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terça-feira, 10 de maio de 2016
Os Bahá'ís - Trailer
Contrariamente aos conceitos de religião como fenómeno divisivo ou irrelevante, este documentário ilustra o impacto profundo que a Fé Bahá'í tem nos seus aderentes.
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Legendado em Português.
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Copiado do canal "The Bahá'ís Film".
sábado, 5 de dezembro de 2015
Eutanásia: uma opção certa ou errada?
Por Jaine Toth.
O campo florescente da bioética continua a apresentar novas propostas, cada vez mais complexas, cada vez mais controversas. Bebés proveta, barrigas de aluguer, investigação em células estaminais, determinação genética, selecção artificial e clonagem: tudo isto passou do reino da ficção-científica, ou da mera suposição, para a realidade. A sociedade agoniza com os seus méritos e a sua moralidade.
Talvez este último aspecto, a moralidade - com as suas comparações entre os impactos no mundo animal e suas implicações subsequentes para a humanidade - fez germinar as sementes há muito adormecidas de preocupações antigas plantadas no solo profundo do meu subconsciente. Agora nasceram, garantindo o seu lugar ao sol do conhecimento, exigindo ser alimentadas com água da compreensão.
As memórias florescem no campo fértil da minha mente - recordações que despertam outra questão bioética: o velho tema da eutanásia.
Rocky, o cão da nossa família que, como a maioria dos animais de estimação, era amado como se fosse um dos nossos filhos, tinha um grande tumor que lhe pressionava a garganta. A morte por asfixia parecia iminente. O veterinário sugeriu, e nós concordámos, que ele podia ajudar Rocky a adormecer num sono mais profundo, onde a dor e o sofrimento não existem.
Matthew, filho adorado do meu querido amigo Joe, tinha um grande tumor que lhe pressionava a garganta - a morte por asfixia era iminente. Os médicos recomendaram tratamentos caros para reduzir o tumor e a família concordou imediatamente; mas o cancro tinha-se infiltrado por todo o corpo. Matthew era um doente terminal dependente de altas doses de morfina que, juntamente com a família e amigos, aguardava o inevitável.
O veterinário pôs fim ao tormento do Rocky; o seu sofrimento terminou misericordiosamente. O tormento de Matthew continuou.
A quem mostramos bondade e misericórdia: Rocky ou Matthew? Apenas a um? Ou, talvez, a ambos? Este é o cerne da nossa moderna controvérsia bioética. Atrevemo-nos a fingir que somos Deus e permitimos que meros seres humanos decidam quando administrar a solução final a um dos seus?
Alguns respondem com um "Sim", defendendo veementemente o seu direito inalienável de fazer essa escolha, e a ajudar a aliviar o sofrimento dos seus entes queridos. Outros têm preocupações válidas de que a ganância, a inconveniência pessoal, ou receio de graves dificuldades financeiras se possam tornar os factores motivadores por trás das decisões tomadas pela família, sem a devida consideração pelos desejos do paciente.
Uns vinculados por uma pura convicção religiosa na sacralidade da vida, e outros que realmente esperam e acreditam em milagres, manteriam um corpo, mesmo numa condição de clinicamente morto, respirando artificialmente, por meios mecânicos e a qualquer custo. Será que os dias adicionais, com o seu sofrimento, dariam à alma do sofredor mais tempo para se preparar para a próxima vida? Ou será que retiram à alma o seu merecido descanso?
Podemos chegar a um compromisso são e aceitável - que não seja a mão que oferece libertação nem a que apresenta quaisquer tratamentos, além de aliviar a dor, tanto quanto possível?
Podemos permitir que a alma rompa a ligação com a sua gaiola mortal, no momento determinado? Em alguns casos, podemos, com a ajuda de uma Unidade de Cuidados Paliativos. Uma UCP e um auxiliar de enfermagem permitiram que eu e a minha irmã acompanhássemos a nossa mãe, em vez de sermos apenas suas enfermeiras. Isso ajudou-nos a tornar os últimos dias da mãe tão confortáveis quanto possível, sem esforços artificiais para prolongar a sua vida. Foi uma dádiva que nos ajudou a aproveitar nosso tempo juntos e nos preparou para aceitar e enfrentar a sua passagem quando a gaiola corporal liberta a alma.
Confrontada com esta escolha, procurei orientação nas Escrituras Bahá’ís. Mas sobre este e outros assuntos, nada definitivo foi ainda estabelecido. De uma forma geral, Bahá'u'lláh aconselhou os Bahá'ís a "procurar o aconselhamento de médicos competentes", consultar com todos os envolvidos e tomar uma decisão em conjunto. Aprecio profundamente este conselho da minha fé sobre tomada flexível de decisão, que felizmente não tem “uma medida igual para todos”, e que valoriza muito os conselhos de profissionais e a opinião das pessoas mais afectadas.
A Casa Universal de Justiça respondeu uma pergunta de um Bahá'í sobre este tema em 1974:
Tenhamos presente que devemos respeitar as suas escolhas; não devemos julgá-los, pois também não gostaríamos que os outros nos julgassem.
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Texto original: Euthanasia - Right? Wrong? - Or In-Between? (www.bahaiteachings.org)
Jaine Toth é actriz, escritora e formadora. Vive no Arizona (EUA), perto do Desert Rose Baha'i Institute. É autora de uma coluna semana num jornal.
O campo florescente da bioética continua a apresentar novas propostas, cada vez mais complexas, cada vez mais controversas. Bebés proveta, barrigas de aluguer, investigação em células estaminais, determinação genética, selecção artificial e clonagem: tudo isto passou do reino da ficção-científica, ou da mera suposição, para a realidade. A sociedade agoniza com os seus méritos e a sua moralidade.
Talvez este último aspecto, a moralidade - com as suas comparações entre os impactos no mundo animal e suas implicações subsequentes para a humanidade - fez germinar as sementes há muito adormecidas de preocupações antigas plantadas no solo profundo do meu subconsciente. Agora nasceram, garantindo o seu lugar ao sol do conhecimento, exigindo ser alimentadas com água da compreensão.
As memórias florescem no campo fértil da minha mente - recordações que despertam outra questão bioética: o velho tema da eutanásia.
Rocky, o cão da nossa família que, como a maioria dos animais de estimação, era amado como se fosse um dos nossos filhos, tinha um grande tumor que lhe pressionava a garganta. A morte por asfixia parecia iminente. O veterinário sugeriu, e nós concordámos, que ele podia ajudar Rocky a adormecer num sono mais profundo, onde a dor e o sofrimento não existem.
Matthew, filho adorado do meu querido amigo Joe, tinha um grande tumor que lhe pressionava a garganta - a morte por asfixia era iminente. Os médicos recomendaram tratamentos caros para reduzir o tumor e a família concordou imediatamente; mas o cancro tinha-se infiltrado por todo o corpo. Matthew era um doente terminal dependente de altas doses de morfina que, juntamente com a família e amigos, aguardava o inevitável.
O veterinário pôs fim ao tormento do Rocky; o seu sofrimento terminou misericordiosamente. O tormento de Matthew continuou.
A quem mostramos bondade e misericórdia: Rocky ou Matthew? Apenas a um? Ou, talvez, a ambos? Este é o cerne da nossa moderna controvérsia bioética. Atrevemo-nos a fingir que somos Deus e permitimos que meros seres humanos decidam quando administrar a solução final a um dos seus?
Alguns respondem com um "Sim", defendendo veementemente o seu direito inalienável de fazer essa escolha, e a ajudar a aliviar o sofrimento dos seus entes queridos. Outros têm preocupações válidas de que a ganância, a inconveniência pessoal, ou receio de graves dificuldades financeiras se possam tornar os factores motivadores por trás das decisões tomadas pela família, sem a devida consideração pelos desejos do paciente.
Uns vinculados por uma pura convicção religiosa na sacralidade da vida, e outros que realmente esperam e acreditam em milagres, manteriam um corpo, mesmo numa condição de clinicamente morto, respirando artificialmente, por meios mecânicos e a qualquer custo. Será que os dias adicionais, com o seu sofrimento, dariam à alma do sofredor mais tempo para se preparar para a próxima vida? Ou será que retiram à alma o seu merecido descanso?
Podemos chegar a um compromisso são e aceitável - que não seja a mão que oferece libertação nem a que apresenta quaisquer tratamentos, além de aliviar a dor, tanto quanto possível?
Podemos permitir que a alma rompa a ligação com a sua gaiola mortal, no momento determinado? Em alguns casos, podemos, com a ajuda de uma Unidade de Cuidados Paliativos. Uma UCP e um auxiliar de enfermagem permitiram que eu e a minha irmã acompanhássemos a nossa mãe, em vez de sermos apenas suas enfermeiras. Isso ajudou-nos a tornar os últimos dias da mãe tão confortáveis quanto possível, sem esforços artificiais para prolongar a sua vida. Foi uma dádiva que nos ajudou a aproveitar nosso tempo juntos e nos preparou para aceitar e enfrentar a sua passagem quando a gaiola corporal liberta a alma.
Confrontada com esta escolha, procurei orientação nas Escrituras Bahá’ís. Mas sobre este e outros assuntos, nada definitivo foi ainda estabelecido. De uma forma geral, Bahá'u'lláh aconselhou os Bahá'ís a "procurar o aconselhamento de médicos competentes", consultar com todos os envolvidos e tomar uma decisão em conjunto. Aprecio profundamente este conselho da minha fé sobre tomada flexível de decisão, que felizmente não tem “uma medida igual para todos”, e que valoriza muito os conselhos de profissionais e a opinião das pessoas mais afectadas.
A Casa Universal de Justiça respondeu uma pergunta de um Bahá'í sobre este tema em 1974:
Recebemos sua carta ... em que solicita uma perspectiva Bahá'í sobre a eutanásia e sobre o desligar de sistemas de suporte à vida quando as intervenções fisiológicas prolongam a vida em situações de doenças incapacitante. Em geral, os nossos ensinamentos indicam que Deus, o Dador de vida, pode - apenas Ele - dispor dela como Ele considera melhor, e nada encontrámos no Texto Sagrado sobre estas questões especificas, salvo uma carta a um indivíduo por escrita em nome do amado Guardião pelo seu secretário sobre morte por misericórdia, ou a eutanásia legal, onde se declara: "... esta é também uma questão sobre a qual Casa Universal de Justiça terá de legislar." Até ao momento em que a Casa Universal de Justiça elabore legislação sobre a eutanásia, as decisões sobre o assunto a que você se refere devem ser deixadas à consciência dos responsáveis. (Lights of Guidance, pp 290-291)Matthew recebeu os cuidados da UCP, mas com radiação suplementar. Será que isso prolongou os dias da sua vida? Será que isso tornou esses dias mais confortáveis? Possivelmente, sim; possivelmente não. Foi caro. Foi a escolha deles. Valeu a pena? Teria sido melhor não interferir? Teria sido mais caridoso ajudá-lo a morrer mais cedo? Estes argumentos continuam a ser debatidos. Muitas famílias enfrentam estas situações aparentemente insustentáveis. As suas decisões surgem após grande esforço e angústia.
Tenhamos presente que devemos respeitar as suas escolhas; não devemos julgá-los, pois também não gostaríamos que os outros nos julgassem.
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Texto original: Euthanasia - Right? Wrong? - Or In-Between? (www.bahaiteachings.org)
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Jaine Toth é actriz, escritora e formadora. Vive no Arizona (EUA), perto do Desert Rose Baha'i Institute. É autora de uma coluna semana num jornal.
sábado, 28 de novembro de 2015
A aposta de Pascal
Por David Langness.
Blaise Pascal, o físico, matemático e filósofo francês que viveu no século XVII, escreveu a famosa “aposta de Pascal”, um dos argumentos mais influentes e revolucionários sobre religião e crença alguma vez apresentados. Pascal afirmou que todos fazemos uma aposta com as nossas vidas sobre a eternidade. Vejamos o seu raciocínio:
Na sua aposta, Pascal aconselhou-nos a tomar as nossas decisões importantes da vida com base numa análise racional de risco e recompensa:
No tempo de Pascal, dificilmente alguém tinha o luxo de fazer uma escolha pessoal em matéria de religião. Em vez disso, as pessoas nasciam num sistema de crenças como se fosse um peso da sua herança, cultura ou localização geográfica, não tendo oportunidade de procurar a verdade religiosa por si próprias, e com reduzida margem de escolha nesta matéria. Na era do Iluminismo, porém, as coisas mudaram. O aumento dos níveis de educação e alfabetização fez com que cada vez mais pessoas pudessem decidir por si próprias, depois de considerar cuidadosamente os prós e contras, e avaliar o que seu próprio intelecto e intuição lhes dizia sobre a verdade.
Assim, basicamente, Pascal pede-nos que analisemos a crise da nossa existência, e ao mesmo tempo admite a nossa falta de compreensão plena. Ele reconhece os limites da razão, mas diz que devemos confiar nela. Ele descreve a humanidade como um grupo de seres finitos cercado por uma realidade infinita e essencialmente incognoscível; e acrescenta que nos encontramos "empurrados do não-ser para o ser, durante uma vida breve, apenas para sair novamente, sem qualquer explicação sobre o 'Porquê?'"
Sendo impossível provar através da razão a existência e a não existência de Deus, Pascal afirma que cada pessoa deve pesar as possíveis consequências da sua crença e tomar uma decisão pragmática e bem fundamentada com esses factores em mente. ‘Abdu’l-Bahá e Pascal concordariam que está muita coisa em jogo:
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Texto original: Exploring the New Scientific Proofs for God’s Existence (www.bahaiteachings.org)
David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
No mundo humano, se nós não compreendemos o mundo divino, será isso uma prova de que o mundo de Deus não existe? (‘Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 117)O leitor gosta de fazer apostas? Quer arriscar fazer uma pequena aposta?
Blaise Pascal, o físico, matemático e filósofo francês que viveu no século XVII, escreveu a famosa “aposta de Pascal”, um dos argumentos mais influentes e revolucionários sobre religião e crença alguma vez apresentados. Pascal afirmou que todos fazemos uma aposta com as nossas vidas sobre a eternidade. Vejamos o seu raciocínio:
- Deus existe, ou não existe. A vida continua após a morte, ou acaba.
- Temos de apostar a nossa própria vida num ou noutro. Já existimos; por isso devemos apostar.
- A razão não pode tomar a decisão, porque Deus, por definição, transcende a nossa capacidade de raciocínio.
- Então, vamos avaliar ganhos e perdas da aposta:
- Se Deus existe e você acredita, então você ganha um valor infinito - a vida e a felicidade eternas.
- Se Deus existe e a vida é eterna, e você aposta contra essa possibilidade, então as perdas serão enormes no outro mundo.
- Se Deus não existe e você decide a acreditar e agir como se Ele existisse, então você perde muito pouco.
- Consequentemente, uma pessoa racional deve procurar a espiritualidade, planear viver eternamente, e viver como se Deus existisse.
Na sua aposta, Pascal aconselhou-nos a tomar as nossas decisões importantes da vida com base numa análise racional de risco e recompensa:
... Você tem de apostar. Não é opcional. Você já está envolvido. Qual será a sua escolha, então? Vejamos. Porque você tem de escolher, vamos ver o que lhe interessa menos. Você tem duas coisas a perder, a verdade e o bem; e estão duas coisas em jogo, a sua razão e a sua vontade, o seu conhecimento e a sua felicidade; e sua natureza deve fugir de duas coisas, do erro e da miséria. A sua razão não fica mais chocada por escolher um ou outro, pois é necessário escolher. Este ponto está resolvido. Mas, e a sua felicidade? Vamos avaliar o ganho e a perda em apostar que Deus existe. Vamos estimar essas duas possibilidades. Se você ganhar, ganha tudo; se você perder, não perde nada. Apostemos, então, sem hesitação, que Ele existe. (Pascal, Pensées)Esta forma racional de olhar e avaliar uma escolha essencialmente espiritual também teve um profundo impacto sobre a forma como as pessoas pensam sobre as suas crenças - trazendo a tomada de decisão pessoal, a liberdade de escolha e a investigação independente da verdade para a equação.
No tempo de Pascal, dificilmente alguém tinha o luxo de fazer uma escolha pessoal em matéria de religião. Em vez disso, as pessoas nasciam num sistema de crenças como se fosse um peso da sua herança, cultura ou localização geográfica, não tendo oportunidade de procurar a verdade religiosa por si próprias, e com reduzida margem de escolha nesta matéria. Na era do Iluminismo, porém, as coisas mudaram. O aumento dos níveis de educação e alfabetização fez com que cada vez mais pessoas pudessem decidir por si próprias, depois de considerar cuidadosamente os prós e contras, e avaliar o que seu próprio intelecto e intuição lhes dizia sobre a verdade.
