Mostrar mensagens com a etiqueta Religião Bahá'í. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Religião Bahá'í. Mostrar todas as mensagens

sábado, 19 de maio de 2018

Quatro Passos para conseguir a Verdadeira Felicidade

Por Kathy Roman.


‘Abdu'l-Bahá, o filho do profeta Bahá’u’lláh, costumava falar para congregações e convidados com esta pergunta simples, mas profunda: “Vocês são felizes?” Ele queria muito ver toda gente feliz e unida:
Não pensem em vocês próprios, mas pensem na Generosidade de Deus. Isso far-vos-á sempre felizes. Deveis estar sempre felizes. Deveis ser contados entre as pessoas de alegria e felicidade, e estar embelezados com a moral divina. Em grande medida, a felicidade preserva a nossa saúde, enquanto a depressão do espírito gera doenças. O essencial da felicidade eterna são a espiritualidade e a moralidade divinas, que não são acompanhadas pela tristeza. (‘Abdu'l-Bahá, citado em Vignettes from the Life of ‘Abdu’l-Bahá, p. 129)
Embora ‘Abdu'l-Bahá tenha sofrido bastante durante a maior parte da Sua vida, Ele manteve a sua felicidade:
Eu próprio estive na prisão durante quarenta anos; só um ano teria sido impossível de suportar; ninguém sobreviveu àquela prisão mais de um ano! Mas, graças a Deus, durante todos aqueles quarenta anos eu fui extremamente feliz! Todos os dias, ao acordar, era como se ouvisse boas notícias, e todas as noites a alegria infinita era minha. A espiritualidade era o Meu conforto, e voltar-Me para Deus era a minha maior alegria. Se não tivesse sido assim, acham que teria sido possível que eu pudesse ter sobrevivido a quarenta anos de prisão? (Paris Talks, p. 112)
Isso levanta a questão: porque é que algumas pessoas são mais felizes do que outras? No seu laboratório na Universidade de Wisconsin, o Dr. Richard Davidson dedicou a sua vida a investigar "cérebros felizes". Estudou os cérebros de monges budistas, homens que passam a vida a evocar deliberadamente emoções inspiradoras e os seus níveis notáveis de felicidade. Os dados do Dr. Davidson mostraram que, se alguém ficar sossegado durante meia hora por dia, pensando apenas em bondade e compaixão, o seu cérebro mostrará mudanças significativas em apenas duas semanas.

Algumas pessoas são mais felizes do que outras porque a felicidade é uma escolha. Os investigadores acreditam que entre 50 a 70% do nosso nível de felicidade resulta de predisposição genética; e cerca de 40% vem da nossa própria vontade. Uma grande parte da felicidade depende das nossas atitudes, comportamentos e valores, e não de circunstâncias externas.

Quando era vivo, o meu tio Mack ensinou-me coisas sobre a felicidade. Ele tinha sempre um comportamento alegre e jovial, fazendo sorrir as pessoas, ou - no caso das crianças - fazendo-as rir. Agia como se não tivesse preocupações no mundo. Só quando cresci é que percebi as dificuldades que o tio Mack enfrentou. Quando era recém-casado e teve o seu primeiro filho, a minha tia foi vítima de um aneurisma cerebral muito perigoso; ficou permanentemente paralisada e deixou de conseguir falar. No entanto, Mack tratou dela carinhosamente durante toda a vida. Essa tragédia não mudou a sua atitude nem a sua felicidade. Ainda fizemos grandes reuniões familiares e festas na piscina de verão, cheias de animação e gargalhadas na sua casa, e no Natal ele era o alegre Pai Natal. Nos seus últimos anos, depois de a minha tia ter falecido, ele ficou muito doente com a doença de Graves e ia regularmente fazer diálise; mas o seu comportamento alegre manteve-se. Até o momento em que morreu, eu nunca o ouvi reclamar sobre alguém ou alguma coisa, apesar de a sua vida ter sido cheia de tristezas dolorosas. Tio Mack exemplificava verdadeiramente a nobreza da felicidade:
Qualquer um pode ser feliz numa situação de conforto, facilidade, saúde, sucesso, prazer e alegria; mas se alguém estiver feliz e satisfeito numa situação problemática, de dificuldades e doenças persistentes, isso é a prova da nobreza. (Tablets de Abdu'l-Baha, Volume 2, p. 263)
Então, como podemos ter mais felicidade em nossas vidas? Experimente estes simples quatro passos:

1. Praticar a gratidão - Em vez de procurar negligentemente coisas, ou situações externas, para ficarmos felizes, focar-nos apenas no que já temos pode trazer-nos o subproduto natural da felicidade. Quanto mais gratidão tivermos, mais felicidade teremos nas nossas vidas. Há um velho ditado que diz que quem esquece a linguagem da gratidão, nunca poderá falar com felicidade.

Não é a felicidade que nos torna gratos, mas a gratidão que nos torna felizes. (David Steindl-Rast)

Eu diria que o reconhecimento é a mais alta forma de pensamento, e que a gratidão é a felicidade duplicada pelo espanto. (Gilbert K. Chesterton)

2. Evite permanecer negativo - Em relação aos pensamentos negativos, Eckhardt Tolle disse:

Se você estiver consciente, será capaz de reconhecer essa voz pelo que ela é: um velho pensamento condicionado pelo passado. Além disso, não precisará mais acreditar em todos os seus pensamentos. Verá que se trata de algo antigo, nada mais.

Pessoas felizes têm momentos de emoções negativas, tal como todas as outras, mas não deixam esses pensamentos se prolonguem:

Quando uma porta de felicidade se fecha, abre-se outra, mas muitas vezes olhamos tanto para a porta fechada que não vemos a porta que se abriu. (Helen Keller)

3. Concentre-se no serviço e bondade para quem quer que encontre no seu caminho - o conselho de ‘Abdu’l-Bahá sobre a felicidade enfatiza o nosso reconhecimento da verdadeira unidade da humanidade:
Não se contentem em mostrar amizade apenas com palavras, deixem o vosso coração arder com bondade para com todos os que possam surgir no vosso caminho... Que se veja que estais cheios de amor universal. Quando encontrarem um estranho, falem com ele como se fosse um amigo; se ele parecer estar sozinho, tentem ajudá-lo, ofereçam-lhe o vosso serviço voluntário; se ele estiver triste, consolem-no; se estiver pobre, socorram-no; se estiver oprimido, salvem-no; se estiver na miséria, confortem-no. Ao fazer isso, vocês manifestarão isso não apenas com palavras, mas de facto e de verdade, que pensam em todos os homens como vossos irmãos. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 16)
4. Associe-se com pessoas afectuosas e positivas - A felicidade é contagiosa. Já notou como estar com pessoas felizes pode elevar o seu espírito? Para mim, até ouvir alegres gargalhadas de alguém perto de mim (especialmente se for de um bebé) faz-me sorrir e sentir uma onda de felicidade. Fico então ligada a essa alegria e ela torna-se minha.

Um novo estudo realizado por investigadores da Universidade de Harvard e da Universidade da Califórnia em San Diego revelou que a felicidade se espalha pelas redes sociais. O estudo mostrou que, quando uma pessoa fica feliz, um amigo que more próximo tem mais 25% de probabilidades de se ficar feliz; enquanto o cônjuge tem mais 8% de probabilidade, e os vizinhos do lado, têm mais 34%. Se você precisa de um impulso de felicidade, associe-se com aqueles que já têm uma visão feliz da vida.

-----------------------------
Texto original: Are You Happy? 4 Ways to Achieve Real Happiness (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

sábado, 12 de maio de 2018

O Evangelho de João e a Ressurreição de Cristo

Por Tom Tai-Seale.

...escreveste sobre o encontro com Sua Santidade Cristo após a crucifixão e que alguns apóstolos O perceberam mas não O reconheceram; mas reconheceram-No depois de partilhar o pão.

Sabe que o Espírito Messiânico e a emanação do Espírito Santo sempre se manifesta, mas a capacidade e aptidão (para o receber) é maior em alguns e menor noutros. Após a crucifixão, os apóstolos não tinham a capacidade e a aptidão para testemunhar a realidade Messiânica, pois estavam agitados. Mas quando encontraram constância e firmeza, a sua visão interior abriu-se, eles viram a realidade do Messias como manifesta. Pois o corpo de Cristo foi crucificado e desapareceu, mas o Espírito de Cristo está sempre a fluir sobre o mundo contingente e manifesta-se perante o olhar das pessoas convictas. (‘Abdu’l-Bahá, Tablets of Abdu’l-Baha, Vol. 1, pp. 193-194)
A narrativa de João sobre a ressurreição de Cristo é bastante semelhante à de Lucas, diferenciando-se por aumentar a frequência dos eventos e de acrescentar diálogos interessantes. Ele coloca Maria Madalena vendo Jesus no exterior do túmulo, mas inicialmente não O reconhecendo. Depois, quando ela percebe que é Jesus, é-lhe dito: “Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai.” (Jn 20:17) Seguindo o significado literal, isto significa que Jesus não morreu na cruz. Uma teoria especulativa e bastante complexa, surgiu entre os teólogos Cristãos para explicar como é que Jesus podia ter morrido sem ter ascendido ao Pai. Mas talvez João estivesse a tentar enfatizar que não nos devemos agarrar ao corpo físico de Jesus - que o corpo espiritual é mais importante.

