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domingo, 2 de agosto de 2020

A sobrevivência da Alma após a Morte

Por Alan Dworak. 


O que nos acontece quando morremos? Sabiam que todos os meses há cerca de cem mil pessoas que procuram resposta a esta pergunta no Google?

É óbvio que a morte nos apresenta um mistério tremendo e muitas pessoas procuram uma resposta. Mas a verdade é que o Google não sabe a resposta! Toda a informação factual e dados existentes na internet não conseguem responder a este mistério humano básico.

É verdade! Nem o Google, nem o Siri, nem a Alexa, nem o Databot sabem como abordar este enigma básico. No fundo, como pode alguma pessoa ter conhecimentos para responder a questões sobre a vida depois da morte? Nenhuma pessoa tem conhecimentos por experiência própria – a menos que se acredite nos relatos notavelmente semelhantes de experiências quase-morte. As únicas pessoas que têm a verdadeira resposta nada podem dizer.

Além disso, o facto de não gostarmos de falar no assunto também não ajuda. Nas culturas Ocidentais, a morte não é um tema de conversa frequente. Em vez de confrontarmos a nossa mortalidade, temos tendência a rotular essas conversas como mórbidas ou desagradáveis. E como resultado, tentamos afastá-las, juntamente com a própria morte, tanto quanto for possível.

É comum a morte ser considerada uma falha da medicina e não um desenlace natural, expectável e inevitável da vida humana. Queremos um milagre da medicina que permita “fugir ao problema”, pelo menos durante mais algum tempo. Esta perspectiva clínica sobre a morte leva a que as pessoas morram em instituições, afastadas dos seus entes queridos e privadas dos confortos familiares. Segundo uma sondagem da Universidade de Stanford, 60% dos americanos morre nos cuidados intensivos dos hospitais, 20% morre em lares de idosos e apenas 20% morre em casa.

Na verdade, a grande quantidade de pesquisas no Google sobre o assunto indica algo igualmente importante, especialmente quando as pessoas não pretendem pensar (ou fazer) alguma coisa sobre o assunto – pelo menos até a morte se tornar um tema urgente ou iminente.

Por isso, aqui fica a pergunta: se não queremos pensar no assunto, como poderemos compreender a morte ou estar preparados para ela? Como nos podemos preparar para algo em que nem sequer queremos pensar, e nem compreendemos quando pensamos nisso? Se ninguém quer falar da morte – que representa um facto inescapável da vida humana – então como podemos enfrentá-la?

Mais tarde ou mais cedo, todos enfrentamos a dura realidade de que vamos morrer. A nossa morte inevitável – seja antecipada, acidental, confortável ou dolorosa – será o fim da vida tal como a conhecemos.

Só a religião nos pode preparar para o que podemos esperar depois de morrermos. Não nos diz exactamente qual o aspecto das coisas do outro lado, mas todas as grandes religiões do mundo nos dizem que o outro lado existe e que a morte nos leva para o outro lado da vida – que as nossas almas são imortais e que continuam a existir após desintegração física dos nossos corpos. A Fé Bahá’í afirma que a alma é imortal e que não devemos temer a morte:
Considerar que o espírito é aniquilado após a morte do corpo é imaginar que um pássaro preso numa gaiola morre quando se destrói a gaiola, apesar do pássaro nada ter a temer com a destruição da gaiola. Este corpo é como uma gaiola e o espírito é como o pássaro: vemos que este pássaro, liberto da sua gaiola pode voar livremente… Assim, se a gaiola se destruir, o pássaro não só continua a existir, mas os seus sentidos vão acentuar-se, a sua percepção expandir-se, e a sua alegria tornar-se mais intensa. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, p. 262)
Quando a morte acontece, dizem-nos os ensinamentos Bahá’ís, o corpo regressa ao mundo do pó, mas a nossa alma imortal continua a evoluir:
O espírito é imutável, indestrutível. O progresso e desenvolvimento da alma, a alegria e tristeza da alma, são independentes do corpo físico. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 20)
Assim, a morte é pouco mais do que uma ilusão. Podemos compará-la, metaforicamente, com a água a ferver que se evapora: a água transforma-se em vapor e parece desaparecer no ar – no entanto, a água existe como vapor. O facto de não a podermos ver, de ter mudado de forma, não significa que tenha morrido ou desaparecido para sempre no esquecimento:
Devido à sua ignorância, o homem teme a morte, mas a morte de que ele foge é imaginária e absolutamente irreal; é apenas imaginação. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 88)
Bahá’u’lláh, o profeta fundador da Fé Bahá’í, escreveu:
...sobre a tua pergunta referente à alma do homem e à sua sobrevivência após a morte. Sabe tu, em verdade, que a alma após a sua separação do corpo, continuará a progredir até atingir a presença de Deus (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, LXXXI)
Esta mensagem espiritual pode dar-nos muita segurança e inspiração. A morte é algo que não devemos temer; e além disso, os ensinamentos Bahá’ís, dizem-nos que é algo para o qual nos devemos preparar:
Ó Filho do Homem! Tu és o Meu domínio e o Meu domínio não perece; assim, porque temes o teu fim? És a Minha luz e a Minha luz nunca se extinguirá; porque receias a extinção? És a Minha glória e a Minha glória não se desvanece; és a Minha túnica e a Minha túnica nunca se desgastará. Permanece, pois, no teu amor por Mim, para que possas encontrar-Me no reino da glória. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do persa, #14)

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Texto original: The Survival of the Soul after Death (www.bahaiteachings.org)


Alan é um Baha’i que vive na Malásia. É formado em Engenharia de Polímeros e tem um mestrado em gestão internacional. Já visitou mais de 30 países.

sábado, 4 de maio de 2019

Ressurreição dos Mortos: Entre a Fé e a Razão

Por Christopher Buck.


Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que a razão e a religião devem estar em harmonia entre si:
Se a religião se opõe à razão e à ciência, a fé é impossível; e quando a fé e a confiança na religião divina não se manifestam no coração, não pode haver realização espiritual. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 299)
Vamos aplicar este princípio fundamental da Fé Bahá’í a um assunto importante do Cristianismo, e também do Judaísmo e do Islão: a ressurreição da humanidade no Dia do Juízo. Como acontecerá isto? Ou melhor: Como é que isso poderá acontecer, se é que alguma vez acontecerá!

A metafísica da ressurreição inclui uma teoria da pessoa humana. Para que fique claro, a “ressurreição” é a base da fé Cristã e refere-se ao triunfo de Jesus sobre a morte; foi com esta perspectiva Cristã que eu fui educado. Depois há a ressurreição dos mortos que deve acontecer no Dia do Juízo. Foi-me ensinado na catequese que, se Jesus conseguiu ressuscitar dos mortos, então nós também conseguiríamos, se fossemos Cristãos fiéis.

Esta promessa era apelativa especialmente para nós, jovens, pois o apego aos nossos corpos físicos era forte e vibrante. A típica doutrina Cristã sobre a ressurreição no fim-dos-tempos tem mais a ver com receber um corpo perfeito e com a juventude eterna aqui na Terra, do que com noções incorpóreas de vida depois da morte. Deste modo, a doutrina da ressurreição física não tem apenas uma natureza sobrenatural (em que as leis da natureza não se aplicam), mas também é uma doutrina algo materialista, pelo menos no seu apelativo carnal. Também é contrária à ciência, como sabemos.

Se o ser humano tem uma alma e é essencialmente um ser espiritual, porque é que o corpo é necessário para além da vida física aqui na Terra? Porque é que a junção de corpo e alma é tão popular nas crenças populares Cristãs sobre o Dia do Juízo? Isto pode dever-se à identidade pessoal e ao apego ao corpo físico.

Assim, a doutrina Cristã sobre ressurreição é problemática, não só do ponto de vista da razão e da ciência, mas também numa perspectiva espiritual. No âmago de tudo isto, o que está em causa é a definição e a doutrina sobre a pessoa humana.

Basicamente, os ensinamentos Bahá’ís afirmam que a alma é imortal e que o corpo é mortal. Por outras palavras, a alma é espiritual e o corpo é físico.

Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como dizem alguns de entre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou” disse S. Paulo aos Coríntios. “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.” (1 Cor 15:12-14) Lutei com este critério básico das minhas crenças Cristãs quando conheci a Fé Bahá’í.

