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sábado, 24 de março de 2018

Uma Aliança eterna com Deus

Por David Langness.


Em todas as religiões, Deus faz uma promessa à humanidade.

Quando, no Antigo Testamento, Deus fala a Moisés, essa promessa explícita tem a seguinte forma:
E agora, se escutardes bem a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade particular entre todos os povos, porque é minha a terra inteira. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa. Estas são as palavras que transmitirás aos filhos de Israel. (Êxodo, 19: 5-6)
Designada como Aliança Mosaica, Deus deu a Moisés os Dez Mandamentos e, por Seu lado, exigiu que as pessoas concordassem em adorar um único Criador e obedecessem àquelas leis morais. No Novo Testamento da Bíblia, surge um pacto semelhante entre Deus e a humanidade, a que os Cristãos chamam Nova Aliança:
Se, na verdade, a primeira fosse perfeita, não haveria lugar para a segunda. De facto, censurando-os, diz: Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que farei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova, não como a aliança que fiz com os seus pais no dia em que os tomei pela mão, para os fazer sair do Egipto; porque eles não permaneceram na minha aliança, também Eu me desinteressei deles - diz o Senhor. Esta é a aliança que estabelecerei com a casa de Israel, depois daqueles dias. Diz o Senhor: Porei as minhas leis na sua mente e as imprimirei nos seus corações; serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Ninguém ensinará o seu próximo nem o seu irmão, dizendo: ‘Conhece o Senhor’; porque todos me conhecerão, do mais pequeno ao maior, pois perdoarei as suas iniquidades e não mais me lembrarei dos seus pecados. Ao falar de uma aliança nova, Deus declara antiquada a primeira; ora, o que se torna antiquado e envelhece está prestes a desaparecer. (Hebreus 8:7-13)
Podemos encontrar a visão Cristã elementar da Nova Aliança no Evangelho de João; Jesus Cristo inicia esse pacto na Última Ceia, dando um novo mandamento - "o décimo primeiro":
Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros. (João 13:34-35)
No Islão, o conceito de aliança aparece novamente, distinguindo a fé da hipocrisia e pedindo aos fiéis que mantenham as suas promessas de cumprir os mandamentos de Deus:
Em verdade, Deus pede-vos que façam justiça e bem, e dêem aos familiares (o que é devido), e Ele proíbo-vos de pecar, fazer o mal e de oprimir; Ele adverte-vos para que possais estar atentos!

Obedecei à aliança de Deus com que vos comprometeste, e não quebreis os vossos juramentos depois de os afirmar, porque assim tereis a Deus como vossa garantia; em verdade, Deus sabe o que fazeis. (Alcorão 16:90-91)
Os ensinamentos Bahá’ís levam o conceito de aliança ainda mais longe, associando-a directamente ao alcançar de uma existência eterna:
Hoje, o poder vibrante nas artérias do corpo do mundo é o espírito da Aliança - o espírito que é a causa da vida. Quem for vivificado com este espírito, manifestará a frescura e a beleza da vida, estará baptizado com o Espírito Santo, nascerá de novo, estará libertado da opressão e da tirania, da negligência e da dureza que enfraquece o espírito, e alcançará vida eterna. Louvado seja Deus, pois estás firme na Aliança e no Testamento, e volves o teu rosto para o Luminar do mundo, Sua Alteza, Bahá’u’lláh. ('Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 6, pp. 263-264)
Os Bahá'ís acreditam que existe - e sempre existiu - apenas uma Aliança eterna. Todos os profetas de Deus renovam essa Aliança permanente de maneira diferente, mas todos se ligam numa corrente progressiva de revelações sucessivas. Para distinguir as diferentes versões dessa Aliança, designamo-las como aliança de Abraão, a aliança de Moisés, a nova aliança de Cristo ou a aliança de Maomé; mas, na realidade, Deus apresenta-nos a mesma aliança em cada nova dispensação religiosa. Ele promete nunca deixar a Sua criação sem a Sua sabedoria e orientação.

Conhecemos esta aliança permanente por muitos nomes. No Génesis, a história de Adão e Eva e o Jardim do Éden descreve a história da aliança, tal como a narrativa de Noé e o Dilúvio. A Arca de Noé representa a aliança, e a aliança de Noé com Deus - que inclui uma promessa de nunca mais destruir toda a vida na Terra - usa um arco-íris como símbolo desse acordo eterno. No Cristianismo, Jesus fez uma aliança com os Seus seguidores para se dirigirem para Pedro, "a rocha" base da Sua igreja. No Islão, a famosa narrativa de Fama-Gadeer ordena aos seguidores de Maomé para se dirigirem ao seu sucessor Ali. Na Fé Bahá'í, a aliança de Bahá’u’lláh - que promete uma revelação posterior, e nomeia ‘Abdu’l-Bahá como intérprete autorizado e exemplo dos Seus ensinamentos - pede a cada crente que se dirija fielmente a esse Centro da Aliança para orientação e inspiração.

Visto nesta perspectiva contínua e perpétua, os ensinamentos Bahá’ís dizem-nos que a nossa actual aliança com Deus representa a fonte inspiradora e espiritual de progresso e ordem no mundo:
A Aliança é um Orbe que brilha e resplandece para o universo. Em verdade, as suas luzes dissiparão a escuridão, o seu mar lançará a espuma da dúvida sobre as praias da perdição. Em verdade, nada no mundo pode resistir ao poder do Reino. Se toda a humanidade se unisse, poderia impedir que o sol desse a sua luz, que os ventos soprassem, que as nuvens dessem chuva, que as montanhas fossem firmes ou que as estrelas brilhassem? Não! Pelo Senhor, o Clemente. Tudo (no mundo) está sujeito à corrupção, mas a Aliança do teu Senhor continuará a permear todas as regiões. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 3, p. 170)

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Texto original: One Continuous Covenant with God (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 25 de novembro de 2017

Maomé: o Último Profeta?

Por Christopher Buck.


A maioria dos muçulmanos concorda: se Maomé é o "Selo dos Profetas" (Alcorão 33:40), então Maomé é o último profeta. Fim da história. Assunto encerrado.

E se Maomé também for a porta de entrada para futuros mensageiros de Deus, e não o último dos profetas? Essa possibilidade seria uma completa surpresa para muitas pessoas, especialmente para os muçulmanos. Vejamos, então, uma surpreendente tradição muçulmana, que o próprio Bahá’u’lláh refere nas Suas Escrituras.

Na Sura da Paciência - revelada em 22 de Abril de 1863 em Bagdade, no primeiro dia do Festival Bahá’í de Ridvan - Bahá’u’lláh escreveu:
Recita-lhes aquilo que a pomba celestial do Espírito arrulhou no santo Ridván do Amado, para que possam examinar o que foi esclarecido sobre o "selar" pela língua de 'Alí [Imam' Alī], ele que está bem fundamentado no conhecimento na oração de visitação pelo nome de Deus. Ele disse - e a sua palavra é a verdade! -:

"[Ele (Maomé) é] o selo do que veio antes d’Ele e o anunciador do que aparecerá depois d’Ele".

De modo tão sábio, o significado de "selar" foi mencionado pela língua da santidade inacessível. Assim, Deus designou o Seu Amigo [Maomé] para ser um selo para os Profetas que O precederam e um anunciador dos Mensageiros que aparecerão depois d’Ele. (Sura da Paciência, tradução provisória de Omid Ghaemmaghami)
Aqui, Bahá'u'lláh cita uma oração para Ali, o primeiro seguidor de Maomé. Ali, mais tarde, tornou-se o genro do Profeta quando se casou com a amada filha de Maomé, Fátima. Na história islâmica, Ali serviu como o quarto califa, o "bem guiado" chefe da Fé. Os muçulmanos xiitas consideram Ali como o legítimo sucessor do próprio Maomé. Os muçulmanos sunitas não concordam; mas todos os muçulmanos concordam que o Profeta Maomé gostava muito Ali, e que Ali foi um dos mais venerados muçulmanos de todos os tempos.

Num livro recente sobre a Sura da Paciência de Bahá'u'lláh (intitulado em persa, Sayri dar Bustan-i Madinatu's-Sabr) - o autor Foad Seddigh identificou a referência exacta da oração que Bahá’u’lláh citou originalmente, que contém esta frase surpreendente: "Ele (Maomé) é] o selo do que veio antes d’Ele e o anunciador do que aparecerá depois d’Ele".

