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sábado, 12 de setembro de 2015

Por uma ecologia integral

Por Arthur Dahl.


Os Profetas de Deus devem ser considerados como médicos cuja tarefa consiste em promover o bem-estar do mundo e de seus povos, para que, através do espírito da unidade, possam curar a doença de uma humanidade dividida (Bahá'u'lláh, SEB, XXXIV)
Depois de diagnosticar as muitas doenças - tal como Bahá'u'lláh, o Fundador da Fé Bahá'í, fez no século XIX e as instituições internacionais Bahá'ís têm feito mais recentemente - a recente encíclica do Papa Francisco descreve a transformação fundamental das necessidades mundiais para resolver os seus graves problemas ambientais e económicos. Não será suficiente - declaram os ensinamentos Bahá'ís e a encíclica papal - realizar uma série de acções urgentes e parciais para os problemas imediatos da poluição, degradação ambiental e esgotamento dos recursos naturais:
Deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático. (¶111)

Se a crise ecológica é uma expressão ou uma manifestação externa da crise ética, cultural e espiritual da modernidade, não podemos iludir-nos de sanar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais… Com efeito, não se pode propor uma relação com o ambiente, prescindindo da relação com as outras pessoas e com Deus. (¶119)

Não haverá uma nova relação com a natureza, sem um ser humano novo. (¶118)

O que está a acontecer põe-nos perante a urgência de avançar numa corajosa revolução cultural. A ciência e a tecnologia não são neutrais, mas podem, desde o início até ao fim dum processo, envolver diferentes intenções e possibilidades que se podem configurar de várias maneiras. Ninguém quer o regresso à Idade da Pedra, mas é indispensável abrandar a marcha para olhar a realidade doutra forma, recolher os avanços positivos e sustentáveis e ao mesmo tempo recuperar os valores e os grandes objectivos arrasados por um desenfreamento megalómano. (¶114)
Não podemos segregar o coração humano do ambiente exterior e dizer que assim que um deles for reformado tudo será melhor. O homem é orgânico com o mundo. A sua vida interior molda o ambiente e é, também ela própria, profundamente afetada por este. Um actua sobre o outro e cada mudança permanente na vida do homem é o resultado destas reacções mútuas. (de uma carta escrita em nome da Casa Universal de Justiça, de Março de 1985).
Os primórdios dessa mudança já são aparentes. "A humanidade autêntica, que convida a uma nova síntese, parece habitar no meio da civilização tecnológica de forma quase imperceptível" (¶112). Este tema também foi abordado nas declarações da Comunidade Internacional Bahá'í nas Nações Unidas, tais como "Repensar a Prosperidade: Forjando Alternativas para a cultura de consumismo" (2010)

A encíclica do Papa Francisco, no capítulo 4, apela a uma ecologia integral, que respeite claramente as suas dimensões social e humana:
A ecologia estuda as relações entre os organismos vivos e o meio ambiente onde se desenvolvem. E isto exige sentar-se a pensar e discutir acerca das condições de vida e de sobrevivência duma sociedade, com a honestidade de pôr em questão modelos de desenvolvimento, produção e consumo. Nunca é demais insistir que tudo está interligado. (¶138)

Isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos... É fundamental buscar soluções integrais que considerem as interacções dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise sócio-ambiental. As directrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza. (¶139)
"Mas, ao mesmo tempo, torna-se actual a necessidade imperiosa do humanismo", diz o Papa Francisco, "que faz apelo aos distintos saberes, incluindo o económico, para uma visão mais integral e integradora" (¶141). "A ecologia humana implica também algo de muito profundo que é indispensável para se poder criar um ambiente mais dignificante: a relação necessária da vida do ser humano com a lei moral inscrita na sua própria natureza." (¶155). É animador ver o Papa a abordar temas a que muitos de nós temos dedicado as nossas vidas, e que por isso reflectem claramente a perspectiva Baha'i:
Todos se devem unir e concordar: todos são gotas de um rio, águas de um mar, brisas de um jardim, regatos que fluem de uma fonte, pássaros voando de uma montanha, jacintos que adornam um parque intoxicados com um vinho, e com os seus corações arrebatados por uma melodia. ('Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 10, p. 173.)
Na sua encíclica, o Papa também reconhece a necessidade de abordagens que atinjam o nível da comunidade local e que tornem a ciência mais acessível. A ecologia apela a uma maior atenção às culturas locais quando se estudam os problemas ambientais, favorecendo um diálogo entre a linguagem técnico-científica e a linguagem do povo. A cultura é mais do que simplesmente o que herdámos do passado; é também, e acima de tudo, uma realidade viva, dinâmica e participativa, que não pode ser excluída quando repensamos a relação entre os seres humanos e o meio ambiente. Isso inclui a importante contribuição das culturas indígenas e a necessidade de uma maior participação no planeamento urbano.

