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sábado, 4 de julho de 2020

Porque matamos os Profetas? O Martírio do Báb


A história contém uma narrativa trágica sobre a forma como nós, os humanos - em especial os que têm poder - tratamos os profetas. O que faz os nossos dirigentes reagir tão cruelmente aos fundadores das grandes religiões mundiais?

Porque desprezamos e matamos os nossos profetas?

Provavelmente já todos percebemos que as autoridades e os líderes sociais têm um registo histórico dramático quando abordam os santos mensageiros de Deus. Eles foram os responsáveis pelos terríveis maus-tratos infligidos aos fundadores das grandes religiões mundiais e aos seus primeiros seguidores. Foram os actos desses líderes que levaram Abraão e Moisés serem alvo de prisão, exílio, escárnio e perseguição. Krishna e Buddha foram ridicularizados e censurados pelos governantes do seu tempo. Os líderes políticos e religiosos de pretensas civilizações avançadas crucificaram Cristo, fizeram guerra a Maomé, exilaram e encarceraram Bahá’u’lláh e executaram o Báb.

Talvez ainda não tenham ouvido falar do Báb e do que Lhe aconteceu. A extraordinária história deste jovem e carismático profeta pode surpreender o(a) leitor(a). No fundo, Ele iniciou uma nova religião progressista no seio de uma das sociedades mais corruptas e atrasadas do mundo, e consequentemente sofreu tremendamente.

O Báb (título que em árabe significa “A Porta” ou “O Portão”) foi um jovem persa – de nome próprio Siyyid Ali Muhammad - que anunciou a Sua mensagem 1844. Os Seus ensinamentos religiosos tinham raízes no misticismo profético Sufi, prevalecente na Pérsia do sec. XIX. O Báb transmitiu uma mensagem excitante - que vinha anunciar o futuro aparecimento de uma grandiosa revelação mundial, tal como João Baptista tinha anunciado o advento de Cristo - e que Ele e o Prometido iriam unir a humanidade e reconciliar as suas tradições religiosas:
Tornai-vos como verdadeiros irmãos na una e indivisível religião de Deus, libertos das diferenças, pois, em verdade, Deus deseja que os vossos corações sejam espelhos para os vossos irmãos de Fé, para que vos encontrais reflectidos neles, e eles em vós. Este é o verdadeiro caminho de Deus, o Omnipotente, e Ele, na verdade, está atento aos vossos actos. (Selections from the Writings of the Bab, p. 55)
A Fé Babi assumiu rapidamente uma intensidade ardente naquela cultura agrilhoada em tradições. Inicialmente eram poucos os aderentes que conheciam os ensinamentos do Báb; mas depois, milhares e dezenas de milhar tornaram-se Babis, afastando-se das tradições e práticas sociais islâmicas, e desafiando a autoridade dos seus líderes. Os governantes da Pérsia e o seu poderoso clero reagiram agressivamente a estes desenvolvimentos. Seguiu-se uma campanha de perseguições e chacinas brutais.

Seis anos após o surgimento desta nova Fé, o governo decretou a execução do seu jovem e carismático fundador. Já tinham sido torturados e executados mais de 20.000 seguidores fervorosos do Báb durante aqueles breves e intensos seis anos de existência do movimento Babi. O Báb apelava para mudanças revolucionárias nos sistemas de crenças e governação, e proclamava a unidade de todas as religiões; consequentemente, as autoridades receavam que este desafio dinâmico e o seu crescente apoio viesse a restringir ou desfazer o seu poder.

Com a sua vasta chacina contra os Babis, o rei da Pérsia e os mullás tentavam acabar com o movimento Babi; mas era cada vez mais as pessoas que se tornavam Babis, apesar das perseguições horríveis. Finalmente, em Julho de 1850, as autoridades condenaram o Báb à morte; acusaram-No de apostasia – a mesma acusação que os fariseus fizeram a Jesus – mas o Báb recusou-Se a negar os Seus ensinamentos e aceitou tranquilamente as consequências.

A sentença seria executada no dia 9 de Julho de 1850, por um pelotão de fuzilamento, numa praça da cidade de Tabriz. Anis, um dos mais jovens seguidores do Báb, insistiu em acompanhá-Lo na morte, e as autoridades aceitaram o seu pedido. Uma enorme multidão reuniu-se na praça, preparando-se para assistir ao acontecimento.

Praça de Tabriz onde o Báb foi executado.
Na manhã anterior ao fuzilamento, Sam Khan, o coronel que comandava o regimento arménio de soldados mercenários que deveriam executar o Báb, pediu perdão ao Báb. “Eu professo a Fé Cristã, e não vos desejo qualquer mal”, disse Khan ao Báb na Sua cela, “Se a Vossa Causa for a Causa da Verdade, livrai-me da obrigação de derramar o vosso sangue.”

Sam Khan
O Báb respondeu ao comandante: "Segui as vossas instruções, e se a vossa intenção for sincera, o Omnipotente poderá certamente aliviar-vos da vossa dificuldade."

Depois de levado para a praça, o Báb foi amarrado e pendurado com cordas junto à parede de um aquartelamento.

Após a ordem de fogo de Sam Khan, os mosquetes do regimento disparam. Testemunhas ocidentais que presenciaram o evento referem que “o fumo das setecentas e cinquenta armas foi tanto que a luz do dia se transformou em escuridão.

Quando o fumo se desvaneceu, a multidão viu que o Báb tinha desaparecido.

Anis estava ileso junto à parede; as cordas que o prendiam estavam desfeitas em pedaços. Surpreendida, a multidão começou a gritar que tinha visto um milagre.
“O Siyyid-i-Bab desapareceu da nossa vista!” clamava a multidão agitada. Começaram freneticamente a procurá-Lo e acabaram por O encontrar sentado na Sua cela, a falar com Siyyid Husayn – uma conversa que tinha sido interrompida. O Seu rosto mostrava uma calma imperturbável. O Seu corpo tinha escapado ileso à saraivada de balas que o regimento Lhe dirigira. “Terminei a Minha conversa com Siyyid Husayn”, disse o Báb [ao oficial]. Agora podeis prosseguir o comprimento da vossa intenção”. (Nabil, The Dawn-Breakers, p. 513)
Entretanto, o Coronel Sam Khan ordenou ao seu regimento que abandonasse a praça e jurou que nunca mais obedeceria a uma ordem semelhante, mesmo que isso lhe custasse a sua própria vida. Quando as tropas de Khan saíram da praça, o coronel que comandava a tropa local ofereceu-se para realizar a execução. Nesse momento o Báb proferiu as Suas últimas palavras:

"Se tivésseis acreditado em Mim, ó geração perversa, cada um de vós teria seguido o exemplo deste jovem que, em grau, é superior à maioria de vós, e de bom grado se teria se sacrificado no Meu caminho. Dia virá em que Me tereis reconhecido; nesse dia, Eu terei deixado de estar convosco. (The Bab, quoted by Shoghi Effendi in God Passes By, p. 53)

Os guardas penduraram novamente o Báb e o Seu companheiro Anis. O pelotão de fuzilamento tomou posição e disparou. À segunda tentativa, consumou-se a execução.

Hoje, corpos do Báb e do Seu seguidor repousam sob uma cúpula dourada no Monte Carmelo, em Haifa, na Terra Santa. Milhões de pessoas de todo o mundo visitam anualmente este local sagrado, onde o Santuário do Báb proclama ao mundo a mensagem Bahá’í de unidade, paz, amor e desprendimento.

No próximo dia 9 de Julho a comunidade Bahá’í assinala o martírio do Báb, homenageando o Seu sacrifício e reconhecendo o novo ciclo religioso que Ele iniciou e que abriu caminho para a mensagem revolucionária e unificadora de Bahá’u’lláh.

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Traduzido e adaptado de: Why Do We Kill Our Prophets? The Martyrdom of the Bab (www.bahaiteachings.org)

terça-feira, 2 de junho de 2020

A Virgem Celestial



Uma perspectiva Bahá'í sobre o fenómeno de Fátima.
Tertúlia organizada pela Comunidade Bahá'í de Portimão.

sábado, 4 de maio de 2019

Ressurreição dos Mortos: Entre a Fé e a Razão

Por Christopher Buck.


Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que a razão e a religião devem estar em harmonia entre si:
Se a religião se opõe à razão e à ciência, a fé é impossível; e quando a fé e a confiança na religião divina não se manifestam no coração, não pode haver realização espiritual. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 299)
Vamos aplicar este princípio fundamental da Fé Bahá’í a um assunto importante do Cristianismo, e também do Judaísmo e do Islão: a ressurreição da humanidade no Dia do Juízo. Como acontecerá isto? Ou melhor: Como é que isso poderá acontecer, se é que alguma vez acontecerá!