Quando me ensinaram sobre a ressurreição na catequese, a consciência individual de uma pessoa não era o único critério da personalidade humana. A consciência exigia a instrumentalização dos sentidos. A sua actuação, num determinado momento após a morte, era garantida pela ressurreição de Cristo enquanto “Deus feito carne”, o que era o mistério central da encarnação. Mas as escrituras Bahá’ís rejeitam a ideia de que Deus possa encarnar:
Sabe tu com certeza que o Invisível não pode, de forma alguma, encarnar a Sua Essência e revelá-la aos homens. Ele está, e sempre esteve, imensamente exaltado para lá de tudo o que possa ser narrado ou compreendido. Do Seu retiro de glória, a Sua voz está sempre a proclamar: “Em verdade, Eu sou Deus; não há outro Deus além de Mim, o Omnisciente, o Sapientíssimo. Manifestei-Me aos homens e enviei Aquele que é a Alvorada dos sinais da Minha Revelação. Através dele fiz com que toda a criação testemunhasse que não há outro Deus salvo Ele, o Incomparável, o Informado de tudo, o Omnisciente. Ele Que está eternamente oculto dos olhos dos homens nunca poderá ser conhecido salvo através do Seu Manifestante, e o Seu Manifestante não poderá aduzir maior prova da verdade da Sua Missão do que a prova da Sua própria Pessoa. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, XX).
A unidade psicossomática – corpo e alma – é destruída com a morte. Então como é que os corpos físicos que tivemos aqui na Terra se podem alguma vez reunir com as nossas almas? Isto é um problema de identidade. Quando estava a investigar a Fé Bahá’í, cheguei a um momento em que tive de repensar a minha identidade pessoal, assim como a base da minha identidade enquanto Cristão. Também tive que repensar o meu entendimento da identidade de Jesus Cristo.

Assim, podem imaginar a minha surpresa e espanto quando li pela primeira vez a seguinte explicação, sábia e serena, de ‘Abdu’l-Bahá:
Ó tu que acreditas no Espírito de Cristo, no Reino de Deus!

O corpo é constituído, em verdade, por elementos corpóreos e toda a composição está necessariamente sujeita à decomposição; mas o espírito é uma essência simples, pura, espiritual, eterna, perpétua e divina. Aquele que procura Cristo na perspectiva do Seu corpo, na verdade, rebaixou-O e afastou-se d’Ele; mas aquele que procura Cristo na perspectiva do Seu espírito, crescerá dia após dia em alegria, atracção, zelo, proximidade, percepção e visão.

Tu tens que procurar o Espírito de Cristo neste dia maravilhoso. O céu para onde Cristo ascendeu não é um espaço infinito. O Seu céu é, em vez disso, o reino do Seu Senhor, o Magnânimo. Assim Ele disse, “O Filho do Homem está no céu”. É sabido, portanto, que o Seu céu está para lá dos limites que cercam a existência e que Ele está elevado para as pessoas que adoram.

Reza a Deus para ascender a este céu, provar a sua comida – e sabe que as pessoas ainda não perceberam até hoje o mistério das Sagradas Escrituras. Acreditam que Cristo esteve privado do Seu céu quando esteve neste mundo, que desceu dos cumes da Sua elevação e posteriormente ascendeu a este cume elevado – isto é, em direcção ao céu que não existe, pois existe apenas espaço. Esperam que Ele desça deste céu sentado numa nuvem. Eles acreditam que há no céu uma nuvem na qual Ele se senta, e na qual descerá; mas, na realidade, as nuvens são vapores que se erguem da terra e que não descem dos céus. A nuvem mencionada nas Sagradas Escrituras é o corpo humano, porque é um véu para eles, tal como uma nuvem, que os impede de ver o sol da verdade que brilha no horizonte de Cristo.

Rezo a Deus para abra perante a tua face os portões da revelação e da visão, de tal maneira que percebas os mistérios de Deus neste dia conhecido. ('Abdu’l-Bahá, Tablets of Abdu’l-Baha, pp. 316–317)
Quando li, pela primeira vez, a frase “Aquele que procura Cristo na perspectiva do Seu corpo, na verdade, rebaixou-O e afastou-se d’Ele”, fiquei atordoado. Foi algo que desafiou a minha identidade Cristã. Nesse momento decidi que se queria ser um verdadeiro Cristão, tinha de me tornar Bahá’í, em vez de permanecer Cristão. Ao abraçar a Fé Bahá’í, eu não estava apenas a aceitar o cumprimento das profecias de Cristo sobre o reconhecimento de Bahá’u’lláh como “regresso” do espírito e poder de Cristo, mas também a reafirmar a minha anterior identidade como seguidor de Jesus Cristo, com uma compreensão totalmente nova.

Nunca tinha percebido antes que os fundamentos das minhas anteriores crenças em Jesus se baseavam primariamente no milagre da ressurreição de Jesus, o que significava, em termos grosseiros, que eu poderia voltar a ter o meu corpo no Dia do Juízo Final.

Assim, depois de ler esta notável explicação de ‘Abdu’l-Bahá, percebi subitamente que a minha “fé era vã”, tal como S. Paulo assegurava – mas por uma razão completamente diferente. Eu acreditava em Cristo por motivos “vãos” (nomeadamente, o meu apego ao corpo físico, juntamente com a promessa da ressurreição física). A minha concepção sobre a pessoa e a obra de Cristo tinham de ser totalmente reconstruídas e reformuladas.

Eu tinha “nascido de novo”, com uma nova compreensão de todas as coisas Cristãs, com um entendimento mais profundo sobre aquilo que Cristo tinha ensinado e realizado – numa forma em que essas crenças já não estavam em contradição com a razão ou a ciência. Para mim, isto foi o triunfo do discernimento – inspirado e ajudado pelos ensinamentos Bahá’ís.

Nesta fase avançada da vida, não tenho muito orgulho em dizer que estou eternamente grato por este importante avanço na natureza fundamental e minha fé e crença em Jesus Cristo, que não só ficou reforçada com a minha adesão à Fé Bahá’í, mas também foi grandemente aprofundada pelos ensinamentos espirituais das escrituras Bahá’ís, e tremendamente ampliada com os princípios universais dos ensinamentos Bahá’ís.

A verdade e o mistério do Dia do Juízo – e a doutrina da “ressurreição dos mortos” que lhe está associada – exige uma nova compreensão, baseado num acto individual de discernimento, com o exercício de um juízo pessoal e independente.

Que isto seja um testemunho de fé – e da razão.

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Texto original: Reason and the Resurrection: Can Faith Stand the Test of Science? (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 16 de junho de 2018

Superar o medo: uma pena na brisa da vontade de Deus.



Os meus pensamentos levam-me a uma cena de um filme. Uma pena é soprada pelo vento e levada pelo ar. Voa até ao topo de umas árvores e depois desce até junto dos pés de Forest Gump.

E no final do filme, aquela pena voa novamente para o céu simbolizando o fluir constante das nossas vidas. No caso de Forest Gump, ele era uma alma tão pura que nunca andava contra a corrente, e preferia sempre entregar-se à vontade de Deus. Submetia-se - com um coração puro, afectuoso e radiante - a tudo o que a vida lhe dava.

A vida é como uma caixa de chocolates. Nunca sabemos que vamos encontrar lá dentro” era a sua famosa frase; e ficava grato por tudo o que recebia.

Como é que podemos tornar-nos tão puros de coração? Como podemos andar sobre as brisas da vontade de Deus? Aliviar o peso do ego torna os nossos espíritos mais leves. Quando não seguimos as nossas vontades, não andamos contra o vento e podemos perceber melhor o que Deus tem reservado para nós:

Não há paz para ti salvo se renunciares a ti próprio e te voltares para Mim; pois convém-te glorificares-te no Meu nome e não no teu próprio. Põe a tua confiança em Mim e não em ti próprio, pois Eu desejo ser amado, só e acima de tudo o que existe. (Bahá’u’lláh, TheHidden Words, p. 5)

Imploro-Te, ó meu Senhor, pelo Teu nome cujo esplendor envolveu a terra e os céus, que me possibilites a entregar a minha vontade àquilo que decretaste nas Tuas Epístolas, para que eu possa deixar de descobrir em mim qualquer desejo salvo o que desejaste através do poder da Tua soberania, e qualquer vontade salvo o que me destinaste pela Tua vontade. (Bahá’u’lláh, Prayers and Meditations, p. 241)

Pessoalmente, sinto-me perturbada quando percebo que não me entrego ao vento da vontade de Deus. Um exemplo é o meu medo persistente de um dia ter a doença de Alzheimer. Fico preocupada e penso muito cada vez que me esqueço de alguma coisa ou quando penso que estou a mostrar os primeiros sinais de demência. Com isto, trago para a minha vida tudo o que se relaciona com demência e os meus medos multiplicam-se.

