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sábado, 14 de dezembro de 2019

Porque é que eu acredito que Cristo regressou

Por Vahid Houston Ranjbar.


Há muito tempo que as pessoas aguardam o regresso de Cristo ou o Dia do Juízo Final; isto significa que qualquer pretensão de cumprimento dessas profecias é vista com uma dose saudável de cepticismo.

Temos boas razões para esse cepticismo: muitas previsões de cataclismos, afirmações fantásticas, e pretensos messias que congregam seguidores ao seu redor e satisfazem com práticas e crenças bizarras. No entanto, na maioria das vezes, nada acontece.

Como Bahá’í, estou plenamente convicto que este momento extraordinário ocorreu em meados do século XIX.

Na verdade, vou ao ponto de dizer que o regresso de Cristo é quase óbvio para quem quer que examine as circunstâncias, a história e o carácter de Bahá’u’lláh, do Báb e dos Seus seguidores. O evento em si nada tem a ver com as visões espectaculares de estrelas a cair do céu e de um ser luminoso a descer fisicamente à Terra, como algumas pessoas imaginam. Este tipo de imagens populares e fantasistas fazem parte do entendimento comum sobre este evento – uma interpretação literal e não-metafórica do Novo-Testamento.

Longe deste cenário fantástico, os acontecimentos que rodeiam o nascimento da Fé Bahá’í são compreensíveis – pelo menos superficialmente.

Começou em 1844, quando um comerciante com 24 anos de idade, residente na cidade de Shiraz, na Pérsia, assumiu o título de “O Báb” – uma palavra árabe que significa “Porta”. Ele afirmou ser o Prometido do Islão Xiita e disse que vinha preparar o caminho de alguém ainda maior, tal como João Baptista fizera em relação a Cristo. Ele declarou que a Sua revelação anunciava o advento de “Aquele que Deus tornará Manifesto”, o mensageiro divino que cumpriria as profecias de todas as religiões do passado.

Surpreendentemente, o breve e tumultuoso ministério do Báb tem muitos paralelismos com a vida de Cristo. Ele reuniu ao seu redor muito discípulos devotos, realizou milagres (apesar do Báb ter proibido que fossem atribuídos milagres à Sua pessoa), pregou contra as instituições clericais corruptas e foi executado em 1850 por um governo que temia a rápida disseminação da sua Fé. Mais tarde, em 1863, um jovem da nobreza persa com o título “Bahá’u’lláh” – que significa “a glória de Deus” – que tinha apoiado a causa do Báb e sido encarcerado e exilado, declarou ser Ele o prometido pelo Báb:
Ó povos do mundo! O Sol da Verdade ergueu-se para iluminar toda a terra e espiritualizar a comunidade do homem. Louváveis são os seus resultados e frutos, abundantes são as evidências sagradas que provêm da sua graça. Isto é misericórdia perfeita e a mais pura dádiva; é luz para o mundo e todos os seus povos; é harmonia e camaradagem, amor e solidariedade; de facto, é compaixão e unidade, e deixarmos de nos vermos como estranhos; é sermos um, em completa dignidade e liberdade, com toda a terra. (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, p. 1)
Esta história notável – com heróis que preenchem a história inicial da Fé Bahá’í – contém os grandes arquétipos que permanecerão durante eras na consciência humana; são a base de mitos e lendas.

A história das religiões Babi e Bahá’í inclui heróis como Tahirih, considerada a primeira mártir moderna pela emancipação feminina; Mulla Husayn, o estudioso, investigador, primeiro discípulo e combatente heróico pela Causa do Báb; e, mais tarde, ‘Abdu’l-Bahá - o filho mais velho de Bahá’u’lláh, nascido na mesma noite em que o Báb fez a Sua declaração, em 1844 - cuja vida personifica e própria essência dos ensinamentos de Cristo. Vale a pena ouvir a narrativa das suas histórias, nem que seja apenas pelo drama e felicidade que evidenciam. Estas almas notáveis parecem ter sido esculpidas em mármore, enquanto estiveram neste mundo mortal. Toda uma geração de iranianos de todas as classes sociais foi afectada pela força das revelações do Báb e de Bahá’u’lláh; milhares deram as suas vidas preferindo não renunciar à sua nova fé.

Frequentemente, quando falo com pessoas com tendência mais fundamentalistas, o seu cepticismo centra-se em torno da natureza não-extraordinária do advento de Bahá’u’lláh – e do princípio Bahá’í de aceitação de outras dispensações religiosas como parte do plano de Deus. Mas se pensarmos um pouco sobre qualquer uma destas objecções, elas desmoronam-se sob uma análise lógica.

Primeiramente, suponhamos que, de facto, aparecia mesmo um ser luminoso descendo dos céus e afirmando ser Cristo. Se este acto aparentemente miraculoso fosse a característica distintiva do salvador, então como teríamos a certeza de que ele era o verdadeiro salvado, tendo em conta aquilo que sabemos sobre as possibilidades da tecnologia humana? Como dizia o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke, “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”. A possibilidade simples mortais tecnologicamente avançados criarem um tal espectáculo de efeitos especiais poderia ser posta de parte?

Se a capacidade para criar fenómenos físicos miraculosos é a medida para aceitar a autoridade espiritual, então não deveriam ser os cientistas os mais venerados, pois eles são os mais bem-sucedidos nesta área? Se lermos os Evangelhos nesta perspectiva, torna-se óbvio que o principal poder atribuído a Cristo e a base da Sua autoridade se baseiam nos atributos não físicos do amor, da bondade e compaixão que Ele manifestava – e não em supostos milagres que ele realizava.

As maravilhas físicas que a Bíblia descreve, podem ter alguma faceta histórica, mas são mais importantes se entendidas pelo seu conteúdo metafórico. Repetidamente, a espiritualidade é colocada acima da aparência física do mundo. Então faz sentido, que a realização ou o surgimento de “maravilhas físicas” não podem ser usadas como prova para justificar ou rejeitar pretensões.

Por outro lado, parece-me lógico que se Cristo regressou, Ele será o juiz final para decidir se as outras religiões são ou não inspiradas por Deus. É óbvio que o juízo humano sobre este assunto não poderá superar o Seu. Por exemplo, quando durante o Seu primeiro advento, Cristo quebrou o sábado ou proclamou a sua Divindade, aqueles que O rejeitaram com base nisso tiveram alguma razão? No fundo, aqueles que O rejeitaram e O crucificaram fizeram-no porque os Seus ensinamentos não pareciam estar de acordo com o seu entendimento das Escrituras.

Se um Cristão racional levar a sério a promessa do regresso de Cristo, não pode, de forma alguma, ter a arrogância de pensar que compreende a Escritura melhor que Deus ou o Seu Mensageiro. Primeiramente, deve libertar-se de ideias pré-concebidas sobre o que Ele dirá ou ensinará; caso contrário, irá rejeitá-Lo exactamente pelas mesmas razões que Ele foi rejeitado no Seu primeiro advento. Quando estiver livre desses preconceitos, pode reflectir na história e circunstâncias do nascimento da Fé Bahá’í e perceber como cumprem esta promessa de regresso.

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Texto original: Why I Believe Christ Has Returned (www.bahaiteachings.org)

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Vahid Houston Ranjbar é um físico que trabalha no Relativistic Heavy Ion Collider no Brookhaven National Labs.

sábado, 13 de julho de 2019

Eu sou...


No Evangelho de João, Jesus fala mais de Si próprio do que nos Sinópticos. Existem sete afirmações do tipo “Eu sou…” em que Jesus fala de Si próprio de forma simbólica. Todas estas afirmações descrevem Jesus como um caminho para Deus e para a vida eterna. Existem outros excertos no Evangelho de João em que Jesus afirma simplesmente “Eu sou”.