A metafísica da ressurreição inclui uma teoria da pessoa humana. Para que fique claro, a “ressurreição” é a base da fé Cristã e refere-se ao triunfo de Jesus sobre a morte; foi com esta perspectiva Cristã que eu fui educado. Depois há a ressurreição dos mortos que deve acontecer no Dia do Juízo. Foi-me ensinado na catequese que, se Jesus conseguiu ressuscitar dos mortos, então nós também conseguiríamos, se fossemos Cristãos fiéis.

Esta promessa era apelativa especialmente para nós, jovens, pois o apego aos nossos corpos físicos era forte e vibrante. A típica doutrina Cristã sobre a ressurreição no fim-dos-tempos tem mais a ver com receber um corpo perfeito e com a juventude eterna aqui na Terra, do que com noções incorpóreas de vida depois da morte. Deste modo, a doutrina da ressurreição física não tem apenas uma natureza sobrenatural (em que as leis da natureza não se aplicam), mas também é uma doutrina algo materialista, pelo menos no seu apelativo carnal. Também é contrária à ciência, como sabemos.

Se o ser humano tem uma alma e é essencialmente um ser espiritual, porque é que o corpo é necessário para além da vida física aqui na Terra? Porque é que a junção de corpo e alma é tão popular nas crenças populares Cristãs sobre o Dia do Juízo? Isto pode dever-se à identidade pessoal e ao apego ao corpo físico.

Assim, a doutrina Cristã sobre ressurreição é problemática, não só do ponto de vista da razão e da ciência, mas também numa perspectiva espiritual. No âmago de tudo isto, o que está em causa é a definição e a doutrina sobre a pessoa humana.

Basicamente, os ensinamentos Bahá’ís afirmam que a alma é imortal e que o corpo é mortal. Por outras palavras, a alma é espiritual e o corpo é físico.

Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como dizem alguns de entre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou” disse S. Paulo aos Coríntios. “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.” (1 Cor 15:12-14) Lutei com este critério básico das minhas crenças Cristãs quando conheci a Fé Bahá’í.

Quando me ensinaram sobre a ressurreição na catequese, a consciência individual de uma pessoa não era o único critério da personalidade humana. A consciência exigia a instrumentalização dos sentidos. A sua actuação, num determinado momento após a morte, era garantida pela ressurreição de Cristo enquanto “Deus feito carne”, o que era o mistério central da encarnação. Mas as escrituras Bahá’ís rejeitam a ideia de que Deus possa encarnar:
Sabe tu com certeza que o Invisível não pode, de forma alguma, encarnar a Sua Essência e revelá-la aos homens. Ele está, e sempre esteve, imensamente exaltado para lá de tudo o que possa ser narrado ou compreendido. Do Seu retiro de glória, a Sua voz está sempre a proclamar: “Em verdade, Eu sou Deus; não há outro Deus além de Mim, o Omnisciente, o Sapientíssimo. Manifestei-Me aos homens e enviei Aquele que é a Alvorada dos sinais da Minha Revelação. Através dele fiz com que toda a criação testemunhasse que não há outro Deus salvo Ele, o Incomparável, o Informado de tudo, o Omnisciente. Ele Que está eternamente oculto dos olhos dos homens nunca poderá ser conhecido salvo através do Seu Manifestante, e o Seu Manifestante não poderá aduzir maior prova da verdade da Sua Missão do que a prova da Sua própria Pessoa. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, XX).
A unidade psicossomática – corpo e alma – é destruída com a morte. Então como é que os corpos físicos que tivemos aqui na Terra se podem alguma vez reunir com as nossas almas? Isto é um problema de identidade. Quando estava a investigar a Fé Bahá’í, cheguei a um momento em que tive de repensar a minha identidade pessoal, assim como a base da minha identidade enquanto Cristão. Também tive que repensar o meu entendimento da identidade de Jesus Cristo.

Assim, podem imaginar a minha surpresa e espanto quando li pela primeira vez a seguinte explicação, sábia e serena, de ‘Abdu’l-Bahá:
Ó tu que acreditas no Espírito de Cristo, no Reino de Deus!

O corpo é constituído, em verdade, por elementos corpóreos e toda a composição está necessariamente sujeita à decomposição; mas o espírito é uma essência simples, pura, espiritual, eterna, perpétua e divina. Aquele que procura Cristo na perspectiva do Seu corpo, na verdade, rebaixou-O e afastou-se d’Ele; mas aquele que procura Cristo na perspectiva do Seu espírito, crescerá dia após dia em alegria, atracção, zelo, proximidade, percepção e visão.

Tu tens que procurar o Espírito de Cristo neste dia maravilhoso. O céu para onde Cristo ascendeu não é um espaço infinito. O Seu céu é, em vez disso, o reino do Seu Senhor, o Magnânimo. Assim Ele disse, “O Filho do Homem está no céu”. É sabido, portanto, que o Seu céu está para lá dos limites que cercam a existência e que Ele está elevado para as pessoas que adoram.

Reza a Deus para ascender a este céu, provar a sua comida – e sabe que as pessoas ainda não perceberam até hoje o mistério das Sagradas Escrituras. Acreditam que Cristo esteve privado do Seu céu quando esteve neste mundo, que desceu dos cumes da Sua elevação e posteriormente ascendeu a este cume elevado – isto é, em direcção ao céu que não existe, pois existe apenas espaço. Esperam que Ele desça deste céu sentado numa nuvem. Eles acreditam que há no céu uma nuvem na qual Ele se senta, e na qual descerá; mas, na realidade, as nuvens são vapores que se erguem da terra e que não descem dos céus. A nuvem mencionada nas Sagradas Escrituras é o corpo humano, porque é um véu para eles, tal como uma nuvem, que os impede de ver o sol da verdade que brilha no horizonte de Cristo.

Rezo a Deus para abra perante a tua face os portões da revelação e da visão, de tal maneira que percebas os mistérios de Deus neste dia conhecido. ('Abdu’l-Bahá, Tablets of Abdu’l-Baha, pp. 316–317)
Quando li, pela primeira vez, a frase “Aquele que procura Cristo na perspectiva do Seu corpo, na verdade, rebaixou-O e afastou-se d’Ele”, fiquei atordoado. Foi algo que desafiou a minha identidade Cristã. Nesse momento decidi que se queria ser um verdadeiro Cristão, tinha de me tornar Bahá’í, em vez de permanecer Cristão. Ao abraçar a Fé Bahá’í, eu não estava apenas a aceitar o cumprimento das profecias de Cristo sobre o reconhecimento de Bahá’u’lláh como “regresso” do espírito e poder de Cristo, mas também a reafirmar a minha anterior identidade como seguidor de Jesus Cristo, com uma compreensão totalmente nova.

Nunca tinha percebido antes que os fundamentos das minhas anteriores crenças em Jesus se baseavam primariamente no milagre da ressurreição de Jesus, o que significava, em termos grosseiros, que eu poderia voltar a ter o meu corpo no Dia do Juízo Final.

Assim, depois de ler esta notável explicação de ‘Abdu’l-Bahá, percebi subitamente que a minha “fé era vã”, tal como S. Paulo assegurava – mas por uma razão completamente diferente. Eu acreditava em Cristo por motivos “vãos” (nomeadamente, o meu apego ao corpo físico, juntamente com a promessa da ressurreição física). A minha concepção sobre a pessoa e a obra de Cristo tinham de ser totalmente reconstruídas e reformuladas.

Eu tinha “nascido de novo”, com uma nova compreensão de todas as coisas Cristãs, com um entendimento mais profundo sobre aquilo que Cristo tinha ensinado e realizado – numa forma em que essas crenças já não estavam em contradição com a razão ou a ciência. Para mim, isto foi o triunfo do discernimento – inspirado e ajudado pelos ensinamentos Bahá’ís.

Nesta fase avançada da vida, não tenho muito orgulho em dizer que estou eternamente grato por este importante avanço na natureza fundamental e minha fé e crença em Jesus Cristo, que não só ficou reforçada com a minha adesão à Fé Bahá’í, mas também foi grandemente aprofundada pelos ensinamentos espirituais das escrituras Bahá’ís, e tremendamente ampliada com os princípios universais dos ensinamentos Bahá’ís.

