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sábado, 14 de maio de 2016

Os Direitos Humanos não existem para os Bahá’ís do Irão

Por Elliott Abrams.
Artigo publicado no Washington Post, 12/Maio/2016

A esperança é eterna quando se trata de direitos humanos no Irão. A eleição em 2013 do presidente Hassan Rohani, que substituiu Mahmoud Ahmadinejad, era suposta trazer melhorias. Acreditava-se que a pretensa vitória dos moderados nas recentes eleições legislativas para a Assembleia de Peritos dos clérigos islâmicos seria um desenvolvimento positivo. O acordo nuclear com o Irão foi descrito como um revés para os conservadores de linha dura que podia levar a uma abertura ao mundo e um aliviar das condições no Irão.

Mas não houve qualquer melhoria nos direitos humanos, especialmente para os Bahá’ís - a quem o relator especial da ONU sobre a liberdade de religião ou crença, Heiner Bielefeldt, chamou "o grupo mais perseguido no Irão". Falando em Genebra, em Março, Bielefeldt afirmou: "Encontramos em todas as áreas da vida uma discriminação sistemática contra os Bahá’ís. Começa no jardim-de-infância. Os funcionários dos jardins-de-infância devem detectar quem são os Bahá’ís para que eles possam ficar sob vigilância especial". A perseguição continua no ensino básico e secundário, e acrescentou: "continuaria no ensino superior, mas Bahá’ís estão banidos das universidades, e os Bahá’ís que são descobertos são afastados."

Este sábado assinala o oitavo aniversário da detenção da liderança Bahá’í iraniana, os chamados “Yaran”. Eram sete homens e mulheres que cuidavam das necessidades espirituais e práticas da comunidade (além de secretário do grupo, que foi preso em 05 de Março de 2008) e por esse "crime" receberam penas de prisão de 20 anos. As acusações contra eles incluíram "espionagem para Israel", "insulto santidades religiosas", "propaganda contra o sistema" e "corrupção na Terra".

Os "Yaran", os sete dirigentes Bahá'ís que actualmente se encontram presos no Irão

Hoje, infelizmente, a situação dos cerca de 300.000 Bahá’ís do Irão não está melhor. Em Março, um relatório do relator especial da ONU para Direitos Humanos no Irão destacou não só o declínio geral do respeito pelos direitos humanos, mas também a hostilização continuada dos Bahá’ís. Vale a pena citar uma parte do relatório:

"O Relator Especial expressa a sua profunda preocupação com a contínua e sistemática discriminação, perseguição e hostilização que os aderentes da fé Bahá’í continuam a enfrentar no país.

"Em Janeiro de 2016, um tribunal revolucionário na província de Golestan terá supostamente condenado 24 Bahá'ís a um total de 193 anos de prisão devido ao exercício pacífico da sua fé... Pelo menos 80 Bahá'ís encontravam-se presos em 31 de Dezembro de 2015, devido ao exercício pacífico de sua fé...

"Além das detenções arbitrárias, prisões e condenações de Bahá'ís, o Relator Especial continua a receber relatórios preocupantes de que as autoridades iranianas continuam a desenvolver actividades que privam economicamente os Bahá'ís do seu direito ao trabalho... Essas políticas incluem restrições sobre os tipos de empresas e empregos que os cidadãos Bahá'ís podem ter, encerramento forçado de negócios pertencentes a Bahá'ís, pressões sobre os empresários para demitir funcionários Bahá'ís, e confiscação de empresas e propriedades... As acções para encerrar os negócios pertencentes a Bahá’ís parecem ter acontecido após o seu encerramento temporário e voluntário pelos proprietários no cumprimento dos seus feriados religiosos no dia anterior...

"A discriminação contra a comunidade Bahá’í no Irão está legalmente aprovada através da falta de reconhecimento constitucional da fé e da ausência de protecções legais para os seus adeptos. Esta situação é ainda perpetuada com ataques abertos à comunidade feitos agentes do Estado ou pessoas próximas do Estado".

A perseguição continuada, e muitas vezes agravada, deste grupo pequeno e sem poder - menos de metade de 1 por cento da população do Irão - é significativo não apenas como uma questão de direitos humanos. É também uma recordação forte sobre a natureza do regime iraniano. Há, naturalmente, muitas outras recordações: por exemplo, os dois homens que concorreram [às eleições] como reformadores em 2009, Mehdi Karroubi e Mir Hossein Mousavi, assinalaram no passado mês de Fevereiro o seu quinto ano sob prisão domiciliária. Em 2016, o Irão continua a ser uma teocracia repressiva, rápida a prender tanto os opositores políticos como os cidadãos cujas crenças religiosas os clérigos consideram censuráveis.

No outono passado, o filósofo iraniano Ramin Jahanbegloo - ele próprio um ex-preso político que agora vive no Canadá - falou por muitos optimistas no Irão, quando escreveu que o acordo nuclear iria "ajudar o país a tornar-se mais aberto, transparente e sensível à pressão internacional sobre questões como a pena de morte e a prisão de actores civis no Irão". Talvez os Bahá’ís do Irão partilhassem a sua esperança, mas se assim foi, têm ficado frustrados. Para os Yaran, atrás das grades há oito anos pelo crime de serem Bahá’ís, este é mais um triste aniversário.

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Texto original em inglês: Human rights remain nonexistent for Iran’s Bahai population

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Elliott Abrams é membro sénior de Estudos sobre o Oriente Médio no Conselho de Relações Exteriores, e foi vice-conselheiro de segurança nacional dos EUA para a estratégia democracia global entre 2005 e 2009.

Oito Anos de Injustiça


Video produzido pela Comunidade Internacional Bahá'í sobre a situação dos 7 dirigentes Bahá'ís presos no Irão.
Legendado em Português.

#ReleaseBahai7Now

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Mais 6 empresas Bahá’ís encerradas no Irão

No Irão, no passado dia 1 de Maio, as autoridades locais de Ramsar encerraram cinco empresas pertencentes a Bahá’ís; simultaneamente, em Sari, foi encerrada uma loja de um Bahá’í. Estas duas localidades situam-se na província de Mazandaran, onde outras 12 empresas pertencentes a Bahá’ís foram encerradas na semana passada.

Isto eleva para 39 o número total de empresas Bahá’ís encerradas durante as últimas semanas: 16 em Qaem Shahr, dois em Babol, três em Tenakabon, cinco em Babolsar, dois em Bahnamir, cinco em Fereydunkenar e as seis referidas neste novo relatório. Todos os encerramentos parecem estar relacionados com o fecho temporário das empresas durante os feriados Bahá’ís de Ridvan.

É importante lembrar que estes encerramentos violam a Constituição Iraniana, cujo artigo 23 proíbe as investigações sobre crenças religiosas dos cidadãos, e também é contrária aos regulamentos que permitem às empresas (excepto serviços essenciais) fechar 15 dias por ano sem ter que notificar as autoridades.

Segundo um relatório da organização HRANA (Human Rights Activists News Agency in Iran), todos os encerramentos foram realizados durante a ausência dos proprietários, sem qualquer aviso prévio por escrito ou informando com antecedência as associações comerciais. Em Qaem Shahr, as autoridades informaram os Bahá’ís que eles não podem ser aceites como residentes e os seus negócios seriam encerrados, porque estão referenciados como Bahá’ís.

Um aspecto interessante é o facto do Departamento de Espaços Públicos em Babolsar ter dito às lojas Bahá’ís que não seriam encerradas se deixassem as suas luzes acesas ou as persianas dos estabelecimentos levantadas durante os feriados Bahá’ís. Não é ainda claro se os lojistas seguiram estas indicações ou não, mas sabe-se que as lojas foram mesmo encerradas. No entanto, isto sugere que a questão para as autoridades em Babolsar é que, em feriados Bahá’ís, não devem existir indicações sobre quais são as empresas pertencentes aos Bahá’ís. Noutras cidades, os encerramentos fazem parte de um padrão geral de hostilização dos Bahá’ís em todas as oportunidades.

