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domingo, 30 de junho de 2013
Os Anos em Bagdade
Um extenso relato do período em que Bahá'u'lláh esteve exilado em Bagdade (1853-1863), que na época era uma capital provincial do Império Otomano. As circunstâncias da revelação de diversos livros e epístolas, as actividades de crentes e inimigos, e a declaração da Sua Missão no jardim de Ridvan são os principais tópicos deste livro.
A reler nestes dias.
Para quem preferir, existe uma tradução brasileira deste livro.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Casa de Bahá'u'lláh em Bagdade
No Facebook, um Bahá’í da Alemanha colocou um post curioso. Segundo ele, um livro intitulado "Traditional houses in Baghdad" de Ihsan Fethi e John Warren, encontra-se uma fotografia rara da “Mais Grandiosa Casa”, em Bagdade. As janelas do segundo andar são provavelmente do quarto de Bahá'u'lláh. A foto colorida na capa do livro exibe também uma parte da residência.
Aqui ficam as fotos.
Aqui ficam as fotos.
A história Babi e Bahá'í em Nayriz
Para a minha lista de livros a comprar!
Awakening: A History of the Babi and Baha'i Faiths in Nayriz from Nayriz.Org on Vimeo.
Awakening: A History of the Babi and Baha'i Faiths in Nayriz from Nayriz.Org on Vimeo.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Fortaleza de Chiriq
Fotografia da fortaleza de Chiriq (no Azerbeijão Persa) onde o Báb esteve detido durante vários meses.
Esta foto foi disponibilizada por Ramin Abrishamian, no grupo "Baha'i Studies", no Facebook. Inicialmente esta foto foi colocada na página "Old Tehran Pictures".
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
sábado, 18 de fevereiro de 2012
A Epístola da Sabedoria (7)
HISTORICIDADE
A ênfase nos valores éticos e a tendência para o monoteísmo existente em muitos filósofos gregos sugere que existiu na Grécia uma forte difusão dos valores culturais e religiosos da Palestina Hebraica. A ideia dessa influência dos hebreus sobre os helénicos já tinha sido avançada por Sto Agostinho na sua obra A Cidade de Deus (VIII:11)
Agostinho também nota que que o Antigo Testamento ainda não tinha sido traduzido para grego no tempo Platão e sugere que é a graça de Deus – e não contactos culturais directos – que explica as semelhanças entre a filosofia grega e as tradições culturais judaico-cristãs.
A sequência cronológica com que Bahá’u’lláh descreve os filósofos gregos, e a relação cronológica com outras personagens históricas tem sido alvo de debate (a, b, c). Existem discrepâncias entre a descrição que Bahá’u’lláh faz da história da Grécia antiga e as actuais teorias históricas. Vejamos o seguinte exemplo:
O texto da Epístola declara que Empédocles era "…contemporâneo de David"[25] e que Pitágoras "…viveu nos dias de Salomão"[25]. Segundo os historiadores modernos, David e Salomão terão vivido no século 10 aC. e Pitágoras viveu no século 6 aC; Empédocles viveu no século 5 aC. Assim encontramos uma grande discrepância entre as datas hoje aceites pela investigação histórica e a exposição cronológica apresentada na Epístola da Sabedoria.
O facto de estas inexactidões constarem numa Epístola de Bahá'u'lláh pode suscitar algumas dúvidas sobre a possibilidade dos textos sagrados conterem erros históricos.
Convém aqui termos presente que a Epístola não pretende descrever uma sucessão de eventos históricos sobre os quais não existem provas. O objectivo é demonstrar a forma como a tradição filosófica da Grécia antiga foi influenciada pelo monoteísmo profético dos hebreus. Essa demonstração é feita de acordo com o enquadramento histórico e filosófico com que o destinatário da Epístola estava familiarizado.
Além disso, é importante ter presente que o conhecimento que os muçulmanos possuíam sobre as biografias dos gregos antigos vinha dos neoplatónicos gregos e dos autores cristãos. A maioria dos historiadores islâmicos era pouco rigorosa relativamente à datação de eventos anteriores ao surgimento do Islão; havia algumas excepções como Abu-Rayhan Biruni (973-1050) e o sírio Abu’l Fidá.
O próprio 'Abdu'l-Bahá afirmou que a datação de eventos anteriores a Alexandre o Grande é pouco fidedigna(d). Desta forma, as datas atribuídas por historiadores islâmicos a eventos pré-islâmicos podem ser consideradas meras aproximações.
Sobre este assunto a Casa Universal de Justiça esclareceu:
Assim, parece correcto afirmar que a Epistola da Sabedoria contém uma afirmação factualmente incorrecta para os actuais padrões de conhecimento e investigação histórica; no entanto, essa afirmação era válida no meio cultural em que vivia Nabil-i-Akbar, o destinatário da Epístola. Também devemos ter presente que a Epístola da Sabedoria pretende mostrar uma verdade espiritual (Jerusalém exerceu uma influência espiritual sobre Atenas) e não um facto histórico. Assim, temos de acreditar que os conceitos básicos transmitidos na Epístola são verdades infalíveis e eternas, apesar de algumas frases específicas, que sustentam esses conceitos, possam ser incorrectas fora do seu contexto original.
------------------------------
(a) - Problems of Chronology in Baha'u'llah's Tablet of Wisdom, Juan Cole (1979)
(b) – Some chronological Issues in the Lawh-i-Hikmat of Bahá'u'lláh, Peter Terry (1999)
(c) - A study of Pre-Islamic sources on the relation of Greek Philosophers and Jewish sages, Amin Egea, (2007)
(d) - Epístola datada de 1906 dirigida à Sra Ethel Rosenberg
(e) – Citado em "Hermes Trismegistus...", Keven Brown, p. 178
A ênfase nos valores éticos e a tendência para o monoteísmo existente em muitos filósofos gregos sugere que existiu na Grécia uma forte difusão dos valores culturais e religiosos da Palestina Hebraica. A ideia dessa influência dos hebreus sobre os helénicos já tinha sido avançada por Sto Agostinho na sua obra A Cidade de Deus (VIII:11)
Alguns têm pensado que tendo Platão ido ao Egipto, poderia ter ouvido Jeremias, ou lido os seus escritos proféticos durante a viagem. Eu mesmo consignei esta opinião em alguns dos meus livros. Mas um cálculo mais apurado das datas, tais como se contêm na história cronológica, mostra que Platão nasceu cerca de cem anos depois da época em que Jeremias profetizou… Platão não pôde, no decurso da sua viagem, nem ver Jeremias, morto desde há muito tempo, nem ler as suas Escrituras ainda não traduzidas para grego, língua em que era exímio. A menos, talvez, que, apaixonado estudioso como era, tenha delas tido conhecimento por intérpretes, como aconteceu com as egípcias – sem se tratar de uma tradução escrita… Mas sem dúvida que conseguiu, com as suas conversações, tomar conhecimento, na medida do possível, do seu conteúdo. (A Cidade de Deus, VIII:11)
Agostinho também nota que que o Antigo Testamento ainda não tinha sido traduzido para grego no tempo Platão e sugere que é a graça de Deus – e não contactos culturais directos – que explica as semelhanças entre a filosofia grega e as tradições culturais judaico-cristãs.
A sequência cronológica com que Bahá’u’lláh descreve os filósofos gregos, e a relação cronológica com outras personagens históricas tem sido alvo de debate (a, b, c). Existem discrepâncias entre a descrição que Bahá’u’lláh faz da história da Grécia antiga e as actuais teorias históricas. Vejamos o seguinte exemplo:
O texto da Epístola declara que Empédocles era "…contemporâneo de David"[25] e que Pitágoras "…viveu nos dias de Salomão"[25]. Segundo os historiadores modernos, David e Salomão terão vivido no século 10 aC. e Pitágoras viveu no século 6 aC; Empédocles viveu no século 5 aC. Assim encontramos uma grande discrepância entre as datas hoje aceites pela investigação histórica e a exposição cronológica apresentada na Epístola da Sabedoria.
O facto de estas inexactidões constarem numa Epístola de Bahá'u'lláh pode suscitar algumas dúvidas sobre a possibilidade dos textos sagrados conterem erros históricos.
Convém aqui termos presente que a Epístola não pretende descrever uma sucessão de eventos históricos sobre os quais não existem provas. O objectivo é demonstrar a forma como a tradição filosófica da Grécia antiga foi influenciada pelo monoteísmo profético dos hebreus. Essa demonstração é feita de acordo com o enquadramento histórico e filosófico com que o destinatário da Epístola estava familiarizado.
Além disso, é importante ter presente que o conhecimento que os muçulmanos possuíam sobre as biografias dos gregos antigos vinha dos neoplatónicos gregos e dos autores cristãos. A maioria dos historiadores islâmicos era pouco rigorosa relativamente à datação de eventos anteriores ao surgimento do Islão; havia algumas excepções como Abu-Rayhan Biruni (973-1050) e o sírio Abu’l Fidá.
