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sábado, 22 de agosto de 2020

Será que todos adoramos o mesmo Deus?

Por Joseph Roy Sheppherd.



Será que todos adoramos o mesmo Deus? Sim, os ensinamentos Bahá’ís dizem inequivocamente que sim. Apesar das nossas diferenças linguísticas, culturais, e históricas, somos todos iguais aos olhos de um Deus único.

Independentemente da Fé que seguimos ou de como designamos o Criador, é o mesmo Deus que ouve as nossas orações.

Bahá’u’lláh explicou que a criação está separada do Criador. No entanto, os ensinamentos Bahá´ís indicam que em toda a criação podemos ver indícios do trabalho de Deus. Desde o majestoso movimento das estrelas e planetas na nossa galáxia até aos próprios átomos que a compõem, tudo reflecte o espantoso e impressionante trabalho do Criador:
Todo o louvor à unidade de Deus e toda a honra a Ele, o Senhor soberano, o incomparável e todo glorioso Governante do universo, Que do nada absoluto criou a realidade de todas as coisas, Que do nada trouxe para a existência os mais refinados e subtis elementos da Sua criação, e Que, salvando as Suas criaturas da humilhação do afastamento e dos perigos da derradeira extinção, as recebeu no Seu reino de glória incorruptível. Nada salvo a Sua graça abrangente, a Sua misericórdia omnipresente, poderia consegui-lo. (…)

Tendo criado o mundo e tudo o que nele vive e se move, Ele, através da operação directa da Sua Vontade irrestrita e soberana, decidiu conferir ao homem a distinção e capacidade únicas de O conhecer e amar – uma capacidade que deve necessariamente ser vista como o impulso gerador e propósito principal subjacente a toda a criação… (Selecção dos Escritos de Bahá’u’lláh, XXVII)
As escrituras Bahá’ís dizem que a existência do universo e o processo dinâmico que governa o aparecimento da própria vida são uma prova de que tudo emana da Vontade Divina. Deus criou não só a interacção física complexa de forças que actuam na natureza, mas também planos mais subtis de existência, dimensões invisíveis aos olhos humanos, cuja existência está para lá da percepção dos sentidos e da mente, um cosmos imaterial que interage com a nossa natureza espiritual. Estas múltiplas dimensões constituem uma realidade maior do que o universo físico:
É verdadeiramente um crente na Unidade de Deus quem reconhece em cada coisa criada um sinal da revelação d’Aquele Que é a Verdade Eterna, e não aquele que sustenta que a criatura é indistinguível do Criador. (Selecção dos Escritos de Bahá’u’lláh, XCIII)
Para o individuo, Bahá’u’lláh ensinou que o propósito da nossa criação é conhecer e amar Deus:
Sabei que o vosso verdadeiro adorno consiste no amor a Deus e no vosso desprendimento de tudo salvo d’Ele, e não nos luxos que possuis. Abandonai-os para aqueles que os procuram e volvei-vos para Deus, O que faz fluir os rios. (Baha’u’llah, The Summons of the Lord of Hosts, p. 61)
Mas como Podemos conhecer Deus, se Deus é incognoscível? Nas escrituras Bahá’ís, Deus é referido por atributos e não por descrições: o Omnisciente, a Suprema Sabedoria, o Que Sempre Perdoa, o Mais Generoso, o Omnipotente, o Todo-Glorioso, o Mais Gracioso, etc.

Estas qualidades divinas são descritas com palavras cujo significado mais simples está ao alcance da compreensão humana, mas que apenas podem ser aludidas dentro dos limites da linguagem – pois nunca poderíamos desenvolver um vocabulário espiritual adequado para descrever os atributos de Deus. A utilização destes termos qualificativos nas escrituras Bahá’ís demonstra claramente que Deus transcende as noções de forma ou constituição, raça ou género.

Esta existência não tem local ou condição e refere uma essência incognoscível que não se pode antropomorfizar. Assim, Deus não é um velho de barbas brancas, sustentado por uma hoste de anjos, conforme retratado por Michelangelo; Deus não é uma mulher nua coberta de estrelas arqueada sobre a terra, conforme mostra a iconografia egípcia; Deus não é qualquer imagem modelar com um halo circular, radiante, flamejante ou triangular. Deus não é uma série de coisas. Deus não é criado à nossa imagem, nem à imagem de qualquer linguagem simbólica que criámos no passado. Deus é aquilo que é – e os ensinamentos de muitas religiões dizem-nos que nós fomos criados à imagem de Deus.

Bahá’u’lláh ensina-nos que a nossa parte etérea, a nossa realidade espiritual, reflecte a imagem divina.

Por outras palavras, os seres humanos são essencialmente criaturas espirituais com corpos físicos que mudam de forma e dimensão no decorrer da vida, mas cujo ser interior não é afectado e continua a progredir independentemente da condição do veículo físico que o contém. Colectivamente, enquanto espécie, os seres humanos sempre possuíram almas e o potencial para reconhecer a existência do nosso Criador, independentemente da forma particular que os nossos corpos possam ter assumido ao longo da nossa existência material. Somos entidades portadoras de alma cuja razão de ser sempre foi conhecer e amar Deus:
O propósito de Deus ao criar o homem sempre foi, e sempre será, permitir-lhe conhecer o seu Criador e alcançar a Sua Presença. Deste propósito excelso, deste objectivo supremo, dão testemunho inequívoco todos os livros celestiais e todas as poderosas Escrituras divinamente reveladas. (Selecção dos Escritos de Bahá’u’lláh, XXIX)
O tempo de duração da nossa existência física é infinitesimal quando comparado com a extensão e duração do universo ao nosso redor; a nossa vida na Terra é um momento efémero e uma pequena parte do motivo pelo qual Deus nos criou.

Conhecer e amar Deus – ensinou Bahá’u’lláh – constitui um processo eterno que continua após a vida física. Em cada um de nós existe uma identidade espiritual perfeitamente adequada a este processo eterno; uma realidade imortal, parte de uma dimensão espiritual invisível. Todo o universo físico está envolvido e impregnado por esta dimensão espiritual, uma infinidade dentro de uma infinidade.

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Texto original: Do We All Worship the Same God? (www.bahaiteachings.org)


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Joseph Sheppherd faleceu 2015. Foi um antropólogo e arqueólogo linguístico e cultural. Viveu nos Estados Unidos, Reino Unido, Panamá, Colômbia e Eslováquia. Passou vários anos entre os povos das selvas dos Camarões e da Guiné Equatorial. Foi professor, escritor, escultor, artista gráfico, artesão e pintor. Publicou 10 livros onde abordou diversos temas, desde assuntos profissionais até aos temas Bahá'ís, passando pela poesia, ficção e literatura infantil.

sábado, 6 de abril de 2019

Terá Darwin descoberto a Divindade?

Por Robert Atkinson.


A maioria das pessoas recorda o famoso cientista Charles Darwin pela sua teoria da “sobrevivência do mais apto”.

Essa perspectiva da evolução descreve as criaturas no mundo natural – incluindo os humanos – em competição uns contra os outros, num cenário de oposição inerente a todas as criaturas. Há quem diga que a sua teoria lançou uma visão do mundo caracterizado pela separação e competição.

No entanto, se olharmos cuidadosamente para os seus escritos, descobrimos o outro lado da história - algo desconhecido, ignorado e mal-entendido. A visão do mundo marcado pela separação já existia muitos séculos antes de Darwin e as muitas tentativas dos seus seguidores para promover a sua teoria parecem agora ser uma derradeira tentativa para defender essa maneira antiquada de olhar o mundo. Além disso, a teoria completa de Darwin, quando examinada detalhadamente, ajusta-se mais aos princípios espirituais emergentes no seu tempo do que fomos levados a acreditar.

