos por Shiraz e Bushir. Os preparativos da viagem devem ser feitos discretamente de forma a que ninguém saiba da vossa viagem a não ser alguns dias antes da partida." Na data combinada, Fatimih Khanum, o seu irmão, o mensageiro e um criado partiram em direcção a Shiraz.

Nessa cidade foram recebidos por familiares do Báb. Seguidamente, e sempre acompanhando os peregrinos que iam para Meca, seguiram para Bushir, de onde iniciaram uma viagem por mar durante 18 dias, até Jeddah. Foram a Meca, onde cumpriram os rituais da peregrinação, e no regresso a Jeddah receberam uma mensagem que os aconselhava a ficar naquela cidade até que todos os peregrinos partissem; só depois deveriam seguir para Alexandria, onde deviam aguardar até receber novas instruções. Nessa cidade do Egipto, enquanto aguardavam, conheceram os baha’is locais; todos estavam céptícos sobre a possibilidade daqueles quatro viajantes conseguirem entrar na cidade de 'Akká. Por fim, surgiram instruções que diziam que deviam apanhar um vapor austríaco até 'Akká.

O desembarque nessa cidade também teve os seus percalços, com vários desencontros e sempre sob receio de serem reconhecidos pelas autoridades otomanas. É importante ter presente que se viviam os anos de isolamento quase total da pequena comunidade de exilados em 'Akká. Ninguém conseguia entrar naquela cidade (as autoridades otomanas tinham dado instruções especiais aos guardas para impedir a entrada de viajantes persas na cidadela).

Nos meses seguintes em 'Akká, a possibilidade de contacto directo com Bahá'u'lláh e Sua família dava-lhes uma enorme alegria. Nas suas memórias, Fatimih Khanum descreve que umas das primeiras coisas que Bahá'u'lláh lhes disse quando os recebeu foi: "Trouxemo-vos à Prisão, num momento em que as portas do encontro estão fechadas para todos os crentes. Isto por nenhum outro motivo senão o de mostrar o Poder e Força de Deus".[5]

Os preparativos para o casamento foram decorrendo durante os meses seguintes. Foi também durante esse tempo que Fatimih, à semelhança de outros crentes, recebeu um título: Munirih (Iluminada).

Da cerimónia de casamento pouco se encontra nos relatos da época. Apenas sabemos que a irmã de 'Abdu'l-Bahá ofereceu a Munirih um vestido branco, e três horas após o pôr do sol, Munirih entrou na casa da família de Bahá'u'lláh, onde foi calorosamente acolhida.

A partir desse momento Munirih passou a ser uma testemunha directa dos principais eventos da história bahá'í, até 1938, ano do seu falecimento. 'Abdu'l-Bahá e Munirih Khanum estiveram casados durante 48 anos e tiveram vários filhos, dos quais apenas sobreviveram quatro meninas. Ao longo da sua vida conseguiu financiar e encorajar a criação de escolas para raparigas na Pérsia.

Túmulo de Munirih Khanum, nos jardins bahá'ís , em Haifa.
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NOTAS
[1] - Episódio descrito na Epístola ao Filho do Lobo.
[2] - Mais Grandioso Ramo é um titulo pelo qual também é conhecido 'Abdu'l-Bahá. Nas Suas escrituras, Bahá'u'lláh costuma designar os Seus descendentes masculinos por "Ramos" e os descendentes femininos por "Folhas".
[3] - Munirih Khanum: Memoirs and Letters, pag.25
[4] - Baha'u'llah - The King of Glory, H.M. Balyuzi, , p. 346
[5] - Munirih Khanum: Memoirs and Letters, pag. 44

terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

Sete Mártires de Teerão: a reacção britânica

Na Pérsia do século XIX, a execução de criminosos na presença do rei ou de governadores provinciais era uma prática corrente; as execuções públicas era raras. As execuções eram sempre precedidas de torturas horríveis; era tudo um espectáculo que agradava a alguns governadores, mas que deixava chocados os diplomatas estrangeiros em Teerão[1]. Durante algum tempo, britânicos e russos foram pressionando as autoridades persas para porem termo àquelas práticas profundamente desumanas.

