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quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Kitáb-i-Iqán (9)

Motivos da Oposição aos Profetas (1ª parte)
Mas hoje, amanhã e depois, devo seguir o Meu caminho porque não se admite que um Profeta pereça fora de Jerusalém. Jerusalém, Jerusalém que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes Eu quis juntar os teus filhos como uma galinha junta a sua ninhada debaixo das asas e não quiseste. (Lc 13:33-34)

Oh! a miséria dos homens! Não lhes é enviado Mensageiro algum, que não seja objecto do seu escárnio. (Alcorão 36:30)
As citações anteriores são exemplos de um aspecto comum a todas as religiões: a oposição aos Profetas. Invariavelmente, ao longo da história, cada vez que surgiu um Profeta, Ele foi perseguido, não obstante existirem tradições e profecias que anunciavam o Seu aparecimento. Este paradoxo é abordado por Bahá’u’lláh em vários parágrafos do Kitáb-i-Íqán.

SÍMBOLOS, METÁFORAS E PARÁBOLAS

Nas Sagradas Escrituras de todas as religiões podemos encontrar, na forma de símbolos, metáforas e parábolas, alusões ao aparecimento de um novo profeta. “Dia da Ressurreição”, “Juízo Final”, “Regresso de Cristo”, “Dia de Deus” são algumas das expressões usadas para descrever esses momentos únicos na história da humanidade. No entanto, os crentes nem sempre entendem o significado deste tipo de expressões e por vezes até os interpretam literalmente. E assim, quando o prometido Profeta surge, a maioria dos crentes revolta-se contra Ele, por considerarem que não se cumpriram os sinais que deviam acompanhar o Seu aparecimento.

Poder-se-ia argumentar que as indicações deixadas pelos Profetas do passado estão incompletas. Mas se essas indicações estivessem incompletas, Deus iria castigar alguém por não reconhecer o novo Mensageiro? Isso não estaria de acordo com a Sua misericórdia [14].

No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh questiona: se o que está escrito nos textos sagrados sobre a vinda de um novo Mensageiro de Deus se cumprisse literalmente, quem se atreveria a descrer? E como se poderia isso cumprir se é contra as leis da natureza? Sobre os textos que anunciam o regresso de Jesus Cristo, Bahá'u'lláh declara:
Julgai imparcialmente: se as profecias registradas no Evangelho fossem cumpridas literalmente, se Jesus, Filho de Maria, acompanhado de anjos, descesse do céu visível sobre as nuvens, quem se atreveria a descrer, quem ousaria rejeitar a verdade e se tornar desdenhoso? Não, tamanha consternação logo se apoderaria de todos os que habitam a terra, que nenhuma alma se sentiria capaz de pronunciar uma palavra e, muito menos, de rejeitar ou aceitar a verdade.[88]
Assim, se o texto se cumprisse literalmente, o aparecimento de Jesus não seria um teste à fé de cada ser humano, mas um evento que deixaria todos estarrecidos. Percebe-se que as expectativas dos crentes quando se baseiam em interpretações literais acabam ser um obstáculo ao reconhecimento do novo Profeta, e ao acesso ao conhecimento espiritual que emana das Palavras de qualquer Mensageiro de Deus.

TRADIÇÕES RELIGIOSAS

Além das interpretações literais sobre textos alusivos ao aparecimento de novos Profetas, também existem conceitos baseados em certas interpretações das Escrituras podem funcionar como obstáculos ao reconhecimento de um novo Mensageiro Divino.

No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh refere que os sacerdotes cristãos agarraram-se ao sentido literal das palavras de Jesus e não perceberam a grandeza de Maomé [25]. No Evangelho de S. Lucas, as seguintes palavras são atribuídas a Cristo: "Passará o céu e a terra, mas as Minhas palavras não passarão" (21:33). Este versículo levou a maioria dos sacerdotes cristãos a acreditar que a Lei do Evangelho nunca seria alterada. Não compreenderam esta frase à luz da dupla condição dos Profetas. Acreditam que o Prometido manterá todos os ensinamentos éticos e sociais estabelecidos por Cristo. Foi essa interpretação que os levou a repudiar Maomé.[26]

De igual forma, o versículo do Alcorão em que Maomé se proclama "Selo dos Profetas"(33:40) é invariavelmente interpretado como uma indicação de que Deus não enviará mais Profetas. Também a maioria dos muçulmanos não compreende o significado deste versículo de acordo com a dupla condição dos Profetas, e por esse motivo rejeitam todas as religiões que possam surgir após o Islão.

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Kitáb-i-Iqán (8)

A Soberania dos Profetas

Num post anterior referi que o Kitáb-i-Íqán descreve os Profetas como intermediários entre Deus e a humanidade; Eles, apesar de reflectirem os atributos de Deus, não devem ser confundidos com a Sua Essência. Podem ser comparados a espelhos limpos que reflectem a luz do sol. A Sua condição divina, a Sua influência e primazia sobre a humanidade leva a que muitos Livros Sagrados e as tradições religiosas descrevam os Profetas como reis soberanos. Esta metáfora também é aplicada a Profetas cujo aparecimento se anuncia para o futuro.

Vários textos sagrados e tradições religiosas mencionam de forma mais ou menos explícita a soberania dos Profetas; com alguma facilidade podemos encontrar referências em que eles são descritos como soberanos ou venerados como tal(a). Várias correntes religiosas, tanto no Islão como no Cristianismo, sustentam que essa soberania seria uma afirmação de poder temporal semelhante à de reis e governantes.