A verdade e o mistério do Dia do Juízo – e a doutrina da “ressurreição dos mortos” que lhe está associada – exige uma nova compreensão, baseado num acto individual de discernimento, com o exercício de um juízo pessoal e independente.

Que isto seja um testemunho de fé – e da razão.

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Texto original: Reason and the Resurrection: Can Faith Stand the Test of Science? (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Ridvan e Páscoa

Por Preethi.


Este ano, a celebração da Páscoa coincide com o Ridvan. O que é que a Páscoa tem a ver com o Ridvan, poderíamos perguntar. Na verdade, à primeira vista, parece não haver qualquer ligação entre estas duas celebrações. Mas ao longo dos últimos dias, dei por mim a ler sobre a perspectiva Bahá’í referente aos eventos que os Cristãos celebram durante a Páscoa, e percebi que se retirarmos as tradições e rituais que se tornaram sinónimos de Páscoa, então o verdadeiro significado da Páscoa está muito próximo do significado do Ridvan.

Para os Cristãos, a Páscoa celebra a ressurreição de Jesus três dias após a Sua crucificação na Sexta-Feira Santa. Como fui criada numa família Cristã, lembro-me de ler histórias da Bíblia que falavam da profunda dor e perda que os discípulos sentiram após a Sua crucificação. Uma das minhas histórias favoritas é sobre Maria Madalena, que estava a chorar em frente ao túmulo vazio de Jesus.

11 E Maria estava chorando fora, junto ao sepulcro. Estando ela, pois, chorando, abaixou-se para o sepulcro.
12 E viu dois anjos vestidos de branco, assentados onde jazera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés.
13 E disseram-lhe eles: Mulher, por que choras? Ela lhes disse: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram.
14 E, tendo dito isto, voltou-se para trás, e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus.
15 Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? Quem buscas? Ela, cuidando que era o hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei.
16 Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, disse-lhe: Raboni (que quer dizer, Mestre).
17 Disse-lhe Jesus: Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai: mas vai para os meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus.
18 Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos que vira o Senhor, e que ele lhe dissera isto.
(Jo 20:11-18)

Nós, Bahá’ís, entendemos a história da ressurreição como uma alegoria espiritual e não uma verdade literal. ‘Abdu’l-Bahá explica o significado da história bíblica no livro “Respostas a Algumas Perguntas”:

... Após o martírio de Cristo, os Apóstolos ficaram perplexos e assustados. A realidade de Cristo, que consiste nos Seus ensinamentos, nas Suas bênçãos, nas Suas perfeições e no Seu poder espiritual, ficou oculta e desapareceu durante dois ou três dias após o Seu martírio, e não teve aparecimento ou manifestação externa - de facto, era como se estivesse totalmente perdida. Pois aqueles que verdadeiramente acreditavam eram poucos em número, e mesmo esses estavam perplexos e assustados. A Causa de Cristo era, pois, como um corpo sem vida. Após três dias, os Apóstolos tornaram-se firmes e decididos, levantaram-se para ajudar a Causa de Cristo, resolveram promover os ensinamentos divinos e praticar os conselhos do seu Senhor, e esforçaram-se por servi-Lo. Então a realidade de Cristo tornou-se resplandecente, a Sua graça brilhou, a Sua religião encontrou uma nova vida, e os Seus ensinamentos e conselhos tornaram-se manifestos e visíveis. Por outras palavras, a Causa de Cristo, que era como um corpo sem vida, despertou para a vida e ficou rodeada pela graça do Espírito Santo. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newlyrevised edition, pp. 117)

Não é difícil imaginar a dor que os primeiros seguidores dos Manifestantes de Deus devem ter sentido quando testemunharam o sofrimento infligida a esses Mensageiros Divinos. Em cada Dispensação, temos histórias sobre como estes seguidores se sentiram quando se separaram do Manifestante, e não sabiam o que fazer. Isto não foi diferente no tempo de Bahá’u’lláh.

Após o martírio do Báb e a perseguição contra a comunidade Bábi, o exílio de Bahá’u’lláh – que era visto pelos Bábis como o líder da sua comunidade – entristeceu e perturbou profundamente os Bábis. Tal como os discípulos de Cristo após a crucificação, devem ter considerado todos aqueles acontecimentos como um golpe fatal na sua Causa e ficaram sem saber o que fazer.

No entanto, no jardim de Ridvan – tal como três dia após a crucificação de Jesus – a dor que os Babis devem ter sentido ao despedirem-se de Bahá’u’lláh deve-se ter transformado em alegria inimaginável ao saberem que Bahá’u’lláh tinha anunciado ser “Aquele que Deus tornará manifesto”.

A Páscoa, tal como o Ridvan, é, portanto, uma celebração do triunfo da Causa divina - onde a dor é transformada em alegria e a perseguição em vitória. E agora que iniciamos a celebração dos 12 dias do Festival de Ridvan, desejamos uma Páscoa feliz a todos os nossos amigos Cristãos!

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Texto original: Ridvan and Easter (www.bahaiblog.net)

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Na sua vida profissional, Preethi tem-se envolvido em áreas como a educação, o desenvolvimento comunitário e o direito. No entanto, no seu coração, ela é uma criança que vê o mundo como um enorme parque de brincadeiras. Actualmente está a desenvolver um projecto educativo para levar histórias e culturas do mundo aos jovens, com recursos no One Story Classroom.

sábado, 6 de abril de 2019

Terá Darwin descoberto a Divindade?

Por Robert Atkinson.


A maioria das pessoas recorda o famoso cientista Charles Darwin pela sua teoria da “sobrevivência do mais apto”.

Essa perspectiva da evolução descreve as criaturas no mundo natural – incluindo os humanos – em competição uns contra os outros, num cenário de oposição inerente a todas as criaturas. Há quem diga que a sua teoria lançou uma visão do mundo caracterizado pela separação e competição.

No entanto, se olharmos cuidadosamente para os seus escritos, descobrimos o outro lado da história - algo desconhecido, ignorado e mal-entendido. A visão do mundo marcado pela separação já existia muitos séculos antes de Darwin e as muitas tentativas dos seus seguidores para promover a sua teoria parecem agora ser uma derradeira tentativa para defender essa maneira antiquada de olhar o mundo. Além disso, a teoria completa de Darwin, quando examinada detalhadamente, ajusta-se mais aos princípios espirituais emergentes no seu tempo do que fomos levados a acreditar.

Durante a vida de Darwin, teve início, em 1852, um avanço na consciência da humanidade com a revelação de Bahá’u’lláh, o fundador da Fé Bahá’í. Os ensinamentos Bahá’ís, destinados a ultrapassar normas existentes de construção da nações e nacionalismo, baseiam-se na unicidade da humanidade - o princípio espiritual fundamental que caracteriza o nosso tempo:
A Terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos… Sois frutos de uma só árvore e folhas de um só ramo… Tão poderosa é a luz da unidade que pode iluminar a terra inteira. (Baha’u’llah, Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, CXXXII)
Os ensinamentos Bahá’ís apresentam uma visão totalmente desenvolvida da evolução, na qual todas as coisas estão interligadas, dependem do mesmo Criador e, portanto, seguem as mesmas leis e princípios em todos os domínios - incluindo a evolução colectiva da humanidade, que passa por fases, tal como o indivíduo:
A realidade é uma só; e quando encontrada, unificará toda a humanidade… A realidade é o conhecimento de Deus… A realidade está subjacente a todos os grandes sistemas religiosos do mundo. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 372)

A ordem mundial apenas se pode basear na inabalável consciência da unicidade da humanidade… O reconhecimento desta verdade exige o abandono dos preconceitos - preconceitos de todos os tipos – raça, classe, cor, credo, nação, sexo, grau de civilização material, e tudo o que permita que as pessoas se considerem superiores a outras. (The Universal House of Justice, The Promise of World Peace, p. 10)
Os ensinamentos Bahá'ís afirmam que a evolução tem um objectivo, é progressiva e conduz a níveis de cooperação cada vez maiores. Surpreendentemente, a visão de Darwin sobre a evolução, quando considerada na sua totalidade, apresenta um paralelismo perfeito com isto. Darwin fez estudos para ser clérigo; depois, numa verdadeira mudança de paradigma, partiu em viagem no Beagle para as zonas mais remotas do mundo; e também reconheceu que, coexistindo com a sua teoria da “sobrevivência do mais apto”, existe a lei natural da cooperação.