Durante a vida de Darwin, teve início, em 1852, um avanço na consciência da humanidade com a revelação de Bahá’u’lláh, o fundador da Fé Bahá’í. Os ensinamentos Bahá’ís, destinados a ultrapassar normas existentes de construção da nações e nacionalismo, baseiam-se na unicidade da humanidade - o princípio espiritual fundamental que caracteriza o nosso tempo:
A Terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos… Sois frutos de uma só árvore e folhas de um só ramo… Tão poderosa é a luz da unidade que pode iluminar a terra inteira. (Baha’u’llah, Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, CXXXII)
Os ensinamentos Bahá’ís apresentam uma visão totalmente desenvolvida da evolução, na qual todas as coisas estão interligadas, dependem do mesmo Criador e, portanto, seguem as mesmas leis e princípios em todos os domínios - incluindo a evolução colectiva da humanidade, que passa por fases, tal como o indivíduo:
A realidade é uma só; e quando encontrada, unificará toda a humanidade… A realidade é o conhecimento de Deus… A realidade está subjacente a todos os grandes sistemas religiosos do mundo. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 372)

A ordem mundial apenas se pode basear na inabalável consciência da unicidade da humanidade… O reconhecimento desta verdade exige o abandono dos preconceitos - preconceitos de todos os tipos – raça, classe, cor, credo, nação, sexo, grau de civilização material, e tudo o que permita que as pessoas se considerem superiores a outras. (The Universal House of Justice, The Promise of World Peace, p. 10)
Os ensinamentos Bahá'ís afirmam que a evolução tem um objectivo, é progressiva e conduz a níveis de cooperação cada vez maiores. Surpreendentemente, a visão de Darwin sobre a evolução, quando considerada na sua totalidade, apresenta um paralelismo perfeito com isto. Darwin fez estudos para ser clérigo; depois, numa verdadeira mudança de paradigma, partiu em viagem no Beagle para as zonas mais remotas do mundo; e também reconheceu que, coexistindo com a sua teoria da “sobrevivência do mais apto”, existe a lei natural da cooperação.

Uma leitura mais pormenorizada sobre as ideias de Darwin revela uma ligação intrigante entre a sua teoria da evolução e os ensinamentos Bahá’ís. No livro The Descent of Man [1871] (traduzido em Portugal como A Origem do Homem e no Brasil como A Descendência do Homem), Darwin escreveu sobre a evolução progressiva:
À medida que o homem progride, e pequenas tribos se unem em comunidades maiores, a simples razão diz ao indivíduo que deve alargar os seus instintos e simpatias sociais a todos os membros da mesma nação, mesmo que não os conheça pessoalmente. Quando se chega a este ponto, apenas existe uma barreira artificial que impede que as suas simpatias se alarguem aos homens de todas as nações e raças. (Charles Darwin, The Descent of Man, p. 83)
O que ele descreve aqui, será altruísmo colectivo ou a Regra de Ouro? Numa frase arrebatadora, Darwin leva a lei natural da cooperação do nível individual ao nível global. O próximo passo neste percurso evolutivo - que tem os seus altos e baixos - será outro princípio espiritual universal - a paz na terra - que é prometido por todas as tradições espirituais mundiais, mas também é visto como inevitável pelas escrituras Bahá’ís.

Será que quando os ensinamentos Bahá’ís estavam a ser revelados no mundo, Darwin, de alguma forma, recebeu estas energias espirituais e integrou-as nas suas ideias inovadoras sobre a evolução? Poderiam outros pensadores de vanguarda daquele tempo – como os transcendentalistas e, mais tarde, os defensores das teorias quânticas – ter feito a mesma coisa nas suas áreas pelo progresso da consciência da humanidade?

Um princípio espiritual essencial da Fé Bahá’í é que a ciência e a religião devem estar em harmonia – a razão e a fé são formas complementares (e necessárias) para compreender plenamente a natureza da realidade. O progresso de cada uma anda a par com a outra.

Nos nossos dias, ciência e religião parecem concordar com a ideia de evolução progressiva. Os ensinamentos Bahá’ís afirmam:
Todos os seres, sejam universais ou particulares, foram criados perfeitos e completos desde o início. O máximo que podemos dizer é que as suas perfeições apenas se tornaram gradualmente aparentes. A lei de Deus é uma; a evolução da existência é uma; a ordem divina é uma. Todos os seres, grandes ou pequenos, estão sujeitos a uma lei e uma ordem. Cada semente tem, desde o início, todas as perfeições da planta… Quando consideramos esta ordem universal, vemos que nenhuma coisa atinge a perfeição imediatamente após vir à existência, mas cresce e desenvolve-se gradualmente até atingir essa fase. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 229-230)
Charles Darwin, no livro A Origem das Espécies (1859), apresenta outro conceito que o liga aos ensinamentos Bahá’ís, quando escreve: “Como a selecção natural trabalha unicamente para o bem de cada ser, todos os dons corporais e mentais tendem a progredir em direcção à perfeição.” (p.577)

Quando juntamos a toda a teoria da evolução de Darwin – baseada na ideia de que os nossos instintos sociais evoluem de “pequenas tribos” para “grandes comunidades”, para “todos os membros da mesma nação” e, por fim, “todas as nações e raças” – com a ideia de que a evolução progride para a perfeição, a sua visão geral alinha-se quase integralmente com o princípio de evolução espiritual através do desenvolvimento progressivo da ordem em direcção a uma harmonia crescente.

Também é interessante notar que antes de Charles Darwin, o conceito de evolução ainda não tinha surgido no discurso público. Agora reconhecemos que tudo evolui: a vida, a cultura, a civilização, a ciência, a tecnologia, as artes e até o próprio universo.

Compreender o que Darwin verdadeiramente disse – e pretendia – assim como a sua provável fonte de inspiração, é uma forma de entender que os saltos evolutivos da consciência humana acontecem numa escala mais ampla. De facto, os fundadores das religiões do passado também tiveram os seus Darwins, Emersons e Einsteins que preencheram o fosso entre ciência e religião enquanto faziam avançar o espírito da época através de uma perspectiva essencialmente secular.

É difícil negar que os fundadores das religiões mundiais - como Abraão, Krishna, Moisés, Zoroastro, Buda, Cristo, Maomé e, no nosso tempo, Bahá'u'lláh - tenham, cada um à sua maneira, transformado a vida espiritual dos povos do mundo, mudado o rumo da vida humana ao longo dos últimos milhares de anos e causado um salto de consciência em cada nova época espiritual iniciada por cada um deles.

Hoje, compreendemos melhor que existe uma lei universal governa tudo, que a realidade é uma só e que a evolução progressiva e a revelação progressiva são princípios paralelos de uma única realidade. Podemos ficar encorajados com a harmonia sobre verdades vitais, tais como o desenvolvimento evolutivo, que nos guiam para uma consciência da unicidade da humanidade.

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Texto original: Did Darwin Discover Divinity? (www.bahaiteachings.org)

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Robert Atkinson é doutorado em psicologia do desenvolvimento, professor na University of Southern Maine e autor de vários livros, nomeadamente, The Story Of Our Time: From Duality to Interconnectedness to Oneness, Mystic Journey: Getting to the Heart of Your Soul’s Story (2012), e Remembering 1969: Searching for the Eternal in Changing Times (2008).

sábado, 26 de janeiro de 2019

Deus tem alguma “Palavra Final”?

Por David Langness.


Nenhuma brisa pode se comparar às brisas da Revelação Divina, pois a Palavra que é proferida por Deus, brilha e flameja como o sol entre os livros dos homens. (Bahá’u’lláh, Epistle to the Son of the Wolf, p. 42-43)
Ao longo da a minha vida, tenho tido um interesse constante por estas brisas da revelação divina e concentrei a minha atenção em coisas místicas.

Na verdade, a minha avó disse-me uma vez que eu costumava pegar a mão dela, puxava-a para o quarto vazio mais próximo, fechava a porta e dizia: "OK, agora vamos falar sobre Deus". Ela dizia-me que isto começou quando eu tinha quatro anos.

Não faço ideia como desenvolvi aquele tipo de interesse intenso, numa idade tão precoce. A minha família não era particularmente religiosa – o meu pai tinha sido um luterano não-praticante e tornara-se um ateu que ridicularizava a maioria das religiões; também não gostava muito do clero. A minha mãe, criada como católica, tinha abandonado a Igreja quando era jovem, acreditando que ela justificava abusos psicológicos e físicos. Apenas a minha avó - abençoado seja o seu coração terno - tinha um profundo sentido de fé. As suas convicções não estavam limitadas a nenhuma igreja ou sistema; ela apenas vivia um forte compromisso com a bondade e o amor que encontrou no Antigo e no Novo Testamentos.