Foad Seddigh identificou e validou esta oração junto de várias fontes autorizadas. Ele afirma que uma das suas primeiras publicações se encontra num livro intitulado Kamilu'z-Ziyarat, uma conhecida colectânea islâmica de orações de visitação, ou orações destinadas a ser lidas nos túmulos do Profeta Maomé, Imans Xiitas e outras figuras xiitas. Kamilu'z-Ziyarat provavelmente foi compilado pelo estudioso xiita Ibn Quluya (f. 978 ou 979 EC). O capítulo 11 do livro de orações de Ibn Quluya começa na página 92. Este capítulo intitula-se: "Visitar o túmulo do Comandante dos fiéis [Imam 'Ali], como deve ser visitado o túmulo e o que rezar no túmulo."

Podemos encontrar a frase a que Bahá’u’lláh se refere na pag. 97 - é a segunda "ḥadith" (tradição) citada. Esta mesma frase também se encontra em orações de visitação para o santuário de Imam Husayn e numa oração a ser lida nos santuários de todos os Imams. A oração de visitação para o santuário do Imam Ali tem exactamente as palavras que Bahá’u’lláh revelou. Esta oração, universalmente reconhecida e usada pelos muçulmanos xiitas, é atribuída ao Sexto ou ao Décimo Imans.

O entendimento de Bahá’u’lláh sobre esta tradição difere do entendimento tradicional por estudiosos xiitas. Foad Seddigh salienta esse facto. Na página 97 do livro, Seddigh cita um estudioso xiita que interpreta a tradição da seguinte maneira:
"Ou seja, [Maomé] é o selo dos Profetas que apareceram antes d’Ele ou das suas comunidades religiosas, ou do conhecimento e dos mistérios que O precederam, e o anúncio das Prova (ou seja, os Imams xiitas) que O seguiram ou do conhecimento, das ciências e da sabedoria que aparecerão depois d’Ele." (referência e tradução do original árabe por Omid Ghaemmaghami.)
Quem está certo? Os estudiosos xiitas? Ou Bahá’u’lláh? Uma coisa é certa: os estudiosos xiitas e os estudiosos Bahá’ís concordam que Maomé é "o anunciador do que aparecerá depois d’Ele".

Chegámos agora a um ponto comum. Todos os muçulmanos concordam que o profeta Maomé predisse a vinda do "Mahdi" no futuro. Os muçulmanos sunitas e xiitas também concordam que Jesus regressará no fim da história:
Foi narrado... que o Profeta disse: "A Hora não começará até que Eisa bin Maryam [Jesus, filho de Maria] desça como juiz justo e governante justo. (Sunan Ibn Majah 4078)
Estas duas tradições estão classificadas pelos estudiosos sunitas como "seguras", isto é plenamente autênticas, e são reconhecidos também pelos muçulmanos xiitas. E assim pode-se dizer com sinceridade que Maomé é o "anunciador do que aparecerá depois d’Ele", e que esta tradição se refere ao Mahdi e a Jesus, que aparecerão no Dia do Juízo.

Os Bahá’ís acreditam que esses dois salvadores do fim dos tempos - o Mahdi e Jesus - já apareceram.

O Báb, precursor e arauto de Bahá’u’lláh, não era outro senão o esperado Mahdi, predito pelo profeta Maomé. O próprio Bab proclamou:
A Revelação divina associada ao advento de Aquele que é o vosso prometido Mihdi [o Mahdi] mostrou-se muito mais maravilhosa do que a Revelação com a qual Maomé, o Apóstolo de Deus, foi investido. Se apenas pudésseis ponderar nisso. (Selections From the Writings of the Bab, p. 146)

"Para o Islão sunita", Shoghi Effendi escreveu, Bahá’u’lláh foi "a descida do «Espírito de Deus» [Jesus Cristo]" (God Passes By, p. 94)
Então, como é que os Bahá'ís entendem a oração de visitação muçulmana citada acima? Maomé, o "Selo dos Profetas", era "um selo para os profetas que O precederam e um anunciador dos Mensageiros que aparecerão depois d’Ele", nomeadamente O Báb, Bahá’u’lláh e outros futuros mensageiros de Deus.

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Texto original: Muhammad: the Last Prophet? (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 18 de novembro de 2017

O Selo dos Profetas: o encontro com Deus no Último Dia

Por Christopher Buck.


Tendo crescido e sido educado como Cristão, muitas vezes ouvi a expressão: "A Bíblia diz…" seguida de uma citação a que a pessoa identificava o respectivo capítulo e versículo.

E também era frequente ouvir uma resposta do género: "Sim, mas a Bíblia também diz…", seguida de outro versículo como justificação de uma opinião contrária. Era como se o texto sagrado estivesse a discutir consigo próprio!

Particularmente interessante em todos os textos sagrados - e problemáticos na maioria - são as profecias sobre o Último Dia, o Dia do Juízo, etc. Porquê? Porque são difíceis de entender. Lêem-se com facilidade, mas são intrigantes - sejam textos da Bíblia, sejam textos do Alcorão.

Então vamos analisar as profecias dos últimos dias no Alcorão. É verdade que o Islão radical está nas notícias todos os dias. É uma vergonha, pois isso mancha o bom nome do Islão.

Mas vamos pensar no Islão tradicional - o Islão mais conhecido - onde a maioria dos muçulmanos são pessoas comuns, como qualquer um de nós, e que apenas querem viver em paz e prosperidade, e que obtêm muita inspiração e orientação na sua Fé.

Provavelmente, a maioria dos muçulmanos (quase 2 mil milhões de muçulmanos no mundo hoje) afirmará que o Profeta Maomé é o "Selo dos Profetas".

Isto baseia-se num versículo muito importante no Alcorão: 33:40. Muitos consideram este versículo como o versículo doutrinariamente mais importante do Alcorão.

Com a possível excepção dos Ahmadiyya (um novo movimento religioso principalmente centrado no Paquistão), isso significa que os muçulmanos consideram Maomé como o último profeta. Ponto final. Assunto encerrado. Fim da conversa.

Os Bahá'ís concordam. De facto, Bahá’u’lláh enaltece Maomé da seguinte maneira, que vai um pouco ultrapassa o Alcorão 33:40:
Glorificado és tu, ó Senhor, meu Deus! Peço-Te, pelos Teus Eleitos e pelos Portadores da Tua Confiança, e por Aquele a Quem ordenaste ser o Selo dos Teus Profetas e dos Teus Mensageiros, que permitas que a Tua lembrança seja a minha companheira, e o Teu amor seja o meu objectivo, e a Tua face o meu objectivo, e o Teu nome a minha lâmpada, e a Tua vontade o meu desejo, e o Teu prazer a minha alegria. (Bahá’í Prayers, p. 74)
Agora consideremos o seguinte: os Profetas profetizam; Eles prevêem. De acordo com a Fé Bahá'í, Maomé foi o último dos Profetas, ou seja, o último daqueles que profetizam. Por outras palavras, Maomé foi o último Profeta no "Ciclo da Profecia", que começou com Adão.

Muito bem. Maomé é o último Profeta. O último a profetizar. E o que vem depois? Quem vem depois?

A profecia termina quando começa o cumprimento. Depois do "Ciclo da Profecia" vem o "Ciclo de Cumprimento".

E o que significa isso, podemos perguntar?

É simples: as profecias predizem o futuro. Quando as profecias se tornam realidade, então elas cumprem-se. A profecia torna-se a realidade. É assim que funciona.

Cerca de um terço do Alcorão prediz o Último Dia. O Último Dia é um bom exemplo do que os Bahá’ís pretendem dizer com "Ciclo de Cumprimento".

Apesar dos profetas profetizarem, as suas profecias nem sempre são claras, e muitas vezes exigem interpretação. Para iniciar a interpretação de qualquer profecia temos de colocar esta questão fundamental: "A profecia é literal ou figurada?"


Vamos ver a primeira profecia que surge no Alcorão após o versículo 33:40. Ela aparece apenas quatro versículos mais à frente, no 33:44:
No dia em que eles forem levados à presença do seu Senhor, a sua saudação de uns para os outros será: "A paz esteja contigo". Deus preparou-lhes uma recompensa honrosa. (Alcorão 33:44, tradução de Muhammad Sarwar)
Outra tradução do mesmo versículo afirma o seguinte:
A sua saudação, no dia em que O encontrarem, será "Paz!" E Ele preparou-lhes uma generosa retribuição. (Alcorão 33:44, tradução de A.J. Arberry)
A tradução de Arberry ("O encontrarem") é literal. A tradução de Sardar ("levados à presença do seu Senhor ") é figurada. Isso está mais em consonância com a perspectiva Bahá’í.