Na história da humanidade surgiram vários lideres religiosos que identificaram a soberania de um Profeta com o poder temporal; e esses mesmos lideres ao afirmarem-se como legítimos sucessores e intérpretes autorizados das palavras do Profeta, reclamam para si o seu quinhão dessa soberania temporal. Numa perspectiva bahá’í, trata-se de uma distorção do sentido do texto sagrado, que nos dias de hoje ainda é usada para questionar a laicidade dos Estados ou, em casos extremos, justificar a existência de regimes ditatoriais sob a pretensa designação de "teocracias".

Se no Novo Testamento ficou implícito que a soberania de um Profeta não é sinónimo de poder temporal ("O Meu Reino não é deste Mundo", [Jo 18:36]), isso é deixado muito claro no Kitáb-i-Íqán, onde Bahá'u'lláh esclarece:
...Se por soberania se quisesse dizer a soberania terrena, o domínio temporal, que implicasse a sujeição e lealdade exterior de todos os povos e raças da terra – pela qual os Seus amados fossem enaltecidos, podendo viver em paz, e Seus inimigos fossem rebaixados e atormentados - tal forma de soberania nem se poderia atribuir ao próprio Deus, Fonte de todo o domínio, de Cuja majestade e poder todas as coisas dão testemunho.[133]
Ao analisarmos a história das religiões percebemos que a influência dos Profetas na vida dos povos desenvolve-se gradualmente ao longo do tempo. Inicialmente, essa influência é imperceptível à maioria dos Seus contemporâneos; além disso, existe um enorme contraste entre as Suas condições materiais e a Sua posição espiritual[140]. Após a proclamação das Suas Missões, inicia-se a oposição e perseguições a Ele e aos Seus primeiros seguidores. Com o passar do tempo a Sua Mensagem vai sendo aceite por povos e nações. E apesar de Eles terem sido desprezados durante a Sua vida terrena, os Seus ensinamentos inspiram e guiam novas civilizações.

É este inegável papel inspirador que é referido como "a soberania de um Profeta"; trata-se de uma ascendência espiritual, uma capacidade de influenciar os que Os rodeiam de forma a mudar a história da humanidade. Bahá'u'lláh declarou que a soberania não é um exclusivo de apenas um Profeta. É um atributo comum a todos Eles:
Essa soberania não foi atribuída única e exclusivamente ao Qá'im(b). Não, o atributo da soberania e todos os outros nomes e qualidades de Deus sempre foram e serão concedidos a todos os Seus Manifestantes, antes d'Ele, e também depois, visto que estes Manifestantes, como já foi explicado, incorporam os atributos de Deus, o Invisível, e são os Reveladores dos mistérios divinos.[113]
A soberania dos Profetas é, portanto, incomparável à soberania política de reis e governantes. A soberania dos Profetas consegue inspirar actos de extraordinária bondade, de amor ao próximo, e de altruísmo; a sua influência manifesta-se durante vários séculos. A soberania do governante implica, na melhor hipótese respeito e admiração temporária por parte dos seus súbditos; pode apenas transformar ou condicionar uma sociedade durante um pequeno período de tempo. No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh compara o poder das palavras do Profetas com o poder político de reis e governantes:
Será superior esta soberania que, mediante uma só Palavra, manifestou tal preponderância, tal ascendência e tão imponente majestade, ou será superior o domínio mundano daqueles reis da terra, que, apesar de sua solicitude pelos súditos e seu auxílio aos pobres, não podem contar senão com uma lealdade aparente e fugaz, pois nos corações dos homens eles não inspiram nem afecto nem respeito?[131]
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NOTAS

(a) – A veneração dos muçulmanos por Maomé expressa-se de muitas formas. Ver
este texto na Wikipedia.
(b) – O Prometido do Islão

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Kitáb-i-Iqán (7)

A Dupla Condição dos Profetas

No Novo Testamento, as seguintes palavras são atribuídas a Jesus Cristo: “Eu e o Pai somos Um”(Jo 10:30) e “O Meu Pai é maior do que Eu”(Jo 14:28). No Alcorão, estão registadas as seguintes palavras de Maomé: “Sou o Servo de Deus”(19:31) e “Sou apenas um homem como vós”(18:110). A comparação de frases como estas é frequente por parte de cristãos e muçulmanos ao argumentar sobre a superioridade do Profeta fundador da sua religião, ou sobre a Sua condição divina. É o tipo de discussão que facilmente se torna interminável.

Relativamente a este tipo de diferenças, os ensinamentos baha’is consideram que é possível olhar para os Profetas sob duas perspectivas: a condição divina e a condição humana. Ao considerarmos os Profetas olhando à Sua condição divina, percebemos que Eles possuem as mesmas características, desempenham o mesmo papel de intermediários entre o Criador e a humanidade, e não é possível fazer distinção entre Eles.