  • Eu sou o pão da vida (6:35)
  • Eu sou a luz do mundo (8:12)
  • Eu sou a porta (das ovelhas) (10:7,9)
  • Eu sou o bom Pastor (10:11,14)
  • Eu sou a ressurreição e a vida (11:25)
  • Eu sou o caminho, a verdade e a vida (14:6)
  • Eu sou a videira verdadeira (15:1)

É interessante notar que Bahá’u’lláh também Se descreve de forma simbólica. Aqui ficam alguns exemplos:

  • Eu sou o sol da Sabedoria e o Oceano do Conhecimento. Eu animo o débil e revivifico o morto. Eu sou a Luz que guia e ilumina o caminho. Eu sou o Falcão real no braço do Omnipotente. (Tabernacle of Unity, 1.14)
  • Eu sou Aquele Que a língua de Isaías enalteceu, Aquele com Cujo nome a Torá como o Evangelho se adornaram. (The Summons of the Lord of Hosts, ¶164)
  • Eu sou a Fidedignidade, e a sua revelação, e a sua beleza. Recompensarei quem quer que se ligue a Mim, e reconheça a Minha condição e posição, e se segure firmemente à Minha orla. Eu sou o mais grandioso ornamento do povo de Bahá, e a vestimenta da glória para todos os que estão no reino da criação. Eu sou o instrumento supremo para a prosperidade do mundo e o horizonte da confiança para todos os seres. (Tablets of Bahá’u’lláh, p.38)
  • Em verdade, Eu sou Aquele Que exorta com justiça. (Tablets of Bahá’u’lláh, p.78)
  • Nesta condição, se Ele Que é a Personificação do Fim dissesse: “Em verdade Eu sou o Ponto do Princípio”, Ele, de facto, estaria a dizer a verdade. (Gems of Divine Mysteries, ¶40)
  • Eu sou a verdadeira Fé de Deus entre vós. Acautelai-vos para não Me negarem. Deus manifestou-Me com uma luz que envolveu todos os que estão nos céus e todos os que estão na terra. (Epistle to the Son of the Wolf, p.96)
  • Eu sou a Donzela do Céu, que permanece no centro do coração do Paraíso, oculta por trás do véu do Todo Misericordioso e guardada dos olhos dos homens. (Days of Remembrance, Súriy-i-Qalam, ¶17)

E sobre estas formas como os Manifestantes De descrevem a Si próprios, Bahá’u’lláh afirma que todas as definições simbólicas são aplicáveis a qualquer um dos Mensageiros de Deus:

  • Se algum dos Manifestantes de Deus, que abrangem tudo, declarar: “Eu sou Deus!”, Ele, em verdade, diria a verdade, e nenhuma dúvida haveria sobre isso... E se algum deles pronunciasse a frase: “Sou um Mensageiro de Deus,” Ele também teria dito a verdade, a indubitável verdade. (Kitab-i-Iqan, ¶196)

sábado, 13 de abril de 2019

Onde está o Túmulo de Cristo?

Por David Langness.


Quem já leu e estudou a Bíblia tem conhecimento sobre as perseguições contra os profetas. Se querem uma prova, visitem a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém.

A citação seguinte é uma das muitas passagens da Bíblia que regista como os mensageiros de Deus são vítimas de escárnio e ultrajes:
O Senhor, Deus de seus pais, enviou-lhes constantemente advertências por meio de mensageiros, para os admoestar, pois queria perdoar ao seu povo e à sua própria casa. Eles, porém, escarneceram dos seus conselhos e riram-se dos seus profetas, até que a ira do Senhor caiu sem remédio sobre o seu povo. (2 Crónicas 36:15-16)
Cristo foi crucificado; os Seus discípulos esconderam-se, foram presos e estigmatizados; os Seus primeiros seguidores foram lançados aos leões. Os ensinamentos Bahá’ís homenageiam Cristo e os Seus seguidores, e recordam-nos que, com o passar do tempo, houve uma mudança radical na atitude em relação a eles:
Considerai como os Discípulos eram tratados. Enquanto eram vivos, as pessoas não queriam ter nada a ver com eles, mas depois sentiam-se profundamente glorificados se tivessem a mais remota ligação com eles. Tornaram-se respeitados e reverenciava-se até a terra que tinha sido tocada pelos seus pés. Agora as pessoas prostram-se perante os seus túmulos, mas eles foram perseguidos quando eram vivos. E naquele tempo as pessoas não gostavam de ser conhecidas como parentes destes Discípulos de Cristo (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 3, p. 84)
‘Abdu’l-Bahá pôs em destaque esta mudança profundamente irónica quando contou a história de um encontro com um grupo de peregrinos Cristãos no século XIX:
Quando viajava na Palestina, encontrei um local com solo pedregoso. Vi que algumas pessoas se juntaram em torno de uma pedra, beijando-a, chorando e suplicando. Perguntei: “O que é isto?” Disseram-me que, há muito tempo, os Apóstolos de Cristo, tinham passado por este local e se tinham sentado numa destas pedras, mas que existiam tantas pedras que não sabiam em quais é que os Apóstolos se tinham sentado. Por isso, prostravam-se perante todas para que, por ventura, pudessem encontrar e beijar a pedra certa. No seu tempo, as pessoas batiam-lhes, prendiam-nos, ridicularizavam-nos, expulsavam-nos das suas cidades e por fim, martirizavam-nos. Nem sequer davam autorização para que fossem sepultados nos seus cemitérios (Idem)
Durante dezoito séculos, os historiadores identificaram o tradicionalmente aceite túmulo de Jesus como o Santo Sepulcro da Igreja, em Jerusalém. Todos os dias, milhares de pessoas visitam essa igreja para rezar e meditar sobre a vida e os ensinamentos de Cristo. Mas sabia que um dos lugares mais sagrados no mundo costumava ser uma lixeira?

Sabemos pelas narrativas bíblicas que Cristo foi crucificado perto de Jerusalém, no exterior das muralhas da cidade, em Gólgota, o local onde se realizavam as execuções. Os historiadores e os investigadores descrevem que o corpo de Jesus não foi levado para a cidade após a sua execução, porque ele era considerado um impostor. Em vez disso, ele foi sepultado fora das muralhas da cidade e o seu túmulo foi uma cova de entulho.

Depois, o imperador Constantino, o Grande, subiu ao trono, tornou-se o primeiro monarca Cristão no século IV e pediu à sua mãe Helena que procurasse o local do túmulo de Cristo. Ela procurou e julgou tê-lo encontrado, e nesse local, o Bispo Macário de Jerusalém construiu a Igreja do Santo Sepulcro, que hoje se encontra no interior das muralhas alargadas de Jerusalém. Depois desta descoberta, o imperador Constantino enviou ao Bispo Macário a seguinte carta:
Tamanha é a graça do nosso Salvador, que nenhum poder de linguagem parece adequado para descrever a maravilhosa circunstância a que me refiro. Pois, que o monumento desta mais sagrada Paixão, durante tanto tempo enterrado debaixo do solo, tenha permanecido oculto durante tantos anos, até ter reaparecido aos seus servos agora liberto do afastamento daquele que era o inimigo comum de todos [o anterior imperador], é um facto que verdadeiramente ultrapassa toda a admiração…
‘Abdu’l-Bahá apresentou uma explicação fascinante sobre este processo e a construção da Igreja do Santo Sepulcro que salienta a perseguição contínua contra Cristo e os seus seguidores – até mesmo depois da sua morte:
Eles não queriam que o corpo de Sua Santidade Jesus Cristo fosse sepultado num cemitério Judaico. Os Apóstolos foram comprar um pequeno terreno e sepultaram-no. Depois os Judeus levaram para lá o seu entulho. Posteriormente os homens vieram e construíram ali uma grande igreja. Esta foi construída pela mãe de um dos Césares, passados trezentos anos. Até hoje, em alguns locais, é conhecida como a Igreja do Entulho. Este é, verdadeiramente, o Túmulo de Cristo. Era o local onde, no tempo de Cristo, todo o entulho da cidade era depositado. Durante trezentos anos continuou assim. Podemos ir lá hoje e ver a mudança maravilhosa que ali existe, ver a maravilhosa igreja que ali construíram, quantas jóias e pedras preciosas ali recolheram. A estátua de Cristo está adornada com todos os tipos de pedras preciosas, tal como a estátua de Maria e outras. Como é diferente a atitude das pessoas nos dias dos Manifestantes. Perseguem-nos, insultam-nos e ridicularizam-nos; colocam uma coroa de espinhos nas suas cabeças, espancam-nos na rua, cospem nas suas faces e por fim, crucificam-nos. Mas depois adoram as suas imagens, beijam o chão que eles pisam ou as pedras em que eles se sentam. Esta é a atitude das pessoas. (Idem)
Esta maravilhosa e desconcertante cadeia de eventos – Cristo teve uma crucificação ignominiosa, foi executado como um criminoso, e vilipendiado até depois de morto; e tornou-se um dos profetas mais reverenciados em toda a história humana, hoje seguido e adorado por mil milhões de pessoas. A sua perseguição na terra tornou-se, por fim, gloriosa.

Este mesmo processo repete-se em toda a história da religião, e agora repete-se na história da Fé Bahá’í:
Deus enviou todos os Seus Profetas ao mundo com um propósito, para semear amor e boa vontade nos corações dos homens, e para este grande objectivo eles sofreram e morreram. ('Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 108)
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Texto original: Where is Christ’s Tomb? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 12 de maio de 2018

O Evangelho de João e a Ressurreição de Cristo

Por Tom Tai-Seale.

...escreveste sobre o encontro com Sua Santidade Cristo após a crucifixão e que alguns apóstolos O perceberam mas não O reconheceram; mas reconheceram-No depois de partilhar o pão.

