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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Jesus Cristo: Fé, Obras e Transformação

Por Maya Bohnhoff


Todos os profetas de Deus trouxeram a mensagem do amor. Nenhum ensinou que a guerra e o ódio são bons. Todos concordam em dizer que o amor e a bondade são o melhor. O amor manifesta a sua realidade em obras, não apenas em palavras - estas só por si não têm efeito. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 35)
Os leitores podem já ter ouvido muitas vezes a frase "a fé sem obras está morta" (Tiago 2:26). Ouvi-a frequentemente no púlpito quando era criança e muitas vezes me questionei sobre o que significava - especialmente no contexto da afirmação comum de que nenhuma acção (trabalho) que nós como cristãos pudéssemos fazer contribuiria para a nossa salvação espiritual. Como dizia uma amiga cristã: "Tudo o que temos a fazer é ouvir e estar em sintonia com Ele através da Sua Palavra".

Escutar é, obviamente, um bom começo. Um sábio judeu referiu uma vez que quando oramos estamos a falar com Deus e quando lemos a Sua Palavra estamos a escutar a Sua resposta. O Verbo de Deus (a palavra proferida e o Verbo que se fez carne) é fundamental para a nossa educação espiritual e para a nossa transformação de criaturas de barro em seres de luz.

O Mr. Spock dizia que a lógica era o princípio da sabedoria, e não o fim. Penso que a mesma coisa acontece com a fé; a fé é o começo da salvação e não o fim. De acordo com as escrituras (e aqui incluo os ensinamentos de todas as Vozes Proféticas nessa categoria), devemos fazer mais do que escutar; o que ouvimos deve impelir-nos a agir. O apóstolo Tiago escreve que "a fé sem obras está morta", e não que a fé sem obras esteja quase morta ou que esteja um pouco doente, mas mesmo assim seja aceitável para Deus. Ele diz que está morta - falecida, acabada e já não está viva.

Cristo diz aos Seus discípulos a mesma coisa no Jardim do Getsémani, quando, no capítulo 15 de João, Ele diz que devem permanecer no Seu Amor, e que para fazer isso, eles devem obedecer ao Seu mandamento "Amai-vos uns aos outros."

E também acrescenta o que acontecerá se não obedecem a esse mandamento:
Se alguém não permanece em mim, é lançado fora, como um ramo, e seca. Esses são apanhados e lançados ao fogo, e ardem. (João 15:6).
Isto soa como uma declaração espiritual muito clara do tipo "Se… então…": se você não fizer o que é preciso para permanecer em Cristo, então você não permanece em Cristo. Torna-se um ramo seco, morto, sem vida espiritual

Voluntários da Habitats for Hummanity
A minha amiga argumentou que "as bênçãos de Deus não dependem das nossas obras, mas do Seu amor. Não fizemos nada para o merecer, por isso não podemos fazer nada para o desmerecer."

Também fui criada a acreditar nisto, mas as palavras de Jesus simplesmente não sustentavam esta crença.

Em João 15:10, Jesus diz: "Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu, que tenho guardado os mandamentos do meu Pai, também permaneço no seu amor". A metáfora que Ele usa para ilustrar o que acontece aos que não obedecem - que não agem de acordo com a fé que professam - é extremamente clara: um ramo de videira quando é cortado morre e é lançado ao fogo.

Muitas das Suas metáforas ilustram como a nossa crença e comportamento afectam a nossa ligação com Deus (leia a Parábola das Virgens Insensatas e Prudentes para ter uma visão arrepiante). Em nenhum contexto Cristo associa a nossa salvação à crença numa doutrina ou milagre em particular. Ele associa a salvação ao quão bem nós obedecemos e amamos - ao quão bem nós "guardamos" a Sua palavra.

Esta leitura das palavras de Cristo respondeu a uma pergunta que eu me questionava há anos: O que é que Cristo quis dizer quando Ele diz em João 12:48: "Quem me rejeita e não aceita as minhas palavras tem quem o julgue: a palavra que Eu anunciei, essa é que o há-de julgar no último dia"? Como é que a palavra de Cristo nos pode julgar?

No contexto, parece-me que somos julgados pelo quão bem escutamos e agimos de acordo com o que ouvimos. Tal como Cristo diz: "Em verdade, em verdade vos digo: se alguém observar a minha palavra, nunca morrerá." (João 8:51)

Portanto, não podemos "guardar" a palavra de Cristo apenas tendo fé nele; devemos dar frutos - devemos agir. 'Abdu'l-Bahá, falando durante as Suas viagens ao Ocidente, disse: "A realização de qualquer objectivo está condicionada por conhecimento, vontade e acção. Se estas três condições não estiverem presentes, não há execução ou realização". Por outras palavras, a fé sem obras está morta.

Então, como é que os Cristãos passaram a acreditar que nossas atitudes e acções nunca poderiam levar-nos a "desmerecer" a salvação, que nunca deixaríamos de manter a nossa ligação ao Criador, colocando outras coisas à frente da obediência à Sua palavra? Foi uma ilusão da nossa parte acreditar que a salvação era tão fácil, que nada podíamos fazer para a afectar?

Ironicamente, mesmo nessa doutrina, um ser humano deve fazer algo para "merecer" habitar no amor de Cristo e receber a graça de Deus: ele deve acreditar que a graça é possível.  

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Texto Original: Jesus Christ: Faith Works and transformation (BahaiTeachings.org)
Texto Anterior: Jesus Cristo: o Significado do Sacrifício
NOTA: Todas as citações biblicas são retiradas da tradução dos Capuchinhos.

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Jesus Cristo: o Significado do Sacrifício

Por Maya Bohnhoff


Não há nada maior ou mais abençoado do que o Amor de Deus!... A essência de todas as religiões é o amor de Deus, e é a base de todos os ensinamentos sagrados.
Foi o Amor de Deus que guiou Abraão, Isaac e Jacob, que fortaleceu José no Egipto e deu a Moisés coragem e paciência.
Através do Amor de Deus, Cristo foi enviado ao mundo com o Seu exemplo inspirador de uma vida perfeita de auto-sacrifício e devoção, trazendo aos homens a mensagem da Vida Eterna...
Assim, exorto cada um de vós, a compreender o seu poder e beleza, a sacrificar todos os vossos pensamentos, palavras e acções para levar o conhecimento do amor de Deus a cada coração. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 82)
No texto anterior mencionei várias pessoas que os Bahá’ís consideram como mensageiros do Divino. Não era uma lista exaustiva. Na verdade, ao contrário podem ter lido ou ouvido, não existe uma lista completa, porque Pedro tinha razão: Deus tem falado connosco "desde o começo".

Quando encontrei pela primeira vez a ideia de que Deus revelou progressivamente a religião à humanidade através dos tempos, argumentei que nenhum desses outros profetas, mensageiros ou manifestantes tinha sacrificado a sua vida como Cristo fez. Ou como disse um amigo cristão durante um diálogo sobre fé: "Nenhum outro líder religioso, profeta, ou um homem que se intitula Deus, fez isso alguma vez"

Essa crença, infelizmente, não tem fundamento face à realidade; isso foi algo que percebi rapidamente à medida que estudava mais sobre as vidas e as épocas desses outros Profetas. Primeiramente, cada Mestre Divino vive uma vida de sacrifício absoluto. As culturas onde surgem consideram-nos apóstatas ou loucos. Eles são horrivelmente perseguidos devido aos seus ensinamentos - escarnecidos, ostracizados, torturados, exilados, presos, mortos. Buda foi envenenado; Zoroastro foi morto com uma espada quanto orava; o Báb foi executado por heresia, por fuzilamento, em 1850, porque ensinava que as profecias dos textos sagrados do mundo estavam prestes a cumprir-se. Bahá'u'lláh passou 40 anos da Sua vida na prisão e exílio devido à Sua suposta heresia contra o Islão; também foi repetidamente torturado, envenenado e, posteriormente enviado para a cidade-prisão de Acre, onde os seus perseguidores esperavam que morresse.

Um dos melhores resumos do que sucedeu a Bahá'u'lláh durante a Sua vida está registado no livro bíblico de Isaías, nos capítulos 52 e 53. Aí descreve-se um "homem de dor, afligido com o sofrimento", que foi "isolado da terra dos viventes"; isso aconteceu a Bahá'u'lláh, primeiro no Poço Negro de Teerão, depois numa sucessão de exílios, e finalmente em Acre, na Palestina. Apesar de tudo isto, através de um qualquer milagre que lançou o Império Otomano em turbulência, ele foi libertado de Acre e passou os Seus últimos anos numa casa de campo que tinha sido abandonada.
Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios, e uma tumba entre os malfeitores, embora não tenha cometido crime algum, nem praticado qualquer fraude. (Isaías 53:9)
Sempre associei estas palavras com Jesus, mas perguntei-me como é que alguns dos excertos anteriores se aplicavam a Ele. Isaías profetiza sobre este Servo de Deus dizendo que:
… aprouve ao Senhor esmagá-lo com sofrimento, para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação. Terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias, e o desígnio do Senhor realizar-se-á por meio dele. Por causa dos trabalhos da sua vida verá a luz. O meu servo ficará satisfeito com a experiência que teve. (Isaías 53:10-11)
O Fosso Negro, Teerão
Jesus morreu e ascendeu com 33 anos de idade, deixando a sua "semente" espiritual dispersa e desmoralizada; Bahá'u'lláh regressou a Deus, com a idade de 75 anos; começava então a ver as Suas próprias profecias e ensinamentos concretizados. A própria revolução que permitiu a Bahá'u'lláh passar o final da Sua vida no campo, no exterior dos muros da prisão - onde os governantes otomanos pensavam que Ele iria sucumbir ao ar fétido, às doenças e aos maus tratos - foi um desses eventos.