Recorde-se que em 1934, quando o Xá quis encerrar as escolas Bahá’ís no Irão, foi invocada o fecho em feriados Bahá’ís como pretexto.

As fotos que se seguem são dos estabelecimentos encerrados e foram publicados no site GoldNews.







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FONTE: Six Bahai businesses closed in Ramsar and Sari; total now 39 (Sen’s Daily)

terça-feira, 26 de abril de 2016

Irão: 16 estabelecimentos Bahá'ís encerrados em Qaem Shahr


No Irão, 16 estabelecimentos pertencentes a Bahá'ís em Qaem Shar foram encerrados pelas autoridades iranianas por estarem fechados no feriado Bahá’í do primeiro dia de Ridvan.

Segundo informações da Human Rights Activists News Agency in Iran (HRANA), em anos recentes, os departamentos de locais públicos têm encerrado vários estabelecimentos e pequenas lojas que são a única fonte de rendimento de muitas famílias Bahá’ís.

Recorde-se que os Bahá’ís não podem ter empregos na administração pública, nem em vários sectores de actividade. Além disso, os Bahá’ís também estão impedidos de ter actividades comerciais que impliquem o manuseamento de alimentos ou serviços pessoais, pois a superstição corrente no Irão é que são “impuros”.

O nomes dos estabelecimentos encerrados são: Shahin Senasi, Sohrab Leqa’i, Changiz Derakshani, Bijan Now`khah, Nima Miri, Sahil Haqqdust, Baha’ul-din Samimi, Behnam Mirza’i, Kurosh Ahmadzadegam, Adel Atta’eyan, Kurosh Reza’i, Fariborz Sana’i, Rezvan Golpour, Shahin Akbari e Farzad Sabeti.











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FONTE: 16 Bahai Businesses Closed in Qa’em Shahr (HRANA)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Comissão da ONU exige que Irão deixe de identificar alunos Bahá'ís

A Comissão da ONU sobre os Direitos da Criança exigiu ao Irão que deixasse de identificar nas escolas as crianças de famílias Bahá'ís, e parasse de intimidá-las e expulsá-las.

Num relatório divulgado no início deste mês, a Comissão, constituída por 18 peritos independentes, afirmou estar preocupada com a discriminação contra as minorias religiosas no Irão, salientando que muitas dessas crianças foram privadas dos direitos existentes na Convenção sobre os Direitos da Criança, de que o Irão é signatário.

A Comissão declarou estar "particularmente preocupada com a hostilização, a intimidação e prisão de pessoas da Fé Bahai, incluindo os seus filhos, devido à sua religião."

Entre outras coisas, a Comissão chamou a atenção para a prática de aprisionar as crianças Bahá'ís com suas mães, acrescentando que algumas têm "desenvolvido problemas de saúde devido às más condições de vida a que estão sujeitas nas prisões." Também preocupação com a "identificação, intimidação e hostilização de crianças Bahá'ís em escolas e a falta de acesso para essas crianças ao ensino superior", apelando ao Irão para pôr termo a essas práticas.

Diane Ala'i, representante da Comunidade Internacional Bahá'í nas Nações Unidas em Genebra saudou os comentários da Comissão: "Desde a revolução islâmica de 1979, os Bahá'ís têm sido alvo de perseguição, intimidação e discriminação apenas devido às suas crenças religiosas, e as crianças Bahá'ís são particularmente afectadas por estas políticas.

"As crianças Bahá'ís têm sido isoladas e maliciosamente excluídas, marginalizadas, e intimidadas nas suas escolas devido às suas crenças. Foram expulsas quando, de forma correcta e honesta, preencheram declarações obrigatórias da religião em formulários de inscrição, ou quando expressaram a sua opinião e não ficaram em silêncio quando os professores faziam falsas acusações sobre a sua religião nas salas de aula”, acrescentou a Srª Ala'i.

"E os jovens Bahá'ís continuam a ser impedidos de ingressar no ensino superior; e os poucos que são aceites acabam por ser expulsos assim que se torna aparente que eles são Bahá'ís", concluiu a Srª Ala'i.

As observações finais da Comissão podem ser lidas aqui.

Um relatório da BIC (Bahá'í International Community) à Comissão sobre a actual situação no Irão pode ser lido aqui.

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FONTE: UN Committee calls on Iran to stop identifying Baha’i schoolchildren (BIC)

sábado, 30 de janeiro de 2016

Irão: 24 Bahá'ís condenados no Golestan

Um tribunal revolucionário na província de Golestan no Irão condenou 24 membros da Comunidade Bahá'í a penas de prisão que variam entre 6 e 11 anos. Os condenados tinham sido detidos em 2012 numa rusga contra os Bahá’ís da província.

Em Genebra, uma porta-voz a Comunidade Internacional Bahá'í, Simin Fahandej, afirmou que estas 24 pessoas estão presas apenas devido à sua fé religiosa, que não é reconhecida oficialmente pelo Irão.

Apesar de esta sentença ser passível de recurso, Fahandezh foi peremptória: "Estão inocentes! Não cometeram qualquer crime pois a única acusação contra eles é serem membros da comunidade Bahá'í." E acrescentou que as penas de prisão demonstram que "os direitos humanos não têm qualquer valor para as autoridades iranianas".

Fahandezh lembrou que os Bahá’ís iranianos enfrentam rotineiramente perseguições e que há actualmente mais de 80 Bahá'ís presos naquele país. Saliente-se ainda o facto da situação desta minoria religiosa não ter mudado desde que Hassan Rohani assumiu a presidência, apesar dele ter prometido melhorar a situação dos direitos humanos no Irão.

"Os Bahá'ís continuam detidos. Presos. Os jovens Bahá'ís ainda estão privados do seu direito de estudar, e aumentou o número de cemitérios Bahá'ís profanados", disse Fahandezh.

No ano passado, o relator especial das Nações Unidas sobre questões das minorias, Rita Izsak, pediu ao Irão que tomasse medidas concretas para proteger os Bahá'ís e outras minorias religiosas no Irão.

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FONTE: Iran Sentences 24 Baha’is To As Many As 11 Years in Jail (RFE)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

BBC: O Homem por detrás da mais famosa Torre do Irão

Por Rozita Riazati.


Durante 45 anos o mais famoso monumento moderno iraniano - a Torre Azzadi ("Liberdade"), em Teerão - tem sido o cenário das principais notícias que saem do país.

Na praça, que tem servido para celebrações, aniversários, paradas militares e ponto de encontro de manifestações de massas, a torre (com 50 metros de altura) testemunhou alguns dos mais importantes acontecimentos políticos do Irão.

O edifício foi construído em 1971 para representar um símbolo da modernidade e projectar o caminho futuro do Irão.

Mesmo quando o projecto terminou, o arquitecto Hossein Amanat não esperava que “se tornasse um ícone, tão popular entre o povo do Irão”.

Originalmente designado "Memorial do Rei", ou Shahyad, estava planeado para assinalar os 2500 anos do Império Persa, celebrando a riqueza da história e cultura persa.

Hossein Amanat era uma estrela nascente no palco da arquitectura iraniana, quando, em 1966, ganhou o concurso nacional para desenhar o monumento.

O Arquitecto Hossein Amanat vive actualmente em Vancouver, no Canadá
Localizada na zona oeste de Teerão, na estrada que faz a ligação ao antigo aeroporto internacional, o monumento é feito de mármore branco e situa-se numa praça onde há jardins, fontes, um museu e um centro de exposições.

Em meados dos anos 1960, o Irão já era um grande exportador de petróleo, e isso levou o Xá Mohammad Reza Pahlavi a empreender um ambicioso programa de modernização e industrialização.

Durante esse período, a arte moderna no Irão estava a florescer. Era uma espécie de “mini-renascença”, afirma Amanat.

Artistas, poetas e músicos tentavam criar os seus próprios estilos originais, distintivos mas também recebendo inspiração do Ocidente. E no entanto também tinham os seus olhos em elementos tradicionais da cultura persa.