A execução pública dos sete mártires bábís em Fevereiro, numa praça pública em Teerão, despertou a atenção das embaixadas estrangeiras, não só pela brutalidade das torturas a que as vitimas tinham sido sujeitas, como também pelo impacto que tinha causado na população. O Tenente-Coronel Justin Sheil, em 22 de Fevereiro de 1850, enviou o seguinte despacho para a embaixada britânica:

Nº 23

Teerão
22 de Fevereiro de 1850

Excelência,
Devo informar vossa Senhoria que as exortações do Governo de Sua Majestade para que o Xá se abstivesse de executar criminosos na sua presença não surtiu qualquer efeito. Há alguns dias atrás, sete pessoas pertencendo à seita Babee sofreram a morte por alegadamente terem conspirado para assassinar o primeiro-ministro persa. A execução teve lugar numa praça pública, na presença de uma multidão considerável, a qual não interferiu.... Aproveito a oportunidade para referir que seria desejável que, em vez de ser o Xá a proferir a sentença contra os criminosos, estes deveriam ser levados perante um tribunal, como é prática normal em qualquer país civilizado. O primeiro-ministro não parece disposto a aceitar esta recomendação, pelo menos, por agora.

A execução destas pessoas despertou uma simpatia geral, embora não se possa negar que a pena de morte esteja em conformidade com os preceitos do Maometanismo [2]. No entanto, toda a gente pensa que eles foram condenados por uma mera suspeita e não por um acto ou uma intenção; entre a população, ninguém acredita na alegada conspiração. Eles morreram com grande firmeza. Antes da decapitação, foi-lhes oferecida a vida se recitassem o credo que Maomé é o Profeta de Deus, mas eles não consentiram, nem vacilaram um pouco na sua fé. Avisei Amir[3] que este é o modo mais garantido para propagar novas doutrinas, e recomendei-lhe que, se queria punir estes prosélitos, lhes desse uma pena como o desterro para a ilha de Karrak[4] ou qualquer outro lugar, em vez de recorrer à pena de morte, que apenas provoca horror e compaixão. Não tenho qualquer esperança que o primeiro-ministro adopte a minha recomendação.

Respeitosamente,

Um humilde servo de vossa Senhoria
(a) Justin Sheil
[5]


Existem alguns aspectos interessantes neste despacho. Sheil percebe que o motivo oficial para a execução – a alegada conspiração para assassinar Amir Kabir – não é credível junto da população. Por outro lado, Sheil também refere a firmeza com que eles recusaram negar a sua fé, comenta o efeito deste acto e salienta a sua inocência.


Amir Kabir, primeiro-ministro persa,
responsável pela execução dos Sete Mártires de Teerão
e, mais tarde, pela execução do próprio Báb


Depois deste episódio, as execuções públicas tornaram-se uma prática comum na capital persa. Em 1852, Teerão assistiu a um verdadeiro banho de sangue após uma tentativa de assassinato contra o Xá. Paradoxalmente, foi a coragem de muitos mártires babís durante esses anos que chamou a atenção do mundo ocidental[6] para o nascimento de uma nova religião.

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NOTAS
[1] – Em meados do Sec XIX apenas a Rússia, a Grã-Bretanha e o Império Otomano tinham representações diplomáticas em Teerão.
[2] – No Islão, a punição pela apostasia é a morte
[3] – O primeiro ministro
[4] – Uma ilha no Golfo Pérsico
[5] – Citado em The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen, pag. 102
[6] – Vários jornais da época, o
livro de Gobineau e os artigos de Renan são prova disso.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2005

Fevereiro de 1850: os Sete Mártires de Teerão

Em Outubro de 1848, algumas centenas de babis, fugindo a perseguições populares e ataques de encorajados pelo clero muçulmano, chegam ao santuário do Shaykh Tabarsi [1]. Na esperança de resistir a uma ofensiva do exército governamental decidiram improvisar uma pequena fortificação. No início do ano seguinte, o exército governamental cercou a fortificação e após vários meses de cerco e tentativas de assalto, tudo terminou com o massacre dos seguidores da nova religião.

O episódio de Shaykh Tabarsi foi um choque para as autoridades persas. O primeiro-ministro persa, Amir Kabir[2], estava furioso com a ousadia dos babis – que não tinham preparação militar - em enfrentar o exército governamental, e pelo facto de terem resistido tanto tempo naquele cerco. No início de 1850, em Teerão começou a constar que o primeiro-ministro estava determinado a eliminar definitivamente a "heresia babí", e especulava-se sobre qual seria o seu próximo acto.

Nessa mesma época, um dos tios do Báb, Haji Mirza Siyyd 'Ali[3], passou por Teerão; vinha de Chiriq, onde tinha visitado o seu sobrinho, que se encontrava preso. Vários amigos aconselharam-no a abandonar a capital o mais rapidamente possível; nenhum lugar na Pérsia era seguro para os babís, e para os babís mais conhecidos o perigo era ainda maior. Segundo um cronista, o tio do Báb depois de ser repetidamente advertido sobre o perigo que corria, teria respondido: "Porque haverei de temer pela minha segurança? Quem me dera tomar parte no banquete que as mãos da Providência oferecem aos seus eleitos!"