Era apenas um dos eventos para que Ele alertou numa série de cartas aos reis e governantes mundiais, onde descrevia o que Deus espera deles e advertia para o que iria acontecer se não mudassem os seus hábitos avarentos e belicosos. Os destinatários dessas cartas incluíam o sultão do Império Otomano, o Xá da Pérsia (Irão), o Papa Pio IX, os líderes da jovem democracia americana e os governantes das Ilhas Britânicas e da Europa.

Uma por uma, essas profecias tornaram-se realidade, de acordo com um padrão estabelecido na Torá:
Poderás perguntar-te a ti mesmo: Como distinguiremos a palavra que não proferiu o Senhor? Quando o profeta falar em nome do Senhor e essas palavras não se realizarem, então essa palavra não veio do Senhor, o Senhor não a disse. É insolência da palavra deste profeta. Não tenhais medo dele'. (Deuteronómio 18:21-22)
Através dos sacrifícios de cada um desses grandes Seres - esses manifestantes dos nomes e atributos de Deus - o mundo em que vivemos vai progredindo, não apenas material e cientificamente, mas também espiritualmente.

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Texto Original: Jesus Christ: The Meaning of Sacrifice (BahaiTeachings.org)
Texto Anterior: Jesus Cristo: os Nomes de Deus
NOTA: Todas as citações biblicas são retiradas da tradução dos Capuchinhos.

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Jesus Cristo: os Nomes de Deus

Por Maya Bohnhoff 

Todos os ensinamentos dos Profetas são um só; uma só fé; uma Luz Divina brilhando em todo o mundo. Agora, sob o estandarte da unicidade da humanidade, todos os povos de todos os credos devem afastar-se dos preconceitos, tornar-se amigos e crentes em todos os Profetas. Tal como os Cristãos acreditam em Moisés, também os judeus deveriam crer em Jesus. Tal como os Muçulmanos acreditam em Cristo e Moisés, também os Judeus e os Cristãos devem acreditar em Maomé. Assim todas as desavenças desapareceriam, todos estariam unidos. Bahá’u’llah veio para este propósito. ('Abdu'l-Bahá, 'Abdu'l-Bahá in London, p. 40)
No início desta série textos referi que fui criada com a crença de que Jesus Cristo era a palavra final de Deus para o mundo. No entanto, quando eu própria procurei as escrituras, estas desafiaram sempre essa crença. Da mesma forma que Moisés anuncia o aparecimento de Cristo com as palavras "um profeta como eu" (algo que leva a perceber tipo de profeta foi Moisés), Cristo também fala de futuros manifestantes da Luz Divina.

Especificamente, Jesus refere o "Espírito da Verdade", a quem também se refere como "outro Consolador" em várias ocasiões no registo do Evangelho. Em João 16:12-15, Ele afirma:
Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender por agora. Quando Ele vier, o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a Verdade completa. Ele não falará por si próprio, mas há-de dar-vos a conhecer quanto ouvir e anunciar-vos o que há-de vir. Ele há-de manifestar a minha glória, porque receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer. Tudo o que o Pai tem é meu; por isso é que Eu disse: 'Receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer'.
Moisés retirado das águas, Nicholas Poussin
Lendo isto com cuidado, fiquei impressionada com o que Cristo dizia sobre este Espírito da Verdade: que Ele possui "tudo o que o Pai tem" tal como o próprio Cristo. Este excerto essencialmente diz que "Deus suscitará um profeta como Eu", num momento futuro, que proferirá a palavra de Deus, profetizando, glorificando-me e proclamando a minha mensagem. Noutro excerto (João 14:26), Cristo diz que o Espírito da Verdade "há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse" - tal como Cristo recordou os ensinamentos de Moisés aos que O ouviam, citando frequentemente Moisés quando Lhe era pedido que desse a conhecer a sabedoria divina.

Assim, Deus continua a falar à humanidade através destas almas preciosas; e tem falado “desde o começo do mundo” como afirmou Pedro. Deus nunca deixou de falar à humanidade; mas a humanidade tem uma audição selectiva.

O livro do Apocalipse contém outra confirmação da ideia de que Deus lança sobre nós a mesma Luz através de diferentes lâmpadas. João escreve no Apocalipse que o Espírito se refere a Si próprio como "Alfa e Ómega, o primeiro e o último" (compare-se com a frase de Krishna: "Eu sou o começo, e o meio e o fim de todas as coisas"). Ele também faz uma profecia enigmática:
Ao que vencer, fá-lo-ei coluna no templo do meu Deus. Entrará e não mais sairá dele. E gravarei nele o meu novo nome, o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu de junto do meu Deus. (Apocalipse 3:12)
Aqui, Cristo afirma que vai ter um nome diferente, um novo nome. E, embora eu também tenha sido ensinada que Jesus é o nome de Deus, não há qualquer versículo em qualquer livro da Bíblia que afirme tal coisa, nem sequer Jesus sugeriu isso.

Quando a minha amiga Bahá’í me anunciou que "Cristo voltou e o seu novo nome é Bahá'u'lláh", fiquei indignada, apavorada, espantada, fascinada, e, por fim, galvanizada, porque já não considerava enigmática a profecia de Cristo. O novo nome, escreveu Bahá'u'lláh, era "a Glória de Deus" - "Bahá'u'lláh" em árabe, "Baha-ela", em hebraico. E a Nova Jerusalém, a Cidade de Deus, era o Seu livro - o conjunto de ensinamentos de Deus, renovado com o aparecimento de cada Mensageiro.

Acabei por acreditar, que tal como Moisés se referiu a um futuro manifestante de Deus quando mencionou "um profeta como Eu", também Cristo se refere ao Seu regresso numa forma humana diferente, com um novo nome - a mesma luz numa lâmpada diferente.

As escrituras dizem-nos que Deus quer que Lhe obedeçam por amor, e não por medo. Não iria este espantoso e amoroso Deus - revelado por Cristo - mostrar esse amor desde o princípio que não tem princípio até ao fim que não tem fim? Será que Deus se revela brevemente apenas uma vez na história e depois remete-Se ao silêncio? Cristo diz que não.

Comecei esta série de textos, salientando que segui a linha da revelação de Moisés a Cristo (e depois d’Ele) para tentar refutar Bahá'u'lláh. Mas o que encontrei foram provas que confirmam a afirmação de Bahá'u'lláh ser o "outro Consolador" enviado por Deus, outra manifestação do Espírito da Verdade. Convido os leitores a ler as palavras de Cristo sobre o Espírito da Verdade e a reflectir em oração como estas caracterizam a relação entre Moisés e Cristo.

Que razões temos nós para acreditar que a revelação de Deus vai terminar, sobretudo quando mais precisamos dele?

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Texto Original: Jesus Christ: The Names of God (BahaiTeachings.org)
Texto Anterior: Jesus Cristo: o Caminho de Deus 
NOTA: Todas as citações biblicas são retiradas da tradução dos Capuchinhos.
 
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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Jesus Cristo: o Caminho de Deus

Por Maya Bohnhoff


Quando Cristo pronunciou essas palavras tão frequentemente citadas "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim" (João 14:6), Ele acrescentou: "Se ficastes a conhecer-Me, conhecereis também o meu Pai. E já O conheceis, pois estais a vê-Lo."

O sacrifício de Cristo - e não apenas na cruz, mas ao longo da Sua breve vida - foi um acto de amor supremo. Ele demonstrou que tipo de Deus Ele representava - o Deus que alimenta, veste, e educa todos os Seus filhos, e não apenas aqueles que por acaso viveram sob a influência de uma revelação particular.

Para acreditar na doutrina de que Cristo era o único caminho para Deus para todos os tempos, eu teria que ignorar o que o próprio Cristo ensinou sobre Deus, através de palavras e actos. Cristo também dá ao versículo João 14:6 um contexto com as Suas palavras sobre si próprio. Em João 9:4-5, Ele diz:
Tenho de realizar as obras daquele que me enviou enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode actuar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.
Isto assemelha-se a um paradoxo. Cada Educador Divino é único no Seu tempo, mas faz parte de uma sequência de Professores enviados para guiar a humanidade "desde o começo" (como Pedro o descreve). Cada um é uma "luz" para o seu tempo.

Antes de ter ouvido falar da Fé Bahá'í ou de Bahá'u'lláh, eu sabia o suficiente sobre os ensinamentos de Buda para entender que alguns eram muito semelhantes aos de Cristo. Isso levantou dúvidas na minha mente; eu tinha ouvido clérigos declarar inequivocamente que Buda era um falso Cristo. Como poderia isso ser assim, questionei-me, se o Buda ensinou as mesmas coisas? O próprio Jesus garante-nos que podemos testar a verdade de um profeta, olhando para os Seus frutos e que uma árvore má não pode produzir bons frutos. Se não fossemos chamados a distinguir entre um verdadeiro e um falso profeta, porque é que Cristo nos ensina a usar a razão?