Assim, talvez este cenário explique porque é que eu sempre senti que as palavras "final" e "religião" nunca deveriam ser usadas juntas na mesma frase. Quando descobri a Fé Bahá’í durante a adolescência, a minha primeira pergunta foi: esta religião é a final?

Nunca esquecerei a resposta que me deu o Jess, um amigo Bahá’í e professor de artes: "Nenhuma religião é definitiva", disse ele. “Elas fazem parte de uma revelação progressiva e contínua de um único Deus.” Essa resposta deu ao meu interior céptico a permissão de que eu precisava para investigar mais e, três anos depois, tornei-me Bahá’í.

Mais tarde, examinei todo este tema de finalidade, porque mantive contactos com pessoas que insistiam que a sua religião - hindu, budista, cristã, muçulmana ou muitas outras - era a palavra final em matéria de fé.

Aprendi que Bahá’u’lláh advertiu especificamente as “pessoas de discernimento” a não permitir que a sua devoção por uma única religião as cegasse para a validade, e para a verdade das outras. Acreditar que uma determinada religião é a final, escreveu Bahá'u'lláh, “tem sido… um teste penoso para toda a humanidade”. (O Livro da Certeza, ¶173) Na verdade, os ensinamentos Bahá'ís dizem que essa tendência - insistir que uma religião é correcta e final, e as restantes estão erradas ou são inválidas – tem causado enorme sofrimento, conflitos e dor ao longo da história. Bahá'u'lláh disse – pelo contrário - que todos os Profetas de Deus representam a mesma essência:
Se observares com olhar criterioso, verás todos habitando no mesmo tabernáculo, voando no mesmo céu, sentados no mesmo trono, proferindo as mesmas palavras e proclamando a mesma Fé. (O Livro da Certeza, ¶162)
Depois, descobri que Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í, usou as palavras “final” e “religião” numa única frase - quando ele escreveu estas palavras fortes sobre o assunto:
A Fé que se identifica com o nome de Bahá'u'lláh, rejeita a qualquer intenção de menosprezar qualquer um dos Profetas anteriores a Ele, de reduzir qualquer um dos seus ensinamentos, de obscurecer, ainda que levemente, o esplendor das suas Revelações, de expulsá-los dos corações dos seus seguidores, de abolir os fundamentos das suas doutrinas, de descartar qualquer um dos seus Livros revelados, ou de suprimir as aspirações legítimas dos seus seguidores. Repudiando a pretensão de qualquer religião ser a revelação final de Deus ao homem, negando a finalidade da Sua própria Revelação, Bahá'u'lláh inculca o princípio básico da relatividade da verdade religiosa, a continuidade da Revelação Divina, a progressividade da experiência religiosa. O Seu objetivo é alargar a base de todas as religiões reveladas e desvendar os mistérios das suas escrituras. Ele insiste no reconhecimento incondicional da unidade do seu propósito, reafirma as verdades eternas que elas consagram, coordena as suas funções, distingue o essencial e o autêntico, do não-essencial e espúrio nos seus ensinamentos, separa as verdades dadas por Deus das induzidas pelas superstições dos sacerdotes, e tendo isto como base proclama a possibilidade, e até profetiza a inevitabilidade, da sua unificação, e a consumação das suas maiores esperanças. (The Promised Day is Come, p. 108)
Estamos certamente na era da evolução e da relatividade na ciência; porque não na religião, também? "Bahá'u'lláh inculca o princípio básico da relatividade da verdade religiosa", escreveu Shoghi Effendi. Podemos designar este conceito poderoso como uma teoria religiosa da evolução, porque nega categoricamente que qualquer religião seja final, dizendo que toda a religião constitui um sistema único, progressivo e em constante evolução:
... É evidente que Deus destinou e pretendeu que a religião fosse a causa e o meio de esforço de cooperação e realização entre a humanidade. Para este objectivo, Ele enviou os profetas de Deus, os santos Manifestantes da Palavra, para que a realidade fundamental e a religião de Deus possam provar ser o elo da unidade humana, pois as religiões divinas reveladas por esses santos Mensageiros têm uma e a mesma fundação. (‘Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 338)
Quando começamos a reconhecer a semelhança, a unidade e a verdade que fundamenta toda grande Fé, como minha avó fazia instintivamente, começamos a entender que a noção estática de finalidade nunca pode se aplicar a um sistema em constante evolução. Assim como o processo inter-geracional de evolução física garante que nenhuma versão final da realidade possa existir, a revelação progressiva também garante que a Palavra de Deus nunca esgotará os seus significados ou aparecerá em qualquer versão final.

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Texto original: Can the Word of God Ever Be Final? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 18 de agosto de 2018

Cientismo: Se não pode ser provado cientificamente, não existe?

Por David Langness.


Tenho um amigo que quando lhe perguntam qual é a sua religião, ele responde: “Acredito no cientismo”.

“O que é isso?” pergunta a maioria das pessoas.

E geralmente, dá a seguinte resposta: “É a crença de que nada é verdade a menos que possa ser provado cientificamente”.

Numa ocasião tivemos uma discussão sobre esta sua resposta tradicional.

Perguntei-lhe: “Consegues provar isso cientificamente?”

Ele pensou um pouco e acabou por admitir: “Não”.

O cientismo é provavelmente a religião prevalecente no mundo de hoje, especialmente entre as classes educadas na cultura ocidental; mas baseia-se num dogma irracional e contraditório. Defende que apenas podemos acreditar nas coisas palpáveis. Se podemos medir, quantificar ou observar uma coisa no mundo dos sentidos – afirma o crente no cientismo – isso significa que a coisa é verdadeira. Caso contrário, é falsa ou inexistente.

Este raciocínio lógico tem um problema grave – não consegue provar a premissa central do cientismo usando a ciência, razão ou empirismo. O seu ensinamento central – de que a ciência tem acesso a todas as verdades importantes da vida – nega a existência de qualquer coisa que não possamos observar no mundo físico.

Os filósofos do cientismo, que aceitam apenas e exclusivamente aquilo que se pode medir e avaliar, consideram a ciência e o método científico como a única forma aceitável para compreender toda a realidade. Os novos ateus – escritores como Sam Harris, Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Daniel Dennett – geralmente aceitam a ideia de que Deus não pode ser provado cientificamente, e que tudo o que existe no universo físico pode ser explicado de forma científica. Os ensinamentos Bahá’ís definem este tipo de filósofos como materialistas:
Os filósofos do mundo estão divididos em duas categorias: os materialistas, que negam o espírito e a sua imortalidade, e os filósofos divinos, os sábios de Deus, os verdadeiros iluminados que acreditam no espírito e na sua continuidade. Os filósofos antigos ensinaram que o homem consistia apenas de elementos materiais que compunham a sua estrutura celular e que quando esta estrutura elementar se desintegrava, a vida extinguia-se. Defendiam que o homem é apenas um corpo, e que surgiu da composição elementar de órgãos e das suas funções, sentidos, poderes e atributos, e que estes desaparecem completamente com o corpo físico. Isto é praticamente a afirmação de todos os materialistas. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 239)
‘Abdu’l-Bahá ilustra a falácia desta ideia ao examinar a natureza dos seres humanos, e assinalando o facto inegável da nossa consciência humana provar que possuímos uma realidade superior e mais complexa do que a restante criação material:
O homem possui as emanações da consciência; ele tem percepção, imaginação e é capaz de descobrir os mistérios do universo. Todas as indústrias, invenções e recursos que rodeiam a nossa vida diária foram, em determinado momento, tesouros ocultos da natureza, mas descobriu-as todas e sujeitou-as aos seus propósitos. Segundo as leis da natureza deveriam ter permanecido latentes e ocultas; mas o homem, transcendendo estas leis, descobriu estes mistérios e trouxe-os do plano invisível para o reino do conhecido e do visível. Como é maravilhoso o espírito do homem! Um dos mistérios dos fenómenos naturais é a electricidade. O homem descobriu o seu poder ilimitado e usou-a para seu proveito… O homem compreendeu que o sol está imóvel enquanto a terra gira ao seu redor. O animal não pode fazer isto. O homem percebe que a miragem é uma ilusão. Isto está para lá do poder do animal. O animal apenas pode perceber através das impressões sensoriais e não pode perceber realidades intelectuais. O animal não pode conceber o poder do pensamento. Isto é um tema intelectual abstracto e não está limitado aos sentidos. O animal é incapaz de perceber que a terra é redonda. Em resumo, os fenómenos intelectuais abstractos são poderes humanos… O homem transcende a natureza, enquanto o mineral, o vegetal e o animar estão subordinados a ela. Isto apenas pode ser feito através do poder do espírito porque o espírito é a realidade. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 240)
As pessoas têm poderes, faculdades e virtudes que nenhuma outra criatura possui. Produzimos arte, construímos civilizações, criamos culturas, descobrimos verdades científicas que estavam ocultas, e percebemos o que existe para lá do imediato e do físico. E acima de tudo, a vasta maioria das pessoas acredita na existência de Deus, que cada um de nós tem uma alma imortal, e que o propósito da vida e a base da moralidade inclui conhecer Deus. Numa perspectiva Bahá’í, esta combinação de atributos e a sua expressão consistente ao longo de milhares de anos, demonstra de forma definitiva que os humanos possuem uma realidade espiritual que transcende as limitações físicas e palpáveis do mundo material:
Nos poderes físicos e dos sentidos, porém, o homem e o animal são parceiros. De facto, o animal é frequentemente superior ao homem na percepção dos sentidos. Por exemplo, a visão de alguns animais é extremamente precisa e a audição de outros é muito apurada. Considere-se o instinto de um cão: como é superior ao de um homem. Mas apesar do animal partilhar com o homem todas as virtudes e sentidos físicos, foi concedido ao homem um poder espiritual que os animais não possuem. Isto é uma prova de que existe algo no homem que esta acima a além do talento animal – uma faculdade e virtude inerente ao reino humano que está ausente nos reinos de existência inferior. Isto é o espírito do homem. Todas estas maravilhosas realizações humanas devem-se ao poder eficiente e avassalador do espírito do homem. Se o homem estivesse privado deste espírito, nenhuma destas realizações teria sido possível. Isto é evidente como o sol do meio-dia. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 241-242)