Agora vamos usar nossa chave de quatro passos para compreender a linguagem profética:

Passo 1: Se é impossível, então não é literal. Porque é que a leitura literal é impossível aqui? Porque é impossível conhecer Deus directamente, frente a frente. O próprio Alcorão diz: "Nenhuns olhos mortais podem vê-Lo, mas Ele pode ver todos os olhos. Ele é Todo-Generoso e Omnisciente." (6:103, tradução de Muhammad Sarwar)

Passo 2: Se não literal, então é figurado. Qual é a comparação ou analogia aqui representada? O que se compara a "conhecer Deus"? Temos de concordar com isto: "encontrá-Lo" é literal. E isso é impossível. O que é possível é ser "levado à presença do seu Senhor", tal como traduz Sarwar.

Passo 3: Se é figurado, então é simbólico. Quais são as características que esse símbolo representa? O que significa "encontrar Deus"? Seja qual for o significado de "presença do seu Senhor", é certamente um evento em que a vontade de Deus é comunicada e divulgada de forma clara. Se não podemos encontrar-nos directamente com Deus, a próxima melhor coisa é encontrar o embaixador de Deus, o mensageiro de Deus, ou aquilo a que os Bahá’ís chamam "Manifestante de Deus", que expressa "Deus" em natureza, mas não em essência.

Passo 4: Se é simbólico, então é espiritual e social. Quem (ou o que) representa essas características? De acordo com os ensinamentos Bahá’ís, quando Deus envia um mensageiro à humanidade, esse mensageiro vem da presença de Deus e, portanto, representa Deus. Quem tem a graça e a bênção de encontrar o mensageiro de Deus, conseguiu - numa forma figurada e simbólica - "encontrar Deus" ao ser "levado à presença do seu Senhor".

Pensemos na "presença de Deus" como o carisma divino, uma aura de santidade, o nimbo do sagrado, o efeito de halo. Talvez seja uma surpresa saber que que o "carisma" é realmente um termo científico usado no mundo académico: os sociólogos da religião falam sobre os fundadores das grandes religiões mundiais como tendo "carisma".

Fiz o melhor que pude para simplificar a perspectiva Bahá'í sobre estes dois versículos-chave do Alcorão, que representam um grande plano dos dois ciclos: o Ciclo da Profecia, seguido pelo Ciclo de Cumprimento. Bahá’u’lláh deixa claro neste importante parágrafo do seu Livro de Certeza, dirigido ao mundo islâmico:
E no entanto, através do mistério do primeiro versículo [Alcorão 33:40], eles afastaram-se da graça prometida pelo segundo [Alcorão 33:44], apesar do facto do “alcançar da Presença divina” no “Dia da Ressurreição” ser explicitamente afirmada no Livro. Foi demonstrado e provado definitivamente, através de evidências claras, que por “Ressurreição” se pretende significar o aparecimento do Manifestante de Deus para proclamar a Sua Causa, e por “alcançar da Presença Divina” se pretende significar o alcançar da presença da Sua Beleza na pessoa do Seu Manifestante. Pois, em verdade, “Nenhum olhar O percebe, mas Ele percebe todos os olhares” [Alcorão 6: 103]. Não obstante todos estes factos indubitáveis e exposições claras, eles agarraram-se loucamente ao termo “selo”, e permaneceram totalmente privados do reconhecimento d’Aquele Que é o Revelador tanto do Selo como do Princípio, no dia da Sua presença [Baha’u’llah]. (Kitab-i-Íqán, ¶182) (citações do Alcorão em parêntesis rectos)

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Texto original: The Seal of the Prophets: Meeting God on the Last Day (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 5 de agosto de 2017

É tempo de acabar com equívocos sobre Maomé

Por Rodney Richards.


No Ocidente, compreendemos mal Maomé e o Islão durante séculos. Agora é o momento de acabar com isso e começar a perceber o que faz do Islão uma grande Fé.

O Islão surgiu na península arábica em 610 EC, tendo desencadeado conflitos e guerras tribais e internas, e por fim tornou-se uma religião mundial com 1,8 mil milhões de seguidores.

Quando Maomé revelou o Islão, o Cristianismo era a religião de estado no Império Romano, na Europa e no Médio-Oriente. Os cristãos daquela época tinham a crença infundada de que Cristo - que eles reverenciavam como o Filho de Deus - era o último dos profetas.

Esta interpretação incorrecta, esta percepção temporal sobre a condição de Cristo - em oposição à Sua ascendência e domínio espiritual - tem sido a causa de indescritível derramamento de sangue. Essa ignorância e má interpretação fomentaram oito cruzadas cristãs, começando em 1095 EC, durante quase 200 anos, provocando a morte de milhões de pessoas.

Estas guerras religiosas e incompreensões continuam a ser o principal obstáculo para a verdadeira reconciliação entre as religiões Cristã e Muçulmana.

A base, quer do Cristianismo quer do Islão, é aproximar as pessoas de Deus, dando-lhes uma ideia mais ampla e uma compreensão mais completa sobre a vontade e o propósito de Deus para a humanidade.

Maomé disse que ambas as comunidades Judaica e Cristã tinham que ser protegidas pelos Muçulmanos, apesar de qualquer animosidade que pudessem ter em relação ao Islão. Assim, tal como Cristo validou o estatuto de Moisés, também Maomé validou os estatutos de Abraão, Moisés e Cristo.

Nos ensinamentos Bahá’ís, isto chama-se de revelação progressiva. No fundo, significa que todos os profetas e fundadores das grandes religiões do mundo vieram da mesma fonte e ensinaram as mesmas verdades. Embora as leis e regras externas de uma religião possam adaptar-se às necessidades das pessoas no momento em que foram reveladas, uma revelação religiosa posterior exige novas leis e regras que sejam adequadas a um tempo mais moderno. As leis espirituais também progridem; passámos de “amar o próprio irmão como a si mesmo” no tempo de Cristo, para “preferir o próximo em vez de preferir a si próprio” no tempo de Maomé e Bahá'u'lláh.

O facto de as religiões lutarem não é devido à falta de integridade e unidade das religiões, mas sim à interpretação incorrecta e ao fanatismo de alguns dos seus líderes e dos seus seguidores. Os Bahá’ís acreditam que toda religião vem de Deus e foi dada à humanidade quando esta mais precisava da orientação de Deus - mas também que as religiões podem entrar em declínio dogmático, não representando os verdadeiros ensinamentos dos seus fundadores. Quando esse declínio ocorre - dizem os ensinamentos Bahá’ís - aparece um novo Mensageiro.

Este conceito de revelação progressiva é claro como o sol do meio-dia: todo mensageiro ou profeta falou sobre o seu regresso ou sobre o surgimento do próximo mensageiro de Deus. Então, por que rejeitamos e perseguimos esse mensageiro quando Ele aparece? Porque estamos apegados (ou presos) ao nosso sacerdote ou imã favorito, ao nosso templo, mesquita ou igreja favorita; porque estamos apegados à maneira como adoramos e às palavras nos nossos livros e ao que pensamos ser o seu significado. Estamos tão apegados a isso que esquecemos que o nosso propósito na vida - enquanto seres espirituais - é amar a Deus e a Sua criação. E esquecemos que a melhor maneira de mostrar que amamos a Deus é amando toda a humanidade.

Os nomes das religiões - Cristianismo e Islão - são apenas rótulos que representam um conjunto de valores, moral e modos de pensamento. Vamos denegrir e insultar pessoas boas só porque não professam a mesma fé que nós? Não. Esperamos poder recebê-las e ajudá-las, independentemente do seu rótulo (ou não-rótulo). Isso é tudo o que Deus quer de nós: amar e cuidar uns dos outros. Essa é a verdadeira mensagem de toda a verdadeira Fé.

Além disso, com a revelação progressiva, se realmente acreditamos no que o nosso Mensageiro nos disse - que aparecerá um Mensageiro maior - então, como podemos manter esses rótulos falsos? O apego a esses rótulos impediu verdadeiramente a humanidade de apreciar plenamente o que cada novo mensageiro de Deus nos trouxe, quando a paz e a tranquilidade poderiam ter sido implementadas.

