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sábado, 10 de fevereiro de 2018

A Fé Bahá’í é uma “Religião”?



Talvez você seja como eu. Talvez tenha havido momentos em que lhe perguntaram o que é a Fé Bahá’í e no momento em que os seus lábios proferem a palavra "religião", o seu interlocutor fica apreensivo. Talvez lhe respondam que a religião é o opio do povo, que é uma ficção desactualizada que não responde às necessidades de hoje, que é a causa de desnecessário derramamento de sangue e guerra, que a religião gera intolerância em relação às pessoas de outras religiões ou que a fé em algo maior que nós não deve ser organizada e administrada. A propósito do Dia Mundial da Religião, pensei em explorar o que significa a palavra "religião" no contexto das Escrituras Bahá’ís.

Aqui estão algumas palavras de ‘Abdu’l-Bahá que descrevem o que a religião é:

A verdadeira religião baseia-se no amor e na concórdia. Bahá’u’lláh disse: "Se a religião e a fé são as causas da inimizade e sedição, é muito melhor ser não-religioso, e a ausência de religião seria preferível; pois desejamos que a religião seja a causa da amizade e da comunhão. Se existe inimizade e ódio, a irreligião é preferível ". Portanto, a eliminação desta contenda foi destacada por Bahá’u’lláh, pois a religião é o remédio divino para o antagonismo e a discórdia humanas. Mas quando tornamos o remédio na causa da doença, então seria melhor ficar sem o remédio".[1]

No livro O Segredo da Civilização Divina, 'Abdu'l-Bahá escreve:

O nosso objectivo é mostrar como a verdadeira religião promove a civilização e a honra, a prosperidade e o prestígio, a aprendizagem e o progresso de um povo, outrora abjecto, escravizado e ignorante, e como, quando cai nas mãos de líderes religiosos que são loucos e fanáticos, é desviada para fins errados, até que estes grandes esplendores se tornam a noite mais tenebrosa.[2]

As pessoas que me fazem perguntas sobre a Fé estão correctas e a sua desconfiança em relação à religião é perfeitamente compreensível e justificada. O que eles expressam é apenas uma manifestação subtil de um problema muito maior: uma crise religiosa global. Na pior das hipóteses, esta crise religiosa é demonstrada através de actos de violência atroz cometidos em nome da religião e em nome de Deus. A religião precisa de se "libertar dos grilhões que até agora a impediram de ter uma influência curadora de que é capaz." [3]

A Casa Universal da Justiça, profundamente consciente de que "a doença do ódio sectário, se não for examinada de forma decisiva, ameaça ter efeitos angustiantes que deixarão poucas áreas do mundo imunes"[4] escreveu uma carta aberta aos líderes religiosos do mundo em 2002. Esta carta apelava à coragem por parte dos crentes de todas as fés - coragem para combater o preconceito contra a religião, elevando-a acima de "conceitos rígidos herdados de um passado distante."[5] Penso que pode valer muito a pena compreender profundamente o que aconteceu com a religião, como a religião é vista e como Bahá’u’lláh reformulou o próprio conceito de religião.

O documento Uma Fé Comum foi preparado sob a supervisão da Casa Universal da Justiça em 2005 e é um comentário maravilhoso que aborda esta questão e que pretende catalisar um novo entendimento sobre a fé religiosa. O texto contém excertos das Escrituras e descrições do discurso popular para explicar o mundo em que vivemos e como evoluir.

Aborda, por exemplo, os conhecidos equívocos sobre religião. Explica que, para muitas pessoas, a religião é a multidão de seitas religiosas actualmente existente. Para outros, são os "grandes sistemas independentes de crenças da história", como o Cristianismo e o Islão. Para alguns, a religião é simplesmente uma atitude universalmente disponível e para outros é um estilo de vida cheio de rituais e sacrifícios. "O que todas as diferentes concepções têm em comum", afirma-se, "é a medida em que um fenómeno conhecido por transcender completamente os limites humanos, acabou por ser gradualmente aprisionado em limitações conceptuais - sejam eles organizacionais, teológicas, experimentais ou rituais - de origem humana".[6] Analisa o que aconteceu com a religião ao longo do tempo e como "embora as verdades recebidas das grandes fés permaneçam válidas, a experiência diária de um indivíduo no século XXI está inimaginavelmente afastada daquela que ele ou ela teria conhecido em qualquer uma dessas idades quando essa orientação foi revelada."[7]

O documento explora aquilo que deve ser o nosso entendimento sobre a religião. Afirma:

[...] Bahá’u’lláh não trouxe à existência uma nova religião para ficar junto à actual multiplicidade de organizações sectárias. Em vez disso, Ele reformulou todo o conceito de religião como a principal força impulsionadora do desenvolvimento da consciência. Como a raça humana em toda a sua diversidade é uma espécie única, então a intervenção com que Deus cultiva as qualidades da mente e do coração latente nessa espécie é um processo único. Os seus heróis e santos são os heróis e os santos de todas as etapas dessa luta: os seus sucessos são os sucessos de todas as eras. Este é o modelo demonstrado na vida e no trabalho do Mestre e exemplificado hoje numa Comunidade Bahá'í que se tornou o herdeiro do legado espiritual de toda a humanidade, um legado igualmente disponível para todos os povos da Terra.[8]

A declaração Uma Fé Comum conclui com estas palavras poderosas:

As sucessivas dispensações de um Criador amoroso e intencional levaram os habitantes da Terra ao limiar de sua maturidade colectiva enquanto povo único. Bahá’u’lláh apela à humanidade para estrear a sua herança: "O que o Senhor ordenou como o remédio soberano e o instrumento mais poderoso para a cura do mundo é a união de todos os seus povos numa única Causa universal, uma fé comum". [9]

Ler Uma Fé Comum deu-me um melhor entendimento, um contexto mais claro, sobre os motivos que levam o meu interlocutor a escarnecer da religião. Espero que me tenha tornado uma melhor ouvinte das suas preocupações porque vivemos num século muito mais receptivo do que o último e "uma mudança radical na consciência humana está em movimento". [10]

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REFERÊNCIAS:
[1] - Promulgation of Universal Peace, p.232
[2] - 'Abdu'l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p.80
[3] - The Universal House of Justice, One Common Faith, p.iii
[4] - Idem. p.i
[5] - Idem. p.i
[6] - Idem. p.18-9
[7] - Idem. p.15
[8] - Idem. p.23
[9] - Idem. p.56
[10] - Idem. p.3


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Sobre a autora: Sonjel Vreeland é bibliotecária e museologista e vive na ilha de Prince Edward (costa oriental do Canadá). É escritora, leitora ávida, mãe e esposa.


sábado, 3 de fevereiro de 2018

Budistas, Bahá’ís e o Dogma



O Buda afirmou: "a vida religiosa não depende do dogma". Para os Budistas, o dogma "não tem benefícios, nem tem que ver com os fundamentos da religião, nem tende para a aversão, ausência de paixão, cessação, quietude, faculdades sobrenaturais, sabedoria suprema e nirvana; portanto, não o expliquei". Em resumo, a essência da religião, como os Bahá’ís acreditam, centra-se no refinamento do carácter humano, no nosso alinhamento com a realidade divina (nirvana) e na construção da civilização. Transformá-la em distinções obscuras, não é produtivo.