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Texto original: Scientism: If You Can’t Count It, Does It Count? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 11 de agosto de 2018

As revoluções de 1848 e a sua relevância nos dias de hoje

Por Tom Lysaght.


Há muito que o ano de 1848 é conhecido na Europa como “O Ano da Revolução”.

O rei Luís Filipe foi forçado a abdicar do trono francês e fugiu do país disfarçado de comerciante. Enquanto a república era proclamada em França, a Hungria declarava a sua independência da Áustria. Em Viena, enquanto os revolucionários entravam no palácio real, o rei Ferdinando abdicava do trono e fugia da Áustria. Nos estados italianos, os rebeldes seguiam o exemplo húngaro e austríaco e expulsavam os vice-reis e governantes, e o Papa ficava apreensivo. Durante a noite, vestido como se fosse um simples sacerdote, o Papa Pio IX fugiu de Roma. Em Inglaterra, 100.000 membros do movimento Cartista reuniam-se para marchar em direcção ao Parlamento. A Suécia, a Irlanda e a Dinamarca também tiveram as suas revoltas em 1848.

Convenção de Seneca Falls
Uma revolta mais pacífica - mas não menos radical e transformadora - ocorreu numa aldeia no norte do estado de Nova Iorque nesse mesmo ano. Esse movimento foi único pelo facto da quase totalidade dos seus 300 participantes serem mulheres; a excepção foi Frederick Douglass, um abolicionista e ex-escravo.

A Convenção de Seneca Falls é considerada a primeira conferência sobre direitos das mulheres. Curiosamente, os anúncios sobre este encontro apareceram nos jornais no dia 14 de Julho, o mesmo dia em que terminava outra conferência, onde se anunciava a emancipação da mulher. Infelizmente, o mundo Eurocêntrico ignorou durante muito tempo o que aconteceu na aldeia de Badasht, na Pérsia, local cujo nome um dia será tão familiar para nós como Belém.

Em 2017, deu-se um reconhecimento extraordinário evento. Em várias celebrações realizadas em todos os países do mundo, celebrou-se o bicentenário do nascimento de Bahá’u’lláh, uma das duas personagens que convocaram essa conferência profundamente marcante.

De facto, houve dois eventos tremendos na Pérsia em Julho de 1848, que podem ser coonsiderados como a principal causa das repercussões revolucionárias que sentiram no resto do mundo durante esse ano.

Desde essa década, reis e clérigos começaram a ser despojados de poder e caíram às mãos do povo.

Nessa mesma década de 1984, uma febre milenarista varreu os mundos Judaico-Cristão e Muçulmano. Rabinos e académicos Judeus, como Judah Alkalai e A.H. Silver consideravam 1840 como o tempo do Messias; “adventistas” como William Miller afirmavam que 1844 era a data prometida pela Bíblia para o regresso de Cristo; templários alemães foram viver para a Palestina e construíram as suas casas no sopé do Monte Carmelo para estarem próximos quando ocorresse a Segunda Vinda; os Muçulmanos consideravam o ano 1260 A.H. (1844 EC) como o momento em que o Qaim (ou o Mahdi) – o Prometido do Islão – surgiria como salvador espiritual.

Apesar dessas expectativas e profecias da década 1840, e das mudanças sociais revolucionárias iniciadas nesse tempo, a maioria dos Judeus ainda espera pelo seu Messias, tal como a maioria dos Cristãos aguarda o regresso de Cristo, e a maioria dos Muçulmanos espera pelo seu Qa’im. Estariam as expectativas e profecias incorrectas? Será que as mudanças sociais mundiais da década de 1840 forma mera coincidência? No seu livro O Ladrão na Noite, William Sears aborda este enigma.
Quando uma abundância esmagadora de provas aponta apenas para uma conclusão possível, e essa conclusão Mostra estar errada, nunca é sensato descartar todas as evidências como estando erradas. É mais sensato assumir que talvez as evidências estejam correctas, e que outra interpretação totalmente diferente dos factos, ou uma conclusão completamente diferente se possa extrair dessas mesmas provas. (p.30)
Os Bahá’ís apresentam uma conclusão alternativa.

As profecias bíblicas referem que “duas testemunhas” (Apocalipse 11:3) são necessárias para dar início ao tão aguardado Dia Prometido; por seu lado, o Alcorão profetiza que “dois toques de trombeta” (39:68) anunciarão o dia da renovação. Em Julho de 1848, na Pérsia, foi reunido um tribunal para inquirir um conhecido homem santo, considerado herético, e conhecido como Báb (“A Porta”). No entanto, o Báb usou essa oportunidade de julgamento público para proclamar perante as mais altas instituições persas, que Ele era o Prometido aguardado, não só pelo Islão, mas também por todas as religiões.

Simultaneamente, num outro local mas com o mesmo propósito do Báb, Bahá’u’lláh era o principal impulsionador daquela histórica conferência de Badasht, onde a emancipação da mulher foi primeiramente proclamada por Tahirih, uma poetisa e heroína Babi.

Poderiam um prisioneiro e um nobre persas ser os dois portadores de uma nova mensagem divina para a humanidade? É precisamente isso que os Bahá’ís em todo o mundo celebram durante os anos dos bicentenários dos nascimentos de Bahá’u’lláh e do Báb. Mas porque o primeiro princípio da sua religião é a livre e independente pesquisa da verdade, Eles não queriam que nos limitássemos a acreditar neles. No fundo, a religião não pode continuar a ser uma consequência do local onde nascemos ou uma questão de fé cega. Em vez disso, Eles querem que investiguemos as fontes:
Em verdade digo, este é o Dia em que a humanidade pode contemplar a Face e ouvir a Voz do Prometido. Ergueu-se o Chamamento de Deus e a luz do Seu semblante levantou-se sobre os homens. Compete a todo o homem eliminar todo o vestígio de palavras fúteis da tábua do seu coração, e olhar, com mente aberta e sem preconceitos, os sinais da Sua Revelação, as provas da Sua Missão, e as marcas da Sua Glória. Grande é, de facto, este Dia! As alusões que lhe são feitas em todas as Sagradas Escrituras como o Dia de Deus atestam a sua grandeza. A alma de todo o Profeta de Deus, de todo o Mensageiro Divino, estava sequiosa por este Dia maravilhoso. As diversas raças da terra, de igual modo, desejavam alcançá-lo… Deus permita que a luz da unidade possa envolver toda a terra. (Baha’u’llah, Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, VII)