O próprio 'Abdu'l-Bahá afirmou que a datação de eventos anteriores a Alexandre o Grande é pouco fidedigna(d). Desta forma, as datas atribuídas por historiadores islâmicos a eventos pré-islâmicos podem ser consideradas meras aproximações.
Sobre este assunto a Casa Universal de Justiça esclareceu:
“O facto de Bahá’u’lláh fazer estas afirmações para ilustrar princípios espirituais que pretende transmitir, não significa necessariamente que Ele defenda a sua exactidão histórica"(e)
Assim, parece correcto afirmar que a Epistola da Sabedoria contém uma afirmação factualmente incorrecta para os actuais padrões de conhecimento e investigação histórica; no entanto, essa afirmação era válida no meio cultural em que vivia Nabil-i-Akbar, o destinatário da Epístola. Também devemos ter presente que a Epístola da Sabedoria pretende mostrar uma verdade espiritual (Jerusalém exerceu uma influência espiritual sobre Atenas) e não um facto histórico. Assim, temos de acreditar que os conceitos básicos transmitidos na Epístola são verdades infalíveis e eternas, apesar de algumas frases específicas, que sustentam esses conceitos, possam ser incorrectas fora do seu contexto original.
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(a) - Problems of Chronology in Baha'u'llah's Tablet of Wisdom, Juan Cole (1979)
(b) – Some chronological Issues in the Lawh-i-Hikmat of Bahá'u'lláh, Peter Terry (1999)
(c) - A study of Pre-Islamic sources on the relation of Greek Philosophers and Jewish sages, Amin Egea, (2007)
(d) - Epístola datada de 1906 dirigida à Sra Ethel Rosenberg
(e) – Citado em "Hermes Trismegistus...", Keven Brown, p. 178
sábado, 28 de janeiro de 2012
A Epístola da Sabedoria (4)
A CRIAÇÃO
NOTA: entre parêntesis rectos [ ] encontram-se referências aos parágrafos da Epístola da Sabedoria.
Como dissemos anteriormente, para compreender qualquer Epístola de Bahá'u'lláh é necessário conhecer as circunstâncias da sua revelação. No caso da Epístola da Sabedoria também é importante perceber o contexto intelectual da época; por outras palavras, temos de conhecer as preocupações e interesses da intelectualidade islâmica da segunda metade do séc. XIX. Recordemo-nos que Nabil - o destinatário da Epístola - provinha desse meio.
A tradução para árabe de obras de antigos filósofos gregos enriqueceu profundamente a cultura islâmica; mas também abriu portas para diversos debates e controvérsias. Um desses debates - que apaixonava os intelectuais do mundo islâmico - era a questão sobre o início da criação. Os gregos antigos acreditavam que o universo sempre existira; mas esta doutrina colidia com as ideias bíblicas e corânicas de que o mundo tinha sido criado por Deus num determinado momento no tempo.
Avicena, médico e filósofo persa (980-1037) defendia as ideias aristotélicas sobre eternidade da criação. Al-Ghazali, místico e filósofo persa (1058-1111), no livro “A Incoerência dos Filósofos”, atacara as ideias de pré-existência do cosmos. Por outro lado, Averrois, filósofo e médico andaluz (1126-1198), no livro “A Incoerência da Incoerência” refutara os argumentos de Al-Ghazali e reafirmara a eternidade do universo. O debate arrastou-se ao longo de séculos e na Pérsia do sec. XIX ainda continuava, havendo correntes de pensamento que rejeitavam a filosofia grega e a ciência moderna, e outras que defendiam a sua importância.
Não é surpreendente que Nabil, que tinha uma profunda formação em filosofia e teologia, quisesse saber a opinião de Bahá'u'llah sobre o assunto.
Em resposta a Nabil, Bahá'u'llah afirma a validade dos dois conceitos. Por um lado, afirma a validade das posições de Avicena e Averrois: "Fosses tu asseverar que sempre existiu e haverá de continuar a existir, isso seria verdade"[8]. Seguidamente, a Abençoada Beleza sustenta a veracidade dos textos sagrados, proclamando que a criação tem a sua origem no poder criador de Deus.
A compatibilidade entre os dois conceitos pode ser formulada da seguinte maneira: o universo foi criado por Deus, mas nunca teve um momento de não-existência. Para entender a harmonia entre os dois conceitos temos de olhar para aquilo que Bahá'u'lláh considera ser a causa da Criação: o Verbo de Deus.
Apesar de afirmar que a causa da criação é incompreensível à compreensão humana[8], Bahá'u'llah declara: “O que tem estado em existência havia existido antes, mas não na forma que tu hoje vês. O mundo existente veio a ser, através do calor gerado da interacção entre a força activa e aquela que a recebe. Essas duas são a mesma, embora sejam, no entanto, diferentes... O que comunica a influência geradora e aquilo que lhe recebe o impacto são, em verdade, criados através do irresistível Verbo de Deus, Verbo esse que é a Causa da criação inteira, enquanto tudo mais, além do Seu Verbo, são apenas as criaturas e os efeitos do Verbo.”[9]
Note-se que os conceitos e analogias presentes nesta citação também se podem encontrar nas Escrituras de outras religiões. A criação descrita no Alcorão (37:11, 55:14) e na Bíblia que dizem-nos que o ser humano foi feito a partir do barro; isto sugere a presenta de elementos activo e passivo.
Porque é que Bahá'u'llah afirma que a criação tem “uma Causa inescrutável até mesmo para todos os homens de erudição”[8] e posteriormente apresenta algumas ideias defendidas por Avicena e Aristóteles? Será correcto aceitar literalmente estas palavras?
Na minha opinião pessoal, estas palavras podem ser consideradas como uma validação dos conceitos apresentados por Avicena, que por sua vez se inspirou nas ideias Aristóteles (De generatione et corruption). Os gregos antigos acreditavam que o universo tinha surgido devido à combinação de agentes activos e agentes passivos. Este modelo aristotélico dominou a física no mundo islâmico e na Europa Medieval. Na Pérsia do século 19, este modelo ainda era defendido por alguns filósofos. Recordemos que estas palavras estão adequadas à mentalidade de Nabil-i-Akbar, que estava familiarizado com estes conceitos.
Para concluir, poderíamos resumir estas palavras dos parágrafos [8] e [9] da seguinte forma:
NOTA: entre parêntesis rectos [ ] encontram-se referências aos parágrafos da Epístola da Sabedoria.
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| O universo é eterno ou foi criado num certo momento? |
A tradução para árabe de obras de antigos filósofos gregos enriqueceu profundamente a cultura islâmica; mas também abriu portas para diversos debates e controvérsias. Um desses debates - que apaixonava os intelectuais do mundo islâmico - era a questão sobre o início da criação. Os gregos antigos acreditavam que o universo sempre existira; mas esta doutrina colidia com as ideias bíblicas e corânicas de que o mundo tinha sido criado por Deus num determinado momento no tempo.
Avicena, médico e filósofo persa (980-1037) defendia as ideias aristotélicas sobre eternidade da criação. Al-Ghazali, místico e filósofo persa (1058-1111), no livro “A Incoerência dos Filósofos”, atacara as ideias de pré-existência do cosmos. Por outro lado, Averrois, filósofo e médico andaluz (1126-1198), no livro “A Incoerência da Incoerência” refutara os argumentos de Al-Ghazali e reafirmara a eternidade do universo. O debate arrastou-se ao longo de séculos e na Pérsia do sec. XIX ainda continuava, havendo correntes de pensamento que rejeitavam a filosofia grega e a ciência moderna, e outras que defendiam a sua importância.
Não é surpreendente que Nabil, que tinha uma profunda formação em filosofia e teologia, quisesse saber a opinião de Bahá'u'llah sobre o assunto.
Em resposta a Nabil, Bahá'u'llah afirma a validade dos dois conceitos. Por um lado, afirma a validade das posições de Avicena e Averrois: "Fosses tu asseverar que sempre existiu e haverá de continuar a existir, isso seria verdade"[8]. Seguidamente, a Abençoada Beleza sustenta a veracidade dos textos sagrados, proclamando que a criação tem a sua origem no poder criador de Deus.
A compatibilidade entre os dois conceitos pode ser formulada da seguinte maneira: o universo foi criado por Deus, mas nunca teve um momento de não-existência. Para entender a harmonia entre os dois conceitos temos de olhar para aquilo que Bahá'u'lláh considera ser a causa da Criação: o Verbo de Deus.
Apesar de afirmar que a causa da criação é incompreensível à compreensão humana[8], Bahá'u'llah declara: “O que tem estado em existência havia existido antes, mas não na forma que tu hoje vês. O mundo existente veio a ser, através do calor gerado da interacção entre a força activa e aquela que a recebe. Essas duas são a mesma, embora sejam, no entanto, diferentes... O que comunica a influência geradora e aquilo que lhe recebe o impacto são, em verdade, criados através do irresistível Verbo de Deus, Verbo esse que é a Causa da criação inteira, enquanto tudo mais, além do Seu Verbo, são apenas as criaturas e os efeitos do Verbo.”[9]
Note-se que os conceitos e analogias presentes nesta citação também se podem encontrar nas Escrituras de outras religiões. A criação descrita no Alcorão (37:11, 55:14) e na Bíblia que dizem-nos que o ser humano foi feito a partir do barro; isto sugere a presenta de elementos activo e passivo.
