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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Ainda as caricaturas de Maomé (1)

Um episódio menor – e ridículo aos nossos olhos -, mostrou esta semana como esse ódio ganha força e aumenta o fosso entre o Ocidente e o mundo muçulmano. O caso dos "cartoons" sobre Maomé, publicados em Setembro por um jornal dinamarquês, serviu aos radicais para incendiarem a opinião publica muçulmana. Nas nossas sociedades laicizadas, o pretexto afigura-se patético e revela apenas o propósito político de exacerbar os ânimos contra o Ocidente. (...)

Mas, à margem do caso em concreto, que os extremistas empolaram de forma absurda e inaceitável para incitar os muçulmanos à revolta, não era mau que ponderássemos sobre o mau uso que, por vezes, se faz da liberdade de expressão. Ela está erigida em valor sacrossanto numa sociedade à qual o sagrado é cada vez mais estranho e que foi perdendo a noção dos limites, dos valores, e não raro, da razoabilidade e do bom senso.

Eu não teria escrito nem publicado "cartoons" a troçar com Maomé ou com a Nossa Senhora de Fátima. Porque respeito as crenças e sensibilidade religiosa dos outros, por mais absurdas que elas me possam parecer. Mas no meu código de valores – que é a liberdade – não proíbo que outros o façam, porque a falta de gosto ou de sensibilidade também têm liberdade de existir. E depois as pessoas escolhem o que adoptar. (...)

É por isso que eu, que todavia sou um apaixonado pelo mundo árabe e islâmico, quanto toca ao essencial, sou europeu – graças a Deus. Pelo menos, enquanto nos deixarem ser e tivermos orgulho e vontade em continuar a ser a sociedade da liberdade e da tolerância.
  • Miguel Sousa Tavares, Expresso, 04-Fev-2006

Qual é a fronteira exacta entre a crítica ao fundamentalismo religioso e o insulto gratuito e permanente a uma cultura?

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Jesus e Maomé: Palavras Comuns

O meu texto de hoje na Terra da Alegria.
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Quando passei pelo liceu, frequentei as aulas de Moral e Religião. Houve um dos anos lectivos em que a professora perguntou que temas gostaríamos de ver abordados. Alguém sugeriu que se falasse de outras religiões. E assim foi. Recebemos um pequeno livro com a declaração do Vaticano II sobre as religiões não-cristãs, e durante algumas semanas ouvimos falar sobre Buda e Maomé. A mais de vinte anos de distância dessas aulas percebo que a experiência de vida da professora (tinha passado vários anos no Vietname e, provavelmente, era uma entusiasta do Vaticano II) permitiram-lhe a abertura mental necessária para aquelas aulas sobre outras religiões.

Assim, é com naturalidade que subscrevo a ideia do Miguel Marujo que na última edição da Terra da Alegria sugeriu que as aulas de Educação Moral e Religiosa fossem um espaço de aprendizagem sobre cada uma das religiões. Fazer deste espaço lectivo, um momento de diálogo inter-religioso, de aprendizagem das semelhanças e diferenças nos ensinamentos das grandes religiões mundiais, é uma forma da escola dar o seu contributo para a construção de uma sociedade multicultural onde as diferentes comunidades religiosas convivem em harmonia.

A este propósito, e para todos os apoiantes do diálogo inter-religioso, gostaria de chamar a atenção para um livro recentemente pela editora Estrela Polar intitulado Jesus e Maomé: Palavras Comuns. Da autoria de um judeu, e prefaciado por um muçulmano e por um cristão, o livro apresenta as semelhanças entre os ensinamentos de Jesus e os ensinamentos de Maomé.

Organizado por temas - como Deus, a Fé, o Amor, a Sabedoria, a Lei, o Pecado, e a Jihad - o livro vai expondo sucessivas citações de palavras de Jesus e Maomé; o paralelismo é impressionante, e torna-se evidente que estas duas religiões possuem o mesmo fundamento espiritual e moral (não obstante algumas diferenças de ensinamentos que são apontadas nas últimas páginas).