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Texto Original: The Revolutions of 1848, and Their Relevance Today (www.bahaiteachings.org)

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Tom Lysaght é autor de várias peças de teatro, nomeadamente “Heralds of the Covenant” (que foi exibida Durante o Congresso Mundial Bahá’í de 1992). Foi director da Radio Baha’i do Lago Titcaca (Peru) e é autor do site Your Creative Stage que pretende lançar o teatro como instrumento de construção de comunidades.

sábado, 28 de julho de 2018

A Longa Guerra - e a Trégua Recente - entre Ciência e Religião

Por David Langness.
…uma pessoa religiosa é devota no sentido de não ter nenhuma dúvida quanto ao significado e sublimidade daqueles objectivos e metas suprapessoais que não exigem nem admitem fundamentação racional. Eles existem com a mesma necessidade e vidência quanto ela própria. Nesse sentido, a religião é o antiquíssimo esforço da humanidade para alcançar uma consciência clara e completa desses valores e objectivos, e para reforçar e ampliar incessantemente o seu efeito. Se concebemos a religião e a ciência segundo estas definições, parece impossível um conflito entre elas. Pois a ciência pode apenas determinar o que é, mas não o que deve ser; fora do seu domínio, todos os tipos de juízos de valor continuam a ser necessários. A religião, por outro lado, lida somente com avaliações do pensamento e da acção humanas: não lhe é lícito falar de factos e das relações entre os factos. Segundo esta interpretação, os conhecidos conflitos ocorridos entre religião e ciência no passado devem ser todos atribuídos a uma má compreensão da situação em causa. (Albert Einstein)
Stephen Jay Gould
Esta citação do famoso físico resume claramente a trégua actual entre a ciência e a religião tradicional. Após uma guerra de vários séculos entre a religião tradicional e a ciência emergente, muitos cientistas e teólogos estabeleceram recentemente um tratado de paz. O filósofo e biólogo Stephen Jay Gould criou uma expressão para esta trégua: “magistérios não-interferentes” (NOMA: Non-Overlapping Magisteria). Gould lançou originalmente este teoria em 1997, num artigo na revista Natural History, e recebeu um apoio significativo de teólogos e cientistas.

Gould definiu “magistério” como “um domínio onde uma forma de ensino tem as ferramentas apropriadas para um discurso e uma explicação com sentido”. Em 1999, no seu livro Rocks of Ages, Science and Religion in the Fullness of Life, ele definiu os domínios separados da ciência e da religião da seguinte forma:
A ciência tenta documentar o carácter factual do mundo natural, e desenvolve teorias que coordenam e explicam estes factos. A religião, por seu lado, opera num campo igualmente importante, mas completamente diferente: os propósitos, os significados e os valores humanos - temas que a ciência dos factos pode elucidar mas nunca pode explicar
Muitas Academias Nacionais de Ciências concordaram com esta ideia, afirmando nas suas declarações oficiais que a religião e a ciência são independentes uma da outra e “baseiam-se em diferentes aspectos da experiência humana”.

Esta visão, que hoje é amplamente defendida, está provavelmente muito próximo do princípio Bahá’í de harmonia essencial e reciprocidade entre as duas esferas:
Podemos pensar na ciência como uma asa e na religião como outra; uma ave necessita de duas asas para voar; ter apenas uma seria inútil. Qualquer religião que contradiga a ciência ou que se lhe oponha, é apenas ignorância – pois a ignorância é o oposto do conhecimento.

A religião que consiste apenas em rituais e cerimónias de preconceitos não é verdadeira. Façamos os nossos maiores esforços para ser meios de unidade entre religião e ciência.

Aquilo que a inteligência do homem não consegue compreender, a religião não deve aceitar. Religião e ciência caminham lado a lado, e qualquer religião contrária à ciência não é verdadeira (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 130)
No entanto, os ensinamentos Bahá’ís levam este conceito mais longe do que esta trégua: não se limitam a ver ausência de conflito entre religião e ciência; também vêem uma forte interligação:
A religião e a ciência são duas asas com as quais a inteligência do homem pode subir às alturas, com as quais a alma humana pode progredir. Não é possível voar apenas com uma asa! Se um homem tentar voar apenas com a asa da religião cairá rapidamente no atoleiro da superstição, enquanto se tentar apenas com a asa da ciência não conseguirá qualquer progresso, mas cairá no lamaçal desesperante do materialismo. Todas as religiões do dia actual caíram em práticas supersticiosas, não tendo concordância com os verdadeiros princípios dos ensinamentos que representam, nem com as descobertas científicas da época. Muitos líderes religiosos acabaram por acreditar que a importância da religião reside essencialmente na adesão a um certo conjunto de dogmas, práticas de ritos e cerimónias! Aquelas almas que eles pretendem curar são igualmente ensinadas a acreditar e a aderir obstinadamente a formas exteriores e confundindo-os com a verdade interior.

Acontece que estes rituais e formas são diferentes nas várias igrejas e entre as diferentes seitas, e até se contradizem umas às outras; dão azo a discórdia, ódio e união. O resultado de toda esta contenda é a convicção de muitos homens cultos de que a religião e ciência são contraditórias, de que a religião não precisa dos poderes da reflexão, e que não deve de modo algum ser regulada pela ciência, e que devem necessariamente opor-se uma à outra. O resultado infeliz disto é que a ciência se afastou da religião, e que a religião se tornou cega, e segue de forma mais ou menos apática os preceitos de alguns professores religiosos, que insistem que os seus dogmas favoritos devem ser aceites mesmo se forem contrários à ciência. Isto é disparate, pois é evidente que a ciência é luz, e sendo assim, a chamada verdadeira religião não se opõe ao conhecimento. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pp. 142-143)
Para os Bahá’ís, a verdade é só uma. Na perspectiva Bahá’í, a verdade científica e a verdade espiritual não operam apenas em áreas separadas - têm a mesma base, a mesma veracidade, e mesma substância:
Não existe contradição entre a verdadeira religião e a ciência. Quando a religião se opõe à ciência torna-se mera superstição; o contrário do conhecimento é a ignorância.

Como pode um homem acreditar num facto que a ciência provou ser impossível? Se ele acredita apesar da sua razão, é mais superstição do que fé. Os verdadeiros princípios de todas as religiões estão em conformidade com os ensinamentos da ciência.

A Unidade de Deus é lógica, e esta ideia não é antagónica às conclusões obtidas pelo estudo científico. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 141)
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Texto original: The Long War - and the Recent Truce - Between Science and Religion (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 21 de julho de 2018

A Fé Bahá’í: uma Religião Científica?

Por David Langness.

Louvado seja Deus, pois este século é o século das ciências! Este ciclo é o ciclo da realidade! As mentes desenvolveram-se; os pensamentos assumiram uma visão mais ampla; os intelectos tornaram-se mais profundos; as emoções tornaram-se mais sensíveis; as invenções transformaram a face da terra, e esta era adquiriu uma capacidade gloriosa para a revelação majestosa da unicidade do mundo da humanidade. ('Abdu’l-Baha, Divine Philosophy, pAG. 162-163)
Vivemos, sem dúvida, na era da ciência.

Há apenas um grupo muito reduzido de pessoas na face da Terra que ainda vive em condições intocadas pela ciência moderna. A vasta maioria da população mundial, durante os últimos dois séculos, teve a sua vida revolucionada por descobertas científicas e progressos tecnológicos que hoje tomamos como garantidos.

As invenções científicas, tal como ‘Abdu’l-Bahá sugeriu há mais de cem anos atrás, “transformaram a face da terra”. A ciência tem tido um impacto profundo em todos nós, prolongando a esperança de vida, proporcionando a muitos de nós fontes de alimentação relativamente baratas e seguras, erradicando e controlando doenças mortais que costumavam flagelar a humanidade, e dando-nos a possibilidade de viajar, comunicar e criar amizades com praticamente todos os grupos de pessoas no planeta.

É claro que os avanços da ciência contemporânea também trouxeram a massificação e modernização da guerra e do genocídio, a proliferação das armas nucleares e a vasta poluição da biosfera da Terra.