Uma leitura mais pormenorizada sobre as ideias de Darwin revela uma ligação intrigante entre a sua teoria da evolução e os ensinamentos Bahá’ís. No livro The Descent of Man [1871] (traduzido em Portugal como A Origem do Homem e no Brasil como A Descendência do Homem), Darwin escreveu sobre a evolução progressiva:
À medida que o homem progride, e pequenas tribos se unem em comunidades maiores, a simples razão diz ao indivíduo que deve alargar os seus instintos e simpatias sociais a todos os membros da mesma nação, mesmo que não os conheça pessoalmente. Quando se chega a este ponto, apenas existe uma barreira artificial que impede que as suas simpatias se alarguem aos homens de todas as nações e raças. (Charles Darwin, The Descent of Man, p. 83)
O que ele descreve aqui, será altruísmo colectivo ou a Regra de Ouro? Numa frase arrebatadora, Darwin leva a lei natural da cooperação do nível individual ao nível global. O próximo passo neste percurso evolutivo - que tem os seus altos e baixos - será outro princípio espiritual universal - a paz na terra - que é prometido por todas as tradições espirituais mundiais, mas também é visto como inevitável pelas escrituras Bahá’ís.

Será que quando os ensinamentos Bahá’ís estavam a ser revelados no mundo, Darwin, de alguma forma, recebeu estas energias espirituais e integrou-as nas suas ideias inovadoras sobre a evolução? Poderiam outros pensadores de vanguarda daquele tempo – como os transcendentalistas e, mais tarde, os defensores das teorias quânticas – ter feito a mesma coisa nas suas áreas pelo progresso da consciência da humanidade?

Um princípio espiritual essencial da Fé Bahá’í é que a ciência e a religião devem estar em harmonia – a razão e a fé são formas complementares (e necessárias) para compreender plenamente a natureza da realidade. O progresso de cada uma anda a par com a outra.

Nos nossos dias, ciência e religião parecem concordar com a ideia de evolução progressiva. Os ensinamentos Bahá’ís afirmam:
Todos os seres, sejam universais ou particulares, foram criados perfeitos e completos desde o início. O máximo que podemos dizer é que as suas perfeições apenas se tornaram gradualmente aparentes. A lei de Deus é uma; a evolução da existência é uma; a ordem divina é uma. Todos os seres, grandes ou pequenos, estão sujeitos a uma lei e uma ordem. Cada semente tem, desde o início, todas as perfeições da planta… Quando consideramos esta ordem universal, vemos que nenhuma coisa atinge a perfeição imediatamente após vir à existência, mas cresce e desenvolve-se gradualmente até atingir essa fase. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 229-230)
Charles Darwin, no livro A Origem das Espécies (1859), apresenta outro conceito que o liga aos ensinamentos Bahá’ís, quando escreve: “Como a selecção natural trabalha unicamente para o bem de cada ser, todos os dons corporais e mentais tendem a progredir em direcção à perfeição.” (p.577)

Quando juntamos a toda a teoria da evolução de Darwin – baseada na ideia de que os nossos instintos sociais evoluem de “pequenas tribos” para “grandes comunidades”, para “todos os membros da mesma nação” e, por fim, “todas as nações e raças” – com a ideia de que a evolução progride para a perfeição, a sua visão geral alinha-se quase integralmente com o princípio de evolução espiritual através do desenvolvimento progressivo da ordem em direcção a uma harmonia crescente.

Também é interessante notar que antes de Charles Darwin, o conceito de evolução ainda não tinha surgido no discurso público. Agora reconhecemos que tudo evolui: a vida, a cultura, a civilização, a ciência, a tecnologia, as artes e até o próprio universo.

Compreender o que Darwin verdadeiramente disse – e pretendia – assim como a sua provável fonte de inspiração, é uma forma de entender que os saltos evolutivos da consciência humana acontecem numa escala mais ampla. De facto, os fundadores das religiões do passado também tiveram os seus Darwins, Emersons e Einsteins que preencheram o fosso entre ciência e religião enquanto faziam avançar o espírito da época através de uma perspectiva essencialmente secular.

É difícil negar que os fundadores das religiões mundiais - como Abraão, Krishna, Moisés, Zoroastro, Buda, Cristo, Maomé e, no nosso tempo, Bahá'u'lláh - tenham, cada um à sua maneira, transformado a vida espiritual dos povos do mundo, mudado o rumo da vida humana ao longo dos últimos milhares de anos e causado um salto de consciência em cada nova época espiritual iniciada por cada um deles.

Hoje, compreendemos melhor que existe uma lei universal governa tudo, que a realidade é uma só e que a evolução progressiva e a revelação progressiva são princípios paralelos de uma única realidade. Podemos ficar encorajados com a harmonia sobre verdades vitais, tais como o desenvolvimento evolutivo, que nos guiam para uma consciência da unicidade da humanidade.

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Texto original: Did Darwin Discover Divinity? (www.bahaiteachings.org)

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Robert Atkinson é doutorado em psicologia do desenvolvimento, professor na University of Southern Maine e autor de vários livros, nomeadamente, The Story Of Our Time: From Duality to Interconnectedness to Oneness, Mystic Journey: Getting to the Heart of Your Soul’s Story (2012), e Remembering 1969: Searching for the Eternal in Changing Times (2008).

sábado, 8 de dezembro de 2018

Como podemos provar que Deus existe?

Por Peter Terry.


“No princípio, Deus...”

A maioria dos nossos antepassados, durante quase três milénios, acreditou em Deus. A maioria das pessoas ainda acredita. Mas há já alguns séculos que existem cépticos. Em resposta aos cépticos tem havido tentativas de provar a existência de Deus.

Nesta série de ensaios vamos examinar a resposta a estes cépticos na filosofia divina de 'Abdu'l-Bahá, nascido na Pérsia em 1844 e falecido na Terra Santa em 1921. Para contextualizar intelectualmente estes argumentos, iremos citar outros argumentos, alguns antigos e outros mais modernos. Iremos ainda considerar as provas da existência de Deus nos ensinamentos Bahá’ís e, também, explorar a sua veracidade científica e lógica.

‘Abdu’l-Bahá escreveu:
As pessoas dividem-se em duas categorias: uma que está satisfeita com o conhecimento dos atributos divinos e outra que se esforça por determinar a existência da divindade e conhecer os princípios fundamentais da filosofia divina. (Star of the West, Volume 4, p. 62.)
Esta resposta indica duas tendências: uma satisfeita com a crença num Ser Supremo e outra que exige provas. Os que exigem provas geralmente acreditam num status quo mais moderno, o status quo do consenso científico e da experiência sensorial:
Os materialistas chegam a conclusão de que a vida, por outras palavras, significa composição; que onde quer que encontremos elementos simples numa forma agregada, aí contemplamos o fenómeno da vida orgânica; que toda a composição orgânica é vida orgânica. Assim, se a vida significa composição de elementos, então o materialista pode chegar à conclusão da não-necessidade de um criador, pois a composição é tudo o que existe e que é conseguida com adesão ou coesão. ('Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 423)
As provas da existência de Deus dirigem-se a três audiências específicas: os que se esforçam por “determinar a existência da divindade e conhecer os princípios fundamentais da filosofia divina”; os que já estão convencidos da existência de Deus e desejam definir esta existência em bases filosóficas firmes e duradouras; e aqueles que rejeitam a existência de Deus, a menos que sejam convencidos do contrário.

Nos ensinamentos Bahá’ís, encontramos estes três tipos de provas de existência de Deus - provas “racionais” (lógicas, científicas); “provas escritas na Bíblia e no Alcorão”; e “provas espirituais”. (…)

Nestes ensaios não vamos abordar as provas escritas da existência de Deus, porque estas já são conhecidas e aceites pelos seguidores das religiões e rejeitadas pelos descrentes, e por esse motivo têm menos significado e efeito.

Apesar de algumas pessoas considerarem o intelecto como uma fonte de verdade absolutamente infalível, no caso das provas da existência de Deus estas parecem estar mais adequadas aos seres humanos contemporâneos. ‘Abdu’l-Bahá afirma: “Estas são provas racionais; nesta era os povos do mundo necessitam dos argumentos da razão”.