Jesus e os Apóstolos
João regista dois momentos em que Jesus aparece e fica entre os discípulos, mencionando especificamente que nas duas ocasiões os discípulos estavam em casa com as portas trancadas. Na primeira vez, o discípulo Tomé não estava presente; por isso recusou-se a acreditar a menos que pudesse colocar os dedos nas feridas no corpo de Jesus. Quando Jesus aparece pela segunda vez, o pedido de Tomé é concedido e Jesus afirma: “Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram.” (Jn 20:29) Há quem considere esta narrativa como uma confirmação da ressurreição literal. Outros consideram-na como uma afirmação de que Tomé podia acreditar numa ressurreição espiritual de Jesus porque ele conhecera-O durante o Seu ministério, i.e., antes da crucifixão.

Os relatos dos aparecimentos de Jesus a outras pessoas (após os versículos citados acima) surgiram como adições posteriores ao Evangelho; não foram escritas pelos autores originais.

Como podemos perceber, após analisar claramente cada um dos quatro evangelhos, e comparando-os cronologicamente, parece que cada evangelho possibilita interpretações literais e simbólicas. Consequentemente, nenhum dos lados no debate literal/simbólico foi capaz de demonstrar de forma definitiva que a sua interpretação é a correcta.

Mas sabemos que as pessoas de carne e osso não se materializam subitamente e posteriormente desmaterializam-se (excepto em filmes de ficção científica!). Não desaparecem subitamente; não saltam de um lugar para o outro; não permanecem desconhecidas para quem as conhece e segue; nem conseguem entrar em diálogo com os seus parceiros. Por outro lado, não se pode sentir as feridas nos espíritos. Ou o espírito era carne, ou o sentimento era um produto de uma reflexão mental. O que aconteceu?

Parece óbvio, quando analisamos racionalmente todas as histórias e as suas perspectivas, que os autores dos evangelhos apenas incluíram as histórias imprecisas de uma experiência de ressurreição nas suas diferentes narrativas. No que toca à ressurreição física, os autores sabiam que esses relatos não eram muito credíveis. No entanto, os evangelistas também devem ter percebido que muitas pessoas queriam acreditar e transmitir esses relatos. Se registar essas narrativas ajudava a jovem fé desses Cristãos, que mal podia haver nisso? Quando analisados de forma desapaixonada, porém, a força das evidências leva-nos para uma interpretação não-literal. Esta conclusão reflecte os ensinamentos Bahá’ís, que se centram firmemente nos sentidos alegóricos e simbólicos desses relatos:
... Após o martírio de Cristo, os Apóstolos ficaram perplexos e assustados. A realidade de Cristo, que consiste nos Seus ensinamentos, nas Suas bênçãos, nas Suas perfeições e no Seu poder espiritual, ficou oculta e desapareceu durante dois ou três dias após o Seu martírio, e não teve aparecimento ou manifestação externa - de facto, era como se estivesse totalmente perdida. Pois aqueles que verdadeiramente acreditavam eram poucos em número, e mesmo esses estavam perplexos e assustados. A Causa de Cristo era, pois, como um corpo sem vida. Após três dias, os Apóstolos tornaram-se firmes e decididos, levantaram-se para ajudar a Causa de Cristo, resolveram promover os ensinamentos divinos e praticar os conselhos do seu Senhor, e esforçaram-se por servi-Lo. Então a realidade de Cristo tornou-se resplandecente, a Sua graça brilhou, a Sua religião encontrou uma nova vida, e os Seus ensinamentos e conselhos tornaram-se manifestos e visíveis. Por outras palavras, a Causa de Cristo, que era como um corpo sem vida, despertou para a vida e ficou rodeada pela graça do Espírito Santo.

Este é o significado da ressurreição de Cristo, e esta foi uma verdadeira ressurreição. Mas como o clero não entendeu o significado dos Evangelhos e não compreendeu esse mistério, tem sido afirmado que a religião se opõe à ciência, pois, entre outras coisas, a ascensão de Cristo num corpo físico aos céus materiais é contrária à Ciências matemáticas. Mas quando a verdade deste assunto é exposta e este símbolismo é explicado, ela não está de modo algum em contradição com a ciência, mas antes, está confirmada pela ciência e pela razão. ('Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 117-119)
----------------------------------
Texto Original: The Gospel of John, the Resurrection and the Reality of Christ (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Baha’i: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 5 de maio de 2018

O Significado Espiritual das Rosas

Por Maya Mansour.


A irmã do meu pai gosta de cultivar coisas. Em todas as casas onde viveu, tinham na frente um jardim de rosas.

Ela passa o tempo a tratar cuidadosamente das suas rosas, e isso não passa despercebido. Até hoje, não consigo pensar em rosas sem pensar também nela.

As rosas são uma das flores mais facilmente reconhecíveis, mesmo na sua diversidade. Existem pelo menos 100 espécies diferentes de rosas e milhares rosas híbridas. Esta flor antiga simboliza várias coisas: do amor à guerra, de diferentes lugares a uma série de emoções. As suas cores variadas têm diferentes conotações: as rosas amarelas simbolizam amizade, as rosas cor-de-pêssego representam admiração ou apreço e, mais as conhecidas, as rosas vermelhas transmitem uma sensação de amor romântico.

O mais antigo vestígio de uma rosa remonta a um fóssil com 35 milhões de anos; a flor foi usada no Iraque desde 2000 aC para fins ornamentais e para produzir água de rosas e perfumes. As rosas podem ser encontradas em todo o mundo e têm sido usadas ao longo da história como moeda, em demonstrações de beleza, para fins medicinais e pelo seu aroma encantador.

As rosas são mencionadas mais do que qualquer outra flor nas escrituras Bahá’ís. A forma como Bahá’u’lláh descreve as rosas é como se elas fossem uma fonte de inspiração divina. O seu uso frequente da rosa como uma metáfora encoraja-nos a absorver e interiorizar o que as rosas têm a oferecer: beleza, fragrância e energia pura.

Uma maneira pela qual podemos explorar o seu poder espiritual é imitar o seu processo de crescimento na forma como nos aprofundamos e construímos a comunidade. Apesar das rosas terem capacidade para crescer livremente, um jardim de rosas que seja saudável e bonito requer imenso cuidado. Um jardim cheio de rosas personifica os ensinamentos Bahá’ís sobre unidade, unidade na diversidade e o amor de Deus:
Associai-vos uns aos outros, pensai uns nos outros e sejam como um jardim de rosas. Qualquer pessoa que entrar num jardim de rosas verá várias rosas, brancas, rosadas, amarelas, vermelhas, todas crescendo juntas e repletas de beleza. Cada um acentua a beleza da outra. Se todas fossem da mesma cor, o jardim seria monótono para os olhos. Se fossem todas brancas, ou amarelas ou vermelhas, o jardim não teria variedade e encanto; mas quando as cores são variadas, branco, rosa, amarelo, vermelho, existe a maior beleza. Portanto, espero que sejam como um jardim de rosas. Apesar de diferentes nas cores, no entanto - louvado seja Deus! - recebem raios do mesmo sol. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 427)

Se os corações forem tocados com o calor do amor de Deus, esse território tornar-se-á um jardim de rosas divinas e um paraíso celestial, e as almas, tal como árvores frutíferas, terão a maior frescura e beleza. (‘Abdu'l-Bahá, Tablets of the Divine Plan, p. 28)
Tal como os ensinamentos Bahá’ís usam um jardim de rosas para descrever uma comunidade ideal e carinhosa, também o comparam ao coração humano. Somos encorajados a segurar-nos firmemente à “rosa do amor” dentro deste jardim do nosso coração. Esse amor não se refere ao amor romântico, mas ao tipo de amor espiritual que caracteriza as relações dotadas de qualidades virtuosas:
Ó Amigo! No jardim do teu coração, nada plantes salvo a rosa do amor e não te desprendas do rouxinol do afecto e do desejo. Estima a companhia dos justos e evita toda a associação com os ímpios. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do persa, #3)
Observar como a minha tia trata carinhosamente do seu jardim de rosas permitiu-me ver uma bela metáfora sobre como eu deveria cultivar as minhas relações com os outros e desenvolver as minhas qualidades espirituais por amor. Esta metáfora permite-me explorar as intenções por detrás das escolhas que faço diariamente: começo a pensar no que faço em termos de ajudar ou prejudicar o crescimento do jardim no meu coração.