Quando ouvi pela primeira vez a afirmação de Bahá'u'lláh de que Deus tinha enviado Educadores Divinos a outros povos além dos hebreus, fiquei indignada. Iniciei uma exploração profunda das escrituras das "outras" religiões... e da minha própria. Percebi que a mensagem de Cristo é inclusiva e racional. Ele ensinou que a graça de Deus foi oferecida a todos os que ouviram a Sua palavra e a colocavam em prática. Essa palavra nunca foi negada em qualquer tempo ou a qualquer povo.

Quando li devotamente o Sermão da Montanha (Mateus 7) percebi que era impossível que o Deus revelado por Cristo – aquele Pai Amoroso de todos nós – pudesse condenar milhares de milhões de almas a permanecerem afastadas d’Ele, porque viveram e morreram em terras onde os nomes de Moisés e Jesus eram desconhecidos, mas onde Krishna e Buda viveram e ensinaram.

Muitos séculos antes de Cristo, Krishna ensinou aos povos da Índia que existia um Espírito Supremo, que era alcançado por um “amor sempre vivo”. Ensinou o que foi descrito como Regra de Ouro: fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem. As declarações de Krishna sobre o Seu propósito são surpreendentemente semelhantes às de Cristo:
Eu sou o Caminho e o Mestre que observa em silêncio. O teu Amigo, e o teu Abrigo, e a tua Morada de Paz. Eu sou o princípio, e o meio, e o fim de todas as coisas, a sua Semente da Eternidade, o seu Tesouro Supremo. (Bhagavad Gita 9:16-18)
E também as palavras de Buda Gautama:
De facto, este é o Caminho - não há outro - para a purificação da visão. Segue este Caminho. Eu ensinei-te o Caminho... fazer o esforço é o teu assunto. (Dhammapada vs 274-276)
E de Maomé:
Este é o caminho recto do teu Senhor: Detalhamos os sinais para aqueles que recebem a advertência. Para eles, será uma casa de paz na presença do seu Senhor: Ele vai ser seu amigo porque eles praticaram (rectidão). (Alcorão, Sura 6:126-127)
E Bahá'u'lláh de :
…Ele tem manifestado as Estrelas da Sua orientação divina… e decretou que o conhecimento destes Seres santificados fosse idêntico ao conhecimento do Seu próprio Ser. Quem os reconhecer, terá reconhecido Deus. Quem escutar o Seu chamamento, terá escutado a Voz de Deus, e quem testemunhar a verdade da Sua Revelação terá testemunhado a verdade do próprio Deus... Cada um deles é o Caminho de Deus que une este mundo aos domínios do além… Eles são os Manifestantes de Deus entre os homens, as evidências da Sua Verdade e os sinais da Sua glória (SEB, XXI)
Todas as questões que eu tinha sobre as "outras" religiões foram respondidas quando vi o ministério de Jesus Cristo não apenas como um caminho para a salvação individual, mas como parte de um Plano muito mais amplo e abrangente para a regeneração da humanidade; e percebi que o Plano incluía as pessoas que receberam ensinamentos de Krishna, Buda, Maomé e outros cujos nomes se perderam nas brumas do tempo.

Jesus disse (João 10:16): "Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil. Também estas Eu preciso de as trazer e hão-de ouvir a minha voz; e haverá um só rebanho e um só pastor".

Isto foi considerado, nas igrejas que frequentei em criança e adolescente, como uma profecia do "fim dos tempos". Nos próximos textos vamos ver algumas outras profecias dos "fim dos tempos".

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Texto Original: Jesus Christ: The Way of God (BahaiTeachings.org)
Texto Anterior: Jesus Cristo: O Pão da Vida
NOTA: Todas as citações bíblicas são retiradas da tradução dos Capuchinhos.

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.



quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Jesus Cristo: o Pão da Vida

Por Maya Bohnhoff
Todos os profetas Se empenharam para que o amor se manifestasse nos corações dos homens. Sua Santidade Jesus Cristo procurou criar esse amor nos corações. Ele sofreu todas as dificuldades e provações para que o coração humano pudesse tornar-se a fonte nascente do amor. Portanto, devemos empenhar-nos com toda a nossa alma e coração que esse amor possa apossar-se de nós... ('Abdu'l-Bahá, Baha'i World Faith, pp 218-219).
O Baptismo (El Greco)
Nos dois últimos artigos, vimos uma profecia feita por Moisés na Torá (Deuteronómio 18:6-8), que foi cumprida por Jesus nos Evangelhos (João 5:45-47) - um cumprimento confirmado por Pedro nos Actos dos Apóstolos (3:19-26). Estes versículos definem que:
Jesus Cristo afirmou ser o Profeta que Moisés predisse na Torá. Jesus afirmou que Ele, como Moisés, recebeu a Sua revelação de Deus "frente a frente", algo que Ele confirmou em João 6:46. Os Seus discípulos, incluindo Pedro, entenderam Jesus como fazendo parte de uma série de Reveladores Divinos da palavra de Deus. (ver também, Hebreus 1:1,2)
Ao ser educada como cristã, foi-me ensinado que a palavra de Jesus foi a final - que não haveria qualquer outra revelação da palavra de Deus até ao "Fim dos Tempos". Quase dois mil anos depois desta suposta cessação do nosso diálogo com Deus, as minhas perguntas a qualquer clérigo eram: "Porque é que Deus falou directamente à humanidade apenas uma vez, há muito tempo e durante um tão curto espaço de tempo? E porque é que a Sua única mensagem teve lugar num momento em que não tínhamos a capacidade para registar e divulgar a sua mensagem de forma eficaz?"

Além disso, se Deus, como dizia Pedro no terceiro capítulo de Actos, tem enviado os Seus mensageiros "desde o começo do mundo", porque é que Ele parou? É certo que precisamos hoje da Sua orientação mais do que nunca, pois a nossa capacidade de autodestruição tem crescido exponencialmente.

A minha introdução à Fé Bahá'í - e através dela ao Islão, ao Budismo e a outras religiões - indicou que a revelação não havia sido limitada à missão de Cristo aqui na terra, ou mesmo ao que nós consideramos como as Religiões Abraâmicas. Além disso, os meus amigos Bahá’ís lembraram que as próprias palavras de Cristo eram prova disso.

A minha exploração sobre aquilo que a Fé Bahá'í ensinava (que era mais uma tentativa de refutá-la) levou-me a uma leitura atenta e devota da Bíblia. Fiquei especialmente impressionada com o que li no Evangelho de Mateus, capítulo 7. Aqui, Jesus pede aos Seus ouvintes que compreendam o tipo de Deus é o Seu Pai considerando a forma como nós - simples seres humanos - tratamos os nossos filhos:
«Pedi, e ser-vos-á dado; procurai, e encontrareis; batei, e hão-de abrir-vos. Pois, quem pede, recebe; e quem procura, encontra; e ao que bate, hão-de abrir. Qual de vós, se o seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir peixe, lhe dará uma serpente? Ora bem, se vós, sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está no Céu dará coisas boas àqueles que lhas pedirem.» (Mateus 7:7-11)
Pela primeira vez pensei nestas frases como mais do que uma referência reconfortante ao amor de Deus. Quem consegue imaginar que tendo vários filhos apenas mostra o seu amor para um deles? A um deles daríamos alimentação, roupas e educação; os outros passariam fome, não teriam roupa e seriam ignorantes, ou estariam condenados a viver com restos de comida, roupa velha e algum conhecimento, não vindos directamente de si, mas a partir do seu filho preferido? Se um pai humano realmente fizer essas coisas, a maioria de nós considerá-lo-á um criminoso. E, no entanto, eu acreditava que essa era a maneira que Deus agia.

Tive que me perguntar: Será que Deus dá o Pão da Vida apenas a um só povo favorecido e dá pedras a todos os outros? Será que Ele envia a Sua Palavra apenas para uma nação numa única ocasião em toda a história do mundo, e permite que os falsos profetas conduzam todos os outros? Se eu acreditava na palavra de Cristo, então a resposta era um sonoro "NÃO". Parecia claro das palavras e actos de Jesus que, como disse Pedro, "... Deus falou outrora pela boca dos seus santos profetas" desde o começo do mundo.

Tinha-me sido ensinado que Jesus foi a última revelação de Deus até ao fim de todas as coisas. No entanto, quem entre nós pode imaginar que um pai humano falasse com o seu filho uma única vez, quando ele fosse muito pequeno, e desde então permanecesse calado, sem lhe transmitir qualquer orientação ou palavras de amor, até que a criança estivesse no seu leito de morte?

Se nós, que somos imperfeitos, sabemos dar coisas boas aos nossos filhos, quanto mais sabe o Deus revelado por Cristo dar coisas boas a quem Lhe pede?

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Texto Original: Jesus Christ: The Bread of Life (BahaiTeachings.org)
Texto Anterior: Jesus Cristo: Frente a Frente com Deus
NOTA: Todas as citações biblicas são retiradas da tradução dos Capuchinhos.

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Jesus Cristo: Frente a Frente com Deus

Por Maya Bohnhoff

Cristo está sempre no mundo da existência. Nunca desapareceu dali... Tende a certeza que Cristo está presente. A beleza espiritual que hoje nos rodeia é proveniente das fragrâncias de Cristo. (Mensagem de 'Abdu'l-Bahá escrita para The Christian Commonwealth, 29 de Setembro de 1911, 'Abdu'l-Bahá in London, p. 40.)
No texto anterior explorámos o testemunho de Moisés, do apóstolo Pedro e do próprio Jesus Cristo, que Cristo era um "profeta como Moisés" predito no livro do Deuteronómio (18:15 - "O Senhor Deus suscitar-vos-á um Profeta como eu, de entre os vossos irmãos. Escutá-lo-eis em tudo quanto vos disser... ").