No entanto, quem já se sentiu iluminado pela Luz Divina não tem necessidade de provas racionais:
...se a visão interior estiver aberta, podem-se ver centenas de milhar de provas claras. Assim, quando um homem sente o espírito interior, ele não tem necessidade de argumentos para a sua existência; mas para aqueles que estão privados da graça do espírito, é necessário expor argumentos externos. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, p. 7)
Os Bahá’ís acreditam que Deus existe – mas também acreditam na razão, na lógica e no poder da mente humana para descobrir as realidades da vida:
Dá graças a Deus por Ele te ter concedido o poder através do qual consegues compreender estes mistérios divinos. Reflecte profundamente, pondera cuidadosamente, pensa minuciosamente e então as portas do conhecimento abrir-se-ão para ti. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 4, p. 64)
... a mente prova a existência de uma Realidade invisível que envolve todas as coisas, que existe e se revela em todas as fases, cuja essência está para lá da compreensão da mente. As emanações misericordiosas dessa Essência Divina, porém, são concedidas a todos os seres e incumbe ao homem ponderar no seu coração sobre as efusões da Graça Divina, a alma (do homem) é contada como um (sinal desta), em vez de (ponderar) sobre a própria Essência Divina. Este é o limite extremo da compreensão humana. (‘Abdu’l-Bahá, Tablet to Auguste Forel)
Nesta série de ensaios vamos focar-nos na razão, na lógica e no poder da mente humana para desvelar as verdadeiras realidades do Criador.

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Texto original: How Can We Possibly Prove that God Exists? (www.bahaiteachings.org)

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Peter Terry é um académico independente, músico e professor. É autor dos livros A Prophet in Modern Times (uma biografia do Bab), In His Own Words (uma biografia de Baha'u'llah), Proofs of the Prophets (uma compilação e comentário sobre as 40 provas da condição de Profeta), Proofs of the Prophets: Lord Krishna e Proofs of the Prophets: Baha'u'llah.

sábado, 24 de novembro de 2018

Porquê celebrar o Dia da Aliança?


aliança: nome feminino. 1) acto ou efeito de aliar; união. 2) laço entre pessoas ou entidades que se prometem mútuo auxílio; pacto; acordo. 3) anel de casamento ou de noivado. 4) casamento
(Dicionário Porto-Editora)
Todos os anos, no final de Novembro, os Bahá’ís celebram o Dia da Aliança.

Este feriado Bahá'í assinala a nomeação de 'Abdu'l-Bahá como Centro da Aliança de Bahá’u’lláh, a linha de orientação inquebrável e unificadora que protege a Fé Bahá'í de divisões e desunião.

Assim, no Dia da Aliança. os Bahá’ís celebram a unidade da sua religião - e a unidade fundamental de todas as religiões. Também reconhecem, neste dia especial, a aliança mais ampla entre Deus e a humanidade, que se expressa através de um propósito único, princípios comuns e ligações proféticas que associam as religiões entre si. Esta aliança eterna entre Deus e a humanidade apela a cada ser humano que aceite todos os fundadores das grandes religiões mundiais, reconhecendo o conceito que a Fé Bahá’í descreve como revelação progressiva.

Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que Deus revela a verdade religiosa e mística através de uma sucessão de profetas e mensageiros ao longo da história. Os Bahá’ís consideram os fundadores das grandes religiões mundiais como professores que iniciam diferentes fases num sistema de educação espiritual continua para toda a humanidade.

A história diz-nos que cada um desses mensageiros de Deus prometeu aos seus seguidores que regressaria para conduzir novamente a humanidade para Deus. Esta Aliança grandiosa e eterna - que apela a cada crente que reconheça e aceite o próximo profeta de Deus - constitui a base de um sistema de educação divina chamado revelação progressiva.

Os Bahá’ís consideram a religião como uma corrente constante, orgânica e inquebrável de Mensageiros de Deus, que ensinam os mesmos princípios fundamentais. Esta grande Aliança – em que Deus promete nunca deixar a Sua criação privada de orientação – tem-se mantido ao longo dos tempos e das civilizações:
Abraão – que a paz esteja com Ele – fez uma aliança sobre Moisés e deu as boas-novas da Sua vinda. Moisés fez uma aliança sobre o Cristo prometido e anunciou as boas-novas do Seu advento ao mundo. Cristo fez uma aliança sobre o Paracleto e deu as boas-novas da Sua vinda. O Profeta Maomé fez uma aliança sobre o Báb, e o Báb foi o Prometido por Maomé, pois Maomé deu as boas-novas da Sua vinda. O Báb fez uma Aliança sobre a Abençoada Beleza, Bahá’u’lláh, e deu as boas-novas da Sua vinda, pois a Abençoada Beleza era o Prometido do Báb. Bahá’u’lláh fez uma aliança sobre um Prometido que Se manifestará após mil, ou milhares, de anos. ('Abdu'l-Bahá, Baha'i World Faith, p. 358)
A Aliança de Bahá’u’lláh continua este processo ininterrupto de amor e orientação divina, não apenas prometendo que uma nova fé surgirá no futuro, mas também ao nomear ‘Abdu’l-Bahá para liderar a Fé Bahá’í. Esta nomeação – única na história da religião – proporciona o princípio de preservação dos ensinamentos Bahá’ís; por outro lado, permite a administração do crescimento da comunidade Bahá’í em todo o mundo; e é, também, uma resposta às questões de sucessão e liderança que perturbaram muitas religiões do passado.

Graças a esta Aliança, a Fé Bahá’í sobreviveu durante mais de um século e meio sem cismas, e não se dividiu em seitas ou denominações; a sua unidade foi conseguida e esteve firmemente protegida. Este facto – único na história da religião – significa que os Bahá’ís em todo o mundo, de todas as raças, culturas, classes, origens religiosas e nacionalidades, acreditam e seguem uma única religião unida.

A nomeação de ’Abdu’l-Bahá como centro da Aliança de Bahá’u’lláh investiu-O com autoridade para ser o único intérprete das Escrituras Bahá’ís, e designou-O como Aquele que prosseguiria o objectivo de Bahá’u’lláh ao estabelecer uma ordem administrativa Bahá’í. A nomeação de ‘Abdu’l-Bahá como Centro da Aliança também reconheceu que na Sua vida pessoal, nas Suas palavras e actos, Ele exemplificava as qualidades e ideais de um verdadeiro Bahá’í. Esta combinação única de funções numa única pessoa criou uma situação sem precedentes em toda a história da religião – o Centro da Aliança – e fez de ‘Abdu’l-Bahá uma pessoa única, reverenciada e amada, reconhecida em todo o mundo pela Sua humildade, pelo Seu conhecimento, pelo Seu serviço à humanidade e defesa da paz e unidade globais:
Quanto à mais grandiosa característica da revelação de Bahá’u’lláh, há um ensinamento que não foi apresentado por qualquer dos Profetas do passado: a nomeação e designação do Centro da Aliança. Com este tipo de nomeação e cláusula, Ele salvaguardou e protegeu a religião de Deus contra diferenças e cismas, tornando impossível que qualquer pessoa criasse uma seita ou facção de crença. Para garantir a unidade e concórdia, Ele estabeleceu uma Aliança com todos os povos do mundo, incluindo o intérprete e expositor dos Seus ensinamentos, de modo a que ninguém pudesse interpretar ou explicar a religião de Deus segundo a sua própria visão ou opinião, criando assim uma seita baseada no seu próprio entendimento individual das palavras Divinas. ('Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 455-456)
Os ensinamentos Bahá’ís dizem que todas as pessoas na Terra despertarão gradualmente para a visão profética de Bahá’u’lláh de um planeta como um lar comum e a humanidade como uma família. A Aliança de Bahá’u’lláh, com a sua ênfase na unidade e unicidade, ajuda-nos a sarar as diferenças e divisões do passado, e simultaneamente estabelece uma relação entre nós e o nosso Criador.

Os Bahá’ís acreditam que esta Aliança ajudará a construir uma sociedade global unificada. Por tudo isto, convidamos o leitor a celebrar o poder curador da unidade.

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Texto original: What’s the Day of the Covenant, and Why Do Baha’is Celebrate it? (www.bahaiteachings.org)

sábado, 20 de outubro de 2018

O que Podemos Fazer pelos Refugiados no Mundo?




Cuidar dos refugiados do mundo e dos sem-abrigo é uma tarefa difícil, porque as necessidades normalmente superam largamente os meios disponíveis.

Numerosas organizações governamentais e humanitárias fazem o possível para ajudar esses refugiados, fornecendo terrenos, abrigos temporários, comida, bebida, roupas, escolas e muito mais; com isso, os cada vez maiores campos de refugiados no mundo podem responder temporariamente às necessidades de milhões de pessoas deslocadas.