Hoje fui ao funeral de um amigo idoso da minha comunidade. Só quando cheguei é que soube que ele sofreu de Alzheimer durante os últimos anos da sua vida. Pensei para mim própria como aquilo deve ter sido terrível. Depois ouvi histórias magníficas sobre como ele viveu para servir a humanidade. Foi só durante os últimos anos que ele sofreu os efeitos da doença; foi apenas uma pequenina parte da sua vida maravilhosa. A situação não afectou a sua alma. Tal como outras pessoas que o conheceram, vou sempre recordá-lo como saudável, sorridente e simpático. Viveu a sua vida na brisa da vontade de Deus e agora está em paz.

A única forma de superarmos o medo, percebi, é segurarmo-nos ao amor. Tenho que acreditar que Deus me ama e que Ele cuida de mim, independentemente do que possa acontecer. Focar-me no amor e não no medo, deu-me paz.

Confia em Deus. Acredita n’Ele. Louva-O e apela-Lhe constantemente. Em verdade, Ele transforma os problemas em facilidades, a tristeza em conforto, e a luta em paz absoluta. Em verdade, Ele tem o domínio sobre todas as coisas.

Se escutares as minhas palavras, liberta-te dos grilhões de tudo o que possa acontecer. Ou melhor, sob todas as condições, agradece ao teu Senhor afectuoso, e entrega os teus problemas nas Suas mãos para que Ele faça o que Lhe agrada. Isto é melhor para ti do que tudo o que existe em ambos os mundos. (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings ofAbdu’l-Baha, #150)

Após o funeral, um amigo viu a chorar. E disse-me com um sorriso: “Kathy, esta vida só dura alguns minutos. É muito curta e só temos tempo para ser felizes.” Reconheci que tinha passado demasiadas horas a preocupar-me com coisas poderiam nunca acontecer, em vez de aproveitar os preciosos momentos que me restam:

Ó tu que volves a tua face para Deus! Fecha os teus olhos para todas as coisas e abre-os depois para o reino do Todo-Glorioso. Pede o que quer que desejes apenas a Ele; procura o que quiseres apenas n’Ele. Com um olhar, Ele concede cem mil esperanças; com um vislumbre, Ele cura cem mil doenças incuráveis; com um aceno, Ele coloca um bálsamo em todas as feridas; e num relance, Ele liberta os corações dos grilhões da dor. Ele faz o que faz, e nós que recurso temos? Ele cumpre a Sua vontade, Ele ordena o que Lhe apraz. Assim, é melhor para ti curvares a tua cabeça em submissão e colocares a tua confiança no Senhor Todo-Misericordioso. (idem,#22)

A confiança deve ser como uma pena na brisa da vontade de Deus. Ter fé é seguir o fluxo constante do vento em vez de irmos contra ele. Deus, com o Seu amor infalível, sabe sempre o que é melhor para nós; então porque lutamos contra o resultado da Sua vontade? Afinal, que escolha temos?

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Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

sábado, 15 de outubro de 2016

O que acontece às nossas almas quando morremos?

Por Dan Gebhardt.


Para os seguidores de religiões recentes, uma das coisas mais surpreendentes sobre as escrituras Judaicas - conhecidas como Tanakh ou Antigo Testamento - é o seu silêncio relativo sobre a alma humana e a vida depois da morte. Este silêncio aparente leva a uma ideia errada de que o Judaísmo nada ensina sobre a vida depois da morte.

O mesmo facto levou os primeiros Protestantes a inclinarem-se para o conceito de “descanso da alma” ou “imortalidade condicional”. Na sua forma mais simples, esta doutrina sustenta que a morte física equivale à não-existência e que a vida é uma dádiva de Deus. A doutrina defende que os humanos morrem devido aos seus pecados e deixarão de existir até que sejam ressuscitados por Deus. O castigo dos condenados no fim dos tempos não é o tormento do fogo eterno, mas a morte eterna - a aniquilação total. Várias denominações, incluindo os Adventistas (herdeiros dos Milleritas do séc. XIX, cujas expectativas messiânicas se centram no ano 1844) mantêm estas crenças.

Esta perspectiva coincide parcialmente com os ensinamentos Bahá’ís, apesar de Bahá’u’lláh tornar claro que a nossa realidade espiritual sobrevive à morte do corpo. No entanto, esta alma não pode existir independente de Deus; pelo contrário, pertence a Deus e é um sinal dos Seus atributos. Neste sentido, Bahá’u’lláh escreveu, que a sua imortalidade é condicional ou contingente:
Quando a alma atinge a Presença de Deus, assumirá a forma que melhor convenha à sua imortalidade e seja digna da sua habitação celestial. Essa existência é contingente e não é uma existência absoluta, pois a primeira é precedida de uma causa, enquanto a segunda é independente disso. A existência absoluta está estritamente confinada a Deus, exaltada seja a Sua glória. (SEB, LXXXI)
No pensamento Bahá’í, a situação dos ímpios após a morte pode ser descrita como um tipo de não-existência relativa:
Quanto à questão da aniquilação e destruição dos Espíritos… Não se pretendeu transmitir a ideia de que as almas descrentes são aniquiladas de forma absoluta. Não. Em vez disso, pretendeu-se dizer que a existência de espíritos malignos em comparação de almas santificadas era semelhante a uma aniquilação. Como podes observar de forma clara, a existência do mineral em comparação com a existência do homem é semelhante a uma não-existência… (Tablets of Abdul-Baha, Volume 1, pp. iv-v)
Através dos ensinamentos Bahá’ís, sabemos que a misericórdia de Deus actua no outro mundo (comparar com Mat 12:32) e que até o maior cego, as almas mais não-existentes, podem ser redimidas através da Sua graça.

Mas voltemos aos ensinamentos da Bíblia Hebraica sobre a alma e a vida depois da morte: a sua reserva sobre estes assuntos significa uma negação dos mesmos? Os profetas hebreus ensinaram que não existe alma espiritual no homem, e que a existência termina com a morte física?

Muitos excertos da Bíblia excluem esta possibilidade. Um dos mais explícitos excertos é a afirmação de que o profeta Samuel apareceu postumamente ao primeiro rei israelita Saul, e profetizou a morte de Saul no dia seguinte (I Samuel 28: 11-20).

As circunstâncias deste caso justificam uma nota especial. A Torá proíbe a bruxaria e a necromância (comunicação com os mortos). Os antigos pagãos de Canaã adoravam os seus antepassados, e isso violava o monoteísmo rigoroso dos profetas: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus, o Senhor é uno” (Deut. 6:4; 18:11; Lev. 19:31).

Saul visita a vidente de En-dor
O aparecimento de Samuel ocorreu no decorrer de uma visita de Saul a uma necromante conhecida como a vidente de En-Dor (I Samuel 28: 3-25). Por causa disso, por vezes pensa-se que não poderia ter sido Samuel, o profeta de Deus a aparecer a Saul, mas alguma entidade demoníaca que personificava Samuel. Como poderia uma vidente chamar realmente o espírito de um dos profetas de Deus? O problema com esta conjectura é que a narrativa bíblica não afirma que foi um espírito maligno que personificou Samuel. Descreve de forma clara a aparição de Samuel, exactamente como em vida, e cita-o profetizando a Saul em nome de Deus. Se isto fosse um caso de identidade trocada, o erro não seria apenas de Saul, mas também do autor bíblico.

No contexto mais amplo da escritura, o aparecimento de Samuel a Saul nesta situação não valida o uso de meios ocultos para comunicar com os mortos. As escrituras Judaicas afirmam que Deus pode usar até as práticas que Ele condena para julgar aqueles que se afastaram do Seu caminho.