Está na hora de nos livrarmos desses rótulos antiquados. Se a religião é essencialmente uma só, como afirmam os ensinamentos Bahá’ís, podemos começar a ver toda a religião como:
... diferentes fases na história eterna e evolução constante da religião única, Divina e indivisível, da qual [a Fé Baha’i] constitui apenas uma parte integrante. Não procura obscurecer as suas origens divinas, nem anular a magnitude admitida das suas realizações colossais. Não pode apoiar nenhuma tentativa que procure distorcer as suas características ou esconder as verdades que transmitem. Os seus ensinamentos não se desviam minimamente das verdades que consagram, nem o peso da sua mensagem prejudica uma vírgula da influência que exercem ou da lealdade que inspiram. Longe de pretender derrubar as fundações espirituais dos sistemas religiosos do mundo, o seu propósito declarado, inalterável, é ampliar as suas bases, reafirmar os seus fundamentos, conciliar os seus objectivos, revigorar a sua vida, demonstrar a sua unicidade, restaurar a pureza prístina dos seus ensinamentos, coordenar as suas funções e auxiliar na realização das suas mais elevadas aspirações. (Shoghi Effendi, A Ordem Mundial de Baha'u'llah, p. 114)
Se todos os Cristãos aceitassem Maomé como um mensageiro de Deus, isso em nada diminuiria ou rebaixaria o estatuto de Cristo. O mesmo conceito se aplica do Islão em relação aos Bahá'ís e dos Bahá’ís em relação ao próximo mensageiro de Deus e à nova revelação.

Então pergunto: vale a pena lutar, ou magoar alguém por causa do apego a um rótulo? Espero que a sua resposta seja a mesma que a minha: não!

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Texto original: Time to Stop Misunderstanding Muhammad (www.bahaiteachings.org)

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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sábado, 8 de outubro de 2016

O Islão e o Renascimento Científico

Por Maya Bohnhoff.


Do piedoso muçulmano... esperava-se que evitasse... as ciências [racionais] com muito cuidado, pois eram consideradas perigosas para a sua fé... (Ignaz Goldziher, 1916)

... a posse de toda esta "iluminação" [de pensamento grego] não impulsionou muito progresso intelectual no Islão, muito menos resultou numa ciência Islâmica. (Rodney Stark, 2003)

Infelizmente, Islão voltou-se contra a ciência no século XII. (Steve Weinberg, 2007)
Hoje, muitas pessoas tendem a pensar em Bagdade como um lugar tenebroso com uma população lutando e tremendo de medo de atentados terroristas. No entanto, no século X Bagdade era a capital do Império Abássida com uma população superior a um milhão de pessoas, um centro cultural onde se desenvolviam avidamente actividades científicas e filosóficas.

Uma das actividades "perigosas" exercidas por muçulmanos piedosos foi um grandioso projecto de tradução de textos sânscritos, persas e gregos para o árabe. No século XII - época em que, segundo Weinberg, o Islão se tinha voltado contra a ciência - estes textos árabes foram traduzidos para latim para consumo na Europa Cristã. Os tradutores latinos trabalhavam com textos árabes, em vez dos textos gregos, porque os sábios Abássidas tinham adicionado anotações e comentários desafiadores, completando e corrigindo alguns dos textos gregos originais.

Apesar de este processo estar bem documentado, ainda persiste o mito de que os sábios língua árabe não deram qualquer contributo para o trabalho que traduziram e foram apenas papagaios sem criatividade. Assim é irónica, a acusação de Goldziher contra o Islão de que este era inerentemente hostil a estas escolas do conhecimento. Se isso for verdade, como podiam os "muçulmanos piedosos" permitir sequer a tradução destes textos, quanto mais o seu estudo, a sua divulgação e a aplicação do conhecimento que eles continham? O acto de tradução só por si (apoiado monetariamente por Muçulmanos de todos os estratos sociais) é suficiente para acabar com o mito.

As contribuições árabes para o pensamento científico e matemático podem ser vistas na tradução de obras como Arithmética de Diofanto de Alexandria até à Arte Árabe da Álgebra (a palavra "álgebra" é uma latinização da frase árabe al-jabr, i.e. "a restauração"). Neste trabalho, Qusta ibn Luqa (820-912) define as operações matemáticas dos gregos em termos de uma nova disciplina, que tinha sido desenvolvida pelo matemático Al-Khwarizmi - de cujo nome deriva a palavra algoritmo.

Texto árabe sobre Álgebra
A alegação de que esses sábios muçulmanos nada acrescentaram de novo ou original é facilmente desacreditada: quando o texto árabe foi traduzido de novo para o grego, isso não resultou no texto grego original.

Na verdade, os sábios muçulmanos dominaram o campo da ciência (especialmente, a matemática e a astronomia) entre 800 e 1300 EC. Eles não viam a sua ciência como estando em guerra com a sua fé. O campo da astronomia era importante por razões de fé e razão (ou seja, o cálculo dos momentos de oração e o estudo da força e perfeição de Deus, bem como as causas naturais de fenómenos cósmicos). O primeiro observatório construído por astrónomos muçulmanos foi construído em Bagdade, em 828 EC, enquanto que no séc. XIV, Ibn al-Shatir (cronometrista numa mesquita de Damasco) propôs o modelo lunar usado por Copérnico, no seu trabalho de 1534, De Revolutionibus.

As universidades europeias que referi anteriormente usaram vários textos árabes que tinham sido traduzidos para o latim. A medicina não seria o que é hoje sem o trabalho enciclopédico de Ibn-Sina (Avicena) - O Cânone da Medicina. Este texto foi usado durante séculos nas faculdades de medicina europeias. Outro exemplo no campo da medicina é a descoberta da circulação sanguínea pulmonar por um médico e teólogo sírio, Ibn al-Nafis. No campo da física, podemos citar o trabalho de al-Haytham (Alhazen) que uniu matemática e física e que, de acordo com o historiador de ciência David Lindberg -autor de Teorias de visão de al-Kindi de Kepler - era "a mais figura importante na história da óptica desde a antiguidade até ao século XVII".

Obviamente, a situação não é tão linear quanto Steven Weinberg e companhia sugerem. Assim, podemos questionar, o que deu origem à ideia de que o Islão não contribuiu em nada para a ciência (ou pelo menos nada de original) e, como Weinberg propõe, "virou-se contra a ciência" desde o século XII em diante?

A resposta de Weinberg é que o Islão foi influenciado por um filósofo chamado Abu Hamid al-Ghazali que argumentou contra o conceito de leis estáticas da natureza argumentando que a existência dessas leis amarraria as mãos de Deus. Tal como Ignaz Goldziher (citado anteriormente), Weinberg afirmou que as filosofias de al-Ghazali levaram a ciência islâmica a um impasse. Quão correcta é esta afirmação?

George Saliba - professor de Ciência Árabe e Islâmica na Universidade de Columbia – aponta alguns problemas nesta avaliação, principalmente, o facto do místico sufi, supostamente não-cientista, não só ter apoiado o estudo e uso da lógica e da matemática (algo que até Goldziher admite), mas também ter lamentado que os sábios muçulmanos não estivessem a fazer o máximo que podiam nas disciplinas da anatomia e da medicina. Por esse motivo, ele próprio escreveu sobre esses assuntos:
Se olharmos apenas para os documentos científicos sobreviventes, podemos perceber claramente uma actividade muito florescente em quase todas as disciplinas científicas nos séculos seguintes a Ghazali. (George Saliba, Islamic Science and the Making of the European Renaissance, p. 21)
No fundo, qual a plausibilidade de um único muçulmano erudito - não pertencente à principal corrente da teologia Islâmica - poder influenciar o pensamento, as atitudes e as práticas de uma parcela significativa do mundo muçulmano? O Islão, ao contrário da Igreja Católica ou da Fé Bahá'í, não tem nenhuma autoridade central, muito menos uma que defina uma agenda para todo o corpo de crentes. Em vez disso, várias escolas de pensamento têm evoluído dentro dos dois ramos principais. Os sufis são uma das tradições mais místicas e, como tradição, são reconhecidos como tendo inspirado uma Idade de Ouro na sabedoria Islâmica que se iniciou - ironicamente - por volta de 1300.

A ponderada opinião do Dr. Haq - partilhado por um número crescente de estudiosos – é que:
... durante séculos, enquanto a ciência no Ocidente Latino ficava no marasmo, nenhuma cultura no mundo proporcionou um lar mais hospitaleiro para ciência do que o Islão. E nenhum grupo de muçulmanos cultivou a ciência mais do que os religiosos. (Syed Haq, Galileo Goes to Jail, p. 41)
Na ficção, nós chamamos isso de "trabalhar contra o modelo." O clérigo académico que ama a ciência não é uma personagem que alguns de nós esperam encontrar nas páginas da história; no entanto, à medida que aprendemos mais sobre as interacções entre a fé e a ciência durante e depois da Idade Média, somos forçados a vê-lo como representativo em vez de raro. Como os ensinamentos Bahá’ís salientam, essa combinação equilibrada de ciência e religião concede-nos a capacidade para investigar verdadeiramente a realidade:
Deus deu ao homem a visão da investigação, através da qual ele pode ver e reconhecer a verdade. Ele dotou o homem com ouvidos que possa ouvir a mensagem da realidade e conferiu-lhe o dom da razão pela qual ele pode descobrir as coisas por si próprio. Este é o seu dom e equipamento para a investigação da realidade. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 293)
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Texto original: Islam and Science Redux (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O Islão e a questão da Violência

Por Dan Gebhardt.