Assim, basicamente, Pascal pede-nos que analisemos a crise da nossa existência, e ao mesmo tempo admite a nossa falta de compreensão plena. Ele reconhece os limites da razão, mas diz que devemos confiar nela. Ele descreve a humanidade como um grupo de seres finitos cercado por uma realidade infinita e essencialmente incognoscível; e acrescenta que nos encontramos "empurrados do não-ser para o ser, durante uma vida breve, apenas para sair novamente, sem qualquer explicação sobre o 'Porquê?'"
Sendo impossível provar através da razão a existência e a não existência de Deus, Pascal afirma que cada pessoa deve pesar as possíveis consequências da sua crença e tomar uma decisão pragmática e bem fundamentada com esses factores em mente. ‘Abdu’l-Bahá e Pascal concordariam que está muita coisa em jogo:
... O homem é imortal e eterno. Aqueles que acreditam em Deus, que estimam o Seu amor, e que atingiram a certeza, gozam aquela vida abençoada a que chamamos vida eterna; mas aqueles que estão velados de Deus, ainda que estejam dotados de vida, vivem nas trevas e a sua vida, em comparação com a dos crentes, é não-existência. (‘Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, (newly revised version), p. 281)
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Texto original: Exploring the New Scientific Proofs for God’s Existence (www.bahaiteachings.org)
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Bahá'ís celebram Aniversários Gémeos
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| Santuários do Báb e de Bahá'u'lláh (à direita) |
Até agora, no Ocidente, estes dois dias sagrados eram celebrados com algumas semanas de intervalo em datas fixas, segundo o calendário gregoriano. Este ano, com a adopção de um novo sistema de calendário, estes dois dias sagrados tornaram-se festas móveis (seguem uma componente lunar dentro do calendário solar) e celebram-se em datas consecutivas. Esta dupla celebração assume um significado simbólico importante pois as missões do Báb e de Bahá’u’lláh estão profundamente interligadas entre si.
O Báb e Bahá’u’lláh nasceram há 196 e 198 anos, respectivamente, e as suas vidas apresentam aspectos notáveis em termos de matéria de história religiosa. Numa homenagem à vida de Bahá’u’lláh realizada no Parlamento Brasileiro, o então deputado Luis Gushiken descreveu as escrituras de Bahá’u’lláh como “o mais colossal trabalho religioso escrito pela pena de um único homem”. Durante seis anos, desde que anunciou a sua missão até ao momento da sua execução pelo governo Persa em 1850, o Báb escreveu textos cuja extensão se estima em meio milhão de versículos; por seu lado, as escrituras Bahá’u’lláh totalizam cerca de 100 volumes. Estes textos foram escritos em Árabe e Persa e apenas uma pequena parte foi publicada; e uma pequeníssima parte foi traduzida para Inglês.
Para assinalar as celebrações que se realizam um pouco por todo o mundo, três epístolas inéditas sobre a importância destas datas foram traduzidas para inglês e outras línguas e divulgadas pelas comunidades Bahá’ís.
E com estas celebrações gémeas a decorrem em mais de 200 países e territórios, a atenção dos Bahá’ís também se focará nas cidades em que o Báb e Bahá’u’lláh nasceram: Shiraz e Teerão, respectivamente. Não fossem as políticas do governo iraniano, certamente dezenas de milhar de Bahá’ís de todo o mundo visitariam estas cidades para assinalar estes Dias Sagrados. Infelizmente, a casa onde o Báb viveu em Shiraz foi destruída pouco depois da Revolução Islâmica de 1979; além disso, as autoridades destruíram deliberadamente as casas associadas à infância de Bahá’u’lláh no norte do Irão.
Durante nestes dias festivos, quando se começam a aproximar os Bicentenários dos Nascimentos de Bahá’u’lláh e do Báb, a Comunidade Bahá’í também aguarda com expectativa a construção de novas casas de adoração no Chile, Camboja, Colômbia, Congo, Quénia, India (Bihar Sharif), Papua Nova Guiné e Vanuatu.
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Traduzido e adaptado de: Baha'is To Celebrate "Twin Holy Days" For First Time Worldwide
terça-feira, 7 de setembro de 2004
Exílio em ‘Akká: Reacções (1)
O início do exílio de Bahá'u'lláh em 'Akká em Agosto de 1868 iniciou-se com um período de tempo em que Ele ficou quase incontactável pelo mundo exterior. Primeiramente os crentes desconheciam o Seu destino. Esta situação deu origem a vários rumores; chegou a dizer-se que Ele se teria afogado em Chipre. Mas a chegada dos exilados persas a 'Akká também fez correr uma série de boatos sobre um misterioso e importante prisioneiro que estaria naquela cidade.

Alguns dos poucos crentes que nesse período estiveram pessoalmente na presença de Bahá'u'lláh, funcionaram como "correio" entre os exilados e o mundo exterior. 'Abdu'l-Bahá enviou uma carta ao Reverendo Leon Rosenberg (um missionário austríaco de origem judaica que trabalhava com judeus em Adrianópolis) descrevendo a chegada a 'Akká e as condições de encarceramento. Rosenberg, por sua vez enviou, em Novembro de 1868, essa carta ao Cônsul Britânico em Adrianópiolis, John Blunt, com a seguinte nota:
Em anexo envio uma carta que recebi do chefe do Babis que está agora no Acre, na Síria.
Tomo a liberdade de lhe solicitar que apresente esta carta a Sua Excelência, o Embaixador Elliot em Constantinopla, cuja poderosa influência solicito, por humanidade e em nome do desafortunado Sheik e seu povo, com o objectivo de induzir o Governo Otomano a aliviar a dureza e até o tratamento cruel a que estão sujeitos pelas autoridades do Acre. Estarei sempre grato a sua Excelência e rezo ao Todo-Poderoso para que o abençoe nos seus esforços.
Lamento profundamente que a doença me impeça de lhe entregar imediatamente cópias destas cartas; além disso, por erro do representante da nossa Comunidade Protestante, os originais - e não as cópias - foram entregues ao Vice-Consul Austríaco. O Sr. Camerloher, não pôde copiá-las a tempo para seguirem no correio, e enviou-as a sua Excelência, o Embaixador Austríaco em Constantinopla, e apenas em 12 de Fevereiro lhe foram devolvidas.[1]

Blunt enviou esta carta e o anexo para a Embaixada Britânica em Istambul. Nessa cidade, Bahá'u'lláh e os seu companheiros tinham vivido durante cerca de 4 meses; Durante esse breve período de tempo, a embaixada persa espalhou uma série de boatos sobre Bahá'u'lláh e conseguiu criar nos meios diplomáticos alguma desconfiança em relação ao exilados. A resposta do embaixador britânico, Henry Elliot, reflecte essa desconfiança:
Procedi a algumas averiguações relativamente aos Babís persas no Acre, em favor dos quais, e a pedido do Sr. Rosemberg, solicitou a minha intervenção... e tenho garantias que não são tratados com dureza, apesar de não lhes ser permitido espalhar as suas doutrinas para lá dos limites da fortaleza.
Os esforços de proselitismo desta seita entre a população muçulmana e a forte mistura de elementos políticos no seu meio, impede-me de exercer qualquer esforço em seu nome, facto que faria com todo o agrado se eles pudessem ser justamente considerados como sendo perseguidos apenas devido às suas convicções religiosas.
A sua adopção de algumas frases de sentido místico, e de alguns excertos da moralidade cristã, constituem, tanto quanto sei, a sua única pretensão a abordar o protestantismo, facto que parece ser um motivo para promover a sua defesa. [2]
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NOTAS
[1] Citado em The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen, pag. 206
[2] Citado em The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen, pag. 207

Alguns dos poucos crentes que nesse período estiveram pessoalmente na presença de Bahá'u'lláh, funcionaram como "correio" entre os exilados e o mundo exterior. 'Abdu'l-Bahá enviou uma carta ao Reverendo Leon Rosenberg (um missionário austríaco de origem judaica que trabalhava com judeus em Adrianópolis) descrevendo a chegada a 'Akká e as condições de encarceramento. Rosenberg, por sua vez enviou, em Novembro de 1868, essa carta ao Cônsul Britânico em Adrianópiolis, John Blunt, com a seguinte nota:
Em anexo envio uma carta que recebi do chefe do Babis que está agora no Acre, na Síria.
Tomo a liberdade de lhe solicitar que apresente esta carta a Sua Excelência, o Embaixador Elliot em Constantinopla, cuja poderosa influência solicito, por humanidade e em nome do desafortunado Sheik e seu povo, com o objectivo de induzir o Governo Otomano a aliviar a dureza e até o tratamento cruel a que estão sujeitos pelas autoridades do Acre. Estarei sempre grato a sua Excelência e rezo ao Todo-Poderoso para que o abençoe nos seus esforços.
Lamento profundamente que a doença me impeça de lhe entregar imediatamente cópias destas cartas; além disso, por erro do representante da nossa Comunidade Protestante, os originais - e não as cópias - foram entregues ao Vice-Consul Austríaco. O Sr. Camerloher, não pôde copiá-las a tempo para seguirem no correio, e enviou-as a sua Excelência, o Embaixador Austríaco em Constantinopla, e apenas em 12 de Fevereiro lhe foram devolvidas.[1]

Blunt enviou esta carta e o anexo para a Embaixada Britânica em Istambul. Nessa cidade, Bahá'u'lláh e os seu companheiros tinham vivido durante cerca de 4 meses; Durante esse breve período de tempo, a embaixada persa espalhou uma série de boatos sobre Bahá'u'lláh e conseguiu criar nos meios diplomáticos alguma desconfiança em relação ao exilados. A resposta do embaixador britânico, Henry Elliot, reflecte essa desconfiança:
Procedi a algumas averiguações relativamente aos Babís persas no Acre, em favor dos quais, e a pedido do Sr. Rosemberg, solicitou a minha intervenção... e tenho garantias que não são tratados com dureza, apesar de não lhes ser permitido espalhar as suas doutrinas para lá dos limites da fortaleza.
Os esforços de proselitismo desta seita entre a população muçulmana e a forte mistura de elementos políticos no seu meio, impede-me de exercer qualquer esforço em seu nome, facto que faria com todo o agrado se eles pudessem ser justamente considerados como sendo perseguidos apenas devido às suas convicções religiosas.
A sua adopção de algumas frases de sentido místico, e de alguns excertos da moralidade cristã, constituem, tanto quanto sei, a sua única pretensão a abordar o protestantismo, facto que parece ser um motivo para promover a sua defesa. [2]
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NOTAS
[1] Citado em The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen, pag. 206
[2] Citado em The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen, pag. 207
terça-feira, 31 de agosto de 2004
'Akká, a Bastilha do Médio Oriente
Assinalam-se hoje 136 anos sobre a chegada de Bahá'u'lláh ao destino do Seu quarto e último exílio.
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Em 1868, o Sultão Otomano, 'Abdu'l-'Aziz, condenou os "exilados persas" a um isolamento rigoroso e perpétuo na colónia penal de 'Akká. Um decreto emitido em 26 de Julho desse ano estipulava o encarceramento e proibia qualquer tipo de relacionamento entre os exilados e os habitantes de dessa cidade. O texto desse decreto foi lido nas mesquitas da cidade, pouco antes da chegada dos exilados; era um aviso para a população.
'Akká[1] é uma das mais antigas cidades do mundo que tem sido continuamente habitada. Está localizada nas costas do Mediterrâneo Oriental e possui um porto natural; está também situada na rota entre Egipto e Mesoptânia, dois berços civilizacionais. Foi referida pelo Egípcios, há mais de 4000 anos; esteve sobre diversos domínios: egípcio, assírio, persa, grego, romano, árabe e cruzado (foi capital do reino cruzado[2] até 1291). Sob domínio otomano começou por ser uma aldeia insignificante, mas em 1749 foi criada a província de 'Akká; foi o reconhecimento pela crescente importância estratégica e comercial da cidade. No séc. XIX, 'Akká era uma cidade-prisão para criminosos e prisioneiros políticos: um escritor chamou-lhe "a Bastilha do Médio-Oriente".
Na manhã de 31 de Agosto de 1868, um vapor austríaco ancorou na baía de Haifa. A bordo seguiam Bahá'u'lláh, Sua família e alguns companheiros; eram 67 pessoas estavam abrangidas pelo decreto do Sultão 'Abdu'l-'Aziz. Na tarde desse dia, um pequeno veleiro procedeu ao transbordo dos exilados para a cidadela de 'Akká. Vários rumores tinham antecedido a chegada daquele grupo; os habitantes ficaram curiosos e confusos; alguns boatos criaram hostilidade e quase confronto. Alguns esperavam no cais para assistir à chegada do "Deus dos Persas".
Numa epístola ao Grão Vizir da Turquia, Bahá'u'lláh escreveu: "Na primeira noite formos privados de bebida e comida... Alguns suplicaram por água, mas isso foi-lhe recusado" [3]
No dia seguinte à chegada, algumas pessoas próximas do Governador vieram como estavam os exilados. Ao dirigirem-se a Bahá'u'lláh perceberam que estavam na presença de Alguém totalmente diferente de todos os outros prisioneiros que alguma vez tinham estado na cidadela.
A hostilidade da população e a brutalidade dos guardas foram particularmente notórias; por essa ocasião 'Abdu'l-Bahá começou a assumir o papel de interlocutor dos exilados e as autoridades. Durante os meses seguintes, a escassez de alimentos e as terríveis condições de higiene causaram doença (malária e desinteria) e três mortes entre os exilados. O episódio mais amargo para Bahá'u'lláh foi a morte do Seu filho Mirzá Mihdi.
A vigilância exercida sobre os exilados era extremamente rigorosa. Qualquer contacto com o exterior apenas se efectuava se se verificasse ser realmente necessário; esses pequenos contactos eram vigiados e acompanhados pelas autoridades. Alguns dos exilados contaram que se era necessário chamar um barbeiro, este vinha acompanhado por um guarda que se mantinha presente enquanto durasse a sua actividade.
Numa epístola Bahá'u'lláh compara a detenção em 'Akká com a anterior detenção em Teerão:
"...após a Nossa chegada a este Local, escolhemos designá-lo como a "Mais Grandiosa Prisão". Apesar de anteriormente termos sido sujeitos a correntes e grilhões noutra terra (Teerão), mesmo assim recusamos referi-la por esse nome. Diz: Ponderai nisso, ó vós, dotados de compreensão." [4]
Quando entre a comunidade bahá'í na Pérsia, se ficou a saber que Bahá'u'lláh estava preso em 'Akká, alguns crentes tentaram viajar até lá. Se na entrada da cidade eram reconhecidos como persas, a entrada era-lhe impedida. Restava-lhes contemplar de longe a cidadela, e a janela da cela de Bahá'u'lláh. Mesmo assim, houve um punhado de crentes que conseguiu visitar pessoalmente Bahá'u'lláh.
Apenas dois anos mais tarde, a vigilância das autoridades afrouxou; de isolamento rigoroso, os isolados passariam para uma espécie de prisão domiciliária. Só então lhes foi permitido algumas facilidades (na aquisição de alimentos, combustível e outros bens) e restabelecidos vários contactos com o exterior.
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NOTAS
[1] - Uma planta Interativa de 'Akká encontra-se aqui. Também este site contém informções interessantes sobre 'Akká.
[2] - 'Akká era conhecida por Ptolemais no mundo antigo e por S. João do Acre no tempo dos Cruzados.
[3] - Citado em GOD PASSES BY, pag 187
[4] - Citado em GOD PASSES BY, pag 185
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Em 1868, o Sultão Otomano, 'Abdu'l-'Aziz, condenou os "exilados persas" a um isolamento rigoroso e perpétuo na colónia penal de 'Akká. Um decreto emitido em 26 de Julho desse ano estipulava o encarceramento e proibia qualquer tipo de relacionamento entre os exilados e os habitantes de dessa cidade. O texto desse decreto foi lido nas mesquitas da cidade, pouco antes da chegada dos exilados; era um aviso para a população.
'Akká[1] é uma das mais antigas cidades do mundo que tem sido continuamente habitada. Está localizada nas costas do Mediterrâneo Oriental e possui um porto natural; está também situada na rota entre Egipto e Mesoptânia, dois berços civilizacionais. Foi referida pelo Egípcios, há mais de 4000 anos; esteve sobre diversos domínios: egípcio, assírio, persa, grego, romano, árabe e cruzado (foi capital do reino cruzado[2] até 1291). Sob domínio otomano começou por ser uma aldeia insignificante, mas em 1749 foi criada a província de 'Akká; foi o reconhecimento pela crescente importância estratégica e comercial da cidade. No séc. XIX, 'Akká era uma cidade-prisão para criminosos e prisioneiros políticos: um escritor chamou-lhe "a Bastilha do Médio-Oriente".