Uma denúncia às autoridades confirmou os piores receios dos babís; catorze elementos da pequena comunidade foram detidos sob acusação de conspiração contra o primeiro-ministro; entre estes catorze encontrava-se Haji Mirza Siyyd 'Ali. Ficaram detidos na Casa de Kalantar (propriedade do município), onde foram sujeitos a tortura e maus tratos pelos carcereiros, com o intuito de denunciar outros babís. Quando o primeiro-ministro soube que os catorze prisioneiros se recusavam denunciar outros crentes, anunciou que libertaria todos os que negassem a sua fé no Báb. Sob tortura, houve sete que não resistiram, e foram imediatamente libertados.


Casa de Kalantar, onde foram aprisionados os sete Mártires de Teerão
antes de serem executados


Os restantes sete, incluindo Haji Mirza Siyyd 'Ali, recusaram negar a sua fé. Este grupo de sete pessoas eram cidadãos conhecidos; todos tinham amigos influentes que os tentaram persuadir a abdicar das suas convicções religiosas. Um grupo de comerciantes chegou mesmo a oferecer ao primeiro-ministro um resgate pela libertação do tio do Báb; o governante limitou-se a responder que para a libertação os prisioneiros apenas tinham de confessar que não acreditavam "naquela heresia".

Ao saber disto, o tio do Báb declarou: "Negar reconhecer a Missão do Báb seria apostatar a fé dos meus antepassados e negar o carácter divino da mensagem que Maomé, Jesus, Moisés e todos os Profetas do passado revelaram... Apenas peço que me deixem ser o primeiro a dar a vida no caminho do meu bem-amado parente".[4]

Ao contrário do que era costume, a execução foi realizada numa praça pública de Teerão[5]. Ao subir ao cadafalso, o tio do Báb dava louvores a Deus por lhe haver sido concedido o seu desejo. O cronista baha'i da época registou as suas últimas palavras:

"Dai-me ouvidos, ó povo! Ofereci a minha vida em sacrifício no caminho de Deus. Durante um milhar de anos oraste e oraste pelo que o prometido Qa'im[6] se manifestasse... E agora que Ele veio, levaste-O para o desterro num lugar esquecido do Azerbeijão, e havei-vos levantado para exterminar os Seus companheiros... Como meu último suspiro, peço ao Todo-Poderoso que limpe a nódoa da vossa culpa e vos permita acordar do sono da negligência"[7]

Perante uma praça apinhada de gente, o tio do Báb foi decapitado. Seguiram-se os outros seis:
• Háji Mullá Ismá'il-i-Qumi (teólogo)
• Mirzá Qurban-'Ali (dervish)
• Áqá Syyid Husayn-i-Turshízi (Mujtahid [8])
• Háji Muhammad Taqiy-i-Kirmani (comerciante)
• Siyyid Murtida (comerciante de Zanjan)
• Muhammad –Husayn-i-Maraghi'i (funcionário governamental)

Também proferiam umas declarações desafiadoras e suplicavam o perdão de Deus para os seus carrascos. A atitude daqueles sete homens chocou várias pessoas presentes naquela praça; o que levaria aquelas pessoas a enfrentar a morte com tanta coragem e determinação?

Durante três dias os seus corpos estiveram expostos na praça; os habitantes da cidade vieram amaldiçoar os cadáveres, agredi-los e cuspir-lhes. Foram sepultados juntos no exterior da cidade.

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NOTAS
[1] - Conhecido no Islão xiita como tendo sido um dos transmissores das tradições dos Imans.
[2] - Amir-Kabir, foi primeiro-ministro durante três anos e exerceu um poder despótico. O Xá delegava-lhe praticamente toda a responsabilidade da governo da Pérsia e ninguém ousava questionar a sua autoridade.
[3] - Na sociedade persa, título "Haji" indica que se trata de uma pessoa que já fez a peregrinação a Meca; "Siyyid" indica que se trata de um descendente de Maomé.
[4] - Citado em Hour of Dawn, Mary Perkins, p. 175
[5] - As execuções dos condenados à pena capital eram realizadas apenas na presença do Rei ou de membros do governo.
[6] - O Prometido do Islão
[7] - Citado em Hour of Dawn, Mary Perkins, p. 176
[8] – Um Mujtahid é uma espécie de juiz da lei islâmica.

terça-feira, 25 de janeiro de 2005

1918, o ano da ansiedade

Os anos da Primeira Guerra Mundial foram para os baha'is do Ocidente, anos de ansiedade. 'Abdu'l-Bahá vivia na Palestina (que era um província do Otomana); não existiam comunicações com o Ocidente. Apenas se recebiam informações vagas sobre o Mestre. Só havia certeza que Ele corria perigo de vida. Quando Império Otomano (aliado dos impérios Alemão e Austro-Húngaro) começou a dar sinais de evidente fraqueza face aos avanços aliados, as ameaças contra 'Abdu'l-Bahá (que vivia na Palestina) subiram de tom.