O testemunho de Cristo encontra-se em João 5:45-47:
Não penseis que Eu vos vou acusar diante do Pai; há quem vos acuse: é Moisés, em quem continuais a pôr a vossa esperança. De facto, se acreditásseis em Moisés, talvez acreditásseis em mim, porque ele escreveu a meu respeito.
No livro dos Actos 3:19-26, o principal apóstolo de Cristo, Pedro, confirma a ligação entre Moisés e Jesus Cristo, dizendo que o Profeta que Deus suscitou não era outro senão "o Seu servo", Jesus.

Não posso exagerar a importância disto. Jesus está a fazer o que, para um judeu, teria sido uma tremenda declaração - que, ao invés de receber inspiração em visões e sonhos como os profetas menores fizeram, Ele, tal como Moisés, viu a "imagem" do Pai . A Torá diz claramente que distingue Moisés de profetas como Ezequiel ou Isaías. Moisés não recebeu meras visões ou indicações de Deus. Ele viu Deus, frente a frente:
Escutai bem as minhas palavras. Se existisse entre vós um profeta, Eu, o Senhor, manifestar-me-ia a ele numa visão. Eu me daria a conhecer em sonhos, falaria com ele. Não é assim com o meu servo Moisés! Eu estabeleci-o sobre toda a minha casa! Falo com ele frente a frente, à vista e não por enigmas; ele contempla a imagem do Senhor! (Números 12:6-8)
Jesus Cristo afirma explicitamente esta mesma distinção. Ele diz, em João 6:46, "Não é que alguém tenha visto o Pai, a não ser aquele que tem a sua origem em Deus: esse é que viu o Pai." Nesta simples frase, Jesus Cristo estabelece a Sua própria autoridade, afirmando que Ele, tal como Moisés, viu o Pai.

Diga-se, a propósito que o nome "Moisés" é egípcio e significa "filho", enquanto Jesus é mencionado como o Filho de Deus. A alegação de filiação tinha um significado cultural profundo para os judeus, pois um filho mais velho tinha a autoridade para aceita contratos em nome do seu pai. Trata-se de uma declaração de autoridade única.

Fui educada com a doutrina típica da Igreja Cristã de que Jesus Cristo foi único em toda a criação e que a veracidade dos Seus ensinamentos dependia desta característica única - uma singularidade provada pela ressurreição física do Seu corpo. No entanto, as palavras da Bíblia, que eu tinha sido educada a reverenciar, desafiaram essa crença, e levaram-me a ajustar o meu entendimento de Moisés e Jesus.

Mas Cristo não só afirma um parentesco com Moisés e os Profetas que Pedro diz que Deus tem enviado "desde o princípio"; ele próprio anuncia que haverá futuras revelações do Deus de toda a humanidade.

Isso é o que eu gostaria de explorar no próximo texto, em resposta à minha pergunta infância: Porque é que Deus só falou uma única vez?

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Texto Original: Jesus Christ: Face to Face with God (BahaiTeachings.org)
Texto Anterior: Jesus Cristo: Um Profeta como Moisés
NOTA: Todas as citações biblicas são retiradas da tradução dos Capuchinhos.

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Jesus Cristo: Um Profeta como Moisés

Por Maya Bohnhoff

Se o mundo material é infinito no que toca às suas manifestações de vida, poderá o mundo espiritual ser finito? Os profetas de Deus surgiram continuamente em eras do passado e continuarão a surgir ao longo das eras do futuro. ('Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 170)
Fui criada como Cristã sem denominação - ou Cristã com muitas denominações. Devido à insistência da minha mãe que quando os pastores se desviavam do significado claro e do contexto da Escritura nenhum Deus poderia surgir dali, frequentámos uma diversidade de igrejas: Baptista, Metodista, Presbiteriana, Episcopal, Católica e Luterana.

Em todas essas igrejas a ideia central sobre Cristo sustentava que Ele era fundamentalmente diferente de qualquer outro dos mensageiros de Deus.

Encontrei essa mesma ideia num debate recente com uma cristã devota num fórum online. Em resposta à minha afirmação sobre a missão profética de Cristo, ela declarou: "Cristo não afirmou ser um profeta."

Fiz o que minha mãe me ensinou - procurei os versículos em que Cristo fala da Sua relação com Deus. E encontrei no livro de S. João (5:45-47) as seguintes palavras de Jesus:
Não penseis que Eu vos vou acusar diante do Pai; há quem vos acuse: é Moisés, em quem continuais a pôr a vossa esperança. De facto, se acreditásseis em Moisés, talvez acreditásseis em mim, porque ele escreveu a meu respeito. Mas, se vós não acreditais nos seus escritos, como haveis de acreditar nas minhas palavras?
Onde é que Moisés fala de Cristo? Aqui está uma referência no Deuteronómio 18:15-16:
O Senhor, teu Deus, suscitará no meio de vós, dentre os teus irmãos, um profeta como eu; a ele deves escutar. Foi o que pediste ao Senhor, teu Deus, no monte Horeb, no dia da Assembleia...
No versículo 18, Moisés reitera esta profecia. De acordo com a Torá, Moisés anuncia um profeta semelhante a Ele que iria levar mais longe a mensagem divina. Que conclusão se pode tirar, senão que, quando Jesus afirma que Moisés escreveu sobre Ele, Ele está a referir-se à profecia do Deuteronómio e que Ele é, portanto, um profeta como Moisés?

Pedro, ensinando com João em Jerusalém após a ascensão de Cristo, confirma que esta profecia se refere a Cristo (Actos 3:19-26):
Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam apagados; e, assim, o Senhor vos conceda os tempos de conforto, quando Ele enviar aquele que vos foi destinado, o Messias Jesus, que deve permanecer no Céu até ao momento da restauração de todas as coisas, de que Deus falou outrora pela boca dos seus santos profetas. Moisés disse: 'O Senhor Deus suscitar-vos-á um Profeta como eu, de entre os vossos irmãos. Escutá-lo-eis em tudo quanto vos disser. Quem não escutar esse Profeta, será exterminado do meio do povo.' ... Foi primeiramente para vós que Deus suscitou o seu Servo e O enviou para vos abençoar e para se afastar cada um de vós das suas más acções.
Depois de todos os meus anos em congregações cristãs, fiquei surpreendida com esta ligação, pois nenhum pastor que alguma vez ouvi pregou um sermão sobre isto, e nenhum estudo da Bíblia alguma vez o tinha abordado. Deparei-me com ela durante as minhas tentativas para provar, ou refutar, a mensagem de Bahá'u'lláh e Fé Bahá'í do ponto de vista bíblico.

A conclusão a que cheguei foi inevitável: Jesus Cristo foi, segundo três testemunhos distintos - Moisés, o próprio, e Pedro - um profeta como Moisés e um servo de Deus, como Moisés.

Isso levanta a questão: o que é que isto significa? Que tipo de profeta foi Moisés, e qual foi a natureza da servidão Ele partilha com Jesus?

Irei explorar estas questões nos próximos artigos.

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Texto Original: Jesus Christ: A Prophet Like Moses (BahaiTeachings.org)

ARTIGO SEGUINTE: Jesus Cristo: Frente-a-frente com Deus

ARTIGO RELACIONADO: Cristo é Deus?

NOTA: Todas as citações bíblicas são retiradas da tradução dos Capuchinhos.

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Este texto é de autoria de Maya Bohnhoff, Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. Ela é também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 8 de junho de 2013

Bases para uma Cristologia Bahá'í

O texto que se segue é uma tradução do post A Basic Bahá’í Christology, de Hankownings, publicado no blog A Rational Faith. O conteúdo do texto servirá certamente de base a muitas conversas e debates. 
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Compreender a pessoa de Jesus Cristo e o seu significado Divino é importante não só para a sua posição teológica na Fé Bahá'í, mas também porque a linguagem usada para ligar o aspecto humano de Cristo com o Seu aspecto Divino tem implicações sociais. Por exemplo, tal como escrevi num post anterior, a masculinidade de Cristo é considerada como parte da sua "identidade essencial" na doutrina Católica, na medida em é usada para negar às mulheres o acesso ao sacerdócio. Outro exemplo: James Cone afirma que "Jesus é negro" na análise dos relatos dos Evangelhos, que descrevem que Jesus e Deus estão do lado dos oprimidos, notando que Jesus pertencia a uma minoria judaica na Palestina romana e que subverteu os valores culturais judaicos e romanos.

A fim de chegar a uma cristologia social básica, precisamos de examinar a linguagem usada para descrever e explicar Cristo nas Escrituras Bahá'ís. Excluindo-se as muitas passagens em que "Cristo" é uma metonímia para o Cristianismo, as que lidam com o significado teológico da sua divindade e da sua morte (que eu abordei noutras ocasiões), e as que simplesmente o citam como orador, as seguintes passagens revelam algo sobre a natureza e pessoa de Cristo. Nota: de maneira nenhuma isto é uma lista exaustiva, especialmente porque 'Abdu'l-Bahá fez centenas de referências a Cristo.