Mas apesar do Buda não se alongar na teologia, Ele afirma claramente:

“Existe o Não-nascido, o Não-formado, o Não-criado, o Não-composto; se não existisse, ó mendicantes, não haveria saída do mundo do nascido, do formado, do criado e do composto.” (Udana 8:3 in The Spiritual Heritage of India, Swami Prabhavananda, p. 181)

Essa fonte de salvação Não-nascida tem claramente uma semelhança impressionante com Deus, tal como as religiões do mundo Ocidental entendem o Criador. Mas em vez de tentar falar sobre esse Deus numa terra de muitos deuses, a solução elegante do Buda passou apenas por falar sobre a condição humana, o sofrimento e o caminho para a salvação. No entanto, é um erro pensar que o Buda não conhece Deus. Ele tinha um conhecimento especial de Deus, dizendo ao Seu discípulo Vasetta:

Pois eu conheço Brahman, Vasettha, e o mundo de Brahman, e o caminho que conduziu a Ele. Sim, eu conheço-o como alguém que entrou no mundo Brahman e nasceu dele. (Svetasvatara 3: 9 in The Spiritual Heritage of India Swami Prabhavananda, p. 173)

É importante notar que, sempre que, no Ocidente, falamos de Deus, Ele é, como S. Tomás de Aquinas nos recorda na sua obra De Potentia, incognoscível, porque Ele "transcende tudo o que podemos entender dele". Falamos de Deus porque nos sentimos ligados aos Ser de Deus, a fonte derradeira da Realidade, e isso é que os Budistas chamam nirvana.

É verdade que a maioria das formas do Budismo pouco fala de um Deus criador. Mas, na verdade, as histórias sobre a criação ocupam muito pouco das Escrituras Ocidentais. O que realmente preenche as nossas Escrituras são nossas tentativas de descrever a nossa atracção pelo Ser com o qual estamos ligados, as nossas interrogações sobre o mundo e aquilo que é conducente ao progresso (ou retrocesso) pessoal e social. Estes são os mesmos rumos das escrituras Budistas. No seu âmago, as religiões orientais e ocidentais têm o mesmo objectivo e envolvem-se nas mesmas tarefas. O Dalai Lama referiu este assunto:

Para um não-budista, o conceito de nirvana e uma vida seguinte parecem não ter sentido. Da mesma forma, para os Budistas, a noção de um Deus Criador soa, por vezes, sem sentido. Mas estas coisas não são importantes; podemos deixá-las. O que importa é que, através destas diferentes tradições, uma pessoa muito negativa pode-se transformar numa pessoa boa. Esse é o propósito da religião - e esse é o resultado real. (The Four Noble Truths, p. 5)

Dizer que o Budismo é ateu é não compreender o Budismo. O Buda falava frequentemente de Brahman (Deus) com conhecimento íntimo, e, como vimos, Ele condenou aqueles sacerdotes que não agiam de acordo com a natureza de Brahman. Além disso, toda a missão do Budismo é ajudar a aliviar o sofrimento humano, pregando o comportamento moral e o alinhamento com a natureza sagrada da realidade (Deus).

Os Bahá’ís acreditam que esta forma profunda e santa de ver o universo (e nosso lugar nele) coloca o Budismo no panteão das grandes religiões mundiais. Para os Bahá’ís estas verdades eternas, quer sejam transmitidas por Buda ou por Cristo ou Bahá’u’lláh, têm todas a mesma fonte:

Nenhuma verdade pode contradizer outra verdade. A luz é boa em qualquer lâmpada que esteja acesa! Uma rosa é bela em qualquer jardim que possa florescer! Uma estrela tem o mesmo esplendor se brilhar no Oriente ou no Ocidente. Libertai-vos do preconceito para amar o Sol da Verdade em qualquer ponto no horizonte que possa surgir! Compreendereis que, se a luz Divina da verdade brilhou em Jesus Cristo, então também brilhou em Moisés e em Buda. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 137)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 13 de janeiro de 2018

O Budismo e a Fé Bahá'í



Os Bahá'ís acreditam que o Budismo constitui uma parte vital do plano divino, representando um forte vínculo no processo da revelação progressiva ao longo dos tempos. Mas como é que uma religião com escassas referências a Deus pode ser parte do mesmo sistema global que as religiões teístas? Para responder a estas questões, precisamos investigar a história e as escrituras Budistas.

Siddhartha Gautama, o Buda, nasceu por volta de 500 aC, em Kapilavastu, no Nepal. Sobre o início da vida de Buda, um investigador budista escreve:

A tradicional história da vida transmitida e conhecida entre todos os budistas é bastante completa. Podemos estar bastante seguros de que contém informações históricas muito precisas. Temos a certeza que contém elaborações e adições posteriores. O que muitas vezes não sabemos é qual é qual. (L.S. Cousins, A Handbook of Living Religions)

Foto Mosteiro de Nigrodharama

Ruínas do mosteiro de Nigrodharama perto do local de nascimento de Sidartha
e onde Ele esteve durante a sua iluminação
 Algumas das histórias contadas sobre o Buda lembram mitos - mas é sempre mais fácil detectar os mitos de outra religião do que os mitos da nossa própria religião. A grandeza dos mitos, no entanto, revela a grandeza do Buda nos corações dos Seus seguidores. O Buda, sem dúvida, foi um grande ser - o Fundador de uma das grandes religiões mundiais - reverenciado e respeitado em todo o mundo.

Tal como as histórias que se contam sobre o Buda, a autenticidade das escrituras Budistas também tem aspectos problemáticos. Os ensinamentos Budistas apenas foram escritos no século I aC - um período de pelo menos 300 anos desde o tempo em que o próprio Buda viveu. Os textos Budistas mais antigos foram recuperados no Sri Lanka e foram escritos num idioma conhecido como pali - embora a palavra apenas signifique "texto". O Buda não falava pali; falava Magadhi. Pali é uma linguagem sintética, uma amálgama de vários dialectos, incluindo o que o Buda falava. Hoje em dia não é falado, excepto por devotos e estudiosos Budistas, tal como o latim para os estudiosos ocidentais.

Originalmente, os ensinamentos de Buda foram divididos em nove categorias (as seguintes explicações variam): sutra (prosa), geya (prosa e verso), vyakarana (respostas às perguntas), gatha jataka (histórias de nascimentos passados), udana (frases inspiradas) itivrttaka (palavras memoráveis), vedalla (catecismo) e adbhutadharma (qualidades maravilhosas), mas depois da morte do Buda, uma categorização mais simples entrou em vigor e as escrituras foram divididas em nikayas ("volumes" em pali) ou agamas ("colecções de escrituras" em sânscrito).