'Abdu'l-Bahá, em Haifa, no jardim de Sua casa


No final de 1917 e início de 1918, vários bahá'ís ingleses tentaram interceder junto do governo e do estado-maior inglês para que fizessem todos os esforços com o objectivo de preservar a vida de 'Abdu'l-Bahá. A Sra. Whyte [1], expôs o problema ao seu filho, Frederick Whyte, que era membro do Parlamento britânico. Este por sua vez, escreveu a Sir Mark Sykes, em 25 de Janeiro de 1918:
Recebi uma carta da minha mãe onde ela me diz ter conhecimento que Abdul Baha corre risco de vida em Haifa. O correspondente da minha mãe acredita - como se pode ver na carta em anexo - que podemos fazer alguma coisa para o salvar. Presumo que não necessito de gastar o seu tempo a descrever quem é Abdul Baha, cuja personalidade e trabalho lhe são bem conhecidos. Mas como sabe, ele tem um bom número de seguidores (se lhes podemos chamar assim) neste país; e, em geral, existem várias pessoas, como eu, que estão muito interessadas no seu trabalho e estão preparadas para fazer alguma coisa que garanta que as Autoridades Militares na Palestina estão cientes da sua presença. Sei que em tempos Lord Cruzon ficou muito impressionado com o Movimento Bahai na Pérsia; talvez ele queira interessar-se por este assunto agora[2].

Cartas como esta permitiram tiveram alguma receptividade junto das autoridades britânicas. Uma semana mais tarde a Sra Whyte recebia uma carta do Foreign Office onde se lia:
Recebi instruções do Sr. Secretário Balfour para acusar a recepção da sua carta... e a informar que ele solicitou ao Alto-Comissário do Governo de Sua Majestade para o Egipto que chamasse a atenção das Autoridades Militares Britânicas para a presença de Abdul Baha em Haifa, e pediu-lhes que ele e a sua família fossem tratados com toda a consideração no caso de se dar um avanço das forças britânicas na Palestina.[3]

Entre os bahá'ís do ocidente a ansiedade e a incerteza relativamente ao destino de 'Abdu'l-Bahá manteve-se até Setembro desse ano. Nesse mês, as forças britânicas lideradas pelo general Allenby avançaram na Palestina; em dia 23 de Setembro, tomaram a cidade de Haifa. Encontraram Mestre e a Sua família vivos e bem de saúde. Foi o fim da ansiedade.


Grupo de Cavalaria Indiana entra em Haifa, no final da Primeira Guerra Mundial

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NOTAS
[1] – A Sra Whyte recebera 'Abdu'l-Bahá, em Edimburgo, durante umas das visitas do Mestre à Europa.
[2] – File 16762/W44: FO 3713396, citado em The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, pag 334.
[3] - Idem.
Sobre os anos da guerra na Palestina ver o post Há 84 anos...

terça-feira, 4 de janeiro de 2005

Adrianópolis: a foto mais conhecida

Nas últimas semanas fiz referência ao terceiro exílio Bahá'u'lláh (em Adrianópolis) e a uma das epístolas que Ele ali revelou (a Epístola aos Reis). A presença do fundador da religião bahá'í numa cidade europeia do Império Otomano não passou despercebida às representações consulares europeias e aos missionários cristãos que residiam naquela cidade.

Um dos aspectos que caracterizam esse terceiro exílio é a existência de várias fotos que testemunham a presença daquela pequena comunidade persa em Adrianópolis. A figura seguinte é, provavelmente a mais conhecida dessas fotos.


Em pé, da esquerda para a direita:
Aqa Muhammad-Quliy-i-Isfani, Mirza Nasru'llah-i-Tafrishi, Nabil-i-Azam (o autor das crónicas de Nabil), Mirza Aqa Jan (secretário pessoal de Bahá'u'lláh), Mishkin-Qalam (conhecido calígrafo e autor do desenho do "Maior Nome"), Mirza Aliy-i-Sayyah, Aqa Husayn-i-Ashchi e Aqa Abdu'l-Ghaffar-i-Isfahani.

Sentados, da esquerda para a direita:
Mirza Muhammad-Javad-i-Qazvini, Mirza Mihdi (irmão mais novo de 'Abdu'l-Bahá), Abdu'l-Bahá, Mirza Muhammad-Quli (provavelmente com um dos seus filhos) e Siyyid Mihdiy-i-Dahiji.