Existe uma passagem na Torá que discute a possibilidade de um falso profeta, ou idólatra, produzir sinais e milagres. Deus afirma que nesse caso, os milagres vêm de Si próprio, como um teste à fé dos israelitas: “...porque o Senhor, vosso Deus, vos põe à prova para verificar se realmente O amais com todo o vosso coração e com toda a vossa alma” (Deut. 13:4)

Ao profeta Ezequiel, Deus disse que responderia aos idólatras de acordo com as suas expectativas:
Todo o homem da casa de Israel que pôs em seu coração ídolos e ergueu diante de si o escândalo que o faz pecar, quando vier ter com o profeta, a esse darei Eu, o Senhor, uma resposta, de acordo com a multidão dos seus ídolos, para chamar à responsabilidade a casa de Israel, que se afastou de mim, por causa dos seus ídolos. (Ezequiel 14:4-5)
A narrativa de I Samuel afirma que a própria vidente reagiu ao aparecimento de Samuel com choque (I Sam 28:12) , sugerindo que o aparecimento pós-morte de Samuel era inesperado e resultado de uma intervenção divina.

Provavelmente por todas estas razões, os antigos Judeus acreditavam no valor literal deste relato. O livro de Ben-Sira declara:
Samuel... mesmo depois de morrer, profetizou e anunciou ao rei o seu fim; levantou a voz do seio da terra, para profetizar a destruição da impiedade do povo. (Ben-Sira 46:13,20)
À luz deste evento surpreendente, podemos ver que a Bíblia Hebraica não ensina que a morte física é o fim da nossa existência. Ainda temos a questão do que é que ensina sobre a alma humana, e porque é difícil encontrar nas suas páginas informação detalhada sobre a vida depois da morte.

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Texto Original: What Happens to Our Souls When We Die? (www.bahaiteachings.org)

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Dan Gebhardt é professor de filosofia e religião na Universidade de Nevada-Reno (EUA).

domingo, 2 de outubro de 2016

Explicar a Morte às Crianças

Por Kamelia.


A morte é uma parte inevitável da vida. É frequente as crianças terem consciência da morte desde cedo nas suas vidas quando ouvem falar disso nos contos de fadas, vêem na televisão ou encontram animais mortos. Algumas crianças podem já ter experimentado a morte de um animal de estimação ou membro da família, ou podem ter sido diagnosticadas com uma doença terminal.

No meu caso, a minha filha tinha 4 anos quando reparou num pássaro morto no passeio. O que se seguiu foi um bombardeamento com perguntas sobre a morte. Ela andava obcecada com o tema há alguns meses, tentando perceber o problema de várias perspectivas. Perguntei a outros pais se tinham tido alguma experiência semelhante; fiquei interessada ao saber que a maioria das crianças, a determinado momento, fica curiosa sobre a morte.

Ao responder às perguntas da minha filha sobre a morte tentei alinhar as minhas respostas com os Ensinamentos Bahá’ís. Shoghi Effendi, dá a seguinte explicação sobre a morte:
Você pede uma explicação sobre o que nos acontece depois de deixarmos este mundo: Esta é uma pergunta a que nenhum dos profetas alguma vez respondeu detalhadamente, muito simplesmente porque não se pode transmitir à mente de uma pessoa algo completamente diferente de tudo ela já experimentou. 'Abdu'l-Bahá deu o exemplo maravilhoso da comparação desta vida com a vida do além como sendo semelhante à vida da criança no útero; desenvolve olhos, ouvidos, mãos, pés, uma língua, e ainda assim não tem nada para ver ou ouvir, não pode caminhar, compreender as coisas ou falar; todas estas capacidades são desenvolvidas para usar neste mundo. Se tentasse explicar a um embrião como é este mundo, ele nunca poderia entender; mas entende quando nasce e as suas capacidades podem ser usadas. Portanto, não podemos imaginar o nosso estado no mundo do além. Tudo o que sabemos é que a nossa consciência, a nossa personalidade, perdura num novo estado, e que esse mundo é tão melhor do que o actual, quanto este é melhor que do que o do ventre escuro da nossa mãe...(Lights of Guidance, From a letter written on behalf of Shoghi Effendi to an individual believer, October 3, 1943)
Considero a comparação com a criança no ventre uma analogia poderosa., pois é um modelo prático e intuitivo para responder às questões da minha filha. Elaborei uma lista de perguntas e respostas. Apesar deste assunto vasto poder ser abordado de diferentes formas, espero que as minhas respostas possam ajudar e constituam um ponto de partida para quem deseja explorar com as crianças o tema da morte.

QUESTÃO: O que acontece quando as pessoas morrem?

RESPOSTA: As pessoas nascem para o outro mundo. Quando os bebés estão no ventre das mães, estão ligados a uma coisa chamada placenta. A placenta tem um cordão que se liga ao umbigo do bebé e através disso ele come e respira., pois não pode usar a boca. Quando o bebé nasce, já não precisa da placenta, porque pode usar a boca para comer e respirar. Os nossos corpos são como a placenta; quando nascemos para o outro mundo não necessitamos mais dos nossos corpos e a nossa alma (que é como o bebé no ventre) nasce no outro mundo.

Tal como o bebé que tem de crescer no ventre para estar pronto para este mundo, nós também precisamos de alimentar a nossa alma, e garantir que ela fica forte e saudável para o outro mundo. Alimentamo-la mostrando generosidade, bondade e todas as virtudes de Deus.

QUESTÃO: Voltamos a este mundo?

RESPOSTA: Imagina que alguém te dizia para voltares para a barriga da tua mãe, onde não há luz, não podes correr nem ver coisas? Voltavas para lá? Claro que não! Tal como o bebé que nasce e não volta ao ventre, nós também não voltamos a este mundo.

PERGUNTA: Que aspecto tem o outro mundo?

RESPOSTA: Ninguém sabe. Bahá’u’lláh diz-nos que o outro mundo é um lugar belíssimo onde as nossas almas serão livres. No entanto, é-nos dito que não conseguimos sequer imaginar que aspecto tem o outro mundo. Imaginem o que seria explicar a um bebé na barriga da mãe o que são as árvores e o que é a luz. O bebé apenas conhece o mundo escuro no ventre e nunca conseguiria imaginar o mundo exterior.

PERGUNTA: E se eu morrer não conhecer ninguém no outro mundo?

RESPOSTA: Quando a criança está no ventre da mãe, não conhece ninguém. Quando nasce, Deus dá-lhe uma família amorosa e amigos. Se um bebé tivesse muito medo e dissesse “Não quero nascer!” perderia a oportunidade de conhecer toda a sua família e amigos. Existem muitas almas esplendorosas no outro mundo à espera de conhecer todos os que nascem.

'Abdu'l-Bahá, que era amoroso e generoso para todos aqueles que O encontravam, tomará conta de qualquer pessoa que no outro mundo tenha medo ou esteja só. Ele ficará com ela à espera que a sua família e amigos cheguem

PERGUNTA: Quando é que eu vou morrer?

RESPOSTA: Ninguém sabe quando vai nascer para o outro mundo. Deus decide quando uma alma tem saúde e está pronta para o outro mundo; ou se Deus vê que uma alma não está a progredir correctamente neste mundo, Ele leva-a para o outro mundo para a ajudar a crescer. A maioria das pessoas morrer quando está velha.

PERGUNTA: E se a minha família morrer?

RESPOSTA: Quando eras um bebé no ventre da mãe, não podias ver a tua família; mas eles estavam sempre contigo, cuidando de ti e esperando pacientemente que tu nascesses. Se eles morrerem, tal como quando tu estavas no ventre da mãe e não podias vê-los, eles continuarão contigo, tomarão conta de ti e estarão à espera que tu nasças no outro mundo. Podes sempre comunicar com eles através da oração.

PERGUNTA: Os animais vão para o outro mundo?

RESPOSTA: Os animais não têm alma; portanto, ao contrário dos seres humanos, não nascem no outro mundo. No entanto, todas as coisas, incluindo os animais, têm com eles um atributo de Deus, e estes atributos de Deus são eternos.

Estas são algumas ideias sobre a vida depois da morte que partilhei com minha filha. Se procura mais informação sobre como falar com crianças sobre a morte, a obra The Light World de Heather Niderost é um livro pequeno e belíssimo, escrito com esse propósito. Se estiver interessado em ler algumas reflexões sobre o outro mundo, Preethi escreveu Contemplating Death e Iko também explorou alguns princípios Bahá’ís sobre o assunto. Como é que você descreveria a morte a uma criança ou a alguém que não estivesse familiarizado com estas crenças?

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Texto original: Explaining Death to Children (www.bahaiblog.net)

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Kamelia é Bahá’í e mãe de duas crianças. Estudou Direito, Contabilidade e Apoio Infantil. Tem um interesse especial em Estudos Bahá’ís e Educação Infantil.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

5 coisas que gostava de ter sabido antes da morte da minha Mãe

Por Kathy Roman.