Na manhã de 31 de Agosto de 1868, um vapor austríaco ancorou na baía de Haifa. A bordo seguiam Bahá'u'lláh, Sua família e alguns companheiros; eram 67 pessoas estavam abrangidas pelo decreto do Sultão 'Abdu'l-'Aziz. Na tarde desse dia, um pequeno veleiro procedeu ao transbordo dos exilados para a cidadela de 'Akká. Vários rumores tinham antecedido a chegada daquele grupo; os habitantes ficaram curiosos e confusos; alguns boatos criaram hostilidade e quase confronto. Alguns esperavam no cais para assistir à chegada do "Deus dos Persas".
Numa epístola ao Grão Vizir da Turquia, Bahá'u'lláh escreveu: "Na primeira noite formos privados de bebida e comida... Alguns suplicaram por água, mas isso foi-lhe recusado" [3]
No dia seguinte à chegada, algumas pessoas próximas do Governador vieram como estavam os exilados. Ao dirigirem-se a Bahá'u'lláh perceberam que estavam na presença de Alguém totalmente diferente de todos os outros prisioneiros que alguma vez tinham estado na cidadela.
A hostilidade da população e a brutalidade dos guardas foram particularmente notórias; por essa ocasião 'Abdu'l-Bahá começou a assumir o papel de interlocutor dos exilados e as autoridades. Durante os meses seguintes, a escassez de alimentos e as terríveis condições de higiene causaram doença (malária e desinteria) e três mortes entre os exilados. O episódio mais amargo para Bahá'u'lláh foi a morte do Seu filho Mirzá Mihdi.
A vigilância exercida sobre os exilados era extremamente rigorosa. Qualquer contacto com o exterior apenas se efectuava se se verificasse ser realmente necessário; esses pequenos contactos eram vigiados e acompanhados pelas autoridades. Alguns dos exilados contaram que se era necessário chamar um barbeiro, este vinha acompanhado por um guarda que se mantinha presente enquanto durasse a sua actividade.
Numa epístola Bahá'u'lláh compara a detenção em 'Akká com a anterior detenção em Teerão:
"...após a Nossa chegada a este Local, escolhemos designá-lo como a "Mais Grandiosa Prisão". Apesar de anteriormente termos sido sujeitos a correntes e grilhões noutra terra (Teerão), mesmo assim recusamos referi-la por esse nome. Diz: Ponderai nisso, ó vós, dotados de compreensão." [4]
Quando entre a comunidade bahá'í na Pérsia, se ficou a saber que Bahá'u'lláh estava preso em 'Akká, alguns crentes tentaram viajar até lá. Se na entrada da cidade eram reconhecidos como persas, a entrada era-lhe impedida. Restava-lhes contemplar de longe a cidadela, e a janela da cela de Bahá'u'lláh. Mesmo assim, houve um punhado de crentes que conseguiu visitar pessoalmente Bahá'u'lláh.
Apenas dois anos mais tarde, a vigilância das autoridades afrouxou; de isolamento rigoroso, os isolados passariam para uma espécie de prisão domiciliária. Só então lhes foi permitido algumas facilidades (na aquisição de alimentos, combustível e outros bens) e restabelecidos vários contactos com o exterior.
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NOTAS
[1] - Uma planta Interativa de 'Akká encontra-se aqui. Também este site contém informções interessantes sobre 'Akká.
[2] - 'Akká era conhecida por Ptolemais no mundo antigo e por S. João do Acre no tempo dos Cruzados.
[3] - Citado em GOD PASSES BY, pag 187
[4] - Citado em GOD PASSES BY, pag 185
domingo, 29 de agosto de 2004
O livro do Conde de Gobineau
Joseph-Arthur, Conde de Gobineau (1816-1882) foi um diplomata e escritor francês que trabalhou em várias embaixadas em diferentes países do mundo. Em 1854, foi nomeado primeiro secretário da embaixada francesa em Teerão. Na sua carreira diplomática, o conde Gobineau esteve ainda colocado na Suíça, na Grécia, no Brasil e na Suécia. A queda do Império Francês, em 1870, deixou-o amargurado com a situação política francesa. Nos últimos anos da sua vida abandonou a França e viajou pela Alemanha e pela Itália. Faleceu em Turim em 13 de Outubro de 1882.
Gobineau é recordado, sobretudo, pelo livro Essai sur l'inégalité des races humaines. Este livro defende teorias raciais, nomeadamente a supremacia da raça branca; sustenta ainda que os povos latinos e os judeus tinham degenerado no decorrer da história devido a várias misturas raciais, e que apenas os alemães tinham preservado a pureza ariana.
Não é, portanto, de estranhar que Gobineau seja hoje referido como "o Pai do Racismo" (1).
LES RELIGIONS ET LES PHILOSOPHIES...
Mas Gobineau escreveu outros livros. A sua missão na Pérsia proporcionaram-lhe uma série de contactos que o inspiraram a escrever o livro Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale. Mais de metade dos capítulos deste livro são dedicados à religião do Báb; também aborda outros temas, nomeadamente, o Sufismo e o teatro religioso persa.
Devo confessar que me incomoda o facto de Gobineau ter sido autor do livro que melhor deu a conhecer a religião Bábí no Ocidente, durante o séc. XIX. Não deixa de ser irónico que as origens da Fé Bahá'í (que promove conceitos como a fraternidade entre todos os seres humanos e o fim dos preconceitos raciais) sejam referidas por uma pessoa que defendeu teorias raciais. O livro foi publicado em 1865, dois anos após o regresso de Gobineau da Pérsia, onde ele foi embaixador francês.
Na época em que o livro foi escrito, um dos irmãos de Bahá'u'lláh, chamado Mirzá Yahyá, assumia uma certa proeminência na comunidade babí. Dois cunhados de Yahyá eram funcionários da embaixada francesa, e provavelmente terão fornecido muita informação ao conde. Apesar de conter alguns erros históricos, o livro aborda com rigor os ensinamentos do Báb; ao contrário de anteriores outros autores da época, Gobineau foi capaz de resumir as doutrinas do Báb de forma muito abrangente.
O sucesso do livro foi imediato; passado um ano, foi necessário produzir uma nova edição, facto invulgar para um livro que naqueles tempos abordava este tema. Durante algumas décadas inspirou a imaginação de alguns europeus sobre os heróis Babís e a sua religião. Muitos dos artigos publicados em revistas e jornais na Europa e na América baseiam-se no livro de Gobineau.
EXCERTOS
Sobre a sucessão de Profetas que Deus envia à humanidade, Gobineau escreveu:
Gradualmente, porém, e com passos vacilantes mas ininterruptos, a humanidade avança. A lei de Moisés em breve se tornou insuficiente e a realidade divina incarnou em Jesus, trazendo a Cristianismo. Esse foi um enorme passo em frente. O mundo lucrou suficientemente com isso, de forma que, após um período de tempo inferior ao que é costume, apareceu Maomé. Ele levou os homens um pouco mais longe do que Jesus tinha levado. No entanto, não mais que o seu predecessor, ele conseguiu transmitir-lhes um impulso uniforme, e muitos deles permaneceram obedientes a revelações antiquadas, tal como tinha acontecido anteriormente. Finalmente o Báb apareceu, com a sua revelação, sem dúvida mais completa e... mais progressista...(2)
O Báb tinha profetizado o aparecimento de um novo Profeta a quem se referia com a expressão "Aquele que Deus tornará Manifesto". Gobineau, ao descrever o Bayan(3), refere:
É composto, em teoria, por 19 unidades ou divisões principais, que por sua vez contêm 19 parágrafos cada uma. Mas o Báb escreveu apenas onze destas unidades e deixou as outras oito para o grande e verdadeiro Revelador, para Aquele que completará a doutrina, e em relação ao qual, o Báb não é mais que S. João Baptista era perante Nosso Senhor. A doutrina do Báb é, assim, transitória; é preparatória para o que virá mais tarde; limpa o terreno; abre o caminho… Desta forma, por exemplo, o Báb aboliu o Qiblih, isto é, a prática dos muçulmanos e dos judeus de se voltarem para um determinado ponto no horizonte quando oram… Mas ele não definiu um novo Qiblih para substituir os abolidos, e declara que sobre este assunto não tem nada a decretar, e que o Grande Revelador decidirá sobre isto.
Grande parte do Bayan é dedicado ao anúncio, à explicação e à antecipação do advento desta importante faceta da verdade. O Báb, que não deseja dizer muito sobre isso, pois não está autorizado a fazê-lo, designa o Grande Desconhecido por "Aquele que Deus tornará Manifesto"...
...o Báb pronunciou que o aparecimento d'"Aquele que Deus tornará Manifesto" coincidirá com os preparativos do Juízo Final, e que será esse profeta que, na realidade, levará a humanidade purificada ao seio da Divindade que a aguarda… De acordo com esta descrição, "Aquele que Deus tornará Manifesto" será o Iman Mahdi, será Jesus Cristo vindo sobre as nuvens para julgar a Terra.(4)
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NOTAS/REFERÊNCIAS
(1) - Ver referência a Gobineau no Centro Wiesenthal
(2) - Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale, pag.291
(3) - Principal Livro sagrado da religião Babí
(4) - Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale, pag. 297-298
Gobineau é recordado, sobretudo, pelo livro Essai sur l'inégalité des races humaines. Este livro defende teorias raciais, nomeadamente a supremacia da raça branca; sustenta ainda que os povos latinos e os judeus tinham degenerado no decorrer da história devido a várias misturas raciais, e que apenas os alemães tinham preservado a pureza ariana.
Não é, portanto, de estranhar que Gobineau seja hoje referido como "o Pai do Racismo" (1).
LES RELIGIONS ET LES PHILOSOPHIES...
Mas Gobineau escreveu outros livros. A sua missão na Pérsia proporcionaram-lhe uma série de contactos que o inspiraram a escrever o livro Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale. Mais de metade dos capítulos deste livro são dedicados à religião do Báb; também aborda outros temas, nomeadamente, o Sufismo e o teatro religioso persa.Devo confessar que me incomoda o facto de Gobineau ter sido autor do livro que melhor deu a conhecer a religião Bábí no Ocidente, durante o séc. XIX. Não deixa de ser irónico que as origens da Fé Bahá'í (que promove conceitos como a fraternidade entre todos os seres humanos e o fim dos preconceitos raciais) sejam referidas por uma pessoa que defendeu teorias raciais. O livro foi publicado em 1865, dois anos após o regresso de Gobineau da Pérsia, onde ele foi embaixador francês.
Na época em que o livro foi escrito, um dos irmãos de Bahá'u'lláh, chamado Mirzá Yahyá, assumia uma certa proeminência na comunidade babí. Dois cunhados de Yahyá eram funcionários da embaixada francesa, e provavelmente terão fornecido muita informação ao conde. Apesar de conter alguns erros históricos, o livro aborda com rigor os ensinamentos do Báb; ao contrário de anteriores outros autores da época, Gobineau foi capaz de resumir as doutrinas do Báb de forma muito abrangente.
O sucesso do livro foi imediato; passado um ano, foi necessário produzir uma nova edição, facto invulgar para um livro que naqueles tempos abordava este tema. Durante algumas décadas inspirou a imaginação de alguns europeus sobre os heróis Babís e a sua religião. Muitos dos artigos publicados em revistas e jornais na Europa e na América baseiam-se no livro de Gobineau.
EXCERTOS
Sobre a sucessão de Profetas que Deus envia à humanidade, Gobineau escreveu:
Gradualmente, porém, e com passos vacilantes mas ininterruptos, a humanidade avança. A lei de Moisés em breve se tornou insuficiente e a realidade divina incarnou em Jesus, trazendo a Cristianismo. Esse foi um enorme passo em frente. O mundo lucrou suficientemente com isso, de forma que, após um período de tempo inferior ao que é costume, apareceu Maomé. Ele levou os homens um pouco mais longe do que Jesus tinha levado. No entanto, não mais que o seu predecessor, ele conseguiu transmitir-lhes um impulso uniforme, e muitos deles permaneceram obedientes a revelações antiquadas, tal como tinha acontecido anteriormente. Finalmente o Báb apareceu, com a sua revelação, sem dúvida mais completa e... mais progressista...(2)
O Báb tinha profetizado o aparecimento de um novo Profeta a quem se referia com a expressão "Aquele que Deus tornará Manifesto". Gobineau, ao descrever o Bayan(3), refere:
É composto, em teoria, por 19 unidades ou divisões principais, que por sua vez contêm 19 parágrafos cada uma. Mas o Báb escreveu apenas onze destas unidades e deixou as outras oito para o grande e verdadeiro Revelador, para Aquele que completará a doutrina, e em relação ao qual, o Báb não é mais que S. João Baptista era perante Nosso Senhor. A doutrina do Báb é, assim, transitória; é preparatória para o que virá mais tarde; limpa o terreno; abre o caminho… Desta forma, por exemplo, o Báb aboliu o Qiblih, isto é, a prática dos muçulmanos e dos judeus de se voltarem para um determinado ponto no horizonte quando oram… Mas ele não definiu um novo Qiblih para substituir os abolidos, e declara que sobre este assunto não tem nada a decretar, e que o Grande Revelador decidirá sobre isto.
Grande parte do Bayan é dedicado ao anúncio, à explicação e à antecipação do advento desta importante faceta da verdade. O Báb, que não deseja dizer muito sobre isso, pois não está autorizado a fazê-lo, designa o Grande Desconhecido por "Aquele que Deus tornará Manifesto"...
...o Báb pronunciou que o aparecimento d'"Aquele que Deus tornará Manifesto" coincidirá com os preparativos do Juízo Final, e que será esse profeta que, na realidade, levará a humanidade purificada ao seio da Divindade que a aguarda… De acordo com esta descrição, "Aquele que Deus tornará Manifesto" será o Iman Mahdi, será Jesus Cristo vindo sobre as nuvens para julgar a Terra.(4)
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NOTAS/REFERÊNCIAS
(1) - Ver referência a Gobineau no Centro Wiesenthal
(2) - Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale, pag.291
(3) - Principal Livro sagrado da religião Babí
(4) - Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale, pag. 297-298
quarta-feira, 28 de julho de 2004
Tolstoy e a religião Bahá'í
Tolstoy é recordado como filósofo e escritor russo; ficou na nossa memória colectiva por obras como Guerra e Paz e Anna Karenina. Apesar de educado na Igreja Ortodoxa, foi-se afastando e criticando a igreja; esse afastamento culminou com a sua excomunhão em 1901. De forma persistente investigava os movimentos e ideias religiosas que poderiam contribuir para a sua visão de "estabelecimento do Reino de Deus na terra", isto é, pela substituição de um sistema dominado pela divisão, a falsidade e a violência, por outro onde reinasse a harmonia, a verdade e a fraternidade.
Tolstoy tomou conhecimento dos ensinamentos bahá'ís em 1894, numa época em que estes ainda eram pouco ou nada conhecidos no Ocidente, e o seu dirigente estava prisioneiro numa remota colónia penal do Império Otomano.