Escrituras Budistas em sânscrito
O primeiro volume destas colecções de escrituras chama-se vinaya (tanto em pali como em sânscrito) e contém instruções sobre disciplina monástica. O segundo chama-se sutta em pali e sutra em sânscrito. Contêm registros dos discursos ou ensinamentos públicos do Buda (dhamma em pali e dharma em sânscrito). Posteriormente, surgiu um terceiro volume chamado abhidhamma em pali e o abhidharma em sânscrito. Estes discursos sobre dharma reflectiam diferentes entendimentos dos ensinamentos do Buda. É provável que no início tenham sido produzidas muitas versões distintas, mas apenas duas versões completas sobreviveram: uma - da escola Sarvāstivāda - tornou-se dominante no norte da Índia e na Ásia central; e outro - da escola cingalesa - espalhou-se para o sul e seguidamente para o sudeste asiático. Juntos, estes três grandes volumes de escrituras são chamados de Tipitaka em pali (tripatika em Sanskrit), que literalmente significa, "três cestos".

Podemos perceber um pouco da imensidão do problema da autenticidade das escrituras Budistas ao saber que apenas os discursos contêm muitas milhares de páginas, muitas vezes maiores do que a Bíblia, ocupando o espaço equivalente de pelo menos 50 volumes em edições modernas. É inconcebível que uma tão grande quantidade de material possa ter sido transmitida oralmente sem modificação, alteração ou erro durante centenas de anos antes de ser escrito.

Os Bahá’ís acreditam que Buda foi um Manifestante de Deus, como Cristo, mas que os seus seguidores não possuem as suas escrituras originais. Este problema de autenticidade afecta muitas religiões, incluindo o Judaísmo, o Cristianismo e (em menor medida) o Islão. Mas, apesar deste problema e do problema paralelo da corrupção gradual dos ensinamentos autênticos e originais de cada um dos Profetas ao longo do tempo, os principais ensinamentos destas grandes religiões têm uma consistência e congruência notáveis:

O verdadeiro ensinamento de Buda é o mesmo ensinamento de Jesus Cristo. Os ensinamentos de todos os Profetas são os mesmos em carácter. Agora os homens mudaram o ensinamento. Se virem a prática actual da religião Budista, verão resta pouca coisa da Realidade. Há muita adoração de ídolos, embora os seus ensinamentos o proíbam. (Abdu’l-Baha in London, p. 63)

É claro que algumas formas de Budismo não estão focadas em ídolos, mas o Budismo, como todas as religiões, precisa de renovação.

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Krishna, o Hinduísmo, e o Monoteísmo - uma perspectiva Bahá'í

Por Tom-Tai-Seale.


Os ensinamentos Bahá'ís afirmam que todas as grandes religiões monoteístas do mundo são uma só, que todas provêm da mesma Fonte e transmitem à humanidade a mesma mensagem essencial. Os Bahá’ís acreditam que esta unicidade progressiva inclui o Hinduísmo, uma antiga família de religiões originárias do subcontinente indiano.

Os Hindus são frequentemente classificados em diferentes grupos consoante os objectos da sua devoção, as suas práticas e o foco das suas Escrituras, levantando a questão “será o Hinduísmo uma única religião?”. Os ocidentais também têm tido, ao longo do tempo, uma variedade de ideias diferentes sobre Deus e os seus atributos. Quando um Ocidental decide tornar-se jesuíta em vez de franciscano ou um baptista em vez de presbiteriano, ele continua a aceitar outras formas de religião Cristã como expressões legítimas - apesar dessas formas diferentes enfatizarem diferentes aspectos ou métodos no Cristianismo. Os Hindus fazem o mesmo. Eles escolhem uma forma de religião que lhes é confortável, respeitando as restantes como diferentes expressões do Deus universal. Assim, os diferentes ramos do Hinduísmo, enfatizando diferentes aspectos de Deus, estão unidos como uma única família Hindu.

É certo que existem representações de muitos deuses no Hinduísmo, mas será correcto descrever o Hinduísmo moderno como politeísta? Tal como o Deus das religiões semitas, Brahman - o deus Hindu dos Vedas - é descrito como estando muito acima de nós. Os Vedas dizem: "Brahman é Aquele cujas palavras não podem descrever, e de Quem a mente, incapaz de O alcançar, se mostra confusa." E, no entanto, as escrituras Hindus dizem que Ele está no coração de todos, sendo essencialmente semelhante ao Deus monoteísta do Judaísmo, do Cristianismo e do Islão.
Vós sois o fogo, Vós sois o sol, Vós sois o ar, Vós sois a lua, sois o firmamento estrelado, sois o Brahman Supremo: Vós sois as águas - Vós, o criador de todos.
Estas palavras poderiam ter sido escritas por um místico Cristão ou Sufi. No entanto, até mesmo os Upanishads fazem a distinção entre Deus e o Seu universo. Como a continuação do mesmo versículo deixa claro, enquanto Deus cria coisas que mudam, Ele permanece o mesmo. Os versículos afirmam:
Cheias de Brahman estão as coisas que vemos; cheias de Brahman estão as coisas que não vemos; de Brahman flui tudo o que existe; E Brahman porém permanece o mesmo.
Será isso panteísmo? Um sábio hindu escreve:
Não existe, propriamente falando, panteísmo na Índia - mesmo que as aparências possam por vezes sugerir o contrário. O Hindu vê Deus como a energia derradeira na criação e por trás de toda a criação; mas nunca, nem nos tempos antigos, nem nos tempos modernos, Ele é idêntico a ela. (Swami Prabhavananda, The Spiritual Heritage of India, p. 33)

Os dez avatares de Vishnu
Os Bahá'ís acreditam num Ser Supremo e rejeitam o politeísmo e o culto de múltiplos deuses. Os ensinamentos Bahá'ís reconhecem as bases monoteístas do Hinduísmo e os seus mandamentos altamente morais. Também veneramos Krishna - o Avatar Hindu cujo ministério tem mais evidências históricas.
As almas abençoadas - seja Moisés, Jesus, Zoroastro, Krishna, Buda, Confúcio ou Maomé - foram a causa da iluminação do mundo da humanidade. Como podemos negar tais provas irrefutáveis? Como podemos ser cegos para essa luz? (‘Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 346)
A crença num agente divino organizador que procura educar e aperfeiçoar o carácter humano e permitir o crescimento social constitui o fundamento comum a todas as grandes religiões. A ênfase Hindu na oração e na meditação, na busca interior para encontrar o Bem-Amado, o desejo apaixonado de libertação da escravidão do mundo material e a tentativa de viver de acordo com uma ordem universal (dharma) conseguiram criar milhões de pessoas boas e nobres entre os Hindus do mundo.