Sentados mais em baixo, da esquerda para a direita:
Majdi'd-Din (filho de Mirza Musa, Aqay-i-Kalim), Mirza Muhammad-Ali (meio-irmão de 'Abdu'l-Bahá).

domingo, 12 de dezembro de 2004

Há 141 anos: a chegada a Adrianópolis


"Lembra-te de Minha angústia e Meu exílio nesta remota prisão."
A frase anterior é bem conhecida da maioria dos bahá'ís. Encontra-se numa das mais conhecidas epistolas de Bahá'u'lláh: a Epístola de Ahmad. A prisão a que o fundador da religião bahá'í é a cidade de Adrianópolis, o palco do Seu terceiro exílio (1863-1868).

Esta cidade, actualmente conhecida por Edirne, está situada nas margens do rio Tunca. A sua localização na principal via de comunicação entre a Ásia Menor e os Balcãs fizeram-na, desde sempre, uma cidade estrategicamente importante. Recebeu o nome de Orestias sob domínio Macedónio; quando o imperador Adriano, no século II DC, ordenou a sua reconstrução, recebeu o nome de Adrianópolis. Depois foi palco de numerosos confrontos entre bizantinos e outros povos até à sua captura pelos Otomanos em 1362. Chegou a ser capital do império Otomano entre 1413 e 1458; Após a transferência da capital para Istambul, continuou a ser um importante centro comercial e administrativo, recebendo frequentes visitas de sultões e príncipes.

A partir do século XVIII vários incidentes, como terramotos, incêndios, motins, ocupações estrangeiras, alteraram o progresso da cidade. Quando Bahá'u'lláh ali esteve exilado , a sua população rondaria os 100.000 habitantes e era uma capital provincial.

Logo após a sua chegada, no dia 12 de Dezembro de 1863, os exilados persas, sentiram o inverno particularmente agreste da cidade. Se pensarmos que eles tinham vivido cerca de dez anos em Bagdade, onde os invernos são amenos, e que a maioria destes não dispunha de vestuário adequado a invernos severos, é fácil perceber que o primeiro ano em Adrianópolis deve ter sido particularmente duro para aquela pequena comunidade.

Adrianópolis foi palco de vários episódios significativos na vida desta comunidade religiosa recém-nascida. Foi aqui que Bahá'u'lláh começou a assumir abertamente a Sua missão, como Prometido anunciado pelo Báb e fundador de uma nova religião; até então, isso era do conhecimento apenas de alguns crentes mais próximos. Foi também aqui que a palavra Babí (que identificava os seguidores do Báb), foi sendo gradualmente substituída pela palavra Bahá'í (que identificava os seguidores de Bahá'u'lláh). É também aqui que, entre os bahá’ís, a saudação muçulmana Alláh'u'Akbar (Deus é o Mais Grandioso) começou a ser substituída pela saudação Alláh'u'Abhá (Deus é o Mais Glorioso)

Dias de Tensão

Um dos aspectos mais tristes do exílio em Adrianópolis foi a separação entre Bahá'u'lláh e o Seu meio-irmão, Mirzá Yahyá. O Báb tinha anunciado o aparecimento iminente do "Prometido de todas as Religiões"; desde o Seu martírio, tinham aparecido vinte e cinco pretendentes a esse título; entre esses contava-se Mirzá Yahyá. Com Bahá'u'lláh a assumir abertamente a pretensão a esse mesmo título, deu-se a crise referida por Bahá'u'lláh como "os Dias de Tensão" (Ayyam-i-Shidad) e "a maior separação".

Este cisma assentava essencialmente em várias intrigas e boatos postos a circular por Yahyá e seus apoiantes mais próximos; alguns desses boatos sugeriam que Bahá'u'lláh pretendia usar a causa do Báb para derrubar os governos persa e otomano. Alguns crentes dessa época deixaram escritas algumas memórias onde relatam as conversas que Yahyá tinha com eles e a forma como isso os perturbava. Houve ainda quem tentasse organizar um debate entre Bahá'u'lláh e Yahyá, mas este último não compareceu. Além dos boatos postos a circular, deram-se tentativas de envenenamento de Bahá'u'lláh e seus familiares mais próximos.

Os rumores espalhavam-se e iam chegando aos ouvidos das autoridades otomanas, dos consulados europeus e dos crentes. A confusão instalou-se e a imagem da nova religião ficou seriamente perturbada aos olhos dos seus admiradores Ocidentais, como Edward G. Browne e A.M. Nicolas. O clímax das intrigas levantadas por Yahyá e alguns dos seus seguidores mais próximos levou a que, em 1868, as autoridades otomanas decidissem exilar Bahá'u'lláh para 'Akká e o Seu meio-irmão para Chipre.