Recentemente, o ACNUR - a Agência das Nações Unidas para os Refugiados - informou que o número de pessoas deslocadas no mundo aumentou para 65,6 milhões - mais do que toda a população do Reino Unido. Esse número surpreendente (inclui um aumento de 300.000 em relação ao ano anterior) é o maior número de refugiados alguma vez registado.

O que pode uma pessoa fazer em relação a esta crise global? Temos a responsabilidade de agir ou devemos deixar essa tarefa para organizações e governos?

Do ponto de vista de Bahá’í, ajudar os refugiados sem lar é um assunto para todos. Bahá’u’lláh - Ele próprio um refugiado e exilado - escreveu:

Ó ricos da terra! Não fujais da face do pobre que jaz no pó; pelo contrário, sede amigos dele e permiti-lhe que conte a história dos males com que o inescrutável decreto de Deus o afligiu. Pela rectidão de Deus! Enquanto estiveres com ele, a Assembleia no alto estará a olhar por vós, a interceder por vós, a louvar os vossos nomes e a glorificar a vossa acção. (Gleanings fromthe Writings of Baha’u’llah, sec. CXLV)

‘Abdu’l-Bahá, que também foi refugiado e prisioneiro juntamente com o Seu Pai, afirmou:

Que todos vós possais estar unidos, que possais concordar, que possais servir a solidariedade da espécie humana.  Que possais ser os bem-intencionados para toda a humanidade. Que possais ser os auxiliadores de todo o pobre, que possais ser os enfermeiros do doente. Que possais ser fontes de conforto dos que têm o coração despedaçado. Que possais ser um refúgio para o vagabundo. Que possais ser uma fonte de coragem para o assustado. Assim, com o favor e assistência de Deus poderá erguer-se o estandarte da felicidade humana no centro do mundo e a insígnia da concórdia universal será desfraldada. (The Promulgation of Universal Peace, p. 425)

Como exemplo do quão terrível se tornou a actual crise de refugiados no mundo, vejamos o pequeno Líbano. Com 10.000 km2, é um dos países mais pequenos do mundo em termos de superfície terrestre. Durante a década de 1960, o Líbano era conhecido como "a Suíça do Oriente" e Beirute, a sua capital, "a Paris do Médio-Oriente ".

Como sabemos, o Líbano tem como vizinhos a Síria (a norte e a leste) e Israel (a sul). O Líbano tem sido atormentado por violência sectária e guerra civil; em 1990, a guerra civil terminou e havia quase um milhão de libaneses deslocados. Algumas partes do Líbano ficaram em ruínas, e a Síria foi uma potência ocupante até 2005. Seguiram-se uma série de assassinatos de líderes libaneses, facto que dificultou a formação de um governo estável. Depois, em 2012, a guerra civil na Síria ameaçou transbordar para o Líbano e, em 2013, mais de 677.000 refugiados sírios atravessaram a fronteira libanesa, procurando a segurança relativa do país. Hoje o Líbano tem mais de 1 milhão de refugiados sírios, aproximadamente um sétimo da população do país.

Mas o Líbano não é o único país com pessoas deslocadas e sem-abrigo. Como podemos nós, indivíduos, lidar com essas questões urgentes e prestar ajuda aos deslocados, aos sem-abrigo e aos refugiados? Quem pode servir como exemplo na ajuda a essas multidões indefesas?

Em 1932, Shoghi Effendi escreveu sobre uma Bahá’í que fez exatamente isso:

O rebentar da Grande Guerra deu-lhe mais uma oportunidade para revelar o verdadeiro valor do seu caráter e libertar as energias latentes no seu coração. A residência de 'Abdu'l-Bahá em Haifa estava rodeada, durante todo aquele conflito sombrio, por um grupo de homens, mulheres e crianças famintas, que a má administração, a crueldade e a negligência dos funcionários do governo otomano tinham levado a procurar ajuda para as suas aflições. Das suas mãos [de Bahiyyih Khanum, irmã de Abdu'l-Bahá], e da abundância do seu coração, essas vítimas infelizes de uma tirania abjecta recebiam, dia após dia, provas inesquecíveis de um amor que aprenderam a invejar e a admirar. As suas palavras de alegria e conforto, a comida, o dinheiro, as roupas que ela distribuía livremente, os medicamentos que, por um processo próprio, ela mesma preparava e ministrava diligentemente - tudo isso teve a sua parte no confortar do inconsolável, no recuperar da visão do cego, no abrigar do órfão, no curar do doente e auxiliar o desalojado e o vagabundo. (Baha’i Administration,, p. 193)

A Grande Guerra foi a Primeira Guerra Mundial; o cenário era a Palestina; a Folha Mais Sagrada era o título da Bahiyyih Khanum, a irmã mais velha de Abdu'l-Bahá.

Durante a Primeira Guerra Mundial, quando a Palestina esteve isolada do mundo e ameaçada pela fome, Bahiyyih Khanum e ‘Abdu’l-Bahá tornaram-se exemplos brilhantes de cuidado pelos pobres e necessitados, pelos destituídos, pelos desafortunados e pelos refugiados – o tipo de exemplo que começa no coração dos indivíduos, e inspira grupos e nações que hoje fornecem ajuda:

Nem as autoridades britânicas foram lentas em expressar a sua gratidão sobre o papel que ‘Abdu’l-Bahá desempenhou no aliviar do fardo dos sofrimentos que oprimiam os habitantes da Terra Santa durante os dias tenebrosos daquele conflito angustiante. (Shoghi Effendi, God Passes By, p. 306)

O governo britânico atribuiu o título de Cavaleiro a ‘Abdu’l-Bahá devido ao seu trabalho que evitou a fome entre o povo da Palestina durante a guerra.

Apenas o envolvimento pessoal, o amor e a unidade – unidade de pensamento, de vontade e de acção – pode dar início a soluções permanentes. Essa unidade, essa fraternidade global, esse amor, podem nascer das soluções espirituais e práticas proclamadas por Bahá’u’lláh.

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Texto original: What Can One Person Do about the World’s Refugees? (bahaiteachings.org)


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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sábado, 15 de setembro de 2018

3 Equívocos comuns sobre a Fé Bahá’í

Por Kathy Roman.


Desde que conheci a Fé Bahá’í quando tinha 14 anos - e agora sou bastante mais velha - ouvi as mais diversas falsidades - definições, afirmações e acusações - sobre minha religião.

Nestes dois artigos, vamos abordar directamente algumas das inverdades mais óbvias: a Fé Bahá’í é uma seita ou um ramo do Islão; existe clero Bahá’í; quem nasce numa família Bahá’í é Bahá’í; os Bahá’ís não acreditam em Cristo; e os Bahá’ís querem o seu dinheiro. Nenhuma destas possui uma nesga de verdade – de facto, são todas completamente falsas.

Afirmação falsa nº 1: "A Fé Bahá’í é um ramo do Islão"

Na verdade, a Fé Bahá’í é uma religião distinta, reconhecida como tal pela vasta maioria das nações e intelectuais do mundo. Embora o profeta e fundador da Fé, Bahá’u’lláh, tenha nascido numa família muçulmana, Ele fundou uma religião completamente independente. A sua ligação ao Islão é a mesma que liga Cristo ao Judaísmo. Tendo nascido judeu, Jesus cumpriu a profecia judaica e fundou o Cristianismo. Embora o Cristianismo contenha as mesmas verdades básicas que a fé judaica, elas são duas religiões distintas. Bahá’u’lláh veio para unir as religiões:
Cristo foi o profeta dos Cristãos, Moisés dos Judeus - porque é que os seguidores de cada profeta não devem também reconhecer e honrar os outros profetas? Se os homens pudessem apenas aprender a lição da tolerância mútua, da compreensão e do amor fraterno, a unidade do mundo seria rapidamente um facto estabelecido. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pags. 48-49)

Uma vez que a realidade essencial das religiões é apenas uma e a sua aparente diferença e multiplicidade encontra-se na adesão a modelos e imitações que foram surgindo, então é evidente que essas causas de diferença e desacordo devem ser abandonadas para que a realidade subjacente possa unir a humanidade, esclarecendo-a e edificando-a. Todos os que se agarram à realidade única estarão em concordância e unidade. Assim, as religiões devem convocar as pessoas para a unicidade do mundo da humanidade e para a justiça universal; desta forma, proclamarão a igualdade de direitos e exortarão os homens à virtude e à fé na misericórdia amorosa de Deus. A base subjacente das religiões é uma; não existe diferença intrínseca entre elas. Portanto, se os mandamentos essenciais e fundamentais das religiões forem cumpridos, a paz e a união manifestar-se-ão, e todas as diferenças de seitas e denominações desaparecerão. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pag. 99)
Afirmação falsa nº 2: “A Fé Bahá’í tem um clero tal como as outras religiões”