O sr. Amanat afirma que o estilo do Shahyad era também uma manifestação deste período: moderno mas muito persa, com aspectos de arquitectura pré e pós-islâmica.

A Torre foi inaugurada em 1971
A Torre Azzadi levou 30 meses a ser construída; foi inaugurada no Outono de 1971 e aberta ao público em 14 de Janeiro de 1972.

Nessa ocasião, o cilindro de Ciro, considerado por muitos historiadores como a primeira declaração de direitos humanos, foi emprestada pelo Museu Britânico para exibição no museu da Torre.

Símbolo do Irão

Durante a revolução de 1979, a praça ao redor da Torre tornou-se ponto de encontro de manifestantes; e essa atracção pelos que afirmam publicamente a sua dissidência continua até hoje.

Mais recentemente, as enormes manifestações que se seguiram às eleições presidenciais de 2009 chamaram milhares de pessoas à Torre Azzadi, onde exigiram uma recontagem dos votos.

O Sr. Amanat afirma que, de todos os acontecimentos que a Torre testemunhou, este foi “memorável”.

Para muito iranianos que vivem fora do Irão, este surpreendente rumo dos acontecimentos aparenta mostrar um lado diferente da nação.

Para o Sr. Amanat, as cenas eram simultaneamente pessoais e tocantes; afirma que o edifício era como "o abraço de um pai, que abraçava todas estas pessoas à sua frente".

Manifestantes junto à Torre Azadi,
durante a Revolução de 1979
O seu ímpeto histórico, acredita ele, está na evolução da Torre como “símbolo do Irão”, um ícone estético da capital que é intensamente iraniano e islâmico ao mesmo tempo.

Muito iranianos que deixaram o Irão durante ou após a revolução, saíram do país devido a uma grande diversidade de motivos: pessoais, políticos, religiosos ou devido a ligações com o antigo regime.

O Sr. Amanat também abandonou o Irão após a revolução e nunca mais voltou.

Apesar da Torre Azzadi ter sofrido estragos ao longo do tempo, o Sr. Amanat afirma que nunca foi abordado pessoalmente, nem nunca lhe foi pedida ajuda ou conselhos, sobre a sua manutenção.

Actualmente vive em Vancouver, no Canadá, onde criou uma bem-sucedida empresa de arquitectura e tem desenhado edifícios para todo o mundo.

Membro da Fé Bahá’í, a maior minoria religiosa do Irão, o Sr Amanat também foi o responsável pelo desenho do centro administrativo mundial da [Fé] Bahá'í, em Haifa, Israel.

Manifestantes junto à Torre Azzadi,
durante os protestos de 2009
Desde a revolução de 1979, os membros da comunidade Bahá’í no Irão têm sido privados de muitos dos seus direitos civis e centenas têm sido presos e até mesmo executados devido às suas crenças.

Muitos iranianos que vivem no Ocidente, incluindo os Bahá’ís, que desejam regressar e visitar a sua pátria têm medo de fazê-lo.

Sinto muitas saudades do Irão, o meu país, mas neste momento sinto que não quer lá ir”, afirma o Sr. Amanat.

Sente que a arquitectura do Irão é “única” e lamenta não ver mais do seu país quando ele tinha pouco mais de 30 anos.

Compensa isso com um livro especial que preenche com os seus próprios desenhos de importantes edifícios históricos iranianos e locais que visitou durante a sua infância.

Sonho sobre isso… na minha imaginação viajo muitas vezes [até lá]

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TEXTO ORIGINAL (em inglês): The man behind Iran's most famous tower (BBC)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Mais um gesto corajoso do Ayatollah Tehrani

No Irão, o Ayatollah Abdolhamid Masumi Tehrani, um clérigo muçulmano dissidente, manifestou em diversas ocasiões a sua solidariedade para com a comunidade Bahá’í do Irão. Em 2013, este clérigo xiita criticou publicamente a violação dos direitos civis dos Bahá’ís; em Abril do ano passado criou e ofereceu aos Bahá’ís de todo o mundo uma iluminura com uma frase das Escrituras Bahá’ís.

Recentemente, num artigo publicado no seu website, dedicou uma nova peça de caligrafia - com outro excerto das Escrituras de Bahá'u'lláh - aos Bahá'ís que foram presos com base em acusações infundadas no passado mês de Novembro. O texto escolhido é um excerto do livro "As Palavras Ocultas" e é uma homenagem à resposta destemida da comunidade Bahá'í iraniana face à perseguição contínua e sistemática de que é alvo.

Familiares de alguns dos Bahá'ís detidos em Novembro exibem a peça de caligrafia oferecida pelo Ayatollah Tehrani
Esse artigo manifesta a esperança de que seu acto "possa elevar a consciência dos meus compatriotas a pensar em aumentar o seu respeito pela dignidade humana e não focar sua atenção nas diferentes etnias, línguas e religiões". Neste texto, os iranianos também são desafiados a examinar o abismo entre os valores defendidos pela sua religião e os actos de opressão perpetrados em seu nome.

O Ayatollah Tehrani publicou ainda um comunicado na sua página do Facebook (disponível aqui em Inglês) onde convida "as pessoas progressistas do Irão a evoluir no tema dos direitos civis para todos os iranianos, independentemente da religião, género, raça e etnia. "

"A identidade nacional - e não as diferenças religiosas - deve ser considerada como o elemento unificador de todos os cidadãos deste país. Aumentar as diferenças em vez de acentuar as semelhanças apenas provoca opressão e corrupção", acrescenta o comunicado.

O protesto do Ayatollah Tehrani surge ao mesmo tempo que um número crescente de intelectuais e artistas iranianos, dentro e fora do Irão, têm vindo a defender publicamente uma cultura de justiça e de coexistência, falando em nome dos Bahá'ís e de outros grupos reprimidos no Irão.

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FONTE: In another brave gesture, senior cleric calls for justice (BWNS)

sábado, 21 de novembro de 2015

ONU condena o Irão por violação de direitos humanos

Edifício da ONU, em Nova Iorque
Mais uma vez, as Nações Unidas expressaram "séria preocupação" ontem sobre as contínuas violações dos direitos humanos no Irão, afirmando que uma maior cooperação entre a comunidade internacional em algumas áreas, não significa que o Irão não seja obrigado a cumprir os padrões internacionais.

Esta resolução foi apresentada pelo Canadá e co-patrocinada por 42 países; foi aprovada pela Terceira Comissão da Assembleia Geral, que acompanha questões de direitos humanos em todo o mundo. O resultado da votação foi de 76-35, com 68 abstenções.

"Em Setembro, o presidente Hassan Rouhani afirmou na ONU que este ano se tinha aberto um «novo capítulo» para seu país, mas a aprovação desta resolução mostra que a comunidade internacional ainda espera acções sobre os direitos humanos, e não apenas palavras", afirmou Bani Dugal, a representante principal da Comunidade Internacional Bahá'í nas Nações Unidas, após a votação na ONU.

Dugal lembrou que foram detidos pelo menos 15 Bahá'ís em Teerão e noutros lugares na semana passada, e pelo menos cinco lojas pertencentes a Bahá'ís foram seladas numa persistente campanha governamental de repressão económica contra os Bahá'ís.

"A triste realidade é que as violações de direitos humanos no Irão não diminuíram desde que o presidente Rouhani chegou ao poder há dois anos, tal como se demonstra pelas detenções e encerramentos de lojas - e também pelo vigor e detalhe da presente resolução", acrescentou Dugal .

"A resolução cita um vasto leque de abusos, como o não cumprimento de normas legais e jurídicas, a discriminação generalizada contra as mulheres e a perseguição das minorias, incluindo os membros da Fé Bahá'í", disse Dugal. Entre outras coisas, a resolução expressa "séria preocupação" sobre "fortes limitações e restrições em curso no direito à liberdade de pensamento, consciência, religião ou crença".

