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sábado, 20 de agosto de 2016

Religião e Política: podemos mantê-las separadas?

Por David Langness.


Sede as personificações da justiça e da equidade entre toda a criação. (Bahá'u'lláh, The Most Holy Book, p. 87)
... A religião não se deve preocupar com questões políticas. A religião preocupa-se com coisas do espírito, a política com as coisas do mundo. A religião tem de trabalhar com o mundo do pensamento, enquanto o campo da política está no mundo das condições externas. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp 132-133)
Inicialmente, quando me tornei Bahá’í - tenho que admitir - debati-me com o princípio Bahá'í de não-envolvimento na política partidária, que facilmente se tornou para mim o novo conceito espiritual mais difícil entender e seguir.

Fui criado sem qualquer religião real e numa época de grande agitação social; quando era jovem comecei a acreditar que a forma de mudar o mundo para melhor incluía mudar a nossa liderança política. Afinal, pensei, se fossemos governados por políticos mais pacíficos e menos preconceituosos, eles poderiam levar-nos a uma nova e mais esclarecida sociedade. E seguidamente, vários líderes - o Presidente Kennedy, o seu irmão Robert, Malcolm X e Martin Luther King, Jr. - todos foram vítimas de balas de assassinos no espaço de meia década.

Após esses acontecimentos trágicos, quando, posteriormente, o meu país elegeu muitos líderes que continuaram as suas guerras, não conseguiram resolver adequadamente o problema do racismo e frustraram os esforços para construir a unidade internacional, comecei a perceber que os políticos só podem fazer o que a população em geral decide e permite que eles façam. Os líderes só podem liderar aqueles que os querem seguir. Qualquer líder que se coloque muito longe à frente das opiniões dos povos corre o risco de ver a sua carreira terminar abruptamente.

Quando estudei os ensinamentos Bahá’ís, descobri que a verdadeira mudança tem que vir de baixo e não pode ser imposta de cima - e a verdadeira mudança, tal como todos os profetas de Deus ensinaram, começa no coração e no espírito humano:
A religião diz respeito a assuntos do coração, do espírito e da moral.

A política ocupa-se com as coisas materiais da vida. Os professores religiosos não devem invadir o domínio da política; eles devem preocupar-se com a educação espiritual do povo; eles devem sempre dar bons conselhos aos homens, tentando servir Deus e a espécie humana; eles devem-se esforçar para despertar a ambição espiritual, e esforçar-se por ampliar a compreensão e o conhecimento da humanidade, por melhorar a moral, e por aumentar o amor pela justiça.

Isto está de acordo com os Ensinamentos de Bahá'u'lláh. No Evangelho também está escrito: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus." ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp 158-159)
Estas breves palavras de 'Abdu'l-Bahá resumem claramente os ensinamentos Bahá'ís sobre a separação entre religião e política. Os Bahá’ís acreditam que os dois não se misturam bem:
Sempre que os líderes da gloriosa religião de Deus e os pilares da Sua poderosa Lei intervieram nos assuntos políticos, concebendo esquemas e elaborando planos, isso, inevitavelmente destruiu a unidade dos crentes e dispersou as fileiras dos fiéis; a chama de sedição foi ateada e o fogo de hostilidade consumiu o mundo; o país foi pilhado e saqueado; e as pessoas caíram nas mãos dos medíocres. ('Abdu'l-Bahá, o Tratado sobre a Política, citado pela Casa Universal de Justiça, numa carta a um indivíduo Bahá'í, 18 de Abril de 2001)

A Comunidade Bahá'í é uma organização mundial que procura estabelecer a paz verdadeira e universal na terra. Se um Bahá’í trabalha para um partido político para superar outro, isso é uma negação do próprio espírito da Fé. Assim, a filiação em qualquer partido político, implica necessariamente o repúdio de alguns ou de todos os princípios de paz e unidade proclamados por Bahá'u'lláh. (Carta às Assembleias Espirituais Nacional Africanas, 08 de Fevereiro de 1970, The Universal House of Justice, Messages 1963 to 1986, p. 163)
Portanto, a fim de se tornarem, tal como pede Bahá'u'lláh, "a personificação da justiça e da equidade entre toda a criação", os Bahá’ís abstêm-se de participar na política partidária, aderir aos partidos políticos ou fazer campanha pelos candidatos. Os Bahá’ís são livres para tomar parte na vida cívica através do voto, defendendo causas humanitárias e até mesmo concorrendo e aceitando cargos não-partidários de serviço civil e público - mas não participando em debates, eleições e sistemas políticos divisivos.

Os Bahá’ís não rejeitam a liderança política correcta e honesta, nem se opõem a esses líderes - na verdade, os Bahá’ís aceitam e louvam os governantes justos, são fiéis aos seus governos e cumprem a lei. Em vez de tentar realizar mudanças através das velhas ferramentas do partidarismo e do seu divisionismo inerente, os Bahá’ís concentram os seus esforços no aperfeiçoamento do carácter interior humano, na promoção mundial da justiça social, e na construção de uma ordem administrativa Bahá'í diversificada, global e unificada, apresentando-a ao mundo como um modelo para uma futura sociedade internacional:
Que se abstenham de se associar, seja por palavras ou por actos, com as actividades políticas dos seus respectivos países, com as políticas dos seus governos e os esquemas e programas dos partidos e das facções... Que afirmem a sua firme determinação em manter-se, firmemente e sem reservas, no caminho de Bahá'u'lláh, para evitar os enredos e questiúnculas inseparáveis das actividades do político, e a tornarem-se agentes dignos desse Política Divina que encarna o propósito imutável de Deus para todos os homens... (Shoghi Effendi, Carta aos Bahá’ís dos Estados Unidos e Canadá, 21 de Março de 1932)
Os Bahá’ís trabalham pela unidade da raça humana, e não pela sua desunião:
A nossa esperança é que os líderes religiosos do mundo e os seus governantes se ergam unidos pela reforma desta era e pela reabilitação do seu destino. Que eles, depois de meditar sobre as suas necessidades, consultem em conjunto e, por deliberação inquieta e plena, administrem a um mundo doente e penosamente aflito o remédio que necessita... Queira Deus, que os povos do mundo possam ser levados, como resultado dos altos esforços exercidos pelos seus governantes e pelos sábios e eruditos entre os homens, a reconhecer os seus melhores interesses. Durante quanto tempo vai a humanidade persistir na sua obstinação? Durante quanto tempo continuará a injustiça? Durante quanto tempo reinarão o caos e confusão entre os homens? Durante quanto tempo vai a discórdia agitar a face da sociedade? (Bahá'u'lláh, SEB, CX)
A resposta a estas questões profundas, de acordo com os ensinamentos Bahá’ís, é a unidade.

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Texto original: Religion and Politics—Can We Keep them Apart? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Usar a Ciência para procurar a Verdade

Por Russell Ballew.


...os favores concedidos por Ele ao género humano estiveram, e sempre estarão, ilimitados no seu âmbito. O primeiro e o principal entre estes favores que o Omnipotente conferiu ao homem, é o dom da compreensão. O Seu propósito ao conferir essa dádiva não é, senão o de capacitar a Sua criatura a entender e reconhecer o Deus Uno e Verdadeiro... Este dom concede ao homem o poder de discernir a verdade em todas as coisas, leva-o àquilo que é correcto e ajuda-o a descobrir os segredos da criação. Em seguida encontra-se o poder da visão, o principal instrumento por meio do qual a sua compreensão pode funcionar. (Selecção dos Escritos de Bahá’u’lláh, XCV)
Como podemos ver o Reino de Deus?

Bahá’u’lláh escreveu que a visão é o “principal instrumento” com o qual podemos desenvolver um entendimento do Reino de Deus. Assim, uma das principais coisas que podemos querer que a ciência estude é a forma como a visão funciona.

Foi precisamente isto que Abu Ali al-Ḥasan ibn al-Ḥasan tentou fazer há quase mil anos atrás, no seu Livro da Óptica. O livro tenta responder à questão “O que é a visão?” As experiências de Hasan refutaram de forma eficaz as noções de Euclides e Ptolomeu de que a visão tinha origem em raios emitidos pelos olhos humanos. O livro foi inovador, não só nas conclusões que apresentava, mas também no processo utilizado para chegar aos seus resultados. Hasan é amplamente reconhecido como um dos primeiros académicos que definiu um processo coerente para investigar a verdade usando o método científico. O seu trabalho influenciou gerações posteriores de cientistas, desde Leonado Da Vinci e Galileu Galilei a Johannes Kepler e René Descartes. Estes homens deram prioridade ao processo e às evidências - em detrimento de preferências pessoais e dogmas - para alargar sistematicamente as fronteiras do conhecimento humano.