Há quatro dias atrás, a minha mãe faleceu de forma repentina e inesperada. Há cinco coisas que eu gostava de ter sabido antes de ela ter morrido:

1. Tentar viver sem mágoas


Senti, e ainda sinto, uma dor profunda após a morte da minha mãe - o que me surpreende. Afinal, eu e ela conversámos, muitas vezes ao longo dos anos, sobre a ida dela para o outro mundo. Ambas pensávamos que estávamos preparadas. Como Bahá’í, eu não temia a morte para mim ou para ela:
Fiz a morte de um mensageiro de alegria para ti. Porque te lamentas? Fiz a luz derramar sobre ti o seu esplendor. Porque que tu ocultas disso? (Bahá'u'lláh, As Palavras Ocultas, do Árabe, #32)
Então, porque é que eu não consegui libertá-la para Deus com um coração radiante, como sempre esperei? Quando reflecti sobre a fonte da minha dor, percebi que esta não era a minha mãe. Estou completamente confiante que ela encontrou a felicidade ilimitada num lugar de paz e amor sem dimensão. A minha dificuldade em continuar agora vem dos meus remorsos por não lhe ter dado mais do meu tempo, da minha atenção e do meu amor. Embora me digam que isso é normal, ainda dói:
Diz, ó Meu povo! Mostrar grande respeito pelos vossos pais e prestai-lhes homenagem. Isso fará com que bênçãos desçam sobre vós das nuvens das dádivas do vosso Senhor, o Excelso, o Grande. (Bahá'u'lláh, excerto de uma epístola a um crente individual)

2. Perdoe, mesmo que apenas para si próprio


O meu coração tinha recordações, algumas inconscientes, de mágoas do passado. Quando tive os meus próprios filhos, essas memórias surgiram novamente. Falei com a minha mãe sobre isso e pensei que tinha deixado passar a maior parte. Tornámo-nos mais próximas e à medida que ela envelhecia, visitei-a todos os dias e tentei tratar bem dela. Apesar de me esforçar por perdoar, ainda lhe negava uma pequena parte do meu coração que sentia que ela não merecia. O que eu fiz foi magoar-me a mim própria, pois impedi que o amor dentro de mim fluísse livremente:
Temos que nos lembrar, quando perdoamos não estamos a fazer isso apenas pela outra pessoa; nós estamos fazendo isso para nosso próprio bem. Quando insistimos em não perdoar e vivemos com rancor nos nossos corações, tudo o que estamos a fazer é construindo muros de separação. (Joel Osteen)

O perdão é a forma final do amor. (Reinhold Niebuhr)

3. Libertar-se de ressentimentos


Sem nos livrarmos de ressentimentos profundamente enraizados, não conseguiremos encontrar plenamente o nosso caminho para o perdão. A verdade é que todos nós cometemos erros e fazemos o melhor que podemos, pois em qualquer nível de desenvolvimento espiritual encontramo-nos nessa situação. Ninguém é perfeito, e a verdade, na maioria das vezes, é que a forma como as pessoas nos tratam tem muito mais ver com aquilo que elas são, do que aquilo que nós somos. O ressentimento também ocupa um espaço valioso nos nossos corações; um espaço que poderia ser preenchido com coisas mais felizes:
O coração é como um jardim. Ele pode cultivar compaixão ou medo, ressentimento ou amor. Que sementes vais ali plantar? (Buddha Gautama)

4. Fale a sua verdade


Agora que a minha mãe partiu, já não terei a oportunidade de lhe dizer o que estava escondido no meu coração. Acredito que poderia ter partilhado amorosamente os meus sentimentos e ressentimentos mais profundos, e que ela teria tentado compreender. Sei que um dia teremos esta oportunidade, mas eu gostaria que isso tivesse acontecido neste mundo. Por não querer agitar as águas, provocar confrontos ou dor, recusei a oportunidade de nos tornarmos ainda mais próximas. A honestidade que é bondosa e amorosa não tem de ser dolorosa, mas pode tapar as lacunas criadas por anos de mal-entendidos:
Embelezai as vossas línguas, ó povo, com a veracidade, e adornai as vossas almas com o ornamento da honestidade. (Bahá'u'lláh, SEB, CXXXVI)

A veracidade é a base de todas as virtudes do mundo humano. Sem a veracidade, o progresso e o sucesso em todos os mundos de Deus são impossíveis para uma alma. ('Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 4, p. 183)

5. Amar agora com todo o coração


Ame agora, com todo o teu coração, sem pensar se é merecido ou que valor isso tem. Faça isso para o seu próprio bem, porque pode vir o dia em que você não poderá mais fazê-lo.

No momento em que minha mãe faleceu, todas as ofensas, grandes e pequenas, desapareceram completamente. Isto foi uma libertação maravilhosa, mas ao mesmo tempo um remorso doloroso. Perguntava-me: porque é que não tinha feito isso mais cedo? Agora eu tinha o coração completamente aberto e pronto para amar com todo o coração, mas ela tinha partido. Ao retrair-me e ao não perdoar completamente com todo o meu ser, eu tinha sufocado o amor dentro de mim.
Se um de vocês tiver sido ferido no coração pelas palavras ou acções de outro, durante o ano passado, perdoai-o agora; que, na pureza de coração e de perdão amoroso, possais celebrar em alegria, e erguer-vos, renovados no espírito. ('Abdu'l-Bahá, Vignettes from the Life of Abdu’l-Baha, p. 49)
Assim, esta noite, reflicto em lágrimas. Agora sou eu quem está a pedir perdão; lamentando todo o momento em que não fui generosa com todo o meu coração. Com grande misericórdia de Deus, sou lembrada do Seu perdão infalível. A minha mente inunda-se com pensamentos sobre as muitas vezes que mostrei amor de todo o coração à minha mãe, e esses pensamentos confortam-me.

Então decidi que não voltará a haver tempo perdido com ressentimentos ou julgamentos. De agora em diante vou tentar que o meu amor seja incondicional para os outros, independentemente de como sou tratada. O amor puro é para dar sem medida ou merecimento. É assim que Deus nos ama.

Ao concluir este texto uma grande calma apoderou-se de minha alma. Sei que minha mãe ouviu o que está no meu coração. A partir deste momento só haverá amor e alegria entre nós, até nos reunirmos mais uma vez.
Para lá das ideias de certo e errado, existe um campo. Vou encontrar-te lá. Quando a alma se deita sobre aquela relva, o mundo fica cheio demais para que falemos dele. (Rumi)

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Texto original: 5 Things I Wish I’d Known before My Mother Died (www.bahaiteachings.org)

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Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

segunda-feira, 28 de março de 2016

A Experiência Quase-Morte de Renee Pasarow



Em 1966, Renee Pasarow era uma adolescente quando teve uma experiência quase-morte, em resultado de uma reacção alérgica extrema.

Esteve clinicamente morta durante 45 minutos, até que um médico conseguiu reanimá-la e trazê-la de regresso à vida.

Antes desta experiência quase-morte, Renee tinha tido um único contacto com a Fé Bahá’í. Após esta experiência, Renee aceitou à Fé Bahá’í.

Em 1991, a AEL dos Baha’is de Moopark (California, EUA) divulgou este vídeo com uma palestra em que Renee descreveu a sua experiência.

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Prima o ícone Subtitles/Legendas na barra inferior para activar Legendas em Português.
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Artigos com a perspectiva Baha’i sobre a vida depois da morte:

-- As experiências de quase-morte provam alguma coisa?
-- A Incrível Consistência das Experiências Quase-Morte
-- As Experiências Quase-Morte segundo Platão, Sócrates e Bosch

-- Video copiado do canal Rahmat1919 --

sábado, 19 de dezembro de 2015

Lições profundas num funeral

Por Jaine Toth.


Há alguns anos atrás fui ao funeral de uma familiar, uma mulher vibrante que vi crescer desde que era uma menina exuberante com seis anos de idade até se tornar uma mãe admirável com um sorriso constante e disposição alegre. Subitamente foi atacada por várias crises, incluindo um divórcio inesperado e indesejado que provocou problemas financeiros e a doença da sua mãe; ficou profundamente perturbada. E mesmo assim, foi um choque saber que o seu desespero a levara ao suicídio.