Em 1901, em resposta a um governante persa, Arfa'u'd-Dawlih, escreveu: "Acredito que em toda a parte, tal como os Bábís entre vós, na Pérsia, existem pessoas que professam a verdadeira religião e que apesar das perseguições que estas pessoas estão expostas, as suas ideias propagam-se cada vez mais e mais, e triunfarão sobre a barbaridade e ferocidade dos Governos, e acima de tudo sobre a mentira em que tentam manter os seus povos"(1)
Nesse mesmo ano, recebeu a visita de um médico berlinense, Dr. Cleanthes Nicolaides, que tinha viajado pela Pérsia. Tolstoy disse-lhe sobre os Bahá'ís: "Os ensinamentos do fundador da seita Bábista representam, por um lado, uma posição intermédia entre o Islão e o Cristianismo, e por outro lado pretendem libertar o homem de todos grilhões espirituais. O Bábismo não tem hierarquia, e em vez disso, propõe-se educar cada crente individual a tornar-se uma pessoa na sua totalidade, a ser um combatente da liberdade e do progresso moral da humanidade"(2)
Em 1903 foi publicado o poema dramático O Báb de Isabella Grinevskaya; este chegou às mãos de Tolstoy que depois de o ler, escreveu à autora: "Conheço o Bábismo há muito tempo e estou muito interessado nos seus ensinamentos. Parece-me que eles têm um grande futuro… pois eles desfizeram-se de estruturas artificiais e pretendem unir toda a humanidade numa única religião... E assim, ao educar os homens na fraternidade, na igualdade e no sacrifício dos seus desejos sensuais ao serviço de Deus, eu simpatizo com o Bábismo com todo o meu coração"(3)
No entanto, Tolstoy nem sempre teve palavras elogiosas relativamente à religião bahá'í. Após ler uma tradução francesa do Livro da Certeza que lhe tinha sido oferecido por Hippolyte Dreyfus (um bahá'í francês), respondeu nestes termos: "Agradeço-lhe ter-me enviado o livro de Bahá'u'lláh. Lamento ser obrigado a dizer-lhe que este livro afastou-me completamente dos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Este livro contém apenas frases pretensiosas e insignificantes que não têm outro propósito que não seja confirmar antigas superstições, que são completamente vazias de conteúdo moral ou religioso no verdadeiro sentido da palavra. No entanto, agradeço-lhe a sua carta e o livro. Aceite os meus calorosos cumprimentos."(4)
Apesar de ter manifestado diferentes opiniões sobre a religião bahá'í ao longo da sua vida, um dos últimos comentários, poucos meses antes da sua morte em 1910, foi: "Muito profundo. Não conheço nada tão profundo."(5)
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Notas/Referências
(1) – Carta de Tolstoy a Arfa’u’d-Dawlih, 23-Julho-1901. Preservada no Musée de la Paix, Monte Carlo
(2) – Nocolaides "Leo Tolstois Stellung zu Den Religionen" Pags 566-567
(3) – Birukiff, "Tolstoi und der Orient", pags 99-100
(4) – Polnoe Sobranie Sochinenii, vol 75, pag 77
(5) – Makovitsky, "U Tosltogo: 1904-1910; 'Yasnopolyanskie zapiski'"vol.4, pag. 255
As citações foram todas traduzidas a partir do inglês.
Um estudo detalhado das opiniões de Tolstoy sobre a religião bahá'í encontra-se no livro Leo Tolstoy and the Baha'i Faith, de Luigi Stendardo.
The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen também contém muitas referências às opiniões de Tolstoy.
Tolstoy tomou conhecimento dos ensinamentos bahá'ís em 1894, numa época em que estes ainda eram pouco ou nada conhecidos no Ocidente, e o seu dirigente estava prisioneiro numa remota colónia penal do Império Otomano.
Em 1901, em resposta a um governante persa, Arfa'u'd-Dawlih, escreveu: "Acredito que em toda a parte, tal como os Bábís entre vós, na Pérsia, existem pessoas que professam a verdadeira religião e que apesar das perseguições que estas pessoas estão expostas, as suas ideias propagam-se cada vez mais e mais, e triunfarão sobre a barbaridade e ferocidade dos Governos, e acima de tudo sobre a mentira em que tentam manter os seus povos"(1)Nesse mesmo ano, recebeu a visita de um médico berlinense, Dr. Cleanthes Nicolaides, que tinha viajado pela Pérsia. Tolstoy disse-lhe sobre os Bahá'ís: "Os ensinamentos do fundador da seita Bábista representam, por um lado, uma posição intermédia entre o Islão e o Cristianismo, e por outro lado pretendem libertar o homem de todos grilhões espirituais. O Bábismo não tem hierarquia, e em vez disso, propõe-se educar cada crente individual a tornar-se uma pessoa na sua totalidade, a ser um combatente da liberdade e do progresso moral da humanidade"(2)
Em 1903 foi publicado o poema dramático O Báb de Isabella Grinevskaya; este chegou às mãos de Tolstoy que depois de o ler, escreveu à autora: "Conheço o Bábismo há muito tempo e estou muito interessado nos seus ensinamentos. Parece-me que eles têm um grande futuro… pois eles desfizeram-se de estruturas artificiais e pretendem unir toda a humanidade numa única religião... E assim, ao educar os homens na fraternidade, na igualdade e no sacrifício dos seus desejos sensuais ao serviço de Deus, eu simpatizo com o Bábismo com todo o meu coração"(3)
No entanto, Tolstoy nem sempre teve palavras elogiosas relativamente à religião bahá'í. Após ler uma tradução francesa do Livro da Certeza que lhe tinha sido oferecido por Hippolyte Dreyfus (um bahá'í francês), respondeu nestes termos: "Agradeço-lhe ter-me enviado o livro de Bahá'u'lláh. Lamento ser obrigado a dizer-lhe que este livro afastou-me completamente dos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Este livro contém apenas frases pretensiosas e insignificantes que não têm outro propósito que não seja confirmar antigas superstições, que são completamente vazias de conteúdo moral ou religioso no verdadeiro sentido da palavra. No entanto, agradeço-lhe a sua carta e o livro. Aceite os meus calorosos cumprimentos."(4)
Apesar de ter manifestado diferentes opiniões sobre a religião bahá'í ao longo da sua vida, um dos últimos comentários, poucos meses antes da sua morte em 1910, foi: "Muito profundo. Não conheço nada tão profundo."(5)
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Notas/Referências
(1) – Carta de Tolstoy a Arfa’u’d-Dawlih, 23-Julho-1901. Preservada no Musée de la Paix, Monte Carlo
(2) – Nocolaides "Leo Tolstois Stellung zu Den Religionen" Pags 566-567
(3) – Birukiff, "Tolstoi und der Orient", pags 99-100
(4) – Polnoe Sobranie Sochinenii, vol 75, pag 77
(5) – Makovitsky, "U Tosltogo: 1904-1910; 'Yasnopolyanskie zapiski'"vol.4, pag. 255
As citações foram todas traduzidas a partir do inglês.
Um estudo detalhado das opiniões de Tolstoy sobre a religião bahá'í encontra-se no livro Leo Tolstoy and the Baha'i Faith, de Luigi Stendardo.
The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen também contém muitas referências às opiniões de Tolstoy.
quinta-feira, 22 de julho de 2004
Julho de 1850: os britânicos e o martírio do Báb
O Ten-Coronel Justin Sheil era um militar e diplomata britânico que em 1830 integrou um grupo de oficiais cuja missão era treinar o exército persa. Em 1846, assumiu funções de secretário da embaixada britânica em Teerão. Ele e a esposa, acompanharam durante vários anos uma série de eventos relacionados com as religiões Bábi e Bahá'í. O martírio do Báb foi relatado pelo Ten-Coronel Sheil a Lord Palmerston, o Ministro dos Negócios Estrangeiros Britânico, em 22 de Julho de 1850:
"O fundador desta seita foi executado em Tabreez – Foi morto por uma descarga de um grande número de mosquetes, e a sua morte chegou ao ponto de dar à sua religião o sacrifício purificador que incrementará grandemente os seus prosélitos. Quando o fumo e a poeira se dissiparam após a descarga, não se via o Báb, e a populaça proclamou que ele tinha ascendido aos céus. As balas tinham quebrado as cordas que o prendiam, mas ele foi arrastado do recanto onde o encontraram após algumas buscas, e morto a tiro.
A sua morte, segundo a crença dos seus discípulos não fará diferença, pois o Bab existe sempre."
No momento do martírio do Báb, o cônsul britânico R.W.Stevens, estava ausente de Tabriz; o irmão do cônsul assumiu a responsabilidade pelo consulado e não enviou o relatório do evento a Sheil. Apenas no dia 24 de Julho, o Cônsul Stevens, de regresso ao seu posto, rectificou a omissão e acrescentou que o corpo do Báb e do seu discípulo tinham sido "lançados no fosso da cidade onde foram devorados por cães".
Sheil escreveu a Palmerston, em 15 de Agosto, que "Apesar da opinião e conselho de agentes estrangeiros serem, geralmente, desagradáveis ao Ministro Persa, penso, mesmo assim, que é meu dever chamar a sua atenção para qualquer abuso flagrante ou ultraje que chegue ao meu conhecimento. Estou convencido que nestas ocasiões, não obstante a ausência de apreço por parte de Ameer-i-Nizam (o Grão-Vizir) ele poderá, a titulo pessoal, tomar algumas medidas para emendar a situação". Prosseguiu dizendo que o cônsul em Tabriz tinha reportado que o corpo do Báb "por ordem do irmão de Ameer-i-Nizam tinha sido lançado no fosso da cidade e devorado por cães, facto que, na verdade, acontecera". A esta carta anexou uma cópia da carta que escrevera ao Grão-Vizir sobre este assunto. Nessa carta lia-se:
"Vossa Excelência está ciente do caloroso interesse que o Governo Britânico tem em tudo o que respeita a honra, respeitabilidade e crédito deste Governo, e é sobre este ponto que lhe refiro uma ocorrência recente em Tabreez que provavelmente não foi levada ao conhecimento de Vossa Excelência. A execução do Pretendente Bab nessa cidade foi acompanhada por uma circunstância que, se publicada nas Gazetas da Europa, lançaria o maior descrédito sobre os Ministros Persas. Depois dessa pessoa ter sido morta, o seu corpo, por ordem de Vezeer.i.Nizam foi lançado no fosso da cidade e devorado por cães, facto que na realidade aconteceu. Este acto assemelha-se a factos ocorridos em eras muito antigas, e não posso acreditar que possam ocorrer em nenhum país entre a Inglaterra e a China. Satisfeito por acreditar que este acto não recebeu a sanção de Vossa Excelência, e sabendo que sentimentos provocaria na Europa, considerei apropriado escrever esta informação amistosa, para não o deixar na ignorância do sucedido."
Palmerston respondeu a 8 de Outubro: "... o Governo de Sua Majestade aprova o facto de ter chamado a atenção de Ameer-I-izam... para a forma como foi tratado o corpo do pretendente Bab após a sua execução em Tabreez"
----------------
Links/Notas
As perspectivas britânica e russa sobre a execução do Báb podem ser estudadas com detalhe em The Báb, de Hasan Balyuzi e The Bábi and Bahá’í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen.
Justin Sheil viria a ser embaixador britânico na Pérsia. A esposa de Justin Sheil é autora de Glimpses of Life and Manners in Persia, onde descreve, entre muitas outras coisas, os comportamentos dos Bábis.
"O fundador desta seita foi executado em Tabreez – Foi morto por uma descarga de um grande número de mosquetes, e a sua morte chegou ao ponto de dar à sua religião o sacrifício purificador que incrementará grandemente os seus prosélitos. Quando o fumo e a poeira se dissiparam após a descarga, não se via o Báb, e a populaça proclamou que ele tinha ascendido aos céus. As balas tinham quebrado as cordas que o prendiam, mas ele foi arrastado do recanto onde o encontraram após algumas buscas, e morto a tiro.
A sua morte, segundo a crença dos seus discípulos não fará diferença, pois o Bab existe sempre."
No momento do martírio do Báb, o cônsul britânico R.W.Stevens, estava ausente de Tabriz; o irmão do cônsul assumiu a responsabilidade pelo consulado e não enviou o relatório do evento a Sheil. Apenas no dia 24 de Julho, o Cônsul Stevens, de regresso ao seu posto, rectificou a omissão e acrescentou que o corpo do Báb e do seu discípulo tinham sido "lançados no fosso da cidade onde foram devorados por cães".
Sheil escreveu a Palmerston, em 15 de Agosto, que "Apesar da opinião e conselho de agentes estrangeiros serem, geralmente, desagradáveis ao Ministro Persa, penso, mesmo assim, que é meu dever chamar a sua atenção para qualquer abuso flagrante ou ultraje que chegue ao meu conhecimento. Estou convencido que nestas ocasiões, não obstante a ausência de apreço por parte de Ameer-i-Nizam (o Grão-Vizir) ele poderá, a titulo pessoal, tomar algumas medidas para emendar a situação". Prosseguiu dizendo que o cônsul em Tabriz tinha reportado que o corpo do Báb "por ordem do irmão de Ameer-i-Nizam tinha sido lançado no fosso da cidade e devorado por cães, facto que, na verdade, acontecera". A esta carta anexou uma cópia da carta que escrevera ao Grão-Vizir sobre este assunto. Nessa carta lia-se:
"Vossa Excelência está ciente do caloroso interesse que o Governo Britânico tem em tudo o que respeita a honra, respeitabilidade e crédito deste Governo, e é sobre este ponto que lhe refiro uma ocorrência recente em Tabreez que provavelmente não foi levada ao conhecimento de Vossa Excelência. A execução do Pretendente Bab nessa cidade foi acompanhada por uma circunstância que, se publicada nas Gazetas da Europa, lançaria o maior descrédito sobre os Ministros Persas. Depois dessa pessoa ter sido morta, o seu corpo, por ordem de Vezeer.i.Nizam foi lançado no fosso da cidade e devorado por cães, facto que na realidade aconteceu. Este acto assemelha-se a factos ocorridos em eras muito antigas, e não posso acreditar que possam ocorrer em nenhum país entre a Inglaterra e a China. Satisfeito por acreditar que este acto não recebeu a sanção de Vossa Excelência, e sabendo que sentimentos provocaria na Europa, considerei apropriado escrever esta informação amistosa, para não o deixar na ignorância do sucedido."
Palmerston respondeu a 8 de Outubro: "... o Governo de Sua Majestade aprova o facto de ter chamado a atenção de Ameer-I-izam... para a forma como foi tratado o corpo do pretendente Bab após a sua execução em Tabreez"
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Links/Notas
As perspectivas britânica e russa sobre a execução do Báb podem ser estudadas com detalhe em The Báb, de Hasan Balyuzi e The Bábi and Bahá’í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen.
Justin Sheil viria a ser embaixador britânico na Pérsia. A esposa de Justin Sheil é autora de Glimpses of Life and Manners in Persia, onde descreve, entre muitas outras coisas, os comportamentos dos Bábis.
quinta-feira, 15 de julho de 2004
A Folha Mais Sagrada
Hoje quase me escapava esta efeméride; o texto foi escrito um pouco à pressa. Se alguém quiser acrescentar mais alguma coisa, faça favor...
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Bahiyyih Khanum nasceu em 1846, dois anos depois do Seu irmão, 'Abdu'l-Bahá. O seu nome próprio era Fatimih, mas na história bahá'í ficou conhecida como Bahiyyih (em português, "a Folha Mais Sagrada"). Tinha apenas seis anos quando Bahá'u'lláh foi preso e encarcerado no Siyah-Chal.
Esta filha de Bahá'u'lláh integrou o grupo de "exilados persas" que ao longo de várias décadas foram sendo sucessivamente deportados no Império Otomano.
Os peregrinos Bahá'ís que a conheceram deixaram relatos de vários episódios que revelam alguns aspectos da sua personalidade. Um peregrino descreveu como ela e o irmão eram parecidos na sua maneira de ser; "pareciam gémeos". Após o casamento de 'Abdu'l-Bahá, a relação de afecto estendeu-se à cunhada, Munírih.
Tal como outros irmãos, a sua preocupação principal era o serviço ao seu pai, Bahá'u'lláh. A ela se devem a preservação de vários objectos de uso pessoal de Bahá'u'lláh: roupas, canetas, livros, malas. Esses objectos que hoje podem ser vistos por peregrinos no Centro Mundial Bahá'í.
Em 1921, quando 'Abdu'l-Bahá faleceu e deixou a liderança da comunidade ao seu neto, Shoghi Effendi, este encontrava-se em Oxford. O choque da notícia da morte do avô deixou-o profundamente consternado. Pediu, então, à sua tia-avó que se encarregasse dos afazeres da comunidade durante algum tempo. Bahíyyih, já com 75 anos, acedeu ao pedido. Durante vários meses geriu os assuntos da comunidade: recebeu peregrinos, esclareceu crentes e comunidades noutros países, resolveu questiúnculas... Uma carta escrita pela sua mão pode ser vista aqui.
Faleceu em 15 de Julho de 1938. Os seus restos mortais repousam hoje nos jardins bahá'ís no Monte Carmelo (ver foto seguinte).
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Bahiyyih Khanum nasceu em 1846, dois anos depois do Seu irmão, 'Abdu'l-Bahá. O seu nome próprio era Fatimih, mas na história bahá'í ficou conhecida como Bahiyyih (em português, "a Folha Mais Sagrada"). Tinha apenas seis anos quando Bahá'u'lláh foi preso e encarcerado no Siyah-Chal. Esta filha de Bahá'u'lláh integrou o grupo de "exilados persas" que ao longo de várias décadas foram sendo sucessivamente deportados no Império Otomano.
Os peregrinos Bahá'ís que a conheceram deixaram relatos de vários episódios que revelam alguns aspectos da sua personalidade. Um peregrino descreveu como ela e o irmão eram parecidos na sua maneira de ser; "pareciam gémeos". Após o casamento de 'Abdu'l-Bahá, a relação de afecto estendeu-se à cunhada, Munírih.