Para despertar a vossa curiosidade, aqui ficam algumas citações:

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Amai os vosso inimigos e orai pelos que vos perseguem para poderdes ser filhos do vosso Pai no céu. (Mateus 5:44-45)

Não vos odieis uns aos outros e não tenhais inveja uns dos outros e não vos boicoteis uns aos outros, e sede servos de Deus como irmãos. (Hadith de Bukhari 78:57)

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Se alguém te bater na face direita, vira para ele também a esquerda. (Mateus 5:39)

O homem forte não é o bom lutador; o homem forte é somente aquele que se controla quando está irado. (Hadith de Bukhari 73:135)

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O céu e a terra perecerão, mas as Minhas palavras nunca perecerão. (Marcos 13:31)

Tudo na terra perecerá, mas o rosto do vosso Senhor permanecerá resplandecente de majestade e glória. (Alcorão 55:26-27)

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Porque me chamas bom? Ninguém é bom, a não ser Deus. (Marcos 10:18)

Diz, Sou apenas um homem como vós. Foi-me revelado que o vosso Deus é um Deus. Que pratique o bem aquele que espera encontrar o seu Senhor. (Alcorão 18:110)

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É mais fácil para um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que para um homem rico entrar no reino de Deus. (Marcos 10:25)

Para aqueles que rejeitas os Nossos sinais e arrogantemente lhes viram as costas, as portas do céu não serão abertas, nem entrarão pelo paraíso enquanto o camelo não passar pelo buraco da agulha. (Alcorão 7:40)

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Embora vejam, não vêem; embora ouçam, não ouvem nem compreendem. (Mateus 13:13)

Eles têm corações com os quais não compreendem, e têm olhos com os quais não vêem, e têm ouvidos com os quais não ouvem. (Alcorão 7:179)

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E, quando orares, não sejas como os hipócritas, pois eles adoram orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelo homens. (Mateus 6:5)

Os hipócritas querem enganar Deus, mas Ele é que os enganar! Quando se levantam para orar, levantam-se descuidadamente, para serem vistos pelos homens e lembram-se pouco de Deus. (Alcorão 4:142)

quinta-feira, 21 de julho de 2005

Muhammad and the Course of Islam

Quando, a propósito dos atentados de Londres no início deste mês, sugeri a leitura de um bom livro sobre o Islão, houve quem me perguntasse qual seria o melhor livro sobre o assunto. É difícil dizê-lo, pois o Islão (como qualquer outra religião) pode ser apresentado de muitas perspectivas. O livro que mais me fascinou sobre a religião muçulmana foi Muhammad and the Course of Islam, de Hasan Balyuzi.

O livro publicado em 1976 (e reeditado em 2002), não refere obviamente os mais recentes eventos e transformações associados ao Islão. Mas o facto de apresentar, numa linguagem não académica, uma biografia detalhada de Maomé e uma descrição da história do Islão e da civilização árabe desde a sua fundação até ao sec. XIX, fazem dele um excelente instrumento para melhor compreendermos a religião muçulmana.

O livro está disponível na Amazon e na George Ronald, e - tanto quanto sei - não existe ainda uma tradução portuguesa.

sexta-feira, 1 de julho de 2005

O Islão e as Minorias

O texto seguinte é uma tradução/adaptação (feita à pressa) de um artigo que surgiu recentemente no Iranian.com. É de autoria de Christopher Buck, professor na Michigan State University. Este texto apresenta apenas os parágrafos iniciais de um artigo mais vasto intitulado Islam & minorities: The case of the Bahais. O texto completo desse artigo encontra-se aqui (em inglês) e aqui (em persa).

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De todas as minorias religiosas no Médio Oriente, os Baha'is são tipicamente os menos capazes de praticar livremente a sua religião. Com algumas excepções notáveis, no Médio Oriente moderno, e nos países Muçulmanos em geral, os baha'is não podem promover abertamente a sua religião.

No entanto, os governos do Paquistão e do Bangla Desh permitem que os Baha’is realizem reuniões públicas, divulguem publicamente a Fé, criem centros baha’is, e elejam conselhos administrativos (conhecidos como "Assembleias Espirituais" nacionais ou locais). Além disso, no Paquistão, representantes de entidades governamentais têm comparecido ocasionalmente em eventos nos centros baha’is. E na Indonésia, após várias décadas de crescimento sereno, a religião está reconhecida legalmente e os seus aderentes são livres para eleger as assembleias espirituais (conselhos administrativos).