Sabe que o Espírito Messiânico e a emanação do Espírito Santo sempre se manifesta, mas a capacidade e aptidão (para o receber) é maior em alguns e menor noutros. Após a crucifixão, os apóstolos não tinham a capacidade e a aptidão para testemunhar a realidade Messiânica, pois estavam agitados. Mas quando encontraram constância e firmeza, a sua visão interior abriu-se, eles viram a realidade do Messias como manifesta. Pois o corpo de Cristo foi crucificado e desapareceu, mas o Espírito de Cristo está sempre a fluir sobre o mundo contingente e manifesta-se perante o olhar das pessoas convictas. (‘Abdu’l-Bahá, Tablets of Abdu’l-Baha, Vol. 1, pp. 193-194)
A narrativa de João sobre a ressurreição de Cristo é bastante semelhante à de Lucas, diferenciando-se por aumentar a frequência dos eventos e de acrescentar diálogos interessantes. Ele coloca Maria Madalena vendo Jesus no exterior do túmulo, mas inicialmente não O reconhecendo. Depois, quando ela percebe que é Jesus, é-lhe dito: “Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai.” (Jn 20:17) Seguindo o significado literal, isto significa que Jesus não morreu na cruz. Uma teoria especulativa e bastante complexa, surgiu entre os teólogos Cristãos para explicar como é que Jesus podia ter morrido sem ter ascendido ao Pai. Mas talvez João estivesse a tentar enfatizar que não nos devemos agarrar ao corpo físico de Jesus - que o corpo espiritual é mais importante.

Jesus e os Apóstolos
João regista dois momentos em que Jesus aparece e fica entre os discípulos, mencionando especificamente que nas duas ocasiões os discípulos estavam em casa com as portas trancadas. Na primeira vez, o discípulo Tomé não estava presente; por isso recusou-se a acreditar a menos que pudesse colocar os dedos nas feridas no corpo de Jesus. Quando Jesus aparece pela segunda vez, o pedido de Tomé é concedido e Jesus afirma: “Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram.” (Jn 20:29) Há quem considere esta narrativa como uma confirmação da ressurreição literal. Outros consideram-na como uma afirmação de que Tomé podia acreditar numa ressurreição espiritual de Jesus porque ele conhecera-O durante o Seu ministério, i.e., antes da crucifixão.

Os relatos dos aparecimentos de Jesus a outras pessoas (após os versículos citados acima) surgiram como adições posteriores ao Evangelho; não foram escritas pelos autores originais.

Como podemos perceber, após analisar claramente cada um dos quatro evangelhos, e comparando-os cronologicamente, parece que cada evangelho possibilita interpretações literais e simbólicas. Consequentemente, nenhum dos lados no debate literal/simbólico foi capaz de demonstrar de forma definitiva que a sua interpretação é a correcta.

Mas sabemos que as pessoas de carne e osso não se materializam subitamente e posteriormente desmaterializam-se (excepto em filmes de ficção científica!). Não desaparecem subitamente; não saltam de um lugar para o outro; não permanecem desconhecidas para quem as conhece e segue; nem conseguem entrar em diálogo com os seus parceiros. Por outro lado, não se pode sentir as feridas nos espíritos. Ou o espírito era carne, ou o sentimento era um produto de uma reflexão mental. O que aconteceu?

Parece óbvio, quando analisamos racionalmente todas as histórias e as suas perspectivas, que os autores dos evangelhos apenas incluíram as histórias imprecisas de uma experiência de ressurreição nas suas diferentes narrativas. No que toca à ressurreição física, os autores sabiam que esses relatos não eram muito credíveis. No entanto, os evangelistas também devem ter percebido que muitas pessoas queriam acreditar e transmitir esses relatos. Se registar essas narrativas ajudava a jovem fé desses Cristãos, que mal podia haver nisso? Quando analisados de forma desapaixonada, porém, a força das evidências leva-nos para uma interpretação não-literal. Esta conclusão reflecte os ensinamentos Bahá’ís, que se centram firmemente nos sentidos alegóricos e simbólicos desses relatos:
... Após o martírio de Cristo, os Apóstolos ficaram perplexos e assustados. A realidade de Cristo, que consiste nos Seus ensinamentos, nas Suas bênçãos, nas Suas perfeições e no Seu poder espiritual, ficou oculta e desapareceu durante dois ou três dias após o Seu martírio, e não teve aparecimento ou manifestação externa - de facto, era como se estivesse totalmente perdida. Pois aqueles que verdadeiramente acreditavam eram poucos em número, e mesmo esses estavam perplexos e assustados. A Causa de Cristo era, pois, como um corpo sem vida. Após três dias, os Apóstolos tornaram-se firmes e decididos, levantaram-se para ajudar a Causa de Cristo, resolveram promover os ensinamentos divinos e praticar os conselhos do seu Senhor, e esforçaram-se por servi-Lo. Então a realidade de Cristo tornou-se resplandecente, a Sua graça brilhou, a Sua religião encontrou uma nova vida, e os Seus ensinamentos e conselhos tornaram-se manifestos e visíveis. Por outras palavras, a Causa de Cristo, que era como um corpo sem vida, despertou para a vida e ficou rodeada pela graça do Espírito Santo.

Este é o significado da ressurreição de Cristo, e esta foi uma verdadeira ressurreição. Mas como o clero não entendeu o significado dos Evangelhos e não compreendeu esse mistério, tem sido afirmado que a religião se opõe à ciência, pois, entre outras coisas, a ascensão de Cristo num corpo físico aos céus materiais é contrária à Ciências matemáticas. Mas quando a verdade deste assunto é exposta e este símbolismo é explicado, ela não está de modo algum em contradição com a ciência, mas antes, está confirmada pela ciência e pela razão. ('Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 117-119)
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Texto Original: The Gospel of John, the Resurrection and the Reality of Christ (www.bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Baha’i: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 28 de abril de 2018

O Evangelho de Lucas e a Ressurreição de Jesus

Por Tom Tai-Seale.


Na nossa análise das narrativas da ressurreição nos evangelhos, vamos agora ver o que escreve Lucas.

Vimos que Marcos escreveu que três mulheres tinham ido ao sepulcro de Cristo e ali encontraram um jovem vestido de branco. No evangelho de Lucas existe uma multidão que vai ao sepulcro e descobre dois homens vestidos com roupas brilhantes e curvam-se perante eles. É óbvio que Lucas está a descrever a criação de um mito.

Lucas regista o primeiro aparecimento de Jesus como tendo ocorrido com os dois que foram ao sepulcro. O evento dá-se quando eles caminham para uma aldeia chamada Emaús. Lucas escreve (24:15-16): “E aconteceu que, indo eles, falando entre si e fazendo perguntas um ao outro, o mesmo Jesus se aproximou, e ia com eles: Mas os olhos deles estavam como que fechados, para que o não conhecessem.

Segue-se um diálogo e Jesus repreende-os: “Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” Mas mesmo assim os dois não o reconheceram. A conversa continua e por fim eles chegam ao seu destino. Quando partilham o pão com Jesus, finalmente “abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram, e ele desapareceu-lhes”; não é claro se isto aconteceu por Ele se ter afastado, desmaterializado ou desaparecido das suas consciências mentais.

Esta narrativa contém todos os ingredientes de uma alegoria. Apenas quando os dois homens raciocinam juntos sobre o ministério e a morte de Jesus é que Ele se aproxima deles. Os dois tiveram que reflectir sobre o que os profetas falaram antes poderem perceber que Cristo podia erguer-se dos mortos. Tiveram de praticar o ritual da comunhão antes de conseguirem lembrar-se e perceber que Ele estava com eles. Assim que descobrem que a realidade de Jesus estava com eles, Ele desaparece dos seus olhos. Essa percepção afasta a necessidade de visão. Um Jesus em carne não desapareceria perante os seus olhos, nem seria necessário raciocinar para o reconhecer.

Lucas prossegue dizendo que os dois homens regressaram a Jerusalém, encontraram os discípulos e os que estavam com eles, “e eles lhes contaram o que lhes acontecera no caminho, e como deles foi conhecido no partir do pão”. A lembrança do ritual que Cristo tinha ensinado para ser recordado fez com que os homens O reconhecessem. Lucas afirma então: “E, falando eles destas coisas, o mesmo Jesus se apresentou, no meio deles”. Note-se que Jesus aparece subitamente; Ele não bateu à porta. Ele aparece como um instante de compreensão. É a consciência da Sua presença espiritual que aparece - não o Seu corpo físico.

Ao “ver” a realidade espiritual do Cristo ressuscitado, Lucas afirma que os discípulos tiveram medo e “pensavam que viam algum espírito”. Note-se que os discípulos não dizem que viram um corpo. Depois Lucas narra que Jesus diz aos Seus discípulos: “Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo: apalpai-me e vede; pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho.” Lucas descreve que Jesus comeu peixe e favo de mel com os discípulos e depois explicou-lhes que tudo o que tinha acontecido tinha de acontecer pois estava registado nas escrituras. Seguidamente, afirma Lucas, Jesus “abriu-lhes o entendimento, para compreenderem as Escrituras.