Será que existe algum elemento que apenas uma pessoa o consegue ver?

Dimitri Mendeleev
Há 146 anos atrás, Dmitri Mendeleev organizou todos os elementos químicos conhecidos numa das estruturas mais robustas para compreendermos como o mundo funciona: a tabela periódica de elementos.

O desenvolvimento da tabela periódica surgiu das observações cuidadosas de Mendeleev sobre as tendências dos fenómenos naturais. Por exemplo, ele identificou e codificou a repetição periódica de características básicas dos elementos, e isso permitiu-lhe antecipar a existência de elementos até então desconhecidos. Ao usar o método científico e a perspicácia, ele percebeu a verdade da existência de átomos antes da humanidade ter capacidade de verificar as suas descobertas.

Mendeleev calculou correctamente o peso atómico, condutividade, ponto de fusão e outras características distintivas de elementos como o Gálio (31 Ga) e o Rénio (75 Re) muito antes de estes serem descobertos. Um dos elementos que ele antecipou – o Tecnécio (43 Tc) - só foi descoberto em 1937, cerca de 30 anos depois da sua morte.

Como é que ele pôde ter fé na existência de elementos básicos que não podia ver nem provar que existiam?

Dmitri Mendeleev, tal como al-Hasan e outros cientistas, tinha fé nos frutos de um processo: o método científico. O Dicionário Oxford de Inglês define-o como "um ... procedimento ... que consiste na observação sistemática, medição, experimentação, formulação, teste e modificação das hipóteses."

Usando um processo semelhante, e tendo fé que este funcionaria correctamente, os adventistas no século XIX, anteciparam e preparam-se para a chegada de um novo profeta de Deus. Na Pérsia, os seguidores dos ensinamentos de Shaykh Ahmed fizeram a sua própria análise cuidadosa e determinaram que tinha chegado o momento de outra revelação. Qual era a base da sua convicção? Eles acreditavam no conceito radical de que o Espírito Santo regressa periodicamente de acordo com as necessidades do tempo.

A observação cuidadosa e testes sistemáticos levaram Mendeleev a prever as características específicas de elementos até então desconhecidos. Os alunos da seita Shaykh espalharam-se em busca de um profeta que poderia deslindar as suas questões espirituais mais complexas. Pensaram que seriam capazes de determinar o advento do novo profeta de Deus pelas suas capacidades e características. A característica principal de qualquer profeta de Deus é a sua capacidade que os espiritualmente surdos e cegos consigam ouvir e ver e, assim, entrar no Reino de Deus. Considere a explicação de Cristo deste poder aos seus seguidores:
Aproximando-se de Jesus, os discípulos disseram-lhe: «Porque lhes falas em parábolas?» Respondendo, disse-lhes: «A vós é dado conhecer os mistérios do Reino do Céu, mas a eles não lhes é dado... É por isso que lhes falo em parábolas: pois vêem, sem ver, e ouvem, sem ouvir nem compreender. (Mateus 13: 10-13)
Usar a palavra inspirada para infundir a humanidade com conhecimentos úteis sobre os reinos espirituais é uma característica essencial de todo o profeta de Deus. Em 23 de Maio de 1844, um homem chamado Mulla Husayn chegou à cidade de Shiraz, no Irão, trazendo um teste que ele acreditava iria provar o advento do Prometido. Numa busca visionária, Mulla Husayn decidiu entregar o seu coração e a sua lealdade àquele cuja explicação sobre a Sura de José lhe desse uma nova perspectiva sobre o Reino de Deus.

A preparação e o cuidado de Mulla Husayn foram recompensados quando ele foi recebido às portas da cidade de Shiraz por Siyyid Muhammad Ali. O jovem Ali Muhammad recebeu Mulla Husayn em sua casa, onde lhe declarou ser o Prometido - o Bab, o que significa que a Porta. Mullah Husayn considerou a alegação extraordinária do Bab à luz da razão. O Bab, por Seu lado, respondeu aos testes de Mulla Husayn como um sinal da misericórdia de Deus para a humanidade, e como uma celebração da nossa capacidade de geração de discernimento da verdade através da investigação independente de factos e provas. Mulla Husayn tornou-se o primeiro seguidor do Báb naquela noite, e assim surgiu uma nova dispensação religiosa. Por fim, a missão do Bab - preparar o caminho para outro profeta de Deus, Bahá'u'lláh - criou as condições para um novo período de revelação religiosa na história humana.

Pela primeira vez, um profeta de Deus declarou a sua condição para um representante da raça humana que o tinha procurado.

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Texto original: The Science of Seeing the Truth (www.bahaiteachings.org)


sábado, 2 de abril de 2016

Ciência, Clero e Cegueira Espiritual

Por Russell Ballew.


... os sacerdotes do seu dia impediram as pessoas de alcançar o caminho da verdade. Disto dão testemunho os registos de todas as escrituras e livros celestiais. (Bahá'u'lláh, The Book of Certitude,¶177)
Nicolau Copérnico criou um conceito muito radical; uma ideia que ameaçava a ordem estabelecida e até sua própria vida.

Na verdade, ele tinha tanto medo que o mundo não estivesse pronto para sua hipótese científica revolucionária que adiou a publicação da sua tese até que estar no seu leito de morte, em 24 de Maio de 1543. A sua teoria de que a Terra girava em torno do Sol desafiou a sabedoria convencional e a tradição religiosa. O mundo teve que esperar mais 67 anos até que outra alma corajosa - Galileo Galilei, usando um telescópio rudimentar em 1610 – pudesse testar a hipótese de Copérnico. Galileu demonstrou uma das implicações levantadas pelos detractores de Copérnico que argumentavam: "Se as suas doutrinas fossem verdade, Vénus teria fases como a Lua."

Quando Galileu desenvolveu um telescópio, conseguiu a admiração dos líderes políticos e militares de Veneza. A sua invenção permitiu ver navios de guerra no horizonte muito antes da sua chegada - uma inovação tão valiosa que lhe valeu uma pensão vitalícia.

Depois, Galileu voltou a sua atenção para a importância dos céus. Ao longo de vários de meses, no final de 1610, observou Vénus passar por um conjunto completo de fases. Concluiu que, se Vénus girasse em torno da Terra nunca seria possível vê-lo completamente iluminado, a partir da Terra. Isso só seria possível se Vénus era uma estrela gerando a sua própria luz.

Galileu concluiu que a sua observação apoiava a hipótese de Copérnico de que a Terra gira em redor do Sol.

No entanto, isso não estava de acordo com a tradição da Igreja. Alguns dos seus contemporâneos, incluindo astrónomos, professores e clérigos apresentaram queixas contra Galileu, o que levou a Igreja Católica a condenar sua conclusão como "falsa" e "totalmente contrária à Sagrada Escritura". Depois de publicar Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo em 1632, para reconciliar as observações da ciência e as interpretações da Bíblia, Galileu foi julgado pela Inquisição. Foi considerado "fortemente suspeito de heresia", as suas publicações foram proibidas, e ficou em prisão domiciliária durante os nove anos seguintes da sua vida.

Mais de 380 anos depois, a teoria de Copérnico e a demonstração de Galileu prevaleceram. Então, porque é que a igreja se opôs tão inflexivelmente a Galileu e à sua ciência? No fundo, ele era um católico devoto, cujas inovações já tinham feito muito para melhorar a sua nação e o mundo.

A resposta é simples: a sua tese revolucionária desafiou não só a forma como vemos os céus da Terra, mas também como exploramos o reino dos céus na terra. A sua descoberta desfez aquilo que compreendíamos sobre a criação de Deus, e a forma como entendíamos os mandamentos de Deus.

As ideias de Galileu desafiaram as fundações da autoridade religiosa, ao permitir que as pessoas descubram as suas próprias interpretações da realidade, e por extensão o significado e aplicação da Palavra de Deus. Neste aspecto, a hipótese de Copérnico foi considerada errada não por ser uma tese radical avançado, mas porque as autoridades clericais acreditavam só a Igreja tinha o direito de interpretar a vontade de Deus e, por extensão, o funcionamento das Suas maravilhas no universo.