No entanto, é com facilidade que se encontra quem faça distinção entre os Profetas, apontando alguma(s) característica(s) que um parece evidenciar e outros não. A esse respeito, Bahá'u'lláh escreveu no Kitáb-i-Íqán:
Estes atributos de Deus não são, e nunca foram, concedidos especialmente a certos Profetas e negados a outros. Não, todos os Profetas de Deus, Seus favorecidos, santos e escolhidos Mensageiros, são, sem excepção, portadores dos Seus nomes e incorporam os Seus atributos... Por não haverem estas Essências do Desprendimento manifestado, aparentemente, certo atributo de Deus, não se deve inferir, em absoluto, que estas Auroras dos Seus atributos, os Tesouros dos Seussantos nomes, realmente não o tivessem possuído. [110]
Assim, segundo os ensinamentos baha’is, ao considerarmos a condição divina dos Profetas não podemos encontrar diferenças entre Eles. O facto dos Profetas partilharem os mesmos atributos divinos, permite que se identifiquem uns com os outros, e inclusive sejam identificados pelo mesmo nome. Desta forma, cada vez que surge um novo Profeta, é correcto dizer que Ele é o regresso dos Profetas anteriores [162]. Ainda sobre este assunto é possível fazer a seguinte analogia: os Mensageiros de Deus são como o sol que surge em dias diferentes, mas é sempre o mesmo sol.

Sob uma perspectiva humana, podemos identificar alguns aspectos distintos de cada Profeta. Cada um possui um nome, uma individualidade própria, e uma Missão específica (apresentando ensinamentos de acordo com as necessidades e capacidades dos povos a quem se dirige). Desta forma, os ensinamentos éticos e sociais de cada religião apresentam diferenças entre si. Sob esta distinção material que se pode fazer entre os Profetas, Bahá'u'lláh escreveu no Kitáb-i-Íqán:
É por causa desta diferença na sua condição e missão, que as palavras e afirmações provenientes desses Mananciais do Conhecimento Divino parecem divergir... Como a maioria dos homens não soube apreciar essas condições a que Nos referimos, sente-se, portanto, confusa e perplexa perante afirmações divergentes pronunciadas por Manifestantes que são, essencialmente, um e o mesmo.[192]
Desta forma, se algum Profeta afirma “Eu sou Deus” isso é uma metáfora perfeitamente consistente com a sua condição divina; o Profeta não é fisicamente semelhante ao Omnipotente (reflectem os Seus atributos, mas não possuem a Sua Essência); e se algum Profeta afirma “Sou apenas um homem” essa afirmação deve ser considerada de acordo com a sua condição material. É extremamente importante ter presente a dupla condição dos Profetas para podermos compreender as Suas palavras e ensinamentos.

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Kitáb-i-Iqán (6)

A Revelação Progressiva
E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob. (Lc 20:37)

Dizei: «Cremos em Deus, na revelação que nos enviou, e no que foi revelado a Abraão, Ismael, Isaac, Jacob e às Tribos, no que foi revelado a Moisés e a Jesus, no que foi revelado aos Profetas pelo seu Senhor. Não fazemos distinções entre qualquer um deles. Submetemo-nos a Deus. (Alcorão 2:130)
As citações anteriores, além de evidenciarem o tronco comum do Cristianismo e do Islão, mostram um conceito que é hoje enfatizado pela religião bahá'í: Deus tem-Se revelando progressivamente à humanidade. No entanto, a maioria dos seguidores destas religiões acredita que a revelação divina terminou (ou teve o apogeu) com o aparecimento do Profeta fundador da sua religião.

Mas num mundo cada vez mais multi-cultural e globalizado estas ideias são questionadas com frequência crescente. Porque é que Deus escolheria apenas um único povo e um único momento na história da humanidade para Se manifestar e dar a conhecer a Sua Vontade? Porque é que a enorme maioria dos adeptos de todas as religiões acredita que o seu Profeta foi o último que Deus enviou?

Na tentativa de procurar respostas a este tipo de questões podemos destacar dois tipos de reacções: o diálogo inter-religioso (procurando compreender as diferentes convicções e expressões religiosas) e a criação de comunidades e doutrinas religiosas estanques voltadas sobre si próprias e, de alguma forma, desajustada das realidades sociais que hoje vivemos.

Relativamente a este segundo tipo de reacção, é de notar que nestas comunidades religiosas estanques os adeptos reclamam duas coisas: a exclusividade (ou superioridade) da revelação divina proclamada pelo Profeta fundador da sua religião, e o fim da revelação divina (Deus não enviará mais Profetas). Esta perspectiva exclusivista e derradeira sob a natureza da mensagem religiosa fomentou durante muito tempo mal-entendidos, tensões e conflitos entre adeptos de diferentes religiões.

Esta atitude em relação ao fenómeno religioso enferma de várias contradições:

  • Fará sentido acreditar num Deus Omnipotente que "tem as mãos atadas"(a) e não pode enviar mais Mensageiros?
  • Fará sentido acreditar num Deus Misericordioso, cuja Mensagem nunca chegaria a determinados povos do mundo?
  • Todos os Profetas elogiaram os Seus antecessores. Porque devem os Seus seguidores entrar em contenda?
  • Todas as religiões anunciam uma nova revelação e um Prometido em termos profundamente elogiosos. Porque haveremos de pensar que a intervenção divina terminou?