Escrituras reveladas em Adrianópolis

Mas Adrianópolis pode também ser recordada como o local onde Bahá'u'lláh revelou muitas epístolas e livros: a Epístola de Ahmad, a Epístola do Sangue, a Epístola do Espírito, a Epístola de Ridvan. A mais significativa obra dessa época deve ser a Epístola aos Reis (Surih-i-Muluk), onde Bahá'u'lláh se dirige a todos os monarcas dos Ocidente e Oriente de forma colectiva, e individualmente ao Sultão Otomano e seus ministros, aos Reis da Cristandade, aos embaixadores francês e persa acreditados na Porta Sublime, aos lideres eclesiásticos muçulmanos de Constantinopla, aos povos da Pérsia e filósofos do mundo.

Também nesta época foram reveladas a primeira epístola a Napoleão III e a epístola ao Xá da Pérsia; nestas epístolas os propósitos e princípios da Fé de Bahá'u'lláh são expostos e a validade da Sua Missão é demonstrada. Também em Adrianópolis foi revelado o Kitab-i-Badí, a apologia e defesa da revelação do Báb.

As escrituras ao serem reveladas era registadas por um secretário; posteriormente eram transcritas por familiares e crentes mais próximos. Este trabalho de transcrição ocupava várias pessoas.

Pessoalmente parece-me que a presença de Bahá'u'lláh em Adrianópolis tem ainda um aspecto mais curioso: foi a primeira vez que o Profeta fundador de uma religião revelada pisou solo europeu. Esse facto deixou-O mais exposto à curiosidade ocidental, como testemunham vários documentos de missionários e diplomatas que viviam em Adrianopolis e Constantinopla durante aqueles anos.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2004

1898: Os Primeiros Peregrinos Ocidentais

Em 1891 um bahá'í persa, Ibrahim Khayru'llah, instalou-se nos Estados Unidos e começou a viajar por várias cidades divulgando a Mensagem de Bahá'u'lláh. Graças ao seu trabalho, no final do séc. XIX, existiam já os primeiros grupos bahá'ís no continente americano. Alguns dos primeiros crentes são recordados e referidos com respeito e admiração pelos bahá'ís de hoje. Nomes como Thornton Chase (o primeiro americano a aceitar a Causa de Bahá'u'lláh) e Lua Getsinger (uma das mais dedicadas crentes americanas, a quem 'Abdu'l-Bahá atribuiu o titulo de Liva – "Estandarte"), encontram-se com facilidade na literatura bahá'í.

Entre as pessoas que tomaram conhecimento da religião Bahá'í devido aos esforços de Lua Getsinger estava a Sra Phoebe Hearst, esposa do senador George Hearst. Em 1898, a Sra Hearst decidiu ir à Terra Santa para se encontrar com 'Abdu'l-Bahá; também resolveu convidar alguns bahá'ís – entre os quais Edward e Lua Getsinger - para a acompanhar nessa viagem.

Este pequeno grupo incluia Helen Goodall, Isabella Brittingham, Lillian Kappes, Arthur Dodge, Edward Getsinger, Howard MacNutt, Paul Dealy, Chester Thatcher, e ainda Robert Tuner, um empregado negro da Sra Hearst. 'Abdu'l-Bahá mostrou sempre um enorme carinho por este último e Tuner tornar-se-ia o primeiro bahá'í afro-americano. Em Paris, um pequeno número de americanos juntou-se aos peregrinos: duas sobrinhas da Sra Hearst, a Sra Thornburgh e a sua filha e também May Bolles. No Egipto, houve ainda outros crentes que se juntaram ao grupo.

No dia 10 de Dezembro de 1898 - passam hoje 106 anos - este pequeno grupo de peregrinos ocidentais chegou a Haifa. Foi a primeira vez que crentes bahá'ís provenientes do Ocidente estiveram frente-a-frente com 'Abdu'l-Bahá; um momento histórico, poucas vezes recordado entre os bahá'ís.


Podemos avaliar o impacto desta peregrinação naqueles crentes, lendo as suas memórias e notas de viagem[1]. São descrições carregadas de emoção e onde transparece o fascinio que 'Abdu'l-Bahá lhes causava. A Sra. Thornburgh escreveu:
«Tomámos, então, um pequeno e miserável barco até Haifa[2]. Também aqui houve uma tempestade e fomos sacudidos sem piedade naquele vapor antiquado. Após a chegada fomos para um hotel, onde permanecemos até anoitecer, pois era muito perigoso - para nós e para 'Abdu'l-Bahá – que estrangeiros fossem vistos a entrar na cidade do sofrimento.