Podemos então perguntar: como é que as pessoas que se interessam pelas realidades espirituais da vida se relacionam com a ciência? Devemos considerá-la um grande benefício ou uma grande ameaça? Se acreditamos na ciência, será que isso exclui Deus? Como devemos tomar decisões - devemos dar prioridade à religião ou à ciência? A ciência representa uma esperança para as gerações futuras ou será um perigo para o nosso futuro?

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que a ciência e a religião são “as duas forças mais poderosas na vida humana”. De facto, a Fé Bahá’í tem uma relação única com a ciência – em vez de se opor, de a ignorar ou de negar o seu impacto profundo, o princípio Bahá’í de harmonia e concordância fundamental entre ciência e religião apresenta uma visão completamente nova de como o progresso científico e a religião progressiva podem potencialmente coexistir e cooperar.

Ao contrário de qualquer outra religião, os ensinamentos Bahá’ís afirmam que a própria religião deve estar de acordo com os ditames da ciência e da razão:
Até agora dizia-se que todas as religiões eram constituídas por doutrinas que tinham de ser aceites, mesmo que parecessem contrárias à ciência. Graças a Deus, neste novo ciclo o conselho de Bahá’u’lláh é que na procura da verdade o homem deve avaliar questões religiosas na balança da ciência e da razão. Deus deu-nos mentes racionais com este propósito: para que compreendamos todas as coisas, para encontrar a verdade. Se alguém renuncia à razão, o que lhe resta? Os textos sagrados? Como podemos compreender os mandamentos de Deus e que aplicação lhes podemos dar, sem o equilíbrio da razão?

Os sacerdotes estão apegados a antigas superstições e quando estas não estão de acordo com a ciência, eles denunciam a ciência. Quando a religião é sustentada pela ciência e pela razão, podemos acreditar com certeza e agir com convicção, pois a faculdade racional é a maior força no mundo. Através dela, criaram-se indústrias, o passado e o presente revelam-se e as realidades ocultas são trazidas à luz. (‘Abdu’l-Bahá, Divine Philosophy, pags. 102-103)
Por este motivo, há muitos observadores e comentadores que chamam “religião científica” à Fé Bahá’í. Essa expressão salienta o princípio básico de concordância essência entre ciência e religião, e também caracteriza a atitude da Comunidade Bahá’í face às questões modernas sobre ciência, tecnologia, medicina e ética; além disso, explica porque é que tantos Bahá’ís optam por cursos educativos científicos e técnicos e se tornam cientistas, engenheiros, médicos e investigadores; e por último, descreve de forma genérica a atitude dos Bahá’ís para com as explicações lógicas e racionais sobre a existência de uma realidade espiritual.

Nesta série de artigos sobre ciência e religião, vamos analisar detalhadamente alguns assuntos específicos: como é que os Bahá’ís encaram as controversas questões modernas que a ciência coloca? E a afirmação de ateus e agnósticos de que a ciência tornou obsoleta a crença em Deus? Porque é que a comunidade científica não aproveitou plenamente as contribuições das mulheres nos campos científicos? Como é que os Bahá’ís vêem a pseudociência? Como podem os ensinamentos espirituais da Fé Bahá’í ajudar a aliviar os estragos feitos pela perspectiva científica mundialmente dominante que vê os humanos como um exército que conquista, domina, mecaniza e industrializa o mundo natural?

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Texto original: The Baha’i Faith: The Scientific Religion? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 30 de junho de 2018

'Abdu’l-Bahá, Darwin, e a Evolução de Todas as Coisas

Por Robert Sockett.


O livro de Charles Darwin A Origem das Espécies foi publicado em 24 de Novembro de 1859 e chegou aos leitores americanos dois meses mais tarde. As teorias da evolução tinham começado a ser divulgadas nas décadas anteriores à publicação do livro, incluindo aquelas que sugeriam que as espécies se podiam modificar ao longo do tempo. Estas teorias eram controversas e receberam a oposição da comunidade científica, pois eram contrárias à noção ortodoxa de uma hierarquia de criaturas vivendo num sistema imutável criado por Deus.

Charles Darwin, em 1859
O livro de Darwin não só defendia a evolução, mas também apresentava uma apelativa teoria sobre como funcionava. Explicava que na luta pela vida nos sistemas naturais, as populações mais adaptadas ao ambiente têm maior probabilidade de sobreviver e, consequentemente, de se reproduzir. Estas populações deixam características hereditárias para as futuras gerações - um processo a que Darwin chamou “selecção natural” - e ao longo do tempo, o acumular de variações resultantes provoca a formação de novas espécies.

O livro gerou uma vasta discussão em círculos científicos, filosóficos e religiosos. Teólogos liberais receberam com agrado as suas ideias, afirmando que as ideias religiosas não podem permanecer estagnadas. Outros declararam que a ideia era neutra do ponto de vista metafísico. Mas gradualmente, as suas implicações tornaram-se inegáveis. Se a ciência podia explicar a criação de formas de vida cada vez mais complexas em termos puramente materiais, então, talvez não existisse uma razão indiscutível para acreditar num Criador.

Na tarde de 10 de Outubro de 1912, ‘Abdu’l-Bahá falou no Open Forum em São Francisco - um grupo dedicado à discussão de ideias económicas e filosóficas - e abordou o tema da evolução. Ele defendeu a evolução, embora com diferenças críticas em relação à mecânica física da teoria de Darwin, e apresentou um conjunto totalmente diferente de conclusões metafísicas.

A primeira página do edição britânica
do livro "A Origem das Espécies"
(1859)
O segundo livro de Darwin sobre a teoria da evolução, The Descent of Man (traduzido em Portugal como “A Origem do Homem” e no Brasil como "A Descendência do Homem") foi publicado em 1871, e traça analogias biológicas com babuínos, cães e “selvagens” para mostrar provas de que os humanos descendem dos animais. Em São Francisco, em 10 de Outubro de 1912 ‘Abdu’l-Bahá elaborou uma definição mais precisa sobre aquilo que diferencia humanos dos animais. Entre estes aspectos críticos, disse Ele, encontram-se a razão, o pensamento abstracto e o progresso científico. O animal, afirmou, está limitado pelos seus cinco sentidos e vive inteiramente dentro dos ditames do instinto natural. “[Todos] os fenómenos”, declarou, “estão cativos da natureza.

Mas o ser humano é a excepção a esta regra. “Ao desafiar as leis da natureza,” argumentou ‘Abdu’l-Bahá, “ele pode voar no ar, ou navegar pelos mares num barco, ou explorar as profundezas num submarino. Ele pode colocar numa lâmpada incandescente uma força tremenda e poderosa, e transformá-la para uso próprio.” ‘Abdu’l-Bahá apresentou outros exemplos de invenções notáveis da época, nomeadamente, o fonógrafo e o telefone.

Em resumo”, afirmou, “todas artes e ciências, invenções e descobertas que agora o homem usufruiu eram outrora mistérios da natureza e deveriam ter permanecido ocultos ou latentes. Mas através das faculdades ideais do homem, as leis da natureza foram desafiadas e os segredos da natureza foram trazidos do invisível para o plano do visível.”

No entanto, apesar destas características distintivas, ‘Abdu’l-Bahá notava que os filósofos materialistas “esforçam-se por provar com a anatomia humana que o homem originou do animal.” ‘Abdu’l-Bahá concordava que o homem tinha sofrido alterações biológicas ao longo do tempo. “Suponhamos”, disse ele, “que a anatomia humana era primordialmente diferente da forma actual… que numa época foi semelhante a um peixe, posteriormente um invertebrado e finalmente humano.” No entanto, ao longo desta progressão, defendeu Ele, “o desenvolvimento do homem foi sempre do tipo humano e do tipo biológico.” [sombreado adicionado]

Os debates sobre a Evolução foram uma fonte de
inspiração para os caricaturistas americanos.
Em 1904, na Palestina, ‘Abdu’l-Bahá, respondendo a Laura Clifford Barney, descreveu como se desenvolvem as entidades complexas. ”[O] crescimento e desenvolvimento de todos os seres é gradual,” disse-lhe, “esta é a organização divina universal e o sistema natural.

A palestra de ‘Abdu’l-Bahá no Open Forum foi uma das mais longas e complicadas que Ele deu quando esteve na América. Mas a sua lógica subjacente assenta em dois princípios. Primeiro, apesar dos seres humanos se terem desenvolvido biologicamente ao longo de muitas fases da evolução, sempre estiveram destinados a serem humanos, desenvolvendo o seu potencial latente ao longo do tempo. Segundo, as qualidades que nos distinguem – razão, pensamento abstracto, progresso científico, e outras coisas - não são apenas pequenos diferenciadores, mas antes características que nos separam essencialmente dos animais.