No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh descreve como a revelação divina é contínua, e que nunca a humanidade esteve, ou estará, privada dos Seus Mensageiros:
... em todos os tempos, as múltiplas graças do Senhor de todos os seres têm abrangido a terra e todos os que nela habitam, através dos Manifestantes de Sua Essência Divina. Nem por um momento sequer, negou Ele a Sua graça; jamais as chuvas da Sua benevolência cessaram de cair sobre a humanidade.[14]
Tal como os alunos de uma escola que vão adquirindo conhecimentos ao longo dos anos, através de sucessivos professores, também a humanidade vai amadurecendo e evoluindo ao longo dos séculos, graças aos ensinamentos de sucessivos Profetas. E semelhante a uma escola, onde os professores continuam o trabalho dos anteriores e anunciam novos professores, também os Profetas continuam o trabalho dos Seus antecessores e anunciam um Sucessor.

O tema da revelação progressiva é recorrente nos livros e epístolas do fundador da religião baha'i(b). Um único Deus é a fonte de todos os Profetas fundadores das grandes religiões mundiais; a sequência de Profetas enviados pelo Criador deve ser vista como um processo evolutivo destinado a inspirar o progresso humano e civilizacional.

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NOTAS
(a) – "A mão de Deus está presa por correntes" (Alcorão 5:64) Esta era a resposta dados pelos Judeus da Arábia perante a pretensão de Maomé ser Profeta. Curiosamente, hoje a grande maioria dos muçulmanos acredita que a Revelação Divina terminou com Maomé.
(b) – Um dos excertos mais citados das escrituras Bahá'ís sobre este assunto é a seguinte: "Contempla tu com a vista interior a corrente de sucessivas Revelações que ligou a Manifestação de Adão com a do Báb. Dou testemunho perante Deus de que cada um desses Manifestantes foi enviado através da operação da Vontade e Desígnios Divinos, que cada um foi o Portador de uma Mensagem específica, que a cada um se confiou um Livro divinamente revelado e foi incumbido de desvendar os mistérios de uma Epístola poderosa." (Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh, XXXI).

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Kitáb-i-Iqán (5)

Deus e a Criação

Tão antigas quanto a consciência humana, são as questões "Porque é que existimos? Seremos obra do acaso ou de uma qualquer Vontade Suprema?" Sábios, filósofos e Profetas foram apresentado respostas. O fundador da religião baha'i descreve toda a existência como resultado da vontade de um Criador; e acrescenta: "...a obra da Sua Mão não conhece princípio, nem fim"[178]

Segundo os ensinamentos bahá'ís, toda a criação reflecte, de alguma forma, os "atributos" e "nomes" de Deus, desde o mais pequeno átomo à mais grandiosa galáxia. "...qualquer coisa que esteja nos céus e qualquer coisa que esteja sobre a terra, é evidência directa da revelação, no seu imo, dos atributos e nomes de Deus, já que dentro de cada átomo estão encerrados os sinais que dão testemunho eloquente da revelação daquela mais grandiosa Luz."[107] Tal como numa obra de arte em que podemos identificar características do autor, também na criação podemos identificar o cunho pessoal do Criador. Este conceito é por vezes referido como a "Revelação Universal". No Alcorão declara-se: "Não há coisa alguma que não celebre o Seu louvor"[17:44].

O ser humano é "de todas as coisas criadas a mais nobre e mais perfeita" [109]; reflecte, potencialmente, todos os nomes e atributos de Deus; São muitos os textos dos Livros Sagrados que descrevem este tema e descrevem o ser humano como a mais nobre e perfeita de todas as coisas criadas: "Quem se tiver conhecido a si próprio, terá conhecido Deus"[107].

Tal como a obra de arte que nunca conseguirá compreender a vontade, nem a essência, do seu artista criador, também a inteligência humana não pode compreender toda a vastidão e implicações da vontade divina, nem esta pode ser descrita por qualquer língua humana. Deus transcende todos os elogios e concepções que o ser humano possa fazer a Seu respeito.

É esta situação em que o ser humano aparece como o expoente máximo da criação divina, mas em que simultaneamente não tem acesso directo ao Criador, levam Bahá'u'lláh a citar no Kitáb-i-Iqán uma tradição islâmica segundo a qual Deus teria afirmado: "O Homem é o Meu mistério e Eu sou o seu Mistério".[107]

Devemos ter presente que apesar de não termos acesso directo ao Criador, nem por isso Ele nos abandonou à nossa sorte. A benevolência de Deus sempre atingiu a humanidade; nunca estivemos privados da Sua Graça. Ele nunca a negou a qualquer povo da Terra. De tempos a tempos, um Profeta tem surgido entre os povos com o objectivo de elevar a sua condição social e espiritual. A maior graça concedida por Deus ao Ser Humano é a possibilidade de O reconhecermos através dos Seus Manifestantes. Quem o consegue, alcança uma posição suprema, referida frequentemente como "a presença de Deus".