Nas Escrituras do Báb:

  • Cristo encarna "O Verbo", é o filho de Maria, não é um "terceiro de três", e não é, em essência, igual a Deus (Qayyúmu'l-Asmá)

Nas Escrituras de Bahá'u'lláh:
  • "Aquele que ajudámos com o Espírito Santo" (Proclamação de Bahá'u'lláh)
  • "O Espírito de Deus" [Também um nome de Cristo usado no Alcorão] (Proclamação de Bahá'u'lláh)
  • "Filho de Maria", "O Filho", "Manifestante do Todo-Misericordioso", "Quinta-essência da Fé " (Chamamento do Senhor dos Exércitos)
  • "Posteriormente, com a aprovação de Annas, o mais erudito dos teólogos do seu tempo, e Caifás, o sumo-sacerdote, a Sua bendita pessoa sofreu o que a pena tem vergonha de mencionar e é incapaz de descrever. O mundo inteiro com toda a sua imensidão já não conseguia mantê-lo, até que finalmente Deus o elevou ao céu." (Chamamento do Senhor dos Exércitos)
  • Era aguardado ansiosamente pelos judeus, mas foi rejeitado pelos seus sábios (Selecções, XXXV)
  • "Aquele com quem os doutores judeus discutiram" (Epístola ao Filho do Lobo)
  • "Aquele que não casou" (Epístola ao Filho do Lobo)
  • "Sua santidade" (Epístola ao Filho do Lobo)
  • Foi-lhe negado um lugar de descanso; resistiu (Epístola ao Filho do Lobo)
  • "Veio com soberania e poder" (Chamamento do Senhor dos Exércitos)
  • "A fragrância da Sua vinda foi libertada sobre eles e a Sua beleza foi revelada" (Chamamento do Senhor dos Exércitos)
  • "Foi sacrificado como redenção pelos pecados e iniquidades de todos os povos da terra" - o que Cristo quis e pediu (Selecções, XXXII)
  • "Infundiu toda a criação com uma nova capacidade", "derramou o esplendor da Sua glória sobre todas as coisas criadas" (Selecções, XXXVI).
  • Realizou os milagres de conduzir os descrentes à fé (Selecções, XXXVI)
  • Rejeitado pelos dirigentes judeus, sofreu, manteve a sua posição em "paz", exteriormente parecia fraco, interiormente estava cheio de Poder Divino - um verdadeiro "Rei" - enfrentou esses terríveis "inimigos" que levaram à sua morte (Kitab-i-Íqán)
  • Era capaz de "perceber pensamentos," podia "perdoar os pecados" (Kitab-I-Íqán)
  • Podemos deduzir através das várias referências que Bahá'u'lláh aprovava o Evangelho de João; o Kitab-i-Íqán também afirma a validade espiritual da narrativa cristã.

Nas Escrituras de 'Abdu'l-Bahá:
  • Cumpriu espiritualmente as profecias judaicas; é um cumprimento não literal (Respostas a Algumas Perguntas)
  • Agiu de formas que os Papas não reflectiram (Promulgação da Paz Universal)
  • O Alcorão relata o nascimento de Cristo, e confirma a infância (Promulgação da Paz Universal)
  • Afirmou Moisés como um Profeta; ressuscitou espiritualmente; confirmam-se relatos básicos do evangelho (Promulgação da Paz Universal)
  • Reflectia Deus; representava o Poder Espiritual (Promulgação da Paz Universal, Respostas a Algumas Perguntas)
  • Promotor da Unidade (Promulgação da Paz Universal)
  • As diferentes visões teológicas cristãs devem-se à ausência de sucessor designado (Promulgação da Paz Universal)
  • "A realidade de Cristo é ilimitada" (Promulgação da Paz Universal)
  • A linguagem trinitária é simbólica; não é literalmente expressiva do ser de Deus (Respostas a Algumas Perguntas)

Nos escritos de Shoghi Effendi:
  • Não nomeou um sucessor ou intérprete infalível (Ordem Mundial de Bahá'u'lláh)
  • A mensagem de Cristo focava-se na redenção individual, não necessariamente na Unidade Mundial (Ordem Mundial de Bahá'u'lláh)
  • Os Bahá'ís amam Cristo; mas Cristo, conforme revelado nas igrejas cristãs, está coberto por tradições religiosas e não inteiramente autêntico quanto à verdadeira natureza de Cristo (Light of Divine Guidance)
  • O nascimento Virginal é afirmado como milagroso, mas isso ainda é diferente do que a ciência considera um "nascimento virginal" (High Endeavors, 87)
  • A Alma de Cristo é pré-existente (High Endeavors)
  • A vida de Cristo assemelha-se à vida do Báb (Presença de Deus)
  • "Os discípulos de Cristo" (presumivelmente imitando Cristo) abandonaram todos os bens terrenos e, na pobreza, viajaram pelo mundo proclamando Cristo e a Sua mensagem (Bahá'í Administration)
  • "A Filiação e Divindade de Jesus Cristo são destemidamente afirmadas, a inspiração divina do Evangelho é plenamente reconhecida, a realidade do mistério da Imaculada da Virgem Maria é confessado, e a primazia de Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, é mantida e defendida." (O Dia Prometido Chegou)
  • A Bíblia não é literalmente histórica; está subordinada ao Alcorão e às Escrituras Bahá’ís (Directives from the Guardian)

Assim, pode-se afirmar que, para os Bahá’ís, o relato do Evangelho reflecte Jesus tal como entendido no contexto da Revelação Bahá'í - que também aceita o Alcorão. Então, o que é que revela sobre a nossa compreensão de Cristo e da Revelação que nos separa do Cristianismo contemporâneo? Embora existam diferenças teológicas óbvias, aqui estou principalmente preocupado com as implicações sociais.

Primeiro, afirmo que a revelação Bahá'í pode interpretar-se a si própria - e com isso pretendo dizer que podemos usar conceitos em certas passagens para interpretar outras passagens. Uma vez que a Fé proclama uma genuína igualdade social, além de igualdade ontológica entre todos os seres humanos, independentemente da sua identidade ('Abdu'l-Bahá: Philadelphia Talk, 9 de junho de 1912), podemos afirmar que a cristologia Bahá'í não faz da masculinidade de Cristo a parte essencial de seu ser "Cristo". Penso que isto está ainda mais patente em diversos autores Bahá'ís que usam apenas os títulos masculinos "Filho" e "Filho de Maria" para se referir à sua humanidade na sua essência e ao seu género na circunstância. Por outro lado, a Fé não condiciona a posição do Manifestante ao sexo masculino; apesar de todos os Manifestantes conhecidos até hoje terem sido homens, isso não limita necessariamente todos os futuros Manifestantes a serem do sexo masculino, e Deus tem capacidade para nomear uma mulher como Manifestante (Bahá'u'lláh, Súriy-i-Vafa). Por estes motivos, não acho que seja possível fazer declarações ou apoiar argumentos teológicos de discriminação de género baseadas na figura de Cristo.

Em termos de raça, Jesus é reconhecido como um Judeu, mas em oposição à elite judaica e aparentemente sem poder. Ele é, portanto, uma minoria face à cultura dominante dos romanos, assim como uma minoria dentro de sua própria cultura judaica. Apesar disso, somos informados de que, como um reflexo do poder de Deus e da "Quinta-essência de Fé", ele tem pleno poder espiritual. Creio que isto subscreve pelo menos uma afirmação fundamental da teologia da libertação de Cone, de que Deus, em Cristo - na perspectiva Bahá'í - parece ser um Deus que favorece os pobres, os fracos e os oprimidos.

Além da Cristologia de género e racial, a principal representação de Cristo é aquele que subscreve a unidade. Ele é uma personalidade sagrada que morre tanto para redenção individual como para a união das pessoas. Apesar de Shoghi Effendi esclarecer que a mensagem de Cristo não inclui um imperativo da Unidade Mundial - tal como a mensagem Bahá'í - 'Abdu'l-Bahá ainda afirma que a mensagem de Cristo transcendeu o contexto e uniu com linhas religiosas os povos europeus culturalmente distintos. Obviamente, esta não era uma unidade completa ou permanente, pois tanto cismas religiosos como separações políticas dividiram a Europa várias vezes; mas chegou a um ponto onde todas as potências europeias professavam Cristo e as virtudes cristãos eram padrão de vida. Neste sentido, a cristologia Bahá'í ignora a identidade específica de Cristo e foca-se nas qualidades da sua personalidade que levam à unidade - qualidades que os Bahá’ís acreditam que ambos os sexos e todas as raças devem cultivar como a paz, misericórdia e compaixão. É neste quadro que os Bahá’ís vêem Jesus Cristo, no Novo Testamento e no Alcorão.

Assim, o Cristo Bahá'í - pelo menos do meu ponto de vista limitado - serve melhor como um ponto de partida para debates sobre Teologia Feminista e Teologia da Libertação do que o Cristo tradicional do Cristianismo, na medida em que temos acesso directo a um Cristo livre de limitações contextuais de género ou raça, e também porque - como Shoghi Effendi reconhece - não contem um Cristo enterrado sob a tradição cristã.