Tal como outros irmãos, a sua preocupação principal era o serviço ao seu pai, Bahá'u'lláh. A ela se devem a preservação de vários objectos de uso pessoal de Bahá'u'lláh: roupas, canetas, livros, malas. Esses objectos que hoje podem ser vistos por peregrinos no Centro Mundial Bahá'í.
Em 1921, quando 'Abdu'l-Bahá faleceu e deixou a liderança da comunidade ao seu neto, Shoghi Effendi, este encontrava-se em Oxford. O choque da notícia da morte do avô deixou-o profundamente consternado. Pediu, então, à sua tia-avó que se encarregasse dos afazeres da comunidade durante algum tempo. Bahíyyih, já com 75 anos, acedeu ao pedido. Durante vários meses geriu os assuntos da comunidade: recebeu peregrinos, esclareceu crentes e comunidades noutros países, resolveu questiúnculas... Uma carta escrita pela sua mão pode ser vista aqui.
Faleceu em 15 de Julho de 1938. Os seus restos mortais repousam hoje nos jardins bahá'ís no Monte Carmelo (ver foto seguinte).
Julho de 1850: a preocupação do Embaixador Russo
Os primeiros relatos que surgem no ocidente sobre as religiões Bábi e Bahá'í, chegam através de viajantes, diplomatas e missionários. Naquele tempo os jornais ocidentais não tinham correspondentes nas cidades da Pérsia; a informação circulava lentamente e nem sempre era a mais correcta. Por outro lado, a dimensão das primeiras perseguições tornava praticamente impossível obter informação em primeira mão sobre esta nova religião. A simples menção das palavras "Bábi" ou "Bahá'í" em público era algo perigoso; a nova comunidade chega a assumir um comportamento de "quase-clandestinidade".
A opinião da colónia europeia em Teerão, entre 1850-1852, era que os Bábis seriam socialistas, comunistas e anarquistas. Esta perspectiva deve ser entendida no contexto da história europeia da época. A Europa acabava de atravessar um período turbulento. O ano de 1848 ficara conhecido como "o ano das revoluções" promovidas por socialistas e anarquistas. Assim, não é surpreendente que os europeus em Teerão vissem o movimento Bábi sob uma perspectiva semelhante.
As principais embaixadas em Teerão eram a Britânica e a Russa; estes dois países disputavam interesses e zonas de influência na Pérsia. Os arquivos diplomáticos desses dois países revelam o interesse de ambos sobre a natureza e evolução do movimento Bábi.
O embaixador russo na Pérsia, o principe Dolgorukov, preocupava-se com a dimensão do movimento Bábi naquele país. Em 1849 chega mesmo a referir-se aos Bábis como "uma seita que promove o comunismo pela força das armas". O facto do Báb ter ficado preso na fortaleza de Maku, perto da fronteira russa deixa-o ainda mais alarmado. Só passado alguns meses percebe que o movimento Bábi não é uma rebelião armada, mas um movimento religioso.
Em meados de 1850, Dolgorukov toma conhecimento que os ingleses estão a investigar os Bábis. Para tentar obter informações mais fidedignas enviou, em 15 de Julho de 1850, para o cônsul russo em Tabriz, Anitchkov, a seguinte carta:
"A doutrina do Báb todos os dias capta novos aderentes na Pérsia. Por esse motivo deve merecer a nossa mais séria atenção. Consequentemente, solicito-lhe que desenvolva todos os esforços para reunir toda a informação possível sobre os dogmas desta doutrina e movimentos dos seus apoiantes. Depois de me comunicar tudo o que obtiver, farei uma comparação com tudo aquilo que estou em posição de recolher em Teerão.
A presença do Báb em Tabriz pode talvez possibilitar-lhe a recolha da informação mais autêntica sobre este assunto"
No mesmo dia, escreveu para Senivian, o Ministro Russo dos Negócios Estrangeiros:
"Lord Palmerston [o Ministro dos Negócios Estrangeiros Britânico] pediu ao seu Embaixador na Pérsia que lhe enviasse um relatório detalhado sobre as crenças desta seita, e eu próprio espero, num futuro próximo, poder enviar ao Ministro Imperial um livro que foi compilado por um famoso Bábi e que foi posto à minha disposição".
Na data em que estas carta foram escritas, tinham já passado 6 dias sobre o fuzilamento do Báb, facto que provavelmente ainda não era do conhecimento do embaixador. Estas duas cartas são apenas curiosidades históricas. Existem cartas semelhantes redigidas por diplomatas ingleses. Entre os livros e os artigos escritos na época e que referem a nova religião, destacam-se imediatamente os do professor E.G.Browne, A. Nicolas e do Conde Gobineau. Talvez um dia escreva sobre estes autores.
________________
Referências/Links:
* Todas as citações foram retiradas de The Bábi and Bahá’í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen
* Uma breve descrição das referências às religiões Bábi e Bahá'í no Ocidente encontra-se aqui.
A opinião da colónia europeia em Teerão, entre 1850-1852, era que os Bábis seriam socialistas, comunistas e anarquistas. Esta perspectiva deve ser entendida no contexto da história europeia da época. A Europa acabava de atravessar um período turbulento. O ano de 1848 ficara conhecido como "o ano das revoluções" promovidas por socialistas e anarquistas. Assim, não é surpreendente que os europeus em Teerão vissem o movimento Bábi sob uma perspectiva semelhante.
As principais embaixadas em Teerão eram a Britânica e a Russa; estes dois países disputavam interesses e zonas de influência na Pérsia. Os arquivos diplomáticos desses dois países revelam o interesse de ambos sobre a natureza e evolução do movimento Bábi.
O embaixador russo na Pérsia, o principe Dolgorukov, preocupava-se com a dimensão do movimento Bábi naquele país. Em 1849 chega mesmo a referir-se aos Bábis como "uma seita que promove o comunismo pela força das armas". O facto do Báb ter ficado preso na fortaleza de Maku, perto da fronteira russa deixa-o ainda mais alarmado. Só passado alguns meses percebe que o movimento Bábi não é uma rebelião armada, mas um movimento religioso.
Em meados de 1850, Dolgorukov toma conhecimento que os ingleses estão a investigar os Bábis. Para tentar obter informações mais fidedignas enviou, em 15 de Julho de 1850, para o cônsul russo em Tabriz, Anitchkov, a seguinte carta:
"A doutrina do Báb todos os dias capta novos aderentes na Pérsia. Por esse motivo deve merecer a nossa mais séria atenção. Consequentemente, solicito-lhe que desenvolva todos os esforços para reunir toda a informação possível sobre os dogmas desta doutrina e movimentos dos seus apoiantes. Depois de me comunicar tudo o que obtiver, farei uma comparação com tudo aquilo que estou em posição de recolher em Teerão.
A presença do Báb em Tabriz pode talvez possibilitar-lhe a recolha da informação mais autêntica sobre este assunto"
No mesmo dia, escreveu para Senivian, o Ministro Russo dos Negócios Estrangeiros:
"Lord Palmerston [o Ministro dos Negócios Estrangeiros Britânico] pediu ao seu Embaixador na Pérsia que lhe enviasse um relatório detalhado sobre as crenças desta seita, e eu próprio espero, num futuro próximo, poder enviar ao Ministro Imperial um livro que foi compilado por um famoso Bábi e que foi posto à minha disposição".
Na data em que estas carta foram escritas, tinham já passado 6 dias sobre o fuzilamento do Báb, facto que provavelmente ainda não era do conhecimento do embaixador. Estas duas cartas são apenas curiosidades históricas. Existem cartas semelhantes redigidas por diplomatas ingleses. Entre os livros e os artigos escritos na época e que referem a nova religião, destacam-se imediatamente os do professor E.G.Browne, A. Nicolas e do Conde Gobineau. Talvez um dia escreva sobre estes autores.
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Referências/Links:
* Todas as citações foram retiradas de The Bábi and Bahá’í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen
* Uma breve descrição das referências às religiões Bábi e Bahá'í no Ocidente encontra-se aqui.
sexta-feira, 9 de julho de 2004
Em 1850, numa praça de Tabriz...
No dia 9 de Julho, ao início da manhã, o Governador de Tabriz, Mirzá Hasan Khan, deu ordens para que o Báb fosse levado a casa dos principais sacerdotes muçulmanos de Tabriz, com o objectivo de obter o seu consentimento escrito para a execução.
O chefe da prisão entrou na cela do Báb, num momento em que Ele falava com o Seu secretário. Interrompeu a conversa e forçou o Báb a sair da cela. "Antes de Eu lhe dizer todas aquelas coisas que desejo dizer," disse o Báb ao guarda, "nenhum poder terreno haverá de Me silenciar. Embora o mundo inteiro se arme contra Mim, porém, serão impotentes para Me impedir de cumprir até a última palavra Minha intenção."(1)
Foram então colocados colares de ferro e grilhões no pescoço e nos pulsos do Báb e de Anis; o secretário ficou na cela. Atravessaram as ruas de Tabriz, apinhadas de gente que aguardava a execução. Ouviam-se gritos e insultos. Os Sacerdotes já tinham assinado as sentenças de morte. Ainda tentaram demover Anis, mas não conseguiram.
Algumas tradições islâmicas afirmavam que o Prometido (Qa’im) seria morto pelos próprios muçulmanos. O Báb tinha afirmado ser Ele o Prometido; para tentar demonstrar a falsidade do Báb, os sacerdotes ordenaram que a execução fosse realizada com um fuzilamento por um regimento arménio (cristão).
O comandante do regimento, o coronel Sam Khan, ficou muito desagradado com a tarefa. Tinha ouvido muitas coisas sobre o Báb e temia que a execução despertasse a ira de Deus. Assim que lhe entregaram o Báb, disse-lhe: "Eu professo a Fé Cristã, e não vos desejo qualquer mal. Se a Vossa Causa for a Causa da Verdade, livrai-me da obrigação de derramar o vosso sangue." O Báb tranquilizou-o: "Segui as vossas instruções, e se a vossa intenção for sincera, o Omnipotente poderá certamente aliviar-vos da Vossa dificuldade."(2)
Pouco tranquilo, Sam Khán prosseguiu a sua tarefa; a execução iria decorrer na praça principal da cidade, que já estava apinhada de gente. Ordenou aos seus homens que colocassem um prego no muro e neste amarrassem duas cordas; nestas cordas o Báb e Anís foram suspensos. Depois, o regimento colocou-se em três fileiras, cada uma com duzentos e cinquenta homem; à ordem de fogo, as fileiras dispararam uma após outra. O barulho e o fumo dos disparos encheram a praça.
Quando o fumo dissipou, a multidão ficou perplexa com o que via. Anís estava em pé diante deles, ileso e sorrindo, e o Báb desaparecera. As balas apenas tinham cortado as cordas em que eles tinham sido suspensos.
Começou então uma frenética busca do Báb. Por fim, encontraram-No sentado na Sua cela, concluindo a conversa, que fora interrompida, com o Seu secretário. "Terminei a Minha conversa. Agora podeis proceder ao cumprimento da Vossa intenção"(3), foram as Suas palavras quando O encontraram.
Profundamente perturbado com o ocorrido, Sám Khán recusou-se a permitir que os seus homens disparassem de novo e ordenou-lhes que abandonassem a praça. Foi então necessário chamar outro regimento para realizar o fuzilamento; para isso foi necessário recorrer a um regimento muçulmano. Uma vez mais o Báb, e Anís foram suspensos no pátio. Quando o regimento se preparava para disparar, o Báb dirigiu estas últimas palavras à multidão que O fitava:
"Se tivésseis acreditado em Mim, ó geração perversa, cada um de vós teria seguido o exemplo deste jovem que, em grau, é superior à maioria de vós, e de bom grado se teria se sacrificado em Meu caminho. Dia virá em que Me tereis reconhecido; nesse dia, Eu terei deixado de estar convosco."(4)
Desta vez as balas acertaram no alvo. Os corpos do Báb e de Anís ficaram cravados de balas e horrivelmente mutilados; mas as suas faces permaneceram quase intactas.
Algumas horas mais tarde, os dois cadáveres foram lançados numa lixeira no exterior da cidade. Durante a noite, alguns Babís conseguiram recuperar o corpo do Báb; este permaneceu escondido em diversos locais do Irão, durante várias décadas. Em 1909, os restos mortais do Báb foram finalmente colocados no Santuário numa encosta do Monte Carmelo. Hoje esse Santuário é um ex-libris da cidade de Haifa (ver foto seguinte).
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NOTAS:
(1) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 252
(2) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 254
(3) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 256
(4) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 257
O chefe da prisão entrou na cela do Báb, num momento em que Ele falava com o Seu secretário. Interrompeu a conversa e forçou o Báb a sair da cela. "Antes de Eu lhe dizer todas aquelas coisas que desejo dizer," disse o Báb ao guarda, "nenhum poder terreno haverá de Me silenciar. Embora o mundo inteiro se arme contra Mim, porém, serão impotentes para Me impedir de cumprir até a última palavra Minha intenção."(1)
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| Tabriz, a cidade onde o Báb foi executado |
Algumas tradições islâmicas afirmavam que o Prometido (Qa’im) seria morto pelos próprios muçulmanos. O Báb tinha afirmado ser Ele o Prometido; para tentar demonstrar a falsidade do Báb, os sacerdotes ordenaram que a execução fosse realizada com um fuzilamento por um regimento arménio (cristão).
O comandante do regimento, o coronel Sam Khan, ficou muito desagradado com a tarefa. Tinha ouvido muitas coisas sobre o Báb e temia que a execução despertasse a ira de Deus. Assim que lhe entregaram o Báb, disse-lhe: "Eu professo a Fé Cristã, e não vos desejo qualquer mal. Se a Vossa Causa for a Causa da Verdade, livrai-me da obrigação de derramar o vosso sangue." O Báb tranquilizou-o: "Segui as vossas instruções, e se a vossa intenção for sincera, o Omnipotente poderá certamente aliviar-vos da Vossa dificuldade."(2)
Pouco tranquilo, Sam Khán prosseguiu a sua tarefa; a execução iria decorrer na praça principal da cidade, que já estava apinhada de gente. Ordenou aos seus homens que colocassem um prego no muro e neste amarrassem duas cordas; nestas cordas o Báb e Anís foram suspensos. Depois, o regimento colocou-se em três fileiras, cada uma com duzentos e cinquenta homem; à ordem de fogo, as fileiras dispararam uma após outra. O barulho e o fumo dos disparos encheram a praça.
Quando o fumo dissipou, a multidão ficou perplexa com o que via. Anís estava em pé diante deles, ileso e sorrindo, e o Báb desaparecera. As balas apenas tinham cortado as cordas em que eles tinham sido suspensos.
Começou então uma frenética busca do Báb. Por fim, encontraram-No sentado na Sua cela, concluindo a conversa, que fora interrompida, com o Seu secretário. "Terminei a Minha conversa. Agora podeis proceder ao cumprimento da Vossa intenção"(3), foram as Suas palavras quando O encontraram.
Profundamente perturbado com o ocorrido, Sám Khán recusou-se a permitir que os seus homens disparassem de novo e ordenou-lhes que abandonassem a praça. Foi então necessário chamar outro regimento para realizar o fuzilamento; para isso foi necessário recorrer a um regimento muçulmano. Uma vez mais o Báb, e Anís foram suspensos no pátio. Quando o regimento se preparava para disparar, o Báb dirigiu estas últimas palavras à multidão que O fitava:
"Se tivésseis acreditado em Mim, ó geração perversa, cada um de vós teria seguido o exemplo deste jovem que, em grau, é superior à maioria de vós, e de bom grado se teria se sacrificado em Meu caminho. Dia virá em que Me tereis reconhecido; nesse dia, Eu terei deixado de estar convosco."(4)
Desta vez as balas acertaram no alvo. Os corpos do Báb e de Anís ficaram cravados de balas e horrivelmente mutilados; mas as suas faces permaneceram quase intactas.
Algumas horas mais tarde, os dois cadáveres foram lançados numa lixeira no exterior da cidade. Durante a noite, alguns Babís conseguiram recuperar o corpo do Báb; este permaneceu escondido em diversos locais do Irão, durante várias décadas. Em 1909, os restos mortais do Báb foram finalmente colocados no Santuário numa encosta do Monte Carmelo. Hoje esse Santuário é um ex-libris da cidade de Haifa (ver foto seguinte).