Um dos sinais da maturidade é a capacidade para apreciar como a própria estrutura de referência tem impacto na observação e na interacção com a realidade. Essa constatação, apoiada pelas experiências de Werner Heisenberg (físico teórico e vencedor do Prémio Nobel), ajuda-nos a perceber o impacto da perspectiva de observação.

O Princípio de Incerteza de Heisenberg afirma que toda a matéria tem tanto estado (estático) e propriedades de onda (dinâmicas) e a tentativa de medir um compromete o outro. Por outras palavras, a forma como se avalia qualquer fenómeno afecta, de facto, aquilo que se observa, pois em última análise, determina aquilo que se vê. Os ensinamentos Bahá'ís sugerem o mesmo princípio, muito antes de Heisenberg:
A retina da visão exterior, embora sensível e delicada, pode, no entanto, ser um obstáculo à visão interior que é a única que pode perceber. As dádivas de Deus que se manifestam em toda a vida dos fenómenos, são por vezes ocultadas pelos véus da visão mortal e mental que tornam o homem espiritualmente cego e incapaz, mas quando essas camadas forem removidas e os véus despedaçados, então os grandes sinais de Deus tornar-se-ão visíveis e ele testemunhará a luz eterna enchendo o mundo. As dádivas de Deus estão total e continuamente manifestas. As promessas do céu estão sempre presentes. Os favores de Deus abrangem tudo, mas se a visão consciente da alma do homem permanecer velada e obscurecida, ele será levado a negar esses sinais universais e permanecerá privado dessas manifestações de bondade divina. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 90)
Ao longo dos próximos artigos, vamos analisar o trabalho pioneiro de três estudiosos milenaristas cristãos distintos, cuja investigação da Bíblia os levou a concluir que o regresso de Cristo ocorreria por volta de 1840. Vamos analisar o seu quadro de referência, o seu processo e as suas conclusões à luz do raciocínio científico. O nosso objectivo é a criação de uma estrutura sólida de referência que nos permita avaliar a relação entre a revelação de Jesus Cristo e que o advento de Bahá'u'lláh

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Texto original: Science, the Clergy and Spiritual Blindness (www.bahaiteachings.org)

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Política, Religião e Tirania

Por David Langness.


Os ensinamentos Bahá’ís opõem-se de forma determinada e veemente ao despotismo e à tirania.

Durante os últimos quarenta anos da Sua vida, Bahá'u'lláh sofreu a tortura, o exílio e a prisão; tudo isso foi decretado e executado por tiranos e déspotas dos governos persa e otomano. Ele manifestou-Se repetidamente contra esses déspotas e seus regimes opressivos; chegou mesmo a enviar de uma série de cartas e epístolas aos Reis, governantes e líderes religiosos do mundo, anunciando a revelação que Ele tinha recebido e convocando-os para a paz universal, unidade e cooperação internacional.

Bahá'u'lláh pediu aos líderes políticos do mundo que estabelecessem a paz com outras nações, tratassem dos seus assuntos com justiça, reduzissem a impostos injustos destinados a financiar armas e guerras, e enfrentassem a terrível pobreza entre os seus povos. Além da forte oposição de Bahá'u'lláh ao poder dos governos tirânicos, as escrituras Bahá'ís defendem um modelo de federação de nações numa ordem mundial unida. 'Abdu'l-Bahá expressou este princípio Bahá'í fundamental a um alto funcionário do governo dos Estados Unidos, dizendo:
Podeis melhor servir o vosso país se, na vossa capacidade de cidadão do mundo, envidardes todos os esforços que contribuam para a aplicação futura do princípio do federalismo subjacente ao governo do vosso próprio país nas relações já existentes entre os povos e nações do mundo. (The World Order of Baha’u’llah, p. 37)
Assim, considerando este sólido conceito Bahá'í de uma federação descentralizada de nações sem tirania ou despotismo, podem os Bahá'ís participar na actividade política?

Não. Os Bahá'ís evitam a política partidária, e vêem a sua fé como essencialmente não-política.

Então como é que os Bahá'ís concebem uma futura ordem mundial, se não como uma organização política? E muitas pessoas perguntam como pode mesmo existir uma ordem mundial sem algum tipo de embate e envolvimento político? Não é o sistema político partidário algo inevitável? E quanto ao princípio Bahá'í da unidade mundial: se isso acontecer, não irão os Bahá'ís querer participar na governação do mundo?

Para começar a responder a essas perguntas, vamos começar por analisar como os ensinamentos Bahá'ís concebem uma futura ordem mundial, a partir dos escritos de Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í:
A unidade da raça humana, tal como previsto por Bahá'u'lláh, implica o estabelecimento de uma comunidade mundial em que todas as nações, raças, credos e classes estão íntima e permanentemente unidas, e em que a autonomia dos seus Estados membros, e a liberdade e iniciativa pessoais dos indivíduos que as compõem estão definitiva e completamente salvaguardadas. Esta comunidade deve, tanto quanto a podemos visualizar, incluir um parlamento mundial, cujos membros, enquanto fideicomissários de toda a humanidade, irão, em última análise, controlar todos os recursos de todas as nações que o constituem, e promulgar leis que sejam necessárias para regular a vida, satisfazer as necessidades e organizar as relações entre todas as raças e povos. Um executivo mundial, apoiado por uma força internacional, executará as decisões e aplicará as leis promulgadas por este parlamento mundial, e protegerá a unidade orgânica de toda a comunidade mundial. Um tribunal mundial julgará e emitirá o seu veredicto vinculativo e final em todas e quaisquer disputas que possam surgir entre os vários elementos que constituam este sistema universal. (The World Order of Baha’u’llah, p. 202)

Montesquieu
A visão Bahá'í de uma nova comunidade mundial das nações inclui os três elementos clássicos - um órgão legislativo mundial democraticamente eleito; um executivo mundial; e um tribunal mundial. A ideia destes componentes governamentais equilibrados é familiar para os cidadãos de muitos países soberanos do mundo; foi proposta pela primeira vez por Aristóteles, usada pelos gregos e romanos nas suas incipientes democracias, e, posteriormente, desenvolvida em 1748, por Montesquieu, o filósofo político francês do Iluminismo. Designado sistema tripartite, esta separação interna de poder político entre os três ramos do governo - legislativo, executivo e judicial - evita a excessiva centralização e a potencial tirania de uma oligarquia ou ditadura. Os governos democráticos mais avançados de hoje usam este sistema, e os ensinamentos Bahá'ís recomendam a sua aplicação numa escala mundial.

As escrituras Bahá'ís afirmam que esta visão de uma comunidade mundial, o sonho de poetas, filósofos e profetas durante milénios, só pode acontecer quando:
... um certo número de seus soberanos ilustres e magnânimos ... deve, para o bem e a felicidade de toda a humanidade, erguer-se, com firme determinação e visão clara, para estabelecer a causa da Paz Universal. Eles devem fazer da Causa da Paz o objecto de consulta geral, e procurar, por todos os meios ao seu alcance, estabelecer uma União das nações do mundo. Eles devem criar um tratado vinculativo e estabelecer uma aliança cujas cláusulas sejam sólidas, invioláveis e bem claras. Devem proclamá-la a todo o mundo e conseguir para ela a sanção de toda a raça humana. Este empreendimento supremo e nobre - a verdadeira fonte de paz e bem-estar de todo o mundo - deve ser considerado sagrado por todos os que habitam na terra. Todas as forças da humanidade devem ser mobilizadas para garantir a estabilidade e permanência dessa Mais Grandiosa Aliança. Neste Pacto abrangente, os limites e fronteiras de cada nação devem ser claramente fixados, os princípios subjacentes às relações entre governos devem ser definitivamente estabelecidos, e todos os acordos e obrigações internacionais devem ser averiguados. De igual modo, a dimensão dos armamentos de cada governo deve ser estritamente limitada, pois se fosse permitido aumentar os preparativos para a guerra e as forças militares de qualquer nação, isso despertaria a suspeita das outras. (Abdu'l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p. 64)

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Texto original: Politics, Religion and Tyranny (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 23 de janeiro de 2016

E se o Universo não tivesse início?

Por David Langness.


Tal como escreveu um poeta persa: "O Universo Celestial está formado de tal maneira que mundo inferior reflecte o mundo superior." Isso quer dizer que tudo o que existe no céu é reflectido neste mundo dos fenómenos. - Abdu'l-Baha, Abdu'l-Bahá in London, p. 45.
Será que o universo sempre existiu, ou teve um início?