Bahá’u’lláh escreveu:
No Jardim de Rosas do esplendor imutável, começou a surgir uma Flor, comparada com a qual todas as outras flores são apenas um espinho, e perante o brilho da Sua glória, a própria essência da beleza fica pálida e murcha. Levantai-vos, pois, e - com todo o entusiasmo dos vossos corações, com toda a avidez das vossas almas, o pleno fervor da vossa vontade e os esforços concentrados de todo o vosso ser - esforçai-vos para alcançar o paraíso da Sua presença e esforçai-vos para inalar a fragrância da Flor incorruptível, para respirar os doces aromas da santidade e para obter uma porção deste perfume de glória celestial. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, sec. CVLI)
Uma pessoa ser comparada a uma rosa - como todos nós estamos nas escrituras Bahá’ís - é algo incrivelmente poderoso, considerando o peso espiritual dessa flor.

Isto lembra-me uma situação em que ‘Abdu'l-Bahá distinguiu intensamente uma pessoa como uma rosa. Quando ‘Abdu'l-Bahá estava em Nova Iorque, em 1912, caminhando perto da Missão Bowery com alguns dos seus companheiros; alguns eram americanos e outros eram estrangeiros. Esse grupo de pessoas destacava-se de todos os outros no bairro. Os transeuntes nas ruas olhavam para eles e algumas crianças começaram a fazer troça de ‘Abdu'l-Bahá e dos Bahá’ís que O acompanhavam.

Uma pessoas - a Sra. Kinney - era uma das anfitriãs de ‘Abdu’l-Bahá durante a Sua viagem nos Estados Unidos. Ela parou e explicou aos rapazes que ‘Abdu'l-Bahá era um homem santo que sofrera muito para partilhar a Sua mensagem com pessoas de todo mundo. Seguidamente convidou as crianças a visitar a sua casa onde ‘Abdu'l-Bahá estava hospedado para que pudessem encontrar-se com Ele.

Para sua surpresa, no dia e hora marcadas, as crianças apareceram em sua casa, onde ‘Abdu'l-Bahá as recebeu com sorrisos. A última criança a entrar em casa da Sra. Kinney era um jovem negro. Quando ‘Abdu’l-Bahá viu aquele rapaz, o Seu rosto iluminou-se e disse em voz alta: “Aqui está uma rosa negra!” É desnecessário dizer que aquelas simples palavras tiveram um efeito profundo:
Os outros rapazes olharam para ele com outros olhos. Arrisco-me a dizer que já lhe tinham chamado “preto-muita-coisa”, mas nunca “rosa negra”. Este incidente relevante deu uma nova aparência ao momento. A atmosfera da sala parecia agora carregada de vibrações subtis sentidas por todas as almas. Os rapazes, embora não perdessem nada da sua descontracção e simplicidade, estavam mais sérios e mais atentos a ‘Abdu'l-Bahá, e eu notei que olhavam insistentemente para o menino de cor com olhar muito pensativo. Para os poucos amigos presentes na sala, a cena apresentava visões de um novo mundo no qual toda a alma seria reconhecida e tratada como um filho de Deus. Pensei: o que aconteceria a Nova Iorque se esses rapazes pudessem levar uma recordação profunda dessa experiência de maneira que, ao longo das suas vidas, sempre que encontrassem representantes das muitas raças e cores que se encontravam naquela grande cidade, pensariam neles e tratá-los-iam como “flores de diferentes cores no Jardim de Deus”. - Howard Colby Ives, Portals to Freedom, p. 64-65.
Ao longo de toda a Sua vida, ‘Abdu'l-Bahá escolheu continuamente ser um exemplo de como podemos celebrar a diversidade. Dos Seus escritos sobre jardins de rosas e pelo entusiasmo que mostrou ao ver uma criança que era diferente das outras, acredito que Ele estava a encorajar-nos a vermo-nos uns aos outros como rosas de amor.

----------------------------------
Texto Original: The Spiritual Significance of Roses (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Maya Mansour estudou artes no The Evergreen State College e os seus trabalhos têm sido publicados em várias plataformas, incluindo Ebony, SoulPancake, and the Journal of Critical Scholarship on Higher Education and Student Affairs.

sábado, 28 de abril de 2018

O Evangelho de Lucas e a Ressurreição de Jesus

Por Tom Tai-Seale.


Na nossa análise das narrativas da ressurreição nos evangelhos, vamos agora ver o que escreve Lucas.

Vimos que Marcos escreveu que três mulheres tinham ido ao sepulcro de Cristo e ali encontraram um jovem vestido de branco. No evangelho de Lucas existe uma multidão que vai ao sepulcro e descobre dois homens vestidos com roupas brilhantes e curvam-se perante eles. É óbvio que Lucas está a descrever a criação de um mito.

Lucas regista o primeiro aparecimento de Jesus como tendo ocorrido com os dois que foram ao sepulcro. O evento dá-se quando eles caminham para uma aldeia chamada Emaús. Lucas escreve (24:15-16): “E aconteceu que, indo eles, falando entre si e fazendo perguntas um ao outro, o mesmo Jesus se aproximou, e ia com eles: Mas os olhos deles estavam como que fechados, para que o não conhecessem.

Segue-se um diálogo e Jesus repreende-os: “Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” Mas mesmo assim os dois não o reconheceram. A conversa continua e por fim eles chegam ao seu destino. Quando partilham o pão com Jesus, finalmente “abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram, e ele desapareceu-lhes”; não é claro se isto aconteceu por Ele se ter afastado, desmaterializado ou desaparecido das suas consciências mentais.

Esta narrativa contém todos os ingredientes de uma alegoria. Apenas quando os dois homens raciocinam juntos sobre o ministério e a morte de Jesus é que Ele se aproxima deles. Os dois tiveram que reflectir sobre o que os profetas falaram antes poderem perceber que Cristo podia erguer-se dos mortos. Tiveram de praticar o ritual da comunhão antes de conseguirem lembrar-se e perceber que Ele estava com eles. Assim que descobrem que a realidade de Jesus estava com eles, Ele desaparece dos seus olhos. Essa percepção afasta a necessidade de visão. Um Jesus em carne não desapareceria perante os seus olhos, nem seria necessário raciocinar para o reconhecer.

Lucas prossegue dizendo que os dois homens regressaram a Jerusalém, encontraram os discípulos e os que estavam com eles, “e eles lhes contaram o que lhes acontecera no caminho, e como deles foi conhecido no partir do pão”. A lembrança do ritual que Cristo tinha ensinado para ser recordado fez com que os homens O reconhecessem. Lucas afirma então: “E, falando eles destas coisas, o mesmo Jesus se apresentou, no meio deles”. Note-se que Jesus aparece subitamente; Ele não bateu à porta. Ele aparece como um instante de compreensão. É a consciência da Sua presença espiritual que aparece - não o Seu corpo físico.

Ao “ver” a realidade espiritual do Cristo ressuscitado, Lucas afirma que os discípulos tiveram medo e “pensavam que viam algum espírito”. Note-se que os discípulos não dizem que viram um corpo. Depois Lucas narra que Jesus diz aos Seus discípulos: “Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo: apalpai-me e vede; pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho.” Lucas descreve que Jesus comeu peixe e favo de mel com os discípulos e depois explicou-lhes que tudo o que tinha acontecido tinha de acontecer pois estava registado nas escrituras. Seguidamente, afirma Lucas, Jesus “abriu-lhes o entendimento, para compreenderem as Escrituras.

Mais uma vez, encontramos uma mistura de imagens físicas e espirituais. Os corpos físicos não aparecem de forma súbita; entram e saem através de portas. Por outro lado, os espíritos não têm carne e ossos. Então o que significa o comentário sobre os espíritos? Parece tratar-se de uma afirmação sobre uma crença e um temor antigos sobre espíritos. Se isso for verdade, então o que se segue faz sentido. A presença de Cristo que eles recordavam e sentiam - aquele que eles agora começavam a “ver” não apenas no mundo vindouro mas também entre eles - era a mesma que esteve com eles neste mundo. Não era uma imagem assustadora, mas familiar. Era o mesmo Jesus que eles conheciam, o que tinha carne e ossos. Era o seu amigo e Senhor, aquele que tinha um corpo físico, aquele a quem eles podiam oferecer peixe e favo de mel e lhes permitia viver e celebrar com confiança.