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Texto original: An Integral Ecology, Based on Oneness (bahaiteachings.org)


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Arthur Lyon Dahl foi investigador do Museu de História Natural de Washington e consultor da UNCED (United Nations Conference on Environment and Development). É autor de diversas publicações e actualmente é Presidente do Forum Ambiental Internacional, em Genebra (Suiça)

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Laudato Si’: Erradicar a Corrupção do Sistema Económico

Por Arthur Lyon Dahl.


Deve existir uma solução para os problemas sociais e questões económicas baseada na justiça para todos (’Abdu’l-Baha, Star of the West, Volume 6, p. 314.)
Na sua recente encíclica sobre a pobreza e o ambiente intitulada Laudato Si ', o Papa refere frequentemente o problemas da corrupção:
…quando é a cultura que se corrompe deixando de reconhecer qualquer verdade objectiva ou quaisquer princípios universalmente válidos, as leis só se poderão entender como imposições arbitrárias e obstáculos a evitar.. (¶123)
A encíclica critica a forma como os métodos e os objectivos da ciência e da tecnologia se tornam um paradigma epistemológico, com um reducionismo em que os produtos tecnológicos acabam por condicionar estilos de vida e moldar possibilidades sociais segundo regras ditadas pelos interesses de certos grupos poderosos. O paradigma tecnológico tornou-se tão dominante que seria difícil viver sem os seus recursos e ainda mais difícil de utilizá-los sem ser dominado pela sua lógica interna. Especialização tecnológica torna difícil ver o panorama geral:
A fragmentação do saber realiza a sua função no momento de se obter aplicações concretas, mas frequentemente leva a perder o sentido da totalidade, das relações que existem entre as coisas, do horizonte alargado: um sentido, que se torna irrelevante. Isto impede de individuar caminhos adequados para resolver os problemas mais complexos do mundo actual, sobretudo os do meio ambiente e dos pobres, que não se podem enfrentar a partir duma única perspectiva nem dum único tipo de interesses. Uma ciência, que pretenda oferecer soluções para os grandes problemas, deveria necessariamente ter em conta tudo o que o conhecimento gerou nas outras áreas do saber, incluindo a filosofia e a ética social. (¶110)
Esta referência a uma ciência de "grandes questões" reflecte os apelos da comunidade científica para uma nova ciência da sustentabilidade integrada em todas as disciplinas. Também reflecte os ensinamentos Bahá'ís sobre entendimento básico e equilíbrio necessário entre a ciência e a religião:
Qualquer crença religiosa que não esteja de acordo com provas e investigações científicas é superstição, pois a verdadeira ciência é a razão e a realidade, e a religião é essencialmente a realidade e a razão pura; assim, os dois devem concordar. O ensinamento religioso que estiver em desacordo com a ciência e a razão é invenção humana e imaginação indigna de aceitação, pois a antítese e oposto do conhecimento é a superstição nascida da ignorância do homem. Se dizemos que a religião se opõe à ciência, então não temos conhecimento da verdadeira ciência ou da religião verdadeira, pois ambas se baseiam nos pressupostos e conclusões da razão, e ambos devem passar no seu teste. (Abdu'l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, p. 104.)
A ampla crítica do Papa à corrupção alarga-se ao sistema económico, e à aceitação fácil de:
...a ideia dum crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos da finança e da tecnologia. Isto supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, que leva a «espremê-lo» até ao limite e para além do mesmo. (¶106)
O poder absoluto do sistema financeiro só vai dar origem a novas crises, diz o Papa:
A crise financeira dos anos 2007 e 2008 era a ocasião para o desenvolvimento duma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para uma nova regulamentação da actividade financeira especulativa e da riqueza virtual. Mas não houve uma reacção que fizesse repensar os critérios obsoletos que continuam a governar o mundo. (¶189)
O paradigma tecnocrático tende a exercer o seu domínio também sobre a economia e a política. A economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano. A finança sufoca a economia real. Não se aprendeu a lição da crise financeira mundial e, muito lentamente, se aprende a lição do deterioramento ambiental… quando parece não preocupar-se com o justo nível da produção, uma melhor distribuição da riqueza, um cuidado responsável do meio ambiente ou os direitos das gerações futuras. … Não temos suficiente consciência de quais sejam as raízes mais profundas dos desequilíbrios actuais: estes têm a ver com a orientação, os fins, o sentido e o contexto social do crescimento tecnológico e económico. (¶109) 
As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Às próximas gerações, poderíamos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo. O ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida actual – por ser insustentável – só pode desembocar em catástrofes, como aliás já está a acontecer periodicamente em várias regiões. A atenuação dos efeitos do desequilíbrio actual depende do que fizermos agora, sobretudo se pensarmos na responsabilidade que nos atribuirão aqueles que deverão suportar as piores consequências. (¶161)
Os ensinamentos Bahá'ís concordam e exigem uma solução espiritual para crise económica e para a corrupção:
Nenhum livro religioso dos profetas do passado fala da questão económica, mas este problema foi resolvido completamente nos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Algumas leis foram reveladas para garantir o bem-estar de toda a humanidade. Tal como o homem rico gosta do seu repouso e dos seus prazeres rodeado por luxos, o pobre homem também deve ter um lar, dispor de sustento, e não viver carenciado. Enquanto isto não for realizado, a felicidade é impossível. Todos são iguais aos olhos de Deus; os seus direitos são um e não há distinção entre as almas; todos estão protegidos sob a justiça de Deus. ('Abdu'l-Baha, Star of the West, Volume 6, p. 5)