... Por isso ordenámos aos filhos de Israel, que aquele que mata uma alma, que não tenha matado uma alma ou cometido maldade na terra, será como se tivesse assassinado toda a humanidade; mas aquele que salvou uma alma viva, será como se tivesse salvado a vida de toda a humanidade. Os Nossos apóstolos anteriormente vieram a eles, com milagres evidentes; depois disso, houve muitos deles que cometeram transgressões na terra. (Alcorão 05:32)
Este versículo do Alcorão é a minha resposta à questão sobre se o Islão é inerentemente violento - uma pergunta suscitada por terríveis actos de assassínio e terror que actualmente são cometidos em nome de Deus.

Numa leitura atenta, a resposta que este versículo apresenta parece mista. Apesar do valor supremo que coloca na vida humana, o Islão abre uma excepção: "aquele que mata uma alma, que não tenha matado uma alma ou cometido maldade na terra (fasād fi-l-arḍ)". O Islão não é uma religião pacifista e, em alguns casos, define guerra e os castigos corporais (incluindo a pena capital) como justos.

Para ser mais específico sobre a questão do Islão e da violência é necessário investigar as várias escolas de pensamento islâmico. Obtemos diferentes respostas consoante as escolas que consultamos - embora as escolas islâmicas tradicionais concordem amplamente que o terrorismo e violência são por si próprias a "maldade na terra".

Surpreendentemente para algumas pessoas no Ocidente, esta situação não difere muito do Cristianismo. Podemos identificar a atitude "Cristã" apenas em alguns assuntos bastante genéricos, mas as especificidades sobre crença e prática, e até mesmo as noções particulares para justificar a violência e a guerra, são frequentemente muito diferentes entre as diversas seitas, denominações ou tradições.

Para um observador externo, qual é a interpretação "verdadeira"?

Como Baha'i, acredito que os ensinamentos Bahá'ís contêm a verdadeira interpretação, apresentada de forma lógica e clara no princípio Baha'i da revelação progressiva. A Revelação Progressiva mostra-nos que todas as religiões, ao longo do tempo, acabam por se tornar reflexos da fragilidade humana e ambição mundana, levando à distorção da mensagem original. Essa distorção corrompe o propósito pacífico e espiritual dos mensageiros originais e fundadores das grandes religiões - e resulta na revelação progressiva da próxima grande religião. Se você realmente quer saber o que Maomé (ou Jesus, ou o Buda) ensinou, recomendo que veja o que as Escrituras Bahá'ís dizem que Eles ensinaram, comparando-as com o registo das Escrituras existentes e raciocinando a partir daí.

Radicais Islâmicos em Londres
Infelizmente, algumas pessoas olham para as acções de uma pequena minoria de extremistas muçulmanos e de governos repressivos que hoje alegam representar o Islão, e perguntam se o Islão tem sequer um lugar na revelação progressiva. Tivemos Abraão, tivemos Moisés, tivemos Jesus - mas aconteceu alguma coisa errada depois disso? O Islão é inerentemente mais violento do que as religiões anteriores, como o Judaísmo e o Cristianismo? Acredito que a resposta a esta pergunta é um claro "não".

Todas as três religiões prescrevem um modo de vida global que, pelo menos em teoria, não reconhece qualquer fronteira impermeável entre Igreja e Estado (uma ideia muito moderna). Todas as três religiões já fizeram uso da força (incluindo força letal) para atingir objectivos religiosos.

As tradições da Lei Islâmica (Sharia) não definem mais crimes merecedores de capital do que a Torá judaica ou as leis canónicas cristãs que serviram de base às leis europeias da Idade Média - na verdade, definem menos. Permitem mais liberdades individuais, como o divórcio e um novo casamento, a realização de negócios ao sábado, e permitem que judeus e os cristãos continuem a praticar a sua fé. Podemos facilmente argumentar que os ensinamentos originais do Islão permitem menos violência do que os seus antecessores, e não mais.

Por exemplo, a instituição islâmica de dhimma - em que de certas religiões do passado podiam praticar a sua fé e obter isenção do serviço militar num estado Islâmico em troca do pagamento de um imposto - é hoje amplamente condenada pelos seus abusos, mas originalmente tratou-se de um avanço nos direitos gozados pelas minorias religiosas nos tempos medievais. Ser um dhimmi sob o Islão era certamente uma opção melhor do que enfrentar a tortura da Santa Inquisição, e a nova lei levou a emigrações em massa de judeus da Europa para terras islâmicas.

Alguns cristãos argumentam que essas coisas não tinham nada a ver com os ensinamentos pacíficos de Cristo - que as cruzadas lideradas pela Igreja, os massacres e as conversões pela espada em toda a Europa, Américas e noutros lugares não eram "verdadeiramente cristãs". Esse é o mesmo argumento usado hoje pela maioria dos muçulmanos: que o terrorismo e as perseguições não representam verdadeiro Islão. Provavelmente, ambos têm razão.

Cristo ensinou amar os inimigos e a responder ao mal com o bem (como fez Maomé - Alcorão 41:34; 7:199; 60:7). No entanto, Cristo também disse: "quem não tem espada venda a capa e compre uma." (Lucas 22:36). São Paulo descreveu a autoridade do Império Romano pagão como estando "ao serviço de Deus, para te incitar ao bem ... ela traz a espada. De facto, ela está ao serviço de Deus para castigar aquele que pratica o mal." (Rom 13: 4). Estas palavras pareciam aplicar-se ainda mais depois do imperador Constantino se ter tornado cristão. A tendência humana a recorrer à violência para resolver problemas tornou inevitável que a profecia de Cristo "Não vim trazer a paz, mas a espada" (Mat. 10:34) fosse literalmente e abundantemente cumprida durante séculos nos actos dos seus seguidores. Apesar dos ensinamentos pacíficos de Cristo, a Bíblia não contém uma declaração de liberdade de consciência tão directa como esta do Alcorão:
Não há coerção na religião. A direcção certa é doravante distinta do erro. E aquele que rejeita falsas divindades e crê em Deus segurou-se firmemente àquilo que nunca se vai quebrar. (Alcorão 2: 256)
Esta omissão tornou fácil para a Igreja a entregar judeus, muçulmanos, hereges e rebeldes nas mãos do poder temporal, para receber o castigo infernal neste mundo pelos seus pecados observados.

Porque é que hoje nós vemos tanta opressão com motivações religiosas em terras islâmicas, e comparativamente pouca em países maioritariamente cristãos? Talvez devêssemos procurar a resposta na história, em vez da teologia. Talvez devêssemos, também, olhar para a mais recente e mais progressiva das religiões do mundo global, a Fé Bahá'í, e procurar nova orientação espiritual sobre a questão de guerras e violência:
Que ninguém lute com outro, e que nenhuma alma mate outra; isto, em verdade, é o que vos foi proibido... O quê?! Quereis matar quem Deus despertou, aquele que Ele dotou de espírito através do Seu sopro? Grave, pois, seria a vossa ofensa diante do Seu trono! Temei a Deus, e não levanteis a mão da injustiça e da opressão para destruir o que Ele próprio ergueu; não, trilhai o caminho de Deus, o Verdadeiro. (Bahá'u'lláh, O Livro Mais Sagrado, parag. 73)

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Texto Original: Islam and the Question of Violence (bahaiteachings.org)

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 Dan Gebhardt é professor de filosofia e religião na Universidade de Nevada-Reno (EUA).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A tirania vem dos Governos ou das Religiões?

Por David Langness.


Em verdade, Deus ordenou a realização da justiça e do bem... e Ele proíbe a maldade e opressão. Ele adverte-vos para que sejais cuidadosos. (Alcorão, 16:92)

Sê como uma lâmpada para os que andam nas trevas, uma alegria para os infelizes, um mar para os sedentos, um refúgio para os aflitos, um apoiante e defensor da vítima da opressão. (Bahá'u'lláh, Epistle to the Son of the Wolf, p. 93)
Recentemente, o Ayatollah Ali Khamenei do Irão enviou uma carta aberta aos jovens do Ocidente, expressando uma profunda preocupação com "a imagem que é lhes é apresentada como sendo o Islão."