Mais uma vez, encontramos uma mistura de imagens físicas e espirituais. Os corpos físicos não aparecem de forma súbita; entram e saem através de portas. Por outro lado, os espíritos não têm carne e ossos. Então o que significa o comentário sobre os espíritos? Parece tratar-se de uma afirmação sobre uma crença e um temor antigos sobre espíritos. Se isso for verdade, então o que se segue faz sentido. A presença de Cristo que eles recordavam e sentiam - aquele que eles agora começavam a “ver” não apenas no mundo vindouro mas também entre eles - era a mesma que esteve com eles neste mundo. Não era uma imagem assustadora, mas familiar. Era o mesmo Jesus que eles conheciam, o que tinha carne e ossos. Era o seu amigo e Senhor, aquele que tinha um corpo físico, aquele a quem eles podiam oferecer peixe e favo de mel e lhes permitia viver e celebrar com confiança.

Os ensinamentos Bahá’ís explicam:
Sobre a Ressurreição de Cristo, você cita o capítulo vinte e quatro do Evangelho de S. Lucas, onde a narrativa salienta o facto da realidade do aparecimento de Jesus aos Seus discípulos que - segundo afirma o Evangelho - ao princípio pensaram ser um fantasma. Do ponto de vista Bahá’í, a crença de que a Ressurreição foi o regresso à vida de um corpo de carne e sangue, e que posteriormente se elevou aos céus não é razoável, nem é necessária à verdade essencial da experiência dos discípulos, que era que Jesus não tinha deixado de existir quando foi crucificado (como era a crença de muitos Judeus desse tempo), mas que o seu Espírito, libertado do corpo, ascendera à presença de Deus e continuava a inspirar e guiar os Seus seguidores e a presidir aos destinos da Sua dispensação. (The Resurrection of Christ, September, 1987, A Casa Universal de Justiça)
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Texto Original: The Gospel of Luke and the Resurrection of Jesus (www.bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Baha'i: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 21 de abril de 2018

Ressurreição: as diferenças entre os Evangelhos de Marcos e Mateus

Por Tom Tai-Seale.


As ressurreições dos Manifestantes Divinos não são do corpo. Todos os Seus estados, as Suas condições, os Seus actos, as coisas que definiram, os Seus ensinamentos, as Suas afirmações, as Suas parábolas e as Suas instruções têm um significado espiritual e divino, e não têm ligação com coisas materiais. (‘Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, p. 103)
Se queremos, realmente, compreender a ressurreição, precisamos estudar as narrativas nos Evangelhos.

Podemos aprender muito sobre a ressurreição examinando as narrativas dos evangelhos pela ordem em que foram escritas. O Evangelho de Marcos - o primeiro dos evangelhos a ser escrito - não continha qualquer narrativa da ressurreição. Na sua obra História da Igreja, Eusébio, o primeiro grande historiador cristão, diz-nos que a narrativa da ressurreição que agora existe em Marcos foi adicionada mais tarde por um autor conhecido como Aristion. A narrativa original terminava com Maria Madalena, Salomé e Maria (a mãe de Tiago) a encontrar um jovem sentado no interior do túmulo vazio. O jovem no túmulo disse-lhes: "Mas ide, dizei aos seus discípulos, e a Pedro, que Ele vai adiante de vós, para a Galileia; ali O vereis, como Ele vos disse."

O versículo seguinte - que diz que elas fugiram do túmulo vazio - encerra a narrativa. Por outras palavras, Marcos não descreveu nenhum reaparecimento físico de Jesus aos Seus discípulos. Alguns argumentam que Marcos sugere uma ressurreição física nesse final, mas isso representa apenas um de muitos significados possíveis. Por exemplo, o jovem que fala no túmulo pode ter pertencido a um grupo enviado para recuperar o corpo e levá-lo para a Galileia. E as suas instruções para as mulheres podem ter simplesmente reforçado a mensagem para ir ao local de encontro pré-estabelecido, conforme especificado em Marcos 14:28. Não está claro se o corpo que eles levaram estava morto ou, devido à necessidade de terminar a crucificação rapidamente, talvez ainda estivesse vivo, embora gravemente ferido.

Como vimos, Marcos escreve que quando as três mulheres foram ao sepulcro e o encontraram aberto também encontraram um jovem sentado no túmulo. Mateus (28:2) relata o mesmo evento de forma diferente: menciona que apenas duas mulheres foram ao sepulcro (não refere Salomé) e que, quando se aproximaram, "houvera um grande terramoto, porque um anjo do Senhor, descendo do céu, chegou, removendo a pedra, e sentou-se sobre ela."

Marcos nada diz sobre um terramoto ou sobre um anjo. À medida que a narrativa de Mateus (28:9) prossegue, o anjo diz às mulheres para saírem e avisarem os discípulos que Cristo se ergueu dos mortos. Ele diz: "E, indo elas, eis que Jesus lhes sai ao encontro, dizendo: Eu vos saúdo. E elas, chegando, abraçaram os seus pés, e o adoraram." Seguidamente, diz-se que Jesus apareceu num monte na Galileia a onze discípulos: “E, quando o viram, o adoraram; mas alguns duvidaram.” (28:17)

Devemos acreditar na visão de Marcos ou de Mateus? Atendendo à inclinação de Mateus para o exagero - como se percebe nas suas narrativas exageradas dos milagres descritos por Marcos - não será a versão de Marcos mais credível? Não estaria Mateus a escrever para um público com paixão e expectativa de milagres? Estaria apenas a relatar algumas das histórias fantásticas que escutara? Ou será que juntou os relatos literais e figurativos e deixou que os leitores fizessem a sua interpretação?

Estas questões não são fáceis de responder, mas algumas observações adicionais podem ajudar-nos a encontrar a verdade. O relato de Mateus é muito espartano. Não contém diálogos. As duas Marias e os onze discípulos nada têm a dizer a Jesus - o que é improvável, se de facto Jesus tivesse ressuscitado fisicamente. A acção também passa de um lugar para outro sem explicação dos passos intermédios. Jesus vai do sepulcro para a Galileia e depois para lugar nenhum. Nada é dito sobre para onde vai Jesus, nem o que Ele faz após o encontro com as duas Marias, ou depois de encontrar os discípulos. Não acontece a Ascensão final. E por outro lado, o autor mistura imagens materiais e espirituais de uma forma que nos deixa constantemente a questionar qual é qual. Estará ele a falar de um terramoto e um anjo físicos - e qual seria o aspecto do anjo? Será o monte da Galileia uma referência a um monte físico ou a um monte de fé? Terá a ressurreição sido física ou espiritual? E se fosse física como poderia algum discípulo duvidar?

Os Bahá’ís acreditam que apenas podem ser respondidas se recusarmos o sentido literal destas narrativas. No próximo artigo sobre Lucas e João, essa conclusão torna-se ainda mais forte.

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Texto Original: The Conflicting Gospels of Mark and Mathew (www.bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Baha'i: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 7 de abril de 2018

O Filho do Homem está no Céu

Por Tom Tai-Seale.

Observa que se diz: "O Filho do Homem está no céu", apesar de naquele tempo Cristo ter estado na terra. Repara também que se diz que Cristo veio do céu, embora tenha vindo do ventre de Maria, e o Seu corpo nasceu de Maria. É claro, portanto, que quando se diz que o Filho do Homem veio do céu, isso não tem um significado exterior, mas sim interior; é um facto espiritual, não material. O significado é que, apesar de aparentemente Cristo ter nascido do ventre de Maria, Ele, na realidade, veio do céu, do centro do Sol da Realidade, do Mundo Divino e do Reino Espiritual. E como se tornou evidente que Cristo veio do céu espiritual do Reino Divino, então, o Seu desaparecimento da terra durante três dias tem um significado interior e não é um facto exterior. Do mesmo modo, a Sua ressurreição no interior da terra também é simbólica; é um facto espiritual e divino, e não material; e do mesmo modo, a ascensão ao céu é uma ascensão espiritual e não material. (‘Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, pp. 103-104)
Alguns cristãos seguem fielmente uma interpretação literal da Bíblia e acreditam que o próprio Paulo viu Jesus ressuscitado na carne - mas a Bíblia contém fortes evidências contra essa visão simplista e literal. Os Bahá'ís acreditam - como ‘Abdu'l-Bahá explica no parágrafo acima - que apenas podemos abordar e compreender verdadeiramente os Livros Sagrados de qualquer religião como simbólicos e metafóricos. O seu sentido espiritual, tão profundo e significativo, escapa-nos se o tratarmos como um simples relato literal de acontecimentos reais.