Sobre a criação, a vontade de Deus e os Profetas (frequentemente designados nas escrituras baha'is como "Manifestantes de Deus"), Bahá'u'lláh revelou no Kitáb-i-Iqán:
O domínio de Seu decreto é vasto demais para ser descrito pela língua dos mortais, ou atravessado pela ave da mente humana; e as dispensações de Sua providência são tão misteriosas que a inteligência do homem não as pode compreender. Nenhum fim atingiu à Sua criação e desde o "Princípio que não tem princípio", ela existe; e os Manifestantes de Sua Beleza, princípio algum os viu, e eles continuarão até o "Fim que não conhece fim".[178]
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Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo citado. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.
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quinta-feira, 6 de outubro de 2005

Kitáb-i-Iqán (4)

Deus e os Profetas

Num post anterior, apresentei alguns conceitos sobre Deus que se encontram nos ensinamentos baha'is. Poderia resumir esses ensinamentos da seguinte forma:
  1. A essência de Deus é incognoscível e transcende todas as características humanas;
  2. Não existe qualquer relação directa entre Ele e a Sua Criação;
  3. A compreensão humana também é limitada para compreender Deus (ninguém O consegue descrever).
Estes tópicos resumem alguns ensinamentos baha'is mas, naturalmente, não respondem a todas as questões que se pode fazer sobre Deus, e muito provavelmente suscitam outras interrogações. Se Deus é incognoscível, como nos podemos aproximar dele? Qual o papel dos Profetas na relação entre Deus e a criação?

Segundo Bahá'u'lláh, por não ser possível ao ser humano conseguir uma relação directa com a Essência do Criador, Ele faz aparecer entre nós os Profetas, que nos dão conta da Sua Vontade apresentando provas claras do Seu conhecimento e poder. Semelhantes a espelhos perfeitos e límpidos que reflectem a imagem e a luz do sol, os Profetas reflectem os atributos de Deus. E tal como quem olha para a imagem do sol reflectida num espelho poderá dizer que vê o sol, também quem olha para as características de um Profeta poderá dizer que vê Deus. No entanto, tal como o sol e o espelho não possuem a mesma essência, também Deus e os Profetas possuem essências diferentes.

Sobre este assunto, Bahá'u'lláh escreveu no Kitáb-i-Iqán:
Estando a porta do conhecimento do Ancião dos Dias assim fechada ante a face de todos os seres, determinou Aquele Que é a Fonte da graça infinita... que aparecessem do reino do espírito, aquelas luminosas Jóias da Santidade na nobre forma do templo humano, manifestando-se a todos os homens, para que dessem ao mundo o conhecimento dos mistérios do Ser Imutável e relatassem as subtilezas da Sua Essência imperecedoura. Esses Espelhos santificados, essas Auroras da glória antiga, são – cada um e todos – os Expoentes na terra d'Aquele Que é o Orbe central do universo, a sua Essência e o seu Propósito final. D'Ele recebem o conhecimento e o poder; d'Ele derivam a soberania... São os Tesouros do conhecimento divino e os Repositórios da sabedoria celestial. Por eles é transmitida uma graça que é infinita, e revelada a luz que jamais se esvairá...[106]
A distinção entre a essência de Deus e a essência dos Profetas é particularmente importante nos ensinamentos baha’is. Numa outra epístola, Bahá'u'lláh descreveu a impossibilidade dos Profetas terem acesso directo a Deus, ou conhecimento da Sua essência.
Dez mil Profetas, cada um deles um Moisés, acham-se atónitos no Sinai da busca, perante Sua Voz proibitiva: "Nunca tu haverás de Me contemplar!"; enquanto miríades de Mensageiros, cada um tão grande como Jesus, estão pasmados, nos seus tronos celestiais, diante da interdição: "Minha Essência, tu jamais a haverás de perceber!" Desde tempos imemoriais, está Ele velado na santidade inefável de Seu sublime Ser; e eternamente permanecerá Ele envolto no impenetrável mistério de Sua Essência incognoscível. Toda tentativa de alcançar a compreensão de Sua inatingível Realidade tem terminado em confusão completa; todo esforço por se aproximar de Seu Ser excelso e formar um conceito de Sua Essência, teve como resultado desespero e malogro.(a)
No que toca aos ensinamentos sobre o Criador, encontramos aqui uma diferença clara entre a maioria das teologias cristãs e os ensinamentos baha'is. No Credo, afirma-se que Jesus é "consubstancial ao Pai"; nos ensinamentos baha'is, reitera-se que Deus e os Profetas possuem essências diferentes e que nem sequer os Profetas possuem acesso à essência de Deus.

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NOTAS
(a) - Bahá'u'lláh, Selecção dos Escritos de Baha'u'llah, XXVI

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Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo citado. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.
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quinta-feira, 29 de setembro de 2005

Kitáb-i-Íqán (3)

Deus, a Essência Incognoscível

Abraão, ao apresentar um conceito de uma divindade transcendente (que não se identificava com um ídolo ou uma imagem) tornou mais difícil a resposta à pergunta “o que é Deus?”. Como pode o ser humano perceber uma realidade que o transcende? E se a Divindade não se identifica com nada do que conhecemos, como pode a Sua existência pode ser provada pela ciência ou pela razão?

Os sucessivos Profetas fundadores das grandes religiões mundiais afirmaram a existência de Deus de diferentes maneiras, de acordo com a capacidade de compreensão dos povos a quem Se dirigiam. Isto é claramente perceptível no Judaísmo, no Cristianismo e no Islão; nestas três grandes religiões o conceito de Divindade Única e Transcendente é comum apesar de cada um dos Seus Fundadores ter feito essa proclamação com termos e expressões adequados à cultura e maturidade dos povos que Os ouviram.