A bondade e a gentileza dos Hindus, as mentes analíticas brilhantes de muitos dos seus sábios, as suas escrituras de beleza esmagadora são dádivas que a cultura hindu trouxe à família das religiões e das nações. É uma oferta de que não podemos abdicar.

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Texto Original: How Baha’is View Hindus, Krishna and Monotheism (www.bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 30 de dezembro de 2017

A Evolução programou-nos para acreditar em Deus?



Será que a evolução programou os seres humanos para acreditar em Deus?

No debate Intelligence Squared, o físico Lawrence Krauss - que defendia a ideia de que a ciência refuta Deus - afirmou o seguinte:

Os seres humanos foram claramente programados pela evolução para atribuir intencionalidade ao mundo ao seu redor. Significado e o propósito foram infundidos em todos os eventos do dia-a-dia para dar sentido a um mundo perigoso, difícil e indiferente; e assim desenvolvemos rituais a propósito do sol, da lua, dos planetas, do vento, da terra, dos oceanos, em todas as sociedades. O desenvolvimento da nossa compreensão física afastou-nos lentamente desses muitos deuses... A ciência ensinou-nos que em vez de seres caprichosos, há uma ordem na natureza, e essa ordem não parece incluir uma divindade.

Como qualquer pessoa que já trabalhou com computadores sabe, a programação não é feita de forma aleatória - é um acto que exige um objectivo. Krauss e o ponto de vista ateísta que ele representa pedem-nos que acreditemos que um processo sem inteligência racional nem objectivo, de alguma forma, impregna estas qualidades numa criatura entre os milhões que existem e existiram no planeta. Ele apresenta essa ideia em termos passivos ("significado e o propósito foram infundidos"), de modo que parece não haver infusor activo, mas a razão e a lógica determinam que se o propósito fosse infundido, alguém ou alguma coisa deve ter feito a infusão inicial.

O facto dos seres humanos serem as únicas criaturas que atribuem um significado à vida não pode ser explicado apenas afirmando que fomos programados sem um programador, ou que aprendemos a atribuir significados sem que alguém nos tenha ensinado.

‘Abdu’l-Bahá referiu sobre este mesmo assunto durante um encontro com um grupo de pensadores livres em São Francisco, em 1912:

Se se afirma que a realidade intelectual do homem pertence ao mundo da natureza - que é uma parte do todo - perguntamos se é possível que a parte contenha virtudes que o todo não possui? Por exemplo, será possível que a gota contenha virtudes das quais todo o corpo do mar está privado?... Será possível que a extraordinária faculdade da razão no homem tenha carácter e qualidade animal? Por outro lado, é evidente e é verdade, embora muito espantoso, que no homem está presente esta força ou faculdade supranatural que descobre as realidades das coisas e que possui o poder da idealização ou da intelecção. É capaz de descobrir as leis científicas; a ciência que conhecemos não é uma realidade tangível. A ciência existe na mente do homem como uma realidade ideal. A própria mente, a própria razão, é uma realidade ideal e não tangível. (The Promulgation of UniversalPeace, p. 451)

Na verdade, eu gosto da referência de Krauss ao "desenvolvimento da compreensão física ". A distinção é importante, porque leva-nos a questionar uma suposição chave de Krauss: que uma compreensão puramente física do universo é a única compreensão possível ou válida.

O facto de estarmos agora envolvidos numa conversa sobre realidades não-físicas parece debilitar essa suposição. Esta conversa é onde a maioria de nós vive. Gastamos mais tempo considerando coisas intangíveis do que a fazer as nossas necessidades físicas mais críticas, como por exemplo, alimentarmo-nos. Para a maioria das pessoas, estas coisas tornaram-se secundárias que servem para manter, essencialmente, pensamentos sobre coisas não-tangíveis.

Eu passo a maior parte do tempo a contar histórias, a pensar e a escrever sobre coisas não tangíveis. Também muitas outras pessoas, incluindo Lawrence Krauss e o seu parceiro teísta no debate Intelligence Squared, o físico Ian Hutchinson. Ironicamente, todo o conjunto de literatura do Novo Ateísmo, escrito por pessoas como Richard Dawkins, Sam Harris e o inimitável Christopher Hitchens, é sobre coisas intangíveis, do princípio ao fim - e, no entanto, eles negam a existência de qualquer intangível supremo.

Estes novos ateus contam histórias cujo propósito é dizer-nos que não temos nenhum propósito - um enigma sobre o qual gostaria de escrever outro texto. Enquanto isso, medite por um momento sobre este excerto dos ensinamentos Bahá'ís, que indica que nós, humanos, temos um propósito maior e mais profundo do que sabemos:

Se o homem não existisse, o universo não teria resultado, pois o propósito da existência é a revelação das perfeições divinas. (‘Abdu’lBahá, Some Answered Questions, newly revised edition, p. 227)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Feliz Natal - de uma Bahá'í

Por Jaellayna Palmer.


Ter crescido como a única menina Judia numa cidade pequena do Indiana (EUA), proporcionou-me uma experiência de vida como “diferente” na época do Natal.

A minha família nem sequer tinha a chamada árvore de Hanukkah, e havia uma pessoa na família que adorava a música de Natal, especialmente o álbum de Johnny Mathis. Como outras famílias naquela época, víamos os filmes de Natal na TV ou no cinema. Mas isso era entretenimento; não era algo em que "acreditávamos".

Quando as pessoas que não sabiam que eu era judia me perguntavam sobre os meus planos para o Natal, eu ficava nervosa a pensar no que havia de dizer. Se dissesse apenas "Somos judeus", isso geralmente acabava com a conversa. Mas, por vezes, as pessoas ficavam confusas sobre o povo judeu. Lembro-me de uma colega de escola me perguntou se podia tocar nos chifres na minha cabeça, explicando depois que a cabeleireira da sua mãe lhe tinha dito que os judeus têm chifres.

Mais tarde, quando estudava na universidade, no final da década de 1960, decidi que já não queria ser judia. Comecei a investigar o que queria ser - aquilo em que eu realmente acreditava e a que me queria associar. A história sobre como descobri a Fé Bahá’í (ou como ela me descobriu) é o tema para outro ensaio, talvez noutra ocasião. Mas em 1980 decidi-me tornar Bahá'í. A ironia? Voltei mais uma vez a ser “diferente”.

Ao longo dos anos, os ensinamentos Bahá’ís mostraram-me que o espírito do natal é realmente algo para celebrar. Agora aceito e venero a Jesus Cristo como mensageiro de Deus para o seu tempo. Ser Bahá’í aproximou-me dos meus irmãos e irmãs cristãs em todo o mundo, pois reconheço a unidade essencial de todas as religiões e a unidade dos mensageiros divinos que trouxeram essas religiões à humanidade durante o seu tempo na Terra.