Na Turquia, a Fé Baha'i é legal há décadas. A Comunidade Baha'i também tem estatuto legal na Albânia e na maioria das nações da Ásia Central. Durante os últimos anos, uma vaga de artigos e diálogos surgidos nos media de língua persa nos Estados Unidos começaram a falar abertamente sobre a situação dos baha’is no Irão, tendo alguns predito que na futura sociedade civil iraniana, até os baha'is devem ter liberdade de religião. Além disso, vários académicos iranianos não-baha'is estão a começar a falar de uma conspiração de silêncio contra esta religião.

A evidência, na forma de feedback de ouvintes, mostra que uma vasta audiência no Irão ouve diariamente as emissões baha'is, em língua persa, por onda curta e satélite. No entanto, falar de assuntos de estado no que toca a governos que implementaram medidas anti-baha’i é algo sensível e deve ser abordado com um certo grau de delicadeza.

Criticar um estado islâmico onde existe um pequeno enclave baha’i pode literalmente pôr em perigo essa comunidade. A liberdade de religião que possam usufruir é precária. Na melhor das hipóteses, os baha'is poderão levar uma existência virtualmente clandestina. Na pior, nos casos extremos em que as instituições foram proscritas por lei, os baha'is dissolveram os seus conselhos administrativos eleitos em obediência ao princípio baha'i de obediência aos "governos justos" e à lei do país.

Como os baha'is estão proibidos de agir contra os seus respectivos governos, seria imprudente – e até perigoso – fazer um inventário da situação país por país. No entanto, a Republica Islâmica do Irão é um caso especial, pois as suas políticas anti-baha'i são notórias e foram abertamente condenadas pela comunidade internacional durante quase um quarto de século. Esta notoriedade, tal como no caso Salman Rushdie, tem resultado em muita pressão negativa sobre o Irão, enquanto país, e, infelizmente, sobre o Islão, enquanto religião, apesar da prática do Islão no Irão ser peculiar devido à sua forma de Xiismo.

Este artigo mostrará que "a questão baha'i" levanta sérias questões no Ocidente sobre o quão "tolerante" o Islão realmente é. Poder-se-á dizer que as percepções populares do Islão serão crescentemente moldadas pela forma como os países Muçulmanos tratam as suas minorias, especialmente as minorias religiosas. O caso Baha'i, com a possível excepção dos Ahmadiyyah no Paquistão, é o primeiro caso de teste para as pretensões islâmicas de tolerância religiosa.

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ACTUALIZAÇÃO- Exemplos de artigos recentes de autoria de iranianos onde é feita alguma referência à situação dos baha’is no Irão:

* Public Letter for the attention of G-8 summit in Scotland, pelo SMCCDI (estudantes iranianos)
* Why Allah, Oh Why? por Ahmed Simon

terça-feira, 23 de novembro de 2004

Religião Bahá'í e Islão

O Orlando deixou num comentário a seguinte questão: "o Povo de Bahá tem alguma coisa a ver, ainda que remotamente, com o Islão? Vai "beber" alguns ensinamentos ao Islão? Muita gente pensa que é uma evolução do islamismo." Aqui fica a minha resposta

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A relação que há entre a religião bahá'í e a religião islâmica é muito semelhante à que existe entre o judaísmo e o cristianismo; o cristianismo nasceu num meio judaico, mas é uma religião independente do judaísmo, tendo inclusive "herdado" alguns dos seus livros sagrados. A religião bahá'í nasceu num meio islâmico, mas não é resultado de um cisma no islão. Tem os seus próprios livros sagrados, leis, ensinamentos. A sua estrutura administrativa (em que não existe clero) é totalmente diferente das outras religiões.

Por estes motivos costuma-se dizer que a religião bahá'í é uma religião independente.