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Texto original: Rooting Out the Corruption in our Economic Systems (bahaiteachings.org)

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Arthur Lyon Dahl foi investigador do Museu de História Natural de Washington e consultor da UNCED (United Nations Conference on Environment and Development). É autor de diversas publicações e actualmente é Presidente do Forum Ambiental Internacional, em Genebra (Suiça)

domingo, 23 de agosto de 2015

Laudato Si': Riqueza Extrema e a Pobreza Extrema

Por Arthur Lyon Dahl.


Deus criou o mundo como um só – as fronteiras foram marcadas pelo homem. Deus não dividiu as terras ... É por isso que Bahá'u'lláh diz: "Que vão se vanglorie o homem que ama o seu país, mas que aquele que ama a sua espécie." Todos são uma família, uma raça; todos são seres humanos. ('Abdu'l-Baha, Abdu'l-Bahá in London, p. 55)
Ao longo da sua nova encíclica sobre a pobreza e o ambiente, o Papa entrelaça preocupações ecológicas e sociais:
Não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver, no coração, ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos… exige-se uma preocupação pelo meio ambiente, unida ao amor sincero pelos seres humanos e a um compromisso constante com os problemas da sociedade. (¶91)

Hoje, crentes e não-crentes estão de acordo que a terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos. Para os crentes isto torna-se uma questão de fidelidade ao Criador, porque Deus criou o mundo para todos. Por conseguinte, toda a abordagem ecológica deve integrar uma perspectiva social que tenha em conta os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos. O princípio da subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens e, consequentemente, o direito universal ao seu uso é uma regra de ouro do comportamento social… (¶93)
No capítulo 3 da Laudato Si ', o Papa explora as raízes humanas da crise ecológica, com foco no paradigma tecnocrático dominante, no lugar dos seres humanos e na acção humana no mundo. Aqui, a consciência social do Papa é particularmente evidente:
... deveriam indignar-nos sobretudo as enormes desigualdades que existem entre nós, porque continuamos a tolerar que alguns se considerem mais dignos que outros. Deixámos de notar que alguns se arrastam numa miséria degradante, sem possibilidades reais de melhoria, enquanto outros não sabem sequer o que fazer ao que têm, ostentam vaidosamente uma suposta superioridade e deixam atrás de si um nível de desperdício tal que seria impossível generalizar sem destruir o Planeta. Na prática, continuamos a admitir que alguns se sintam mais humanos que outros, como se tivessem nascido com maiores direitos. (¶90)
Este foco na enorme desigualdade entre as pessoas, tão fortemente proclamado na Laudato Si' , é um eco claro do mesmo que encontramos nos ensinamentos Bahá'ís:
Um financeiro com riqueza colossal não deveria existir, enquanto perto dele houver um homem pobre em necessidade extrema. Quando vemos que se deixa a pobreza chegar a uma situação de fome, isso é um sinal certo de que em algum lugar se encontra a tirania. Os homens devem agir nesta matéria, e não devem adiar mais a alteração das condições que trazem a miséria da pobreza opressiva a um vastíssimo número de pessoas. Os ricos devem doar parte da sua abundância, suavizar os seus corações e cultivar uma inteligência compassiva, pensando naqueles pobres seres que sofrem com a falta de meios elementares de subsistência.

Devem existir leis especiais que tratem destes extremos de riqueza e pobreza. Os membros do Governo devem considerar as leis de Deus quando elaborarem planos para dirigir os povos. Os direitos gerais da humanidade devem ser protegidos e preservados.

Os governos dos países devem seguir a Lei Divina que confere justiça igual para todos. Este é o único meio pelo qual podem ser abolidas a deplorável superabundância de grande riqueza e a miserável, desmoralizante e degradante pobreza. Enquanto isto não for feito, a Lei de Deus não será obedecida. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp 153-154.)
Taxa de Pobreza, baseada na Paridade de Poder de Compra

Ao isolarmo-nos da realidade natural e espiritual, caímos na armadilha da sociedade de consumo. O nosso excessivo antropocentrismo atravessa-se no caminho da compreensão mútua e impede qualquer esforço para fortalecer os laços sociais. "Se o ser humano se declara autónomo da realidade e se se constitui dominador absoluto, desmorona-se a própria base da existência." (¶117) Centrámo-nos em nós próprios e demos prioridade absoluta às nossas conveniências imediatas, e relativizámos todo o resto. Qual foi o resultado? Individualismo desenfreado, com muitos problemas sociais relacionados com a actual cultura egocêntrica de satisfação imediata. O mercado tenta promover o consumismo extremo num esforço para vender os seus produtos; por isso, somos facilmente apanhados num consumismo compulsivo de compras e gastos desnecessários. Quando as pessoas se tornam egocentristas, a sua ganância aumenta:
...quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objectos para comprar, possuir e consumir. Num tal contexto, parece não ser possível para uma pessoa, que a realidade lhe imponha limites… a obsessão por um estilo de vida consumista, sobretudo quando pouco têm possibilidade de o manter, só poderá violência e destruição recíproca. (¶204)

O ser humano não é plenamente autónomo. A sua liberdade desvanece-se quando se entrega às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, da violência brutal. Neste sentido, ele está nu e exposto frente ao seu próprio poder que continua a crescer, sem ter instrumentos para o controlar. Talvez disponha de mecanismos superficiais, mas podemos afirmar que carece de uma ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro de um lúcido domínio de si. (¶105)
Qualquer sociedade que se foca exclusivamente na vida material da humanidade - afirmam o Papa e os ensinamentos Bahá'ís - interrompe o seu progresso espiritual e ignora o enorme impacto negativo que tem sobre a própria Terra.