O site oficial da Fé Bahá’í (www.bahai.org) apresenta esta explicação:
Ao longo da história, Deus enviou à humanidade uma série de educadores divinos - conhecidos como Manifestantes de Deus - cujos ensinamentos forneceram a base para o avanço da civilização. Estes Manifestantes incluem Abraão, Krishna, Zoroastro, Moisés, Buda, Jesus e Maomé. Bahá’u’lláh, o mais recente desses Mensageiros, explicou que as religiões do mundo provêm da mesma Fonte e, em essência, são sucessivos capítulos de uma única religião de Deus.
Quando perguntaram qual a diferença entre os ensinamentos de Bahá’u’lláh e os ensinamentos de Jesus Cristo, ‘Abdu’l-Bahá deu esta explicação:
Os ensinamentos são os mesmos. É a mesma base e o mesmo templo. A verdade é una e indivisível. Os ensinamentos de Jesus estão numa forma concentrada. Até hoje, os homens não estão de acordo sobre o significado de muitas das suas palavras. Os seus ensinamentos são como um rebento de uma flor. Hoje, o rebento está a transformar-se em flor! Bahá’u’lláh expandiu e cumpriu os ensinamentos, e aplicou-os em pormenor ao mundo inteiro. (‘Abdu’l-Bahá in London, p. 92)
No entanto, confesso que fico cansada do grau de saturação que o Natal atinge na América do Norte. Desde a música nos centros comerciais aos desfiles do Pais Natal, parece-me que se passou do limite. Pergunto-me, por vezes, se Cristo apreciaria o materialismo que o seu aniversário agora suscita. Por outro lado, participo de trocas de presentes no meu emprego, junto-me a amigos para jantar, faço de "Pai Natal secreto" durante uns dias com actos de bondade e aproveito outros eventos pessoais.

Agora, quando os empregados das lojas e outras pessoas que não me conhecem me perguntam se estou pronta para o Natal, digo-lhes apenas que eu não o celebro especificamente, embora como Bahá’í eu respeite honre o espírito da época. Depois pergunto-lhes o que ELES estão a fazer. Todos ficam entusiasmados por me contar sobre as tradições das suas famílias, o tamanho da sua árvore, quem vão visitar, como eles trocam presentes, o que eles vão comer e os passeios que estão a planear. Ouço-os com interesse, partilho o seu entusiasmo e, com toda a sinceridade, desejo-lhes umas boas festas.

Desejo-lhe um Feliz Natal também para si.

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Jaellayna Palmer nasceu nos EUA e actualmente vive com o marido no Canadá. Trabalhou durante 8 anos como voluntária no Centro Mundial Baha’i e está semi-reformada. É colunista de um jornal e publicou um livro de ensaios pessoais intitulado "Personal Path, Practical Feet".

sábado, 16 de dezembro de 2017

Deus - Causa e Efeito

Por David Langness.


Quando S. Tomás de Aquino escreveu as “Cinco Vias” para provar que Deus existe, muitas pessoas acreditaram que ele provara de forma definitiva a existência de um Criador; outros, porém, argumentavam que as “Cinco Vias” eram circulares e não nada provavam.

S. Tomás de Aquino
Mas o pensamento e a escrita de S. Tomás criaram as bases para muita da filosofia moderna. Quer se esteja de acordo ou contra os seus conceitos, todos reconhecemos que o seu trabalho teve enorme influência nos campos da teoria política, metafísica, ética e teologia.

A prova de Deus mais conhecida de S. Tomás - a ideia de causa e efeito - ainda persiste, mil anos depois de ele a ter apresentado. É óbvio que S. Tomás não a inventou - os autores foram Platão e Aristóteles - mas a maioria dos pensadores e filósofos atribuem a S. Tomás o mérito de a ter afirmado de forma tão clara e económica. Na sua expressão mais simples, este argumento segue este caminho lógico:

  1. Todos os seres finitos e contingentes têm uma causa.
  2. Nada que seja finito e contingente pode ser a causa de si próprio.
  3. Uma cadeia causal não pode ter comprimento infinito.
  4. Portanto, a Primeira Causa (ou algo que não é um efeito) tem que existir.

Se pensarmos nos antigos gregos, que perceberam este conceito coerente muito antes de os cientistas começarem a compreender o Universo tal como o conhecemos hoje, o argumento é ainda mais impressionante. Agora aceite por muitos, a ciência designa essa teoria de causa-efeito "o Big Bang" quando aplicada à criação do universo. A versão científica é assim:

  1. Tudo o que tem um início tem uma causa.
  2. A existência do Universo teve um início.
  3. Portanto, o Universo teve uma causa.

Esta lógica sustenta grande parte do nosso entendimento científico actual. Claro, ninguém pôde ainda provar que o universo teve uma "Primeira Causa", embora esta teoria seja, de longe, a história de criação prevalecente na ciência de hoje.

No entanto, muitos dos crentes e teóricos do Big Bang, que constituem a maioria dos cientistas de hoje, também percebem o erro nessa lógica aparentemente clara: o chamado problema de regressão infinita. A regressão infinita, basicamente, argumenta que se o universo tivesse uma primeira causa, o que causou essa primeira causa? Por outras palavras, se a causa e o efeito estiverem sempre em vigor, então, como poderia existir uma "primeira" causa?

Os ensinamentos Bahá’ís abordam esta profunda questão filosófica e científica de uma forma inovadora e completamente única, que alguns físicos teóricos e astrofísicos que estudam buracos negros também começaram a postular. Este entendimento científico e espiritual suporta a questão da causa-efeito sem o problema da regressão infinita. É o chamado “universo não criado”, que combina a ideia de causa-efeito com um conceito muito mais compreensível da Primeira Causa:
Sabe, com toda a certeza, que todas as coisas visíveis têm uma causa. Por exemplo, esta mesa é feita por um carpinteiro; o seu criador é o carpinteiro. Portanto, como estes objectos não se criaram a si próprios, eles não estão na natureza das coisas eternas; mas precisam de uma força auxiliar transformadora, embora na sua essência sejam muito antigas no tempo; mas a sua existência antiga e eterna não se deve à forma temporária.

Por exemplo, o mundo dos elementos não pode ser aniquilado, porque a existência pura não pode ser aniquilada; e o que observamos são modificações transformadoras na composição da essência. A combinação de diferentes elementos formou o homem físico; quando a composição é destruída, os elementos regressarão para as suas partes componentes. A aniquilação completa não pode acontecer.