Sendo o Kitáb-i-Iqán um livro essencialmente de carácter teológico, é com alguma naturalidade que ali encontramos uma significativa referência a este tema. O fundador da religião bahá’í afirma o seguinte sobre o Criador:
É evidente a todo coração iluminado e possuidor de discernimento, que Deus, a Essência incognoscível(a), o Ser Divino, é imensamente elevado além de todos os atributos humanos, tais como existência corpórea, ascensão e descida, saída e regresso. Longe esteja de Sua glória que a língua humana celebre adequadamente Seu louvor, ou o coração humano compreenda o Seu insondável mistério. Ele está, e sempre esteve, velado na eternidade antiga da Sua Essência, e permanecerá na Sua Realidade, para todo o sempre, escondido da vista dos homens... Nenhum laço de relação directa pode, em absoluto, ligá-Lo às Suas criaturas. Ele mantém-se elevado além e acima de toda separação e união, toda proximidade e todo afastamento. Nenhum sinal pode indicar Sua presença ou Sua ausência... [104]
No Kitáb-i-Iqán, Bahá'u'lláh afirma que os próprios Profetas e Sábios reconhecem a sua incapacidade para compreender a realidade Divina. Quanto a quem afirma ter conhecido Deus, Bahá'u'lláh escreveu numa outra epístola "Quem afirmar que Te conheceu, em virtude de tal afirmação, terá dado testemunho da sua própria ignorância; e de quem acreditar que Te alcançou, todos os átomos da terra darão testemunho da sua incapacidade e proclamarão o seu falhanço"(b).

Shoghi Effendi (bisneto de Bahá'u'lláh) ao descrever os múltiplos temas do Kitáb-i-Iqán, começa por dizer que Bahá'u'lláh "proclama inequivocamente a existência e a unicidade de um Deus pessoal, Incognoscível, Omnisciente, Inacessível, Omnipresente, Fonte de toda a Revelação, Todo-Poderoso e Eterno"(c). Esta frase resume de forma clara e sucinta o conceito de Deus na religião baha’i. Os significados dos termos usados por Shoghi Effendi são relativamente fáceis de perceber, com excepção do primeiro ("Deus pessoal"). O próprio Guardião esclareceu este conceito:

O que se pretende dizer por Deus pessoal é que se trata de um Deus consciente da Sua Criação, que tem uma Mente, uma Vontade, um Propósito, e não é, tal como muitos cientistas e materialistas acreditam, uma força inconsciente e determinada que opera o universo. Uma tal concepção do Ser Divino como realidade suprema e sempre presente em todo o mundo, não é antropomórfica, pois transcende todas as limitações e formas humanas, e de forma alguma tenta definir a essência da Divindade, que, obviamente, esta para lá de qualquer compreensão humana. Dizer que Deus é uma realidade pessoal não significa que Ele tenha uma forma física, nem que de forma alguma se assemelha a um ser humano. Defender uma crença assim seria pura blasfémia. (d)

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NOTAS
(a) – Nas escrituras Baha’is, a expressão "
essência incognoscível" é usada com frequência para fazer referência a Deus. O próprio Báb usa esta expressão: "Nenhuma criatura jamais Te poderá compreender de um modo condizente com a realidade de Teu santo Ser, nem poderá jamais um servo Te adorar de uma maneira digna de Tua incognoscível Essência. "
(b) - Bahá'u'lláh, Prayers and Meditations, pag. 123.
(c) - Shoghi Effendi, A Presença de Deus, pag. 200.
(d) - Shoghi Effendi, 21 Abril, 1939, Lights of Guidance.

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Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo citado. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.
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quinta-feira, 22 de setembro de 2005

Kitáb-i-Íqán (2)

Os Temas do Kitáb-i-Íqán
Devo confessar que tive dificuldades para começar a ler este livro. O estilo da escrita, a não sequencialidade dos conceitos e explicações apresentadas, e a utilização de palavras e expressões típicas de outra cultura foram provavelmente os meus grandes obstáculos para começar a compreender o Kitáb-i-Íqán(a). Mas o livro, apesar de ser dirigido a um destinatário de religião xiita e à comunidade Babí, contém muitas as passagens em que Bahá'u'lláh se dirige a toda a humanidade: "Santificai vossas almas ó povos do mundo..."[1]. Com o tempo, as minhas dificuldades desapareceram.

Tal como as cores e padrões de um tapete persa, no Kitáb-i-Íqán cruzam-se diversos temas de forma harmoniosa e eloquente. Shoghi Effendi, bisneto de Bahá'u'lláh descreve-o como "um modelo de prosa persa, com um estilo simultaneamente original, simples e vigoroso, notavelmente lúcido, e simultaneamente persuasivo e incomparável na sua irresistível eloquência"(b).

No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh começa por falar sobre os Profetas que fundaram as grandes religiões mundiais; descreve as Suas vidas e os Seus sofrimentos e demonstra a verdade das Suas Missões; ao longo dessas descrições vai assinalando aspectos comuns das Suas Religiões. Desta forma, Ele demonstra ao leitor os verdadeiros alicerces em que assenta a religião, e aquilo que devem ser consideradas provas da validade da religião do leitor. Esses mesmos critérios são depois aplicados a outras religiões, sendo o leitor levado a aplicá-los a outros Profetas e a validar os Seus ensinamentos.

A grande maioria dos seguidores das religiões mundiais, são ensinados a acreditar apenas num único Profeta, ou a venerar um Profeta acima dos outros; a sua prática religiosa tende a preocupar-se mais com a forma, do que com o conteúdo. Poder-se-ia fazer a seguinte analogia: uma pessoa pode possuir um pequena peça de outro e saber que possui um grande valor; no entanto, essa mesma pessoa pode ser incapaz perceber o valor de outra peça de ouro apenas porque tem uma forma diferente (pode até ser incapaz de distinguir ouro do bronze!).