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| Santuário do Báb no Monte Carmelo |
NOTAS:
(1) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 252
(2) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 254
(3) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 256
(4) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 257
quinta-feira, 8 de julho de 2004
Anís, o Companheiro dos últimos dias
Em 1850, o Xá da Pérsia nomeou um novo Grão-Vizir (cargo semelhante a primeiro-ministro). Tão cruel quanto o seu antecessor, pretendia esmagar rapidamente a comunidade Bábi; para mostrar a sua determinação, ordenou a execução do Báb que se encontrava detido em Chiriq (fortaleza no Azerbaijão persa). A ordem de execução foi enviada ao Governador da província e devia ser cumprida na capital provincial: Tabriz.
A população da cidade soube da ordem de execução e houve grande agitação; as ruas encheram-se de gente que tentava ver o Báb a ser levado para a fortaleza, antes da execução. Quando os soldados conduziam o Báb e o Seu secretário, Siyyid Husayn, para a fortaleza, um jovem abriu caminho através da multidão e atirou-se aos pés do Báb dizendo:
"Não me afastes de Ti, ó Mestre. Onde quer que Tu vás, permite que eu Te siga."
"Levanta-te", respondeu o Báb, "e tem confiança que estarás Comigo. Amanhã testemunharás o que Deus decretou."(1)
Anís era um dedicado seguidor da mensagem do Báb. Vivia em Tabriz e há muito tempo que desejava conhecer pessoalmente o Báb. Tinha pensado ir até à fortaleza de Chiriq, mas o seu pai proibira-o e trancara-o em casa (apesar de Anís ser adulto, casado e ter um filho!) Anís já tinha ficado fechado em casa durante uma anterior visita do Báb a Tabriz. Mas estas atitudes do pai não esmoreciam a sua fé.
Em conversas com outros Bábis que tinham visitado o Báb nas prisões de Mah-Ku e Chiriq, partilhou com eles uma experiência muito pessoal. Dizia que tinha passado muitas semanas orando e implorando a Deus que lhe permitisse chegar à presença do Prometido; um dia, quando estava imerso em oração, teve uma visão extraordinária. Ele viu o Báb à sua frente chamando-o. Anís atirou-se aos Seus pés. "Regozija-te," disse-lhe o Báb, "aproxima-se a hora em que, nesta mesma cidade, serei suspenso diante dos olhos da multidão, e cairei vítima ao fogo do inimigo. A ninguém escolherei senão a ti para partilhar Comigo da taça do martírio. Tem a certeza que esta promessa que te faço será cumprida."(2) E assim, Anís começou a esperar pacientemente, sabendo que chegaria o dia em que estaria na presença do Báb. Agora, esse dia tinha chegado.
Na noite de 8 para 9 de Julho, o Báb falou aos Seus companheiros de cárcere. Cheio de alegria, disse-lhes: "Amanhã será o dia do Meu martírio. Oxalá pudesse um de vós levantar-se agora, e, com as próprias mãos, pôr fim à Minha vida. Preferia ser chacinado pela mão de um amigo, do que pela mão do inimigo." Todos ficaram consternados; as lágrimas corriam pelas suas faces; ninguém se atrevia a por fim à vida do Báb.
Subitamente, Anis levantou-se deu alguns passos em direcção ao Báb e disse que estava pronto a obedecer a qualquer coisa que Ele ordenasse. Os outros dois companheiros ficaram horrorizados e agarraram-no. Quando as coisas acalmaram, o Báb afirmou: "Esse mesmo jovem que se levantou para aceder à Minha vontade, sofrerá o martírio comigo. Será ele quem Eu escolherei para partilhar essa coroa."(3)
O Báb passou o resto da noite ditando cartas e epístolas para o Seu secretário. O dia seguinte seria o dia do Seu martírio; o Báb escolhera um discípulo para O acompanhar nesse momento.
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NOTAS
(1) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 251
(2) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 58
(3) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 251
A população da cidade soube da ordem de execução e houve grande agitação; as ruas encheram-se de gente que tentava ver o Báb a ser levado para a fortaleza, antes da execução. Quando os soldados conduziam o Báb e o Seu secretário, Siyyid Husayn, para a fortaleza, um jovem abriu caminho através da multidão e atirou-se aos pés do Báb dizendo:
"Não me afastes de Ti, ó Mestre. Onde quer que Tu vás, permite que eu Te siga."
"Levanta-te", respondeu o Báb, "e tem confiança que estarás Comigo. Amanhã testemunharás o que Deus decretou."(1)
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| Fortaleza de Tabriz, o local onde o Báb passou os Seus últimos dias |
O jovem foi imediatamente preso, junto com outros dois companheiros, na mesma cela em que estavam confinados o Báb e o Seu secretário. Este jovem ficou conhecido como Anís (em português, "companheiro").
Anís era um dedicado seguidor da mensagem do Báb. Vivia em Tabriz e há muito tempo que desejava conhecer pessoalmente o Báb. Tinha pensado ir até à fortaleza de Chiriq, mas o seu pai proibira-o e trancara-o em casa (apesar de Anís ser adulto, casado e ter um filho!) Anís já tinha ficado fechado em casa durante uma anterior visita do Báb a Tabriz. Mas estas atitudes do pai não esmoreciam a sua fé.
Em conversas com outros Bábis que tinham visitado o Báb nas prisões de Mah-Ku e Chiriq, partilhou com eles uma experiência muito pessoal. Dizia que tinha passado muitas semanas orando e implorando a Deus que lhe permitisse chegar à presença do Prometido; um dia, quando estava imerso em oração, teve uma visão extraordinária. Ele viu o Báb à sua frente chamando-o. Anís atirou-se aos Seus pés. "Regozija-te," disse-lhe o Báb, "aproxima-se a hora em que, nesta mesma cidade, serei suspenso diante dos olhos da multidão, e cairei vítima ao fogo do inimigo. A ninguém escolherei senão a ti para partilhar Comigo da taça do martírio. Tem a certeza que esta promessa que te faço será cumprida."(2) E assim, Anís começou a esperar pacientemente, sabendo que chegaria o dia em que estaria na presença do Báb. Agora, esse dia tinha chegado.
Na noite de 8 para 9 de Julho, o Báb falou aos Seus companheiros de cárcere. Cheio de alegria, disse-lhes: "Amanhã será o dia do Meu martírio. Oxalá pudesse um de vós levantar-se agora, e, com as próprias mãos, pôr fim à Minha vida. Preferia ser chacinado pela mão de um amigo, do que pela mão do inimigo." Todos ficaram consternados; as lágrimas corriam pelas suas faces; ninguém se atrevia a por fim à vida do Báb.
Subitamente, Anis levantou-se deu alguns passos em direcção ao Báb e disse que estava pronto a obedecer a qualquer coisa que Ele ordenasse. Os outros dois companheiros ficaram horrorizados e agarraram-no. Quando as coisas acalmaram, o Báb afirmou: "Esse mesmo jovem que se levantou para aceder à Minha vontade, sofrerá o martírio comigo. Será ele quem Eu escolherei para partilhar essa coroa."(3)
O Báb passou o resto da noite ditando cartas e epístolas para o Seu secretário. O dia seguinte seria o dia do Seu martírio; o Báb escolhera um discípulo para O acompanhar nesse momento.
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NOTAS
(1) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 251
(2) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 58
(3) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 251
sexta-feira, 25 de junho de 2004
Badasht
Em Junho de 1848, comunidade babí estava sem liderança activa; o Báb encontrava-se preso e incomunicável na fortaleza de Chiriq e em alguns locais da Pérsia tinham eclodido as primeiras perseguições e martírios de crentes. O movimento Babi era muito recente (o Báb anunciara a Sua missão em 1844); a falta de contacto com o Báb deixava espaço para muitos mal-entendidos e confusões sobre o verdadeiro propósito dos ensinamentos bábis. Algumas pessoas pensavam tratar-se de um movimento reformista do Islão; outros acreditavam tratar-se de uma nova religião independente do Islão.
Estas dúvidas relativas ao propósito do movimento bábi e a falta de contactos com o seu profeta fundador, impeliram alguns crentes mais destacados a convocar uma reunião para esclarecer os crentes sobre o objectivo da ensinamentos bábis e delinear uma forma de voltar a ter contacto com o Báb. Foi no início do verão de 1848 que se realizou esse encontro.
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| Local onde se realizou a conferência de Badasht |
O principal promotor dessa reunião foi Bahá'u'lláh (na altura era conhecido entre os crentes como Jinab-i-Bahá). O local escolhido foi Badasht, um lugarejo em Mazindaran, no norte do Irão. Estiveram presentes oitenta e um crentes; foram instaladas várias tendas; entre os participantes contavam-se Quddus e Tahirih (uma poetisa, que se tornara uma das primeiras discípulas do Báb).
Bahá'u'lláh, anfitrião, acolheu calorosamente cada um dos participantes; em cada dia da reunião revelava uma epístola; esta era depois lida em voz alta perante todos os presentes (é preciso ter presente que na cultura islâmica a poesia e a literatura são usadas para elevar a moral das pessoas). A cada um dos presentes, Ele atribuiu um título; numa epístola revelada mais tarde pelo Báb, esses título seriam confirmados. ("Quddus" e "Tahirih" são títulos de crentes concedidos por Bahá'u'lláh; não são nomes próprios)
O VÉU DE TAHIRIH
A presença de uma mulher naquela reunião não era normal; recordemo-nos que a Pérsia em meados do séc. XIX era socialmente muito atrasada (quase medieval!). O papel da mulher era casar, gerar filhos e ficar em casa; raramente era vistas em público, e quando isso acontecia tinham sempre o tradicional véu a cobrir-lhes o rosto. Por este motivo, a simples presença de Tahirih era, no mínimo, incómoda.
Num dia, ao dirigir-se à assembleia de crentes, Tahirih tirou o véu que lhe cobria o rosto. A discussão estalou imediatamente; vários crentes ficaram escandalizados, outros abandonaram a reunião; mas havia outros apoiavam o acto da poetisa. O próprio Quddus ficou furioso e estava de espada na mão como se a qualquer momento pudesse desferir um golpe sobre quem ousasse ofender Tahirih. Apesar da confusão que se gerou, ela continuou a falar para os restantes crentes que ainda ficaram para a ouvir; estava serena e confiante.
Durante alguns dias persistiu um estado de tensão entre os crentes; tomavam diferentes partidos e discutiam entre si. Bahá'u'lláh interveio e acalmou os ânimos; conciliou as diferentes opiniões; conseguiu fazê-los perceber que os preceitos do Islão eram coisa do passado. Um punhado de crentes, porém, abandonou a reunião, considerando insuportável aquela heresia que atentava contra valores invioláveis do Islão.
A reunião durou vinte e dois dias. No final desta, os Babís sentiam-se mais confiantes e fortes na sua fé. Compreendiam e assumiam definitivamente o rompimento com a ortodoxia, as tradições e os rituais islâmicos. Esta posição ia despertar a fúria do clero xiita. Terminada a reunião, vários crentes foram violentamente atacados no caminho de regresso a suas casas.
Aquela reunião ficou conhecida como "Conferência de Badasht"; o gesto de Tahirih nessa conferência é frequentemente recordado por muitos bahá'ís como o primeiro sinal da emancipação feminina no Irão; vários livros e poemas têm sido escritos sobre ela. Hoje, em algumas famílias bahá'ís iranianas é normal encontrar mulheres com o nome Tahirih .
segunda-feira, 21 de junho de 2004
Aquelas dez mulheres de Shiraz
No vídeo há uma série de cenas que correspondem a momentos reais que foram testemunhados por diversas pessoas:
* Mona dava aulas para crianças quando foi presa; na prisão encontrou outras mulheres que também tinham sido presas.
* Uma das torturas a que foram sujeitas foi o espancamento da palma dos pés (no filme vê-se uma prisioneira a ser arrastada para a cela deixando pegadas de sangue).
* Quando eram levadas para o enforcamento, as mulheres iam cantando orações; o motorista não conseguiu conter as lágrimas.
* Mona foi a última a ser enforcada; beijou a corda antes de a colocar no pescoço.
segunda-feira, 14 de junho de 2004
Fradique Mendes e o Bábismo
O nosso Eça de Queirós, esse grande senhor da literatura portuguesa e notável crítico social foi a primeira pessoa no nosso país a referir a Fé Bahá'í. N’A Correspondência de Fradique Mendes encontramos uma curiosa referência ao Báb (o profeta precursor de Bahá'u'lláh) e ao Bábismo. Os Queirosianos dirão melhor do que eu que importância tem o Fradique Mendes (É uma projecção da personalidade de Eça? Um ideal de cidadão português? Um personagens criado para criticar a sociedade portuguesa da época?).
Alguns investigadores Bahá’ís já se dedicaram a tentar perceber onde seria que o escritor português teria sabido da existência do Báb. Alguns apontam a viagem ao Egipto [entre Outubro 1869 a Janeiro 1870] (Eça esteve presente na inauguração do Canal do Suez); outro referem a revista francesa Revue des Deux Mondes ou o jornal The Times de Londres. Uma outra possibilidade seria o livro do Conde Gobineau, Les Religions et Philosophies dans l’Asie Centrale (1865).
Vejamos então o texto:
Então, com a familiaridade que se ia entre nós acentuando, perguntei a Fradique o que o detivera assim na Pérsia um ano inteiro e um dia como nos contos de fadas. E Fradique, com toda a singeleza, confessou que se demorara tanto nas margens do Eufrates, por se achar casualmente ligado a um movimento religioso que, desde 1849, tomava na Pérsia um desenvolvimento quase triunfal, e que se chamava o Babismo. Atraído para essa nova seita, por curiosidade crítica, para observar como nasce e se funda uma religião, chegara pouco a pouco a ganhar pelo Babismo um interesse militante--não por admiração da doutrina, mas por veneração dos apóstolos. O Babismo (contou-me ele, seguindo por uma viela mais solitária e favorável as confidências), tivera por iniciador certo Mirza-Mohamed, um desses Messias que cada dia surgem na incessante fermentação religiosa do Oriente, onde a religião é a ocupação suprema e querida da vida. Tendo conhecido os Evangelhos Cristãos por contacto com os missionários; iniciado na pura tradição mosaísta pelos judeus do Hiraz; sabedor profundo do guebrismo, a velha religião nacional da Pérsia -- Mirza-Mohamed amalgamara estas doutrinas com uma concepção mais abstracta e pura do Maometismo, e declarara-se Bab . Em persa Bab quer dizer Porta . Ele era, pois, a porta --a única porta através da qual os homens poderiam jamais penetrar na absoluta Verdade. Mais literalmente, Mirza-Mohamed apresentava-se como o grande porteiro , o homem eleito entre todos pelo Senhor para abrir aos crentes a porta da Verdade--e portanto do Paraíso. Em resumo era um Messias, um Cristo. Como tal atravessou a clássica evolução dos Messias: teve por primeiros discípulos, numa aldeia obscura, pastores e mulheres: sofreu a sua tentação na montanha: cumpriu as penitências expiadoras: pregou parábolas: escandalizou em Meca os doutores: e padeceu a sua paixão, morrendo, não me lembro se degolado, se fuzilado, depois do jejum do Ramadão, em Tabriz.
(...)
Assim conversando, penetrámos no adro da mesquita de El-Azhar, onde mais fulgurante e estridente tumultuava a festa do Beiram. Mas já não me prendiam as surpresas daquele arraial muçulmano--nem almées dançando entre brilhos de vermelho e de ouro; nem poetas do deserto recitando as façanhas de Antar; nem Dervíxes, sob as suas tendas de linho, uivando em cadência os louvores de Alá... Calado, invadido pelo pensamento do Bab, revolvia comigo o confuso desejo de me aventurar nessa campanha espiritual! Se eu partisse para Tebas com Fradique?... Por que não? Tinha a mocidade, tinha o entusiasmo. Mais viril e nobre seria encetar no Oriente uma carreira de evangelista, que banalmente recolher à banal Lisboa, a escrevinhar tiras de papel, sob um bico de gás, na Gazeta de Portugal ! E pouco a pouco deste desejo, como duma água que ferve, ia subindo o vapor lento duma visão. Via-me discípulo do Bab-- recebendo nessa noite, do ulema de Bagdade, a iniciação da Verdade. E partia logo a pregar, a espalhar o verbo babista. Onde iria? A Portugal certamente, levando de preferência a salvação às almas que me eram mais caras. Como S. Paulo, embarcava numa galera: as tormentas assaltavam a minha proa apostólica: a imagem do Bab aparecia-me sobre as águas, e o seu sereno olhar enchia minha alma de fortaleza indomável. Um dia, por fim, avistava terra, e na manhã clara sulcava o claro Tejo, onde há tantos séculos não entra um enviado de Deus. Logo de longe lançava uma injúria às igrejas de Lisboa, construções duma Fé vetusta e menos pura. Desembarcava. E, abandonando as minhas bagagens, num desprendimento já divino de bens ainda terrestres, galgava aquela bendita Rua do Alecrim, e em meio do Loreto, à hora em que os Directores Gerais sobem devagar da Arcada, abria os braços e bradava: «Eu sou a Porta!»