Os ensinamentos Bahá’ís explicam:
Sobre a Ressurreição de Cristo, você cita o capítulo vinte e quatro do Evangelho de S. Lucas, onde a narrativa salienta o facto da realidade do aparecimento de Jesus aos Seus discípulos que - segundo afirma o Evangelho - ao princípio pensaram ser um fantasma. Do ponto de vista Bahá’í, a crença de que a Ressurreição foi o regresso à vida de um corpo de carne e sangue, e que posteriormente se elevou aos céus não é razoável, nem é necessária à verdade essencial da experiência dos discípulos, que era que Jesus não tinha deixado de existir quando foi crucificado (como era a crença de muitos Judeus desse tempo), mas que o seu Espírito, libertado do corpo, ascendera à presença de Deus e continuava a inspirar e guiar os Seus seguidores e a presidir aos destinos da Sua dispensação. (The Resurrection of Christ, September, 1987, A Casa Universal de Justiça)
----------------------------------
Texto Original: The Gospel of Luke and the Resurrection of Jesus (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Baha'i: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 21 de abril de 2018

Ressurreição: as diferenças entre os Evangelhos de Marcos e Mateus

Por Tom Tai-Seale.


As ressurreições dos Manifestantes Divinos não são do corpo. Todos os Seus estados, as Suas condições, os Seus actos, as coisas que definiram, os Seus ensinamentos, as Suas afirmações, as Suas parábolas e as Suas instruções têm um significado espiritual e divino, e não têm ligação com coisas materiais. (‘Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, p. 103)
Se queremos, realmente, compreender a ressurreição, precisamos estudar as narrativas nos Evangelhos.

Podemos aprender muito sobre a ressurreição examinando as narrativas dos evangelhos pela ordem em que foram escritas. O Evangelho de Marcos - o primeiro dos evangelhos a ser escrito - não continha qualquer narrativa da ressurreição. Na sua obra História da Igreja, Eusébio, o primeiro grande historiador cristão, diz-nos que a narrativa da ressurreição que agora existe em Marcos foi adicionada mais tarde por um autor conhecido como Aristion. A narrativa original terminava com Maria Madalena, Salomé e Maria (a mãe de Tiago) a encontrar um jovem sentado no interior do túmulo vazio. O jovem no túmulo disse-lhes: "Mas ide, dizei aos seus discípulos, e a Pedro, que Ele vai adiante de vós, para a Galileia; ali O vereis, como Ele vos disse."

O versículo seguinte - que diz que elas fugiram do túmulo vazio - encerra a narrativa. Por outras palavras, Marcos não descreveu nenhum reaparecimento físico de Jesus aos Seus discípulos. Alguns argumentam que Marcos sugere uma ressurreição física nesse final, mas isso representa apenas um de muitos significados possíveis. Por exemplo, o jovem que fala no túmulo pode ter pertencido a um grupo enviado para recuperar o corpo e levá-lo para a Galileia. E as suas instruções para as mulheres podem ter simplesmente reforçado a mensagem para ir ao local de encontro pré-estabelecido, conforme especificado em Marcos 14:28. Não está claro se o corpo que eles levaram estava morto ou, devido à necessidade de terminar a crucificação rapidamente, talvez ainda estivesse vivo, embora gravemente ferido.

Como vimos, Marcos escreve que quando as três mulheres foram ao sepulcro e o encontraram aberto também encontraram um jovem sentado no túmulo. Mateus (28:2) relata o mesmo evento de forma diferente: menciona que apenas duas mulheres foram ao sepulcro (não refere Salomé) e que, quando se aproximaram, "houvera um grande terramoto, porque um anjo do Senhor, descendo do céu, chegou, removendo a pedra, e sentou-se sobre ela."

Marcos nada diz sobre um terramoto ou sobre um anjo. À medida que a narrativa de Mateus (28:9) prossegue, o anjo diz às mulheres para saírem e avisarem os discípulos que Cristo se ergueu dos mortos. Ele diz: "E, indo elas, eis que Jesus lhes sai ao encontro, dizendo: Eu vos saúdo. E elas, chegando, abraçaram os seus pés, e o adoraram." Seguidamente, diz-se que Jesus apareceu num monte na Galileia a onze discípulos: “E, quando o viram, o adoraram; mas alguns duvidaram.” (28:17)

Devemos acreditar na visão de Marcos ou de Mateus? Atendendo à inclinação de Mateus para o exagero - como se percebe nas suas narrativas exageradas dos milagres descritos por Marcos - não será a versão de Marcos mais credível? Não estaria Mateus a escrever para um público com paixão e expectativa de milagres? Estaria apenas a relatar algumas das histórias fantásticas que escutara? Ou será que juntou os relatos literais e figurativos e deixou que os leitores fizessem a sua interpretação?

Estas questões não são fáceis de responder, mas algumas observações adicionais podem ajudar-nos a encontrar a verdade. O relato de Mateus é muito espartano. Não contém diálogos. As duas Marias e os onze discípulos nada têm a dizer a Jesus - o que é improvável, se de facto Jesus tivesse ressuscitado fisicamente. A acção também passa de um lugar para outro sem explicação dos passos intermédios. Jesus vai do sepulcro para a Galileia e depois para lugar nenhum. Nada é dito sobre para onde vai Jesus, nem o que Ele faz após o encontro com as duas Marias, ou depois de encontrar os discípulos. Não acontece a Ascensão final. E por outro lado, o autor mistura imagens materiais e espirituais de uma forma que nos deixa constantemente a questionar qual é qual. Estará ele a falar de um terramoto e um anjo físicos - e qual seria o aspecto do anjo? Será o monte da Galileia uma referência a um monte físico ou a um monte de fé? Terá a ressurreição sido física ou espiritual? E se fosse física como poderia algum discípulo duvidar?

Os Bahá’ís acreditam que apenas podem ser respondidas se recusarmos o sentido literal destas narrativas. No próximo artigo sobre Lucas e João, essa conclusão torna-se ainda mais forte.

----------------------------------
Texto Original: The Conflicting Gospels of Mark and Mathew (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Baha'i: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 14 de abril de 2018

Tahirih: a Emancipadora das Mulheres no Médio Oriente

Por Linda Ahdieh.

Em meados do século XIX, um jovem persa chamado Siyyid Ali Mohammad - o Bab - anunciou ser o Prometido de Deus.

Os fiéis Muçulmanos, que durante anos desejaram a vinda do Prometido, viram-se subitamente perante dúvidas, alegria enorme e esperança desenfreada. O Báb (que significa “o Portão”) afirmava que tinha chegado uma nova Fé e desafiou as pessoas a investigarem livremente as Suas afirmações. Alguns ficaram inebriados de amor pelo Báb e abraçaram a sua causa. Outros, confusos, continuaram perdidos na procura da verdade. E houve ainda outros que, com o maior preconceito e descrença, e temendo perder o seu estatuto e autoridade, tentaram apagar a chama da recém-nascida Fé Bábi.

Inspirados por profecias dos textos sagrados e pela orientação e ensinamentos dos seus mestres espirituais, várias pessoas procuravam a verdade e viajavam em busca do Prometido. Antes do Bab proclamar publicamente a Sua nova Fé, dezoito seguidores (conhecidos na história como Letras dos Viventes) reconheceram-No de forma independente e levantaram-se para divulgar os Seus ensinamentos.

Entre as dezoito Letras dos Viventes havia uma única mulher. Ela aderiu à fé do Báb numa época em que as mulheres eram, na prática, servas dos homens e estavam absolutamente privadas de qualquer poder, reconhecimento ou voz. As pessoas acreditavam que as mulheres eram fracas, que eram criadas apenas para ter filhos e cuidar do lar, e que não tinham qualquer papel na sociedade.

Num ambiente desses, o aparecimento de uma mulher altamente educada, revolucionária e corajosa, com sabedoria e conhecimento incomparáveis, foi um acontecimento único e espantoso. Esta mulher nobre e distinta, chamada Fatimeh, era como uma estrela brilhante, iluminando a Pérsia com as suas palavras poéticas e acções corajosas. Tornou-se uma figura mítica, que ainda hoje é reverenciada.

Casa de Tahirih em Qazvin.
Fatimeh era filha de um conhecido clérigo muçulmano de Qazvin. O seu tio também era um clérigo particularmente influente e tinha autoridade absoluta na cidade. Desde muito nova, Fatimeh estudou profundamente os temas religiosos. Teve a sorte de poder aceder à biblioteca particular do seu pai e da sua prima, o que lhe permitiu passar grande parte do seu tempo a aprender, estudar e investigar. Rapidamente, a sua compreensão profunda e o poder das suas palavras eloquentes atraíram os corações de muitos dos seus familiares e amigos, e sua fama como erudita e pensadora poderosa cresceu.