Hoje em dia os bahá'ís encontram-se espalhados um pouco por todo o mundo. Os países onde existem mais crentes são a Índia, o Irão, a Bolívia, o Uganda, os Estados Unidos. Desta forma é difícil dizer que os bahá'ís culturalmente são mais orientais ou ocidentais. Creio que englobamos todas as culturas.

É evidente que, mesmo sendo uma religião independente, não foi estanque a influências culturais do meio onde nasceu (tal como o cristianismo assimilou várias coisas do judaísmo). As escrituras bahá'ís estão escritas em árabe e persa; nestas encontram-se, ocasionalmente, algumas expressões e termos que são mais fáceis de entender para quem provém de um meio islâmico. No entanto, também se encontram com frequência referências a temas cristãos e mesmo à Bíblia.

Há quem tenha uma visão "simplista" da religião e a considere apenas um conjunto de instituições e leis (do tipo "não se pode fazer isto" ou "fazer aquilo é pecado"); sob essa perspectiva "naif" é fácil pensar existe uma influência islâmica na religião bahá'í só pelo facto de nos ensinamentos bahá'ís está prescrito o jejum (durante 19 dias) e também devido ao facto dos bahá’ís não tomarem bebidas alcoólicas.

Para obter informação isenta sobre a religião bahá'í recomendo o site da BBC.

Actualização

O site Islam and the Baha'i Faith tem informação mais detalhada e aprofundada sobre este assunto.

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

Cristo e Maomé

Pediu-me o Paulo para que desse a minha opinião sobre as diferenças entre Cristo e Maomé. Aqui vai.
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Segundo os ensinamentos bahá'ís, existem três níveis de realidade: Deus, os Profetas, e a Criação. Deus é inacessível e incognoscível para a Criação. Para conhecer a vontade e os ensinamentos de Deus, apenas o podemos fazer através dos Profetas; entre estes profetas estão Abraão, Moisés, Jesus, Maomé, Zoroastro, Krishna, Buda, o Báb e Bahá'u'lláh.

Segundo a religião bahá'í, Deus tem enviado ciclicamente Profetas à humanidade com o objectivo de nos fazer evoluir. Esses Profetas surgem em diferentes épocas com ensinamentos adequados à capacidade e necessidades de diferentes povos. Poderíamos fazer a analogia com uma escola: enquanto frequentámos a escola fomos tendo uma sucessão de professores que nos ensinaram matérias diferentes; o conteúdo das suas aulas e a forma como iam leccionando evoluía de ano para ano, tal como nós, alunos, íamos evoluindo em maturidade e necessidades de aprendizagem.

À semelhança de um bom sistema de ensino, onde um professor nunca nega o que disseram os professores dos anos anteriores, e nos prepara para os anos seguintes, também os Profetas fundadores das grandes religiões mundiais nunca negam o que foi dito pelos Profetas anteriores e sempre nos preparam para uma nova fase da nossa evolução.

Os Profetas têm dois tipos de ensinamentos: espirituais e sociais. Os ensinamentos espirituais são comuns a todas as religiões; abordam questões espirituais, como a existência de Deus, a adoração a Deus, o respeito pelos Seus Mensageiros, o amor ao próximo, entre outras coisas. Os ensinamentos éticos e sociais variam consoante as necessidades de cada povo e de cada época. Por exemplo, Cristo proibiu o divórcio, como resposta à deturpação da lei do casamento que os hebreus do Seu tempo faziam; Maomé proibiu o consumo de carne de porco, pois na Arábia daquele tempo as condições de higiene existentes tornavam muito perigoso para a saúde o consumo desse tipo de alimento.

Paralelismo entre as duas religiões

Sob esta perspectiva conseguimos perceber que os ensinamentos dos Profetas fundadores do Cristianismo e do Islão concordam no essencial e apenas divergem no acessório. Além disso, as duas religiões serviram de base a duas civilizações notáveis, que muito contribuíram para o progresso da humanidade (a herança científica e cultural que cada uma desta civilizações nos deixou é verdadeiramente extraordinária).