Note-se que não está em causa a sinceridade da crença pessoal de cada pessoa. A questão essencial consiste no facto das pessoas se agarrarem a algo que consideram ser a sua religião e, de alguma forma, ignorarem as verdadeiras provas da veracidade do fundador da sua religião; este facto deixa-as incapazes de compreender as provas da veracidade dos fundadores de outras religiões.

Os temas do Kitáb-i-Íqán são tão diversos como a existência de Deus, a relatividade e continuidade da revelação divina, a semelhança dos ensinamentos fundamentais dos Profetas fundadores das religiões, e a explicação de excertos alegóricos do Novo Testamento e do Alcorão (descreve-se o significado de termos e expressões como "Ressurreição", "Dia do Juízo", "Sêlo dos Profetas" e outros) . Estes temas são ainda cruzados com outros, tais como a denúncia da perversidade dos sacerdotes e doutores de cada era, e ainda o elogio à Virgem Maria e ao Iman Hussein. Por fim afirma-se a demonstra-se a veracidade da Mensagem do Báb e enaltece-se a coragem dos Seus primeiros discípulos.

Para um leitor de língua portuguesa, o Kitáb-i-Íqán com o seu estilo de escrita, com o uso de nomes e expressões árabes e persas(c), e com a frequente citação de tradições islâmicas(d) com as quais estamos pouco familiarizados, aparenta ser um livro de leitura pouco fácil. Temos de ter presente que o destinatário deste livro era um muçulmano com perguntas muito específicas sobre o Báb. No entanto, é importante ter presente que Bahá'u'lláh demonstra a validade das religiões do passado, citando com alguma frequência o Antigo e o Novo Testamento(e).

No entanto, algumas das questões colocadas pelo tio do Báb encontram paralelismo no Cristianismo. Por exemplo, o facto do décimo segundo Iman estar vivo encontra paralelo no facto de muitos cristãos acreditarem que Cristo está vivo. Por outro lado, conceitos como "Ressurreição" e a descrição dos acontecimentos que devem ocorrer quando surgir o Prometido têm uma enorme semelhança nas duas religiões.

Como todos os livros sagrados, não é possível compreender o Kitáb-i-Íqán com uma única leitura. Em cada leitura, os diferentes temas sucedem-se, e a sua riqueza vai-se revelando gradualmente. Sucessivas leituras deste livro permitirão não só compreender melhor os assuntos, mas também descobrir novos temas e significados. Como alguém disse, ler este livro é iniciar uma caminhada em direcção à descoberta da vontade divina

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NOTAS
(a) - O texto completo (em inglês) está disponível aqui na Bahai Reference Library. Particularmente útil para o estudo do Kitab-í-Íqan, é o livro de Hooper Dunbar, A Companion to the Study of the Kitáb-i-Íqán. Neste aspecto também merece destaque o trabalho do prof. Christopher Buck: The Kitab-i Iqan: An Introduction to Bahá'u'lláh's Book of Certitude
(b) - God Passes By, pag. 138-139.
(c) - No final do Kitáb-i-Íqán existe um glossário com nomes e termos pouco comuns.
(d) - Talvez a mais curiosa tradição referida seja o facto de Jesus ter "
ascendido ao quarto céu"[98]. Segundo a tradição xiita, o céu está dividido em sete partes e Jesus quando morreu ascendeu ao quarto céu. Na minha opinião, a frase é feita em função do enquadramento cultural e religioso do tio do Báb, que era o destinatário do livro. É fácil imaginar que se o tio do Báb fosse cristão, Bahá'u'lláh poderia referir que "Jesus está sentado à direita do Pai". (mas isto é uma opinião muito pessoal!)
(e) – Sobre as aplicações do Kitáb-i-Íqán ao Cristianismo ver The Kitab-i-Iqan: The Key to Unsealing the Mysteries of the Holy Bible, de Brent Poirier

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Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo citado. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.
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quarta-feira, 14 de setembro de 2005

Kitáb-i-Íqán (1)

Durante as próximas semanas vou publicar aqui alguns posts sobre o Kitáb-i-Íqán (Livro da Certeza). Este livro foi revelado por Bahá'u'lláh, em 1861(a), durante o exílio em Bagdade, em resposta às questões de um tio do Báb que se recusava a acreditar que o seu falecido sobrinho tivesse sido um Profeta. Trata-se do segundo livro mais importante das Escrituras Bahá'ís; sob o ponto de vista doutrinário pode-se considerar o mais importante dos livros bahá’ís.

Como surgiu o Kitáb-i-Íqán(b)

O Báb tinha três tios maternos. O primeiro a aceitar a Sua religião foi Hájí Mirzá Siyyid 'Ali, conhecido por Khál-i-A'zam (O Maior Tio); tinha sido o tutor do Báb, e após o falecimento do Seu pai. Desde cedo se apercebeu do poder espiritual do Sobrinho; tornou-se um dos primeiros crentes da cidade de Shiraz, e pouco depois do martírio do Báb, também ele foi executado em Teerão(c).