Vou responder a esta pergunta com outra pergunta: já ouviram falar de sacerdote Católico belga, astrónomo e físico chamado Georges Henri Joseph Édouard Lemaître?

Pe. Georges Lemaître
Não? Eu também não, até que comecei a recolher informação para uma série de artigos sobre a imensidão do universo. Acontece que o Padre Lemaître - falecido em 1966 - foi o primeiro a propor o conceito de Big Bang, também conhecida como a teoria da expansão do universo. A sua teoria é agora o modelo cientificamente (e publicamente) aceite sobre tempo e criação cosmológicos.

Quando ensinava física na Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, Lemaître fez a estimativa inicial, em 1927, daquilo a que a ciência agora chama a Constante de Hubble - a taxa de aceleração de todos os objectos no universo conhecido. Edwin Hubble, o famoso astrónomo americano, confirmou a teoria de Lemaître dois anos depois. Hubble recebe frequentemente o crédito pela descoberta, mas, na verdade, foi Lemaître quem chegou lá primeiro, quando concluiu que todo o universo tinha sido uma única entidade num ponto de ultra-massivo, extremamente denso e super-quente, que depois se expandiu para o infinito.

No início, poucos cientistas aceitaram o conceito do Big Bang. Ao contrário de um universo em expansão, a maioria acreditava num universo estático, estacionário e de dimensão finita, especialmente os físicos influentes como Albert Einstein. Einstein disse a Lemaître, "Os seus cálculos estão correctos, mas sua física é atroz." Até mesmo o nome popular da teoria (que Lemaître começou por designar como "hipótese do átomo primitivo"), veio de um programa de rádio da BBC em 1931, quando o astrónomo inglês Fred Hoyle se referiu sarcasticamente à ideia como "The Big Bang" (a grande explosão). O nome pegou, e agora é utilizado sem qualquer sarcasmo.

Einstein e Lemaître
(Talvez lhe interesse saber que que Einstein, para seu crédito, mais tarde chamou à sua teoria de universo estático o seu maior erro. Em 1931, foi especialmente até ao Observatório Mount Wilson, na Califórnia para agradecer a Edwin Hubble o facto de ter revolucionado a nossa compreensão moderna do universo. Dois anos depois, Einstein e Lemaître viajaram pela Califórnia para fazer uma série de palestras, e Einstein proferiu a famosa frase "Esta é a explicação mais bonita e satisfatória sobre a criação que eu já ouvi.")

Hoje, muitas pessoas concordam, e acreditam firmemente, no conceito do Big Bang - que o universo começou há 13.8 mil milhões de anos atrás, com uma explosão colossal de matéria e energia. Praticamente todos os textos sobre física contemporânea abordam a teoria de Lemaître como a ciência aceite. No entanto - e isto ilustra as limitações do nosso conhecimento científico - os físicos sabem que todos os conceitos sobre o princípio do universo são apenas um palpite. Isso porque as leis da física não se aplicavam no momento da criação, se é que houve esse momento. Além desse problema essencial, não temos nenhuma prova real de como o universo se formou, ou mesmo se se formou, porque não temos nenhuma maneira de testar a teoria do Big Bang.

Os ensinamentos Bahá'ís - que defendem a harmonia essencial entre ciência e religião como um princípio básico –apresentam outro ponto de vista, que se correlaciona muito bem com as mais recentes descobertas científicas:
O universo nunca teve um início. Do ponto de vista da essência, ele transforma-se. Deus é eterno na essência e no tempo. Ele é a sua própria existência e causa. É por isso que o mundo material é eterno em essência, pois o poder de Deus é eterno. (‘Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 107)
Alguns cientistas, entre os quais o famoso físico Roger Penrose, têm teorizado que existiu outro universo antes deste, e que o Big Bang foi possivelmente um de muitos eventos formativos. Outros concluíram que nunca houve qualquer Big Bang, e que o universo não teve um verdadeiro início. Recentemente, os físicos Ahmed Ali Farag e Saurya Das na Universidade de Lethbridge, em Alberta, Canadá, escreveram na revista Physics Letters B que o seu novo modelo da relatividade quântica mostra que o universo não teve início nem fim.

Difícil de imaginar? Os ensinamentos Bahá'ís proclamam há mais de um século:
Bahá'u'lláh diz: "O universo não teve princípio nem fim." Ele pôs de lado as teorias complexas e opiniões exaustivas de cientistas e filósofos materialistas com a simples declaração, "Não há princípio, nem fim." Os teólogos e religiosos apresentam provas plausíveis de que a criação do universo remonta há seis mil anos; os cientistas exibem factos indiscutíveis e afirmam: "Não! Essas evidências indicam dez, vinte, cinquenta mil anos atrás", etc. Há discussões intermináveis a favor e contras. Bahá'u'lláh deixa de lado essas discussões com uma palavra e afirmação. Ele diz: "A soberania divina não tem princípio nem fim." Com esta proclamação e sua demonstração Ele estabeleceu um padrão de concordância entre aqueles que reflectem sobre essa questão da soberania divina; Ele trouxe a reconciliação e a paz a essa guerra de opinião e discussão.

Resumidamente, houve muitos ciclos universais anteriores a este em que vivemos. Eles consumaram-se, concluíram-se e os seus vestígios foram obliterados. Neles, o propósito divino e criativo foi a evolução espiritual do homem, tal como é neste ciclo. O círculo de existência é o mesmo círculo; ele retorna. A árvore da vida já gerou o mesmo fruto celestial. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 220)
Se o nosso universo não tem princípio nem fim, o que isso significa para o nosso conceito de um Criador e uma criação? Vamos abordar essa questão fascinante e intrigante no próximo artigo nesta série.

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Texto original: What if the Universe had no Beginning? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

domingo, 5 de julho de 2015

No Princípio era o Verbo

Por Deshon Fox.



O Evangelho segundo S. João inicia-se com uma frase misteriosa e muitas vezes mal compreendida: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus". No versículo 14 do primeiro capítulo desse mesmo Evangelho encontramos: "E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós… cheio de graça e de verdade".

A que início se refere esta frase? Como pode o Verbo estar com Deus e também ser Deus? E como pode o Verbo fazer-se carne?

S. João Evangelista
Os ensinamentos Bahá'ís afirmam que a própria existência não teve início. Os cientistas estimam que "o Big Bang" ocorreu há cerca de 14 mil milhões de anos, mas permanece uma questão profunda: o que existia antes daquele momento?

Com um pequeno raciocínio dedutivo, podemos perceber que a própria existência, possivelmente, não teve um início, porque se a existência teve um início, então temos de considerar a possibilidade da existência ter emergido da não-existência. Isso não é possível; de facto, a não-existência é inconcebível.

Com essa perspectiva, podemos abordar a frase de abertura do Evangelho de João de dentro para fora, em vez de fora para dentro. Dessa forma, poderemos ser capazes de perceber o seu significado subtil, para desvendar o seu mistério e perceber a sua verdade eterna.

Pensemos nisto desta maneira: "No princípio" refere-se a uma realidade eterna além do tempo, uma realidade que transcende toda a criação, que é imutável e não tem lugar, e, além disso, é a própria essência e fonte de tudo o que existe ou já existiu. Além do espaço e do tempo, além do aqui ou do ali, além do em cima ou em baixo, do quente ou do frio, além de qualquer dualidade ou forma, existe o "Eu sou", o único e indivisível, omnipresente e insondável "Verbo". No reino absoluto do eterno "Eu sou", o Verbo existe sem qualquer necessidade de expressão ou vocalização. Ele simplesmente é.

Para o Verbo se poder expressar ou revelar plenamente no reino material - o reino da forma e matéria - o Verbo deve manifestar-se através de uma forma humana. Quando o Verbo se expressa através de uma forma humana, também permanece eternamente na sua condição absoluta para além do tempo, forma e espaço. O Verbo, quando se manifesta através de uma forma humana, é, por assim dizer, simultaneamente, Deus num estado absoluto além do tempo, e também está com "Deus" na sua forma humana condicional relativa e limitada no tempo.

Os Cristãos acreditam que este fenómeno ocorreu apenas uma vez na história, na forma humana de Jesus Cristo. Os Bahá'ís acreditam que o fenómeno do Verbo a tornar-se carne (ou seja, a manifestar-se através de uma forma humana) é semelhante ao nascer e ao pôr do sol; é um processo contínuo que começou antes de história registada e vai continuar assim por muito tempo enquanto os seres humanos habitarem a terra.