No entanto, não creio que tudo isto represente uma análise completa ou adequada de uma "Cristologia" Bahá'í, mas servirá como uma introdução geral ao debate e representa uma lista que poderei usar em posts futuros. Além disso, acho que a Fé Bahá'í fica mais beneficiada por uma "Teologia da Manifestação" - uma espécie de Cristologia comparativa que analisa não apenas Jesus, mas também Maomé, Bahá'u'lláh, Moisés, e os outros. O Kitab-i-Íqán fornece um exemplo básico disso. No Cristianismo, a Cristologia serve não só para articular a crença propriamente dita, mas também explicar Deus a uma audiência humana - o que na Fé Bahá'í se realiza melhor através dos Manifestantes, sem um foco exclusivo num deles. Enquanto o Cristianismo se concentra exclusivamente sobre a figura de Cristo, os Bahá'ís têm nove Manifestantes cujas vidas e contexto social fornecem as bases para formulações teológicas.

sábado, 30 de março de 2013

Paralelismos entre Jesus e o Báb

Num estudo dos martírios de Jesus e do Báb podemos encontrar vários paralelismos:
  • A idade do Báb e a duração da Sua missão são semelhantes à de Jesus.
  • Ambos foram sujeitos a julgamentos viciados cujas conclusões eram previsíveis.
  • O Báb foi morto na véspera do Ramadão; Jesus foi martirizado na véspera do Sabbath e durante a Páscoa pelas mesmas razões.
  • O Báb foi obrigado a desfilar pela cidade; Jesus foi aclamado na sua entrada em Jerusalém.
  • O Báb foi martirizado ao meio-dia; segundo o Evangelho de João, Jesus também foi levado a essa hora.
  • Ambos foram colocados acima do solo e tinham um companheiro de martírio a quem afirmaram irem para o Paraíso.
  • Bab instruiu os seus Discípulos a negar a sua Fé; muitos dos discípulos de Jesus fugiram e negaram-O para que a sua fé pudesse continuar.
  • Jesus e o Báb demonstraram um poder sobre o martírio que mostra que a sua morte foi voluntária.
  • Ambos foram trespassados por uma Arma (lança/espada).
  • Uma longa escuridão (e outros fenómenos naturais) seguiram-se às mortes de Jesus e do Báb.
  • Foram colocados guardas para vigiar os corpos de Jesus e do Báb para que os corpos não fossem roubados; mas nos dois casos não conseguiram cumprir a sua tarefa.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Jesus é o único Salvador?

Se isto é verdade [Jesus é o único Salvador], e se é apenas com base na Bíblia e na tradição Cristã que os Cristãos sabem que Jesus é o único Salvador, então levanta-se uma outra questão: o que é que os Cristãos fazem quando o seu conhecimento de outras religiões lhes diz que, na verdade, pessoas de outras religiões fazem afirmações sobre os seus fundadores ou mestres que são muito semelhantes àquilo que os Cristãos dizem sobre Jesus? Podem não usar expressões como “Salvador” ou “Filho de Deus” (apesar de alguns o fazerem), mas falam sobre estes indivíduos como meios através dos quais se ouviu a voz de Deus (Muhammad), ou como um mestre através do qual chegaram ao esclarecimento e ao Nirvana (Buda), ou como o Glorioso que os ama e lhes diz o que realmente são (Krishna, Buda Amitaba). Garantidamente, temos de ter mais cuidado a fazer comparações fáceis e a usar o nosso telescópio Cristão para interpretar o universo dos povos de outras religiões. Tal como questiona Raimon Panikkar, se Jesus, Buda, Muhammad e Krishna não são “análogos” (expressam a mesma ideia e visão), não serão “homólogos” (desempenham a mesmo papel ou função)?

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Paul F. Knitter, Introducing Theologies of Religions, p. 58 


segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um Jesus não-exclusivista

«Jesus dá um passo espantoso face à história das religiões ao afirmar: «Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que, nem neste monte nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai, mas sim em espírito e em verdade» (Jo. 4, 22-24). O que João põe na boca de Jesus é que, doravante, nenhuma religião perante Deus é superior a qualquer outra; que não é essencial ser-se samaritano ou judeu (hoje, poder-se-ia acrescentar, cristão, hindu, budista ou muçulmano), visto que, para além da diversidade de culturas religiosas, o que conta é a verdade da relação íntima com Deus. Jesus dinamita o exclusivismo religioso e destrói o discurso legitimador de qualquer tradição religiosa: a sua pretensão a ser um centro, uma via obrigatória para a salvação. Ele entende ajudar o homem a superar a religião exterior, necessariamente plural e concorrencial, para o introduzir na espiritualidade interior, radicalmente singular e universal.»
Frederic Lenoir, Cristo Filósofo, p. 231

Este excerto também é interpretado com a universalidade da mensagem cristã.
Porque serão tão poucas as igrejas cristãs que seguem o sentido do texto apontado por Frederic Lenoir?

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Jesus e Paulo: Vidas Paralelas (2)

Ícone Ortodoxo mostrando João baptizando Jesus

No livro Jesus e Paulo: Vidas Paralelas, apesar do interesse que a análise da historicidade de alguns relatos bíblicos podem merecer, existe outra característica neste livro que me desagrada. Com alguma frequência, Jerome Murphy-O’Connor apresenta-nos um descreve Jesus quase reduzido à condição humana.

Vejamos alguns exemplos.

1. O autor afirma (p. 50) que Jesus esteve no Templo (enquanto criança ou adolescente) em busca de respostas dos doutores da religião e prolongou a sua estadia porque não encontrava respostas. E queria ter absoluta segurança que os especialistas da Lei não tinham resposta para as Suas questões.

2. Jesus é descrito (p. 40-44) como um rapaz da aldeia numa cidade em crescimento e cheia de vitalidade como Séforis (onde o seu pai se estabeleceu). Estaria fascinado com todos os elementos de modernidade e actividade de construção; os Seus conhecimentos elementares de língua grega teriam sido obtidos nessa cidade; ali teria tomado contacto com a existência de espectáculos que decorriam no teatro romano; e ali teria tido um contacto com um ambiente cosmopolita que o teriam levado a conhecer a existência de estilos de vida alternativos.

3. Noutra ocasião, O’Connor analisa (p. 94) a autoconsciência messiânica de Jesus, para tentar perceber quando é que Ele próprio se viu de maneira tão diferente, afirmando que Jesus estava plenamente consciente de quanto devia a João Baptista, pois teria sido durante a missão confiada a João que Jesus alcançou a percepção que transformaria a percepção da sua vocação. Sem João (uma espécie de catalisador) não teria tido essa oportunidade.

4. As questões económicas da época também teria influenciado Jesus. Ele teria percebido a enormidade dos problemas enfrentados pelos pequenos proprietários rurais face aos grandes latifundiários. O endividamento dos pequenos proprietários face aos grandes, criava problemas sociais terríveis, que teriam sensibilizado o Fundador do Cristianismo. (p.106-112). Algumas das Suas parábolas reflectem essa preocupação. Segundo O’Connor, “deve ter havido uma reflexão pessoa, desesperada, à medida que Jesus lutava por reconciliar aquilo que sabia ser a verdade com aquilo que lhe tinha sido dito ser a verdade. Jesus terá passado pela sua própria crítica mais estrita. Deve-lhe ter parecido incrivelmente presunçoso da sua parte assumir que o seu julgamento pudesse prevalecer sobre a sabedoria de Deus. Quem é que Ele era para se colocar contra todo um povo que aceitava a lei sem criticá-la?”

Esta tentativa de perceber como nasceram os ensinamentos de Cristo, procurando as suas raízes nas condicionantes sociais e políticas do seu tempo, e tentando percebê-las como fruto de uma reflexão pessoal do próprio Jesus, na minha opinião, correm o risco de reduzir Jesus a um filósofo ou pensador, e os Seus ensinamentos como uma ideologia (ainda que cheia de beleza e humanismo).

Devo acrescentar que considero que os Manifestantes de Deus (i.e., os Profetas fundadores da grandes Religiões Mundiais), apesar da Sua aparência humana, possuem uma condição divina que nós não podemos apreciar, nem entender plenamente. Acredito também que o Seu conhecimento da realidade (material e espiritual) não foi adquirido, mas é inato.

Por esse motivo, não faz sentido especular sobre em que pensaria o Jesus perante um determinado episódio, ou tentar interpretar os Seus ensinamentos como frutos de uma reflexão pessoal.

De qualquer forma, seria interessante ouvir as opiniões de amigos cristãos sobre este assunto.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Jesus e Paulo: Vidas Paralelas (1)



Já referi neste blog uma obra de Jerome Murphy-O’Connor, intitulada Paulo, um homem inquieto, um apóstolo insuperável. Hoje dedico alguns parágrafos a outra obra deste dominicano irlandês que é uma reconhecida autoridade em estudos sobre S. Paulo. O livro em causa tem por título Jesus e Paulo - Vidas Paralelas, e apresenta-nos uma série de semelhanças entre as vidas do fundador do Cristianismo e o seu mais brilhante apóstolo.

Para elaborar este trabalho o O’Connor serviu-se do texto Bíblico e procurou elementos geográficos, culturais e históricos. Com estes dados examinou os espaços em que ambos foram educados, as suas condições enquanto refugiados, as suas origens sociais e posições económicas, as circunstâncias políticas e influencias culturais em que desempenharam as respectivas missões.

Alguns aspectos deste trabalho conseguem ser surpreendentes, nomeadamente a questão sobre o censo imperial (que, segundo o texto Bíblico, teria ocorrido por ocasião do nascimento de Jesus) e da fuga para o Egipto (que supostamente seria para fugir ao “massacre dos inocentes”).