Porque é que Bahá'u'llah afirma que a criação tem “uma Causa inescrutável até mesmo para todos os homens de erudição”[8] e posteriormente apresenta algumas ideias defendidas por Avicena e Aristóteles? Será correcto aceitar literalmente estas palavras?
Na minha opinião pessoal, estas palavras podem ser consideradas como uma validação dos conceitos apresentados por Avicena, que por sua vez se inspirou nas ideias Aristóteles (De generatione et corruption). Os gregos antigos acreditavam que o universo tinha surgido devido à combinação de agentes activos e agentes passivos. Este modelo aristotélico dominou a física no mundo islâmico e na Europa Medieval. Na Pérsia do século 19, este modelo ainda era defendido por alguns filósofos. Recordemos que estas palavras estão adequadas à mentalidade de Nabil-i-Akbar, que estava familiarizado com estes conceitos.
Para concluir, poderíamos resumir estas palavras dos parágrafos [8] e [9] da seguinte forma:
- A criação sempre existiu apesar de já ter tido outra(s) forma(s). Não lhe podemos atribuir uma origem temporal.
- Nenhuma teoria científica ou filosófica conseguirá, alguma vez, descrever de forma adequada e completa a interacção entre o Verbo e a Criação.
- Existem algumas ideias válidas sobre a criação que já foram identificadas por alguns sábios, mas não descrevem a totalidade dessa interacção. No entanto, trata-se de um processo que na sua totalidade é incompreensível para os seres humanos.
sábado, 21 de janeiro de 2012
A Epístola da Sabedoria (3)
O QUE MOTIVA BAHÁ'U'LLÁH A REVELAR ESTA EPÍSTOLA?
NOTA: entre parentesis rectos [ ] encontram-se referências aos parágrafos da Epístola da Sabedoria.
A principal motivação de Bahá'u'lláh para revelar esta Epístola reside nas questões colocadas por Nabil; Não era a primeira vez que Bahá'u'lláh abordava o tema dessas questões. Esses assuntos já tinham sido objecto de diálogo entre Nabil e Bahá'u'lláh durante o Seu primeiro exílio no Iraque. [19]
Mas a Abençoada Beleza fala de outras motivações. Refere, por exemplo, que desejou revelar o que servisse de lembrança aos povos para que colocassem de lado as ideias prevalecentes entre eles [2]. Isto sugere que muitas das ideias existentes sobre os temas abordados na Epístola serão perspectivas parciais ou distorcidas da realidade.
Noutras ocasiões, Bahá'u'lláh refere que não há necessidade de tomar como referência as ideias prevalecentes em tempos antigos ou em tempos mais recentes [15, 17](a). Bahá'u'lláh também refere que é por "amor a Deus" que menciona na Epístola alguns relatos sobre os sábios para que o povo compreenda que Deus é a realidade última de todas as coisas [23].
No final da Epístola, Bahá'u'lláh declara que não falou por vontade própria, mas apenas proferiu aquilo que Deus "instilou" no Seu coração[32] e acrescenta que não teria pronunciado uma única palavra da Epístola se não fosse a estima que nutre por Nabil.[33]
O fundador da Fé Bahá’í recorda ainda que o Seu conhecimento não é fruto de estudo ou de reflexão[34]. Acrescenta que o Seu coração está purificado "dos conceitos dos eruditos e palavras dos sábios"[35], revelando apenas a vontade de Deus.
A Fonte da Sabedoria de Bahá'u'lláh
Enquanto membro da aristocracia persa, Bahá'u'lláh tinha alguma educação, mas o Seu nível de educação estava abaixo dos padrões da intelectualidade muçulmana da época. A Sua justificação para falar em assuntos teológicos, ou filosóficos assenta apenas no Seu conhecimento inato e inspiração divina.
Ele próprio afirma – e outras fontes confirmam - que não estudou em nenhuma mesquita, seminário ou madrassa (escola de lei islâmica). Nunca estudou o curriculum elementar do pensamento islâmico com algum professor conhecido. Dificilmente seria considerado qualificado para frequentar aulas de filosofia que eram leccionadas pelos professores mais eruditos do Seu tempo.
No mundo islâmico a credibilidade para falar sobre certos assuntos era concedida pelos professores e mestres apenas depois de longos estudos de certos textos.
Bahá'u'lláh criticou a imitação cega das tradições do passado que era tão importante para os especialistas em lei islâmica. Na Epístola da Sabedoria, Bahá'u'lláh declara que podia ver e ler livros que nunca tinha lido:
A comparação que Bahá'u'lláh faz entre o Seu conhecimento e a erudição prevalecente na época encontra paralelo nas palavras reveladas na Epístola ao Xá da Pérsia:
--------------------------
(a) - Na Epístola é referido um conceito neo-testamentário "Eles estão cheios de espírito"(Efésios 5:18; Actos 2:4; 10:44-48; 10:44-48; 19:1-7) para exemplificar uma ideia que tem sido mal compreendida. Houve quem pensasse que o espírito penetra literalmente no corpo e várias pessoas seguiram esta ideia [26].
NOTA: entre parentesis rectos [ ] encontram-se referências aos parágrafos da Epístola da Sabedoria.
A principal motivação de Bahá'u'lláh para revelar esta Epístola reside nas questões colocadas por Nabil; Não era a primeira vez que Bahá'u'lláh abordava o tema dessas questões. Esses assuntos já tinham sido objecto de diálogo entre Nabil e Bahá'u'lláh durante o Seu primeiro exílio no Iraque. [19]
Mas a Abençoada Beleza fala de outras motivações. Refere, por exemplo, que desejou revelar o que servisse de lembrança aos povos para que colocassem de lado as ideias prevalecentes entre eles [2]. Isto sugere que muitas das ideias existentes sobre os temas abordados na Epístola serão perspectivas parciais ou distorcidas da realidade.
Noutras ocasiões, Bahá'u'lláh refere que não há necessidade de tomar como referência as ideias prevalecentes em tempos antigos ou em tempos mais recentes [15, 17](a). Bahá'u'lláh também refere que é por "amor a Deus" que menciona na Epístola alguns relatos sobre os sábios para que o povo compreenda que Deus é a realidade última de todas as coisas [23].
No final da Epístola, Bahá'u'lláh declara que não falou por vontade própria, mas apenas proferiu aquilo que Deus "instilou" no Seu coração[32] e acrescenta que não teria pronunciado uma única palavra da Epístola se não fosse a estima que nutre por Nabil.[33]
O fundador da Fé Bahá’í recorda ainda que o Seu conhecimento não é fruto de estudo ou de reflexão[34]. Acrescenta que o Seu coração está purificado "dos conceitos dos eruditos e palavras dos sábios"[35], revelando apenas a vontade de Deus.
A Fonte da Sabedoria de Bahá'u'lláh
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| Escola tradicional em Teerão (1900) |
Ele próprio afirma – e outras fontes confirmam - que não estudou em nenhuma mesquita, seminário ou madrassa (escola de lei islâmica). Nunca estudou o curriculum elementar do pensamento islâmico com algum professor conhecido. Dificilmente seria considerado qualificado para frequentar aulas de filosofia que eram leccionadas pelos professores mais eruditos do Seu tempo.
No mundo islâmico a credibilidade para falar sobre certos assuntos era concedida pelos professores e mestres apenas depois de longos estudos de certos textos.
Bahá'u'lláh criticou a imitação cega das tradições do passado que era tão importante para os especialistas em lei islâmica. Na Epístola da Sabedoria, Bahá'u'lláh declara que podia ver e ler livros que nunca tinha lido:
Bem sabes que Nós não folheámos os livros que os homens possuem, nem adquirimos a erudição corrente entre eles e, no entanto, sempre que desejamos citar as palavras dos eruditos e sábios, imediatamente aparece diante da face do teu Senhor, na forma de epístola, tudo o que apareceu no mundo e está revelado nas Escrituras e nos Livros Sagrados. Assim registámos por escrito o que os olhos percebem.[34]
A comparação que Bahá'u'lláh faz entre o Seu conhecimento e a erudição prevalecente na época encontra paralelo nas palavras reveladas na Epístola ao Xá da Pérsia:
Ó Rei! Eu era apenas um homem como os outros, adormecido em meu leito, quando eis que os sopros do Todo-Glorioso manaram sobre Mim e Me deram o conhecimento de tudo o que já existia. Isso não provém de Mim, mas d’Aquele que é Todo-Poderoso e Omnisciente. E Ele ordenou-Me que levantasse a Minha voz entre a terra e o céu, e por isso Me sucedeu o que fez correr lágrimas de todo os homens de compreensão. A erudição comum entre os homens, não a estudei; nem entrei nas suas escolas. Pergunta na cidade em que residi, a fim de teres a certeza de que Eu não sou dos que falam falsamente. Este Ser é apenas uma folha movida pelos ventos da Vontade do teu Senhor, o Todo-Poderoso, Alvo de todo louvor.