Com os seus estudos - e apesar da forte oposição do pai e do tio - ela desenvolveu um interesse pelos ensinamentos dos Shaykhi Sufis. Por fim, reconheceu a verdade dos ensinamentos do Shaykh Ahmad Ahsai - que tinha previsto o aparecimento do Prometido - e começou a corresponder-se com o seu sucessor, Siyyid Kazim Rashti. O seu estilo de escrita e os temas da sua investigação foram tão convincentes e profundos que Siyyid Kazim lhe concedeu o título de “Consolo dos Olhos” (Qurratu'l-Ayn).

Os alunos de Siyyid Kazim, que sabiam sobre o seu profundo conhecimento, pediram-lhe que lhes fosse permitido aprender com ela. Ela aceitou o pedido deles e - porque uma mulher naquele tempo e lugar não podia enfrentar homens em público - deu as aulas por detrás de uma cortina, respondendo às muitas perguntas sobre religião e jurisprudência dos seus novos alunos. Isso aumentou a sua fama nos países vizinhos. Ter uma mulher professora na escola de jurisprudência era algo inédito!

Durante esses anos, a notícia do aparecimento do Báb espalharam-se pelas cidades e montanhas, e chegaram a Fatimeh, primeiramente num sonho, quando ela:
... jejuava de dia, praticava disciplinas religiosas, passava a noite em vigílias e entoava orações. Certa noite, quando se aproximava o amanhecer, deitou a sua cabeça na almofada, perdeu toda a consciência desta vida terrena e teve um sonho; na sua visão, um jovem, um Siyyid, vestindo um manto preto e um turbante verde, apareceu-lhe no céu; ele parado no ar, a recitar versículos e a rezar com as mãos erguidas. Imediatamente, ela memorizou um desses versículos e escreveu-o no seu caderno quando acordou. Depois do Bab anunciar a Sua missão... um dia, [ela] estava a ler uma parte de um texto, e encontrou o mesmo versículo, que tinha escrito após o sonho. Imediatamente deu graças, e caiu de joelhos curvando a testa no chão, convencida de que a mensagem do Bab era a verdade. (‘Abdu’l-Bahá, Memorials of the Faithful, pp. 193-194)
Numa carta e em algumas linhas de poesia, ela transmitiu ao Bab o seu reconhecimento da Sua mensagem. Ao receber a carta de Fatimeh, o Bab aceitou a sua fé - e ela tornou-se a única mulher entre as Letras dos Viventes.

Isto demonstrava que, na nova revelação, mulheres e homens são iguais, e que as mulheres rapidamente conquistariam um lugar central na sociedade.

Após reconhecer a nova revelação, Fatimeh dedicou a sua vida à divulgação os ensinamentos do Báb. Isso trouxe-lhe muitos problemas e enorme sofrimento. À medida que a sua fama crescia, aumentava a oposição pública da sua família contra ela. Fatimeh ignorou os ataques, e através das suas palavras escritas e proferidas, chegou a muitos Bábis em todo o país e regou a árvore da sua fé.

Em 1848, deslocou-se à aldeia de Badasht, onde participou numa importante conferência planeada por Bábis proeminentes para anunciar a nova revelação e revogar a lei muçulmana. Nesta conferência, recebeu o título de "Tahirih" - “a Pura”.

Durante a conferência de Badasht, Tahirih desempenhou um papel histórico que simbolizou a separação da Fé Bábi de anteriores dispensações religiosas. As suas acções ilustraram a absoluta independência da revelação do Báb e também elevaram o estatuto e a condição das mulheres em todo o Médio Oriente. Na conferência, Tahirih retirou o véu que lhe cobria o rosto em público - um acto simbólico absolutamente chocante para aquele tempo e lugar - e aconselhou todas as mulheres a levantarem-se e a reivindicarem os direitos humanos dados por Deus, encorajando-as a lutar na área da educação e serviço social. Defendeu aberta e radicalmente a emancipação das mulheres.

Dois anos após a conferência, foi detida e levada para Teerão; ficou presa e em 1852 foi assassinada por ordem da corte real. Como milhares de Bábis durante esse tempo, ela deu a sua vida pelas suas crenças. A história reconheceu a grande contribuição de Tahirih para a reforma social e colocou-a entre aquelas mulheres cujos nomes iluminarão para sempre a história da humanidade. Edward G. Browne, um conceituado orientalista britânico, escreveu:
O aparecimento de uma mulher como Qurratu'l-Ayn é em qualquer país e em qualquer época um fenómeno raro, mas num país como a Pérsia é um prodígio, ou melhor, quase um milagre. Igualmente devido à sua maravilhosa beleza, aos seus raros dons intelectuais, à sua fervorosa eloquência, à sua destemida devoção e ao seu glorioso martírio, ela destaca-se de forma incomparável e imortal entre as suas compatriotas. Se a religião Bábi não tivesse outra pretensão de grandeza, isto seria suficiente: produziu uma heroína como Qurratu'l-Ayn.

----------------------------------
Texto Original: Tahirih: the Great Emancipator of Middle Eastern Women (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Linda Ahdieh Grant pertence à sétima geração de Bahá’ís. Tem Doutoramento na John Hopkins University School of Public Health e foi professor de epidemiologia. É casada em tem dois filhos. Actualmente é professora na School of Public Health at Emery University, em Atlanta, Georgia.

sábado, 7 de abril de 2018

O Filho do Homem está no Céu

Por Tom Tai-Seale.

Observa que se diz: "O Filho do Homem está no céu", apesar de naquele tempo Cristo ter estado na terra. Repara também que se diz que Cristo veio do céu, embora tenha vindo do ventre de Maria, e o Seu corpo nasceu de Maria. É claro, portanto, que quando se diz que o Filho do Homem veio do céu, isso não tem um significado exterior, mas sim interior; é um facto espiritual, não material. O significado é que, apesar de aparentemente Cristo ter nascido do ventre de Maria, Ele, na realidade, veio do céu, do centro do Sol da Realidade, do Mundo Divino e do Reino Espiritual. E como se tornou evidente que Cristo veio do céu espiritual do Reino Divino, então, o Seu desaparecimento da terra durante três dias tem um significado interior e não é um facto exterior. Do mesmo modo, a Sua ressurreição no interior da terra também é simbólica; é um facto espiritual e divino, e não material; e do mesmo modo, a ascensão ao céu é uma ascensão espiritual e não material. (‘Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, pp. 103-104)
Alguns cristãos seguem fielmente uma interpretação literal da Bíblia e acreditam que o próprio Paulo viu Jesus ressuscitado na carne - mas a Bíblia contém fortes evidências contra essa visão simplista e literal. Os Bahá'ís acreditam - como ‘Abdu'l-Bahá explica no parágrafo acima - que apenas podemos abordar e compreender verdadeiramente os Livros Sagrados de qualquer religião como simbólicos e metafóricos. O seu sentido espiritual, tão profundo e significativo, escapa-nos se o tratarmos como um simples relato literal de acontecimentos reais.

Por exemplo, Paulo disse aos Gálatas (1:12) que o evangelho que ele pregou não foi recebido de nenhum homem, mas que foi recebido de uma revelação de Jesus Cristo. Da mesma forma, ele diz aos Efésios (3: 3) que foi através de uma revelação que o segredo de Deus lhe foi dado a conhecer. As revelações não têm corpos. Assim, Eusébio, o primeiro historiador da igreja na sua obra História da Igreja, afirma que Paulo recebeu o seu chamamento através de uma visão. O Jesus que Paulo conheceu foi o glorificado pelo Pai, o que, segundo a sua própria terminologia farisaica, foi ressuscitado. Por outras palavras, Paulo não encontrou o corpo físico de Cristo, mas a Sua realidade espiritual. Paulo sabia bem que Jesus havia subido ao Seu legítimo lugar no reino de Deus e que, seguindo os passos de Cristo, nós também poderíamos ser salvos. Esta mensagem de ressurreição, tão central para o Cristianismo de Paulo, não pode ser entendida literalmente.

Alguns insistem e argumentam que Paulo conheceu Jesus em carne na estrada de Damasco. Mas esse argumento falha porque Paulo não escreveu o relato do seu encontro com um Cristo ressuscitado na estrada de Damasco. Se Paulo, que nunca era parco de palavras, realmente tivesse conhecido Jesus em carne na estrada para Damasco, certamente ele teria escrito repetidamente sobre isso. Mas não o fez. Quando Paulo fala de ter "visto" Jesus (por exemplo, 1 Cor 9: 1), ele não estava a falar de ver Jesus na carne. Pelo contrário, ele falava do que viu com percepção em vez de visão, de revelação e não de corpo. Paulo escreve (1 Tim 3:16): "Aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito". Este Espírito, dizem as palavras seguintes, não foi visto pelos homens, mas "visto dos anjos". Neste contexto, os comentários de Paulo fazem sentido.