O líder iraniano dirigiu-se aos jovens do Ocidente, e não aos "políticos e estadistas" da Europa e América do Norte, porque, tal como ele próprio disse, "acredito que eles (políticos e estadistas) afastaram conscientemente o rumo da política do caminho da justiça e verdade."

Khamenei escreveu que as nações ocidentais têm várias "fobias" em relação ao Islão, e que eles têm sido "fingidos e hipócritas" no seu relacionamento com outras nações e culturas. Vamos examinar estas afirmações de forma desapaixonada e objetiva.

O Ayatollah começa por lamentar que o Ocidente tenha provocado durante muito tempo “um sentimento de horror e ódio em relação ao Islão” e colocado “esta grande religião no lugar de um inimigo horrível”. Ele escreve:
Muitas tentativas foram feitas ao longo das últimas duas décadas, desde a desintegração da União Soviética, para colocar esta grande religião no lugar de um inimigo horrível. A instigação de um sentimento de horror e ódio e a sua utilização tem, infelizmente, um longo registo na história política do Ocidente.
Não há dúvida sobre isso. O "longo registo" de animosidade e divisão entre as nações islâmicas do Oriente e as nações da Europa e América do Norte datam de há muito tempo, muito antes da desintegração da União Soviética.

A carta do Ayatollah refere as últimas duas décadas, mas a fractura entre Oriente e Ocidente vem de um passado muito distante, desde a Idade Média. A invasão muçulmana da Península Ibérica no ano 711 EC, marcou, sem dúvida, o início de um conflito cultural épico entre o Islão e o Cristianismo, que continua a repercutir-se no mundo de hoje. O domínio implacável da aristocracia Omíada árabe sobre toda a Hispânia, as carnificinas sangrentas que se seguiram durante as terríveis guerras das Cruzadas e as horríveis torturas da Inquisição, tudo isso tem ecoado ao longo da história de ambas as grandes religiões. Ódios, chacinas e genocídios - de ambos os lados - caracterizaram o comportamento das pessoas comuns e das autoridades religiosas durante esse período negro.

No entanto, se o Ayatollah visitasse o Ocidente moderno de hoje, ficaria provavelmente feliz por saber que a maioria do público esclarecido não responsabiliza o próprio Islão por essas atrocidades históricas.

Em vez disso, as pessoas ocidentais educadas entendem que os indivíduos e os líderes dos próprios governos devem ser responsabilizados pelas suas acções - em vez de culpar as religiões que eles dizem seguir. Por exemplo, quando os líderes ocidentais declararam guerra a países islâmicos como o Iraque (em 2003), uma grande número de ocidentais levantou-se contra essa guerra, incluindo uma maioria de jovens na América do Norte e Europa. Eles não culparam o cristianismo ou o judaísmo por se travar uma guerra injusta e desnecessária; eles culparam os seus governos.

No Ocidente moderno, a maioria das pessoas tenta separar governo e religião, por essa mesma razão. Nós aprendemos que não podemos confiar governos que afirmam ter abraçado uma qualquer filiação religiosa especial, porque muitas vezes eles tomam decisões que violam os princípios espirituais dessa mesma Fé; usam a religião como um meio para controlar e dominar os outros; e para oprimir e marginalizar aqueles que não acreditam no mesmo que eles.

Tanto o Renascimento como o Iluminismo - para os quais os progressos do Islão contribuíram significativamente - procuraram libertar o Ocidente da tirania religiosa,  separar a Igreja do Estado, e conceder a cada homem, mulher e criança o direito humano fundamental e liberdade do culto que consideram adequado.

É claro que essa forma de governo também não mostrou ser perfeito. A carta aberta do Ayatollah dedica vários parágrafos a acusar as nações ocidentais, e a própria civilização ocidental, pelas suas muitas falhas:
As histórias dos Estados Unidos e da Europa envergonha-se com a escravidão, embaraçam-se com o período colonial e mortificam-se com a opressão das pessoas de cor e não-cristãos. Os seus investigadores e historiadores envergonham-se profundamente com o derramamento de sangue realizado em nome da religião entre Católicos e Protestantes, ou em nome de nacionalidade e etnia durante a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais.
É certo que a escravidão, o colonialismo e a opressão são hoje vistos como vergonhosas no Ocidente, tal como devem ser no Oriente, que também tem uma longa e negra história com comportamentos semelhantes. Nenhum governo humano é perfeito, e os governos só começam a aproximar-se da perfeição quando admitem os seus erros e tentam corrigi-los.

Hoje, por exemplo, o governo do Irão reprime brutalmente a sua maior minoria religiosa, os Bahá’ís, negando-lhes o direito à educação e ao emprego; aprisionando-os com base em acusações falsas; torturando e executando-os quando o seu único crime é acreditar numa religião diferente. Todas as organizações internacionais de direitos humanos, incluindo as Nações Unidas, concordam que o governo iraniano actualmente oprime os Bahá'ís.

Mas, apesar de Muhammad ter proibido a opressão no Alcorão, a liderança iraniana não parece desgostosa com essa opressão, por alguma estranha razão. Se o Islão proíbe a opressão, não deveria ela cessar? E não ficaria a juventude do Ocidente - com o seu profundo compromisso com a verdade, a justiça e a liberdade de pensamento - mais impressionada se o Irão terminasse essa a opressão do que com uma carta aberta?

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Texto original: Does Tyranny Come from Governments or Religions? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 11 de outubro de 2014

Fareed Zakaria: Sejamos honestos; hoje, o Islão tem um problema

Excertos de um artigo de opinião de Fareed Zakaria no Washington Post (09/Outubro/2014).
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(...)

Conheço os argumentos contra as vozes que falam do Islão como sendo violento e reacionário. Tem 1.6 mil milhões de seguidores. Locais como a Indonésia ou a Índia têm centenas de milhões de muçulmanos que não encaixam nestas representações. É por isso que [Bill] Maher e [Sam] Harris erram ao fazer generalizações grosseiras. Mas sejamos honestos. Hoje, o Islão tem um problema. Os lugares que têm dificuldade em acomodar-se no mundo moderno são desproporcionalmente muçulmanos.

Em 2013, dos 10 principais grupos que realizaram ataques terroristas, 7 eram muçulmanos. Dos 10 principais países onde ocorreram ataques terroristas, 7 têm maioria muçulmana. O Pew Research Center classifica países de acordo com o nível de restrições que os governos impõem ao livre exercício da religião. Dos 24 países mais restritivos, 19 têm maioria muçulmana. Dos 21 países que têm leis contra apostasia, todos têm maioria muçulmana.

Existe um cancro de extremismo no Islão de hoje. Uma pequena minoria de muçulmanos festeja a violência e a intolerância, e acolhe atitudes profundamente reacionárias contra as mulheres e as minorias. Apesar de alguns confrontarem os extremistas, não são suficientes, e os protestos não são suficientemente sonoros. Quantas manifestações gigantescas se realizam hoje contra o Estado Islâmico (também conhecido como ISIS) no mundo Árabe?

A expressão “Islão de hoje” é importante. O problema central das análises de Maher e Harris é que pegam numa realidade - o extremismo no Islão - e descrevem-na de forma que sugere que é inerente ao Islão. Bill Maher afirma que “o Islão é a única religião que actua como a Mafia, que mata se alguém diz o contrário, se faz um desenho errado ou se escreve o livro errado”. Ele tem razão sobre o aspecto maligno, mas está errado quando o liga ao Islão - em vez de o ligar a “alguns muçulmanos”.

(...)

Harris devia ler o livro de Zachary Karabell Peace Be Upon You: Fourteen Centuries of Muslim, Christian and Jewish Conflict and Cooperation. Ali descobriria que houve guerras mas também muitos séculos de paz. O Islão esteve por vezes na vanguarda da modernidade, mas tal como hoje, também já o grande retardatário. Como Karabel me disse: “Se excluirmos os últimos 70 anos, em geral o mundo islâmico foi mais tolerante com as minorias do que o mundo cristão. É por isso que viviam mais de um milhão de Judeus no mundo árabe até à década de 1950 - só no Iraque eram 200.000”

Se existiram períodos em que o mundo islâmico era aberto, moderno, tolerante e pacífico, isso pressupõe que o problema não está na essência da religião e que as coisas podem mudar mais uma vez. Então porque é que Maher faz estes comentários? Compreendo que como público intelectual ele sinta necessidade de falar daquilo que vê como uma verdade elementar (apesar da sua “verdade” estar simplificada e exagerada). Mas existe certamente outra tarefa para um público igualmente intelectual: tentar mudar o mundo para melhor.