Sobre o censo imperial, O’Connor afirma (p.10) que não há evidência alguma de ter existido um censo imperial geral no reinado de Augusto. Se tivesse existido, não teria sido aplicado num reino autónomo associado a Roma, mas sim em territórios pertencentes ao Império. Além disso, nenhum censo romano exigia que as pessoas se deslocassem para as terras onde tinham nascido; o recenseamento podia decorrer na terra onde se habitava, e as mulheres e crianças não era obrigadas a comparecer pessoalmente (o chefe de família respondia por elas).

Sobre a historicidade da fuga para o Egipto, O’Connor afirma (p. 25-26) que é extremamente duvidoso que Herodes tivesse algum interesse pela criança Jesus (um potencial inimigo para a geração seguinte). Citando Flávio Josefo, mostra-nos que Herodes estava preocupado com alguma conspiração que pudesse surgir em Belém (qualquer conspirador podia apelar à rebelião contra Herodes, afirmando ser o governante profetizado em Mq 5:1-2.

Consequentemente a cidade estava cheia de espiões e informadores que informavam o governante sobre todos os residentes cujas opiniões eram desfavoráveis Nestas circunstâncias, seria de esperar que várias famílias procurassem segurança fora da jurisdição de Herodes. O Egipto, local habitual de refúgio, seria um destino natural. É correcto admitir que a família de Jesus estivesse entre essas famílias (a actividade profissional de José dava-lhe mobilidade para procurar trabalho noutro local).

A historicidade da expulsão dos vendilhões do Templo também é tema de análise (p. 70). Segundo o autor, a raiz deste incidente estaria no papel desempenhado pelos cambistas. Nessa época, o dinheiro tinha de ser pago em moedas de Tiro. A frequência dessa taxa foi um dos problemas. Inicialmente era uma taxa a ser paga uma vez na vida; posteriormente tornou-se uma taxa anual. Outro problema consistia no facto destas moedas possuírem imagens do deus Melkart (adorado na cidade de Tiro), facto que para muitos judeus equivalia a idolatria.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O Espaço Sagrado

No livro Cristo Filósofo, Frederic Lenoir dedica várias páginas (p.228-239), ao episódio de Jesus e a Samaritana (João 4:5-27). Nesse episódio há um diálogo onde o autor encontra diversos significados simbólicos que considera de extrema importância para o Cristianismo. Há um pequeno excerto do diálogo que merece atenção:
Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que és profeta.
Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar.
Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai.
Vós adorais o que näo sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvaçäo vem dos judeus.
Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adoraräo o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.
Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.
(João 4:19-25)
Temos aqui de ter presente que a noção de espaço sagrado está nos pilares de qualquer religião. Desde o início dos tempos que os homens religiosos procuraram sacralizar espaços: se nos tempos pré-históricos, esses espaços podiam ser grutas, fontes, ou montanhas, com as religiões monoteístas passam a ser cidades santas (Jerusalém, Roma, Meca, Benares, Constantinopla,...) e edifícios (igrejas, sinagogas, mesquitas, pagodes,...). Os próprios crentes têm necessidade de acreditar que o espaço (ou seja, a tradição religiosa) onde encarna a sua fé é o único que é verdadeiro, ou, na pior das hipóteses. Isto é muito humano.

Se considerarmos que, para os Judeus o culto em Jerusalém fazia parte da sua identidade religiosa, tal como para os Samaritanos o culto no monte Garizim era elemento integrante da sua fé, então poderemos encontrar neste diálogo questões como “Onde se deve adorar a Deus” e “Onde está a verdadeira religião?”

A resposta de Jesus destrói a pretensão de qualquer religião ser o lugar da verdade. Jesus relativiza a identificação religiosa com um espaço sagrado; o espaço de encontro com o divino passa a ser o próprio ser humano. O local de adoração é secundário; o que importa verdadeiramente é a espiritualidade interior. Podemos aqui entender que nenhuma religião se pode afirmar superior a outra.

Nas Escrituras Baha’is encontramos um texto cuja mensagem podemos considerar complementar deste diálogo de Jesus com a Samaritana.
Bem-aventurado é o lugar, a casa e o coração,
e bem-aventurada a cidade, a montanha, o refúgio,
a caverna e o vale, a terra e o mar, o prado e a ilha,
onde se haja feito menção de Deus e celebrado Seu louvor.
Interpretando este pequeno texto com os mesmo critérios que lemos o texto bíblico, percebemos que a diversidade de lugares também pode ser identificada com a diversidade de espaços sagrados que as sociedades humanas já produziram. E se eles se identificam com uma religião, então estamos na presença de uma elogio à diversidade religiosa.

Também é importante notar que entre os lugares sagrados referidos por Bahá'u'lláh, se encontra o coração humano, algo que vem de encontro às palavras de Jesus que apontava o próprio ser humano como espaço de encontro com o divino.

Assim podemos entender que Jesus afirma que nenhuma religião tem o exclusivo da Verdade; e Bahá’u’lláh acrescenta que todas são igualmente válidas.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Um Centurião e um Coronel

O texto é a minha colaboração no livro Evangelhos Comentados 2007; trata-se de pequeno comentário a uma excerto do evangelho de S.Lucas (7: 1-10).

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Tendo Jesus concluído todos os seus discursos ao povo que o escutava, entrou em Cafarnaum. Havia lá um centurião que tinha um servo a quem muito estimava e que estava à morte. Tendo ouvido falar de Jesus, enviou-lhe alguns anciãos dos judeus, rogando-lhe que o viesse curar. Aproximando-se eles de Jesus, rogavam-lhe encarecidamente: Ele bem merece que lhe faças este favor, pois é amigo da nossa nação e foi ele mesmo quem nos edificou uma sinagoga. Jesus então foi com eles. E já não estava longe da casa, quando o centurião lhe mandou dizer por amigos seus: Senhor, não te incomodes tanto assim, porque não sou digno de que entres em minha casa; por isso nem me achei digno de chegar-me a ti, mas dize somente uma palavra e o meu servo será curado. Pois também eu, simples subalterno, tenho soldados às minhas ordens; e digo a um: Vai ali! E ele vai; e a outro: Vem cá! E ele vem; e ao meu servo: Faze isto! E ele o faz. Ouvindo estas palavras, Jesus ficou admirado. E, voltando-se para o povo que o ia seguindo, disse: Em verdade vos digo: nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé. Voltando para a casa do centurião os que haviam sido enviados, encontraram o servo curado.

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Centurião RomanoNas Escrituras Sagradas de todas as religiões, existem vários episódios e documentos em que o Manifestante de Deus é descrito como um mediador pluralista e não exclusivista. Nos Evangelhos e nas Escrituras Bahá’ís sucedem-se descrições de episódios com “pessoas de outros Credos”, em que estas manifestam a sua fé e dão provas do seu amor ao Mensageiro de Deus. As acções e palavras dos fundadores das grandes religiões mundiais revelam respeito e admiração pelos crentes sinceros entre as “pessoas de outras Fés”.

Este conceito está patente no Novo Testamento: Deus é Pai de todos os povos e ama todos os seus filhos; Ele é “a luz verdadeira que ilumina todos os homens” (Jn 1:9), e deseja que “todos os homens sejam salvos” (I Tim 2:4) que “aceita” todos os que “agem rectamente”(Ac 10:35). É neste contexto de um Deus que se dirige a toda a humanidade que o episódio do centurião romano (Lc 7:1-10) é particularmente tocante.

Um episódio semelhante em que um Manifestante de Deus é confrontado com um militar cuja fé é sincera, encontra-se também na história da religião bahá’í. O caso deu-se em Tabriz, na Pérsia, no ano de 1850. O Báb encontrava-se detido e a Sua sentença de morte havia já sido decretada pelo clero muçulmano. Para tentar provar a falsidade da Sua pretensão em ser o Prometido do Islão – que segundo as tradições islâmicas seria assassinado pelos próprios muçulmanos – os sacerdotes ordenaram que a execução fosse realizada com um fuzilamento por um regimento arménio (cristão).

O comandante do regimento, o coronel Sam Khan, ficou muito perturbado com a tarefa. Tinha ouvido muitas coisas sobre o Báb e temia que a execução despertasse a ira de Deus. Assim que lhe entregaram o Báb, disse-lhe: “Eu professo a Fé Cristã, e não vos desejo qualquer mal. Se a Vossa Causa for a Causa da Verdade, livrai-me da obrigação de derramar o vosso sangue.

O Báb tranquilizou-o: “Segui as vossas instruções, e se a vossa intenção for sincera, o Omnipotente poderá certamente aliviar-vos da Vossa dificuldade.

Pouco tranquilo, Sam Khán prosseguiu a sua tarefa; a execução iria decorrer na praça principal da cidade, que já estava apinhada de gente. Ordenou aos seus homens que colocassem um prego no muro e neste amarrassem duas cordas; nestas cordas o Báb e Anis - um dos Seus discípulos - foram suspensos. Depois, o regimento colocou-se em três fileiras, cada uma com duzentos e cinquenta homem; à ordem de fogo, as fileiras dispararam uma após outra. O barulho e o fumo dos disparos encheram a praça.

Quando o fumo dissipou, a multidão ficou perplexa com o que via. Anís estava em pé diante deles, ileso e sorrindo, e o Báb desaparecera. As balas apenas tinham cortado as cordas em que eles tinham sido suspensos.

Começou então uma frenética busca do Báb. Por fim, encontraram-No sentado na Sua cela, concluindo a conversa, que fora interrompida, com o Seu secretário. “Terminei a Minha conversa. Agora podeis proceder ao cumprimento da Vossa intenção”, foram as Suas palavras quando O encontraram.