Nota em forma de link.
Alguns investigadores Bahá’ís já se dedicaram a tentar perceber onde seria que o escritor português teria sabido da existência do Báb. Alguns apontam a viagem ao Egipto [entre Outubro 1869 a Janeiro 1870] (Eça esteve presente na inauguração do Canal do Suez); outro referem a revista francesa Revue des Deux Mondes ou o jornal The Times de Londres. Uma outra possibilidade seria o livro do Conde Gobineau, Les Religions et Philosophies dans l’Asie Centrale (1865).
Vejamos então o texto:
Então, com a familiaridade que se ia entre nós acentuando, perguntei a Fradique o que o detivera assim na Pérsia um ano inteiro e um dia como nos contos de fadas. E Fradique, com toda a singeleza, confessou que se demorara tanto nas margens do Eufrates, por se achar casualmente ligado a um movimento religioso que, desde 1849, tomava na Pérsia um desenvolvimento quase triunfal, e que se chamava o Babismo. Atraído para essa nova seita, por curiosidade crítica, para observar como nasce e se funda uma religião, chegara pouco a pouco a ganhar pelo Babismo um interesse militante--não por admiração da doutrina, mas por veneração dos apóstolos. O Babismo (contou-me ele, seguindo por uma viela mais solitária e favorável as confidências), tivera por iniciador certo Mirza-Mohamed, um desses Messias que cada dia surgem na incessante fermentação religiosa do Oriente, onde a religião é a ocupação suprema e querida da vida. Tendo conhecido os Evangelhos Cristãos por contacto com os missionários; iniciado na pura tradição mosaísta pelos judeus do Hiraz; sabedor profundo do guebrismo, a velha religião nacional da Pérsia -- Mirza-Mohamed amalgamara estas doutrinas com uma concepção mais abstracta e pura do Maometismo, e declarara-se Bab . Em persa Bab quer dizer Porta . Ele era, pois, a porta --a única porta através da qual os homens poderiam jamais penetrar na absoluta Verdade. Mais literalmente, Mirza-Mohamed apresentava-se como o grande porteiro , o homem eleito entre todos pelo Senhor para abrir aos crentes a porta da Verdade--e portanto do Paraíso. Em resumo era um Messias, um Cristo. Como tal atravessou a clássica evolução dos Messias: teve por primeiros discípulos, numa aldeia obscura, pastores e mulheres: sofreu a sua tentação na montanha: cumpriu as penitências expiadoras: pregou parábolas: escandalizou em Meca os doutores: e padeceu a sua paixão, morrendo, não me lembro se degolado, se fuzilado, depois do jejum do Ramadão, em Tabriz.
(...)
Assim conversando, penetrámos no adro da mesquita de El-Azhar, onde mais fulgurante e estridente tumultuava a festa do Beiram. Mas já não me prendiam as surpresas daquele arraial muçulmano--nem almées dançando entre brilhos de vermelho e de ouro; nem poetas do deserto recitando as façanhas de Antar; nem Dervíxes, sob as suas tendas de linho, uivando em cadência os louvores de Alá... Calado, invadido pelo pensamento do Bab, revolvia comigo o confuso desejo de me aventurar nessa campanha espiritual! Se eu partisse para Tebas com Fradique?... Por que não? Tinha a mocidade, tinha o entusiasmo. Mais viril e nobre seria encetar no Oriente uma carreira de evangelista, que banalmente recolher à banal Lisboa, a escrevinhar tiras de papel, sob um bico de gás, na Gazeta de Portugal ! E pouco a pouco deste desejo, como duma água que ferve, ia subindo o vapor lento duma visão. Via-me discípulo do Bab-- recebendo nessa noite, do ulema de Bagdade, a iniciação da Verdade. E partia logo a pregar, a espalhar o verbo babista. Onde iria? A Portugal certamente, levando de preferência a salvação às almas que me eram mais caras. Como S. Paulo, embarcava numa galera: as tormentas assaltavam a minha proa apostólica: a imagem do Bab aparecia-me sobre as águas, e o seu sereno olhar enchia minha alma de fortaleza indomável. Um dia, por fim, avistava terra, e na manhã clara sulcava o claro Tejo, onde há tantos séculos não entra um enviado de Deus. Logo de longe lançava uma injúria às igrejas de Lisboa, construções duma Fé vetusta e menos pura. Desembarcava. E, abandonando as minhas bagagens, num desprendimento já divino de bens ainda terrestres, galgava aquela bendita Rua do Alecrim, e em meio do Loreto, à hora em que os Directores Gerais sobem devagar da Arcada, abria os braços e bradava: «Eu sou a Porta!»
Nota em forma de link.
sábado, 29 de maio de 2004
Há 112 anos: "Apagou-se o Sol de Bahá"
Em Novembro de 1891 Bahá'u'lláh completara 75 anos de idade. Os últimos anos tinham sido mais tranquilos do que as décadas anteriores. Residia em Bahji, na Terra Santa. A Sua saúde física ressentia-se de acontecimentos vividos: envenenamento, espancamentos, torturas prolongadas na prisão de Teerão (o tristemente célebre Siyah-Chal) e dois anos na mais grandiosa prisão ('Akká).
A Sua esposa, Naváb, tinha falecido em 1886; no ano seguinte falecera o seu irmão e apoiante leal, Mirzá Musá.
Nesse ano de 1891, Bahá'u'lláh revelara a Sua última grande obra, a Epistola ao Filho do Lobo. Trata-se de um livro dirigido a um clérigo muçulmano responsável pela morte de dois bahá'ís, executados na cidade de Isfahan em 1878. Ao longo de várias páginas recorda vários acontecimentos do Seu ministério e revela novamente as epístolas dirigidas aos reis e governantes do Seu tempo.
Em 8 de Maio de 1892 começou a sentir febre. Nos dias seguintes tentou manter alguma rotina diária, continuando a receber crentes em Sua casa. Com o passar dos dias a febre agravou-se, e toda a sua saúde piorou.
Seis dias antes de falecer chamou toda a família à Sua presença; alguns crentes e peregrinos também foram convocados. "Estou satisfeito com todos vós... Prestaram-Me muitos serviços... Que Deus vos ajude a permanecer unidos...".
Na madrugada de 29 de Maio de 1892, Bahá'u'lláh abandonou este mundo físico.
No dia seguinte as mesquitas em ‘Akká, e noutras partes da Palestina, anunciavam a morte daquele homem que muitos consideravam santo. De Damasco, Beirute, Alepo e Cairo chegam palavras de pesar, homenagens e comitivas. Ao Sultão do Império Otomano(que governava a Palestina, e tinha sido responsável por muitos dos sofrimentos de Bahá’u’lláh), 'Abdu'l-Bahá enviou um telegrama anunciando a morte de Seu Pai; começava coma frase "Apagou-se o Sol de Bahá".
Nove dias após o falecimento de Bahá'u'lláh, procedeu-se à abertura do Seu testamento; perante várias testemunhas, abriu-se caixa que continha esse documento e os respectivos selos foram quebrados. O documento foi lido em voz alta para os Seus filhos e um grande número de crentes; neste, 'Abdu'l-Bahá, o filho mais velho de Bahá'u'lláh, era nomeado Seu sucessor.
'Abdu'l-Bahá tinha então quarenta e oito anos; obedecendo às instruções de Seu Pai carregou o fardo da liderança da Comunidade Bahá'í.
A Sua esposa, Naváb, tinha falecido em 1886; no ano seguinte falecera o seu irmão e apoiante leal, Mirzá Musá.
Nesse ano de 1891, Bahá'u'lláh revelara a Sua última grande obra, a Epistola ao Filho do Lobo. Trata-se de um livro dirigido a um clérigo muçulmano responsável pela morte de dois bahá'ís, executados na cidade de Isfahan em 1878. Ao longo de várias páginas recorda vários acontecimentos do Seu ministério e revela novamente as epístolas dirigidas aos reis e governantes do Seu tempo.
Em 8 de Maio de 1892 começou a sentir febre. Nos dias seguintes tentou manter alguma rotina diária, continuando a receber crentes em Sua casa. Com o passar dos dias a febre agravou-se, e toda a sua saúde piorou.
Seis dias antes de falecer chamou toda a família à Sua presença; alguns crentes e peregrinos também foram convocados. "Estou satisfeito com todos vós... Prestaram-Me muitos serviços... Que Deus vos ajude a permanecer unidos...".
Na madrugada de 29 de Maio de 1892, Bahá'u'lláh abandonou este mundo físico.
Entrada do Túmulo de Bahá'u'lláh, em Bahji.
Para os bahá'ís, este é considerado o local mais sagrado do mundo.
No dia seguinte as mesquitas em ‘Akká, e noutras partes da Palestina, anunciavam a morte daquele homem que muitos consideravam santo. De Damasco, Beirute, Alepo e Cairo chegam palavras de pesar, homenagens e comitivas. Ao Sultão do Império Otomano(que governava a Palestina, e tinha sido responsável por muitos dos sofrimentos de Bahá’u’lláh), 'Abdu'l-Bahá enviou um telegrama anunciando a morte de Seu Pai; começava coma frase "Apagou-se o Sol de Bahá".
Nove dias após o falecimento de Bahá'u'lláh, procedeu-se à abertura do Seu testamento; perante várias testemunhas, abriu-se caixa que continha esse documento e os respectivos selos foram quebrados. O documento foi lido em voz alta para os Seus filhos e um grande número de crentes; neste, 'Abdu'l-Bahá, o filho mais velho de Bahá'u'lláh, era nomeado Seu sucessor.
'Abdu'l-Bahá tinha então quarenta e oito anos; obedecendo às instruções de Seu Pai carregou o fardo da liderança da Comunidade Bahá'í.
sábado, 22 de maio de 2004
O Primeiro Acto
Todas as religiões têm o seu "primeiro acto". Trata-se do primeiro momento de uma fantástica cadeia de eventos que vão revolucionar a história da humanidade. Esse primeiro acto assume muitas vezes características místicas e passa-se geralmente entre gente humilde.
No religião Judaica podemos considerar que o primeiro acto se desenrola com o nascimento de Moisés, o seu abandono nas águas e a sua adopção pela família do faraó; na religião Cristã, temos o nascimento de Cristo em Belém com a adoração dos Magos e, posteriormente, a fuga para o Egipto; no Islão, descreve-se a aparição do Anjo Gabriel ao Profeta numa gruta. A religião Bahá’í também tem o seu primeiro acto; aconteceu na cidade de Shiraz, na Pérsia, na noite de 22 para 23 de Maio. Estávamos no ano de 1844.
Seguindo as instruções de um professor de uma escola teológica messiânica, o estudante Mullá Husayn dirigiu-se a Shiraz. Chegou à cidade ao entardecer; a viagem deixara-o cansado, sujo, suado e com fome. Às portas da cidade contemplou as cúpulas das mesquitas e pensou em qual poderia orar a Deus para Lhe suplicar que o guiasse ao Prometido.
Enquanto caminhava, um jovem de turbante verde – sinal de que se tratava de um descendente de Maomé – dirigiu-se a ele. Sorridente cumprimentou-o e abraçou-o como se Mullá Husayn fosse um irmão que não via há muito tempo. Pensou que se pudesse tratar de um companheiro de escola que o tivesse reconhecido. Tratava-se de 'Ali-Muhammad, que ficaria conhecido como "O Báb" (em português, "A Porta"). O Báb convidou-o a ficar em Sua casa; podia comer, refrescar-se e descansar da viagem. A gentileza, a dignidade e a própria maneira de falar do Báb despertaram a atenção de Mullá Husayn. Decidiu aceitar o convite.
Depois de tomar um chá, e terem feito as orações da tarde, o Báb começou a fazer-lhe perguntas: Quem era ele? O que fazia na vida? Porque viajava? Mullá Husayn explicou que era aluno de uma escola religiosa e que andava à procura do Prometido. O seu professor, antes de morrer, tinha dado instruções aos alunos para que se espalhassem pela Pérsia na procura do Prometido.
"O vosso professor deu-vos algumas indicações detalhadas sobre as características do Prometido?" perguntou o Báb.
"Sim", respondeu Mullá Husayn, "sabemos que é descendente do Profeta, deve ter entre 20 e 30 anos, tem conhecimento inato, não fuma e não tem qualquer deficiência física".
Houve uma breve pausa no diálogo. Depois numa voz firme e cativante o Báb disse:
"Vê! Todos esses sinais se manifestam em Mim!"
"Mullá Husayn ficou chocado. O Báb explicou-lhe de que forma os sinais se aplicavam a Ele; mas Mullá Husayn contra-argumentou. Simultaneamente sentia uma mistura de medo e excitação percorrer-lhe o corpo. Lembrou-se então que o seu professor lhe tinha dito que o Prometido lhe daria uma explicação sobre o Sura de José (um capítulo do Alcorão). Para seu grande espanto o Báb disse-lhe:
Agora é chegado o momento de revelar um comentário ao Sura de José". E pegando numa caneta e papel, começou a escrever e entoou as seguintes palavras: "Todo o louvor a Deus que, através do poder da Verdade, fez descer este Livro ao Seu servo, para que sirva como uma luz brilhante para toda a humanidade..." Mullá Husayn ficou siderado com as palavras que ouviu; começou a ter consciência do que se estava a passar. O Prometido estava diante de si, a escrever o que entoava com enorme rapidez.
Quando concluiu o comentário, passavam duas horas do pôr do sol; o Báb disse então ao seu convidado: "Esta noite, esta própria hora, serão celebradas nos dias vindouros como um dos maiores e mais significativos festivais. Agradece a Deus por te ter graciosamente ajudado a alcançar o desejo do teu coração, e por teres sorvido do vinho selecto da Sua palavra."
Durante toda a noite comeram, oraram, e o Báb foi revelando mais palavras sagradas. Passadas algumas horas ouviram ruído vindo do exterior; a cidade acordava ao som dos apelos vindos dos minaretes das mesquitas que chamavam às orações matinais. O Báb encontrara o Seu primeiro discípulo. Terminava ali o primeiro acto.
Nas semanas seguintes, outros discípulos viriam a reconhecer o Báb; esses primeiros encontros tiveram sempre uma certa carga mística. O último do primeiro conjunto de discípulos foi Quddus.
Nessa mesma noite em que o Báb revelou a Sua Missão, em Teerão, nascia 'Abdu'l-Bahá, o filho de Bahá'u'lláh.
_____________________
ALGUMAS NOTAS:
1 - O texto completo do comentário ao Sura de José revelado pelo Báb naquela noite encontra-se na Bahá'í Library Online neste link.
2 - O livro Dawn-Breakers(a narrativa de Nabil) relata a vida do Báb e dos Seus primeiros discípulos; está disponível na Bahá'í Library Online neste link.
3 - O livro The Bab, de Hasan Balyuzi é o meu relato preferido sobre a vida do Báb e os primeiros crentes (mas isto é uma opinião muito pessoal!).
No religião Judaica podemos considerar que o primeiro acto se desenrola com o nascimento de Moisés, o seu abandono nas águas e a sua adopção pela família do faraó; na religião Cristã, temos o nascimento de Cristo em Belém com a adoração dos Magos e, posteriormente, a fuga para o Egipto; no Islão, descreve-se a aparição do Anjo Gabriel ao Profeta numa gruta. A religião Bahá’í também tem o seu primeiro acto; aconteceu na cidade de Shiraz, na Pérsia, na noite de 22 para 23 de Maio. Estávamos no ano de 1844.
Seguindo as instruções de um professor de uma escola teológica messiânica, o estudante Mullá Husayn dirigiu-se a Shiraz. Chegou à cidade ao entardecer; a viagem deixara-o cansado, sujo, suado e com fome. Às portas da cidade contemplou as cúpulas das mesquitas e pensou em qual poderia orar a Deus para Lhe suplicar que o guiasse ao Prometido.
Enquanto caminhava, um jovem de turbante verde – sinal de que se tratava de um descendente de Maomé – dirigiu-se a ele. Sorridente cumprimentou-o e abraçou-o como se Mullá Husayn fosse um irmão que não via há muito tempo. Pensou que se pudesse tratar de um companheiro de escola que o tivesse reconhecido. Tratava-se de 'Ali-Muhammad, que ficaria conhecido como "O Báb" (em português, "A Porta"). O Báb convidou-o a ficar em Sua casa; podia comer, refrescar-se e descansar da viagem. A gentileza, a dignidade e a própria maneira de falar do Báb despertaram a atenção de Mullá Husayn. Decidiu aceitar o convite.