(...)

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Texto original (em inglês): Fareed Zakaria: Let’s be honest, Islam has a problem right now

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Quando César quer ser Deus

Esther Mucznik, ontem no Público:

O que se passa neste momento no Egipto é decisivo. Depois da eleição, em Junho deste ano, de Muhammad Morsi para presidente do Egipto, parecia abrir-se um novo ciclo em que o poder se estabilizava (e concentrava) nas mãos da Irmandade Muçulmana.
(...)Elaborado à pressa por uma assembleia constituinte totalmente composta por adeptos da Irmandade Muçulmana e salafistas, (depois da demissão em protesto de um terço dos deputados) o projecto constitucional mantém os “princípios da Sharia como fonte principal da legislação”, em conformidade com a antiga Constituição. Mas acrescenta uma nova disposição, segundo a qual esses princípios deverão ser interpretados à luz da doutrina sunita, permitindo uma leitura mais rigorista da lei islâmica. Tem uma formulação ambígua relativamente à protecção dos direitos dos cidadãos, condicionada “à verdadeira natureza da família” e “à ordem pública e moral”, proíbe os “insultos à pessoa individual” e os “insultos ao profeta”, o que abre a porta à censura, “reconhece as religiões do Livro”, mas exclui as outras, em particular os Bahai… Em relação às mulheres, o texto contempla a igualdade de todos os cidadãos perante a lei, lembrando no entanto o papel do Estado na salvaguarda do “equilíbrio entre as obrigações da mulher no quadro familiar e o seu trabalho público”… É contra esta versão constitucional considerada demasiado religiosa e perigosa para as liberdades que se ergue uma oposição que inclui laicos, cristãos e muçulmanos, mulheres e homens, pessoas do povo e da burguesia.
(...)Os princípios contidos no Corão, na Torá ou na Bíblia podem ser uma das fontes de inspiração para o poder político ou até da lei geral de um país, mas em nenhum caso a podem amarrar ou determinar. A separação entre as duas esferas é condição indispensável da liberdade individual de religião e consciência, é condição de um Estado de direito e democrático. Judeus, muçulmanos e cristãos podem lutar para influenciar as leis, os costumes, as tradições. Mas a esfera da sua influência é de ordem moral, não tem necessariamente tradução jurídica. Podem defender a proibição do aborto e até da contracepção, mas não podem legislar nesse sentido. O seu afastamento do poder é não só a garantia do carácter democrático da sociedade, como também da sua própria idoneidade como instituições religiosas.(...)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Novo Dicionário do Islão

Foi recentemente publicado entre nós o Novo Dicionário do Islão, de Margarida Santos Lopes. Trata-se de uma versão corrigida e aumentada (a primeira foi publicada em 2002), onde se apresentam conceitos, personagens e histórias associadas à religião que teve origem na revelação de Maomé.

Nestas páginas, Islão (fé) não é igual a islamismo (ideologia); e os islamitas (crentes) nem sempre são islamistas (combatentes da jihad). Para alguns, o termo "islamista" é uma heresia linguística, mas este livro preocupa-se mais com o neologismo que caracteriza o medo e a discriminação dos muçulmanos: «islamofobia».

Por isso, segue as recomendações de respeitados «islamólogos», como a muçulmana Dalia Mogahed e John Esposito, que não confundem uma maioria silenciosa e devota de 1200 milhões de fiéis com uma minoria ruidosa e fanática, que continua a matar em nome do seu profeta, Maomé, e de Deus/Allah.

Para quem pretende perceber o Islão, esta é uma obra fundamental. Para um Bahá'í, este livro é de referência obrigatória, pois ajuda a compreender o mundo e as circunstâncias em que nasceu a Fé Bahá'í.

domingo, 14 de março de 2010

Sócrates reafirma "respeito absoluto" pela liberdade religiosa



No Jornal I:

O primeiro ministro, José Sócrates, reafirmou hoje o "respeito absoluto" do governo pela liberdade religiosa e pela neutralidade do Estado face à crença de cada cidadão, durante uma cerimónia que assinalou o 25º aniversário da Mesquita de Lisboa.

José Sócrates destacou o contributo da comunidade islâmica para "o engrandecimento e reforço da tradição humanista e universalista portuguesa".

Para o primeiro ministro, a presença de uma forte Comunidade Islâmica em Portugal é "um fator de enriquecimento cultural, que tem sido exemplo permanente de integração harmoniosa e enriquecedora".

Salientando que o Estado português é laico, mas a sociedade não, Sócrates afirmou que "um princípio fundamental na acção do governo é o respeito absoluto pela liberdade religiosa e pela neutralidade do Estado face à crença religiosa de cada cidadão".

"Felizmente há cada vez mais a consciência de que o progresso, a paz e um futuro melhor só serão possíveis através do aprofundamento do diálogo intercultural e do diálogo ecuménico, através de uma aliança de civilizações que ponha o melhor de cada uma ao serviço do bem comum", considerou.

O presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa, Abdool Karim Vakil, afirmou que "a liberdade religiosa deu uma nova dimensão ao relacionamento entre crentes de todas as fés" em Portugal.
"Tanto mais que a Lei da Liberdade Religiosa não é uma lei inflexível", salientou, "permitindo uma permanente adaptação à realidade portuguesa de hoje que é cada vez mais pluriétnica, pluricultural e plurireligiosa", disse.

"Posso afirmar com orgulho que, pelo menos em termos europeus, Portugal é um exemplo de convivência harmoniosa e fraterna entre todos os seus cidadãos, independentemente da sua religião, etnia ou cultura", adiantou.

Abdool Karim Vakil exemplificou com o esforço para adaptar a assistência hospitalar e as prisões aos requisitos especiais "a observar na alimentação e na assistência religiosa aos doentes e reclusos" das diversas religiões.

A Mesquita Central de Lisboa é a primeira construída de raiz desde a expulsão dos muçulmanos e judeus de Portugal, no século XV.

A sua primeira fase de construção foi terminada a 29 de março de 1985, há 25 anos.

Durante a cerimónia comemorativa do aniversário receberam diplomas de homenagem o Banco Alimentar contra a Fome, a Cáritas Portuguesa, a Autoridade Nacional de Protecção Civil, a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento, o comandante António Homem Gouveia e o primeiro ministro José Sócrates.


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COMENTÁRIO: Tive o privilégio de estar presente nestas comemorações e devo salientar a simpatia com que fui recebido. Como nota de curiosidade, retive que o Dr. Vakil, na sua intervenção, referiu explicitamente a participação da comunidade Bahá'í no grupo de trabalho para a assistência religiosa aos doentes e reclusos. Também na documentação distribuída se encontrava uma página com citações de escrituras de diversas religiões, onde se encontrava uma citação de Bahá'u'lláh.

domingo, 27 de dezembro de 2009

A tolerância é um valor absoluto

No Editorial de ontem do Público.
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E se fosse ao contrário? O peso da reciprocidade nas relações entre pessoas, países ou religiões sempre foi, e é, fundamental para explicar a sua natureza pacífica ou conflitual. E se, em lugar dos muçulmanos na Suíça que querem adornar as suas mesquitas com minaretes, se desse o caso de uma comunidade cristã no Egipto pretender erigir um lugar de culto? O trabalho de Margarida Santos Lopes (...) mostra-nos o outro lado do espelho e revela-nos como esse direito básico seria recusado. Quando se ouvem as declarações indignadas de altas figuras do mundo islâmico a vituperar o referendo na suíça só podemos, pois, reparar que nesta relação não há reciprocidade e que só a hipocrisia pode justificar estas críticas.

Quer isto dizer que devemos apaziguar o nosso desconforto pelo que se passou na Suíça? Não, pelo contrário. Por muito que a perseguição a minorias religiosas persista no Irão ou na Indonésia, não se pode aceitar que essa realidade justifique a intolerância dos suíços.  A Europa sofreu demais com guerras religiosas para não ter aprendido a conviver com as diferenças. Apesar do relativismo e do politicamente correcto, é essa forma de ver o mundo, aberta e sem dogmas, que sublina a superioridade dos valores ocidentais.

Para ler o trabalho de Margarida Santos Lopes:
* Quando o apartheid religioso critica a islamofobia
* Religiões Proíbidas

sábado, 14 de novembro de 2009

A OCI tem medo da Liberdade de Expressão

Há já alguns anos que a Organização da Conferência Islâmica (OCI) vem insistindo, em diversos fóruns internacionais, na necessidade de criar leis internacionais contra a «difamação das religiões»; a iniciativa não é inocente, tanto mais que nas propostas apresentadas, a única religião mencionada é o Islão.