Quando a noite caiu, tomámos uma carruagem que nos levou ao longo da areia dura junto ao «mar para lá do Jordão» que nos levou às portas da cidade-prisão. Ali, o nosso condutor, que era de confiança, arranjou maneira de entrarmos. Lá dentro encontrámos os amigos à nossa espera e subimos umas escadas irregulares que nos levaram até Ele. À nossa frente seguia alguém com uma vela cuja luz projectava sombras estranhas nas paredes daquele local silencioso.

De repente, a luz incidiu sobre uma forma que inicialmente parecia uma visão de luz e bruma. Era o Mestre que a luz nos revelava. O Seu manto branco, o cabelo longo e prateado, e os olhos azuis brilhantes davam a impressão de um espírito em vez de um ser humano. Tentamos dizer-Lhe o quão profundamente gratos estávamos por Ele nos receber. "Não", respondeu Ele, "vocês foram simpáticos por terem vindo..."

Então sorriu e nós reconhecemos a Luz que Ele possuía e o esplendor que emanava da Sua face nobre e elegante. Foi uma experiência espantosa. Nós, quatros visitantes do mundo ocidental, sentimos que a nossa viagem, com todos os seus inconvenientes tinha sido um pequeno preço a pagar por um tal tesouro, enquanto recebiamos o espírito e as palavras do Mestre; para isto tinhamos atravessado montanhas, mares e nações para o encontrar. Assim começou o nosso trabalho de «espalhar os ensinamentos», de «mencionar o nome de Bahá'u'lláh e dar a Sua Mensagem a conhecer ao Mundo» [3]
Alguns peregrinos ficaram com um tão grande fascínio por 'Abdu'l-Bahá que afirmavam ser Ele o regresso de Jesus Cristo. O Mestre corrigiu-os; Ele era apenas o "Servo de Bahá". Passado uns anos a Sra. Phoebe Hearst, que tinha organizado a peregrinação, fez a seguinte descrição:


«Apesar da minha estadia em Acca ter sido muito curta – estive ali apenas três dias – garanto-lhe que esses três dias foram os mais memoráveis da minha vida; e, no entanto, ainda me sinto incapaz de os descrever mesmo que ligeiramente.

Do ponto de vista material tudo era muito simples, mas a atmosfera espiritual que prevalecia no local e se manifestava nas vidas e actos dos crentes, foi verdadeiramente maravilhosa e algo que nunca tinha experimentado. É necessário vê-los para saber que eles são umas pessoas santas.

Não tentarei descrever o Mestre. Afirmo apenas que acredito com todo o meu coração que Ele é o Mestre e que a minha maior benção é ter sido privilegiada por ter estado na Sua presença e ter visto o Seu rosto santificado. A Sua vida é uma vida de Cristo, e todo o Seu ser irradia pureza e santidade.

Sem dúvida que 'Abbas Effendi é o Messias deste dia e desta geração e não necessitamos de procurar outro.» [4]
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NOTAS
[1] - An Early Pilgrimage de May Bolles Maxwell e In Galilee de Thorton Chase são, talvez os mais conhecidos.
[2] – Vinham do Egipto.
[3] – Chosen Highway, pag. 235-236
[4] – Bahá'í World, vol.VII, pag. 801

domingo, 5 de dezembro de 2004

1912: Adeus, America

No dia 5 de Dezembro de 1912 'Abdu'l-Bahá deixava a América. Tinham passado duzentos e trinta e nove dias durante os quais viajara pelas principais cidades americanas, divulgando a Mensagem de Seu Pai. Nem o facto de ter passado praticamente toda a Sua vida preso e exilado o inibia de falar perante o mais diverso tipo de audiências: igrejas, sinagogas, mesquitas, congregações, associações filantrópicas.

Além destas actividades os bahá'ís americanos, nas cidades que visitava, organizavam com regularidade encontros e festejos de recepção ao Mestre. Vários livros de memórias dos crentes desse tempo relatam centenas de episódios reveladores do Seu carácter e do que é o mais perfeito exemplo de vida Bahá'í [1].


Naquele dia 5 de Dezembro de 1912, no porto de Nova Iorque, num dos salões do S.S. Celtic, onde se apinhavam mais de 100 crentes, falou pela última vez aos bahá'ís americanos[2]:

Este é o meu último encontro convosco. Estas são as minhas palavras finais de exortação. Repetidamente vos tenho chamado à causa da unidade do mundo da humanidade anunciando que todos os seres humanos são servos do mesmo Deus... Deveis mostrar a maior generosidade e amor a todas as nações do mundo, pondo de lado o fanatismo, e abandonando os preconceitos de religião, raça e nação… Quem ofende o próximo, ofende a Deus. Deus ama a todos igualmente. Sendo isto verdade, porque deverão as ovelhas lutar entre si? Elas devem agradecer a Deus e manifestar-Lhe gratidão. E o melhor método de agradecer a Deus é pelo amor: deveis amar-vos uns aos outros. Acautelai-vos para que não ofendeis coração algum, nem faleis mal de qualquer pessoa na sua ausência… Fazei todos os esforços para levar alegria aos desanimados, alimentar os famintos, vestir os pobres e glorificar os humildes. Ajudai os desamparados e manifestai benevolência para com os vossos semelhantes...