Depois de tomar um chá, e terem feito as orações da tarde, o Báb começou a fazer-lhe perguntas: Quem era ele? O que fazia na vida? Porque viajava? Mullá Husayn explicou que era aluno de uma escola religiosa e que andava à procura do Prometido. O seu professor, antes de morrer, tinha dado instruções aos alunos para que se espalhassem pela Pérsia na procura do Prometido.
"O vosso professor deu-vos algumas indicações detalhadas sobre as características do Prometido?" perguntou o Báb.
"Sim", respondeu Mullá Husayn, "sabemos que é descendente do Profeta, deve ter entre 20 e 30 anos, tem conhecimento inato, não fuma e não tem qualquer deficiência física".
Houve uma breve pausa no diálogo. Depois numa voz firme e cativante o Báb disse:
"Vê! Todos esses sinais se manifestam em Mim!"
"Mullá Husayn ficou chocado. O Báb explicou-lhe de que forma os sinais se aplicavam a Ele; mas Mullá Husayn contra-argumentou. Simultaneamente sentia uma mistura de medo e excitação percorrer-lhe o corpo. Lembrou-se então que o seu professor lhe tinha dito que o Prometido lhe daria uma explicação sobre o Sura de José (um capítulo do Alcorão). Para seu grande espanto o Báb disse-lhe:
Agora é chegado o momento de revelar um comentário ao Sura de José". E pegando numa caneta e papel, começou a escrever e entoou as seguintes palavras: "Todo o louvor a Deus que, através do poder da Verdade, fez descer este Livro ao Seu servo, para que sirva como uma luz brilhante para toda a humanidade..." Mullá Husayn ficou siderado com as palavras que ouviu; começou a ter consciência do que se estava a passar. O Prometido estava diante de si, a escrever o que entoava com enorme rapidez.
Quando concluiu o comentário, passavam duas horas do pôr do sol; o Báb disse então ao seu convidado: "Esta noite, esta própria hora, serão celebradas nos dias vindouros como um dos maiores e mais significativos festivais. Agradece a Deus por te ter graciosamente ajudado a alcançar o desejo do teu coração, e por teres sorvido do vinho selecto da Sua palavra."
Durante toda a noite comeram, oraram, e o Báb foi revelando mais palavras sagradas. Passadas algumas horas ouviram ruído vindo do exterior; a cidade acordava ao som dos apelos vindos dos minaretes das mesquitas que chamavam às orações matinais. O Báb encontrara o Seu primeiro discípulo. Terminava ali o primeiro acto.
Nas semanas seguintes, outros discípulos viriam a reconhecer o Báb; esses primeiros encontros tiveram sempre uma certa carga mística. O último do primeiro conjunto de discípulos foi Quddus.
Nessa mesma noite em que o Báb revelou a Sua Missão, em Teerão, nascia 'Abdu'l-Bahá, o filho de Bahá'u'lláh.
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ALGUMAS NOTAS:
1 - O texto completo do comentário ao Sura de José revelado pelo Báb naquela noite encontra-se na Bahá'í Library Online neste link.
2 - O livro Dawn-Breakers(a narrativa de Nabil) relata a vida do Báb e dos Seus primeiros discípulos; está disponível na Bahá'í Library Online neste link.
3 - O livro The Bab, de Hasan Balyuzi é o meu relato preferido sobre a vida do Báb e os primeiros crentes (mas isto é uma opinião muito pessoal!).
segunda-feira, 10 de maio de 2004
O Rosto dos Mártires
Quando frequentei algumas cadeiras do curso de Ciências Religiosas da Universidade Católica em Lisboa, conheci uma série de professores interessantes. Numa aula, um desses professores, chamou a nossa atenção para as imagens de Cristo que é frequente encontrarmos: o cabelo bem penteado, a barba arranjada, os olhos claros, um olhar angélico. Teria o Jesus da história essa face e uma expressão assim tão perfeitas?
Na verdade, na nossa tentativa de divinizar santos e heróis, temos tendência a representá-los de acordo com certos estereótipos: os santos com um olhar angélico (de preferência a olhar para cima) e as mãos unidas em oração, e os heróis com um olhar duro e de queixo levantado (com uma mão na espada ou apontando para algum lado de forma determinada). Este tipo de representações tem alimentado o nosso imaginário e está por certo longe da realidade.
A comunidade bahá’í também tem os seus "heróis"; são na sua grande maioria, crentes que preferiram o martírio a negar a sua fé. O facto dos martírios mais conhecidos terem ocorrido no final do Século XIX e no início do século XX permite que existam algumas fotos desses mártires.
Há dias, quando procurava uma referência num livro Bahá'í, passei mais uma vez pela foto de Varqá e seu filho Ruhu’lláh. Esta foto foi tirada em 1896, pouco antes de pai e filho serem executados; o seu único crime foi não negarem a sua fé. Desta vez demorei-me um pouco mais a olhar para a foto.
As expressões destes dois crentes, num momento em que já sabiam o destino que os aguardava, está longe dos nossos estereótipos de santos e heróis. Demorei-me a olhar a foto e senti que é difícil perceber o que lhes ia na alma naquele instante. Particularmente impressionante é a expressão do filho Ruhu’lláh (tinha 12 anos).

Quem foi Varqá?
Varqá nasceu em Yazd e era filho de um bahá'í que já tinha estado na presença de Bahá'u'lláh. É recordado como um poeta de prestígio; tinha conhecimentos de medicina e era versado em assuntos religiosos. Foi um dos mais eloquentes divulgadores da causa Bahá'í na Pérsia. Ao longo da sua vida, recebeu várias epístolas de Bahá'u'lláh.
Em 1878, fez a sua primeira peregrinação a 'Akká. Ficou profundamente impressionado com Bahá'u'lláh. Em muitas ocasiões Bahá'u'lláh parecia ler-lhe os pensamentos; noutras recordava-se de sonhos em que se lembrava de ter visto Bahá'u'lláh. De regresso à Pérsia, decide ir viver para a cidade de Tabriz; dedica-se de corpo e alma à divulgação da nova religião. Essas actividades custaram-lhe vários problemas com familiares que não acreditavam na nova revelação, e alguns anos na prisão.
Em 1891 recebeu permissão para se deslocar novamente em peregrinação à Terra Santa; desta vez levou dois filhos e o sogro. Bahá'u'lláh recebeu-os de forma particularmente acolhedora; elogiou-o bastante e atendendo aos seus conhecimentos de medicina pediu-lhe alguns conselhos sobre a Sua saúde. Um dos filhos, Ruhu'lláh (em português "Espírito de Deus"), esteve várias vezes na presença de Bahá'u'lláh; o jovem deixava particularmente impressionados os membros da família de Bahá'u'lláh. As suas conversas revelavam muita maturidade e um conhecimento invulgar sobre a Causa.
A terceira e última peregrinação realizou-se após o falecimento de Bahá'u'lláh; nessa ocasião foram recebidos por 'Abdu'l-Bahá. De regresso à Pérsia, avolumam-se os problemas; as suas actividades são cada vez mais acompanhadas por opositores da Causa. As detenções e os espancamentos sucedem-se; Varqá e o filho Ruhu'lláh são transferidos sucessivamente de prisão em prisão, até serem levados para Teerão. Pai e filho recusam-se sempre a negar a sua fé; Varqá foi esfaqueado pelo chefe da prisão; Ruhu’lláh, depois de assistir à morte do pai, foi estrangulado. Estávamos em Maio de 1896.
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Mais informações sobre Varqá em The Revelation of Bahá'u'lláh, vol. 4, cap. 4; Eminent Bahá’ís in the time of Bahá'u'lláh, cap. 7.
Na verdade, na nossa tentativa de divinizar santos e heróis, temos tendência a representá-los de acordo com certos estereótipos: os santos com um olhar angélico (de preferência a olhar para cima) e as mãos unidas em oração, e os heróis com um olhar duro e de queixo levantado (com uma mão na espada ou apontando para algum lado de forma determinada). Este tipo de representações tem alimentado o nosso imaginário e está por certo longe da realidade.
A comunidade bahá’í também tem os seus "heróis"; são na sua grande maioria, crentes que preferiram o martírio a negar a sua fé. O facto dos martírios mais conhecidos terem ocorrido no final do Século XIX e no início do século XX permite que existam algumas fotos desses mártires.
Há dias, quando procurava uma referência num livro Bahá'í, passei mais uma vez pela foto de Varqá e seu filho Ruhu’lláh. Esta foto foi tirada em 1896, pouco antes de pai e filho serem executados; o seu único crime foi não negarem a sua fé. Desta vez demorei-me um pouco mais a olhar para a foto.
As expressões destes dois crentes, num momento em que já sabiam o destino que os aguardava, está longe dos nossos estereótipos de santos e heróis. Demorei-me a olhar a foto e senti que é difícil perceber o que lhes ia na alma naquele instante. Particularmente impressionante é a expressão do filho Ruhu’lláh (tinha 12 anos).

Varqá e o filho Ruhu'lláh, na prisão em Teerão, pouco antes de serem martirizados
Quem foi Varqá?
Varqá nasceu em Yazd e era filho de um bahá'í que já tinha estado na presença de Bahá'u'lláh. É recordado como um poeta de prestígio; tinha conhecimentos de medicina e era versado em assuntos religiosos. Foi um dos mais eloquentes divulgadores da causa Bahá'í na Pérsia. Ao longo da sua vida, recebeu várias epístolas de Bahá'u'lláh.
Em 1878, fez a sua primeira peregrinação a 'Akká. Ficou profundamente impressionado com Bahá'u'lláh. Em muitas ocasiões Bahá'u'lláh parecia ler-lhe os pensamentos; noutras recordava-se de sonhos em que se lembrava de ter visto Bahá'u'lláh. De regresso à Pérsia, decide ir viver para a cidade de Tabriz; dedica-se de corpo e alma à divulgação da nova religião. Essas actividades custaram-lhe vários problemas com familiares que não acreditavam na nova revelação, e alguns anos na prisão.
Em 1891 recebeu permissão para se deslocar novamente em peregrinação à Terra Santa; desta vez levou dois filhos e o sogro. Bahá'u'lláh recebeu-os de forma particularmente acolhedora; elogiou-o bastante e atendendo aos seus conhecimentos de medicina pediu-lhe alguns conselhos sobre a Sua saúde. Um dos filhos, Ruhu'lláh (em português "Espírito de Deus"), esteve várias vezes na presença de Bahá'u'lláh; o jovem deixava particularmente impressionados os membros da família de Bahá'u'lláh. As suas conversas revelavam muita maturidade e um conhecimento invulgar sobre a Causa.
A terceira e última peregrinação realizou-se após o falecimento de Bahá'u'lláh; nessa ocasião foram recebidos por 'Abdu'l-Bahá. De regresso à Pérsia, avolumam-se os problemas; as suas actividades são cada vez mais acompanhadas por opositores da Causa. As detenções e os espancamentos sucedem-se; Varqá e o filho Ruhu'lláh são transferidos sucessivamente de prisão em prisão, até serem levados para Teerão. Pai e filho recusam-se sempre a negar a sua fé; Varqá foi esfaqueado pelo chefe da prisão; Ruhu’lláh, depois de assistir à morte do pai, foi estrangulado. Estávamos em Maio de 1896.
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Mais informações sobre Varqá em The Revelation of Bahá'u'lláh, vol. 4, cap. 4; Eminent Bahá’ís in the time of Bahá'u'lláh, cap. 7.
quinta-feira, 6 de maio de 2004
Um ideal de vida
Uma das perguntas típicas que me colocam quando digo a alguém que sou bahá’í é "O que é que vocês fazem?" É aquela pergunta tradicional de quem associa à religião um conjunto de rituais e leis (do tipo "não faças isto" ou "fazer aquilo é pecado"). Esta perspectiva distorcida do que é a religião, muitas vezes impede um bom diálogo.
Outras pessoas, porém avançam com a pergunta "Em que é que vocês acreditam?". É uma pergunta de quem associa a religião a um conjunto de crenças e princípios. Geralmente tenho conversas interessantes com quem me coloca este tipo de pergunta.
A pergunta mais frequente é: O que é ser Bahá’í? Cada crente tem a sua resposta; cada um de nós pode expressar à sua maneira o que é o seu ideal de vida Bahá’í.
A esta pergunta eu responderia com um pequeno texto das escrituras de Bahá’u’lláh:
Sê generoso na prosperidade e grato no infortúnio.
Sê digno da confiança de teu próximo e dirige-lhe um olhar afectuoso e acolhedor.
Sê um tesouro para o pobre, uma advertência para o rico, uma resposta ao pranto do necessitado, e preserva a santidade das tuas promessa.
Sê recto no teu julgamento e comedido nas tuas palavras. Com ninguém sejas injusto e a todos mostrai brandura.
Sê como uma lâmpada para os que caminham nas trevas, um consolo para o triste, um mar para o sedento, um refúgio para o abatido, um sustentáculo e defensor da vítima da opressão. Que a integridade e a rectidão marquem todos os teus actos.
Sê um lar para o forasteiro, um bálsamo para o sofredor, fortaleza para o fugitivo.
Sê os olhos para os cegos e farol para os pés dos que se perdem.
Sê um adorno na face da verdade; uma coroa na fronte da fidelidade; um pilar no templo da rectidão; um sopro de vida no corpo da humanidade; um estandarte das hostes da justiça; uma estrela sobre o horizonte da virtude; uma gota de orvalho no solo do coração humano; uma arca no oceano do conhecimento; um sol no céu da generosidade; uma jóia no diadema da sabedoria; uma luz radiante no firmamento de tua geração; um fruto na árvore da humanidade.
A mesma questão colocada a outros crentes pode ter respostas muito interessantes se for baseada nas escrituras ou nos textos de algum santo ou sábio. O ideal de qualquer religião não anda muito longe dos conceitos expostos no texto anterior. Se a resposta for dada com textos das suas escrituras, a beleza literária das palavras poderá ser diferente, mas a essência espiritual da mensagem é a mesma. Talvez o Tiago Mendes, o Nuno Guerreiro e os membros do Terra da Alegria possam dar exemplos de respostas muito interessantes a este tipo de questão (se é que não o fizeram anteriormente). Se mais alguém quiser partilhar outros exemplos, é bem-vindo!
Outras pessoas, porém avançam com a pergunta "Em que é que vocês acreditam?". É uma pergunta de quem associa a religião a um conjunto de crenças e princípios. Geralmente tenho conversas interessantes com quem me coloca este tipo de pergunta.
A pergunta mais frequente é: O que é ser Bahá’í? Cada crente tem a sua resposta; cada um de nós pode expressar à sua maneira o que é o seu ideal de vida Bahá’í.
A esta pergunta eu responderia com um pequeno texto das escrituras de Bahá’u’lláh:
Sê generoso na prosperidade e grato no infortúnio.
Sê digno da confiança de teu próximo e dirige-lhe um olhar afectuoso e acolhedor.
Sê um tesouro para o pobre, uma advertência para o rico, uma resposta ao pranto do necessitado, e preserva a santidade das tuas promessa.
Sê recto no teu julgamento e comedido nas tuas palavras. Com ninguém sejas injusto e a todos mostrai brandura.
Sê como uma lâmpada para os que caminham nas trevas, um consolo para o triste, um mar para o sedento, um refúgio para o abatido, um sustentáculo e defensor da vítima da opressão. Que a integridade e a rectidão marquem todos os teus actos.
Sê um lar para o forasteiro, um bálsamo para o sofredor, fortaleza para o fugitivo.
Sê os olhos para os cegos e farol para os pés dos que se perdem.
Sê um adorno na face da verdade; uma coroa na fronte da fidelidade; um pilar no templo da rectidão; um sopro de vida no corpo da humanidade; um estandarte das hostes da justiça; uma estrela sobre o horizonte da virtude; uma gota de orvalho no solo do coração humano; uma arca no oceano do conhecimento; um sol no céu da generosidade; uma jóia no diadema da sabedoria; uma luz radiante no firmamento de tua geração; um fruto na árvore da humanidade.
A mesma questão colocada a outros crentes pode ter respostas muito interessantes se for baseada nas escrituras ou nos textos de algum santo ou sábio. O ideal de qualquer religião não anda muito longe dos conceitos expostos no texto anterior. Se a resposta for dada com textos das suas escrituras, a beleza literária das palavras poderá ser diferente, mas a essência espiritual da mensagem é a mesma. Talvez o Tiago Mendes, o Nuno Guerreiro e os membros do Terra da Alegria possam dar exemplos de respostas muito interessantes a este tipo de questão (se é que não o fizeram anteriormente). Se mais alguém quiser partilhar outros exemplos, é bem-vindo!
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