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Texto original: Extreme Poverty and Extreme Wealth, Explained (bahaiteachings.org)

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Arthur Lyon Dahl foi investigador do Museu de História Natural de Washington e consultor da UNCED (United Nations Conference on Environment and Development). É autor de diversas publicações e actualmente é Presidente do Forum Ambiental Internacional, em Genebra (Suiça)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Laudato Si' - Juntar Religião e Ciência

Por Arthur Lyon Dahl.


A religião deve estar de acordo com a ciência, de modo que a ciência possa sustentar a religião e a religião explicar ciência. As duas devem unir-se, indissoluvelmente, na realidade. Até aos dias actuais tem sido costume o homem aceitar cegamente aquilo a que se chama religião, mesmo quando não estava de acordo com a razão humana. (Abdu'l-Baha, Divine Philosophy, p. 26)
Em 18 de Junho de 2015, o Papa Francisco publicou a muito aguardada encíclica "Laudato Si ': sobre o cuidado da casa comum". O título vem do cântico de S. Francisco de Assis, "LAUDATO SI ', mi' Signore" - "Louvado sejas, meu Senhor", e define o tema para um longo acréscimo aos ensinamentos da Igreja Católica que aborda os desafios ambientais enfrentados pelo mundo e pobreza persistente, entrelaçando os dois temas como aspectos da mesma doença espiritual que o mundo enfrenta hoje.

O Papa apresenta a sua encíclica como uma perspectiva de sistemas integrados sobre os desafios materiais e espirituais que o mundo enfrenta e sobre a necessidade de soluções espirituais. Os Bahá'ís saúdam uma posição tão clara da Igreja Católica nestas questões; aqui partilhamos a crença que estes problemas merecem prioridade e acreditamos no mesmo diagnóstico de doença espiritual fundamental subjacente a estes assuntos.

A encíclica, que tem 246 parágrafos (aqui identificados pelo seu número de parágrafo e este símbolo ¶), inicia-se com uma introdução de dezasseis parágrafos; seguem-se seis capítulos que começam com onde estamos no nosso tratamento da nossa casa planetária e terminam com o tipo de educação espiritual necessária para enfrentar os desafios ambientais e da pobreza. Os títulos dos capítulos são: "O que está a acontecer à nossa casa"; "O Evangelho da Criação"; "A Raiz Humana da Crise Ecológica"; "Uma Ecologia Integral"; "Algumas Linhas de Orientação e Acção"; "Educação e Espiritualidade Ecológicas". Cada capítulo tem entre três a nove subsecções. A encíclica conclui com uma oração para a nossa terra e uma oração Cristã em união com a criação.

O Papa dirige a sua carta a todos os povos do mundo, e não apenas aos católicos. Inicia-se com uma revisão de declarações anteriores da Igreja Católica sobre o meio ambiente, mencionando São Francisco de Assis e referindo as iniciativas do Patriarca Ecuménico Bartolomeu da Igreja Ortodoxa, e citando fontes Ortodoxa (nota nº 15) e Sufi (nota nº159). Resume os principais desafios ambientais, conforme definidos pela ciência, e explora as suas causas mais profundas numa sociedade materialista, em que os interesses egoístas de curto prazo se curvam perante o lucro sem ter em conta as necessidades dos pobres ou o domínio ambiental. As questões discutidas incluem a poluição e as alterações climáticas, a água (cujo acesso é um direito humano elementar), a perda de biodiversidade, a diminuição da qualidade de vida humana e do colapso da sociedade, a desigualdade global, as fracas respostas governamentais, e a variedade de opiniões. A encíclica avança com fortes críticas ao consumismo, à economia e às empresas multinacionais, fazendo recordar as declarações e publicações da Comunidade Internacional Bahá'í, nomeadamente a declaração “Uma Fé Comum” (sobre a unidade essencial e harmonia de todas as religiões; elaborada sob a supervisão da Casa Universal de Justiça, 2005), entre outras.