Empenhai-vos de coração e alma para que, graças aos vossos esforços, a luz da paz universal possa brilhar e as trevas da hostilidade e inimizade se dispersem de entre os homens; que todos os homens se tornem uma só família e convivam em amor e generosidade; que o Oriente possa ajudar o Ocidente e o Ocidente possa levar ajuda ao Oriente; pois todos são habitantes de um só planeta, povo de uma raiz comum, e ovelhas do mesmo rebanho...
[3]


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NOTAS
[1] - O mais conhecido entre nós talvez seja
Portais para a Liberdade de Colby Yves. Mas existem outros como o Diário de Juliet Thompson e Memories of 'Abdu'-Bahá, de Ramona Allen Brown.
[2] - A despedida de 'Abdu'l-Bahá no salão do S.S. Celtic é descrita por Colby Yves no livro "Portais para a Liberdade" (
capítulo 14)
[3] - O texto completo (em inglês) das palavras de despedida de 'Abdu'l-Bahá encontra-se no
Promulgation of Universal Peace.

terça-feira, 30 de novembro de 2004

A recuperação da Fortaleza

aqui referi a chegada de Bahá'u'lláh à cidade-fortaleza de 'Akká. Também mencionei a experiência de ter visitado a cela onde Ele esteve encarcerado durante dois anos. O local foi palco de episódios marcantes da história bahá'í. Foi naquela cela que Bahá'u'lláh recebeu o jovem Badí que se ofereceu para viajar até à Pérsia e entregar ao Xá uma epístola de Bahá'u'lláh. Foi também naquela prisão que faleceu o Mirzá Mihdi, o filho mais novo de Bahá'u'lláh.

Durante a última década os peregrinos bahá'ís não tiveram oportunidade de visitar este local, devido à necessidade de obras de conservação. No início dos anos 90, a fortaleza apresentava sinais de degradação muito preocupantes e as autoridades - sempre zelosas na preservação de locais históricos do país - decidiram que era urgente proceder a trabalhos de preservação de todo o edifício. Após mais de 10 anos de negociações, estudos e planeamento, começaram os trabalhos de recuperação.

É importante ter presente que a estrutura tem um significado especial para os israelitas, pois também foi local de detenção de grupos de activistas judeus durante os anos do mandato britânico na Palestina. Houve, assim que coordenar os trabalhos de recuperação de toda a fortaleza com os trabalho de recuperação das celas ocupadas por Bahá'u'lláh e outros exilados persas.

Antes de se iniciarem os trabalhos foram solicitados pareceres ao Instituto Tecnológico de Haifa, e pedida a opinião de um perito em arquitectura otomana. Os estudos revelaram que a cidadela otomana tinha sido construída nos sécs. XVIII e XIX e que a torre nordeste (onde Bahá'u'lláh esteve) se situa sobre os restos de uma fortaleza dos Cavaleiros da Ordem de S. João (do tempo dos cruzados). Durante o domínio otomano, a fortaleza começou por ser residência de governantes locais e posteriormente foi usada com aquartelamento militar.



Os estudos efectuados permitiram concluir que já no tempo de Bahá'u'lláh o edifício se encontrava degradado. Na torre nordeste, além da cela já referida, existiam outros seis quarto ocupados pelos exilados e ainda uma sala onde se recebiam visitantes. Durante a administração britânica, o edifício sofreu várias alterações, nomeadamente para evitar fugas de prisioneiros e para construir uma enfermaria.

Nestes trabalhos de recuperação tentou-se recriar o ambiente mais parecido possível com aquele em que Bahá'u'lláh e os exilados persas viveram naquela prisão. Foram usados materiais tradicionais usados nas construções otomanas do Séc. XIX, e remediados os danos provocados pela colocação de barras de ferro nas janelas durante o mandato britânico. Na cela de Bahá'u'lláh o chão é igual ao original; as janelas voltaram a ter barras horizontais tal como mostram fotografias do início do séc. XX.

As obras terminaram no passado mês de Junho; com o início de uma nova época de peregrinações, a cela volta a estar incluída no roteiro da peregrinação de nove dias realizada pelos bahá'ís; é mais um local dedicado à oração e meditação, tal como o Túmulo de Bahá'u'lláh nos arredores de 'Akká e o Túmulo do Báb, em Haifa.

Notícia completa e muitas fotos no BWNS.