Apesar das circunstâncias, a cerimónia religiosa celebrou verdadeiramente a sua vida, deixando toda a gente sorrindo entre lágrimas e sentindo-se melhor do que quando chegaram. Assim, muitas das coisas que se disseram no funeral e a subsequente reunião acabaram por reflectir Have a Little Faith, de Mitch Albom, um livro que li quando voltei a casa. Coincidência? Isoladamente seria inspirador, mas com os acontecimentos acabou por suscitar uma profunda reflexão.

Muitas pessoas falaram no funeral; a maioria tinha sido ajudada por ela, quando os seus próprios problemas pareciam insuperáveis. Ela tinha sido a sua rocha, o seu ouvido atento, a única pessoa que acreditava neles e os alimentava durante os seus sofrimentos. O último a partilhar pensamentos e recordações foi o  filho. Lembrou-nos que a mãe nunca julgou ninguém. Estava orgulhoso da mãe que compreendia que as circunstâncias poderiam prejudicar as opiniões das pessoas, mas que estas poderiam ser gentilmente levadas ao caminho certo. Ela nunca guardou ressentimentos ou rancor e era rápida a perdoar, afirmou ele. Acrescentou ainda que ela ensinara os filhos que, mesmo que estivessem zangados com os seus entes queridos, deviam expressar-lhes o seu amor. E de facto, garantiu ele, sentia um conforto especial pelo facto das suas últimas palavras para a mãe terem sido "Eu amo-te". Perante as muitas pessoas que perguntavam "Como posso ajudar-vos?" a ele e à sua irmã, ele sugeriu que a melhor maneira de ajudar seria viver de acordo com o exemplo e os conselhos da mãe: "Não julgar. Perdoar. Ser um exemplo".

No livro de Albom, um padre, incomodado com a abertura de sinagoga perto da sua igreja, fez um comentário ofensivo a um dos fiéis judeus. Isto levou a uma conversa entre ele e o rabino. Pouco depois, o padre e o rabino são vistos andando de braço dado no pátio da escola religiosa. Albom escreve: "Algumas crianças olharam surpreendidas. Outras olharam fixamente. Mas todas elas repararam." Estes sacerdotes pararam de julgar. Perdoaram. Tornaram-se um exemplo vivo.

Para o funeral, o irmão e a irmã tinham convidado o padrasto. Ao início, ele não queria comparecer, porque receava: "Toda a gente me vai odiar!" Mas eles garantiram-lhe que seria bem-vindo. E ele veio; a sua dor era visível e real. Talvez viesse de um sentimento de culpa, talvez de algum sentimento de perda. A sua capacidade de engolir o seu orgulho e enfrentar o seu medo, o facto da família aceitar a sua presença, ainda que em alguns possa ter sido relutante, iniciou uma cura para todos eles.

Quando li no livro de Albom uma lição que ele recordava da sua educação religiosa, lembrei-me da magnanimidade dos irmãos:
Depois dos israelitas atravessarem o Mar Vermelho em segurança, os egípcios que os perseguiam afogaram-se. Os anjos de Deus queriam para celebrar a morte do inimigo. De acordo com o comentário, Deus viu isso e ficou zangado. Ele disse, em resumo: “Parem de celebrar. Aqueles também eram meus filhos".
Albom e seu rabino debateram o facto do maior medo da maioria das pessoas em relação à morte é que podem ser esquecidas e que seria como uma segunda morte. O rabino tranquilizou-o:
Em resumo, a resposta é simples. Família. É através da minha família que eu espero viver durante algumas gerações. Quando me lembro, eu vivo. Quando eles oram por mim, eu vivo. Temos todas as recordações, os risos e as lágrimas.
Esta minha familiar não vai sofrer essa segunda morte. Ela vai viver através de todas as memórias especiais que ela criou para todos aqueles que ficaram.

Fiquei confortada ao saber que a bela alma daquela jovem, que deu tantos conselhos sábios aos outros e se esqueceu ela própria de os seguir, continuará a progredir. Os ensinamentos Bahá'ís dão-me essa tranquilidade e conforto:
Agora, consideremos a alma. Vimos que o movimento é essencial à existência; nenhuma coisa que tem vida é imóvel. Toda a criação, seja do reino mineral, vegetal ou animal, está obrigada a obedecer à lei do movimento; deve subir ou descer. Mas com a alma humana não há declínio. O seu único movimento é em direcção à perfeição; apenas o desenvolvimento e o progresso constituem o movimento da alma.

A perfeição divina é infinita; por isso, o progresso da alma também é infinito. Desde o nascimento de um ser humano, a alma progride, o intelecto desenvolve-se e o conhecimento aumenta. Quando o corpo morre, a alma continua a viver. Todos os diferentes graus dos seres físicos criados são limitados, mas a alma é ilimitada! 
Em todas as religiões existe a crença de que a alma sobrevive à morte do corpo. São feitas invocações pelos mortos queridos, são feitas orações pelo seu progresso e pelo perdão dos seus pecados. Se a alma perecesse com o corpo, tudo isso não teria sentido. Além disso, se não fosse possível à alma avançar em direcção à perfeição depois de se libertar do corpo, para que serviriam todas essas preces afectuosas de devoção? ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 89)
Todos nós podemos orar pelos nossos amigos e família que nos precederam na próxima vida, e esperamos as suas orações quando fizermos essa viagem.

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Texto original: Deep Lessons, from a Funeral (www.bahaiteachings.org)

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Jaine Toth é actriz, escritora e formadora. Vive no Arizona (EUA), perto do Desert Rose Baha'i Institute. É autora de uma coluna semana num jornal.

sábado, 24 de janeiro de 2015

As Experiências Quase-Morte segundo Platão, Sócrates e Bosch

Por David Langness.


Apesar do corpo material ter de morrer, o espírito continua eternamente vivo, tal como existe e funciona no corpo inerte no reino dos sonhos. Ou seja, o espírito é imortal e continuará a sua existência após a destruição do corpo. (‘Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 306.)
Quando é que começámos a ouvir falar sobre experiências quase-morte?

Os relatos tradicionais que normalmente são referidos surgiram em meados da década de 1970, quando o médico e psicólogo Raymond Moody publicou o livro Vida Depois da Vida, que se tornou um sucesso de vendas a nível internacional e analisava os casos de 150 pessoas que tinham tido EQMs. Nessa época, muitos profissionais da medicina e pensadores como a Dr. Elizabeth Kubler-Ross tinham começado a redefinir as perspectivas culturalmente negativas sobre a morte.

Mas esse crescimento da consciência pública esconde uma longa história de conhecimento sobre experiências quase-morte ao longo de muitas civilizações.

As Experiências Quase-Morte ao longo da História

Provavelmente, desde que surgiu a nossa espécie que reflectimos e nos questionamos sobre a morte. As primeiras pinturas rupestres e petróglifos, por exemplo, revelam representações artísticas sobre a morte e a viagem da alma. Estamos familiarizados com rituais fúnebres, cerimónias, monumentos, orações e rituais associados a culturas antigas, porque temos escavado e estudado os seus cemitérios e túmulos. No Egipto, por exemplo, as 118 pirâmides usadas para sepultar os faraós todas apontam para cima, em direcção ao céu nocturno; e no interior dentro das pirâmides, geralmente uma conduta estreita estende-se desde a principal câmara funerária em direcção ao céu. Os arqueólogos pensam as pirâmides funcionavam como um funil para a alma do falecido faraó subir em direcção à sua casa permanente, na vida após a morte.

Ao longo da história da humanidade, vários filósofos escreveram magistralmente sobre as experiências quase-morte; Platão escreveu o Mito de Er no século 4 aC para concluir a sua famosa obra A República. Neste, Platão narra a história de um soldado chamado Er que morre no campo de batalha e desperta 12 dias mais tarde na sua pira funerária, e é capaz de falar a todos sobre a imortalidade da alma e a sua evolução após a morte. O soldado percebe que as nossas opções e o carácter que desenvolvemos enquanto vivemos terão consequências após a morte; e retorna à vida para encorajar à aquisição de virtudes como sabedoria, coragem, amor, justiça e moderação.

Sócrates concluiu algo semelhante sobre a morte:
Temer a morte é o mesmo que supor-se sábio quem não o é,
Porque é supor que sabe o que não sabe.
Ninguém sabe o que é a morte, nem se, porventura, será para o homem o maior dos bens; 

E, no entanto, todos a temem, como se soubessem ser ela o maior dos males.
A Ascensão dos Abençoados, de Hieronymus Bosch
Perto do final do século XV, o pintor holandês Hieronymus Bosch deu-nos a sua visão do futuro na Ascensão dos Abençoados, que agora se encontra no Palazzo Ducale em Veneza, Itália. Esta obra mostra uma cena familiar, com as almas que ascendem através de um túnel em direcção a uma luz brilhante, impressionantemente parecida com as nossas descrições actuais de experiências de quase-morte.