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(a) - Na Epístola é referido um conceito neo-testamentário "Eles estão cheios de espírito"(Efésios 5:18; Actos 2:4; 10:44-48; 10:44-48; 19:1-7) para exemplificar uma ideia que tem sido mal compreendida. Houve quem pensasse que o espírito penetra literalmente no corpo e várias pessoas seguiram esta ideia [26].
sábado, 14 de janeiro de 2012
A Epístola da Sabedoria (2)
NABIL-I-AKBAR, O DESTINATÁRIO
NOTA: entre parentesis rectos [ ] encontram-se referências aos parágrafos da Epístola da Sabedoria.
Nabil-i-Akbar(a) é o título conferido por Bahá’u’lláh a um crente chamado Aqa Muhammad-i-Qa’ini, também conhecido como Fadli-i-Qa'ini (o Sábio de Qa’in). Tratava-se de um mujtahid(b) que tinha um profundo conhecimento de teologia xiita e filosofia islâmica.
Nabil nasceu em 29 de Março de 1829, perto de Birjand, (distrito de Qa'in); o seu pai era um conhecido e influente Mullah; muitos dos seus antepassados eram mujtahids. Seguindo a tradição familiar, desenvolveu interesse por temas religiosos e iniciou os seus estudos de teologia em Mashad. Mais tarde mudou-se para Sabzivar onde estudou filosofia com um dos mais famosos filósofos persas do seu tempo, Ḥaji Mullah Hadi Sabzivari. Cinco anos depois, foi para Najaf (Iraque) estudar jurisprudência; ali teve oportunidade de alargar os seus conhecimentos nas melhores escolas do mundo islâmico da época, tendo conseguido por obter o grau de mujtahid.
Em 1852, no tempo que se viviam as grandes perseguições aos Babis, Nabil estava em Teerão. Um dia foi preso e falsamente acusado de ser Babi; protestou e foi libertado. Mas o incidente fê-lo pensar. O contacto de Nabil com os ensinamentos do Báb só aconteceu pouco antes de ir para Najaf, quando um Babi lhe deu alguns exemplares de escrituras do Báb; no ano seguinte, Nabil aceitou a Fé Babi.(c)
Em 1859, pouco antes de regressar à Pérsia, foi persuadido por um Babi a visitar Bahá’u’lláh em Bagdade. Bahá’u’llah recebeu-o durante alguns dias como convidado. Alguns autores acreditam que Nabil pertence ao grupo restrito dos que reconheceram Bahá’u’llah antes da declaração de 1863(d).
Seguindo instruções de Bahá’u’llah, regressou à Pérsia com o objectivo de divulgar a Fé Babi. Primeiramente foi bem recebido e sabe-se que o governador de Qa’in tinha por ele muita estima e admiração. No entanto, o sucesso das suas actividades missionárias suscitou oposição e hostilidade. Nabil esteve preso e foi torturado durante dois meses numa prisão em Birjand; seguiu-se um período de dois anos em que esteve em prisão domiciliária em Qa’in, tendo sido posteriormente exilado para Mashad, onde permaneceu durante um ano.
Durante o exílio em Mashad, um outro Babi, Mullah Moḥammad-ʿAli Zarandi(e) informou-o que Bahá’u’llah tinha proclamado ser o Prometido anunciado pelo Báb. Como consequência, Nabil escreveu a todos os Babis da região, encorajando-os a aceitar Bahá’u’llah.
Em 1870, Nabil foi exilado para Teerão onde esteve durante mais de três anos. Seguidamente viveu um ano em Akká onde esteve na presença de Bahá’u’lláh. Foi durante essa estadia em Akká que recebeu o título de “Nabil-i-Akbar” e que Bahá’u’lláh revelou a Epístola da Sabedoria em resposta às suas questões. Nesta Epístola Bahá’u’lláh alude aos sofrimentos de Nabil [6] e exorta-o a colocar a sua confiança em Deus para ultrapassar essas dificuldades. Bahá'u'lláh também encoraja Nabil a divulgar e ensinar a Causa com todas as suas capacidades e sabedoria [6, 15, 20]. A Abençoada Beleza também lhe recorda que eloquência e o poder das palavras humanas são factores a ter em conta na divulgação da Causa.
Após um ano na Terra Santa, regressou à Pérsia onde, apesar dos perigos, continuou a ensinar a Fé Bahá’í nas principais cidades do país: Teerão, Tabriz, Isfahan, Shiraz, Yazd, Kerman, Mashad, Zanjan e Qazvin. As ameaças à sua vida sucediam-se e foi preso mais algumas vezes. Em 1890 viajou para Ashkabad onde deu um grande contributo para a expansão e fortalecimento da Comunidade local. Faleceu 6 de Julho de 1892, em Bukara.
'Abdu'l-Bahá designou Nabil como Mão da Causa de Deus e escreveu a seu respeito: "...porque ele era tão firme na sua santa Fé, porque ele guiou almas, serviu esta Causa e espalhou a sua fama, esta estrela, Nabil, brilhará para sempre no horizonte da luz duradoura"(f)
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(a) - Na Epístola, Bahá’u’lláh refere-se a Nabil como Nabil[1, 43] e como Muhammad[2]. Na notação abaj o nome Nabil tem o mesmo valor que Muhammad, o que pode justificar o facto de Bahá'u'lláh se dirigir a Nabil com expressões do tipo "O Muhammad! Dá ouvidos à voz que procede do Domínio da Glória..."
(b) - Pessoa com competência para interpretar a lei divina [sharia] e tomar decisões legais com base em interpretação independente das fontes legais [alcorão e sunnah]
(c) - Adib Taherzadeh, The Reveletion of Bahá'u'llah, Vol I, cap 7
(d) - Adib Taherzadeh cita uma transcrição de uma conversa de Nabil em que a sua enorme reverência por Bahá'u'lláh pode ser entendida como uma forma de reconhecimento da Sua figura como Manifestante de Deus.
(e) - Trata-se de Nabil-i-A'ẓam, o autor do livro Os Rompedores da Alvorada
(f) - Memorials of the Faithful.
NOTA: entre parentesis rectos [ ] encontram-se referências aos parágrafos da Epístola da Sabedoria.
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| Nabil-i-Akbar |
Nabil nasceu em 29 de Março de 1829, perto de Birjand, (distrito de Qa'in); o seu pai era um conhecido e influente Mullah; muitos dos seus antepassados eram mujtahids. Seguindo a tradição familiar, desenvolveu interesse por temas religiosos e iniciou os seus estudos de teologia em Mashad. Mais tarde mudou-se para Sabzivar onde estudou filosofia com um dos mais famosos filósofos persas do seu tempo, Ḥaji Mullah Hadi Sabzivari. Cinco anos depois, foi para Najaf (Iraque) estudar jurisprudência; ali teve oportunidade de alargar os seus conhecimentos nas melhores escolas do mundo islâmico da época, tendo conseguido por obter o grau de mujtahid.
Em 1852, no tempo que se viviam as grandes perseguições aos Babis, Nabil estava em Teerão. Um dia foi preso e falsamente acusado de ser Babi; protestou e foi libertado. Mas o incidente fê-lo pensar. O contacto de Nabil com os ensinamentos do Báb só aconteceu pouco antes de ir para Najaf, quando um Babi lhe deu alguns exemplares de escrituras do Báb; no ano seguinte, Nabil aceitou a Fé Babi.(c)
Em 1859, pouco antes de regressar à Pérsia, foi persuadido por um Babi a visitar Bahá’u’lláh em Bagdade. Bahá’u’llah recebeu-o durante alguns dias como convidado. Alguns autores acreditam que Nabil pertence ao grupo restrito dos que reconheceram Bahá’u’llah antes da declaração de 1863(d).
Seguindo instruções de Bahá’u’llah, regressou à Pérsia com o objectivo de divulgar a Fé Babi. Primeiramente foi bem recebido e sabe-se que o governador de Qa’in tinha por ele muita estima e admiração. No entanto, o sucesso das suas actividades missionárias suscitou oposição e hostilidade. Nabil esteve preso e foi torturado durante dois meses numa prisão em Birjand; seguiu-se um período de dois anos em que esteve em prisão domiciliária em Qa’in, tendo sido posteriormente exilado para Mashad, onde permaneceu durante um ano.
Durante o exílio em Mashad, um outro Babi, Mullah Moḥammad-ʿAli Zarandi(e) informou-o que Bahá’u’llah tinha proclamado ser o Prometido anunciado pelo Báb. Como consequência, Nabil escreveu a todos os Babis da região, encorajando-os a aceitar Bahá’u’llah.