Bahá'u'lláh - que os Bahá'ís acreditam manifestar o Verbo de Deus para este dia - escreveu:
Estando a porta do conhecimento do Ancião dos Dias assim fechada perante a face de todos os seres, a Fonte da graça infinita ... fez surgir aquelas luminosas Jóias da Santidade vindas do reino do espírito, na forma nobre do templo humano, e manifestarem-se a todos os homens, para pudessem transmitir ao mundo os mistérios do Ser imutável e descrever as subtilezas da Sua Essência imperecível.

Esses espelhos santificados, estes Alvoreceres da antiga glória, são, cada um e todos, os Expoentes na terra Daquele que é o Orbe central do universo, a sua Essência e o seu Propósito derradeiro. Dele provém o seu conhecimento e o poder; Dele deriva a sua soberania. A beleza do seu semblante é apenas um reflexo da Sua imagem, e a Sua revelação, um sinal da Sua glória imortal. Eles são os Tesouros do conhecimento Divino e os Repositórios da sabedoria celestial. Através deles é transmitida uma graça que é infinita e por eles é revelada a Luz que jamais se desvanecerá... Estes Tabernáculos da Santidade, estes Espelhos Primordiais que reflectem a luz da glória imperecível, são apenas expressões Daquele que é o Invisível dos Invisíveis. Com a revelação dessas Jóias de virtude Divina todos os nomes e atributos de Deus, como conhecimento e poder, soberania e domínio, misericórdia e sabedoria, glória, bênção, e de graça, tornam-se manifestos. (SEB, sec. XIX)
Hasan Balyuzi, autor e historiador Bahá’í, apresenta algumas ideias o fenómeno do "Verbo que se torna carne":
Os Manifestantes de Deus são o "Verbo (de Deus) feito carne." Eles revelam Deus ao homem. Através deles, e por eles, o homem conhece Deus e percebe o propósito de Deus. É apenas através dos Seus Manifestantes que Deus pode ser conhecido. Neles nada pode ser visto, salvo a glória e o poder, a majestade e a vontade da Divindade. Jesus disse que quem o tivesse visto, teria visto o Pai; que quem o tivesse conhecido, teria conhecido Deus. Todos os caminhos para o Criador do universo estão bloqueados, salvo através dos Seus Manifestantes, através dessas Figuras Divinas, esses Seres enaltecidos que conhecemos como os Fundadores das religiões da humanidade. Por isso Jesus disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim." (The Word Made Flesh, cap. 2)
As frases de abertura do livro de João, numa linguagem refinada e poética, revelam-nos uma verdade eterna e universal: Deus, a Essência eterna e Fonte de tudo o que existe, manifesta a luz da verdade à humanidade através da acção de um templo humano eleito, de tempos em tempos, a fim de "habitar entre nós" e para guiar a humanidade à verdade, para libertar os nossos corações e mentes.

Assim, nada nos pode dividir; nem a geografia, a história, a raça, a classe, a cultura ou as crenças. Na realidade, nós somos apenas um só, porque a nossa essência, aquilo que somos sob a forma mental do "Eu", vem de uma fonte eterna, única, intemporal e sem lugar: o Verbo. Se reflectirmos com corações e mentes abertas sobre a natureza da nossa existência comum, livre de condicionalismos que nos levam a considerar os outros como fundamentalmente diferentes de nós, abraçaríamos colectivamente o Verbo de Deus como irmãos e irmãs espirituais.

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Texto original: In the Beginning was the Word (bahaiteachings.org)

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Deshon Fox é o autor do livro The Middle Theory. Vive nas Bahamas com a esposa e três filhos. Tem um mestrado em Engenharia Civil pela Universidade de Minnesota e trabalha numa empresa de engenharia sediada nas Bahamas. Actualmente é membro da Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá'ís das Bahamas, um papel que ele teve desde 2009.

sábado, 6 de junho de 2015

Deus criou a Matemática?

Por David Langness.


As únicas teorias físicas que estamos dispostos a aceitar são as bonitas. (Albert Einstein)

Se existe um Deus, ele é um grande matemático. (Paul Dirac)

As leis da natureza são apenas os pensamentos matemáticos de Deus. (Euclides)

Quando tento resolver um problema apenas penso na beleza quando termino; se a solução não é bela, então está errada. (Buckminster Fuller)

Regozijamo-nos, como se fosse um acaso favorável às nossas intenções, quando encontramos essa unidade sistemática entre leis meramente empíricas. (Kant)
Tenho fascínio por matemática e ciências.

Para mim, mesmo quando ainda estava na escola primária, adorava os novos conhecimentos que encontrava na ciência, e pensava que a matemática tinha uma pureza e uma verdade encantadoras. Os cálculos que aprendi, a álgebra, a geometria e a trigonometria, tudo parecia ter uma beleza abstracta suplementar que de alguma forma parecia genuína. Gostava especialmente das minhas aulas de geometria, onde conseguia de algum modo, olhar para aquelas formas e intuir as respostas. Eu ainda não percebo porquê.

Quando tinha 10 anos de idade, o meu professor, o Sr. Heikel viu que eu gostava de matemática. Sendo licenciado em matemática, interessou-se por mim, e desafiou-me a resolver alguns problemas "avançados" de matemática. Encontrei as respostas para alguns deles; mas houve outros que me deixaram perplexo. O meu professor apenas sorriu, e depois deu-me um artigo para ler, chamado A efectividade irracional da Matemática nas Ciências Naturais. Era escrito por um laureado Nobel chamado Eugene Wigner, mas eu não percebi muito daquilo - mas entusiasmei-me quando li sobre "a enorme utilidade da matemática nas ciências naturais é algo que se aproxima do mistério."

Wigner fez-me pensar: Como pode a matemática ser misteriosa? Dois e dois são quatro, certo?

O meu professor explicou o que Wigner queria dizer: o mundo natural tem uma ligação muito próxima e quase inexplicável com o mundo teórico da matemática, e essa ligação diz algo profundo sobre a criação. Talvez Deus fosse um matemático, disse o Sr. Heikel.

Se todo o universo funciona com base num conjunto fixo e sofisticado de leis científicas e matemáticas, pensei, faz sentido que essas leis tenham vindo de algum lugar.

Acontece que também é assim que pensam muitos cientistas e matemáticos. Nas disciplinas altamente sofisticadas de matemática avançada e física quântica, as teorias mais belas e elegantes teorias revelam ser as mais verdadeiras. E os filósofos acreditam que isso revela a existência de uma beleza e verdade superiores na própria criação. Suponho que podemos chamar a isso de uma prova científica de Deus.

Alguns cientistas dizem que encontram a mesma emoção e encanto na simplicidade e beleza de um teorema ou num conjunto de números que outros vêem na música, na arte, no cinema ou na literatura. A partir dessa perspectiva, a experiência estética inerente à ciência e à matemática pode levar-nos ao reconhecimento da beleza, harmonia e coerência existentes na própria criação, e ligar o espírito humano ao transcendente e à mística:
O espírito no mundo humano é o descobridor das realidades da existência. Todas as invenções, todas as ciências, todos os mistérios ocultos são trazidas à luz através da actividade do espírito no plano da vida. Enquanto vive no Oriente organiza os assuntos no Ocidente; enquanto vive na terra descobre as constelações celestes. Estes exemplos devem mostrar que o espírito da vida é omnipotente, especialmente quando estabelece uma comunicação com Deus e se torna o destinatário da eterna luz - então ele transforma-se num raio do esplendor do sol eterno. (‘Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 165)

Os mais eruditos e versados teólogos, os mais ilustres sábios, estudaram diligentemente aqueles ramos do conhecimento cuja raiz e origem foram os filósofos gregos como Aristóteles e outros, e consideraram a aquisição dos textos gregos sobre ciências como a medicina e ramos da matemática, incluindo álgebra e aritmética, como um feito muito valioso. (‘Abdu'l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p. 30)

O espírito do homem é um poder envolvente que abarca as realidades de todas as coisas. Tudo o que vês ao teu redor - os produtos maravilhosos do engenho e da arte humana, as invenções, as descobertas e outras evidências semelhantes - cada um desses foi um segredo oculto ausente no reino do desconhecido. O espírito humano revelou esse segredo, e trouxe-o do invisível para o mundo visível. Há, por exemplo, o poder do vapor, a fotografia e o fonógrafo, e telegrafia sem fios, e os avanços na matemática: cada um destes foi outrora um mistério, um segredo bem guardado; mas o espírito humano desvendou estes segredos e levou-os do invisível para a luz do dia. Assim, é claro que o espírito humano é um poder envolvente que exerce o seu domínio sobre as essências interiores de todas as coisas criadas, descobrindo os mistérios contidos no mundo material. (‘Abdu'l-Bahá, Seleção dos Escritos de Abdu'l-Baha, nº 145)

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Texto original: Did God Create Math? (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 18 de abril de 2015

Apóstatas, Infieis e Hereges

Por David Langness.