Quadro com o resultado da votação (clique para ampliar)
Também apela ao Governo para libertar os sete líderes Bahá'ís presos, e a "eliminar, na lei e na prática, todas as formas de discriminação, incluindo o encerramento de empresas, e de outras violações dos direitos humanos contra pessoas pertencentes a minorias religiosa reconhecidos e não reconhecidos".

"A resolução é bastante específica ao detalhar todas as violações dos direitos humanos que ocorrem actualmente no Irão, e também define claramente como o Irão poderia cumprir as suas obrigações segundo o direito internacional", disse Dugal.

"Por exemplo, [a resolução] exorta o Irão a cooperar plenamente com o Relator Especial sobre Direitos Humanos no Irão, aceitando, por exemplo, o seu pedido repetido para visitar o país, e pede ao Irão que siga as recomendações feitas na Revisão Periódica Universal do ano passado", disse Dugal.

Antes desta resolução já outros relatórios sobre os direitos humanos no Irão por Ahmed Shaheed, o Relator Especial sobre Direitos Humanos no Irão e do Secretário-geral da ONU Ban Ki-moon, expressaram preocupação com as persistentes violações do Irão do direito internacional dos direitos humanos.

Para mais informações: https://www.bic.org

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FONTE: UN condemns Iran for continuing human rights violations (BWNS)

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Irão: Yaran com penas comutadas para 10 anos de prisão

As penas de prisão dos sete dirigentes Bahá’ís presos no Irão (vulgarmente conhecidos como “Yaran”) foram comutadas de 20 para 10 anos de prisão. Recorde-se que estes sete dirigentes Bahá’ís já cumpriram sete anos de prisão.

"Yaran", os sete dirigentes Bahá'ís presos no Irão
Este grupo de sete dirigentes informais da comunidade Bahá’í no Irão foi detido entre Março e Maio de 2008. Após vinte meses de detenção sem acusação, o seu julgamento iniciou-se em Janeiro de 2010. Durante o julgamento tiveram direito apenas a uma hora de contacto com os seus advogados, tendo sido sujeitos a maus-tratos e diversas formas de pressão psicológica. Foram acusados de espionagem, propaganda contra o regime e criação de uma administração ilegal; estas acusações foram refutadas pelos sete. O julgamento terminou em Junho de 2010 após seis breves sessões que não seguiram a procedimento legal definido por lei.

A pena inicial de 20 anos de prisão foi recebida com indignação em todo o mundo. As penas ainda foram reduzidas para 10 anos de prisão, mas posteriormente essa decisão foi revogada. Apesar de repetidos pedidos, nem os sete prisioneiros, nem os seus advogados receberam cópias do veredicto inicial nem da decisão sobre o recurso posteriormente apresentado. Irão: Yaran com penas comutadas para 10 anos de prisão

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FONTE: Prison sentences of seven “Yaran” reduced to 10 years (Sen's daily)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Autoridades iranianas lançam novo raide contra Bahá’ís

Ontem (15 de Novembro), durante a manhã, vários agentes do Ministério da Informação do Irão prenderam 20 Bahá’ís em Teerão, Isfahan e Mashad. Durante esta operação também foram encerrados, na província de Mazandaran (norte do Irão), vários estabelecimentos comerciais pertencentes a Bahá’ís.


Segundo o site IranWire, entre os detidos encontra-se Nakisa Hajipour, que foi detida na estação de caminho-de-ferro de Mashad, depois dos agentes do Ministério terem ido a sua casa com um mandado de captura e lhes ter sido dito que ela ia viajar. Em Mashad também foram detidos Nika Pakzadan, Faraneh Daneshgari, Sanaz Eshaghi e Naghmeh Zabihian. Estas detenções ocorreram nas respectivas residências.

Em Isfahan, os agentes prenderam Yeganeh Agahi, Adib Janamian, Keyvan Nikaeen, Parvin Nikaeen, Vahid Karami, Arshia Rouhani e Zarin Agha-Babaee. Também foram detidos Sahab Rouhani and Matin Janamian, mas foram libertados após algumas horas. Em Teerão foram detidos Helia Moshtagh, Negar Bagheri-Tari, Sahba Farnoush, Nava Monjazeb, Yavar Haghighat e Navid Aghdasi

Navid Aghdasi é primo de Attollah Rezvani, assassinado há dois anos na cidade costeira de Bandar Abbas. Navid Aghdasi acompanhou activamente o caso do seu primo e falou à comunicação social sobre o assunto. Consequentemente, foi ameaçado várias vezes e nos meses recentes as paredes da sua casa foram vandalizadas com inscrições ameaçadoras.

Por enquanto nada se sabe sobre as acusações contra estes Bahá’ís. As suas famílias não foram informadas dos seus paradeiros. Segundo algumas fontes, é provável que tenham sido enviados para os centros de detenção do Ministério da Informação nas respectivas cidades.

No mesmo dia destas detenções, o Gabinete de Espaços Públicos, na província de Mazandaran encerrou e selou 23 estabelecimentos comerciais pertencentes a Bahá’ís, nas cidades de Sari, Ghaem Shahr, Tonekabon e Babolsar.

Esta acção segue-se ao encerramento dos estabelecimentos no dia 14 de Novembro, um feriado religioso para os Bahá’ís. No passado, as autoridades protestaram por os estabelecimentos estarem fechados nos feriados religiosos Baha’is, ameaçando com o seu encerramento caso não cumprissem o mesmo horário de funcionamento que outros estabelecimentos não-bahá’ís.

Dois dias antes do encerramento dos estabelecimentos em Mazandaran, as autoridades já tinham encerrado todos os estabelecimentos Bahá’ís na cidade de Rafsanjani, no sudeste da província de Kerman. Os estabelecimentos encerados são lojas que vendem cosméticos, artigos de saúde, instrumentos musicais, óculos, roupas, pneus e brinquedos; outros estabelecimentos ofereciam serviços de manutenção de frigoríficos, fotografia e fotocópias.

Lojas e escritórios não receberam qualquer aviso prévio sobre o encerramento. Em alguns casos só tiveram conhecimento da operação algumas horas depois. A cidade de Babolsar foi a excepção; ali os estabelecimentos Bahá’ís continuam abertos. A natureza simultânea das operações e dos encerramentos sugerem que se tratou de uma operação coordenada e planeada pelo Ministério da Informação do presidente Rouhani.

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FONTE: Authorities Launch New Crackdown on Bahá’ís (IranWire)


domingo, 18 de outubro de 2015

Parecia a Última Ceia


A exibição do programa Inside Iran’s Revolutionary Courts foi apenas mais uma demonstração da face tirânica e criminosa da República Islâmica do Irão. Essa face não foi expressão de um momento de paixões revolucionárias; pelo contrário, tornou-se uma das suas características mais marcantes e repetidamente afirmada desde 1979.

Surpreendeu pelo facto de exibir pela primeira vez um filme antigo com julgamento da AEN dos Bahá’ís do Irão. Ali se vêem 7 dos 8 membros detidos perante um tribunal Revolucionário. Por vezes o filme foca cada um dos sete; outras vezes mostra todo o grupo.

O programa recolheu também o testemunho de familiares destes dirigentes Bahá’ís executados. Viram o filme pela primeira vez e não conseguem conter as emoções. A carga dramática da imagem dos sete a serem julgados, evoca memórias e diversos comentários. Um dos familiares desabafa: “Aquela imagem dos sete durante o julgamento faz lembrar o quadro da Última Ceia.”

E é verdade. Ao longo do julgamento torna-se cada vez mais claro que o seu destino está traçado. Mas eles enfrentam serenamente as questões e opiniões de um juiz, cuja palavra era a lei. Aquela “Última Ceia” era o teste derradeiro à fé de cada um.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A Assembleia Espiritual que desapareceu

Por Sepehr Atefi (BBC-Persa).

No dia 11 de Novembro de 1979, o Dr. Alimorad Davoodi, secretário da Assembleia Espiritual Nacional (AEN) dos Bahá’ís do Irão, e professor de Filosofia da Universidade de Teerão, foi fazer o habitual passeio no parque Laleh de Teerão e nunca regressou.