Entre os temas desenvolvidos pelo Papa estão a íntima relação entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo no mundo está interligado, a crítica a novos paradigmas e formas de poder derivadas da tecnologia, o apelo à busca outras formas de entendimento sobre economia e progresso, o valor adequado a cada criatura, o significado humano da ecologia, a necessidade de um debate franco e honesto, a grave responsabilidade das políticas internacionais e locais, a cultura do descartável e a proposta de um novo estilo de vida.

Esta nova encíclica papal também propõe várias vias construtivas para o diálogo e acção. Nesta pequena série de ensaios, vamos explorar essas propostas e analisar a sua congruência e coerência com os ensinamentos Bahá'ís sobre a pobreza global e o nosso meio ambiente planetário.

O capítulo 2 da encíclica papal - sobre o Evangelho da Criação - começa com um apelo para um diálogo entre ciência e religião, e à luz oferecida pela fé religiosa sobre os desafios identificados pela ciência. O nosso relacionamento com Deus, com os outros seres humanos e com a natureza foi quebrado, diz o Papa, e devemos voltar à nossa obrigação de utilizar os bens da terra de forma responsável, e respeitar os outros seres vivos e toda a criação. "Tudo está inter-relacionado, e o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros." (¶70) As escrituras descrevem Deus como o criador, e retratam o amor de Deus pela Sua criação.

O Papa é crítico de todo o domínio tirânico e irresponsável dos seres humanos sobre as outras criaturas, tal como são os ensinamentos Bahá'ís:
Se reconhecemos o valor e a fragilidade da natureza e, ao mesmo tempo, as capacidades que o Criador nos deu, isto permite-nos acabar hoje com o mito do moderno do progresso material ilimitado. Um mundo frágil, com um ser humano a quem Deus confia o cuidado do mesmo, interpela a nossa inteligência para reconhecer como devemos orientar, cultivar e limitar o nosso poder. (¶78)
No que diz respeito à natureza, cada criatura tem o seu propósito. A contemplação da criação permite-nos descobrir em cada coisa um ensinamento que Deus nos quer entregar. Podemos compreender melhor a importância e o significado de cada criatura se a contemplarmos na totalidade do plano de Deus. Como parte do universo, chamado à existência por um Pai, todos nós estamos ligados por laços invisíveis e, juntos, formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos enche de um respeito sagrado, afectuoso e humilde. O ambiente natural é um bem colectivo, património de toda a humanidade e responsabilidade de todos.

Estes princípios de unidade, administração e unicidade humana, primeiramente ensinados por Bahá'u'lláh em meados do século XIX, começaram agora a influenciar todo o planeta.

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 Texto original: Laudato Si’- Religion and Science Come Closer Together (bahaiteachings.org)

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Arthur Lyon Dahl foi investigador do Museu de História Natural de Washington e consultor da UNCED (United Nations Conference on Environment and Development). É autor de diversas publicações e actualmente é Presidente do Forum Ambiental Internacional, em Genebra (Suiça)

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A Desigualdade é a raíz do Mal Social

Com uma frase simples, o Papa Francisco formula uma ideia que resume alguns princípios Bahá’ís: a redução do fosso entre ricos e pobres, a igualdade de direitos entre homens e mulheres, a igualdade de direitos no acesso à Educação e à Justiça.

E não esqueçamos que a igualdade de direitos se aplica a todas as pessoas independentemente da sua etnia, condição social ou religião.


domingo, 22 de dezembro de 2013

Jorge Bergoglio, o jesuíta

"O Espírito residente de Deus, que, na Era Apostólica da Igreja, animou os seus membros, a pureza original dos seus ensinamentos, o antigo brilho da sua luz, irá, sem dúvida, renascer e reviverá como consequência inevitável desta redefinição das suas verdades fundamentais, bem como a clarificação do seu propósito original." (Shoghi Effendi, 1936)*

As primeiras intervenções do Papa Francisco avivaram na minha memória estas palavras de Shoghi Effendi. Pode ainda ser cedo para saber se ele irá cumprir a desejada renovação da Igreja aguardada por tantos cristãos. Independentemente do que o futuro nos reserva, não tenho hesitações em afirmar que ele é uma figura inspiradora, e que em muitos aspectos se tornou uma influência positiva a nível mundial. Além das suas intervenções, a sua imagem de humildade e simplicidade, despertou uma curiosidade natural . Em Portugal, vários livros tentam satisfazer essa curiosidade tentando revelar quem é Jorge Bergoglio, que foi escolhido para liderar a Igreja Católica.