Contra as propostas da OCI têm-se manifestado diversas organizações humanistas, cristãos, judaicas, bahá'ís e muçulmanas, considerando transformariam as críticas ao Islão numa violação da lei internacional. Além disso, esta lei internacional legitimaria as leis nacionais anti-blasfémia em países que perseguem minorias religiosas, como o Irão e o Afeganistão.

A INICIATIVA DA OCI

O episódio mais recente desta guerra diplomática foi uma carta da OCI para a Comissão Ad-Hoc da ONU encarregada de definir normas anti-racismo, onde se reafirmam a necessidade de criminalizar as críticas ao Islão, e se classificam alguns países ocidentais (Dinamarca, Holanda e Reino Unido) como violadores dos direitos humanos; essa mesma carta ignora o tema da repressão e discriminação de minorias religiosas em países muçulmanos.

A carta da OCI argumenta que o caso das caricaturas do Profeta Maomé foi uma forma de "violência psicológica" que deveria ser criminalizáveis de acordo com a lei internacional. Acrescenta também que já existem diversas escolas de pensamento no Islão que a troca de ideias sobre o Islão apenas deve ocorrer no seio das suas correntes doutrinárias; ataca os países ocidentais que defendem a liberdade de expressão com fins maléficos; condena a Declaração Universal dos Direitos Humanos por ser incapaz de assumir uma atitude de defesa ao abordar a situação dos grupos religiosos minoritários.

A DEFESA DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Vários governos e mais de 100 ONGs têm-se manifestado contra as propostas da OCI. Alguns críticos afirmam que estas propostas têm as suas raízes na Declaração Islâmica dos Direitos Humanos que proclama que todas os direitos estão sujeitos à lei da sharia e que a sharia é a única fonte de referência par aos direitos humanos.

O Departamento de Estado Norte-Americano também se manifestou contra a proposta da OCI junto da terceira comissão da ONU: "Esta resolução está incompleta, na medida em que não aborda situação de todas as religiões", afirmou Leonard Leo. "Acreditamos que qualquer resolução sobre este tópico deve incluir a menção da necessidade de uma mudança nos sistemas educativos que promovem o ódio às outras religiões, assim como o problema dos media estatais que descrevem de forma negativa qualquer religião".

Hillel Heuer, director executivo da UN Watch, afirmou que esta proposta de resolução "é um passo numa campanha perversa lançada por países muçulmanos na ONU para declarar que a primeira vítima dos ataques de 11 de Setembro foi o Islão. Na verdade as vítimas fora 3000 americanos e outros, e aqueles que perpetraram o assassínio em massa agiram em nome de uma ideologia islâmica radical".

PETIÇÃO: O QUE É A DIFAMAÇÃO DA RELIGIÃO ?

Entretanto, foi lançada uma petição online (WhatIsDefamationOfReligion.com) contra esta proposta da OCI. Na petição afirma-se que "as resoluções das Nações Unidas sobre difamação de religiões são incompatíveis com as liberdades individuais fundamentais para o livre exercício e expressão pacífica de pensamentos ideias e crenças"

"Ao contrário das tradicionais leis anti-difamação, que punem as falsas declarações que realmente atacam pessoas, as medidas que proíbem a «difamação das religiões» punem a crítica pacífica das ideias. Adicionalmente, o conceito de difamação das religiões é fundamentalmente inconsistente com os princípios fundamentais defendidos pelos documentos fundadores pelas Nações Unidas, incluindo a Declaração Universal dos direitos Humanos, que afirmam a protecção dos direitos individuais, em vez das ideias" lê-se na petição.

Jay Sekulow, director do American Center for Law and Justice, e promotor da petição, foi das primeiras pessoas a alertar para o perigo desta declaração: "Dificilmente poderíamos ter uma base mais ampla e diversificada [para lançar a petição]. Penso que quanto mais a OCI se empenhar na resolução anti-difamação, mais ampla será a oposição. É cada vez mais claro que se trata de um «Acto de Protecção Islâmica»"

Entre as mais de 100 organizações governamentais são signatárias da petição encontram-se: a Liga Anti-Difamação, o American Islamic Congress, o American Islamic Forum for Democracy, o American Jewish Congress, a Association of Christian Schools, a Comunidade Internacional Baha’i, a the American Humanist Association, o Center for Islamic Pluralism (Washington), a Christian Solidarity Worldwide, a Dalit Freedom Network e a United Sikhs and the Turkish Women's Rights Organization Against Discrimination.


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SOBRE ESTE ASSUNTO:
Groups protest UN debate on 'defamation' of religion (Earthtimes.org)
NGOs sound alarm over UN 'defamation of religion' agenda (Christian Today)
Over 100 groups protest UN debate on 'defamation of religion' (SifyNews)
OIC defends "defamation of religion” proposal in letter to UN (Europe News)
Global groups reject Islam 'protection' plan (WND)
"Defamation of Religions" vote today at the General Assembly (UN Watch)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O princípio da Liberdade Religiosa



Barack Obama, hoje na Universidade do Cairo:
O quinto assunto que devemos abordar juntos é a liberdade religiosa.

O Islão tem uma orgulhosa tradição de tolerância. Vemo-lo na história da Andaluzia e de Córdoba durante a Inquisição. Vi-o em primeira mão como criança na Indonésia, onde cristãos devotos praticam a sua religião livremente num país predominantemente muçulmano. Esse é o espírito que precisamos hoje. As pessoas em todos os países devem ser livres de escolher e viver a sua fé baseada na persuasão da mente, coração e alma. Esta tolerância é essencial para a religião prosperar, mas ela está sendo desafiada de muitas formas diferentes.

Entre alguns muçulmanos, há uma tendência perturbadora para medir a fé de uma pessoa pela rejeição da fé de outro. A riqueza da diversidade religiosa deve ser acolhida - seja para Maronitas do Líbano ou para Coptas no Egipto.

Só faltou mesmo referir os Bahá’ís no Irão e no Egipto!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Angola: Governo preocupado com expansão do islamismo

Notícia da agência Angop publicada no site AngoNotícias.
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O Governo angolano está preocupado com a expansão do islamismo e suas consequências na organização e estrutura da sociedade angolana, afirmou hoje, em Luanda, a ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva. Dirigindo-se aos deputados da sexta comissão da Assembleia Nacional, que visitaram as instalações do Instituto Nacional de Estudos Religiosos (INAR), Rosa Cruz e Silva manifestou a sua preocupação face ao crescimento e aumento de seguidores desta religião em Angola.

"A nossa preocupação prende-se com a expansão do islamismo e as consequências que podem provocar na organização e estrutura da sociedade angolana", disse.

Por seu turno, a directora do Instituto Nacional para Assuntos Religiosos (INAR), Fátima Viegas, adiantou estar em perspectiva um estudo para se determinar até que ponto o islamismo está enraizado na sociedade angolana.

"O Islão é uma situação que está a preocupar na medida que temos recebido da população algumas lamentações e queixas relativas a muitas jovens que se têm tornado escravas depois de casadas com pessoas que professam esta doutrina. As informações que recebemos avançam que estas jovens não são companheiras, mas sim escravas, sendo obrigadas a sujeitarem-se a hábitos que em nada têm a ver com os costumes do povo angolano”, asseverou Fátima Viegas.

Como sabemos, acrescentou a responsável, uma das preocupações do Estado é a protecção do cidadão, sendo, portanto, uma das razões que leva o INAR, em particular, a juntar meios e esforços para um estudo profundo sobre o fenómeno em causa.

Segundo disse, o que se passa não é a hostilização do islão como doutrina, mas somente a prática de actos nada benéficos para a sociedade angolana.

“Embora professada por diversas pessoas, maioritariamente oriundas de países árabes, o Islão é um fenómeno estranho à cultura angolana e não tem raízes históricas na tradição do país, embora seja uma realidade actual. Se as pessoas estão a sentir-se lesadas é preciso uma resposta e é isto que o Ministério da Cultura, através do INAR vai fazer”, pontualizou.

O que se pretende com tal estudo, adiantou Fátima Viegas, é saber "in loco" o que se passa, quais são as ligações e dar uma resposta.

Depois da visita ao INAR e às instalações do Ministério da Cultura, os deputados mantiveram um encontro com os seus responsáveis, encabeçado pela ministra Rosa Cruz e Silva, de quem receberam informações detalhadas sobre a vida cultural do país.