Quando entendido na ampla perspectiva do passado de Paulo no farisaísmo (que acreditava numa ressurreição espiritual) e a forma como Paulo usa a linguagem (o que lhe permitia usar metáforas livremente), somos levados a concluir que a ressurreição de que Paulo falou não era uma ressurreição física.

----------------------------------
Texto Original: The Son of Man is in Heaven (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 24 de março de 2018

Uma Aliança eterna com Deus

Por David Langness.


Em todas as religiões, Deus faz uma promessa à humanidade.

Quando, no Antigo Testamento, Deus fala a Moisés, essa promessa explícita tem a seguinte forma:
E agora, se escutardes bem a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade particular entre todos os povos, porque é minha a terra inteira. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa. Estas são as palavras que transmitirás aos filhos de Israel. (Êxodo, 19: 5-6)
Designada como Aliança Mosaica, Deus deu a Moisés os Dez Mandamentos e, por Seu lado, exigiu que as pessoas concordassem em adorar um único Criador e obedecessem àquelas leis morais. No Novo Testamento da Bíblia, surge um pacto semelhante entre Deus e a humanidade, a que os Cristãos chamam Nova Aliança:
Se, na verdade, a primeira fosse perfeita, não haveria lugar para a segunda. De facto, censurando-os, diz: Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que farei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova, não como a aliança que fiz com os seus pais no dia em que os tomei pela mão, para os fazer sair do Egipto; porque eles não permaneceram na minha aliança, também Eu me desinteressei deles - diz o Senhor. Esta é a aliança que estabelecerei com a casa de Israel, depois daqueles dias. Diz o Senhor: Porei as minhas leis na sua mente e as imprimirei nos seus corações; serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Ninguém ensinará o seu próximo nem o seu irmão, dizendo: ‘Conhece o Senhor’; porque todos me conhecerão, do mais pequeno ao maior, pois perdoarei as suas iniquidades e não mais me lembrarei dos seus pecados. Ao falar de uma aliança nova, Deus declara antiquada a primeira; ora, o que se torna antiquado e envelhece está prestes a desaparecer. (Hebreus 8:7-13)
Podemos encontrar a visão Cristã elementar da Nova Aliança no Evangelho de João; Jesus Cristo inicia esse pacto na Última Ceia, dando um novo mandamento - "o décimo primeiro":
Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros. (João 13:34-35)
No Islão, o conceito de aliança aparece novamente, distinguindo a fé da hipocrisia e pedindo aos fiéis que mantenham as suas promessas de cumprir os mandamentos de Deus:
Em verdade, Deus pede-vos que façam justiça e bem, e dêem aos familiares (o que é devido), e Ele proíbo-vos de pecar, fazer o mal e de oprimir; Ele adverte-vos para que possais estar atentos!

Obedecei à aliança de Deus com que vos comprometeste, e não quebreis os vossos juramentos depois de os afirmar, porque assim tereis a Deus como vossa garantia; em verdade, Deus sabe o que fazeis. (Alcorão 16:90-91)
Os ensinamentos Bahá’ís levam o conceito de aliança ainda mais longe, associando-a directamente ao alcançar de uma existência eterna:
Hoje, o poder vibrante nas artérias do corpo do mundo é o espírito da Aliança - o espírito que é a causa da vida. Quem for vivificado com este espírito, manifestará a frescura e a beleza da vida, estará baptizado com o Espírito Santo, nascerá de novo, estará libertado da opressão e da tirania, da negligência e da dureza que enfraquece o espírito, e alcançará vida eterna. Louvado seja Deus, pois estás firme na Aliança e no Testamento, e volves o teu rosto para o Luminar do mundo, Sua Alteza, Bahá’u’lláh. ('Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 6, pp. 263-264)
Os Bahá'ís acreditam que existe - e sempre existiu - apenas uma Aliança eterna. Todos os profetas de Deus renovam essa Aliança permanente de maneira diferente, mas todos se ligam numa corrente progressiva de revelações sucessivas. Para distinguir as diferentes versões dessa Aliança, designamo-las como aliança de Abraão, a aliança de Moisés, a nova aliança de Cristo ou a aliança de Maomé; mas, na realidade, Deus apresenta-nos a mesma aliança em cada nova dispensação religiosa. Ele promete nunca deixar a Sua criação sem a Sua sabedoria e orientação.

Conhecemos esta aliança permanente por muitos nomes. No Génesis, a história de Adão e Eva e o Jardim do Éden descreve a história da aliança, tal como a narrativa de Noé e o Dilúvio. A Arca de Noé representa a aliança, e a aliança de Noé com Deus - que inclui uma promessa de nunca mais destruir toda a vida na Terra - usa um arco-íris como símbolo desse acordo eterno. No Cristianismo, Jesus fez uma aliança com os Seus seguidores para se dirigirem para Pedro, "a rocha" base da Sua igreja. No Islão, a famosa narrativa de Fama-Gadeer ordena aos seguidores de Maomé para se dirigirem ao seu sucessor Ali. Na Fé Bahá'í, a aliança de Bahá’u’lláh - que promete uma revelação posterior, e nomeia ‘Abdu’l-Bahá como intérprete autorizado e exemplo dos Seus ensinamentos - pede a cada crente que se dirija fielmente a esse Centro da Aliança para orientação e inspiração.

Visto nesta perspectiva contínua e perpétua, os ensinamentos Bahá’ís dizem-nos que a nossa actual aliança com Deus representa a fonte inspiradora e espiritual de progresso e ordem no mundo:
A Aliança é um Orbe que brilha e resplandece para o universo. Em verdade, as suas luzes dissiparão a escuridão, o seu mar lançará a espuma da dúvida sobre as praias da perdição. Em verdade, nada no mundo pode resistir ao poder do Reino. Se toda a humanidade se unisse, poderia impedir que o sol desse a sua luz, que os ventos soprassem, que as nuvens dessem chuva, que as montanhas fossem firmes ou que as estrelas brilhassem? Não! Pelo Senhor, o Clemente. Tudo (no mundo) está sujeito à corrupção, mas a Aliança do teu Senhor continuará a permear todas as regiões. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 3, p. 170)

-----------------------------
Texto original: One Continuous Covenant with God (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 10 de março de 2018

No tempo de Cristo, eu acreditaria em quê?




Considera o passado. Quão numerosos, nobres e humildes, em todos os tempos, aguardaram ansiosamente o advento dos Manifestantes de Deus na pessoa santificada dos Seus Eleitos. Quantas vezes esperaram a Sua chegada, quantas vezes oraram para que soprasse a brisa da misericórdia divina, e surgisse a Beleza prometida por trás do véu da ocultação, e se manifestasse a todo o mundo. E sempre que os portais da graça se abriram e as nuvens da dádiva divina lançaram chuva sobre a humanidade, e a luz do Invisível brilhou no horizonte do poder celestial, todos eles O negaram e se afastaram do Seu rosto - o rosto do próprio Deus. Para verificar esta verdade, procura aquilo que foi registado em todo o Livro Sagrado. (Bahá’u’lláh, O Livro da Certeza, ¶3)

Nos dias imediatamente seguintes à crucificação de Jesus Cristo, pode ter parecido à maioria das pessoas que Ele tinha sido apenas um impostor, talvez um dos muitos que tinham proferido afirmações semelhantes e que, no fim, receberam o devido castigo. Aparentemente, os poderes existentes saíram vitoriosos: o “Messias” estava morto, os que lhe eram próximos estavam desmoralizados e escondidos; e os que mostraram simpatia pela sua mensagem encontravam-se silenciados e desiludidos.


Essa apreciação, porém, não considerava o verdadeiro poder de Cristo, que nasceu do Espírito Santo, e que não podia ser reconhecido de acordo com os padrões normais. Esse poder espiritual, actuando primeiramente sobre o seu pequeno grupo de discípulos, conseguiu transformar os primeiros Cristãos em gigantes espirituais cujas proezas estabeleceriam com sucesso a nova fé em todos os locais do mundo antigo. E com o passar do tempo, essa mesma força transformaria uma comunidade pequena e perseguida - que primeiramente era uma entre uma multidão de cultos e seitas contemporâneas - numa grande religião mundial. Afinal, Cristo triunfou.