Profundamente perturbado com o ocorrido, Sám Khán recusou-se a permitir que os seus homens disparassem de novo e ordenou-lhes que abandonassem a praça. Foi então necessário chamar outro regimento para realizar o fuzilamento; para isso foi necessário recorrer a um regimento muçulmano. Uma vez mais o Báb, e Anís foram suspensos no pátio. Quando o regimento se preparava para disparar, o Báb dirigiu estas últimas palavras à multidão que O fitava:

Se tivésseis acreditado em Mim, ó geração perversa, cada um de vós teria seguido o exemplo deste jovem que, em grau, é superior à maioria de vós, e de bom grado se teria se sacrificado em Meu caminho. Dia virá em que Me tereis reconhecido; nesse dia, Eu terei deixado de estar convosco.”

Desta vez as balas acertaram no alvo. Os corpos do Báb e de Anís ficaram cravados de balas e horrivelmente mutilados; mas as suas faces permaneceram quase intactas.

Apesar das circunstâncias dos episódios do Centurião Romano e do Coronel Arménio serem diferentes, é possível notar paralelismos na sinceridade da sua fé e na humildade de ambos perante os Manifestantes de Deus. Também o facto de professarem crenças diferentes da maioria da sociedade onde viviam, é outro aspecto comum entre eles. Em ambos os episódios podemos perceber que a Mensagem de Deus não se destina a um povo específico, mas tem um carácter universal. E se nas palavras de Jesus podem sugerir que o mundo Romano estaria mais receptivo à Sua mensagem do que o mundo judaico, o que poderá sugerir o episódio com o Coronel Arménio?

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

Kitáb-i-Íqán (25)

O Sermão no Monte das Oliveiras (3ª parte)

No âmbito destes posts sobre o Kitáb-i-Íqán, apresento hoje o terceiro (e último) post dedicado à análise dos parágrafos que Bahá'u'lláh dedica nesse livro a um excerto do sermão profético de Jesus (Mt 24:29-31). Neste post abordo os significados de alguns termos simbólicos existentes nesse excerto.
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O FILHO DO HOMEM

A expressão "o Filho do homem, que virá sobre as nuvens do céu" sugere uma clara distinção entre dois planos de existência distintos (divino e humano), assim como a interferência directa de Deus na história da humanidade. Embora o Manifestante surja na forma de "templo humano"[74], a palavra "céu" afirma a Sua natureza divina. Esta dupla condição é característica comum a todos os Manifestantes de Deus.(a)

Segundo Bahá'u'lláh, o termo "Filho do Homem" designa o Manifestante de Deus prometido à humanidade. Nas palavras do fundador da religião bahá'í, os Manifestantes de Deus "...embora nasçam do ventre da Sua mãe, na realidade, descem do céu da Vontade de Deus. Apesar de habitarem nesta terra, as suas verdadeiras moradas, porém, são os retiros de glória nos reinos do além. Apesar de caminharem entre os mortais, voam no céu da Presença Divina. Sem pés, trilham o caminho do espírito, e sem asas elevam-Se às sublimes alturas da Unidade Divina... Eles são enviados através do poder transcendente do Ancião dos Dias e surgem de acordo com a excelsa Vontade de Deus, o poderosíssimo Rei"[74]


Uma representação artistica do regresso de Cristo,
baseada numa interpretação literal das escrituras

Ainda nesta expressão a palavra nuvens simboliza tudo o que se interpõe entre a terra e o céu. Tal como as nuvens no céu físico nos impedem de ver o sol, o termo nuvens nesta expressão simboliza tudo o que possa impedir a humanidade de reconhecer a luz divina que surge com o novo Manifestante. Bahá'u'lláh afirma que as nuvens simbolizam "aquelas coisas que são contrárias aos métodos e aos desejos dos homens"[79]. E acrescenta:
Essas "nuvens" significam, num sentido, a anulação das leis, a revogação das Revelações anteriores e dos rituais e hábitos correntes entre os homens, o enaltecimento dos fiéis iletrados sobre os eruditos que se opõem à Fé. Num outro sentido, referem-se ao aparecimento daquela Beleza Eterna na imagem do homem mortal, com aquelas limitações humanas como a necessidade de comer e beber, a pobreza e a riqueza, a glória e a humilhação, o dormir e o despertar e outras coisas semelhantes que lançam a dúvida na mente dos homens e provocam o seu afastamento. Todos esses véus são designados simbolicamente como "nuvens". [79]
Na perspectiva bahá'í, esta profecia de Jesus sobre o Filho do Homem surgindo no céu sobre as nuvens, é uma referência a Bahá'u'lláh(b).

PODER E MAJESTADE

Muitos cristãos acreditam que esse poder e majestade de Cristo se demonstrou na Sua ressurreição física (c) e salientam que será demonstrado na sua plenitude aquando do Seu regresso. Para os bahá'ís este poder e majestade representam uma invencibilidade espiritual inerente a todo o Manifestante de Deus. Esse poder e majestade manifestam-se com o triunfo e aceitação da Sua causa após perseguições e sofrimentos. Não se trata de uma vitória temporal, de um triunfo militar, mas sim de um triunfo espiritual, um triunfo conseguido, não obstante a rejeição e os sofrimentos que Lhe são impostos. Por outras palavras, podemos dizer que o Manifestante não surge na "glória dos homens", mas sim na Glória de Deus(Mc 8:38).

O sofrimento e as perseguições que se abatem sobre o Manifestante e os Seus primeiros seguidores são frequentemente vistos como um prenúncio do triunfo da Sua Causa. Esse sofrimento não é uma humilhação, um derrota ou um sinónimo de impotência; Como escreveu o próprio S. Paulo:
Enquanto os judeus pedem sinais, e os gregos buscam sabedoria, nós pregamos a Cristo crucificado escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Mas para os eleitos, tanto judeus como gregos, Cristo é o poder e a sabedoria de Deus. (1 Cor 1:22-24)
O Kitáb-i-Íqán deixa um convite implícito aos leitores cristãos: tentar identificar o poder e a majestade do Báb e de Bahá'u'lláh nos Seus sofrimentos.

ANJOS

No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh identifica dois termos simbólicos na expressão "...enviará os seus anjos com trombetas...". O simbolismo do termo trombeta já foi referido num post anterior(d). Para o fundador da religião baha'i, o termo "anjos" representa todos aqueles crentes cuja vida reflecte os ensinamentos da religião do novo Manifestantes de Deus. A existência desses crentes é comum a todas as religiões; para Bahá'u'lláh, estes "anjos" são crentes "...reforçados pelo poder do espírito, consumiram todas as qualidades e limitações humanas com o fogo do amor de Deus..."[86]. E acrescenta: "E agora, porque estes santos seres se santificaram de todas as limitações humanas, se dotaram de atributos espirituais, e se adornaram com as nobres características dos abençoados, eles foram, assim, designados como anjos"[87].

CONCLUSÃO

Os bahá'ís acreditam que em todas as Escrituras Sagradas existe linguagem simbólica e alegórica com o objectivo de testar os crentes, e não para os confundir ou impedir de compreender. Deus deu às Escrituras significados ocultos e dotou os seres humanos de capacidade para as compreender. Além disso, devemos ter presente que uma decisão de fé é um exercício da livre vontade do ser humano. Se os textos sagrados tivessem apenas significados literais, isso obrigaria à ocorrência de fenómenos tão extraordinários, que todos os seres humanos que os testemunhassem não poderiam exercer a sua livre vontade(e). Como afirma o próprio Bahá'u'lláh no Kitáb-i-Íqán:
Julgai imparcialmente: se as profecias registadas no Evangelho fossem cumpridas literalmente, se Jesus, Filho de Maria, acompanhado de anjos, descesse do céu visível sobre as nuvens, quem se atreveria a descrer, quem ousaria rejeitar a verdade e se tornar desdenhoso?[88]
O significado literal do excerto do sermão profético de Jesus citado por Bahá'u'lláh está profundamente enraizado na mente da enorme maioria dos cristãos. Geralmente, quando um baha’i afirma que Cristo regressou na pessoa de Bahá'u'lláh, a objecção que encontra é "Por que não apareceu este ou aquele sinal?"[89].

A explicação apresentada por Bahá'u'lláh sobre o significado destes versículos do Evangelho de S. Mateus leva o leitor a reflectir sobre os múltiplos significados ali contidos. Esta explicação é também exemplificativa da estrutura do propósito do Kitáb-i-Íqán: mais do que apresentar a Sua mensagem, Bahá'u'lláh leva cada crente a perceber o valor e a riqueza das Escrituras da sua própria religião.

A quantidade de parágrafos dedicadas por Bahá'u'lláh à explicação dos significados contidos nestes poucos versículos do cap. 24 do Evangelho de S. Mateus, constituem uma das mais notáveis explicações para os leitores de "origem cristã" sobre a forma como os bahá'ís aplicam o seu modelo de interpretação das escrituras.

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REFERÊNCIAS
(a) – O Evangelho de S. João regista este assunto como tema de polémica durante a vida de Cristo (Jo 6:38-42).
(b) – Ver post O Regresso de Cristo.
(c) – Ver o post A Ressurreição de Cristo.
(d) – Ver post O Dia do Juízo (2ª parte)
(e) – Ver post Para que serve o Simbolismo.