Tanto o Cristianismo como o Islão acreditam em Deus e na Sua orientação moral e religiosa para o ser humano. Parte desta orientação já existia no Antigo Testamento e tornou-se indispensável na base do pensamento cristão. Os árabes não tinham essa base e por isso o Alcorão está tão cheio de ensinamentos éticos e sociais. O Novo Testamento leva a mensagem divina mais além: "Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem" (Mt5:44). Jesus não Se limitou a ensinar isto; praticou-o até à morte.

A doutrina fundamental do Islão assenta na afirmação da unidade e transcendência de Deus. Deus é o Criador Supremo; a Sua natureza é descrita por vários atributos como "Misericordioso", "Compassivo", "Omnisciente", "Todo-Poderoso", "Sublime", "Todo-Generoso", "O que Perdoa", "O que Ouve" (o início de cada capítulo do Alcorão inclui vários desses atributos). O ser humano deve estar grato ao Criador pois todo o poder que possui foi concedido por Deus.

Talvez a maior diferença teológica esteja no facto do Islão não aceitar o conceito de Deus Trinitário. Deus é Uno; não devemos associar-Lhe outros seres, nem construir imagens d'Ele. Neste aspecto, os ensinamentos bahá'ís estão muito próximo do Islão.

Há uma característica comum a estas duas religiões com a qual não estou de acordo. Tanto os muçulmanos como os cristãos acreditam que o Profeta fundador da sua religião foi o último e depois d'Ele não houve outros profetas. Os Cristãos acreditam que depois de Jesus, a humanidade tem sido guiada pelo Espirito Santo (que se manifesta de diferentes formas); os muçulmanos agarram-se à sua interpretação da expressão "Sêlo do Profetas". Eu acredito que houve mais profetas, nomeadamente o Báb e Bahá'u'lláh, e mais virão. Também acredito que a humanidade continuará a evoluir e Deus continuará a guiar-nos da mesma maneira de sempre.

Referências a Cristo no Alcorão

Um dos aspecto impressionante no antagonismo entre cristãos e muçulmanos é o desconhecimento que, regra geral, o muçulmano tem do cristão e o cristão tem do muçulmano. O muçulmano, numa interpretação literal do Alcorão, acredita que os livros sagrados do cristianismo foram alterados; o cristão ignora as palavras de Maomé sobre Jesus Cristo.

Jesus é mencionado em 15 capítulos do Alcorão; nesse livro sagrado, o Seu nome é referido em 93 versículos (de um total de mais de 6200). Nesse Livro Sagrado o nome de Jesus é mencionado com enorme reverência: por onze vezes é referido como o "Messias". É também chamado "Filho de Maria", "um sinal para todos os seres" (21:91) indica-se que a Sua família foi eleita "acima dos mundos"(3:30-33) e que Ele próprio foi enviado "para que façamos dele um sinal para os homens" (19:21).

No entanto, o Alcorão não descreve todos os Seus ensinamentos, nem relata a história da Sua paixão. Apesar de Lhe serem atribuídos muitos títulos, Ele é apenas um numa sequência de Profetas que Deus enviou à humanidade (e os ensinamentos sobre os Profetas são apenas uma pequena parte do Alcorão).

Concluindo

No Islão e no Cristianismo houve épocas brilhantes e episódios trágicos. Houve heróis e loucos; houve quem vivesse a Mensagem Divina até às ultimas consequências; houve quem recordasse apenas o Mensageiro e esquecesse a Mensagem. Invocando Jesus ou Maomé houve quem cometesse actos de enorme bravura e houve quem cometesse as maiores barbáries. Jesus e Maomé conseguiram transformar a alma de milhões de pessoas, inspirando a realização dos mais puros e nobres actos entre os seres humanos; mas Jesus e Maomé não podem ser culpados pelos actos tresloucados de alguns que se dizem Seus seguidores.