Hoje, milhões de pessoas acreditam que Cristo tinha uma autoridade e um poder vindos de Deus. Os Seus feitos e os dos Seus seguidores - apesar da sua total falta de recursos materiais, autoridade política ou prestígio mundano - são hoje considerados pelos crentes como prova da Sua condição divina.

É importante lembrar que esta perspectiva histórica nos dá uma grande vantagem sobre as pessoas do mundo antigo. Pouquíssimas pessoas nos primeiros dias - até ao século II EC - seriam capazes de prever o futuro que estava reservado para a sua fé.

Provavelmente a seguinte pergunta ocorreu à maioria dos Cristãos e é tema incontáveis homilias e sermões: Em que é que eu teria acreditado se fosse vivo no tempo de Cristo?

É uma coisa séria que nos faz pensar. Quantos de nós teríamos reconhecido nosso Senhor e Salvador, num carpinteiro de Nazaré, durante a Sua vida ou em qualquer momento durante os dois séculos que se seguiram? Teríamos ficado sensibilizados pela história da Sua vida e ensinamentos, ou tê-Lo-íamos desprezado? Teríamos aceitado a explicação dos Evangelhos sobre como Ele cumpriu as promessas dos antigos profetas, ou ter-nos-íamos apegado às nossas próprias noções de como essas promessas deveriam ser cumpridas? Os nossos corações seriam tocados pelo Seu amor, pelo Seu sofrimento e pelo Seu sacrifício; ou, como a maioria dos outros, teríamos ficado indiferentes?

Muitas vezes, estas perguntas levam-nos a outra: se Ele voltasse hoje à terra em circunstâncias semelhantes, seríamos capazes de O reconhecer, ou falharíamos nesse teste?

Os feitos do Báb, a Sua personalidade, os seus ensinamentos e as suas provações apresentam um paralelo notável com a vida de Jesus de Nazaré. O Bab proclamou-se Mensageiro de Deus. Os Seus ensinamentos eram espiritualmente profundos e desafiadores. Durante a Sua própria vida, Ele atraiu para a Sua Causa milhares e milhares de seguidores devotados, muitos dos quais - tal como os primeiros cristãos - demonstrariam com o seu próprio sangue a sinceridade da sua fé.

Jovem, corajoso e dócil, o Báb possuía uma natureza afectuosa que exercia uma influência magnética e transformadora sobre aqueles com quem contactava. Realizou um ministério breve e tumultuoso com uma determinação implacável e - para muitos observadores - com um desprezo quase imprudente pela Sua própria segurança pessoal. Embora não fosse rico e não pertencesse a uma das classes instruídas ou dominantes, Ele - graças ao poder divino da Sua personalidade e da Sua palavra - fundou uma nova fé que desafiou as tradições e os dogmas da ordem existente.

O Báb foi forçado a viajar sem destino ao longo do Seu ministério. Experimentou a adulação das massas, apenas para, no final, vê-las voltarem-se contra Ele. Foi o alvo da ira dos poderes estabelecidos - em especial do clero. Nos últimos meses, foi interrogado pelos mais altos funcionários, religiosos e governamentais, que mais tarde proferiram a Sua sentença da morte. Finalmente, sofreu uma execução pública cruel, recusando-Se até ao fim a renunciar às Suas afirmações ou comprometer a Sua doutrina.

----------------------------------

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Kenneth E. Bowers é autor do livro “God Speaks Again” e vive com a família em Chicago. Actualmente é membro da Assembleia Espiritual Nacional ds Estados Unidos

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Falar de sexo no casamento




No casamento somos parceiros iguais com muitas aspirações que provavelmente incluem um relacionamento sexual mutuamente satisfatório.

Saber como agradar um ao outro e criar uma vida sexual agradável e feliz pode acontecer com uma comunicação carinhosa, diálogo respeitoso e vontade de crescer juntos.

Aprender a conversar sobre sexo de forma eficaz é uma das tarefas únicas que um casal descobre em conjunto. Há que gerir o equilíbrio entre ser franco e honesto, e ser amoroso e delicado. Além disso, se somos sensíveis um com o outro, podemos ouvir claramente as perspectivas do outro. Nos ensinamentos Bahá’ís, esse tipo de comunicação afectuosa chama-se de consulta:

A consulta confere uma maior consciência e transforma conjecturas em certeza. É uma luz brilhante que, num mundo sombrio, indica o caminho e orienta. Para tudo, existe e existirá um lugar de perfeição e maturidade. A maturidade do dom da compreensão manifesta-se através da consulta. (Bahá’u’lláh, de uma epístola a um Baha'i individual)

Uma linguagem gentil é o imã dos corações dos homens. É o pão do espírito, que veste as palavras com significado, é a fonte da luz da sabedoria e da compreensão... (Gleanings fromthe Writings of Baha’u’llah, CXXXII)

Falar entre si sobre sexo pode ser um desafio para muitos casais. É um assunto profundamente pessoal associado à vulnerabilidade e sensibilidades. Pode-se ferir facilmente os sentimentos do outro; por isso é particularmente importante ter uma abordagem franca, mas delicada. Dada a sensibilidade deste assunto, o tom de voz é tão importante como as palavras que se usam. Para ter uma comunicação de alta qualidade, é melhor minimizar as distracções e tratar primeiramente de factores como a fome ou a fadiga.

Nem tudo o que um homem sabe pode ser revelado, nem tudo o que pode ser revelado pode ser considerado oportuno, nem toda a palavra oportuna pode ser considerada adequada à capacidade daqueles que a escutam. (Idem, LXXXIX)

O sexo e a sexualidade são complexos e incluem uma grande variedade de atitudes, convicções, valores, preferências, expectativas e histórias. O sexo é um tema que muitas pessoas não estão acostumadas a discutir, e tende a ser um assunto de muita exigência. O resultado pode ser desentendimento e um afastamento emocionalmente doloroso. Não é surpreendente, portanto, que os casais evitem o assunto do sexo, especialmente se as discussões anteriores não correram bem.

Cada pessoa tem uma história de compreensão e experiências sexuais moldadas pelo mundo ao seu redor. Em alguns casos, a vergonha ou a culpa sobre acções passadas, ou trauma de experiências de abuso, podem afectar a vida íntima de um casal. Uma oportunidade maravilhosa de cura e crescimento surge quando os cônjuges se escutam um ao outro de forma compassiva e solidária. Desta forma, podem abordar juntos as influências negativas do passado e, se necessário, procurar aconselhamento de profissionais.

As conversas sobre sexo têm a vantagem de nos dar a conhecer a sexualidade humana e a reprodução. É importante distinguir as fontes de informação e procurar informações científicas de confiança. A pornografia não é uma fonte de informação fiável. Os casais podem aprender mais sobre sexo no contexto de uma relação matrimonial, e juntos ajustarem-se às complexidades das mudanças de anatomia, fisiologia e emoções ao longo da sua vida. Este conhecimento capacita as mulheres e os homens a entenderem o seu funcionamento sexual e a ter mais confiança um no outro.

Os cônjuges ​​que estão conscientes da sua realidade espiritual podem experimentar uma ligação íntima entre as suas almas quando fazem amor. Esta proximidade espiritual ocorre por meio de actos de delicadeza, generosidade, sinceridade e entusiasmo. Ruhiyyih Rabbani escreveu:

Quando unimos o amor com o sexo no contexto apropriado, que é o casamento, temos uma fonte permanente em que obtemos felicidade e força. O sexo pode fortalecer o amor, o amor pode sublimar o sexo numa comunhão espiritual, uma alegria para a alma e para o corpo. (Prescription for Living, p. 87)

Independentemente da existência de problemas entre o casal, uma chave para o crescimento da ligação emocional e sexual é a comunicação. Falem sobre sexo. Conversem sobre possíveis soluções. Se alguém tem dificuldades em falar do assunto, deve começar com um pedido inicial: "Eu quero falar sobre sexo, mas é difícil para mim. Não estou confortável com isso. Podemos conversar juntos?" E a partir daí continuam. As conversas podem explorar as preferências de maneira honesta e delicada, e a aprendizagem mútua é possível. Os cônjuges podem conseguir iniciar esta conversa se começarem por ler juntos uma parte de um livro ou um artigo informativo.

Com uma mentalidade de aprendizagem em acção, a conversa sobre sexo pode ser combinada com toque experimental e comentários sobre o que faz, e o que não faz, sentir-nos bem. As preferências relacionadas com toque sensual variam de pessoa para pessoa. Algumas pessoas podem precisar expandir a sua capacidade de apreciar o toque, e outras podem precisar restringir a expressão sensual. A paixão e a sensualidade são qualidades humanas normais quando expressas de forma equilibrada. Quando os cônjuges são recém-casados, pode ser fascinante conversar sobre os corpos e as sensibilidades de cada um. É um momento para descobrir as preferências e os prazeres sexuais de cada um. Os cônjuges casados há mais tempo também podem usar a exploração sensual para se religarem.