Por exemplo, Paulo disse aos Gálatas (1:12) que o evangelho que ele pregou não foi recebido de nenhum homem, mas que foi recebido de uma revelação de Jesus Cristo. Da mesma forma, ele diz aos Efésios (3: 3) que foi através de uma revelação que o segredo de Deus lhe foi dado a conhecer. As revelações não têm corpos. Assim, Eusébio, o primeiro historiador da igreja na sua obra História da Igreja, afirma que Paulo recebeu o seu chamamento através de uma visão. O Jesus que Paulo conheceu foi o glorificado pelo Pai, o que, segundo a sua própria terminologia farisaica, foi ressuscitado. Por outras palavras, Paulo não encontrou o corpo físico de Cristo, mas a Sua realidade espiritual. Paulo sabia bem que Jesus havia subido ao Seu legítimo lugar no reino de Deus e que, seguindo os passos de Cristo, nós também poderíamos ser salvos. Esta mensagem de ressurreição, tão central para o Cristianismo de Paulo, não pode ser entendida literalmente.

Alguns insistem e argumentam que Paulo conheceu Jesus em carne na estrada de Damasco. Mas esse argumento falha porque Paulo não escreveu o relato do seu encontro com um Cristo ressuscitado na estrada de Damasco. Se Paulo, que nunca era parco de palavras, realmente tivesse conhecido Jesus em carne na estrada para Damasco, certamente ele teria escrito repetidamente sobre isso. Mas não o fez. Quando Paulo fala de ter "visto" Jesus (por exemplo, 1 Cor 9: 1), ele não estava a falar de ver Jesus na carne. Pelo contrário, ele falava do que viu com percepção em vez de visão, de revelação e não de corpo. Paulo escreve (1 Tim 3:16): "Aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito". Este Espírito, dizem as palavras seguintes, não foi visto pelos homens, mas "visto dos anjos". Neste contexto, os comentários de Paulo fazem sentido.

Quando entendido na ampla perspectiva do passado de Paulo no farisaísmo (que acreditava numa ressurreição espiritual) e a forma como Paulo usa a linguagem (o que lhe permitia usar metáforas livremente), somos levados a concluir que a ressurreição de que Paulo falou não era uma ressurreição física.

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Texto Original: The Son of Man is in Heaven (www.bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sexta-feira, 30 de março de 2018

A Verdadeira Ressurreição de Jesus

Por Tom Tai-Seale.


Os livros sagrados estão repletos de significados e nunca devem ser entendidos literalmente... É essencial ter percepção divina para ver a verdade, ouvir o chamamento e obedecer - libertando os corações de todo apego mundano. ('Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 38)
A fé Cristã depende da crença na ressurreição, tal como escreve o apóstolo Paulo (1 Cor 15,14-17); mas o que significa a ressurreição para Paulo?

A maioria dos Ocidentais conhece a história que geralmente é ensinada sobre a ressurreição de Cristo: Jesus morreu; e passados três dias, levantou-se do túmulo - literalmente - e foi visitar certas pessoas para lhes mostrar que tinha vencido a morte e que eles deviam continuar e anunciar ao mundo. No entanto, temos agora motivos abundantes para suspeitar sobre a verdade desta versão literal da ressurreição - e perceber que a ressurreição, na verdade, se refere a algo muito mais sublime e significativo.

S. Paulo, El Greco, 1606
A Bíblia atribui as primeiras narrativas escritas sobre a ressurreição a Paulo. Mas antes lermos as narrativas da ressurreição, devemos perceber a forma como Paulo usa a linguagem. A linguagem de Paulo está longe de ser simples; está cheia de imagens ricas e metáforas. Numa carta a Timóteo (1 Tim 1: 12-13), Paulo falou como se Jesus, em pessoa, o tivesse colocado no ministério e lhe perdoasse o abuso, a perseguição e a indignação que ele dirigiu contra Cristo e os Cristãos. No entanto, sabemos que Paulo nunca conheceu Jesus durante o Seu ministério. Paulo referiu-se ao facto de ter sido escolhido e perdoado como um evento espiritual e não como um evento físico. Da mesma forma, quando Paulo escreveu aos Coríntios (2 Cor 13: 5) que Jesus Cristo estava entre eles, ninguém pensava que Paulo falava sobre o corpo físico de Jesus estando literalmente no meio deles. É óbvio que ele se referia a uma realidade espiritual, e não física. Além disso, quando Paulo disse aos Cristãos de Colossos (3: 3) que eles estavam mortos, que as suas vidas estavam agora ocultas com Cristo em Deus, e que eles deviam colocar os seus pensamentos no mundo vindouro se queriam ser ressuscitados com Cristo, Paulo não estava a falar literalmente. Ele não falava com homens mortos que tivessem sido levados para o céu junto de Cristo. Ele usou linguagem simbólica para descrever uma realidade espiritual, e não uma realidade física. Os investigadores bíblicos sabem que devem ter muita cautela quando tentam atribuir um significado literal às palavras de Paulo.

A referência paulina mais frequentemente citada como prova de que Jesus se levantou fisicamente da sepultura está na sua carta aos Coríntios, onde escreve (1 Cor 15:3-8):
Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive, ainda, a maior parte, mas alguns já dormem, também. Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos. E, por derradeiro de todos, me apareceu também a mim, como a um abortivo.
Mas o que é que Paulo quer dizer quando escreve que Cristo "foi visto", ou “apareceu”, como se traduz na versão ”Ferreira de Almeida”? Podemos entender isso literalmente, quando já vimos que Paulo usa frequentemente imagens físicas para descrever eventos espirituais (ou seja, não físicos)? Poderia Paulo compreender a ressurreição de outra forma, mais metafórica ou simbólica?

Devemos ter presente que pregar a ressurreição tornou-se uma grande preocupação de Paulo, mesmo antes de se converter ao Cristianismo. Ele enaltecia a ideia da ressurreição, uma parte do seu farisaísmo nato e um ponto essencial de diferença entre os fariseus e os saduceus. Mais tarde, ele invocou esse facto quando foi julgado. (ver Actos 23: 6-8). Assim, para Paulo, a ressurreição existia muito antes da crucificação de Cristo. O que significava isso para ele?

Os Coríntios fizeram perguntas a Paulo sobre a ressurreição. E ele respondeu
Mas alguém dirá: Como ressuscitarão os mortos? E com que corpo virão? Insensato! o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer. E, quando semeias, não semeias o corpo que há-de nascer, mas o simples grão, como de trigo, ou de outra qualquer semente. Mas Deus dá-lhe o corpo como quer, e a cada semente o seu próprio corpo. Nem toda a carne é uma mesma carne, mas uma é a carne dos homens, e outra a carne dos animais, e outra a dos peixes, e outra a das aves; E há corpos celestes e corpos terrestres; mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres. (1 Cor 15, 35- 40)
Ele continua a dizer (v. 44): "Semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo animal, há também corpo espiritual.". Com esta descrição em mente, como podemos acreditar que alguns "viram" a ressurreição do corpo físico de Cristo alguns dias após a crucificação?

Podemos responder como Paulo: "Que insensato!" O corpo com o qual Deus revestiu Jesus no momento da sua libertação do corpo físico, com toda a sua dor e limitações, era - podemos assumir com segurança - muito mais glorioso do que o físico corpo. Com isso e muito mais evidências bíblicas em mente, podemos entender facilmente que a ressurreição que Paulo pregava era uma ressurreição espiritual.

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Texto Original: The Real Resurrection of Jesus (www.bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 10 de março de 2018

No tempo de Cristo, eu acreditaria em quê?




Considera o passado. Quão numerosos, nobres e humildes, em todos os tempos, aguardaram ansiosamente o advento dos Manifestantes de Deus na pessoa santificada dos Seus Eleitos. Quantas vezes esperaram a Sua chegada, quantas vezes oraram para que soprasse a brisa da misericórdia divina, e surgisse a Beleza prometida por trás do véu da ocultação, e se manifestasse a todo o mundo. E sempre que os portais da graça se abriram e as nuvens da dádiva divina lançaram chuva sobre a humanidade, e a luz do Invisível brilhou no horizonte do poder celestial, todos eles O negaram e se afastaram do Seu rosto - o rosto do próprio Deus. Para verificar esta verdade, procura aquilo que foi registado em todo o Livro Sagrado. (Bahá’u’lláh, O Livro da Certeza, ¶3)

Nos dias imediatamente seguintes à crucificação de Jesus Cristo, pode ter parecido à maioria das pessoas que Ele tinha sido apenas um impostor, talvez um dos muitos que tinham proferido afirmações semelhantes e que, no fim, receberam o devido castigo. Aparentemente, os poderes existentes saíram vitoriosos: o “Messias” estava morto, os que lhe eram próximos estavam desmoralizados e escondidos; e os que mostraram simpatia pela sua mensagem encontravam-se silenciados e desiludidos.