Vários telefonemas ameaçadores recebidos nos dias anteriores e investigações dos seus amigos no próprio dia indiciam que se tratou de um rapto.

O Dr. Alimorad Davoodi, secretário da AEN dos Bahá’ís do Irão, e professor de Filosofia da Universidade de Teerão,
 raptado no dia  11 de Novembro de 1979 em Teerão.


A sua filha, Marjan Davoodi, que na época tinha 18 anos, recorda: “Fomos ao parque com alguns dos seus amigos à procura dele. O guarda vigilante do parque disse que apareceu um jipe e que ele foi forçado a entrar no carro. Assumimos que o jipe pertencesse ao governo, pois a maioria dos carros não pode entrar no parque. Quando os amigos regressaram ao parque no final desse dia, o guarda negou tudo”.

Alimorad Davoodi não foi o primeiro Bahá’í a ser raptado. Os raptos tinham começado vários meses antes, com o sequestro de Mohammad Movahed. Este tinha nascido numa família de clérigos de Shiraz e seguiu estudos islâmicos durante vários anos, durante os quais tinha conhecido e aceite a Fé Bahá’í. Ter-se tornado Bahá’í foi algo tão inacreditável para a sua família e amigos que ele foi internado numa instituição psiquiátrica, e posteriormente transferido para Teerão. Apesar das numerosas reuniões, demoradas discussões e até ameaças, ele nunca renunciou ou escondeu as suas crenças. Anos mais tarde, após a Revolução, a pressão aumentou. Finalmente após várias sessões de interrogatório e convocações pelo Comité Revolucionário, foi raptado numa rua, em Maio de 1979. O rapto seguinte que criou grande ansiedade na Comunidade Bahá’í teve lugar em Dezembro desse ano. Ruhi Roshani, secretário da Assembleia Espiritual Local (AEL) de Teerão, que tinha sido alvo de ameaças por parte de fanáticos religiosos após a publicação do seu livro “Khatamiyyat” (a crença de que o Profeta Maomé foi o último mensageiro de Deus) também desapareceu. O seu destino, tal como o de Davoodi e Movahed, permanece desconhecido.

Rapto dos Membros da AEN do Irão e Execução dos Membros da segunda AEN

Enquanto crescia a pressão sobre as instituições Bahá’ís, dois Bahá’ís de Shiraz foram acusados de “espiar para Israel” e executados em Abril de 1980. As instituições Bahá’ís (ou “Assembleias”) encarregam-se dos assuntos administrativos da Comunidade Bahá’í, e são constituídas por nove membros eleitos pela Comunidade Bahá’í em cada cidade ou aldeia. A negação de qualquer envolvimento pelas autoridades governamentais amplificava os rumores sobre o destino das pessoas desaparecidas. Marjan Davoodi afirma: “Apelámos a praticamente todos os organismos responsáveis, mas todos negaram envolvimento. Durante muito tempo tivemos esperança de encontrá-lo, mas suspeitávamos que, tal como outros durante esse período, ele tivesse sido torturado e forçado a negar a sua fé, ou a confessar-se culpado de uma acusação falsa. Estas especulações eram extremamente perturbadoras para nós”.

Em circunstâncias semelhantes, vários homens invadiram a casa do Hossein Naji, membro da AEN do Irão, para prendê-lo; não o tendo encontrado em casa, detiveram a sua esposa, Vajdieh Rezvani. Esta recorda: “Vieram à nossa casa quatro vezes; de cada vez eram sete ou oito homens armados. Na primeira vez disseram que procuravam armas; mas nas ocasiões seguintes queriam ver o Dr. Naji, e uma vez levaram-no para ser interrogado”.

Em 21 de Agosto de 1980, homens armados prenderam todos os membros da AEN (na foto), assim como dois dos seus colegas.
Essas 11 pessoas raptadas nunca mais foram vistas por familiares e amigos.

Hossein Naji escreveu ao Ayatollah Khomeini, ao Presidente Abul-Hassan Bani-Sadr, ao Ministro da Saúde Hadi Manafi, e ao Procurador-Geral do Tribunal Revolucionário Ayatollah Ali Qodusi, descrevendo as rusgas em sua casa por homens armados e a detenção da sua esposa, e solicitou uma investigação. Mas os seus apelos enfrentaram uma total ausência de resposta pelas autoridades, e nenhum organismo assumiu a responsabilidade pela detenção da sua esposa.

Finalmente em 21 de Agosto de 1980, homens armados prenderam todos os membros da AEN, assim como dois dos seus colegas, quando realizavam uma reunião rotineira. As 11 pessoas raptadas nunca mais foram vistas por familiares e amigos.

A investigação aos desaparecimentos começou imediatamente. As famílias reuniram-se com o Procurador-Geral do Tribunal Revolucionário, o Chefe do Sistema Judicial Iraniano e o Presidente do Parlamento.

Vajdieh Rezvani recorda: “Fomos a todos os locais que podíamos pensar… esta prisão, aquela prisão; fomos ver o Ayatollah Beheshti, o filho do Ayatollah Montazeri, o Ayatollah Behjat, o Ayatollah Gilani… todos negaram saber qualquer coisa, mas descobrimos mais tarde que eles os tinham executado na primeira noite... apesar de 35 anos depois ainda não sabemos o que aconteceu verdadeiramente”.

Numa reunião com o Presidente do Parlamento, Akbar Hashemi Rafsanjani, este prometeu investigar os desaparecimentos. Alguns dias mais tarde, ele confirmou que tinha sido emitida uma ordem de detenção para os onze Bahá'ís, mas que eles deviam permanecer incomunicáveis até que os interrogatórios estivessem concluídos. Menos de um mês depois, Rafsanjani negou a sua primeira declaração e culpou um grupo independente pelos desaparecimentos. Os membros da Comunidade Bahá'í do Irão também suspeitavam de outros grupos - incluindo a Sociedade Hojjatieh [1] - estarem envolvidos nos desaparecimentos.

Em Dezembro de 1981, durante uma das raras ocasiões em que oito dos nove membros da AEN seguinte estavam reunidos, todos foram detidos. Farideh Samimi recorda: “…não nos mostraram um mandado de captura. O Sr. Amin Amin, que era advogado, perguntou se eles tinham um mandado para os prender; não tinham um mandado - a sua palavra era a lei”.

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Mina Yazdani, historiadora, comenta a extensão do envolvimento do governo nos raptos[2]: 
No caso do Dr. Davoodi e de Mohammad Movahed, não há dúvida que algumas organizações governamentais estiveram envolvidas. O facto de todos os apelos por justiça terem sido ignorados, e o facto de algum tempo mais tarde se ter sabido que um poderoso e influente membro do clero tinha decretado a execução de Mohammad Movahed, não deixa qualquer dúvida que alguns ramos do governos estiveram envolvidos”.

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Após o rapto da primeira AEN formada após a Revolução, foi formada uma segunda AEN. Esta tratou dos assuntos da comunidade Bahá’í durante um ano com condições extremamente difíceis. A pressão e execução de membros das AEL's de Yazd, Hamadan, Tererão e Tabriz, e a execução de dois Bahá’ís de Mashad por um pelotão de fuzilamento, foram alguns dos tormentos sentidos pela Comunidade Bahá’í entre 1980 e 1981.

Mais tarde, em 27 de Dezembro de 1981, os oito membros da AEN foram mortos por um pelotão de fuzilamento. Inicialmente, a sua execução foi negada, mas acabou por ser posteriormente confirmada pelo Chefe do Sistema Judicial Ayatollah Ardebili, que anunciou que eles tinham sido executados devido a “espionagem para potências estrangeiras”. Assim, a prisão e execução dos Bahá’ís tornaram-se oficiais.

Dissolução das Instituições Bahá’ís e execução de vários membros da terceira AEN

Em 29 de Agosto de 1983, Hassan Mousavi Tabrizi, Procurador-Geral do Tribunal Revolucionário afirmou:
 “As instituições Bahá’ís são consideradas... como renegadas e conspiradoras, e qualquer colaboração com estas está proibida”.