Os Bahá’ís acreditam que intermediários, tais como pastores, sacerdotes, mulás ou rabinos, já não são necessários para aprender sobre Deus e comunicar com Ele. E visto que os ensinamentos da Fé Bahá'í afirmam que toda a humanidade é igual sem excepção, os Bahá’ís acreditam que atingimos um estado de maturidade colectiva da humanidade e que qualquer pessoa pode procurar e investigar a verdade, de forma independente. Cada um de nós tem uma relação individual com Deus que é sagrada e pessoal - chegámos a uma fase de maturidade humana que já não requer as antigas formas de fé:
Este é também o ciclo de maturidade e reforma na religião. As imitações dogmáticas de crenças ancestrais estão desaparecer. Elas foram o eixo em torno do qual a religião rodava, mas agora já não são frutíferas; pelo contrário, neste dia elas tornaram-se a causa da degradação e bloqueio humano. Fanatismo e adesão dogmática às crenças antigas tornaram-se a fonte principal de animosidade entre os homens, o obstáculo ao progresso humano, a causa da guerra e da luta, o destruidor da paz, da serenidade e do bem-estar no mundo. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pag. 439)
Assim, apesar da Fé Bahá’í não ter qualquer clero, existe uma administração Bahá’í que é eleita. Todos os anos, os Bahá’ís elegem democraticamente uma Assembleia Espiritual Local de nove pessoas em cada cidade – uma eleição realizada sem propaganda ou politiquices. Estas Assembleias Espirituais focam-se nas necessidades espirituais da comunidade.

Afirmação falsa nº3: "Uma pessoa nasce Bahá’í"

Embora muitos filhos de famílias Bahá’ís acabem por tomar a decisão pessoal de aceitar a Fé, esse processo não é automático. Ao contrário de outras religiões, as crianças de famílias Bahá’ís são encorajadas a estudar todas as tradições espirituais e, depois dos 15 anos, podem fazer - por si próprias - uma opção consciente e informada. Uma vez que a Fé Bahá’í valida os ensinamentos espirituais de muitas tradições do passado, e reconhece e honra todas as grandes religiões do mundo, isto raramente é um problema. Um dos princípios essenciais da Fé Bahá'í - a investigação independente da verdade - garante que ninguém se torna ou permanece um Bahá’í contra a sua própria vontade:
...Deus criou no homem o poder da razão, com o qual o homem é capaz de investigar a realidade. Deus não desejou que o homem imitasse cegamente os seus pais e antepassados. Ele dotou-o com a mente - ou a faculdade do raciocínio - com cujo exercício ele deve investigar e descobrir a verdade, e ele deve aceitar aquilo que descobre ser real e verdadeiro. Ele não deve ser um imitador ou um seguidor cego de qualquer alma. Ele não deve confiar implicitamente na opinião de qualquer homem, sem investigar; pelo contrário, cada alma deve procurar de forma inteligente e independente, e chegar a uma conclusão real e limitada apenas por essa realidade. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pag. 291)
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Texto original: 3 Common Misconceptions about the Baha’i Faith (www.bahaiteachings.org)

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Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

domingo, 8 de julho de 2018

Recordando o Martírio do Báb

Pelos editores do site Bahaiteachings.org.


Porque é que a humanidade persegue os profetas? Ciclicamente, temos perseguido e maltratado terrivelmente os novos mensageiros de Deus, respondendo às Suas mensagens de paz com a nossa raiva e violência.

Por alguma razão estranha, os nossos governantes têm reagido mal aos fundadores das grandes religiões do mundo, perseguindo-os de formas horríveis. Abraão e Moisés enfrentaram a prisão, o exílio, o ridículo e a perseguição. Krishna e Buda sofreram o escárnio e censura oficial. Os líderes da sociedade crucificaram Cristo; fizeram guerra contra Maomé; torturaram, exilaram e encarceraram Bahá'u'lláh; e executaram o Báb.

O Báb fundou a religião precursora da Fé Bahá’í - Ele foi o Arauto de um novo sistema de crença e era, Ele próprio, um profeta de Deus. Ele deu início uma nova religião progressista numa das sociedades mais corruptas e atrasadas do mundo. Como consequência, sofreu tremendamente; mas depois de ter sido executado, a Fé Bábi abriu o caminho para o surgimento global da Fé Bahá’í, tal como João Batista tinha feito para a nova Fé de Jesus no início da era cristã.

A história do Báb começou há menos de dois séculos. O Báb (que em árabe significa “porta”) começou a sua nova Fé em 1844. Emergindo do misticismo profético Sufi - prevalente na Pérsia do século XIX - a mensagem do Bab que anunciava o futuro aparecimento de uma grande revelação mundial, incendiou a cultura muçulmana xiita muito agarrada à tradição.

No início, poucas pessoas conheciam o Báb e a Sua mensagem; mas depois, dezenas de milhares de pessoas começaram a tornar-se Bábis, rompendo radicalmente com as tradições e práticas islâmicas da sociedade. A própria existência da Fé Bábi questionava a autoridade dos líderes religiosos islâmicos da Pérsia. Na verdade, o rápido crescimento da Fé Bábi era um desafio para os alicerces fundamentais da sociedade persa.

Como se pode imaginar, os clérigos e governantes da Pérsia não foram receptivos, nem simpáticos, para com este novo desenvolvimento religioso.

Apenas seis anos após o anúncio da nova Fé pelo Báb em 1844, o governo ordenou a execução deste mensageiro intensamente carismático, que tinha então apenas trinta anos de idade. O governo persa e o clero islâmico torturam e mataram mais de 20.000 seguidores fervorosos do Báb durante a curta, mas intensa, vida do movimento Bábi.

Tudo isto aconteceu quando as pessoas começaram a aderir aos novos ensinamentos espirituais do Báb. Porque o Bab apelou a mudanças revolucionárias nos sistemas prevalecentes de governação e de crença religiosa, e porque Ele proclamava a unidade de todas as religiões, as autoridades temeram que este novo desafio e o seu apoio crescente os tirassem rapidamente do poder.

Santuário do Báb, no Monte Carmelo
Independentemente de toda a perseguição contra os Bábis, cada vez mais pessoas continuaram a tornar-se seguidores do Báb. Em 1850, com medo da sua crescente influência, e desesperados para esmagar o movimento Bábi, as autoridades tomaram a decisão de executar o Báb. Quando o acusaram de apostasia - exactamente a mesma acusação que os fariseus levantaram contra Jesus - o Báb recusou arrepender-Se ou a refutar os Seus ensinamentos, e aceitou calmamente as consequências.

Em 9 de Julho de 1850, surgiu a ordem para que o Báb fosse executado por um pelotão de fuzilamento na praça da cidade de Tabriz, na Pérsia. Um jovem chamado Anis, um dos jovens seguidores do Báb, insistiu em acompanhá-Lo na morte e as autoridades consentiram esse pedido. Uma multidão de dez mil pessoas observava enchendo a praça e os telhados do quartel e das casas próximas em torno da praça.

Mas surgiu uma séria complicação - no início da manhã, Sam Khan, o comandante do regimento de soldados arménios encarregados de executar o Báb, pediu perdão antecipadamente. "Eu professo a fé cristã", disse o oficial ao Báb na sua cela, "e não vos desejo mal. Se a Vossa Causa é a Causa da Verdade, fazei com que me liberte da obrigação de derramar o vosso sangue."

O Báb disse gentilmente ao comandante: "Obedece às tuas ordens, e se tua intenção for sincera, o Todo-Poderoso certamente será capaz de te aliviar de tua perplexidade".

Ao meio-dia, quando Sam Khan deu a ordem para disparar, os mosquetes soaram. A multidão ficou surpresa, quando o fumo dos mosquetes se dissipou, porque o Báb tinha desaparecido. O seu devoto seguidor ficou completamente ileso junto à parede, as cordas que o prendiam ao Bab estavam desfeitas em pedaços. Com o espanto, a multidão gritava que tinha testemunhado um milagre. Sam Khan, agora aliviado da sua perplexidade, ordenou imediatamente ao seu regimento que saísse do local, jurando que nunca mais iria obedecer a tal ordem, mesmo que isso lhe custasse a própria vida.