Em 1870, Nabil foi exilado para Teerão onde esteve durante mais de três anos. Seguidamente viveu um ano em Akká onde esteve na presença de Bahá’u’lláh. Foi durante essa estadia em Akká que recebeu o título de “Nabil-i-Akbar” e que Bahá’u’lláh revelou a Epístola da Sabedoria em resposta às suas questões. Nesta Epístola Bahá’u’lláh alude aos sofrimentos de Nabil [6] e exorta-o a colocar a sua confiança em Deus para ultrapassar essas dificuldades. Bahá'u'lláh também encoraja Nabil a divulgar e ensinar a Causa com todas as suas capacidades e sabedoria [6, 15, 20]. A Abençoada Beleza também lhe recorda que eloquência e o poder das palavras humanas são factores a ter em conta na divulgação da Causa.
Após um ano na Terra Santa, regressou à Pérsia onde, apesar dos perigos, continuou a ensinar a Fé Bahá’í nas principais cidades do país: Teerão, Tabriz, Isfahan, Shiraz, Yazd, Kerman, Mashad, Zanjan e Qazvin. As ameaças à sua vida sucediam-se e foi preso mais algumas vezes. Em 1890 viajou para Ashkabad onde deu um grande contributo para a expansão e fortalecimento da Comunidade local. Faleceu 6 de Julho de 1892, em Bukara.
'Abdu'l-Bahá designou Nabil como Mão da Causa de Deus e escreveu a seu respeito: "...porque ele era tão firme na sua santa Fé, porque ele guiou almas, serviu esta Causa e espalhou a sua fama, esta estrela, Nabil, brilhará para sempre no horizonte da luz duradoura"(f)
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(a) - Na Epístola, Bahá’u’lláh refere-se a Nabil como Nabil[1, 43] e como Muhammad[2]. Na notação abaj o nome Nabil tem o mesmo valor que Muhammad, o que pode justificar o facto de Bahá'u'lláh se dirigir a Nabil com expressões do tipo "O Muhammad! Dá ouvidos à voz que procede do Domínio da Glória..."
(b) - Pessoa com competência para interpretar a lei divina [sharia] e tomar decisões legais com base em interpretação independente das fontes legais [alcorão e sunnah]
(c) - Adib Taherzadeh, The Reveletion of Bahá'u'llah, Vol I, cap 7
(d) - Adib Taherzadeh cita uma transcrição de uma conversa de Nabil em que a sua enorme reverência por Bahá'u'lláh pode ser entendida como uma forma de reconhecimento da Sua figura como Manifestante de Deus.
(e) - Trata-se de Nabil-i-A'ẓam, o autor do livro Os Rompedores da Alvorada
(f) - Memorials of the Faithful.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Martha Root na Rádio Praga (1932)
No blog Bahá'í Views descobri esta pequena preciosidade: um excerto de um programa emitido em 1932, na Radio Praga, onde podemos ouvir a voz de Martha Root.
Descrição do programa:
"No início desta série, ouvimos a voz do primeiro Presidente da Checoslováquia, Tomáš Masaryk Garrigue. A família Masaryk incluiu várias mulheres notáveis, que também desempenharam o seu papel na história checa do Século 20. Charlotte, a mulher de Tomáš, era americana, nascido em em Nova York em 1850. Quando o casal se casou em Brooklyn em 1878, ele assumiu o apelido Garrigue como parte de seu nome próprio, como um gesto de respeito. Charlotte passou a dedicar sua vida a todas as coisas checas, e era enérgica na defesa dos direitos das mulheres. Faleceu em 1923, apenas cinco anos depois da fundação da República. Nesta gravação de arquivo de Novembro 1932 ela é lembrada por uma amiga americana, a feminista e defensora da paz, Martha Root".
Descrição do programa:
"No início desta série, ouvimos a voz do primeiro Presidente da Checoslováquia, Tomáš Masaryk Garrigue. A família Masaryk incluiu várias mulheres notáveis, que também desempenharam o seu papel na história checa do Século 20. Charlotte, a mulher de Tomáš, era americana, nascido em em Nova York em 1850. Quando o casal se casou em Brooklyn em 1878, ele assumiu o apelido Garrigue como parte de seu nome próprio, como um gesto de respeito. Charlotte passou a dedicar sua vida a todas as coisas checas, e era enérgica na defesa dos direitos das mulheres. Faleceu em 1923, apenas cinco anos depois da fundação da República. Nesta gravação de arquivo de Novembro 1932 ela é lembrada por uma amiga americana, a feminista e defensora da paz, Martha Root".
quinta-feira, 31 de março de 2011
Entrevista a Bahiyyih Nakhjavani
Entrevista a Bahiyyih Nakhjavani, a autora do livro "La mujer que leía demasiado", uma biografía de Tahirih
terça-feira, 1 de março de 2011
O Império Otomano
Foi com muito agrado que li (a expressão exacta seria “devorei”) o livro de Donald Quataert, O Império Otomano: Das Origens ao Século XX. Como a maioria dos portugueses, pouco ou nada sabia sobre o Império Otomano. Tanto quanto me lembro, os otomanos apenas surgiram como personagens secundárias na disciplina de História no ensino secundário; eram “piratas” vindos do Mar Vermelho que o Afonso de Albuquerque derrotara.O Império Otomano surgiu no Séc. XIII e existiu até ao final da Primeira Guerra Mundial. Foi um dos mais importantes estados não europeus, tendo desempenhado um papel importantíssimo na história dos povos mediterrânicos. Os seus domínios estendiam-se dos Balcãs à fronteira persa, da Crimeia ao norte de África. Neste livro, Quataert analisa o império nas suas vertentes sociológica, administrativa, económica e política - relações internacionais, comerciais, estruturas de governo, economia, sociedade -, em especial desde 1700 até à sua queda, em 1923. O texto é acompanhado de alguns mapas, ilustrações e quadros genealógicos e cronológicos, muito úteis para estudantes e não-especialistas.
Para um Bahá’í, o livro de Quataert tem uma vantagem evidente: ajuda-nos a perceber o ambiente político, social e económico em que viveram Bahá’u’lláh e o pequeno grupo de exilados que O acompanhavam. Lembro que o fundador da Fé Bahá’í passou a maior parte da Sua vida Exilado no Império Otomano; nas Escrituras Bahá’ís encontram-se várias referências ao mundo otomano: os seus governantes, as suas cidades, as suas instituições e os seus hábitos culturais e sociais.
Depois de compreender um pouco daquele mundo otomano em que viveu Bahá’u’lláh, surgem algumas questões: O que pensaria Bahá'u'llah do Tanzimat? De que forma o relacionamento dos Otomanos com potências estrangeiras, influenciou a situação de minorias étnicas e religiosas no Império? Como foram recebidas as convulsões internas no Império (a revolta Urabi no Egipto, por exemplo) pelo grupo de exilados? Que contactos terão existido entre os Baha’is e políticos e intelectuais reformistas otomanos?
Esperemos que futuros historiadores sejam capazes de dar resposta a estas e outras questões semelhantes.
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Sobre o Império Otomano, talvez interesse ler este texto:
O Mundo Otomano, no olhar de Eça de Queirós
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Reis e Governantes, em 1867
Há alguns atrás, neste blog escrevi sobre a Epístola de Bahá'u'lláh aos Reis (Súriy-i-Mulúk). Trata-se de uma Epístola revelada em 1867, durante o terceiro exílio de Bahá'u'lláh. Nesse texto o fundador da religião Bahá’í dirige-se colectivamente a todos os reis da Terra, aconselhando-os a ser justos e a reduzirem os armamentos, de forma a permitir a prosperidade dos seus súbditos. Também afirma que os conflitos devem ser resolvidos de forma diplomática, e que as nações apenas devem ter exércitos com dimensão suficiente para proteger os seus domínios.
Nesse mesmo ano de 1867, realizou-se em Paris a Grande Exposição Universal. O evento era uma afirmação da frança como grande potência europeia e contava com expositores de vários países do mundo. Uma das recordações desse evento é uma ilustração onde estavam representados o Imperador Francês e outros monarcas que visitaram a Exposição. Curiosamente, quase todos eles foram destinatários de uma Epístola de Bahá'u'lláh.
Aqui fica a referida ilustração (clique na imagem para ampliar):

Excertos da Epístola aos Reis (Súriy-i-Mulúk):
Ó REIS DA TERRA! Aquele que é o Senhor soberano de todos já veio. O Reino é de Deus, o Protector Omnipotente, O que subsiste por Si Próprio. Não adoreis senão a Deus e, com corações radiantes, levantai a vossa face para o vosso Senhor, Senhor de todos os nomes. Esta é uma Revelação com a qual nenhuma de vossas possessões jamais será comparável – se apenas pudésseis saber isso.
(...)