Compreender a Experiência de Quase-Morte - Imortal ou Mortal?

Assim, se por um lado a ciência em torno das experiências de quase-morte parece bastante recente, o entendimento das suas implicações sempre esteve na nossa consciência colectiva. Temos tentado encontrar formas de entender a morte e o seu significado desde que surgimos como humanidade.

De muitas maneiras, podemos pode pensar na religião como a nossa forma de lidar com a realidade iminente da morte.

Os ateus afirmam que as pessoas criaram a religião apenas para as ajudar a lidar com o facto incómodo da nossa mortalidade; que a alma humana não existe; e que todos nós enfrentamos extermínio completo quando morremos. Os agnósticos geralmente dizem simplesmente que não sabem se existe vida depois da morte. Por outro lado, as nossas religiões dizem-nos que a morte representa simplesmente uma transição, um segundo nascimento numa existência espiritual, e que o nosso espírito continua a existir.

E agora? Para qual nos inclinamos?

Para os Bahá'ís, a experiência de quase-morte aponta definitivamente para um segundo nascimento:
... Enquanto o homem estiver na matriz do mundo humano, enquanto ele estiver cativo da natureza, ele está sem contacto e sem conhecimento do universo do Reino. Se ele renascer enquanto estiver no mundo da natureza, ele tomará conhecimento do mundo divino. Ele vai perceber que existe outro mundo superior. Descem sobre ele bênçãos maravilhosas; a vida eterna aguarda-o; a glória permanente rodeia-o. Todos os sinais da realidade e da grandeza estão lá. Ele verá as luzes de Deus. Todas essas experiências serão suas quando ele nascer para fora do mundo da natureza e entrar no mundo divino. Portanto, para o homem perfeito, existem dois tipos de nascimento: o primeiro, o nascimento físico, a partir do ventre da mãe; o segundo, o nascimento espiritual, é a partir do mundo da natureza. Em ambos ele não tem conhecimento do novo mundo de existência, em que está a entrar. Portanto, o renascer significa a sua libertação do cativeiro da natureza, a liberdade do apego a esta vida mortal e material. (‘Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 304)

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Texto original: Plato, Socrates and Hieronymus Bosch on Near-Death Experiences (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 17 de janeiro de 2015

A Incrível Consistência das Experiências Quase-Morte

Por David Langness.


Já testemunhei milagres.

Não me estou a referir a magia, coisas fantasmagóricas, ou do tipo Hollywoodesco; estou a referir-me a milagres médicos e científicos. Tive esse privilégio único e inspirador graças a três décadas de trabalho na área da saúde. Passei anos em centros de investigação hospitalar e centros médicos universitários; conheci muitas pessoas que medicina moderna salvou da morte quase certa, e algumas que realmente morreram e depois voltaram à vida.

De facto, as intervenções que salvam vidas não são incomuns nos dias de hoje. A medicina moderna tem avançado tremendamente. Com novas tecnologias e técnicas de reanimação, médicos e paramédicos descobriram formas inovadoras de salvar a vida de pessoas que certamente teriam falecido até há poucos anos atrás. Os transplantes de órgãos, as novas tecnologias cardíacas e as técnicas avançadas de reanimação de emergência fazem uma enorme diferença na recuperação de pacientes que estão à beira da morte. Em casos de paragens cardíacas, choque anafilático grave, afogamento ou electrocução, e até mesmo em casos de lesão cerebral traumática, sabemos agora literalmente roubar a vida à morte. A morte clínica - ausência de batimentos cardíacos, de pulsação e de actividade cerebral - já pode, por vezes, ser revertida.

Isso significa que cada vez mais pessoas têm experiências de quase-morte.

O Crescimento do Número de Experiências de Quase-Morte

Com base numa sondagem recente, a organização Gallup estima que oito milhões de americanos tiveram uma experiência de quase-morte. Investigadores na Alemanha, Austrália e Holanda afirmam que entre 4 a 12% das populações desses países dizem que tiveram uma EQM. Com o aumento das nossas capacidades para salvar vidas e com a medicina a ressuscitar cada vez mais pacientes moribundos, é de esperar que estas percentagens subam ainda mais.

Devido ao aumento das nossas capacidades para salvar vidas, e em resposta ao enorme e generalizado interesse no assunto, durante o último meio século cientistas e investigadores criaram um novo campo de investigação para estudar e recolher informações sobre experiências de quase-morte. Formalmente criada em 1981, a Associação Internacional para Estudos de Quase-Morte (AIEQM), em 1981, tem agora delegações em todo o mundo. [http://www.iands.org/home.html]

A AIEQM possui um arquivo de histórias de casos quase-morte, e os investigadores que utilizam e contribuem para alargar o repositório de informação têm estudado as EQMs em diferentes culturas por todo o mundo. Estes investigadores descobriram uma notável semelhança nos relatos de quem passou por uma EQM.

O Debate sobre Experiências Quase-Morte: Porquê tão Consistentes?

Os relatos das pessoas que tiveram uma experiência quase-morte são tão semelhantes que agora assume-se que um EQM "típica" é composta por:
  • Uma sensação de bem-estar e paz emocional. A dor desaparece e é substituída por emoções positivas.
  • A sensação de estar fora do próprio corpo (chamada “experiência fora-do-corpo”).
  • A sensação de se mover para cima, através de uma passagem ou um túnel, em direcção a uma luz poderosa e quente.
  • Encontro com entes queridos que já morreram, ou com aquilo a que as pessoas muitas vezes descrevem como "seres de luz".
  • Passar por uma revisão da vida, com a possibilidade de ver todos os pormenores da vida.
  • Experimentar uma assimilação de conhecimento e sabedoria sobre o universo.
  • Imersão completa numa luz acolhedora de amor e unidade.
Estas sensações semelhantes, descritas tão consistentemente por quem passou por uma EQM, têm surgido entre pessoas de todas as culturas, todas as religiões (ou sem religião), todos os tipos de vida, todos os níveis de educação e de todas as idades. Por enquanto, quem estuda as EQMs afirma que essa notável uniformidade de experiência sugere uma de duas possibilidades aparentemente opostas:
  • O cérebro humano ao morrer, concluem alguns neuro-cientistas, produz efeitos ilusórios ou alucinatórios que imitam o movimento através de um túnel em direcção a uma luz.
  • A consciência humana continua após a morte física do cérebro e do corpo.
A maioria das pessoas, provavelmente, toma um lado ou outro neste debate, de acordo com a sua convicção na vida após a morte. Mas os ensinamentos Bahá’ís, com a sua ênfase na concordância essencial entre ciência e religião, podem sugerir uma terceira opção, segundo a qual, esses dois pontos de vista são verdadeiros. A fisiologia do cérebro humano pode certamente dar o seu contributo no processo geral de quase-morte; e, sem dúvida, os escritos Bahá’ís afirmam que a consciência humana se mantém após a morte do corpo físico:
Imaginar que após a morte do corpo o espírito perece é como imaginar que um pássaro numa gaiola é destruído se a sua gaiola for destruída, apesar do pássaro nada ter a temer com a destruição da gaiola. O nosso corpo é como a gaiola, e o espírito é como o pássaro. Vemos que, sem a gaiola este pássaro voa no mundo do sono; portanto, se a gaiola for destruída, o pássaro continuará a existir. Os seus sentimentos serão ainda mais poderosos, as suas percepções serão maiores, e a sua felicidade aumentará. Na verdade... ele atingirá um paraíso de delícias, porque para um pássaro agradecido não há paraíso maior do que estar livre da gaiola. ('Abdu'l-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas, cap. 61)
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Texto original: The Remarkable Consistency of Near-Death Experiences (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 10 de janeiro de 2015

As experiências de quase-morte provam alguma coisa?

Por David Langness.