Essa apreciação, porém, não considerava o verdadeiro poder de Cristo, que nasceu do Espírito Santo, e que não podia ser reconhecido de acordo com os padrões normais. Esse poder espiritual, actuando primeiramente sobre o seu pequeno grupo de discípulos, conseguiu transformar os primeiros Cristãos em gigantes espirituais cujas proezas estabeleceriam com sucesso a nova fé em todos os locais do mundo antigo. E com o passar do tempo, essa mesma força transformaria uma comunidade pequena e perseguida - que primeiramente era uma entre uma multidão de cultos e seitas contemporâneas - numa grande religião mundial. Afinal, Cristo triunfou.

Hoje, milhões de pessoas acreditam que Cristo tinha uma autoridade e um poder vindos de Deus. Os Seus feitos e os dos Seus seguidores - apesar da sua total falta de recursos materiais, autoridade política ou prestígio mundano - são hoje considerados pelos crentes como prova da Sua condição divina.

É importante lembrar que esta perspectiva histórica nos dá uma grande vantagem sobre as pessoas do mundo antigo. Pouquíssimas pessoas nos primeiros dias - até ao século II EC - seriam capazes de prever o futuro que estava reservado para a sua fé.

Provavelmente a seguinte pergunta ocorreu à maioria dos Cristãos e é tema incontáveis homilias e sermões: Em que é que eu teria acreditado se fosse vivo no tempo de Cristo?

É uma coisa séria que nos faz pensar. Quantos de nós teríamos reconhecido nosso Senhor e Salvador, num carpinteiro de Nazaré, durante a Sua vida ou em qualquer momento durante os dois séculos que se seguiram? Teríamos ficado sensibilizados pela história da Sua vida e ensinamentos, ou tê-Lo-íamos desprezado? Teríamos aceitado a explicação dos Evangelhos sobre como Ele cumpriu as promessas dos antigos profetas, ou ter-nos-íamos apegado às nossas próprias noções de como essas promessas deveriam ser cumpridas? Os nossos corações seriam tocados pelo Seu amor, pelo Seu sofrimento e pelo Seu sacrifício; ou, como a maioria dos outros, teríamos ficado indiferentes?

Muitas vezes, estas perguntas levam-nos a outra: se Ele voltasse hoje à terra em circunstâncias semelhantes, seríamos capazes de O reconhecer, ou falharíamos nesse teste?

Os feitos do Báb, a Sua personalidade, os seus ensinamentos e as suas provações apresentam um paralelo notável com a vida de Jesus de Nazaré. O Bab proclamou-se Mensageiro de Deus. Os Seus ensinamentos eram espiritualmente profundos e desafiadores. Durante a Sua própria vida, Ele atraiu para a Sua Causa milhares e milhares de seguidores devotados, muitos dos quais - tal como os primeiros cristãos - demonstrariam com o seu próprio sangue a sinceridade da sua fé.

Jovem, corajoso e dócil, o Báb possuía uma natureza afectuosa que exercia uma influência magnética e transformadora sobre aqueles com quem contactava. Realizou um ministério breve e tumultuoso com uma determinação implacável e - para muitos observadores - com um desprezo quase imprudente pela Sua própria segurança pessoal. Embora não fosse rico e não pertencesse a uma das classes instruídas ou dominantes, Ele - graças ao poder divino da Sua personalidade e da Sua palavra - fundou uma nova fé que desafiou as tradições e os dogmas da ordem existente.

O Báb foi forçado a viajar sem destino ao longo do Seu ministério. Experimentou a adulação das massas, apenas para, no final, vê-las voltarem-se contra Ele. Foi o alvo da ira dos poderes estabelecidos - em especial do clero. Nos últimos meses, foi interrogado pelos mais altos funcionários, religiosos e governamentais, que mais tarde proferiram a Sua sentença da morte. Finalmente, sofreu uma execução pública cruel, recusando-Se até ao fim a renunciar às Suas afirmações ou comprometer a Sua doutrina.

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Kenneth E. Bowers é autor do livro “God Speaks Again” e vive com a família em Chicago. Actualmente é membro da Assembleia Espiritual Nacional ds Estados Unidos

domingo, 10 de julho de 2016

Morrer por alguma coisa? As mortes de Cristo e do Báb

Por Hussein Ahdieh.


Você morreria por alguma coisa? Consegue pensar em alguma coisa - a sua família, as suas crenças, os seus valores, as suas convicções - que tenha mais valor do que a sua vida física?

Neste ano, durante a comemoração do Martírio do Báb, dei comigo a pensar nestas questões e sobre de sacrifício final do Bab. O Báb, o arauto da Fé Bahá'í, deu a Sua vida desejando fazer levar avante vários ideais e trazer ao mundo um novo conjunto de convicções progressistas. Depois, o meu pensamento foi para o martírio de Tahirih - essa grande seguidora do Báb e defensora da emancipação das mulheres - e em seguida, para os outros, incluindo os meus próprios antepassados. Estes incluíam homens válidos que morreram lutando em defesa própria durante os tumultos de Nayriz em 1850 e 1853, e também mulheres, idosos e até mesmo crianças que morreram numa marcha da morte de Nayriz para Shiraz, em 1853. Todos eles seguiam os novos ensinamentos das religiões Bábi e Bahá’í e todos eles sofreram tremendamente pelas suas crenças. Para além destes casos óbvios, testemunhamos agora milhares de Bahá’ís contemporâneos cujas vidas são interrompidas ao ser-lhes negada a assistência médica, ou prejudicadas pela humilhação diária ou negação de acesso ao ensino superior.

Os martírios do Báb e Tahirih foram consentidos. Eles proclamaram um novo sistema de crença que ameaçava a autoridade e política e eclesiástica; e como resultado, foram vítimas de assassinato decretado pelo Estado. Eles aceitaram as suas mortes físicas resolutamente. Depois deles, milhares de Bábis e Bahá’ís morreram com a mesma atitude nas mãos de multidões ou do Estado. A sua conduta espiritual, tal como os mártires cristãos no Império Romano, identificou-os como pessoas comuns que apenas queriam viver pacificamente e seguir uma nova religião. Por causa disso, foram submetidos a horrores indescritíveis.

Local de Martírio do Báb, em Tabriz (Irão)
Mas porque a Fé Bahá'í valoriza a racionalidade acima da obediência cega aos mullahs locais, os Bahá’ís tinham tendência a ser melhor sucedidos do que os seus vizinhos, frequentemente agarrados a processos tradicionais. E porque os princípios Bahá’ís destacam a importância da educação das raparigas, as futuras mães de todos, as gerações seguintes de Bahá’ís floresceram. Isso provocou inveja entre os que ficaram para trás devido à ignorância; e a inveja em grande escala levou a mais perseguições.

Até agora, todas as gerações de Bábis e Bahá’ís no Irão sofreram. Além disso, o nosso sofrimento tem sido voluntário. Poderíamos afastar-nos da nossa Fé. Mas não o fizemos, não o fazemos e não o faremos.

Ninguém sabe o que o futuro pode trazer - que testes e dificuldades irão surgir. Mas sabemos que as qualidades da perseverança e do sacrifício, quando confrontam a adversidade, dão uma nova esperança mundo. Agora, os esforços e as confirmações dos Bábis e dos primeiros Bahá’ís são uma fonte de inspiração. Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í, comparou o martírio do Bab ao martírio de Cristo:
Na realidade, não seria exagero dizer que em lugar algum de toda a extensão da literatura religiosa mundial, excepto nos Evangelhos, encontramos algum registo relacionado com a morte de qualquer um dos fundadores das religiões do passado comparável ao martírio sofrido pelo Profeta de Shiraz [o Bab]. Um fenómeno tão estranho, tão inexplicável, confirmado por testemunhas oculares, corroborado por homens de reconhecida competência, e admitido pelo governo, assim como por historiadores não-oficiais entre as pessoas que tinham jurado hostilidade eterna à Fé Bábí, pode ser considerado verdadeiramente como a mais maravilhosa manifestação das potencialidades únicas com as quais tinha sido dotada a Dispensação prometida por todas as Revelações do passado. A paixão de Jesus Cristo, e, na verdade, todo o Seu ministério público, por si só oferece um paralelo com a Missão e morte do Báb, um paralelo que nenhum estudante de religião comparada pode deixar de perceber ou ignorar. Na juventude e humildade do Inaugurador da Dispensação Bábi; na extrema brevidade e turbulência do Seu ministério público; na rapidez dramática com que esse ministério atingiu o seu clímax; na ordem apostólica que Ele instituiu, e na primazia que Ele conferiu a um dos seus membros; na coragem do Seu desafio às convenções rituais e leis consagradas pelo tempo, que tinham sido tecidas pela religião em que Ele próprio tinha nascido; no papel que uma hierarquia religiosa, oficialmente reconhecida e firmemente arreigada, desempenhou como principal instigador dos ultrajes que Ele sofreu; nas indignidades que se acumularam sobre Ele; na brusquidão da Sua prisão; no interrogatório a Que foi submetido; no escárnio derramado, e na flagelação infligida sobre Ele; na afronta pública que Ele aguentou; e, por fim, na Sua suspensão ignominiosa perante o olhar de uma multidão hostil - em tudo isto não podemos deixar de discernir uma semelhança notável com as características distintivas da carreira de Jesus Cristo.