Apóstatas: pessoas que renunciam explicitamente à sua religião ou crenças.

Infieis: pessoas que não acreditam numa religião específica.

Hereges: pessoas que têm crenças ou teorias que divergem fortemente das crenças e costumes estabelecidos.

Alguma destas definições é aplicável ao leitor?

Sim? A mim também. Na verdade, segundo estas definições, eu próprio já fui apóstata, infiel e herege.

Aos treze anos, renunciei explicitamente à religião em que nasci, a Igreja Luterana; tornei-me um apóstata. Ao fazer isso, tornei-me, por definição, um infiel, porque durante muito tempo não acreditei em nenhuma religião. Depois descobri a Fé Bahá'í e decidi aceitá-la voluntariamente - o que para alguns fundamentalistas é uma crença herética, passível de prisão e morte.

Militantes do Boko Haram na Nigéria
Ultimamente, temos ouvido muitas vezes estas três palavras antiquadas: apóstata, infiel e herege. Elas tendem frequentemente a surgir nas declarações públicas de grupos como Boko Haram ou o chamado Estado Islâmico; estas palavras encontram espaço nos slogans e nas maldições de diversas agendas religiosas fundamentalistas; e como resultado, até reapareceram nas conversas comuns.

Assim, vamos analisar estas palavras e os conceitos por trás delas. Vamos explorar o que elas costumavam dizer, e o que significam hoje. E mais importante que isso: vamos examinar o seu uso cada vez mais comum contra outras pessoas - incluindo a escalada de violência que por vezes essas palavras provocam - e ver o que os princípios Bahá'ís têm a dizer sobre esta tendência.

Em primeiro lugar, os ensinamentos bahá'ís, com a sua forte ênfase na unidade da humanidade, não separam os seres humanos em nenhuma dessas categorias arcaicas e simplistas:
Um ensinamento fundamental de Bahá'u'lláh é a unidade do mundo da humanidade. Dirigindo-se à humanidade, Ele diz: "Todos vós sois as folhas de uma árvore e os frutos de um só ramo." Com isto, entende-se que o mundo da humanidade é como uma árvore, as nações ou povos são os diferentes membros ou ramos dessa árvore e que as criaturas humanas são como os frutos e as flores da mesma. Desta forma, Sua Santidade Bahá'u'lláh expressou a unidade da humanidade, enquanto nos ensinamentos religiosos do passado, o mundo humano foi representado como dividido em duas partes, uma conhecida como o povo do Livro de Deus ou a árvore pura, e a outra como o povo de infidelidade e do erro ou a árvore do mal. Os primeiros foram considerados como pertencentes aos fiéis e os outros como sendo as hordes dos irreligiosos e infieis; uma parte da humanidade eram destinatários da misericórdia divina e a outra era o objeto da ira do seu Criador. Sua Santidade Bahá'u'lláh eliminou isto proclamando a unidade do mundo da humanidade e este princípio é enfatizado nos Seus ensinamentos, pois Ele submergiu toda a humanidade no mar da generosidade divina. (‘Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 454)
Esta abordagem revolucionária à crença começou a mudar o mundo.

Em vez de dividir as pessoas em dois grupos - os bons e os maus, os fiéis e os pecadores, os celestiais e os satânicos - a abordagem Bahá’í centra-se na sua unidade essencial. Em vez de separar e injuriar "os outros" - pessoas de diferentes grupos religiosos, étnicos, raciais ou nacionais - os Baha'is não vêem “os outros”; apenas vêem seres humanos. Em vez de classificar as pessoas nas categorias tradicionais de abençoados e malditos, eleitos e preteridos, salvos e condenados, fiéis e infieis, os Bahá'ís acreditam na unidade e harmonia de toda a raça humana:
Desde o início os seguidores de todas as religiões têm acreditado em dois mares - um salgado e um doce; em duas árvores - a árvore do bem e a árvore do mal. Por causa disso, os homens chamaram-se hereges uns aos outros. Interpretando mal os mandamentos divinos, os homens desenvolveram preconceitos e com esses preconceitos travaram guerras religiosas e provocaram derramamento sangue. Vejam o que está a acontecer hoje em dia! Os homens estão a matar os seus irmãos, acreditando ser isso causa da salvação, acreditando que esse trabalho é aprovada por Deus, acreditando que aqueles que matam serão enviados para o inferno.

Bahá'u'lláh fala à humanidade num tom diferente, declarando que a humanidade deve ser como as folhas de um único ramo, os ramos de um único tronco. (‘Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 100)

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Texto original: Apostates, Infidels and Heretics (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 4 de abril de 2015

sábado, 28 de março de 2015

Provas da Existência de Deus

Por Gregory Samsa e Jerry Schoendorf.



Talvez o erro mais comum que os cientistas têm sobre a religião é pensar que ela requer uma crença na existência física de Deus. O cientista ouve, ou acredita que ouve, algo parecido com o seguinte de uma pessoa de fé: "a criação está incompleta sem Deus. Deus é logicamente necessário para a existência do mundo, para o milagre da vida para ter ocorrido, e devido a fenómenos religiosos que acontecem. Em última análise, a autoridade religiosa deriva da obediência a um Deus todo-poderoso. Qualquer discussão sobre a religião acaba por ser uma discussão a respeito de Deus".

Esta crença incorrecta, apoiada por várias "provas" da existência de Deus apresentadas desde a Idade Média até aos dias actuais, tem dificultado o diálogo. Exemplos dessas "provas" incluem:

"Toda acção tem uma causa, portanto, Deus deve ser a primeira causa",

"O universo é maravilhoso demais para não ter um criador",

"O universo foi literalmente criado conforme descrito em Génesis", e assim por diante.

Muitos cientistas têm examinado o significado material de cada uma dessas chamadas “provas”, de acordo com os padrões da ciência, e encontram-lhes falhas. E consequentemente, seguindo a regra do elo mais fraco, rejeitam a religião. Essa tendência vai aumentar no futuro, à medida que a ciência avança para explorar os primeiros milésimos de segundo do Universo; a clonagem, que nos aproxima da criação da vida; a consciência humana, entendida como uma série de reacções bioquímicas no cérebro; as experiências quase-religiosas estimuladas electronicamente; a utilização de modelos de computador que explicam a vantagem evolutiva da compaixão, do altruísmo, de outras características proto-religiosas, e assim por diante.

O que provoca essa situação desagradável para as pessoas de fé? Como é que elas respondem à "desmitologização" da crença e da prática religiosa do passado? E mais importante: os aspectos supersticiosos de muitos dos nossos pressupostos sobre religião estão a ser eliminados. Qual deve ser a nossa resposta?

Primeiro de tudo, e mais importante que tudo: não sabemos nada sobre Deus - absolutamente nada. Nunca seremos capazes provar, através de meios lógicos ou materiais, exigidos pela ciência, que Deus existe. Como poderíamos fazer isso? Como poderia um Criador Todo-Poderoso ser algo sobre o qual nós tivéssemos capacidade suficiente para o entender ou descrever? Aqui não existe matéria que seja objecto de teste ou de hipótese científica. Nunca poderemos ver Deus, ouvir Deus, sentir Deus ou tocar em Deus de uma forma que um cientista aceite.

 Os ensinamentos Bahá'ís dizem:
Para todo o coração perspicaz e iluminado, é evidente que Deus, a Essência Incognoscível, o Ser Divino, está imensamente elevado acima todos os atributos humanos, tais como existência corpórea, subida e descida, saída e regresso. Está longe da Sua glória que a língua humana consiga celebrar adequadamente o Seu louvor, ou que o coração humano compreenda o Seu mistério insondável. Ele está, e sempre tem estado, velado na eternidade antiga da Sua Essência, e permanecerá na Sua Realidade oculto para sempre da vista dos homens. (Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh, sec. XIX).
Também a filosofia, usando argumentos lógicos, não consegue provar que Deus existe. Dizer que algo existe, é contê-lo e defini-lo. Um Deus cuja existência pode ser demonstrada logicamente não é essencialmente diferente de um Deus que possa ser visto, e tudo o que Deus "é" (ou não é) deve, por definição, ser muito mais poderoso do que isso.