Casais com crianças pequenas por vezes podem cair na preocupação de cuidar das crianças e esquecerem-se um do outro. Os cônjuges beneficiam se eliminarem distracções e tratarem das responsabilidades de modo a terem tempo livre para si e para a sua intimidade conjunta. Casais com crianças aprendem sobre a importância de fechar as portas do quarto e, se necessário, marcar um encontro com a intimidade.

Cada casal é único, mas parece que todos os casais devem desejar conversar para resolver quaisquer problemas e desenvolver uma relação sexual feliz e satisfatória.

Definam todas as coisas, grandes e pequenas, através da consulta. Sem consulta prévia, não tomem nenhum passo importante nos vossos próprios assuntos pessoais. Preocupem-se um com o outro. (‘Abdu'l-Bahá, Lights of Guidance, p. 178)

Quando os cônjuges se sentem confortáveis ​​para conversar sobre todos os aspectos da sua vida conjunta, criam uma intimidade especial, alimentam a sua ligação emocional e melhoram a estabilidade do seu relacionamento. Os casais que valorizam e honram o bem-estar espiritual e sexual mútuo conseguem ter um casamento que se desenvolve organicamente ao longo das suas vidas e se torna uma bênção para ambos.

----------------------------------
Texto Original: Talking about Sex in Marriage (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Kelly Monjazeb é assistente social e tem formação na área da educação sexual. Tem-se dedicado a aconselhamento de problemas relacionados com igualdade de género e sexualidade humana. O seu website é: SpiritFirstSeminars.com
Susanne Alexander é conselheira matrimonial e tem organizado vários cursos sobre casamento. (www.marriagetransformation.com; www.bahaimarriage.net). 

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Harmonizar Sexualidade e Espiritualidade no Casamento



Os ensinamentos Bahá'ís sustentam que a intimidade sexual é um acto profundo de unidade no casamento e que a concepção e criação de filhos é um propósito sagrado dessa unidade.

Além de ter filhos, a intimidade sexual saudável no casamento contribui tremendamente para o bem-estar mental, emocional, espiritual e físico dos cônjuges. A saúde sexual no casamento é importante.

A ideia comum no mundo de hoje é que o sexo é principalmente um acto de prazer físico. Esta perspectiva não reconhece a sua realidade sagrada ou a nossa natureza fundamentalmente espiritual. Muitas vezes, as pessoas separam inconscientemente assuntos sexuais e espirituais.

Harmonizar sexualidade e espiritualidade pode ser algo que muitas pessoas não consideram. À medida que se vai compreendendo cada vez melhor este conceito, aumenta a capacidade pessoal de experimentar maiores níveis de coerência entre as convicções espirituais e os actos sexuais. Para conseguir isso, é necessário aplicar a capacidade espiritual em todos os aspectos da vida, incluindo a sexualidade.

O corpo humano é visível, a alma é invisível. É a alma, no entanto, que dirige as faculdades de um homem, que governa a sua humanidade. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 85)

Deste ponto de vista espiritual, também podemos apreciar o propósito de Deus - e a dádiva que Ele nos deu - ao criar o casamento como uma instituição sagrada. Os ensinamentos Bahá'ís exaltam o casamento como uma "fortaleza para o bem-estar", que inclui o bem-estar sexual e social. Esta estrutura social básica apresenta uma oportunidade segura e claramente definida para que os cônjuges se voltem um para o outro com os impulsos sexuais que Deus lhes deu. Isso permite que os casais experimentem uma expressão única, íntima e profunda do seu amor:

... o casamento deve ser uma união do corpo e do espírito, pois aqui marido e mulher estão extasiados com o mesmo vinho, estão ambos enamorados pela mesma Face incomparável, vivem e movem-se pelo mesmo espírito, ambos são iluminados pela mesma glória. Esta ligação entre eles é espiritual, e portanto, é um laço que permanecerá para sempre. Da mesma forma, eles gozam de laços fortes e duradouros no mundo físico, pois, se o casamento se baseia tanto no espírito como no corpo, então essa união é verdadeira, e portanto, irá durar. Se, no entanto, a ligação for física e nada mais, é certo que será apenas temporária e deve terminar inexoravelmente na separação. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #84)

Esta citação Bahá'í reconhece o problema de negligência da natureza espiritual da relação conjugal. Também aparenta validar e oferecer ao casal a possibilidade de experimentar as alegrias espirituais e físicas da sua união sexual.

Considere esta opinião semelhante do escritor Tim Alan Gardner no livro Sacred Sex, A Spiritual Celebration ofOneness in Marriage (Sexo Sagrado, Uma Celebração Espiritual da Unicidade no Casamento):

... Deus poderia ter organizado toda a reprodução de qualquer forma que quisesse: um botão escondido, um aperto de mão super-secreto ou algum intercâmbio facial único que provocasse a concepção. Realmente, Ele poderia ter feito isso. Mas, em vez disso, Ele concebeu o sexo. Deve ter tido um bom motivo, mas qual seria? A resposta, resumidamente, é que Deus queria que o sexo fosse muito mais do que apenas uma coisa muito divertida para marido e mulher fazerem juntos. E Ele queria que fosse mais do que uma maneira extremamente agradável de povoar o planeta. Ele tinha em mente um objectivo muito mais elevado. Deus criou o sexo conjugal como um encontro com o divino. A intimidade sexual, com todas as suas emoções esmagadoras e batimentos cardíacos, nunca teve como objectivo ser apenas experimentada nos reinos emocional e físico. Em vez disso, é uma experiência espiritual, mesmo mística, em que dois corpos se tornam um único. Deus está presente de forma muito real sempre que isso acontece. O sexo é realmente sagrado. É um espaço sagrado partilhado na intimidade do casamento. (pags. 4-5)

Quando um casal dá prioridade ao seu relacionamento espiritual e ao amor mútuo, pode experimentar as alegrias espirituais e físicas dessa união:

... a união deve ser uma verdadeira relação, um encontro espiritual e também físico, de modo que durante toda as fases da vida e em todos os mundos de Deus, a sua união persista; pois essa unicidade real é um brilho do amor de Deus. (Selections from the Writings ofAbdu’l-Baha, #84)

... marido e mulher devem estar unidos tanto física como espiritualmente, para que possam melhorar a vida espiritual um do outro e possam desfrutar da unidade eterna em todos os mundos de Deus. (Idem, #86)

Mais especificamente, quais são algumas das qualidades espirituais, ou virtudes, que um casal pode conscientemente tentar aplicar à sua vida sexual conjunta? Benevolência. Fidedignidade. Honestidade e delicadeza. Generosidade. Criatividade. Respeito. Entusiasmo. Cada uma destas fortalece-se com a prática. Estas são apenas algumas qualidades espirituais que sustentam uma relação sexual vital e feliz. Uma abordagem espiritual para criar um maior grau de unidade e satisfação sexual é perguntar: "Que qualidades (ou virtudes) podemos aplicar a nossa vida íntima?"

Idealmente, os aspectos físicos e espirituais da união conjugal podem ser bem integrados. Dito isto, é comum que os casais enfrentem "incompatibilidades" e dificuldades sexuais. Infelizmente, alguns testes tornam-se impossíveis de superar. No entanto, mesmo as questões mais difíceis podem ser abordadas quando o casal procura entender os problemas sexuais através de uma perspectiva espiritual e ambos estão dispostos a utilizar o casamento como veículo de crescimento pessoal.

Em verdade, o teu Senhor transforma as dificuldades em facilidades, problemas em sossego, e as aflições na maior serenidade. ('Abdu’l-Baha, Tablets of Abdu’l-Baha, Volume 2, p. 311)

Os ensinamentos Bahá’ís encorajam uma abordagem equilibrada ao sexo; aconselham-nos para não sermos ignorantes, desdenhosos ou puritanos, nem a enfatizar demasiadamente a importância do sexo na vida humana. Ao aproveitar a nossa capacidade inata de resolução de problemas e procurar uma perspectiva espiritual que permita o nosso maior e mais holístico bem-estar, estamos a caminho de nos tornamos sexualmente mais maduros e espiritualmente mais integrados, tanto individual como colectivamente.

----------------------------------

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Kelly Monjazeb é assistente social e tem formação na área da educação sexual. Tem-se dedicado a aconselhamento de problemas relacionados com igualdade de género e sexualidade humana. O seu website é website: SpiritFirstSeminars.com

Susanne Alexander é conselheira matrimonial e tem organizado vários cursos sobre casamento. (www.marriagetransformation.com; www.bahaimarriage.net).