Em 29 de Agosto de 1983, Hassan Mousavi Tabrizi, Procurador-Geral do Tribunal Revolucionário afirmou numa entrevista: “Os Bahá'ís fazem espionagem; são arruaceiros... Hoje, proclamo que devido às suas actividades imorais e subversivas, as instituições Bahá’ís são consideradas pelo Procurador-Geral do Tribunal Revolucionário da República Islâmica como renegadas e conspiradoras, e qualquer colaboração com estas está proibida”.

Na sua última mensagem aos amigos Bahá’ís do Irão, a terceira AEN anunciou a suspensão de todas as actividades Bahá’ís, de acordo com o princípio Bahá'í de obediência às leis do governo. Simultaneamente, enviou uma carta aberta a dois mil dos mais influentes e proeminentes membros do governo, pedindo o fim das perseguições, detenções, torturas e execuções de Bahá’ís. Nessa carta questionava: “Como pode um homem com 85 anos de idade de Yazd, que nunca saiu da sua aldeia, ser um espião? Como se pode acusar de espionagem estudantes, donas de casa, meninas inocentes e homens e mulheres idosas? Que documento e informações secretas tinham? Que aparelhos de espionagem possuíam?

Apesar disso, a perseguição aos Bahá’ís e a hostilização das Assembleias Espirituais locais e nacional não parou. Nos meses seguintes, sete membros da terceira AEN formada após a Revolução - Jahangir Hedayati, Shapour Markazi, Farhad Asdaqi, Farid Behmardi, Ardeshir Akhtari, e Amir Hossein Naderi - foram presos e executados.

Os Bahá’ís e a Revolução Islâmica

Apesar dos Bahá'ís também terem sido alvo de discriminação durante o regime de Pahlavi, com o advento da Revolução Islâmica a discriminação intensificou-se e institucionalizou-se. A Constituição da República Islâmica distingue claramente os seguidores do Islão Xiita de outras minorias reconhecidas. Ao excluir os Bahá'ís das “minoria não-reconhecida” criou o pretexto para pressioná-los. O Ayatollah Khomeini, que nunca escondeu a sua hostilidade aos Bahá’ís, afirmou numa entrevista em Dezembro de 1978 com o professor James Cockroft da Rutgers University, em resposta a uma questão sobre a liberdade religiosa e política dos Bahá’ís sob o novo regime: “A liberdade não será concedida a pessoas que são perigosas para o país”.

Assim, não foi surpreendente que desde os primeiros anos da Revolução os Bahá’ís, perseguidos pelos inimigos do passado, também o fossem pelo poder dominante.

Mas qual foi a reacção dos Bahá’ís à Revolução? Mina Yazdani, professora de história que é Bahá’í, afirma: “Considerando as circunstâncias e eventos desse período, por exemplo, os incêndios de residências Bahá’ís em Shiraz dois meses antes da Revolução, as premonições dos perigos que se adivinhavam não tiveram grande impacto. Muitos de nós sentíamos que haveria dificuldades e sofrimento no futuro”.

As confiscações das suas propriedades, as expulsões das escolas e universidades, os despedimentos nos empregos, a proibição de transacções legais etc - foram alguns dos efeitos da Revolução para os Bahá’ís.

Três décadas após a Revolução, os direitos humanos dos Bahá'ís não melhoraram. Por exemplo, sete membros da comunidade que administram os assuntos da comunidade (na ausência de uma instituição eleita) estão actualmente a cumprir 20 anos de prisão cada um.

(...)

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FONTE: The Spiritual Assembly that Vanished (Iran Press Watch, via BBC-Persian)

REFERÊNCIAS:
[1] - Para mais informações sobre a Sociedade Hojjatieh, ver este link na Wikipedia
[2] - O artigo completo da Drª Yazdani: The Islamic Revolution’s Internal Other: The Case of Ayatollah Khomeini and the Baha’is of Iran

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Presidente Rouhani na ONU evita tema dos Direitos Humanos

A Comunidade Internacional Bahá'í lamentou o facto do presidente iraniano, Hassan Rohani, ter evitado abordar o tema dos direitos humanos no seu país durante o seu discurso de ontem (29/Setembro) nas Nações Unidas.

"Apesar de notarmos a promessa de convivência e diálogo com as outras nações que marcaram o discurso do presidente Rouhani, estamos profundamente desapontados por ele não referir qualquer iniciativa para melhorar a situação dos direitos humanos dos cidadãos iranianos", afirmou Bani Dugal, a principal representante da Comunidade Internacional Bahá'í junto das Nações Unidas.

A Sra. Dugal disse o presidente Rouhani não conseguiu acabar com a discriminação religiosa, apesar de ter prometido fazê-lo; esse facto foi referido na semana passada pelo Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon no seu relatório anual à Assembleia Geral sobre os direitos humanos no Irão.

É de salientar que nesse relatório o Secretário-Geral expressou preocupação com "relatos de discriminação persistente" contra as minorias étnicas e religiosas, acrescentando que o próprio presidente Rouhani tinha assumido o compromisso de "assegurar a igualdade, defender a liberdade de crença e de religião, oferecer protecção a todos os religiosos grupos e alterar a legislação que discrimina grupos minoritários".

"O presidente Rouhani já teve dois anos inteiros para cumprir as suas promessas sobre o fim da discriminação religiosa no Irão. Infelizmente, apesar de toda a sua conversa, poucos progressos foram feitos", disse Dugal. "No caso da comunidade Bahá'í iraniana, o governo tem intensificou a sua campanha de propaganda anti-Bahá'í nos meios de comunicação. A prisão arbitrária e a detenção dos Bahá'ís continuam; os jovens Bahá'ís ainda são expulsos ou impedidos ingressar de ensino superior."

A Sra. Dugal afirmou que foram publicados 7300 itens de incitamento ao ódio e propaganda anti-Baha’i nos meios de comunicação controlados pelo governo desde que o o presidente Rouhani assumiu o cargo em Agosto de 2013. O governo também continuou a repressão contra as empresas pertencentes a Bahá'ís, declarou a Sra. Dugal, acrescentando que há registo de mais de 200 ocorrências distintas de opressão económica contra os Bahá'ís sob a administração do presidente Rouhani.

"Com 74 Bahá'ís actualmente nas prisões iranianas, unicamente devido às suas crenças religiosas, é evidente que as promessas de mudança do presidente Rouhani não têm valor", disse a Sra. Dugal. "Num momento em que os líderes mundiais estão reunidos com o presidente Rouhani, o relatório do Secretário-Geral lembra-nos de forma sóbria que a situação dos direitos humanos no Irão tem necessariamente de permanecer na agenda internacional", acrescentou.

"Quanto tempo mais devem os Bahá'ís iranianos enfrentam estas perseguições? Quanto tempo mais devem esperar até poderem entrar na universidade, ter permissão para sepultar os seus mortos sem problemas, ou viver sem medo da prisão?" questionou a Sra. Dugal, que lembrou ainda um artigo recente publicado na revista americana Newsweek, onde o ex-jornalista Maziar Bahari escreveu que “a melhor maneira de testar a vontade do governo iraniano sobre uma nova etapa na sua relação com o resto do mundo é questioná-lo sobre a forma como tratam os 300.000 Baha’is iranianos.

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FONTE: Iranian President Rouhani's speech to UN falls short on human rights (BWNS)

sábado, 12 de setembro de 2015

Candidatura Incompleta: o pretexto para impedir os Bahá’ís de entrar na Universidade

Ava Amini Yazdeli, uma estudante Baha'i iraniana, realizou o exame nacional de admissão à universidade. Quando saíram os resultados, foi surpreendida com o aviso “Candidatura Incompleta”, o que lhe impede de entrar na universidade e prosseguir os seus estudos.

Segundo a agência de notícias iraniana HRANA (Human Rights Activists News Agency) este é mais um caso de estudantes Bahá’ís discriminados e impedidos de ingressar nas universidades iranianas.