Um elemento adicional na abordagem de ‘Abdu’l-Bahá à teoria da evolução de Darwin e que não foi abordado na sua palestra em São Francisco, foi documentado pela Sra Barney durante a sua estadia na Palestina, e publicado em 1908 no livro Respostas a Algumas Perguntas. ‘Abdu’l-Bahá discordava da noção de Darwin de que a evolução era “cega”, não tendo sentido ou propósito. Pelo contrário, Ele argumentou que o esquema evolutivo era parte do plano divino. O aparecimento dos humanos, afirmou, era o culminar de um processo. De facto, a criação seria imperfeita e incompleta sem os humanos.

Durante o "Julgamento Scopes", T.T. Marin,
Cristão evangélico e militante anti-evolução
alugou uma livraria para divulgar as suas ideias.
Treze anos após a palestra de ‘Abdu’l-Bahá no Open Forum, o debate sobre a evolução na América atingiu um clímax com o infame “Julgamento Scopes”. O Estado do Tennessee aprovou uma lei que proibia o ensino da evolução nas escolas estatais. A União Americana pelas Liberdades Civis financiou uma situação em que John Scopes, um professor do ensino secundário, concordou em violar a lei. Os Estados Unidos tinham a sua atenção fixada em duas figuras lendárias: William Jennings Bryan (três vezes candidato presidencial) que promovia a acusação e o famoso advogado Clarence Darrow que defendeu Scopes.

Quando o julgamento acabou, estava definida uma clara linha de separação: num dos lados, a ciência construiu trincheiras e uma fortaleza ao seu redor; do outro lado, os fundamentalistas religiosos agarravam-se firmemente a uma interpretação literal da história da criação na Bíblia. Quem defendia o diálogo ou um entendimento mais sofisticado do assunto, viu as suas opiniões cada vez menos ouvidas no espaço público.

[NOTA: as citações da palestra de ‘Abdu’l-Bahá no Open Forum usadas neste artigo foram recolhidas dos documentos de Ellen Cooper, nos arquivos Nacionais Bahá’ís dos Estados Unidos.]

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Texto original: Abdu’l-Baha, Darwin, and the Evolution of All Things (http://239days.com/)

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Robert Sockett é um escritor, produtor e director artísticos que vive em Toronto, (Canadá). É co-autor e produtor do site 239 Days in America, A Social Media Documentary, ed. Jonathan Menon and Robert Sockett, October 11, 2012, que documenta e descreve a visita de ‘Abdu’l-Bahá à América do Norte em 1912.

sábado, 23 de junho de 2018

Quando a religião degenera, surge uma nova Fé



Ao longo da história humana, quando os períodos de descrença, separação e degeneração religiosa atingiam o seu apogeu, surgiu sempre uma nova Fé.

Tal como numa floresta saudável, quando as árvores antigas caem e morrem, as novas árvores tomam o seu lugar.

Este ciclo constante de declínio e renovação sempre esteve presente no nascimento de cada uma das grandes religiões.

Por exemplo: os fundadores do Judaísmo, do Budismo, do Islão e do Cristianismo, surgiram em momentos em que os destinos da sociedade se encontravam no ponto mais baixo do seu declínio e a anterior dispensação religiosa tinha perdido o seu poder espiritual inicial. Nesses momentos as religiões existentes definhavam no sectarismo, conflito e hostilidade aberta. As civilizações tinham enfraquecido. A espiritualidade colectiva de toda uma cultura tinha-se deteriorado. A luz da lâmpada de Deus quase se extinguira.

E depois, metaforicamente, surgia um novo dia:

… o Sol da Realidade, quando ilumina o horizonte do mundo interior, anima, vivifica e desperta com um poder divino maravilhoso. As árvores das mentes humanas adornam-se com túnicas novas e verdejantes, mostrado folhas e rebentos, e gerando frutos celestiais de boas novas celestiais. Depois, flores de significados interiores surgem no solo das almas humanas, e todo o ser humano desperta para uma nova actividade divina. Este é o crescimento e o desenvolvimento do mundo interior feito através da luz esplendorosa da orientação divina e do calor do fogo do amor de Deus.

O sol físico ergue-se e põe-se. O mundo terrestre tem o seu dia e a sua noite. Após cada ocaso do sol, segue-se uma alvorada e o nascimento de um novo dia. De igual modo, o Sol da Realidade, tem o seu ocaso e a sua madrugada. Existe dia e noite no mundo da espiritualidade. Após cada partida, existe um regresso, e surge a luz de um novo dia. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 271)

Hoje, vemos a dinâmica deste processo cíclico em acção no mundo, com as pessoas decepcionadas com as religiões dos seus pais, questionando-as e abandonando em números cada vez maiores aquelas tradições antiquadas. No fundo, se todas aquelas tradições perderam o seu significado interior, o seu sentido, a sua vitalidade, então porque continuariam as pessoas a segui-las?

Esta energia inquisitiva e incansável leva as pessoas a embarcar numa busca espiritual, a procurar algo que dê às suas vidas, sentido, propósito e clareza. Essa energia espalhou-se pelo nosso mundo contemporâneo. Buscadores de antigas tradições e fés seguiram o seu próprio percurso individual, tentando encontrar um novo caminho para compreender a realidade e saciar a sua fome espiritual.

Os ensinamentos Bahá’ís encorajam esta busca:

Sabei em verdade que o buscador deve, no início da sua busca por Deus, entrar no Jardim da Busca. Nesta viagem compete ao caminhante desprender-se de tudo salvo de Deus e fechar os seus olhos para tudo o que está nos céus e na terra. Não deve demorar o seu coração no amor ou no ódio por qualquer alma, pois isso pode impedi-lo de alcançar a morada da Beleza celestial. Deve santificar a sua alma dos véus da glória e abster-se de se vangloriar de vaidades mundanas, conhecimento exterior e outras dádivas que Deus lhe possa ter concedido. Deve procurar a verdade com a maior destreza e empenho, para que Deus o guie nos caminhos do Seu favor e nos caminhos da Sua misericórdia. (Bahá’u’lláh, Gems of Divine Mysteries, p. 18)

Mas porque é que entrámos neste tempo de procura e questionamento? Porque é que, mais do que nunca, existem pessoas que se descrevem como buscadores sem nenhuma religião em particular e sem qualquer sistema de crença formal?

Na perspectiva Bahá’í, este espírito inquisitivo é um desenvolvimento saudável, uma resposta adequada e compreensiva à necessidade de renovação da religião, e um novo sentido de possibilidades espirituais.

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que a religião é um sistema orgânico único que necessita de renovação periódica – o que oferece uma enorme esperança a todos os que, de forma independente, procuram a verdade:

Assim é que, através do aparecimento destes Luminares de Deus o mundo é renovado, as águas da vida eterna jorram, as ondas da amorosa generosidade elevam-se, as nuvens da graça acumulam-se, e as brisas das dádivas sopram sobre todas as coisas criadas. (Bahá’u’lláh, The Bookof Certitude, ¶31)

Os ensinamentos Bahá’ís pedem-nos que compreendamos todas as religiões e o seu ciclo de renovação como um único processo evolutivo em vez de acontecimentos fixos e dogmáticos que aconteceram uma vez no passado. Despertam-nos suavemente e pedem-nos que vejamos o amanhecer do novo dia.

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 26 de maio de 2018

A sandália do Profeta: o trivial e a substância das religiões



Todos conhecemos a cena do filme A Vida de Brian, dos Monty Python, em que Brian tenta fugir a dois grupos de pessoas - os soldados romanos que o perseguem, e a multidão que o venera.

A multidão de seguidores, que acabara de ouvir o seu discurso "profético", segue-o agora porque pensa que ele é o Messias. Brian perde uma das suas sandálias durante a fuga. Os seguidores excitados param; um homem agarra a sandália e exclama: “Oh! … Ele deu-nos… o seu sapato! … O sapato é o seu sinal. Vamos seguir o seu exemplo.