Hoje em dia, é impossível falar do Islão ou do Cristianismo como comunidades religiosas homogéneas; em ambas encontramos as mais diversas tendências e correntes teológicas; em ambas encontramos atitudes progressistas e conservadoras. Pessoalmente, temo que este trágico despertar do radicalismo e extremismo islâmico ofusque prolongadamente a antiga glória da civilização muçulmana. Quanto ao Cristianismo, e talvez por ser filho de pais católicos, vou acompanhando com atenção a um certo cristianismo que me parece a caminho da renovação; grandes pensadores e activistas cristãos (Kung, Boff, Samuel Ruiz) têm vindo a dar uma nova leitura ao Evangelho à luz das condições e necessidades do mundo.

terça-feira, 14 de setembro de 2004

O verdadeiro Islão

O mapa seguinte ilustra a localização e o tipo de ataques que a comunidade bahá'í no Irão tem sofrido nos últimos 25 anos.



As notícias dos atropelos aos direitos humanos no Irão já nem são grande novidade. O que espanta é que as atitudes do governo iraniano possam de alguma forma ser confundidos com o Islão. Os que defendem o fundamentalismo islâmico, ou os que o consideram que todo o Islão é fundamentalista, bem se podiam recordar as palavras do poeta Ibn Arabi ao descrever o que é a sua religião:

O meu coração abriu-se a todas as formas: é uma pastagem para gazelas, um claustro para monges cristãos, um templo de ídolos, a Caaba do peregrino, as tábuas da Tora e o Alcorão. Pratico a religião do Amor; qualquer que seja a direcção em que as caravanas avancem, a religião do Amor será sempre o meu credo e a minha fé.
Onde está o verdadeiro Islão? O que aconteceu ao fulgor antigo da civilização islâmica? Onde estão os Ibn Arabi de hoje?

sexta-feira, 21 de maio de 2004

Posts sobre o Islão

Excelentes, os posts do Guia dos Perplexos sobre o Islão! Recomendo vivamente a leitura dos posts Compreender o Islão - o Sufismo e Um conto de Rumi.

Parabéns José!

Desulpem a ignorância, mas alguem me pode sugerir um blog islâmico (em português) com coisas semelhantes?

segunda-feira, 5 de abril de 2004

Muro de Preconceitos

Com a queda do Muro de Berlim, caiu uma das maiores aberrações políticas do século XX. Um muro é um sinal de divisão, de desconfiança e de potencial conflito. Aquele muro era um dos símbolos de uma grande divisão entre dois sistemas políticos antagónicos; regozijámo-nos com o seu desaparecimento.

Mas no momento da queda do muro de Berlim, um outro muro ia sendo erguido. Trata-se de um muro de preconceitos e desconfianças entre as sociedades ocidentais e os países de maioria muçulmana. Desinformação e ignorância de ambos os lados têm facilitado a sua construção. Note-se que não é um muro de construção recente; nas últimas décadas foi reforçado e aumentado.

Foi reforçado pela revolução iraniana e foi aumentado pelo regime taliban no Afeganistão; a mais recente contribuição tem sido dada por grupos terroristas que se afirmam de inspiração islâmica.

Ao invocar uma pretensa inspiração islâmica nos seus actos, estes grupos terroristas arrastam para a mira da desconfiança ocidental milhões de cidadãos que professam a religião islâmica. Podemos ver como o uso da expressão terrorismo islâmico é utilizada e aceite por analistas políticos e pela comunicação social mais rigorosa. Hoje, palavras como árabe, muçulmano ou islão, tornaram-se sinónimos de "terrorismo" para o cidadão comum.

Nos tempos da guerra-fria, quem estava do outro lado do muro era impedido pelos regimes totalitários de aceder ao modo de vida ocidental; com este novo muro, quem estiver do outro lado do muro tem muita probabilidade de ser olhado com desconfiança e mesmo discriminado pelas autoridades dos países ocidentais (pode também ter dificuldade de se integrar nas sociedades ocidentais).

Há milhões de muçulmanos alvo de discriminação apenas devido às acções de grupos extremistas. São gente boa, honesta, que deseja ter uma vida tranquila e assegurar um bom futuro para os seus filhos. Apenas tiveram o azar de ter nascido no outro lado do muro...

Existem, obviamente, outros muros de preconceitos em relação a outras sociedades e culturas. Basta pensar nos africanos ou nos sul-americanos.

Para que expressões como Aldeia Global ou A Terra é um só país e a Humanidade os seus cidadãos se tornem uma realidade, estes muros não podem existir. Resta saber como os poderemos demolir...