O universo nunca teve um início. Do ponto de vista da essência, ele transforma-se. Deus é eterno na essência e no tempo. Ele é a sua própria existência e causa. É por isso que o mundo material é eterno em essência, pois o poder de Deus é eterno. (‘Abdu’l-Bahá, Divine Philosophy, pp. 106-107)
Aqui e em muitos outros textos das escrituras Bahá'ís, ‘Abdu'l-Bahá apresenta um argumento extremamente importante que combina a ciência mais avançada com o vasto e ilimitado entendimento de Deus:
Assim, se houvesse um momento em que Deus não manifestasse as Suas qualidades, então não havia Deus, porque os atributos de Deus pressupõem a criação dos fenómenos. Por exemplo, por consideração, dizemos que Deus é o criador. Então, deve existir uma criação - uma vez que o atributo criador não se pode limitar ao momento em que algum homem ou homens percebem esse atributo. Os atributos que descobrimos um a um - esses atributos existem antes de os descobrirmos. Portanto, Deus não tem início nem fim; nem a Sua criação está limitada em grau. As limitações de tempo e grau pertencem às coisas criadas, nunca à criação como um todo. (‘Abdu’l-Bahá, Foundations of World Unity, p. 52)
Aristóteles e S. Tomás levaram-nos à vanguarda da ciência contemporânea. (…)

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Texto original: God - Cause and Effect (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

sábado, 2 de dezembro de 2017

As zonas cinzentas de Deus

Por David Langness.


A investigação científica diz-nos que tudo tem graus e intensidades - que todas as coisas são relativas.

Podemos resumir esta perspectiva científica do mundo com uma frase: não existe preto ou branco; apenas tons de cinzento. A frase reflecte a perspectiva de que não existe uma verdade ou um erro absoluto no nosso mundo moralmente imperfeito - que não existem absolutos morais.

Ibn Sina (Avicena)
No debate sobre a existência de Deus, esta questão sobre a relatividade moral tornou-se o centro das atenções nos últimos mil anos ou mais.

Na verdade, começou muito mais cedo do que isso, com Aristóteles e o seu livro Metafísica, por volta do ano 300 AC. A perspectiva de Aristóteles sobre Deus e o mundo teve um enorme impacto em toda a filosofia ocidental e nos primeiros grandes pensadores islâmicos como Al-Kindi, Al-Farabi, Ibn Sina (Avicena) e Ibn Rushd (Averroes), através da escola do pensamento islâmico Falsafa (filosofia). Esses grandes pensadores, por seu lado, influenciaram São Tomás de Aquino e o seu famoso ensaio intitulado "As Cinco Vias", assim como o seu livro Summa Theologica, publicado no século XIII, e que ainda hoje causa discussão.

S. Tomás de Aquino acreditava que a fé só por si não era suficiente - os seres humanos precisavam de usar a razão para entender a verdade sobre Deus. No seu ensaio “As Cinco Vias” (Quinque Viae) da Summa Theologica, ele indica essas razões:

  • Movimento; e a noção de um Primeiro Movimentador.
  • Causa; e a noção de uma Primeira Causa.
  • A existência do necessário e desnecessário.
  • Gradação; ou a noção dos tons de cinzento.
  • Ordem na natureza; ou toda a natureza é governada por Deus para um fim.

Aqui está uma citação directa do argumento da Quarta Via de Aquino:
Pois encontramos maiores e menores graus de bondade, verdade, nobreza e outros. Mas "mais" ou "menos" são termos que expressam várias coisas que conduzem de diversas maneiras em direcção a algo que é o "maior", tal como no caso de "mais quente" que se aproxima do "maior" calor. Existe, portanto, algo "mais verdadeiro" e "melhor" e "mais nobre", o que, em consequência, é o maior "ser". Para essas coisas que são as maiores verdades existem os maiores seres... Além disso, aquilo que é o maior no seu modo, é, de outra forma, a causa de todas as coisas que lhe pertencem; assim, o fogo, que é o maior calor, é a causa de todo o calor, como é dito no mesmo livro. Portanto, há algo que é a causa da existência de todas as coisas, e da bondade, e de qualquer perfeição. A isso nós chamamos "Deus".
S. Tomás de Aquino
Por outras palavras - se posso tomar a liberdade de simplificar e resumir esse argumento subtil e sério - S. Tomás diz que os tons de cinzento só são possíveis devido à existência de preto e branco. Ou, dizendo de outra maneira, podemos deduzir a existência de Deus a partir da existência do bem moral humano.

Isto significa que um universo moral, segundo S. Tomás no seu primeiro princípio, só pode ter origem a partir de Primeiro Movimentador ou Movimentador Primordial; um ser que põe em movimento todo o conceito de moralidade. Aquilo que Aristóteles designou como movimentador inamovível, esse conceito de Deus como o principal motor do universo influenciou teologia e filosofia durante milhares de anos. Cientificamente, isso combina bem com a recentemente descoberta lei da conservação da energia, o princípio da física que afirma que a energia total de um sistema não pode variar.

Bahá’u’lláh refere-Se a este conceito desta forma:
Glorificado, imensamente glorificado sois Vós. Sois Aquele que desde a eternidade tem sido o Rei de toda a criação e o seu Primeiro Movimentador, e permanecereis até à eternidade o Senhor de todas as coisas criadas e o seu Ordenante. (Baha’i Prayers, p. 41)
Os Bahá'ís acreditam que tanto a perspectiva teológica como a científica validam igualmente a existência de Deus:
... entende-se que por um homem estar doente que deve haver alguém que esteja com saúde; pois, se não houvesse saúde, a sua doença não poderia ser comprovada. Portanto, torna-se evidente que existe um Omnipotente Eterno, Que é o possuidor de todas as perfeições, porque se não possuísse todas as perfeições, seria como a Sua criação.

Por todo o mundo da existência é o mesmo; a mais pequena coisa criada prova que existe um criador. Por exemplo, este pedaço de pão prova que ele tem um fabricante.

Louvado seja Deus! A menor mudança produzida na forma da mais pequena coisa prova a existência de um criador: então este grande universo, que é interminável, pode ter sido criado por si próprio e surgido pela acção da matéria e dos elementos? Quão evidente é o erro dessa suposição! (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, p. 6)
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Texto original: God’s Grey Areas (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 25 de novembro de 2017

Maomé: o Último Profeta?

Por Christopher Buck.


A maioria dos muçulmanos concorda: se Maomé é o "Selo dos Profetas" (Alcorão 33:40), então Maomé é o último profeta. Fim da história. Assunto encerrado.

E se Maomé também for a porta de entrada para futuros mensageiros de Deus, e não o último dos profetas? Essa possibilidade seria uma completa surpresa para muitas pessoas, especialmente para os muçulmanos. Vejamos, então, uma surpreendente tradição muçulmana, que o próprio Bahá’u’lláh refere nas Suas Escrituras.

Na Sura da Paciência - revelada em 22 de Abril de 1863 em Bagdade, no primeiro dia do Festival Bahá’í de Ridvan - Bahá’u’lláh escreveu:
Recita-lhes aquilo que a pomba celestial do Espírito arrulhou no santo Ridván do Amado, para que possam examinar o que foi esclarecido sobre o "selar" pela língua de 'Alí [Imam' Alī], ele que está bem fundamentado no conhecimento na oração de visitação pelo nome de Deus. Ele disse - e a sua palavra é a verdade! -:

"[Ele (Maomé) é] o selo do que veio antes d’Ele e o anunciador do que aparecerá depois d’Ele".