Um desses livros é de autoria dos jornalistas Francesca Ambrogetti e Sergio Rubim, e foi originalmente publicado em 2010, com o título “O Jesuíta”. Na introdução os autores formulam algumas das questões já pertinentes nessa época: “Quem é este docente que levava Jorge Luis Borges às suas aulas e lhe dava a ler os contos dos seus alunos? Quem é este pastor convencido que se deve passar de uma Igreja «reguladora da fé» para uma Igreja «transmissora e facilitadora da fé»? Quem é este ministro religioso que, de um modesto lugar numa residência jesuíta de Córdoba, passou a converter-se em poucos anos em Arcebispo de Buenos Aires, cardeal primaz da Argentina e presidente do Episcopado? Quem é em suma, este argentino de vida quase monacal, que esteve perto de ser Papa?”

Nesta obra encontramos um conjunto de entrevistas com o então Cardeal Bergoglio. Com um prólogo escrito pelo Rabino de Buenos Aires, Abraham Skorka, o livro apresenta uma sucessão de diálogos e questões que muitos de nós gostaríamos de colocar a Jorge Bergoglio. E as respostas – espontâneas, profundas e bem-humoradas – permitem perceber um pouco quem é este homem.

Na minha opinião este é um livro indispensável para compreender o novo papa e o rumo que a Igreja Católica pode tomar nos próximos anos. E é igualmente indispensável para todos os Bahá’ís que desejam manter um diálogo profundo e significativo com os Cristãos.

Deixo alguns excertos que me parecem particularmente relevantes:
Quando o trabalho não dá lugar ao ócio saudável, ao repouso reparador, então escraviza, porque a pessoa já não trabalha pela dignidade, mas sim pela competitividade. Está viciada a intenção pela qual está a trabalhar… (p. 37)

A origem da palavra nostalgia - do grego nostos algos - tem a ver com a ânsia de voltar ao lugar; é disto que fala a Odisseia. Essa é uma dimensão humana. O que Homero faz através da história de Ulisses é marcar o caminho de regresso ao seio da terra, ao seio materno da terra que nos deu à luz. Considero que perdemos a nostalgia como dimensão antropológica. Mas também perdemos a hora de educar, por exemplo, na nostalgia do lar. Quando guardamos os nossos mais velhos nos lares, com três bolinhas de naftalina no bolso, como se fossem um casaco ou um sobretudo, de alguma maneira temos a dimensão nostálgica doente porque, encontrarmo-nos com os nossos avós, é assumir um reencontro com o nosso passado (p.28-29)

Temos de saber que a vida não pode ser parida sem dor. Não são só as mulheres que sofrem ao trazer um filho ao mundo, mas todos nós, em coisas que realmente valem a pena e permitem crescer, temos de passar por momentos dolorosos. A dor é algo que está ligado à fecundidade. Atenção! Não é uma atitude masoquista, mas sim aceitar que a vida nos marca limites. (p.73-74)

Alguns escolhem uma missa pela forma como o sacerdote prega. Mas, dali a dois meses, dizem que o que não funciona bem é o coro, e então voltam a mudar. Há uma redução do religioso ao estético. Vai-se mudando de gôndola no supermercado religioso. É a religião como produto de consumo, muito ligada, a meu ver, a um certo teísmo difuso, prosseguido dentro dos parâmetros da New Age, onde se mistura muito a satisfação pessoal, o relax, o «estar bem». Isso está a ver-se especialmente nas grandes cidades, mas não é só um fenómeno que se dá entre pessoas cultas. Nos sectores humildes, nos bairros de lata, por vezes, vai-se buscar o pastor evangélico, porque «me toca». (p.84)