Uma fonte que não se quis identificar declarou à agência HRANA: “Desde 2006 o aviso «Candidatura Incompleta» é usado como pretexto para impedir os Bahá’ís de entrar no Ensino Superior. E isto acontece apesar de Hasan Rouhani (actual presidente iraniano) ter feito promessas sobre a privação da educação. Depois de realizarem os exames nacionais de admissão à universidade, muitos Bahá’ís são confrontados com o aviso «Candidatura Incompleta» e são impedidos de prosseguir a sua educação”.

O website com o resultado das candidaturas às universidades iranianas
não adianta mais justificações para rejeitar os Bahá'ís.

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FONTE: Once Again Deprivation from Education with the Excuse of Incomplete Application (Iran Press Watch)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Construiram o Centro Cultural Khavaran sobre as ruínas de um Cemitério Bahá’í

Por Shadi Sadri. (originalmente publicado em persa no Facebook; traduzido para inglês por IranPressWatch)

Centro Cultural Khavaran, Teerão
Decorria o ano escolar de 1995-1996. Estava no último ano do curso de Direito e preparava-me para apresentar o meu trabalho final. Tinha um emprego no jornal Aftabgardan, uma publicação dependente do jornal Hamshahri. Passei a trabalhar em part-time e fiquei responsável pela página “Setareha” (Estrelas). O meu trabalho consistia em escolher artigos para um público juvenil, editando-os e publicando-os. Decidiu-se organizar uma Feira do Livro para Crianças e Jovens numa 6ª feira. Anunciámos o evento dizendo às crianças que podiam trazer livros usados para vender e também podiam comprar livros.

Nessa época vivia-se o momento alto dos Projectos de Desenvolvimento Cultural de Karbaschi, na sede do município de Teerão. O Centro Cultural de Khavaran tinha sido recentemente inaugurado.

Foi decidido que a “Feira do Livro” teria lugar no Centro. No dia anterior, fui com os meus colegas organizar o local, colocar preços nos livros e garantir que apenas havia livros infantis e juvenis em exposição. A caminho do Centro todos falavam como Karbaschi tinha convertido uma zona deserta e um matadouro num Centro Cultural elegante e moderno. Pouco depois cheguei ao local e fiquei surpreendida com a beleza do Centro, com as suas salas e auditórios, naqueles anos tristes e cinzentos.

As pessoas tinham trazido tantas caixas de livros que ficámos durante toda a noite a colocar preços, a elaborar listas de livros e a remover livros que não eram para crianças.

Vinte anos mais tarde estou em 2015 e a quilómetros de distância daqueles dias de trabalho na Secção Infantil e Juvenil do Centro Cultural. Recentemente iniciei no Justice for Iran um projecto de investigação sobre Bahá'ís que desapareceram e foram executados. Numa conversa via Skype com um Baha'i bem informado, ele explicou-me a história do actual cemitério Baha’i de Teerão e afirmou: “Quando o antigo cemitério foi arrasado e destruído, fizeram o novo Centro Cultural nesse local”. Interrompi-o e corrigi-o. Disse-lhe que o Centro Cultural Khavaran tinha sido construído numa zona deserta. A resposta foi clara: “Não, o Centro Cultural foi construído sobre as ruínas do cemitério Bahá’í”. Calei-me. Vieram-me as memórias daquela noite de trabalho no Centro Cultural em que classifiquei e coloquei preços nos livros. Ele continuou: “A minha mãe estava lá sepultada”.

Continuámos a conversa e disse-lhe: “Sempre nos foi dito que Karbaschi converteu um matadouro e um deserto num Centro Cultural.” Ele ficou em silêncio. Ambos recordávamos aqueles dias do passado. Acrescentei: “Fizemos lá uma Feira do Livro”. Ele fez um sorriso amargo e disse: “Desenvolveram a vossa cultura em cima de campas profanadas dos Bahá’ís...” e depois ficámos calados. Passado um momento continuámos a falar sobre o principal tema da nossa conversa.

Nesse dia, e muitos dias depois, pensei naquela frase terrível e na história que tinha sido censurada, sempre distorcida aqui e ali. O passado parecia ter linhas paralelas que nunca se encontravam.

O sentimento de vergonha por não conhecer a história do terreno daquele edifício moderno em que trabalhei tão orgulhosamente nunca me abandonou. E nunca me abandonará.

Será possível que estas linhas paralelas alguma vez se encontrem?

A construção do Centro Cultural Khavaran nas ruínas do cemitério Bahá'í juntou estas linhas paralelas.

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FONTE: Building Khavaran Cultural Centre on Ruins of Baha’i Cemetery! (IranPressWatch)

* O seguinte link mostra o Centro Khavaran. Este edifício ganhou o prémio Agha Khan de Arquitectura em 2007. Este prémio exige que os arquitectos respondam a um questionário detalhado sobre o uso, o custo, os factores ambientais e climáticos, os materiais de construção, o calendário de actividades, o desenho e o significado do projecto.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Carta de uma estudante Baha’i expulsa da Universidade

Dorsa Gholizadeh, estudante de Arquitectura na Universidade Roozbehan em Sari, foi convocada para o Gabinete de Comunicação do Ministério da Informação e posteriormente expulsa durante os exames finais do semestre de Primavera. Dorsa escreveu uma carta para descrever os acontecimentos que levaram a esta violação do seu direito à educação. Essa carta foi publicada no site da agência HRANA (Human Rights Activist News Agency) e traduzido para inglês pelo IranPressWatch.

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"Você sabia que os estudantes Bahá'ís são expulsos! Você sabia que tinha uma possibilidade de ser expulsa! No entanto, você insistiu em continuar a sua educação. Isso significa que você não tinha outro objectivo senão ensinar o Bahaismo". Estas foram as palavras que me dirigiu o interrogador do Gabinete de Comunicação do Ministério da Informação .

Com este tipo de lógica (pensei para mim própria), se algum dia eu quiser abrir uma loja, não vou poder fazê-lo porque eles podem dizer-me: "Você sabia que em Sari há mais de 25 lojas pertencentes a Bahá'ís que foram fechadas e seladas. Você sabia que havia uma possibilidade da sua loja ser fechada e selada porque você é Baha'i. No entanto, você insistiu em abrir um negócio; isso significa que você não tinha outro objectivo senão ensinar o Bahaismo na sua loja."

Com este tipo de mentalidade, serei acusada de ensinar a minha Fé e proibida de exercer qualquer actividade independente. Agora compreendo porque o interrogador me disse: "Você intitula-se cidadã? Você devia agradecer a Deus por nós lhe darmos o direito de estar viva!"

Foi no dia 9 de Junho de 2015. Estava no auge dos exames finais. Tinha acabado de regressar do exame de "Materiais de Construção", quando recebi um telefonema do Ministério da Informação e fui chamada ao Gabinete de Comunicação para responder a algumas perguntas. Tinha exames de "Visão Islâmica" e "Física" marcados para o dia seguinte. Não tinha certeza se deveria concentrar-me em "Física", "Visão Islâmica" ou em ser Baha'i; na verdade, as perguntas que me foram feitas estavam relacionadas com este último. Eu pensei que o dia seguinte poderia ser a última vez que iria fazer os exames na universidade; tentei concentrar-me nos meus próximos exames. No dia seguinte, o telefone de casa tocou quando eu estava a sair para a universidade. A identificação de chamada mostrou o número 1, e isso significava que a chamada era do Ministério da Informação. A minha mãe atendeu o telefone. Eles disseram: "Por que você não trouxe hoje a sua filha? Você quer que ela seja expulsa da escola? "

Fui para ao Gabinete de Comunicação com a minha mãe, confiante de que ia ser expulsa. Duas pessoas entraram na sala e começaram um interrogatório que durou cerca de três horas e meia.

