O actual conflito militar em Gaza e no sul de Israel tem suscitado todo o tipo de análises e comentários apaixonados. Abundam os que vêem este conflito como uma luta David contra Golias, os que invocam um qualquer direito divino e/ou histórico como justificação para diversos actos, os que descrevem o conflito apenas com expressões do tipo "terrorismo" e "colonialismo" e os condenam apenas uma das partes e abertamente toma partido por outra. Infelizmente, é raro encontrar opiniões racionais e equilibradas sobre este assunto.Para os que me convidam a tomar partido ou expressar uma opinião, deixo aqui uma tradução de excertos de uma carta (datada de 09 de Julho de 1947) de Shoghi Effendi, em resposta ao Presidente do Comité Especial das Nações Unidas para a Palestina, que lhe solicitava um esclarecimento sobre a relação da Fé Bahá’í com a Palestina e a atitude Baha’i face a qualquer alteração futura no estatuto do país.
"A posição Bahá’í em relação a este país, em certa medida, é única: se por um lado Jerusalém é o centro espiritual da Cristandade, não é o centro administrativo nem da Igreja de Roma, nem de qualquer outra denominação cristã. De igual modo, apesar de ser vista como o segundo santuário mais sagrado do Islão, o local mais sagrado da Fé de Maomé e centro das suas peregrinações encontra-se na Arábia, e não na Palestina. Apenas os Judeus apresentam algum paralelismo no apego que os Bahá’ís têm por este país, pois Jerusalém contém os restos do seu Templo Sagrado, e foi sede tanto das suas instituições políticas como religiosas associadas à sua história passada. Mas mesmo o seu caso difere dos Bahá’ís num aspecto, pois é no solo da Palestina que as três Figuras centrais da nossa Religião estão sepultadas, e não é apenas centro de peregrinações Bahá’ís provenientes de todo o mundo, mas também sede permanente da Ordem Administrativa que eu tenho a honra de chefiar.-------------------------
A Fé Bahá’í é inteiramente não-política e nós não tomamos posição na actual trágica disputa sobre o futuro da Terra Santa e seu povo, nem temos qualquer declaração a fazer, nem conselho a dar sobre qual deve ser a futura natureza política deste país. O nosso propósito é o estabelecimento da paz universal neste mundo e o nosso desejo é que a justiça prevaleça em todos os domínios da sociedade humana, incluindo o domínio da política. Como os aderentes da nossa Fé são tanto de origem Judaica como Muçulmana, não temos preconceitos contra qualquer destes grupos e ansiamos pela sua reconciliação para seu bem comum e para bem do país.
O que nos preocupa, porém, em qualquer decisão que possa afectar o futuro da Palestina, é o facto de ser reconhecido, por quem quer que exerça soberania sobre Haifa e Acre, que nesta área existe um centro mundial administrativo e espiritual de uma Fé mundial, e que a independência dessa Fé, o seu direito a gerir os seus assuntos a partir desta fonte, o direito dos Bahá’ís de todo e qualquer país do globo a visitar como peregrino (neste aspecto, gozando o mesmo privilégio que Judeus, Muçulmanos e Cristãos usufruem ao visitar Jerusalém), sejam reconhecidos e permanentemente salvaguardados."
FONTE: Letter to the United Nations Special Committee on Palestine (BIC-UN)