Deve ser lembrado, no entanto, que, além de o milagre associado à execução do Báb, Ele, ao contrário do fundador da religião Cristã, não deve ser apenas considerado como o autor independente de uma Dispensação divinamente revelada, mas também deve ser reconhecido como o Arauto de uma nova Era e inaugurador de um grande ciclo profético universal. Nem o facto importante deve ser esquecido que, enquanto os principais adversários de Jesus Cristo, durante a Sua vida, foram os rabinos judeus e os seus associados, as forças formadas contra o Báb representavam os poderes civis e eclesiásticos combinados da Pérsia, que, desde o momento da Sua declaração até à hora da Sua morte, persistiram, uniram-se e, com todos os meios à sua disposição, conspiraram contra os defensores e difamaram os princípios da sua Revelação. (Shoghi Effendi, God Passes By, p. 56)
Ambos, Cristo e o Báb, morreram voluntariamente por um conjunto de ideais universais centrados no amor, na paz e na unidade. Os Seus sofrimentos e os Seus triunfos deviam fazer-nos perguntar se há alguma coisa pela qual podíamos morrer.

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Texto original: What Would You Die For? The Deaths of Christ and the Bab (www.bahaiteachings.org)

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Hussein Ahdieh nasceu em Nayriz, no Irão. Na sua adolescência foi viver para os Estados Unidos, onde mais tarde estudou História da Europa e concluiu um Doutoramento em Educação. Foi um elemento chave na criação da Harlem Preparatory School, de Nova Iorque; foi director do Programa de Estudos Superiores da Universidade de Fordham. É autor dos livros Abdu'l-Bahá in New York, AWAKENING: A History of the Babí and Bahá'í Faiths in Nayriz e de numerosos artigos e ensaios.

sábado, 16 de abril de 2016

Prevendo o Regresso de Cristo

Por Russell Ballew.

Sobre as Suas palavras, que o Filho do homem “virá sobre as nuvens do céu”, o termo “nuvens” significa aquelas coisas que são contrárias aos hábitos e desejos dos homens. (Bahá’u’lláh, O Livro da Certeza, parag. 79)
Em 24 de Maio de 1844, Samuel Morse telegrafou a primeira mensagem a longa distância: «Que maravilhas fez Deus!». A citação, seleccionada da Bíblia (Livro dos Números 23:23), podia aplicar-se igualmente às invenções científicas que constituíram a base da conectividade global do século XXI. A frase poderia também aplicar-se ao fervor religioso sobre o regresso de Cristo que atingiu o clímax nesse mesmo ano.

William Miller
As implicações religiosas desta importante inovação científica inflamaram a imaginação de uma comunidade global de Adventistas, que tinha chegado à conclusão que o Regresso de Cristo aconteceria entre 1843 e 1844. Para compreender esta conclusão vamos analisar o raciocínio e os cálculos de William Miller, um dos mais influentes líderes do Advento, cujo livro Evidence from Scripture and History of the Second Coming of Christ (Evidências da Escritura e da História sobre a Segunda Vinda de Cristo) vendeu milhares de exemplares e deu rigor ao movimento Adventista. Veja aqui um exemplar original desse livro.

Miller começou o seu livro com as bem conhecidas profecias do regresso de Cristo que se encontram no Evangelho de Mateus e no livro de Daniel:
Este Evangelho do Reino será proclamado em todo o mundo, para se dar testemunho diante de todos os povos. E então virá o fim. Por isso, quando virdes a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, instalada no lugar santo… (Mateus 24 14-15)

Vi um santo que falava, a quem um outro santo perguntou: «Quanto tempo durará o que anuncia a visão, a propósito do holocausto perpétuo, da abominação devastadora, do abandono do santuário e do exército dos fiéis calcado aos pés?» E ele respondeu: «Duas mil e trezentas tar¬des e manhãs. Depois disso, o san-tuá¬rio será restaurado. (Daniel 8: 13-14)
E este é o raciocínio que Miller para chegar às suas conclusões, segundo as suas próprias palavras:
O que devemos entender como sendo dias? Na profecia de Daniel são invariavelmente considerados como anos. Pois Deus ordenou aos profetas que os considerassem dias (Num 14:34): “Conforme o número de dias em que explorastes a terra, quarenta dias, equivalendo cada dia a um ano, haveis de carregar durante quarenta anos as vossas iniquidades e reconhecereis o meu desagrado.” (Evidence from Scripture, p. 46.)

Quando começaram os 2300 anos?... Vamos começar onde o anjo nos disse, desde a publicação do decreto de construção das muralhas de Jerusalém em tempos tumultuosos, 457 anos antes de Cristo. Subtraia-se 457 a 2300 e obtemos o ano 1843 EC; ou se subtrairmos 70 semanas, como sendo 470 anos aos 2300 anos, obtemos o ano 1810 após a morte de Cristo. Adicionemos a sua vida (porque começamos a calcular o nosso tempo a partir do seu nascimento) que são 33 anos, e chegamos ao mesmo ano de 1843 EC. (Evidence from Scripture, p. 46.)
Desde 1843 até ao Outono de 1844, Adventistas zelosos e os seus detractores olharam para o céu esperando ver Jesus descer nas nuvens, levando os fiéis para o paraíso e destruindo o mundo. Alimentavam uma visão de um regresso espectacular do Senhor, não necessariamente consistente com a ciência, mas baseada em várias interpretações de frases semelhantes a esta do Evangelho de Mateus:
Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem e todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu, com grande poder e glória. Ele enviará os seus anjos, com uma trombeta altissonante, para reunir os seus eleitos desde os quatro ventos, de um extremo ao outro do céu. (Mateus 24:30-31)
Apesar da sua devoção pia e renúncia aos bens materiais, nem Miller nem os seus seguidores viram o Regresso de Cristo da forma que imaginavam. Em vez de serem levados triunfalmente para o paraíso, ficaram desiludidos na terra, perguntando-se como algo tão fantástico, tão previsível podia ter corrido mal.
Colónia dos Templários alemães, Haifa, 1895
Pouco depois disto, um grupo de Adventistas alemães liderados por Christoff Hoffman e George David Hardegg formaram a Sociedade dos Templários Alemães. Também acreditavam no iminente Regresso de Cristo. No entanto, acreditavam que os aspectos mais incríveis da Bíblia – como por exemplo: “...quem não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus” (João 3:3) - eram alegóricos e não literais.

Os Templários Alemães concluíram que Cristo regressaria à Terra Santa de uma forma que ninguém imaginara. Talvez Cristo já tivesse vindo e as pessoas não tinham percebido: “Com efeito, vós próprios sabeis perfeitamente que o Dia do Senhor chega de noite como um ladrão.” (1 Tessalonicenses 5:2)

Hoffman e Hardegg levaram os seus seguidores para Haifa (Terra Santa), tendo chegado em Outubro de 1868. Para sua surpresa encontraram os líderes de um novo movimento religioso que tinha surgido em 22 de Maio de 1844, na Pérsia, exactamente o ano em que previam o regresso de Cristo.

Nas palavras dos Templários:
Tomei conhecimento de um outro fenómeno espiritual que pode fortalecer a nossa crença. Trata-se de um grupo de 70 Persas que foram desterrados para Akka devido às suas crenças. (Suddeutsche Warte, June 29, 1871.)
Os Templários Alemães mantiveram contactos com os Bahá’ís e depois fundaram uma comunidade próspera no sopé do Monte Carmelo, próximo dos lugares Sagrados Bahá’ís. Os Bahá’ís acreditam que Templários e Adventistas perceberam o advento profético de uma nova dispensação religiosa, e que a Fé Bahá’í cumpre e completa essas profecias.

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Texto original: Anticipating the Advent and Return of Christ (www.bahaiteachings.org)

Artigo anterior: Procurar o Espírito de Cristo


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A Virgem Maria: uma perspectiva Bahá'í


Em muitos livros e websites Bahá’ís onde se apresenta uma perspectiva sobre o Cristianismo, é frequente encontrar as seguintes palavras de Shoghi Effendi:
Quanto à posição do Cristianismo, diga-se sem qualquer hesitação ou equívoco que a sua origem divina é reconhecida incondicionalmente, que a Filiação e Divindade de Jesus Cristo são destemidamente declaradas, que a inspiração divina do Evangelho é plenamente reconhecida, que a realidade do mistério da Imaculabilidade da Virgem Maria é confessada, e o primado de Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, é mantido e defendido. (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, pag. 109)
Porque hoje muitos cristãos celebram a Imaculada Conceição, parece-me oportuno apresentar alguns excertos das Escrituras e de textos oficiais Bahá’ís que descrevem a perspectiva Bahá’í sobre a Virgem Maria. Uma breve análise destes Textos permite-nos perceber que a Mãe de Jesus é uma figura profundamente respeitada na Fé Bahá’í. Esse respeito, porém, não justifica qualquer culto mariano por parte dos Bahá’ís, nem a crença no nascimento virginal de Jesus eleva o Seu estatuto acima de qualquer outro Mensageiro de Deus.