Assim, parece que estamos a perder todas as bases lógicas de um diálogo com um cientista sobre Deus e espiritualidade. Se a religião recebe a sua autoridade de Deus, e não conseguimos provar ou demonstrar de forma científica a existência de Deus, qual a base razoável para um cientista aceitar, ou considerar, a religião?

Os ensinamentos Bahá'ís indicam que mentes racionais e científicas admitem que o conceito de infinito, incompreensível e incognoscível é provável ou demonstrável. Consideremos o seguinte: as ciências, a matemática e a física utilizam o conceito de infinito. Os cientistas apresentam o infinito como um conceito abstracto, mas muito útil, prontamente aceite e até mesmo necessário para a sua compreensão básica das suas disciplinas.

Assim, da mesma forma que pensamos na ideia de infinito, poderia ser útil cientificamente sugerir que as questões em torno do conceito de Deus são hipóteses não-testáveis. Ou seja, no fundo, estão fora do âmbito e da demonstrabilidade da ciência. (Nota: uma hipótese não-testável não significa apenas que a hipótese não pode ser provada, mas também que não pode ser refutada Jamais um cientista desmentiu a existência de Deus.) Esta clarificação deve permitir duas coisas: Primeiro: desliga o interruptor "dúvida e refutar" dentro da cabeça do cientista. Segundo: liga igualmente um interruptor da “curiosidade” na cabeça do cientista.

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Texto original: Proof of the Existence of God (bahaiteachings.org)

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Gregory Samsa é director de estudos de pós-Graduação no Departamento de Bioestatística e Bioinformática na Universidade de Duke (EUA), e entre os seus interesses intelectuais está a desconstrução da prática estatística em componentes que podem ser estudadas cientificamente. Um pai de 5 filhos e treinador de futebol em escolas de ensino secundário.

Jerry Schoendorf é um ilustrador médico reformado e anaplastologista que trabalhou na Universidade de Duke e mais tarde num consultório particular em Durham (Carolina do Norte, EUA). Vive em Chapel Hill, Carolina do Norte, onde se dedica à ilustração, apicultura, e olaria.

sábado, 7 de março de 2015

Espiritualidade e Método Científico

Por Gregory Samsa e Jerry Schoendorf.


...o homem na posse deste dom ideal da investigação científica é o mais nobre produto da criação. ('Abdu'l-Baha, Baha'i World Faith, p. 243)
Na 1ª parte desta série sobre ciência e espiritualidade colocámos a questão: quais os métodos que podem ajudar a definir a realidade e verdade; que podem orientar a própria busca de um significado e propósito para a vida; e estabelecer a integridade e um código de ética que possam proporcionar satisfação e contentamento permanentes?

Para bem da nossa análise desta importante questão, vamos assumir que as abordagens metafísicas, religiosas e espirituais nesta busca estão “fora do nosso âmbito”. E porque vivemos num mundo céptico inundado de afirmações contraditórias e explicações místicas e dogmáticas, vamos limitar o nosso método ao empirismo e ao racionalismo, ou, tal como é conhecida a combinação moderna destas duas abordagens: a ciência. E também, para eliminar a pseudociência, vamos focar-nos especialmente no método científico.

Vamos tentar, enquanto cientistas, falar sobre divindade e revelação para pessoas com mentalidade científica, de uma forma credível, que permita esclarecer e ajudar uma busca pessoal por propósito, significado e integridade - que possa ser enobrecedor e conducente a contentamento permanente.

Assim, se vamos fazer isto como cientistas, então o que é um cientista e como é que ele/ela pensa? Falando de forma rigorosa, um cientista (ao contrário de um filósofo) é uma pessoa que exerce uma actividade sistemática de aquisição de conhecimento. E para atingir este objectivo, utiliza o método científico. Num sentido mais restrito, um cientista é um individuo que segue um conjunto de princípios fundamentais na investigação científica. Sabemos que alguns desses princípios são:

  • O mundo é compreensível
  • As ideias científicas estão sujeitas à mudança
  • O conhecimento científico é duradouro e evolutivo
  • A ciência não pode dar respostas completas a todas as questões
  • A ciência exige provas.
  • A ciência combina lógica e imaginação 
  • A ciência explica e prevê
  • A ciência tenta identificar e evitar preferências pessoais
  • A ciência não é autoritária
  • A ciência pode ser uma actividade social complexa
  • A ciência está organizada em disciplinas e é dirigida por várias instituições
  • Existem princípios éticos gerais aceites na condução da ciência.

Acrescentaríamos três pontos adicionais: (1) os cientistas são cépticos profissionais; (2) os cientistas exigem provas materiais; (3) os cientistas podem ser corajosos ao aceitar novas ideias.

Karl Popper
Todos estes pontos derivam dos princípios básicos do método científico, tal como descritos por Karl Popper. Em resumo, uma teoria é "científica" se conduzir a previsões que são confirmáveis (ou seja, que também possam ser refutadas). Um exemplo trivial: a teoria da gravidade diz que uma caneta cai no chão se a largarmos; se a caneta não cai, então verifica-se que a teoria da gravidade é falsa e, portanto, deve ser eliminada. Se a caneta cai como previsto, então a teoria fica aceite provisoriamente, pelo menos até que se prove ser falsa, ou até que surja uma teoria melhor. No mundo da ciência, uma teoria é "melhor" se fizer previsões mais genéricas ou mais surpreendentes, ou se contiver o menor número possível de elementos (a navalha de Occam: a simplicidade é boa).

A dúvida é fundamental para o método científico. No mundo do cientista, a dúvida também é fundamental para a aceitação e para o progresso. Um cientista pode-se tornar famoso se encontrar uma falha lógica numa teoria existente, ou se demonstrar que uma teoria, apesar de lógica, não tem sustentabilidade no mundo real. No mundo do cientista, uma teoria não é mais forte do que seu elo mais fraco: se houver dúvidas sobre um qualquer elemento de uma teoria, então toda a teoria deve ser rejeitada.

Se um cientista está interessado em assuntos espirituais, devemos esperar algumas perguntas muito enfáticas dirigidas para aquilo que o cientista considera ser o elo mais fraco da cadeia de raciocínio: não há nada de pessoal nisso; é apenas a sua maneira normal de trabalhar.

Podemos agora começar a descrever a dificuldade em falar com cientistas a respeito de Deus. Por natureza, um cientista, um céptico profissional, exige evidências para acreditar. Evidências significa provas materiais; e no entanto a religião tem fundamentalmente a ver com espiritualidade. Além disso, de acordo com a regra do elo mais fraco, se um cientista encontra qualquer coisa sobre religião que lhe parece errado (por exemplo, um prática supersticiosa ou crença sem base racional), ele/ela é pode rejeitar a religião na sua totalidade.

Um dos aspectos muito positivos da visão de mundo de um cientista é que ele/ela vai aceitar novas ideias, desde que tenham sido provadas como melhores do que o que as que tinha anteriormente. Em matéria de religião, a objecção de muitas pessoas - seja substantiva ou psicológica, ou ambos - é: "porque é que aquilo que era suficientemente bom para o meu pai não é suficientemente bom para mim?" Em questões de ciência, pelo menos depois de o cientista ter o seu choque inicial, nunca se ouve "se foi suficiente bom para os romanos a acreditar que o sol gira à volta da terra, então isso também é suficiente bom para mim." Esta abertura de espírito fundamental de cientistas oferece a oportunidade para o diálogo espiritual significativa.

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Texto original: Spirituality and the Scientific Method (bahaiteachings.org)

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Gregory Samsa é director de estudos de pós-Graduação no Departamento de Bioestatística e Bioinformática na Universidade de Duke (EUA), e entre os seus interesses intelectuais está a desconstrução da prática estatística em componentes que podem ser estudadas cientificamente. Um pai de 5 filhos e treinador de futebol em escolas de ensino secundário.

Jerry Schoendorf é um ilustrador médico reformado e anaplastologista que trabalhou na Universidade de Duke e mais tarde num consultório particular em Durham (Carolina do Norte, EUA). Vive em Chapel Hill, Carolina do Norte, onde se dedica à ilustração, apicultura, e olaria.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Como falar sobre Deus com um Cientista

Por Gregory Samsa e Jerry Schoendorf.