A Vida de Brian - provavelmente uma das críticas mais inteligentes aos erros dos crentes na esfera judaico-cristã do Império Romano - também se aplica a as outras religiões. De uma forma subtil, os Monty Python ridicularizam a tendência humana de se deixar envolver em coisas triviais e perder a visão da substância.

A cena da sandália em A Vida de Brian lembra-me um episódio famoso da história otomana recente, quando o Estado Otomano e os seus habitantes muçulmanos tiveram um momento "inesquecível" na sua história ao descobrirem uma sandália do profeta Maomé.

Naquela época, o sultão Abdulaziz (1861-1876) governava o Império Otomano. Ele tinha injustamente exilado várias vezes Bahá’u’lláh, a Sua família e alguns dos Seus seguidores. Apesar de vários apelos, o sultão e os seus ministros ignoraram o conselho de Bahá’u’lláh sobre o bem-estar dos povos no império. Posteriormente, Bahá’u’lláh comparou-os com “crianças que se juntam e brincam com barro” e declarou que entre eles “não havia alguém suficientemente maduro para receber de Nós as verdades que Deus Nos ensinou”. (The Summons of the Lord of Hosts, p. 201)

A sua imaturidade ficou patente, por exemplo, no ridículo alvoroço causado por uma sandália que supostamente pertencera a Maomé. Em 2 de Maio de 1872, um jornal otomano (e depois outros) informaram que a sandália estava nas mãos de um tal dervixe Bey, na cidade de Diyarbakir, no sudeste da Anatólia. Por ordem do Tesouro Imperial, o dervixe viajou com a sandália e atravessou a Anatólia até a cidade de Samsun, no norte, junto ao mar Negro. Durante as semanas seguintes, os jornais descreveram todos os detalhes relativos a este evento “importante”, incluindo milagres e “sinais” relacionados com a sandália sagrada.

Foram referidos vários milagres foram ao longo da viagem. Quando, por exemplo, a carruagem que transportava a sandália atravessou uma ponte sobre um rio, a corrente normalmente forte acalmou e a água parou. Outro suposto milagre ocorreu enquanto a mula que levava o objecto sagrado para Samsun passou por um rebanho de ovelhas, e as ovelhas, de repente, cercaram a mula e começaram a balir tristemente. Quando a sandália chegou Samsun, foi recebida com as maiores honras e cerimoniais de acordo com a prática muçulmana consagrada pelo tempo. Na cidade, um menininho paralítico de nascença foi obrigado a beijar e esfregar o rosto no pano onde a sandália estava exposta, numa mesquita. Ao fazê-lo, teria sido curado e agora podia andar.

Depois de uma grande multidão ter homenageado a sandália em Samsun, o governador da cidade levou-a para o navio que tinha sido enviado especialmente de Istambul para levar o objecto sagrado e o dervixe Bey para Istambul. Ao chegar a Istambul, o Governo declarou feriado, e o grão-vizir, ministros, sábios religiosos (ulemás), xeques, oficiais e outros dignitários foram assistir ao desembarque.

O grão-vizir pegou solenemente na caixa que continha a sandália e colocou-a numa carruagem especial, conduzida por quatro cavalos. A carruagem foi escoltada por uma guarda especial e acompanhada por muitos homens que seguravam archotes; todos oravam e gritavam: Allahu Akbar! (“Deus é o mais grandioso!”) À frente e atrás da carruagem, seguiam o grão-vizir, pregadores, eruditos, xeques e o dervixe Bey, todos montados a cavalo. A sandália sagrada foi levada ao Palácio de Topkapi, a antiga sede do império. Foi colocada num salão de relíquias sagradas, e ministros, ulemás, xeques e outros oficiais entraram no salão para a bênção. O sultão visitou a sandália sagrada após as orações de sexta-feira, e esta, posteriormente, foi exibida ao público durante três dias. Mais tarde o dervixe Bey foi condecorado pelo Estado e recebeu uma pensão.

O evento pertencia ao reino do Islão popular, onde as tradições eram seguidas cegamente. O Estado regulamentava e doutrinava os muçulmanos no império com todos os tipos de leis que se consideravam estar no âmago do Islão - mas na realidade eram apenas superstições. Apesar de muitos dos estadistas da época serem muçulmanos ocidentalizados e não fanáticos, eles consideraram sensato deixar a população muçulmana entregue à ignorância e fanatismo. Para controlar as massas, o Estado fazia uso de eventos que alimentavam as superstições do povo. Um desses eventos foi a descoberta da sandália sagrada de Maomé.

Bahá’u’lláh, que nessa época estava prisioneiro em Acre, acompanhava de perto os acontecimentos no Império Otomano. Numa das Suas epístolas, refere-se à sandália de Maomé e ao sentimento que a rodeava. Depois de descrever o evento com as Suas próprias palavras e criticar toda a pompa e superficialidade como secundárias, Bahá'u'lláh abordou para a questão essencial:

A notícia recente é que, por estes dias, foi referido que o Chefe da Grande Cidade (Istambul) ouviu dizer que uma pessoa entre os grandes de Diyarbakir está na posse de um sapato do Apóstolo (Maomé), que as almas de todos sejam um sacrifício por ele. Como consequência, o Estado ordenou que fosse trazido. A pessoa acima mencionada chegou com o sapato à costa do Mar Negro, e vários navios foram enviados de Istambul, especialmente para transportar o objecto precioso. E ao chegar à Grande Cidade também foram enviados numerosos barcos, e a pessoa que transportava o objecto precioso subiu ao barco do sultão e seguiram para a cidade. Ao aproximar-se da costa, o grão-vizir, todos os oficiais e ministros foram ao seu encontro com expectativa. À chegada, o grão-vizir aproximou-se, aceitou o objecto sagrado e entrou numa carruagem requintada. O portador do objecto montou num magnífico cavalo atrás da carruagem. Atrás dele, todos os ministros e oficiais seguiram em direcção ao local designado. À esquerda e à direita da carruagem, uma multidão de ulemás caminhava com jarras de incenso, louvando a Deus até chegarem ao local pretendido. Após a chegada, o Chefe e outras pessoas visitaram aquele local durante três dias em grandes multidões.

Agora temos aqui algo para reflectir e para estar atento! Veja-se como estas pessoas se se seguram firmemente a assuntos triviais e estão privadas do fundamental. Isso sempre foi assim e continuará a ser assim... (de uma Epístola de Bahá’u’lláh, tradução provisória do autor).

Como em qualquer outra religião, os ensinamentos Bahá’ís aconselham-nos a focarmo-nos na essência e a não procurar o que é absurdo e sem sentido. Segundo Bahá’u’lláh:

As pessoas, na sua maioria, deliciam-se com superstições. (…) Segurando-se firmemente a nomes, privam-se da realidade interior e apegando-se a imaginações frívolas, afastam-se da Alvorada dos sinais celestiais. (Tablets de Baha'u'llah, p. 58)

Bahá’u’lláh exortou os crentes de todas as religiões a concentrarem-se hoje na essência da fé, e não nos seus detalhes triviais. Não devemos ficar presos na superficialidade desta vida e seguir cegamente as superstições herdadas de nossos antepassados; em vez disso, diz Ele, devemos seguir os “sinais celestiais”. No final da epístola anteriormente citada, Bahá’u’lláh pede ao povo que volte a sua atenção para o sofrimento dos Bahá’ís que estavam injustamente exilados nos domínios otomanos: “ninguém, nesses dias, considerou seriamente os cativos divinos (Bahá’ís).” (Idem.)

Como os seguidores fictícios do filme A Vida de Brian, os Otomanos tinham perdido o rasto da “essência” - o chamamento divino de Bahá’u’lláh - e seguiam a sandália das suas vãs fantasias.

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Necati Alkan é um historiador turco-alemão, especialista no período final da história do Império Otomano. É investigador na Universidade  de Bamberg (Alemanha) e trabalha com temas relacionados com minorias religiosas. Entre os seus livros contam-se: “The eternal enemy of Islam’: Abdullah Cevdet and the Baha’i religion” (2005); “Süleyman Nazif's 'Open Letter to Jesus': An Anti-Christian Polemic in the Early Turkish Republic” (2008); "Fighting for the Nuṣayrī Soul: State, Protestant Missionaries and the ʿAlawīs in the Late Ottoman Empire" (2012); "Divide and Rule: The Creation of the Alawi State after World War I (2013)