Sois apenas vassalos, ó reis da terra! Aquele que é Rei dos Reis apareceu, adornado com a sua mais maravilhosa Glória, e convoca-vos a Ele Mesmo, o Amparo no Perigo, O que subsiste por Si Próprio. Acautelai-vos para que o orgulho não vos impeça de reconhecer a Fonte da Revelação, nem as coisas deste mundo vos excluam, como se o fosse por um véu, daquele que é Criador do Céu. Levantai-vos e servi Aquele que é o Desejo de todas as nações, que vos criou através de uma palavra Sua e ordenou que fôsseis, para todo o sempre, os símbolos da Sua soberania.
(...)
Passaram-se vinte anos, ó reis, durante os quais saboreamos a cada dia a agonia de uma nova tribulação. Nenhum dos que Nos antecedeu suportou o que Nós temos suportado. Oxalá pudésseis perceber isso! Os que se levantaram contra Nós, têm-nos levado à morte, têm derramado o Nosso sangue, têm saqueado os Nossos bens e violado a Nossa honra. Vós, porém, embora cientes da maior parte das Nossas aflições, não detivestes a mão do agressor. E não é claramente vosso dever reprimir a tirania do opressor e tratar com equidade os vossos súditos, a fim de demonstrar plenamente a toda a humanidade o vosso elevado sentido de justiça?
Deus entregou às vossas mãos as rédeas do governo do povo, para que possais governar com justiça sobre eles, salvaguardando os direitos dos espezinhados e punindo os malfeitores. Se negligenciares o dever que Deus vos prescreveu no Seu Livro, os vossos nomes serão incluídos nos que são injustos aos Seus olhos. Lastimável, de facto, será o vosso erro. Agarrai-vos ao que as vossas imaginações conceberam e repelis os mandamentos de Deus, o Excelso, o Inatingível, o Predominante, o Todo-Poderoso? Renunciai àquilo que vós possuís, e segurai-vos àquilo que Deus vos mandou observar. Procurai a Sua graça é o que deveis buscar, pois quem a procura trilha o Seu Caminho recto...
(...)
Ó REI DA TERRA! Nós vos vemos aumentar, todos os anos, as vossas despesas, cujo o peso colocais sobre os vossos súditos. Isso, em verdade, é inteira e grosseiramente injusto. Temei os suspiros e as lágrimas deste Injuriado e não ponhais encargos excessivos sobre os vossos povos. Não os roubeis a fim de erguerdes palácios para vós próprios; não, antes, escolhei para eles o que escolheis para vós próprios. Assim expomos perante os vossos olhos o que vos é proveitoso – se apenas o percebêsseis. Os vossos povos são os vossos tesouros. Acautelai-vos para que a vossa governação não viole os mandamentos de Deus, e não entregueis vossas tutelas nas mãos do ladrão. É pelos vossos povos que governais, por meio deles subsistis, pela sua ajuda que conquistais. No entanto, com que desdém olhais para eles! Que estranho, muito estranho!
Agora que recusastes a Paz Maior, segurai-vos a essa, a Paz Menor, a fim de que possais, de alguma forma, melhorar a vossa própria condição e a dos vossos dependentes.
Ó governantes da terra! Reconciliai-vos, para que não mais necessiteis de armamentos, salvo na medida necessária para proteger os vossos territórios e domínios. Acautelai-vos para não desprezar o conselho do Omnisciente, do Fiel.
Uni-vos, ó reis da terra, pois assim a tempestade da discórdia se aquietará entre vós, e o vosso povo encontrará a tranquilidade - se sois dos que compreendem. Se alguém dentre vós pegar em armas contra outro, levantai-vos contra ele, pois isso nada mais é que justiça manifesta.
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Sobre esta Epístola:
* Epístola aos Reis – Introdução
* Epístola aos Reis (1): A Proclamação
* Epístola aos Reis (2): O Sultão e os Ministros
* Epístola aos Reis (3): Os Embaixadores
* Epístola aos Reis (4): Sacerdotes, Sábios e Filósofos
Nesse mesmo ano de 1867, realizou-se em Paris a Grande Exposição Universal. O evento era uma afirmação da frança como grande potência europeia e contava com expositores de vários países do mundo. Uma das recordações desse evento é uma ilustração onde estavam representados o Imperador Francês e outros monarcas que visitaram a Exposição. Curiosamente, quase todos eles foram destinatários de uma Epístola de Bahá'u'lláh.
Aqui fica a referida ilustração (clique na imagem para ampliar):

Excertos da Epístola aos Reis (Súriy-i-Mulúk):
Ó REIS DA TERRA! Aquele que é o Senhor soberano de todos já veio. O Reino é de Deus, o Protector Omnipotente, O que subsiste por Si Próprio. Não adoreis senão a Deus e, com corações radiantes, levantai a vossa face para o vosso Senhor, Senhor de todos os nomes. Esta é uma Revelação com a qual nenhuma de vossas possessões jamais será comparável – se apenas pudésseis saber isso.
(...)
Sois apenas vassalos, ó reis da terra! Aquele que é Rei dos Reis apareceu, adornado com a sua mais maravilhosa Glória, e convoca-vos a Ele Mesmo, o Amparo no Perigo, O que subsiste por Si Próprio. Acautelai-vos para que o orgulho não vos impeça de reconhecer a Fonte da Revelação, nem as coisas deste mundo vos excluam, como se o fosse por um véu, daquele que é Criador do Céu. Levantai-vos e servi Aquele que é o Desejo de todas as nações, que vos criou através de uma palavra Sua e ordenou que fôsseis, para todo o sempre, os símbolos da Sua soberania.
(...)
Passaram-se vinte anos, ó reis, durante os quais saboreamos a cada dia a agonia de uma nova tribulação. Nenhum dos que Nos antecedeu suportou o que Nós temos suportado. Oxalá pudésseis perceber isso! Os que se levantaram contra Nós, têm-nos levado à morte, têm derramado o Nosso sangue, têm saqueado os Nossos bens e violado a Nossa honra. Vós, porém, embora cientes da maior parte das Nossas aflições, não detivestes a mão do agressor. E não é claramente vosso dever reprimir a tirania do opressor e tratar com equidade os vossos súditos, a fim de demonstrar plenamente a toda a humanidade o vosso elevado sentido de justiça?
Deus entregou às vossas mãos as rédeas do governo do povo, para que possais governar com justiça sobre eles, salvaguardando os direitos dos espezinhados e punindo os malfeitores. Se negligenciares o dever que Deus vos prescreveu no Seu Livro, os vossos nomes serão incluídos nos que são injustos aos Seus olhos. Lastimável, de facto, será o vosso erro. Agarrai-vos ao que as vossas imaginações conceberam e repelis os mandamentos de Deus, o Excelso, o Inatingível, o Predominante, o Todo-Poderoso? Renunciai àquilo que vós possuís, e segurai-vos àquilo que Deus vos mandou observar. Procurai a Sua graça é o que deveis buscar, pois quem a procura trilha o Seu Caminho recto...
(...)
Ó REI DA TERRA! Nós vos vemos aumentar, todos os anos, as vossas despesas, cujo o peso colocais sobre os vossos súditos. Isso, em verdade, é inteira e grosseiramente injusto. Temei os suspiros e as lágrimas deste Injuriado e não ponhais encargos excessivos sobre os vossos povos. Não os roubeis a fim de erguerdes palácios para vós próprios; não, antes, escolhei para eles o que escolheis para vós próprios. Assim expomos perante os vossos olhos o que vos é proveitoso – se apenas o percebêsseis. Os vossos povos são os vossos tesouros. Acautelai-vos para que a vossa governação não viole os mandamentos de Deus, e não entregueis vossas tutelas nas mãos do ladrão. É pelos vossos povos que governais, por meio deles subsistis, pela sua ajuda que conquistais. No entanto, com que desdém olhais para eles! Que estranho, muito estranho!
Agora que recusastes a Paz Maior, segurai-vos a essa, a Paz Menor, a fim de que possais, de alguma forma, melhorar a vossa própria condição e a dos vossos dependentes.
Ó governantes da terra! Reconciliai-vos, para que não mais necessiteis de armamentos, salvo na medida necessária para proteger os vossos territórios e domínios. Acautelai-vos para não desprezar o conselho do Omnisciente, do Fiel.
Uni-vos, ó reis da terra, pois assim a tempestade da discórdia se aquietará entre vós, e o vosso povo encontrará a tranquilidade - se sois dos que compreendem. Se alguém dentre vós pegar em armas contra outro, levantai-vos contra ele, pois isso nada mais é que justiça manifesta.