O mais velho dos tios era Hájí Mirzá Siyyid Muhammad. Apesar de admirar as qualidades e carácter do Sobrinho, apenas se converteu à Sua religião depois de ter conhecido Bahá'u'lláh em Bagdade e ter recebido o Kitáb-i-Íqán como resposta às suas questões. Inicialmente este tio acreditava que o Báb não podia ser o Prometido do Islão; acreditava que existiam sinais e profecias que se deviam cumprir com o surgimento do Prometido. O terceiro tio chamava-se Hájí Mirzá Hasan-'Alí (d).

Em 1862, após várias conversas e discussões acaloradas com babis, o tio Siyyid Muhammad decidiu viajar até ao Iraque para se encontrar com Bahá'u'lláh; o seu propósito era tentar esclarecer as suas dúvidas relativamente à possibilidade do seu sobrinho ser Profeta. Convidou o irmão mais novo a viajar consigo; disse-lhe o objectivo da viagem era apenas visitar os Sepulcros(e) e a irmã, que vivia agora em Kerbala, perto do túmulo do Iman Hussayn. A viagem fez-se sem incidentes. O tio mais novo ficou furioso quando soube que o verdadeiro objectivo da viagem era investigar a autenticidade da religião do sobrinho; aquilo era assunto em que ele não se queria envolver. Insultou o irmão e ameaçou prosseguir sozinho a viagem.

Bagdade, a cidade onde Bahá'u'lláh revelou o Kitab-i-Iqan, em 1861

Algumas semanas mais tarde, em Bagdade, Bahá'u'lláh foi informado que os tios do Báb tinham visitado os Sepulcros, e estavam agora na cidade; iam descansar alguns dias antes de continuar a viagem de regresso a Shiraz. Imediatamente Bahá'u'lláh convidou os dois parentes do Báb para O visitar. Apenas Siyyid Muhammad aceitou o convite.

Siyyid Muhammad ficou profundamente impressionado com Bahá'u'lláh. Após uma longa conversa desabafou que não conseguia acreditar na divindade do Sobrinho. Para ele, se o Báb era o prometido Qa'im, então aparentemente existiam várias tradições, sinais e profecias do Islão que não se tinham cumprido. Bahá'u'lláh sugeriu que Lhe trouxesse uma lista das questões que lhe suscitavam dúvidas. No dia seguinte, o tio do Báb apareceu com as seguintes questões(f):
1. O Dia da Ressurreição. Deverá haver uma ressurreição corpórea [física] ? O mundo está repleto de injustiça. Como é que os justos serão recompensados e os injustos punidos?
2. O Décimo Segundo Imám [sucessor de Maomé] nasceu numa certa altura e ainda está vivo. Existem tradições que confirmam esta crença. Como é que se pode explicar isto?
3. A interpretação dos textos sagrados. Esta Causa não parece estar de acordo com as crenças mantidas ao longo dos anos. Não se pode ignorar o significado literal dos textos e escrituras sagradas. Como se explica isto?
4. Certos acontecimentos, de acordo com as tradições que nos chegaram dos Imáns, devem ocorrer no advento do Qá'im [Prometido do Islão]. Alguns destes foram mencionados, mas nenhum ocorreu. Como se explica isto?
No espaço de dois dias, Bahá'u'lláh revelou uma longa epístola em resposta a estas questões. Inicialmente intitulada Risáliy-i-Khál (Epístola ao Tio), o fundador da religião baha'i viria a designá-lo por Kitáb-i-Íqán. O conteúdo do texto dissipou todas as dúvidas de Siyyid Muhammad, que acabou por reconhecer que o seu Sobrinho tinha sido um Profeta.

O facto da língua original do Iqán ser o persa, acrescido de ter sido o primeiro livro bahá'í a ser impresso (Bombaim, 1881), facilitou a sua divulgação entre a recém-nascida comunidade Babí na Pérsia. A cópia original do Kitáb-i-Íqán, que Siyyid Muhammad recebeu, foi transcrita por 'Abdu'l-Bahá), que tinha então dezoito anos. Durante muitos anos esta cópia original permaneceu com a família de Siyyid Muhammad, até que em 1948, a sua bisneta, Fátimih Khánum-i-Afnan, a ofereceu a Shoghi Effendi. Chegou-lhe às mãos alguns anos mais tarde, e foi colocada no Edifício dos Arquivos Internacionais Bahá'ís, no Monte Carmelo.

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NOTAS
(a) - Sobre a data de revelação do Kitáb-i-Íqán, ver Dating Baha'u'llah's Book of Certitude.
(b) – Para mais pormenores sobre as circunstâncias da revelação do Kitáb-i-Íqán, ver The Revelation of Bahá'u'lláh, vol. I.
(c) - Ele foi um dos Sete Mártires de Teerão.
(d) - Este tio vivia em Yazd. Nunca conheceu Bahá'u'lláh, mas acabou por se tornar baha’i e reconheceu que o Sobrinho era um Profeta.
(e) - Najaf e Kerbala são santuários xiitas no Iraque, onde estão sepultados vários imans do islão xiita.
(f) - Estes são apenas os tópicos das questões. Entre os documentos conservados pelos descendentes do Báb estão as questões que Hájí Mirzá Siyyid Muhammad colocou a Bahá'u'lláh. Estão escritas pela sua mão, em duas folhas e sob quatro títulos, todas lidando com a vinda do prometido Qa'im. A sinceridade do tio do Báb em procurar a verdade é evidente nas suas questões.