Como mencionei, fui interrogada por ter divulgado as de crenças na universidade, algo que eu nunca fizera no campus - nem me foi apresentada qualquer prova credível em relação a essa acusação. Perguntei: "A quem foi que eu ensinei [a Fé Bahá’í]? E quando, onde e como foi que eu fiz isso?" A resposta a todas estas perguntas foi: "Você não tem direito a fazer perguntas - você está aqui apenas para responder às nossas perguntas". Percebi então que além de não ter direito a receber educação superior, também não tinha o direito de fazer perguntas, nem de compreender as acusações, nem de me defender. É claro que percebi que tenho apenas um direito: responder às perguntas do interrogador! Quando perceberam a minha paixão pelos estudos, apresentaram-me três sugestões. Nesse momento, não tinha esperança de que essas sugestões pudessem fornecer qualquer solução para continuar os meus estudos. No entanto, eu tinha uma ideia na minha mente, a ideia de que nenhum ser humano pode ser impedido de estudar devido às suas crenças. As sugestões foram as seguintes:

  1. Manter minhas crenças e ser impedida de estudar. 
  2. Deixar o Irão. 
  3. Negar as minhas crenças.

O interrogador fez esta última proposta da seguinte forma: "Veja, Sra. Gholizadeh, se você está tão interessada em estudar, podemos levá-la ao Imam. Você recita o versículo: «Dou testemunho que não há outra divindade senão Deus; dou testemunho que Maomé é o mensageiro de Deus». O seu nome será depois publicado nos jornais, e então você poderá viver da forma que desejar e continuar a sua educação. É isso, e nada mais lhe vai acontecer."

Respondi: "Sabe... a crença de uma pessoa está na sua cabeça, na sua mente, no seu coração. Você não lhe pode tirar a sua crença."

Ele disse: "Então, fique com a sua crença e será impedida de estudar."

A única resposta que tive foi: "Eu nunca vou me arrepender de não continuar a minha educação se isso é devido à minha crença."

Universidade Roozbehan, em Sari
Enquanto ia para a universidade para os meus dois últimos exames, estava preocupada com o que estava prestes a acontecer; a minha preocupação poderia ser facilmente vista no meu rosto. O que poderia dizer aos meus colegas quando eles me perguntassem em que estava a pensar? Deveria esconder dos meus amigos tudo o que tinha acontecido? Eu não tinha feito nada de errado; os meus interrogadores consideravam as suas acções legais. Não queria que surgissem mal-entendidos ou ambiguidades com os meus amigos depois de ser expulsa; mas não poderia voltar a vê-los. O que poderia dizer-lhes a não ser que tinha sido contactada pelo Ministério da Informação e podia ser expulsa?

Continuo a recordar várias manifestações de afecto que me foram repetidas no meu último dia por aqueles que se tinham tornado meus amigos ao longo dos últimos meses: "Na vida, é importante ser um bom ser humano. Lamento que pessoas com as minhas crenças te tenham impedido de continuar a estudar."

Apesar dos meus sentimentos agridoces, a minha expulsão ensinou-me uma grande lição. Percebi que um grande grupo de amigos e colegas de turma me amava apesar das minhas crenças diferentes, da mesma forma que eu os amava tal como eles eram. Mesmo que exista um número limitado de pessoas que não reconhecem nossa humanidade comum, que tentam considerar a mim e ao meu sistema de crenças como “não-oficiais”, que não consideram uma cidadã deste país e acreditam que eu deveria agradecer-lhes porque eles permitem-me apenas estar viva, eu sei que eu tenho que agradecer a Deus que me deu vida e me deu a oportunidade de desfrutar de liberdade de preconceitos, e passar a minha vida a contribuir para o desenvolvimento do meu país.

E a imagem que retenho dos seus rostos é como as crianças nos meus desenhos animados de infância cujas lágrimas eram como...

No último dia, eu fui à universidade para tratar dos meus assuntos finais e encerrar a minha conta. Disseram para preencher um formulário, o que fiz porque estava muito perturbada. No entanto eu percebi mais tarde que o formulário declarava que eu tinha decidido abandonar a escola, embora eu nunca tivesse a intenção de abandonar. Os funcionários sugeriram que o preenchimento deste formulário podia ajudar-me a reaver parte da propina que eu tinha pago. No entanto, o que eu estava a perder ao assinar esse formulário - o meu direito à educação - era muito mais valioso para mim do que o dinheiro.

Disse: "Mas eu não quero preencher este formulário". Responderam: "Você tem que preenchê-lo."

Inicialmente, eu fiquei em choque. E foi em stress que peguei nas minhas coisas e fui para casa.

Senti as pernas fracas. E pensava para mim: porque é que a nossa sociedade está feita de maneira que os seres humanos são impedidos de aceder ao conhecimento científico devido às suas crenças? Sentei-me no chão e chorei espontaneamente.

Sabias que legalmente não tens direito a frequentar a universidade?

Ele repetiu esta pergunta várias vezes (eu nunca vi uma lei que estipulasse que os Bahá'ís não têm o direito à educação). Nunca ouvi nada específico sobre os Baha'is não terem o direito a frequentar a universidade, e sabia que legalmente todos os cidadãos iranianos têm o direito ao ensino superior. No entanto, cada vez que invoquei isso, eles faziam-me a mesma pergunta mais enfaticamente.

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FONTE: Letter from an Expelled Baha’i Student (IranPressWatch.org)

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Kamran Rahimian libertado após 4 anos de prisão


Kamran Rahimian, Baha’i e professor do BIHE (Baha'i Institute of Higher Education), foi libertado da prisão de Rajai Sahr (perto de Teerão) após cumprir 4 anos de prisão. A sua esposa Faran Hesami ainda se encontra detida na prisão de Evin, também por ser professora do BIHE. Ambos são pais do pequeno Artin.

O pai do Sr. Rahimian foi martirizado há 32 anos na prisão de Evin, após a revolução Islâmica de 1979.

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FONTE: Kamran Rahimiyan freed after 4 years in prison (Sen's Daily)

domingo, 16 de agosto de 2015

Dez Bahá’ís condenados em Hamadan (Irão)

Dez Bahá’ís da cidade de Hamadan foram condenados a um ano de prisão, tendo dois deles sido também condenados a dois anos de exílio na cidade de Khash (a 1800 de distância). Estas dez foram julgadas no passado dia 29 de Julho e condenados por “propaganda contra o regime”. Curiosamente, o anúncio inicial do tribunal afirmara que eles seriam absolvidos por falta de provas.

Os condenados são Shahin Rashedi (شاهین راشدى), `Atefeh Zahedi (عاطفه زاهدى), Roumina Tabibi (رومینا طبیبى), Mina Hemmati (مینا همتى), Parvaneh Ayoubi (پروانه ایوبى), Mozafer Ayoubi (مظفر ایوبی), Farida Ayoubi (فریده ایوبی), Mehran Khandel (مهران خاندل), Hamid Adharnoush [Azarnoush] (حمید آذرنوش) e Masoud Adharnoush (مسعود آذرنوش). Hamid e Masoud Adharnoush também foram condenados a dois anos de exílio.

Estes Bahá’ís foram presos no final de Março e libertados no mês seguinte após o pagamento de uma fiança. Vários destes Bahá’ís também tiveram as suas empresas e estabelecimentos comerciais encerrados pelas autoridades.

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FONTE: Sentences announced for 10 Bahais in Hamadan (Sen’s daily)

segunda-feira, 27 de julho de 2015

As ameaças do costume

Na noite de 25-26 Julho, nos muros da residência de uma família Bahá'í em Shahrak-e Gharb (distrito Noroeste de Teerão) surgiu o tristemente rotineiro slogan “Morte aos Bahá’ís!”

Esta residência é habitada pela família Aqdasi há muito anos e situa-se na Avenida Sazman Barnameh, num bairro próspero perto do Parque Eram. É a primeira vez que esta família enfrenta este tipo de ameaças.

Muitas outras famílias Bahá’ís no Irão têm recebido ameaças através de cartas anónimas; em diversos casos foram cometidos actos de vandalismo contra automóveis e incendiadas propriedades.

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FONTE: Fresh graffiti in Tehran (Sen's Daily)