Nas Escrituras Bahá’ís

Nas Escrituras Bahá’ís a expressão “Filho de Maria” é frequentemente usada nas referências a Jesus Cristo; na minha opinião o uso repetido desta expressão mostra-nos que a identidade de Jesus não é dissociável da Sua mãe. Das traduções em inglês das Escrituras Bahá'ís, a mais reveladora sobre Maria encontra-se no Kitab-i-Iqán (O Livro da Certeza):
De igual modo, deves reflectir sobre o estado e a condição de Maria. Tão profunda foi a perplexidade desse belíssimo semblante, tão penosa foi a sua situação, que ela lamentava amargamente ter nascido. Disto dá testemunha o texto do sagrado versículo onde se menciona que Maria, depois do nascimento de Jesus, chorou a sua situação e gritou: “Oxalá eu tivesse morrido antes disto e tivesse sido esquecida, completamente esquecida!”[1]. Juro por Deus! Essas lamentações consomem o coração e abalam o próprio ser. Tão grande consternação da alma, tão grande desespero, não foram causados senão pela censura do inimigo e pelos comentários dos infiéis e dos perversos. Reflecte: que resposta poderia Maria ter dado às pessoas ao seu redor? Como poderia ela afirmar que um Bebé Cujo pai era desconhecido tinha sido concebido pelo Espírito Santo? Por isso, Maria, aquele semblante velado e imortal, pegou na sua Criança e regressou ao seu lar. Logo depois, os olhos do povo caíram sobre ela e levantaram a voz dizendo: “Ó irmã de Araão! O teu pai não foi um homem perverso, nem a tua mãe foi impura.”[2]

E agora medita sobre esta grandiosa convulsão, esta dolorosa provação. Apesar de todas estas coisas, Deus conferiu àquela essência do Espírito, Àquele conhecido entre o povo como não tendo pai, a glória da missão Profética, e fez d’Ele um testemunho para todos os que estão na terra e no céu.

(Bahá’u’lláh, Kitab-i-Iqan, parágrafo 59)
Nas suas Palestras em Paris, ‘Abdu’l-Bahá descreveu a filiação divina de Jesus como um obstáculo que impedia as pessoas de O reconhecer como Manifestante de Deus:
Bahá'u'lláh disse: "Quando Cristo veio pela primeira vez Ele veio sobre as nuvens"[3]. Cristo disse que Ele tinha vindo do céu, do Paraíso - que Ele tinha vindo de Deus - apesar d’Ele ter nascido de Maria, a Sua Mãe. Mas quando Ele declarou que tinha vindo do céu, é óbvio que Ele não se referia ao firmamento azul; Ele falava do Paraíso do Reino de Deus, e que desse Paraíso Ele desceu sobre as nuvens. Tal como as nuvens são obstáculos para o brilho do sol, também as nuvens do mundo da humanidade ocultaram dos olhos da humanidade o esplendor da Divindade de Cristo.

Homens disseram: "Ele é de Nazaré, nascido de Maria, conhecemos Ele e conhecemos os seus irmãos. O que ele quer dizer? O que ele está ele a dizer? Que Ele veio de Deus?"

O Corpo de Cristo nasceu de Maria de Nazaré, mas o Espírito veio de Deus. As capacidades do Seu corpo humano eram limitadas, mas a força do Seu espírito era vasto, infinito, imensurável.

(‘Abdu’l-Bahá; Paris Talks, 27/October/1911)
Em Paris, e posteriormente nos Estados Unidos (ver The Promulgation of Universal Peace, p.201, 347, 450), ‘Abdu’l-Bahá recordou as palavras de Maomé sobre Jesus e Maria:
No Alcorão lemos que Maomé falou aos Seus seguidores, dizendo:

"Porque não acreditam em Cristo e no Evangelho? Porque não aceitam Moisés e os Profetas, pois a Bíblia é, certamente, o Livro de Deus? Na verdade, Moisés foi um Profeta sublime, e Jesus estava cheio do Espírito Santo. Ele veio ao mundo através do poder de Deus, nascido do Espírito Santo e da abençoada Virgem Maria. Maria, sua mãe, era uma santa do Paraíso. Ela passava os seus dias no Templo em oração e a comida era-lhe enviada do alto. O seu pai, Zacarias, foi ter com ela e perguntou-lhe de onde vinha a comida, e Maria respondeu «Do alto». Certamente, Deus enalteceu Maria acima de todas as outras mulheres".

Isto é o que Maomé ensinou ao Seu povo a respeito de Jesus e Moisés, e Ele repreendeu-os pela sua falta de fé nesses grandes Mestres, e deu-lhes lições sobre verdade e tolerância. Maomé foi enviado por Deus para trabalhar entre um povo tão selvagem e incivilizado quanto os animais selvagens.

(‘Abdu’l-Bahá; Paris Talks, 27/October/1911)

Nos Textos Autorizados Bahá’ís

A perspectiva Bahá’í sobre a Virgem Maria foi objecto de diversos esclarecimentos por parte de Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í. Os seus textos são considerados interpretações oficiais das Escrituras Bahá’ís, e por esse motivo a sua leitura é inseparável das Escrituras.

Nascimento Virginal de Cristo
"Primeiro, sobre o nascimento de Jesus Cristo: à luz daquilo que Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá afirmaram a respeito deste assunto, é evidente que Jesus veio a este mundo através da intervenção directa do Espírito Santo, e consequentemente, o Seu nascimento foi absolutamente milagroso. Isto é um facto estabelecido, e os amigos não têm que se sentir surpreendidos, pois a crença na possibilidade de milagres nunca foi rejeitada nos Ensinamentos. A sua importância, porém, tem sido minimizada".

(Lights of Guidance #1637; De uma carta datada de 31 de Dezembro de 1937, escrita em nome do Guardião a um crente individual)

Os milagres são sempre possíveis
"Mais uma vez, no que diz respeito à sua pergunta relativa ao nascimento de Jesus: Ele deseja que eu a informe que não há nada mais que ele possa acrescentar à explicação que ele lhe deu na sua comunicação anterior sobre este ponto. Para uma coisa, porém, ele deseja chamar novamente a sua atenção, nomeadamente, que os milagres são sempre possíveis, apesar de não constituírem um canal regular, pelo qual Deus revela o Seu poder à humanidade. Rejeitar os milagres na terra porque eles implicam uma violação das leis da natureza é um argumento muito superficial, quase obtuso, na medida em que Deus, Que é o autor do universo pode, na Sua sabedoria e Omnipotência, realizar qualquer mudança, mesmo que temporária, na operação das leis que Ele próprio criou.

"Os Ensinamentos não nos falam de qualquer nascimento milagroso além de Jesus."

(Lights of Guidance #1638; De uma carta datada de 27 de Fevereiro de 1938, escrita em nome do Guardião a um crente individual)

Os Ensinamentos Bahá'ís estão acordo com Doutrinas da Igreja Católica sobre o nascimento virginal
"Em relação à sua pergunta sobre o Nascimento Virginal de Jesus: quanto a este ponto, como em vários outros, os Ensinamentos Bahá'ís estão em pleno acordo com as doutrinas da Igreja Católica. No "Kitáb-i-Íqán" (Livro da Certeza) e em algumas outras Epístolas ainda não publicadas, Bahá'u'lláh confirma, ainda que indirectamente, o conceito católico do nascimento virginal. Também 'Abdu'l-Bahá no "Respostas a Algumas Perguntas", Cap . XII, afirma explicitamente que "Cristo veio à existência através do Espírito de Deus", uma declaração que implica, necessariamente, quando visto à luz do texto, que Jesus não era filho de José ".

(Lights of Guidance, #1639; de uma carta datada de 14 de Outubro de 1945, escrita em nome do Guardião a um crente individual)

Os irmãos e as irmãs de Cristo nasceram de forma natural
"Nós acreditamos que Cristo só foi concebido imaculadamente. Os Seus irmãos e irmãs terão nascido de forma natural e concebidos de forma natural."

(Lights of Guidance, #1640; De uma carta escrita em nome do Guardião ao Dr. Shook, 19 nov 1945:. Bahá'í News, No. 210, p 3, Agosto de 1948)
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NOTAS:
[1] - Alcorão 19:22
[2] - Alcorão 19:28
[3] - João 3:13