De modo tão sábio, o significado de "selar" foi mencionado pela língua da santidade inacessível. Assim, Deus designou o Seu Amigo [Maomé] para ser um selo para os Profetas que O precederam e um anunciador dos Mensageiros que aparecerão depois d’Ele. (Sura da Paciência, tradução provisória de Omid Ghaemmaghami)
Aqui, Bahá'u'lláh cita uma oração para Ali, o primeiro seguidor de Maomé. Ali, mais tarde, tornou-se o genro do Profeta quando se casou com a amada filha de Maomé, Fátima. Na história islâmica, Ali serviu como o quarto califa, o "bem guiado" chefe da Fé. Os muçulmanos xiitas consideram Ali como o legítimo sucessor do próprio Maomé. Os muçulmanos sunitas não concordam; mas todos os muçulmanos concordam que o Profeta Maomé gostava muito Ali, e que Ali foi um dos mais venerados muçulmanos de todos os tempos.

Num livro recente sobre a Sura da Paciência de Bahá'u'lláh (intitulado em persa, Sayri dar Bustan-i Madinatu's-Sabr) - o autor Foad Seddigh identificou a referência exacta da oração que Bahá’u’lláh citou originalmente, que contém esta frase surpreendente: "Ele (Maomé) é] o selo do que veio antes d’Ele e o anunciador do que aparecerá depois d’Ele".

Foad Seddigh identificou e validou esta oração junto de várias fontes autorizadas. Ele afirma que uma das suas primeiras publicações se encontra num livro intitulado Kamilu'z-Ziyarat, uma conhecida colectânea islâmica de orações de visitação, ou orações destinadas a ser lidas nos túmulos do Profeta Maomé, Imans Xiitas e outras figuras xiitas. Kamilu'z-Ziyarat provavelmente foi compilado pelo estudioso xiita Ibn Quluya (f. 978 ou 979 EC). O capítulo 11 do livro de orações de Ibn Quluya começa na página 92. Este capítulo intitula-se: "Visitar o túmulo do Comandante dos fiéis [Imam 'Ali], como deve ser visitado o túmulo e o que rezar no túmulo."

Podemos encontrar a frase a que Bahá’u’lláh se refere na pag. 97 - é a segunda "ḥadith" (tradição) citada. Esta mesma frase também se encontra em orações de visitação para o santuário de Imam Husayn e numa oração a ser lida nos santuários de todos os Imams. A oração de visitação para o santuário do Imam Ali tem exactamente as palavras que Bahá’u’lláh revelou. Esta oração, universalmente reconhecida e usada pelos muçulmanos xiitas, é atribuída ao Sexto ou ao Décimo Imans.

O entendimento de Bahá’u’lláh sobre esta tradição difere do entendimento tradicional por estudiosos xiitas. Foad Seddigh salienta esse facto. Na página 97 do livro, Seddigh cita um estudioso xiita que interpreta a tradição da seguinte maneira:
"Ou seja, [Maomé] é o selo dos Profetas que apareceram antes d’Ele ou das suas comunidades religiosas, ou do conhecimento e dos mistérios que O precederam, e o anúncio das Prova (ou seja, os Imams xiitas) que O seguiram ou do conhecimento, das ciências e da sabedoria que aparecerão depois d’Ele." (referência e tradução do original árabe por Omid Ghaemmaghami.)
Quem está certo? Os estudiosos xiitas? Ou Bahá’u’lláh? Uma coisa é certa: os estudiosos xiitas e os estudiosos Bahá’ís concordam que Maomé é "o anunciador do que aparecerá depois d’Ele".

Chegámos agora a um ponto comum. Todos os muçulmanos concordam que o profeta Maomé predisse a vinda do "Mahdi" no futuro. Os muçulmanos sunitas e xiitas também concordam que Jesus regressará no fim da história:
Foi narrado... que o Profeta disse: "A Hora não começará até que Eisa bin Maryam [Jesus, filho de Maria] desça como juiz justo e governante justo. (Sunan Ibn Majah 4078)
Estas duas tradições estão classificadas pelos estudiosos sunitas como "seguras", isto é plenamente autênticas, e são reconhecidos também pelos muçulmanos xiitas. E assim pode-se dizer com sinceridade que Maomé é o "anunciador do que aparecerá depois d’Ele", e que esta tradição se refere ao Mahdi e a Jesus, que aparecerão no Dia do Juízo.

Os Bahá’ís acreditam que esses dois salvadores do fim dos tempos - o Mahdi e Jesus - já apareceram.

O Báb, precursor e arauto de Bahá’u’lláh, não era outro senão o esperado Mahdi, predito pelo profeta Maomé. O próprio Bab proclamou:
A Revelação divina associada ao advento de Aquele que é o vosso prometido Mihdi [o Mahdi] mostrou-se muito mais maravilhosa do que a Revelação com a qual Maomé, o Apóstolo de Deus, foi investido. Se apenas pudésseis ponderar nisso. (Selections From the Writings of the Bab, p. 146)

"Para o Islão sunita", Shoghi Effendi escreveu, Bahá’u’lláh foi "a descida do «Espírito de Deus» [Jesus Cristo]" (God Passes By, p. 94)
Então, como é que os Bahá'ís entendem a oração de visitação muçulmana citada acima? Maomé, o "Selo dos Profetas", era "um selo para os profetas que O precederam e um anunciador dos Mensageiros que aparecerão depois d’Ele", nomeadamente O Báb, Bahá’u’lláh e outros futuros mensageiros de Deus.

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Texto original: Muhammad: the Last Prophet? (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 18 de novembro de 2017

O Selo dos Profetas: o encontro com Deus no Último Dia

Por Christopher Buck.


Tendo crescido e sido educado como Cristão, muitas vezes ouvi a expressão: "A Bíblia diz…" seguida de uma citação a que a pessoa identificava o respectivo capítulo e versículo.

E também era frequente ouvir uma resposta do género: "Sim, mas a Bíblia também diz…", seguida de outro versículo como justificação de uma opinião contrária. Era como se o texto sagrado estivesse a discutir consigo próprio!

Particularmente interessante em todos os textos sagrados - e problemáticos na maioria - são as profecias sobre o Último Dia, o Dia do Juízo, etc. Porquê? Porque são difíceis de entender. Lêem-se com facilidade, mas são intrigantes - sejam textos da Bíblia, sejam textos do Alcorão.

Então vamos analisar as profecias dos últimos dias no Alcorão. É verdade que o Islão radical está nas notícias todos os dias. É uma vergonha, pois isso mancha o bom nome do Islão.

Mas vamos pensar no Islão tradicional - o Islão mais conhecido - onde a maioria dos muçulmanos são pessoas comuns, como qualquer um de nós, e que apenas querem viver em paz e prosperidade, e que obtêm muita inspiração e orientação na sua Fé.