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Sobre esta Epístola:
* Epístola aos Reis – Introdução
* Epístola aos Reis (1): A Proclamação
* Epístola aos Reis (2): O Sultão e os Ministros
* Epístola aos Reis (3): Os Embaixadores
* Epístola aos Reis (4): Sacerdotes, Sábios e Filósofos
terça-feira, 30 de junho de 2009
Ainda a Modernidade
No livro Cristo Filósofo, Frederic Lenoir escreve:
COMENTÁRIO:
Como referi anteriormente, os valores da modernidade referidos por Frederic Lenoir, são também assumidos pela Fé Bahá’í. Não são o resultado de uma reflexão teológica-filosófica; não resultam de uma evolução histórica, ou de um conjunto de circunstâncias específicas que permitiram o seu surgimento. São valores que se encontram nas próprias Escrituras. Desta forma tornam-se um ponto de partida para uma nova etapa da nossa evolução colectiva. São, certamente valores que fazem parte da prometida civilização em constante progresso que a família humana se deve empenhar em construir.
Por este motivo, os valores da modernidade devem ser uma das bases do diálogo entre Bahá’ís e Cristãos.
O grande paradoxo, a ironia suprema da história, é que o advento moderno da laicidade, dos direitos do homem, da liberdade de consciência, enfim, de tudo aquilo que se fez nos séculos XVI, XVII e XVIII contra a vontade dos eclesiásticos, se produziu por meio de um recurso implícito ou explícito à mensagem original dos Evangelhos. Dito por outras palavras, aquilo a que chamo aqui «a filosofia de Cristo», os seus ensinamentos éticos mais fundamentais, deixou de chegar aos homens através da porta da Igreja... para passar a usar a janela do Humanismo do Renascimento e das Luzes! Durante esses três séculos, ao mesmo tempo que a instituição eclesiástica crucificava o ensinamento de Cristo acerca da dignidade humana e da liberdade de consciência por meio de prática inquisitorial, este último ressuscita graças aos humanistas. (p.17)
COMENTÁRIO:
Como referi anteriormente, os valores da modernidade referidos por Frederic Lenoir, são também assumidos pela Fé Bahá’í. Não são o resultado de uma reflexão teológica-filosófica; não resultam de uma evolução histórica, ou de um conjunto de circunstâncias específicas que permitiram o seu surgimento. São valores que se encontram nas próprias Escrituras. Desta forma tornam-se um ponto de partida para uma nova etapa da nossa evolução colectiva. São, certamente valores que fazem parte da prometida civilização em constante progresso que a família humana se deve empenhar em construir.
Por este motivo, os valores da modernidade devem ser uma das bases do diálogo entre Bahá’ís e Cristãos.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Porque é que a Modernidade surgiu no Ocidente?
No livro Cristo Filósofo, Frederic Lenoir escreve:
O título deste post é um tema de reflexão demorada de Frederic Lenoir. E penso que é um tema merecedor de reflexão por parte de todas as pessoas que estudam o fenómeno religioso. Aqui ficam algumas considerações:
1 - O facto dos valores da modernidade terem surgido no Ocidente, como herança ou fruto do Cristianismo, isso não significa que não pudessem ter aparecido noutro lugar. Parece-me mais correcto dizer que noutros tempos e noutros lugares não se proporcionaram as condições para que isso acontecesse.
2 - Noto que Frederic Lenoir tem o cuidado de nunca considerar que as religiões não-cristãs foram obstáculos ao surgimento da modernidade; o importante é o conjunto de circunstâncias históricas e a sucessão de acontecimentos. Nas Escrituras Baha’is refere-se que todas as religiões surgiram com potencial para transformar a humanidade. Mas esse potencial acabou por não se revelar, devido à distorção dos ensinamentos originais dessas religiões.
3 - O facto dos valores da modernidade terem raízes no mundo Ocidental, marcado pela cultura cristã, isso não nos pode levar a deduzir que o Cristianismo seja superior às outras religiões. Se alguém for tentado por esse raciocínio, lembro que estes valores da modernidade surgem como resultado de um “longo processo de amadurecimento”. Na Fé Bahá'í, esses valores são um ponto de partida, na medida em que se encontram entre os ensinamentos de Bahá'u'lláh. E isso não acontece porque a Fé Bahá'í seja superior a outras religiões, mas antes, porque os seus ensinamentos são adequados à nossa maturidade e necessidades dos tempos actuais.
Porque será que aquilo a que chamamos «modernidade» não teve lugar em outro lugar - na China, na Índia ou no Império Otomano, por exemplo - e num outro período da História? A questão é crucial. A modernidade ocidental e os seus principais componentes - razão crítica, autonomia do sujeito, universalidade, laicidade - apenas puderam desenvolver-se no seio de um mundo específico que reunia todos os factores passíveis de propiciar que tais componentes eclodissem e se ligassem entre si. Ora, historicamente, este mundo específico foi o mundo cristão. E por mais paradoxal que isso possa parecer à primeira vista, de tal forma o espírito moderno e as instituições religiosas se opuseram que a Modernidade só pôde desenvolver-se ao termo de um longo processo de amadurecimento no seio da sua própria matriz religiosa - o Cristianismo - e, depois, de emancipação e viragem contra ela. O essencial da história do Ocidente resume-se a este espantoso encadeamento de factos.(p. 163)COMENTÁRIO:
O título deste post é um tema de reflexão demorada de Frederic Lenoir. E penso que é um tema merecedor de reflexão por parte de todas as pessoas que estudam o fenómeno religioso. Aqui ficam algumas considerações:
1 - O facto dos valores da modernidade terem surgido no Ocidente, como herança ou fruto do Cristianismo, isso não significa que não pudessem ter aparecido noutro lugar. Parece-me mais correcto dizer que noutros tempos e noutros lugares não se proporcionaram as condições para que isso acontecesse.2 - Noto que Frederic Lenoir tem o cuidado de nunca considerar que as religiões não-cristãs foram obstáculos ao surgimento da modernidade; o importante é o conjunto de circunstâncias históricas e a sucessão de acontecimentos. Nas Escrituras Baha’is refere-se que todas as religiões surgiram com potencial para transformar a humanidade. Mas esse potencial acabou por não se revelar, devido à distorção dos ensinamentos originais dessas religiões.
3 - O facto dos valores da modernidade terem raízes no mundo Ocidental, marcado pela cultura cristã, isso não nos pode levar a deduzir que o Cristianismo seja superior às outras religiões. Se alguém for tentado por esse raciocínio, lembro que estes valores da modernidade surgem como resultado de um “longo processo de amadurecimento”. Na Fé Bahá'í, esses valores são um ponto de partida, na medida em que se encontram entre os ensinamentos de Bahá'u'lláh. E isso não acontece porque a Fé Bahá'í seja superior a outras religiões, mas antes, porque os seus ensinamentos são adequados à nossa maturidade e necessidades dos tempos actuais.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Otto von Bismarck

Foi recentemente publicada em Portugal uma biografia de Otto von Bismarck, de autoria de A.J.P. Taylor (Edições 70). A obra descreve a vida política de um dos mais influentes políticos europeus do século XIX, reconhecido como o fundador da Alemanha moderna, e recordado como primeiro-ministro da Prússia e primeiro Chanceler do Império Alemão.
O que me parece ser um resumo da sua postura na vida política encontra-se nas seguintes palavras do autor:
Nunca se comprometeu irrevogavelmente com nenhum rumo. Em política externa, as suas alianças conduziam frequentemente a guerras e as suas guerras foram prelúdios de alianças. A aliança com a Áustria, em 1864, levou à guerra com a Áustria , em 1866; por sua vez, esta guerra deu origem à aliança com a Áustria-Hungria, em 1879 – uma aliança que talvez se tivesse desfeito se Bismarck tivesse permanecido mais tempo no poder. À quase aliança com a França, em 1866, seguiu-se a guerra de 1870 e não foi por culpa de Bismarck que o conflito não conduziu a uma aliança renovada, em 1877, ou mais tarde, entre 1883 e 1885 – com um novo período de hostilidade em 1886. A Itália foi o único aliado contra o qual Bismarck não entrou em guerra, o que se deveu apenas à falta de oportunidade – as suas frases foram frequentemente bastante hostis. Nos assuntos internos, foi a mesma coisa. Bismarck equilibrou-se entre rei e parlamento, depois entre imperador e Reichstag, manipulando-os um contra o outro. Estava sempre pronto para dizer ao Reichstag que a sua responsabilidade era exclusivamente para com o imperador - «o meu único constituinte» - e avisou os políticos que nem sequer lhe podiam baixar o salário – estava consagrado na constituição e ele defendê-lo-ia em tribunal. As coisas eram muito diferentes quando Bismarck ia à corte. Nessas ocasiões, insistia que o imperador devia aceitar a vontade do Reichstag - interpretada por ele, é claro. (162-163)Bismarck era o homem por detrás das políticas de Guilherme I, o Kaiser alemão a quem Bahá'u'lláh se dirigiu numa das Suas Epístolas. E se percebermos o que foi a influência do Bismarck nas políticas de Guilherme I, torna-se claro que muitas das advertências dirigidas pelo fundador da religião Baha’i eram, na verdade, destinadas ao próprio Bismarck.