Toda a pessoa pode dar-nos alguma coisa e toda a pessoa pode receber alguma coisa de nós. O preconceito é como um muro que impede que nos encontremos. E os argentinos são muito preconceituosos; rotulamos imediatamente as pessoas para, no fundo, nos esquivarmos ao diálogo, ao encontro. Assim acabamos por fomentar o desencontro que, na minha opinião, atinge a categoria de verdadeira patologia social (p.114)

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* Shoghi Effendi, The World Order of Bahá'u'lláh, p. 185. A citação é de uma longa carta escrita em 1936. Nessa carta, Shoghi Effendi descreveu diversas transformações mundiais que afectariam povos e nações e transformariam o mundo numa civilização global. Algumas dessas transformações seriam crises profundas que afectariam várias instituições, nomeadamente as instituições religiosas.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Papa Francisco: "Esta economia mata"

O Papa Francisco atacou o capitalismo sem limites como “uma nova tirania” e advertiu que a desigualdade e a exclusão social "geram violência" no mundo e podem provocar "uma explosão", na sua primeira exortação apostólica, divulgada nesta terça-feira pelo Vaticano.

Este documento de 84 páginas é como que o programa oficial do seu papado. Contém as posições que ele tem vindo a expressar nos seus sermões e discursos desde Março, quando se se tornou o primeiro sumo pontífice não europeu dos últimos 1300 anos.

Nesta exortação, de título Evangelii Gaudium" (A alegria do Evangelho) reconhece estar “aberto a sugestões” para reformar o papado. “Como bispo de Roma, cabe-me estar aberto às sugestões para que o exercício do meu ministério se torne mais fiel ao sentido que Jesus Cristo quis dar-lhe e às necessidades actuais da evangelização”, escreveu o Papa.

O Papa Francisco expressa mais claramente do que nunca as posições que tem vindo a assumir de luta contra a pobreza e a exclusão neste documento. Apelou aos políticos para que garantam a todos os cidadãos “trabalho digno, educação e cuidados de saúde”, e aos ricos para que partilhem a sua fortuna: “Tal como o mandamento ‘Não matarás’ impõe um limite claro para defender o valor da vida humana, hoje também temos de dizer ‘Tu não’ a uma economia de exclusão e desigualdade. Esta economia mata”, afirma Francisco na exortação apostólica.

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Fonte: Papa Francisco: "Esta economia mata" (Público)

quarta-feira, 13 de março de 2013

Francisco I

Um dos aspectos curiosos da Epístola de Bahá'u'lláh ao Papa é que além de anunciar a ser o novo Manifestante de Deus, Ele indica ao Papa como deve cumprir a sua missão.


Ó Papa! Rasga os véus. Aquele que é o Senhor dos Senhores veio envolto em nuvens, e o decreto foi cumprido por Deus, o Todo-Poderoso, o Irrestrito... Ele, em verdade, desceu outra vez do Céu, assim como dali desceu na primeira vez. Acautela-te para não disputar com Ele tal como fizeram os fariseus com Ele (Jesus), sem um sinal ou prova clara. À Sua direita fluem as águas vivas da graça, e à Sua esquerda o Vinho selecto da justiça, enquanto antes dele marcham os anjos do Paraíso, segurando os estandartes dos Seus sinais. Acautela-te para que nenhum nome te exclua de Deus, o Criador da terra e do céu. Deixa o mundo atrás de ti, e volve-te para o teu Senhor, através de qual toda a terra foi iluminada... Resides em palácios enquanto Aquele que é o Rei da Revelação vive na mais desolada das moradas? Abandona-os àqueles que os desejam, e volve a tua face com júbilo e deleite para o Reino... Levanta-te em nome do teu Senhor, o Deus de Misericórdia, entre os povos da terra, e segura no Cálice da Vida com as mãos da confiança e primeiro bebe dele, e oferece-o depois a todos os que a ele se voltaram entre os povos de todas as crenças...
Bahá'u'lláh, Epístola ao Papa Pio IX