Saibam com toda a certeza que o homem não foi criado para a vida neste mundo pois esta é mortal e não há segurança nela. Será possível que esta grande e gloriosa criação deva terminar com a mortalidade? Será que o resultado da grande criação de Deus que é ilimitada - ou seja, o homem - deva viver neste mundo durante um certo número de dias com muitas dificuldades, problemas, sem repouso, nem descanso, e depois morra e termine na mortalidade? Não; em verdade, isto não é correcto! Não, pelo contrário, este ser glorioso e grandiosa criação foi feito para a vida eterna, a felicidade espiritual, as revelações do coração, a inspiração divina, as perfeições celestiais e virtudes do reino. ('Abdu'l-Baha, Tablet to the Baha’is of Ithaca, New York, Star of the West, Volume 9)
Durante a guerra do Vietname, tive muitos amigos que morreram em tiroteios. Apenas um voltou.

Evacuação de militares feridos no Vietname
O nosso pelotão, em patrulha na selva a leste de um local chamado Phu Bai, deparou-se com uma grande força de tropas norte-vietnamitas, e o tiroteio começou. O meu amigo Colin, um sargento de S. Francisco, foi atingido quase imediatamente. Com três ferimentos de balas de AK-47 no tronco, não tinha sinais vitais quando chegámos junto dele, mas um helicóptero Medevac pousou, e eu com outro soldado chamado Hamilton colocámos o corpo do Colin numa maca e levámo-lo dali para o helicóptero. Retirei-lhe o capacete e disse uma rápida oração antes do helicóptero levantar.

No dia seguinte, estava à espera de ouvir que o nosso pelotão ia fazer uma colecta para enviar umas flores à sua família. Em vez disso, ouvi dizer que os enfermeiros no helicóptero e os médicos num hospital de campo o tinham ressuscitado. Milagrosamente, ele estava vivo e esperava-se que recuperasse.

Uma semana mais tarde fui ao hospital de campanha na nossa base militar para tentar visitar o Colin.

Experiência de Quase-Morte do sargento Colin

"Eu morri", disse ele, sorrindo.

"Sim, eu sei", disse-lhe, acenando espantado com a cabeça. "Eras um caso perdido quando te apanhámos."

Encontrei o Colin deitado numa cama de hospital, com pensos, costuras, e ligado a vários tubos. O seu precioso amuleto da sorte, um símbolo da paz revestido a couro que ele usava sempre ao pescoço, ainda estava no seu peito. Alguns do seu sangue seco tinha manchado o couro.

Obviamente, ainda dorido e imobilizado, fez um largo sorriso quando me viu e os seus olhos brilharam.

Fiquei ali à frente dele, olhando-o pasmado.

"Quanto tempo estive ausente?" perguntou-me.

"Talvez alguns minutos antes te colocarmos no helicóptero”, respondi.

"Eu vi-te a fazer isso, tu e o Hamilton."

"O que é que queres dizer com isso?", perguntei-lhe intrigado. "Tu estavas morto, homem! Não estavas a ver nada!"

"Eu podia ver tudo, podia ouvir tudo. Depois de tu e o Hamilton me colocarem na maca ", disse Colin, olhando para o seu corpo, como se ainda pudesse ver a coisa a acontecer. "Ele pegou na parte da frente, e tu levantaste a parte de trás. Tu tiraste o meu capacete. O Hamilton disse: 'Vou ter saudades deste hippie palerma'. "

Senti um calafrio nas costas, porque aquelas tinham sido as palavras exactas do Hamilton.

Prova de Vida Após a Morte?

Este surpreendente incidente de guerra, e outros como este, despertaram o meu interesse pelas experiências de quase-morte. Desde então, tenho lido vários livros e estudos de investigação sobre "EQM" (NDE, near-death experience, em inglês), encontrei-me e falei com várias pessoas que tiveram experiências similares, após terem sido declaradas clinicamente mortas.

Assim, nesta série de artigos, vamos analisar as experiências de quase-morte e explorar o que podem significar, se são cientificamente credíveis, e se realmente provam alguma coisa sobre a vida depois da morte.

Os Bahá’ís acreditam fortemente, assim como a maioria das grandes religiões do mundo, que a vida humana continua após a morte. Como se pode ver na citação anterior de 'Abdu’l-Bahá, os ensinamentos Bahá'ís afirmam que o propósito desta existência física inclui atingir esse mundo imortal.

Por outras palavras, vivemos neste plano de existência como uma preparação para o próximo.

É claro que ninguém descobriu qualquer prova científica da existência desse outro mundo. Durante séculos as pessoas tentaram atravessar as barreiras da morte e do tempo, mas ninguém conseguiu. Isso é compreensível, porque a ciência, pela sua própria definição, estuda e mede o universo físico, não o espiritual ou metafísico. Os Bahá’ís acreditam que nos aguarda uma existência não-material, imortal e transcendente; isso, por definição, está para lá dos limites da investigação científica e das provas físicas.

Isso significa que os relatos de quem passou por experiências de quase-morte são provavelmente o mais próximo que conseguiremos chegar para compreender o que nos aguarda quando nossos corpos deixarem de funcionar e as nossas almas seguirem o seu caminho.

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Texto original: Do Near-Death Experiences Prove Anything? (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Os Bahá’ís acreditam na vida depois da morte?

Por Maya Bohnhoff.



Os Bahá’ís têm algum conceito sobre vida após a morte? Se sim, em que consiste?

A resposta a esta pergunta - um SIM muito claro e enfático - flui ao longo das Escrituras Bahá’ís.

Bahá’u’lláh ensinou que existem inumeráveis de “mundos de Deus”, incluindo aquele em que entramos quando abandonamos a nossa forma física. Mas os Bahá’ís também acreditam que a vida seguinte não é algo com que nos devamos preocupar ao ponto de reduzir a nossa vida neste mundo a uma espécie de sala de espera.

Primeiramente, Bahá’u’lláh afirma que não podemos compreender como será a próxima existência, tal como a criança no ventre materno não consegue compreender o que é este mundo. Por este motivo, não temos um modelo de comparação. Os Bahá’ís acreditam que essa existência após a morte não é um local estático, mas, em vez disso, uma evolução em direcção a Deus.

Várias pessoas fizeram perguntas a Bahá’u’lláh sobre a vida após a morte. Aqui fica a resposta que Ele deu a uma dessas perguntas:
E agora, sobre a tua pergunta referente à alma do homem e à sua sobrevivência após a morte. Sabe tu, em verdade, que a alma após a sua separação do corpo, continuará a progredir até atingir a presença de Deus, num estado e condição que nem a revolução dos séculos e das eras, nem as mudanças e casualidades no mundo, podem alterar. Perdurará enquanto perdurar o Reino de Deus, a Sua soberania, o Seu domínio e poder. Manifestará os sinais de Deus e os Seus atributos, e revelará a Sua amorosa generosidade e bondade. (SEB, LXXXI)
Nessa mesma epístola, Bahá’u’lláh escreve um pouco sobre o poder espiritual das almas puras que já faleceram:
A natureza da alma após a morte nunca poderá ser descrita, não é conhecida, nem é permissível revelar todo o seu carácter aos olhos do homem. Os Profetas e Mensageiros de Deus foram enviados com o único propósito de guiar a humanidade ao íntegro Caminho da Verdade. O propósito subjacente da Sua revelação tem sido educar todos os homens para que eles possam, na hora da morte, ascender - com a maior pureza e santidade, e com absoluto desprendimento - ao trono do Altíssimo. A luz que estas almas irradiam é responsável pelo progresso do mundo e pela evolução dos seus povos. Elas são como o fermento que leveda o mundo do ser, e constituem a força motriz através da qual as artes e as maravilhas do mundo se manifestam. (SEB, LXXXI)
A alma humana, afirmam os ensinamentos Bahá’ís, é eterna. Todos nós temos um ser interior eterno, uma realidade espiritual que retém a nossa individualidade, o nosso carácter e o nosso nível de maturidade e desenvolvimento, quando o nosso corpo morre:
Se o corpo sofre uma mudança, o espírito não tem de ser afectado. Quando se quebra um vidro onde brilha o sol, o vidro parte-se, mas o sol continua a brilhar! Se uma gaiola com um pássaro for destruída, o pássaro fica ileso. Se uma lâmpada se parte, a chama ainda pode arder com brilho! A mesma coisa se aplica ao espírito do homem. Apesar da morte destruir o seu corpo, ela não tem poder sobre o seu espírito. Este é eterno, imortal, sem nascimento, nem morte ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 65-66)
Os Bahá’ís aguardam com expectativa a transição deste mundo para o próximo, o nosso inevitável nascimento naquilo a que ’Abdu’l-Bahá chamou “a segunda vida”.

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Texto original: Do Baha’is Believe in Life After Death? (bahaiteachings.org) 

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.