A ler.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
O Mundo Otomano, no olhar de Eça de Queirós
Quando um Bahá’í português fala da sua religião, é inevitável que faça mencione a referência de Eça de Queirós ao Báb no livro «A Correspondência de Fradique Mendes». É natural que assim seja. Afinal, trata-se de um dos grandes nome da literatura portuguesa referindo as origens da nossa religião, pouco depois desta ter surgido em meados do século XIX na Pérsia.
Estranhamente, as referências que os Bahá’ís fazem a Eça de Queirós, esgotam-se nessa longa citação. Será que não há nada mais nos textos do autor português que seja relevante para a Fé Bahá’í?
Eça esteve no Egipto em 1869 e 1870, tendo assistido à inauguração do Canal do Suez. As suas impressões dessa viagem foram registadas e publicadas postumamente pelo seu filho num volume intitulado "O Egipto". Outras obras e personagens reflectem o interesse de Eça pelo Médio Oriente: “A Relíquia” possuiu uma narração de uma viagem do protagonista - Teodorico Raposo - à Terra Santa. E o cosmopolita Fradique Mendes não é imune a influências orientais.
"As Cartas de Inglaterra" (publicadas na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, entre 1880 a 1896) e as "Crónicas de Londres" (publicadas no jornal portuense A Actualidade”, entre 1877 a 1878) reúnem um conjunto de análises sobre a vida inglesa e vários comentários sobre acontecimentos internacionais. Nestes textos são particularmente interessantes as descrições da guerra Russo-Turca (1877-1878) e a Crise no Egipto (que culmina com o bombardeamento de Alexandria, 1882).
Nas vésperas do conflito militar com a Rússia, Eça descreve o Império Otomano com as seguintes palavras:
Eça foi profundamente irónico ao descrever o comportamento dos ingleses e não escondeu o seu choque pelo sucedido:
Era este o contexto de tensão política e social em que Bahá'u'lláh, e o pequeno grupo de exilados que O acompanhavam, viveram durante os exílios em Adrianoplolis e Akká. E é exactamente para nos ajudar a perceber um pouco desse contexto, que o livro “Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres” merece uma leitura atenta por parte dos Bahá’ís que falam português.
Estranhamente, as referências que os Bahá’ís fazem a Eça de Queirós, esgotam-se nessa longa citação. Será que não há nada mais nos textos do autor português que seja relevante para a Fé Bahá’í?
Eça esteve no Egipto em 1869 e 1870, tendo assistido à inauguração do Canal do Suez. As suas impressões dessa viagem foram registadas e publicadas postumamente pelo seu filho num volume intitulado "O Egipto". Outras obras e personagens reflectem o interesse de Eça pelo Médio Oriente: “A Relíquia” possuiu uma narração de uma viagem do protagonista - Teodorico Raposo - à Terra Santa. E o cosmopolita Fradique Mendes não é imune a influências orientais.
"As Cartas de Inglaterra" (publicadas na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, entre 1880 a 1896) e as "Crónicas de Londres" (publicadas no jornal portuense A Actualidade”, entre 1877 a 1878) reúnem um conjunto de análises sobre a vida inglesa e vários comentários sobre acontecimentos internacionais. Nestes textos são particularmente interessantes as descrições da guerra Russo-Turca (1877-1878) e a Crise no Egipto (que culmina com o bombardeamento de Alexandria, 1882).
Nas vésperas do conflito militar com a Rússia, Eça descreve o Império Otomano com as seguintes palavras:
Há um ano que a Sublime Porta vive num estado de humilhação permanente. A Europa tem-na tratado como um seu subalterno dependente e inconsciente: impõe-lhe constituições, governa as suas finanças, discute a sua administração, usa da sua capital como de uma sala de hotel para instalar conferências, manda comissões impertinentes investigar os seus massacres domésticos, dá razão às províncias que se insurreccionam, força-a a constantes renovações do funcionalismo, censura as suas despesas, decide nos seus tribunais, obriga-a a nomear um parlamento, repreende-a, diz-lhe «chut!», desacredita-a, ralha-lhe, ameaça-a, não admite que ela tenha um espírito de raça, uma tradição histórica, uma necessidade religiosa e trata-a absolutamente como se ela fosse uma povoação de negros perdida no Sul da África.Em 1882, após diversas pressões exercidas pela Inglaterra e França sobre o Egipto, ocorrem motins na cidade de Alexandria onde são mortos dezenas de Europeus. Em resposta, a frota britânica bombardeou a cidade, sob o pretexto de impedir que os egípcios reforçassem umas fortificações portuárias. Após o bombardeamento, deflagraram fogos na cidade, e durante vários dias reinou o caos.
Esta situação não podia durar. O Turco é inteligente, orgulhoso, bravo, teimoso, fanático; um dia viria em que, enfastiado de ver em roda de si tantos pedagogos a querer dirigi-lo e tantos ferrabrases a franzirem-lhe a testa – devia necessariamente dar dois passos a trás e meter a espingarda à cara.
Foi o que sucedeu.
Eça foi profundamente irónico ao descrever o comportamento dos ingleses e não escondeu o seu choque pelo sucedido:
Hoje, à hora em que escrevo, Alexandria é apenas um imenso montão de ruínas. Do bairro europeu, da famosa Praça dos Cônsules, dos hotéis, dos bancos, dos escritórios das companhias, dos cafés-lupanares resta apenas um confuso entulho sobre o solo, e aqui e além uma parede enegrecida que se vai aluindo.Estes são apenas duas das muitas referências que Eça de Queirós faz ao mundo Otomano do final Séc. XIX e aos seus problemas com as potências europeias. O Império era acossado a norte pela Rússia, a sul pela Inglaterra e a oeste pelos austrohúngaros. A isto somavam-se as tensões inevitáveis que existiam num império multi-étnico e culturalmente diversificado.
Pela quarta vez na história, Alexandria deixou de existir.
Era este o contexto de tensão política e social em que Bahá'u'lláh, e o pequeno grupo de exilados que O acompanhavam, viveram durante os exílios em Adrianoplolis e Akká. E é exactamente para nos ajudar a perceber um pouco desse contexto, que o livro “Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres” merece uma leitura atenta por parte dos Bahá’ís que falam português.
quarta-feira, 26 de março de 2008
Le Petit Journal, 1913

Num site de fotografias, ao fazer uma pesquisa de todas as fotos identificadas com a etiqueta «bahai», encontrei esta capa do Le Petit Journal, de 1913. Esta publicação, fazendo eco dos primeiros esforços de divulgação da Fé Bahá'í em França, apresentava na sua capa uma ilustração que nos mostrava «Abdu’l-Bahá a pregar a uma multidão em Constantinopla (actual Istambul)».
Tal como o titulo - que descreve o filho de Bahá'u'lláh é descrito como «o novo profeta do Islão» - também a imagem não podia estar mais longe da realidade. Nem 'Abdu'l-Bahá é um profeta, nem durante os pouco meses que esteve em Constantinopla teve liberdade para divulgar abertamente a religião, nem a sua fisionomia durante esse tempo na capital otomana se assemelhava à da imagem. Além disso a pose é que a imagem apresenta um estereotipo de uma figura profética (o homem de barba branca e braços abertos, aos gritos para uma multidão).
Apesar de tudo esta capa do Le Petit Journal é uma curiosidade histórica irresistível.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Sharia
Muito se falou e comentou sobre as polémicas declarações do Arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, acerca da inevitabilidade da aplicação da sharia no Reino Unido. Não vou comentar o discurso em causa porque ainda não tive a oportunidade de o ler (e não me parece muito correcto basear-me apenas no que dizem os media e alguns comentadores).
Mas sendo a sharia um "assunto quente", penso ser importante que haja um bom entendimento do que esta significa, qual a sua história e a sua aplicabilidade no mundo de hoje. E nesse sentido considero particularmente útil o seguinte diagrama desenhado pelo Dr. Moojan Momen (autor de livros como An Introduction to Shi’i Islam e Islam of the Baha’i Faith e várias vezes citado neste blog).

Aqui apresentam-se as fontes da sharia. Note-se que a maioria se refere ao Islão sunita; as palavras e as setas a vermelho referem-se ao Islão xiita, onde em alguns aspectos a abordagem à sharia é diferente (não obstante as penas máximas no Irão serem tão graves quanto as que existem na Arábia Saudita).
Mas sendo a sharia um "assunto quente", penso ser importante que haja um bom entendimento do que esta significa, qual a sua história e a sua aplicabilidade no mundo de hoje. E nesse sentido considero particularmente útil o seguinte diagrama desenhado pelo Dr. Moojan Momen (autor de livros como An Introduction to Shi’i Islam e Islam of the Baha’i Faith e várias vezes citado neste blog).
(imagem obtida no Barnabas Quotidianus)
Aqui apresentam-se as fontes da sharia. Note-se que a maioria se refere ao Islão sunita; as palavras e as setas a vermelho referem-se ao Islão xiita, onde em alguns aspectos a abordagem à sharia é diferente (não obstante as penas máximas no Irão serem tão graves quanto as que existem na Arábia Saudita).
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