Provavelmente, a maioria dos muçulmanos (quase 2 mil milhões de muçulmanos no mundo hoje) afirmará que o Profeta Maomé é o "Selo dos Profetas".

Isto baseia-se num versículo muito importante no Alcorão: 33:40. Muitos consideram este versículo como o versículo doutrinariamente mais importante do Alcorão.

Com a possível excepção dos Ahmadiyya (um novo movimento religioso principalmente centrado no Paquistão), isso significa que os muçulmanos consideram Maomé como o último profeta. Ponto final. Assunto encerrado. Fim da conversa.

Os Bahá'ís concordam. De facto, Bahá’u’lláh enaltece Maomé da seguinte maneira, que vai um pouco ultrapassa o Alcorão 33:40:
Glorificado és tu, ó Senhor, meu Deus! Peço-Te, pelos Teus Eleitos e pelos Portadores da Tua Confiança, e por Aquele a Quem ordenaste ser o Selo dos Teus Profetas e dos Teus Mensageiros, que permitas que a Tua lembrança seja a minha companheira, e o Teu amor seja o meu objectivo, e a Tua face o meu objectivo, e o Teu nome a minha lâmpada, e a Tua vontade o meu desejo, e o Teu prazer a minha alegria. (Bahá’í Prayers, p. 74)
Agora consideremos o seguinte: os Profetas profetizam; Eles prevêem. De acordo com a Fé Bahá'í, Maomé foi o último dos Profetas, ou seja, o último daqueles que profetizam. Por outras palavras, Maomé foi o último Profeta no "Ciclo da Profecia", que começou com Adão.

Muito bem. Maomé é o último Profeta. O último a profetizar. E o que vem depois? Quem vem depois?

A profecia termina quando começa o cumprimento. Depois do "Ciclo da Profecia" vem o "Ciclo de Cumprimento".

E o que significa isso, podemos perguntar?

É simples: as profecias predizem o futuro. Quando as profecias se tornam realidade, então elas cumprem-se. A profecia torna-se a realidade. É assim que funciona.

Cerca de um terço do Alcorão prediz o Último Dia. O Último Dia é um bom exemplo do que os Bahá’ís pretendem dizer com "Ciclo de Cumprimento".

Apesar dos profetas profetizarem, as suas profecias nem sempre são claras, e muitas vezes exigem interpretação. Para iniciar a interpretação de qualquer profecia temos de colocar esta questão fundamental: "A profecia é literal ou figurada?"


Vamos ver a primeira profecia que surge no Alcorão após o versículo 33:40. Ela aparece apenas quatro versículos mais à frente, no 33:44:
No dia em que eles forem levados à presença do seu Senhor, a sua saudação de uns para os outros será: "A paz esteja contigo". Deus preparou-lhes uma recompensa honrosa. (Alcorão 33:44, tradução de Muhammad Sarwar)
Outra tradução do mesmo versículo afirma o seguinte:
A sua saudação, no dia em que O encontrarem, será "Paz!" E Ele preparou-lhes uma generosa retribuição. (Alcorão 33:44, tradução de A.J. Arberry)
A tradução de Arberry ("O encontrarem") é literal. A tradução de Sardar ("levados à presença do seu Senhor ") é figurada. Isso está mais em consonância com a perspectiva Bahá’í.

Agora vamos usar nossa chave de quatro passos para compreender a linguagem profética:

Passo 1: Se é impossível, então não é literal. Porque é que a leitura literal é impossível aqui? Porque é impossível conhecer Deus directamente, frente a frente. O próprio Alcorão diz: "Nenhuns olhos mortais podem vê-Lo, mas Ele pode ver todos os olhos. Ele é Todo-Generoso e Omnisciente." (6:103, tradução de Muhammad Sarwar)

Passo 2: Se não literal, então é figurado. Qual é a comparação ou analogia aqui representada? O que se compara a "conhecer Deus"? Temos de concordar com isto: "encontrá-Lo" é literal. E isso é impossível. O que é possível é ser "levado à presença do seu Senhor", tal como traduz Sarwar.

Passo 3: Se é figurado, então é simbólico. Quais são as características que esse símbolo representa? O que significa "encontrar Deus"? Seja qual for o significado de "presença do seu Senhor", é certamente um evento em que a vontade de Deus é comunicada e divulgada de forma clara. Se não podemos encontrar-nos directamente com Deus, a próxima melhor coisa é encontrar o embaixador de Deus, o mensageiro de Deus, ou aquilo a que os Bahá’ís chamam "Manifestante de Deus", que expressa "Deus" em natureza, mas não em essência.

Passo 4: Se é simbólico, então é espiritual e social. Quem (ou o que) representa essas características? De acordo com os ensinamentos Bahá’ís, quando Deus envia um mensageiro à humanidade, esse mensageiro vem da presença de Deus e, portanto, representa Deus. Quem tem a graça e a bênção de encontrar o mensageiro de Deus, conseguiu - numa forma figurada e simbólica - "encontrar Deus" ao ser "levado à presença do seu Senhor".

Pensemos na "presença de Deus" como o carisma divino, uma aura de santidade, o nimbo do sagrado, o efeito de halo. Talvez seja uma surpresa saber que que o "carisma" é realmente um termo científico usado no mundo académico: os sociólogos da religião falam sobre os fundadores das grandes religiões mundiais como tendo "carisma".

Fiz o melhor que pude para simplificar a perspectiva Bahá'í sobre estes dois versículos-chave do Alcorão, que representam um grande plano dos dois ciclos: o Ciclo da Profecia, seguido pelo Ciclo de Cumprimento. Bahá’u’lláh deixa claro neste importante parágrafo do seu Livro de Certeza, dirigido ao mundo islâmico:
E no entanto, através do mistério do primeiro versículo [Alcorão 33:40], eles afastaram-se da graça prometida pelo segundo [Alcorão 33:44], apesar do facto do “alcançar da Presença divina” no “Dia da Ressurreição” ser explicitamente afirmada no Livro. Foi demonstrado e provado definitivamente, através de evidências claras, que por “Ressurreição” se pretende significar o aparecimento do Manifestante de Deus para proclamar a Sua Causa, e por “alcançar da Presença Divina” se pretende significar o alcançar da presença da Sua Beleza na pessoa do Seu Manifestante. Pois, em verdade, “Nenhum olhar O percebe, mas Ele percebe todos os olhares” [Alcorão 6: 103]. Não obstante todos estes factos indubitáveis e exposições claras, eles agarraram-se loucamente ao termo “selo”, e permaneceram totalmente privados do reconhecimento d’Aquele Que é o Revelador tanto do Selo como do Princípio, no dia da Sua presença [Baha’u’llah]. (Kitab-i-Íqán, ¶182) (citações do Alcorão em parêntesis rectos)

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Texto original: The Seal of the Prophets: Meeting God on the Last Day (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.