Depois das tropas de Khan terem abandonado a praça, o coronel da guarda oficial de Tabriz ofereceu-se para chefiar a execução. Quando os guardas encontraram o Báb na sua cela terminando tranquilamente uma conversa, amarraram-No novamente com cordas, juntamente com o seu jovem seguidor.

Enquanto o novo regimento se preparava para dispara, o Báb dirigiu as Suas últimas palavras à multidão:
"Se tivésseis acreditado em Mim, ó geração perversa, cada um de vós teria seguido o exemplo deste jovem que, em grau, é superior à maioria de vós, e de bom grado se teria sacrificado no Meu caminho. Virá o dia em que Me tereis reconhecido; nesse dia, Eu terei deixado de estar convosco." (citado por Shoghi Effendi, God Passes By, p. 53)
Depois, o segundo pelotão de fuzilamento apontou e disparou. Desta vez, a execução terminou conforme esperado.

Hoje, os corpos juntos e desfigurados do Báb e do seu fiel seguidor repousam sob uma cúpula dourada no Monte. Carmelo, em Haifa, na Terra Santa. Milhões de pessoas de todo o mundo visitam esse lugar sagrado, e todos os dias o Santuário do Báb proclama ao mundo a mensagem de unidade, paz, amor e abnegação Bahá’í.

Em todo o mundo, os Bahá’ís assinalam o Martírio do Báb ao meio-dia de 9 de Julho, acreditando que o Báb iniciou um novo ciclo de revelação progressiva para a humanidade. Os seus novos ensinamentos abriram o caminho para a nova mensagem de Bahá’u’lláh, e o Seu derradeiro sacrifício deu-nos uma nova visão de um mundo unificado.

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Texto original: Remembering the Martyrdom of the Bab (www.bahaiteachings.org)

sábado, 2 de junho de 2018

Quem acredita na intuição feminina?



Alguma vez sentiu um rasgo intuitivo de inspiração e depois perguntou a si próprio: “De onde é que aquilo veio?”

Gerd Gigerenzer, um director do Instituto Max Plank para o Desenvolvimento Humano, afirmou que as pessoas inteligentes ouvem os seus próprios sentimentos. As pessoas mais inteligentes entre nós - aquelas que conseguem dar grandes passos no progresso intelectual - não o conseguem deixar de usar o poder da intuição.

Tanto quanto sabemos hoje, todos os processos no nosso cérebro iniciam-se com axiões e ligações sinápticas. Os neurocientistas acreditam que interacções eléctricas e químicas geram cada uma das letras e palavras em que pensamos, em qualquer língua em que pensemos. Mas juntamente com estes processos físicos que fazem estas ligações, o nosso pensamento inicia-se com duas capacidades humanas fundamentais: imaginação e memória.

A intuição, ou a capacidade para intuir uma coisa - o que significa a suposição de uma verdade ou realidade baseada em pensamentos racionais e emocionais - é uma função tanto da imaginação como da memória. Todos a temos, apesar de algumas pessoas terem faculdades intuitivas altamente desenvolvidas.

Quando dizemos coisas como “Eu sabia que aquele condutor ia virar à esquerda” ou “Penso que a tia Maria vai aparecer sem avisar na festa de aniversário da minha mãe” e isso acontece, vemos a intuição a funcionar.

A intuição é, simultaneamente, uma forma de conhecimento e não-conhecimento Pressupõe ou assume um resultado, que por vezes está certo e outras vezes está errado. Mas existem estudos que mostram que a intuição das mulheres é mais forte que a dos homens.

Albert Einstein afirmou: “A mente intuitiva é uma dádiva sagrada e a mente racional é um servo fiel. Criámos uma sociedade que valoriza o servo e esquece a dádiva.

Sabemos que as crianças têm mais intuição do que os adultos e tendem a perdê-la à medida que vão crescendo. A intuição parece funcionar como um tipo de sensibilidade para a realidade e para aquilo que o futuro nos reserva; a maioria dos adultos desvaloriza o poder da intuição à medida que envelhece, focando-se apenas naquilo que está à nossa frente (em vez daquilo que está ao nosso redor).

Então, porque é que as mulheres, geralmente, têm maior sensibilidade para os seus dotes intuitivos do que os homens? Os ensinamentos Bahá’ís indicam que a intuição está relacionada com as qualidades espirituais da alma de uma pessoa:

De uma forma geral, hoje as mulheres têm um maior sentido de religiosidade do que os homens. A intuição da mulher é mais correcta; ela é mais receptiva e a sua inteligência é mais rápida. Aproxima-se o dia em que ela afirmará a sua superioridade em relação ao homem.
Em toda a parte, a mulher é elogiada pela sua fidelidade. Depois do Cristo Senhor ter sofrido, os discípulos choraram e cederam à dor. Pensavam que as suas esperanças estavam desfeitas e que a Causa estava completamente perdida, até que Maria Madalena veio ter com eles e os fortaleceu dizendo: “Vocês choram o corpo do Nosso Senhor ou o Seu Espírito? Se choram o Seu Espírito, então estão enganados, porque Jesus está vivo!” E assim, através da sua sabedoria e encorajamento, a Causa de Cristo recebeu apoio durante todos os dias que se seguiram. A sua intuição permitiu-lhe compreender um facto espiritual. (‘Abdu’l-Bahá, Abdu’l-Bahá in London, pp. 104-105)

No passado, o mundo foi governado pela força e o homem dominou a mulher devido às suas qualidades violentas e agressivas, tanto no corpo como na mente. Mas o equilíbrio já está a mudar; a força está a perder o seu domínio e a vigilância mental, a intuição, e as qualidades espirituais do amor e do serviço, em que a mulher é forte, estão a ganhar ascendente. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 2, p. 4)

É claro que os pressentimentos condicionam as nossas decisões e acções, de uma forma ou de outra; quando há um incêndio, podemos ajudar ou fugir; quando um bebé chora, podemos pegar nele ou deixá-lo chorar até que ele se canse. Os “pressentimentos” como alguém os designou, podem ser a própria intuição a falar para os nossos corações e mentes.

A intuição também funciona quando, por exemplo, alguém fala connosco. Percebemos o tom, a vivacidade, a intensidade e o colorido da linguagem, as mãos, os olhos e as expressões faciais da pessoa que fala e muito mais; com tudo isso as suas palavras podem tocar-nos ou não. É como se tivéssemos um detector de mentiras dentro de nós, um polígrafo ligado para avaliar física, mental, espiritual e emocionalmente a verdade das palavras que nos dizem.

Assim, sabemos que a intuição é uma dádiva e um talento que o Criador nos deu, tal como outros poderes internos e externos, a nossa imaginação e memória, o nosso conhecimento e raciocínio. Todos nós, cada ser humano, necessitamos das dádivas espirituais que surgem com o reconhecimento das forças divinas - aquilo que os ensinamentos Bahá’ís chamam “sopros intuitivos do Espírito Santo”

… o mundo da humanidade está necessitado das confirmações do Espírito Santo. A verdadeira distinção entre a humanidade faz-se através de favores divinos e recebendo as intuições do Espírito Santo. Se o homem não se torna receptor dos favores divinos e das dádivas espirituais, ele fica no plano e no reino animal. Pois a distinção entre o animal e o homem é que o homem está dotado com o potencial da divindade na sua natureza, enquanto que o animal está completamente desprovido dessa dádiva e realização. Por isso, se um homem estiver privado dos sopros intuitivos do Espírito Santo, privado dos favores divinos, sem contacto com o mundo celestial e indiferente às verdades eternas, apesar de ser um homem em imagem e semelhança, na realidade é um animal. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation ofUniversal Peace, pp. 316-317)

Gostaria de despertar, desenvolver e alargar as suas capacidades e sensibilidades intuitivas? ‘Abdu’l-Bahá desejava que todos nós fizéssemos “grandes progressos” na compreensão intuitiva:

Existem dois tipos de compreensão: objectivo e subjectivo. Para ilustrar: vês este copo, ou esta água, e compreendes de forma objectiva as suas partes constituintes. Por outro lado, não podes ver o amor, o intelecto, o ódio, a raiva, o sofrimento, mas reconhece-os de forma subjectiva através dos seus sinais e manifestações. O primeiro é material, o segundo é espiritual. A primeira é visível; a segunda é intuitiva. Espero que possas fazer o maior progresso no segundo tipo de compreensão. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 4, p. 179)

Se desejam desenvolver a vossa percepção intuitiva - e a sabedoria que daí resulta - foquem-se no lado espiritual das vossas vidas; descobrirão que a vossa intuição vos ajudará ao longo desta vida e da próxima.

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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.