Numa manhã de 1613, ao pequeno-almoço, Cosimo de Medici e a sua mãe, a grã-duquesa italiana Cristina, começaram a discutir a verdade sobre os satélites de Júpiter. Benedetto Castelli, estudante de Galileu, que estava presente, pediu mais tarde a Galileu para comentar sobre o tema central da conversa: o conflito entre a Bíblia e a doutrina heliocêntrica, a ideia herética de que a Terra girava à volta do Sol

A resposta, a famosa "Carta à Grã-Duquesa Cristina” de Galileu, circulou amplamente nessa época na forma de manuscrito. Nela, Galileu declarou que a Bíblia ensina como se vai para o céu, e não como funciona o céu. A crença de Galileu na verdade da teoria de Copérnico alarmou alguns católicos proeminentes da época, e a Inquisição examinou a carta de Galileu para Christina. Assim começaram problemas de Galileu com a Igreja Católica. (Starry Messenger)
A história de Galileu ilustra não apenas as suas contribuições significativas para o desenvolvimento da ciência e da investigação científica; descreve também uma suposição moderna generalizada sobre a incompatibilidade básica entre ciência e religião. As opiniões sobre esta relação variam muito. Muitas pessoas, incluindo alguns líderes religiosos, ainda insistem na fidelidade escrupulosa e literal à escritura religiosa da Bíblia, do Alcorão, e outros. Outras religiões, incluindo a Fé Bahá'í, têm uma visão mais favorável em relação à ciência, dizendo que:
A religião deve estar em conformidade com a razão e estar de acordo com as conclusões da ciência. [Porque] religião, razão e ciência são realidades; portanto, esses três [religião, ciência e razão], sendo realidades, devem estar em conformidade e reconciliar-se. Uma questão ou princípio que tem natureza religiosa deve ser sancionado pela ciência. A ciência deve declará-lo válido, e a razão deve confirmá-lo, para que ele possa inspirar confiança. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 394)
Galileu
Os problemas que Galileu viveu no século XVII não seriam problemas do mundo de hoje, porque o pêndulo da verdade popular, afastou-se para muito longe do clima de certeza religiosa daquela época.

Se os dogmas religiosos costumavam ser uma forte ameaça há 400 anos, agora tornaram-se definitivamente menos assertivos à luz de tanta informação que hoje possuímos. Hoje, a ciência é por vezes creditada como tendo revelado tanto da realidade do mundo material que não há espaço livre para uma noção de Deus. Ou seja, muito daquilo que costumava ser misterioso - a existência da humanidade, a perfeição do surgimento da vida na Terra, o funcionamento do universo - agora pode ser explicado através da biologia, da astronomia, da física e de outras áreas da ciência. E apesar de subsistirem enormes mistérios cósmicos, muitas pessoas acreditam que a ciência acabará por entender plenamente o universo, não deixando qualquer espaço para Deus.

No entanto, o que tem a ciência a dizer sobre a abstracção, a ética, a estética, as virtudes, a criatividade, etc.? Porque é que ainda nos perguntamos porque estamos aqui? De onde viemos? Será que temos um propósito? Será que temos valor intrínseco? O que acontece quando morremos? Em 1912, ‘Abdu'l-Bahá questionou uma audiência em Minneapolis:
Se perguntarmos a mil pessoas "Quais são as provas da realidade da Divindade?", talvez nem uma seja capaz de responder. E se perguntarmos ainda "Que provas tem sobre a essência de Deus?" "Como é que explica a inspiração e a revelação?" "Quais são as evidências de uma inteligência consciente para além do universo material?" "Consegue sugerir um plano e um método para melhorar as moralidades humanas?" "Consegue definir e diferenciar com clareza o mundo da natureza e do mundo da Divindade?"- receberíamos muito pouco conhecimento real ou esclarecimento sobre estas questões. (The Promulgation of Universal Peace, p. 326)
'Adbu’l-Bahá continuou a falar das várias razões para isso, referindo que o "desenvolvimento das virtudes ideais tem sido negligenciado". As pessoas não podem investigar estes assuntos por si próprias, salientou ‘Adbu’l-Bahá; em vez disso, confiam em superstições e tradições do passado para lhes dar uma compreensão sobre os conceitos espirituais. O cidadão médio pode ter mais a dizer sobre o clima do que sobre as questões colocadas por ‘Abdu’l-Bahá.

Então, talvez nos devêssemos perguntar: quais são as nossas convicções morais, éticas, espirituais ou religiosas? De onde vêm essas convicções? Quais são as razões ou factos que sustentam as nossas crenças? É importante que as nossas crenças sejam suportadas pela ciência? Sentimos que o uso da ciência e do método científico é uma forma inteligente para determinar as coisas que podem sustentam nossas crenças?

E, claro, que rumo deveremos tomar se concluirmos que a maioria das religiões não são credíveis, e se desejamos seguir princípios éticos, morais e espirituais que sejam inteligente e razoáveis?

Esta série de pequenos artigos presume que a maioria das pessoas desejam tomar as suas próprias decisões sobre a divindade, Deus e a revelação, e esperam fazer essas escolhas de uma forma razoável e inteligente de uma forma com a qual possam viver e explicar aos outros. Por isso, lançamos esta questão: quais os métodos que podem ajudar a definir a realidade e verdade; que podem orientar a própria busca de um significado e propósito para a vida; e estabelecer a integridade e um código de ética que possam proporcionar satisfação e contentamento permanentes?

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Texto original: How to Talk to a Scientist About God (bahaiteachings.org)

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Gregory Samsa é director de estudos de pós-Graduação no Departamento de Bioestatística e Bioinformática na Universidade de Duke (EUA), e entre os seus interesses intelectuais está a desconstrução da prática estatística em componentes que podem ser estudadas cientificamente. Um pai de 5 filhos e treinador de futebol em escolas de ensino secundário.
Jerry Schoendorf é um ilustrador médico reformado e anaplastologista que trabalhou na Universidade de Duke e mais tarde num consultório particular em Durham (Carolina do Norte, EUA). Vive em Chapel Hill, Carolina do Norte, onde se dedica à ilustração, apicultura, e olaria.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Sobre o significado da palavra “Deus”

Muitos teístas e ateus da era moderna interpretaram de forma totalmente incorrecta o conceito clássico e tradicional de Deus que encontramos nas tradições intelectuais e filosóficas das religiões monoteístas mundiais. Eles tendem a pensar em "Deus" como um "ser supremo", uma "pessoa imaterial", um "designer inteligente", "agente omnipotente ", ou um "ser não-corpóreo" que existe como observador totalmente fora do Universo ou dentro do Universo como o seu componente mais enaltecido, e que, em qualquer momento, faz o que lhe agrada . Este tipo de Deus é apenas um ídolo intelectual que se assemelha a uma pessoa humana, mas sem as limitações humanas. A crença nesse tipo de deus é apenas uma forma de "mono-politeísmo", "criacionismo" ou "personalismo teísta". Tanto os teístas como os ateus clássicos debateram e rejeitaram este tipo de Deus:
"O erro mais do que encontramos nas discussões contemporâneas sobre a crença em Deus, especialmente (mas não exclusivamente) no lado ateu - é o hábito de conceber de Deus simplesmente como um objecto muito grande ou como um agente dentro do universo, ou talvez ao lado do universo, um ser entre outros seres, que difere de todos os outros seres em magnitude, potência e duração, mas não ontologicamente, e que está relacionado com o mundo mais ou menos como um artesão está relacionada a um artefacto." (David Bentley Hart, The Experience of God: Being, Consciousness, Bliss, 32)
No teísmo clássico, Deus não é um membro ou uma instância da categoria geral da "existência" - como se Ele fosse um “ser supremo entre os seres”. Em vez disso, Deus é o "fundamento da existência" e a "Realidade Incondicionada" que continuamente cria, sustenta e fundamenta a existência de tudo o que existe. O diagrama abaixo ilustra a diferença entre o conceito de Deus no teísmo clássico e as ideias encontradas em noções mais modernas de criacionismo, deísmo, poli-monoteísmo, e similares:



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FONTE: “He who is above all else”: The Strongest Argument for the Existence of God (Ismaili Gnosis) -- encontrado via Arthur Logan Decker III.