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sábado, 17 de março de 2018

Pode uma religião manter-se unida?

Por David Langness.


Os Bahá'ís têm - todos eles - ideias e opiniões semelhantes?

Quando se começa a investigar a Fé Bahá’í, indo às primeiras reuniões Bahá'ís, participando em cursos sobre a sua história e princípios, lendo artigos de notícias sobre as suas actividades ou pesquisando sites como BahaiTeachings.org, pode-se ficar com a impressão inicial que a resposta a esta pergunta é sim.

No fundo, a Fé Bahá’í - uma religião global com crentes de quase toda as culturas e origens - não tem seitas, denominações ou cismas. É um sistema de crenças unificado em qualquer parte do mundo; isso significa que as comunidades Bahá’ís na Índia, no Indiana (EUA) e numa reserva de índios têm uma espiritualidade com mais semelhanças do que diferenças. Um conjunto único de princípios, transmitidos directamente por Bahá’u’lláh e 'Abdu'l-Bahá, serve como a luz orientadora da religião Bahá'í. Um corpo eleito democraticamente - a Casa Universal da Justiça, com nove membros - existe para responder, mediar e resolver problemas entre os Bahá'ís. Segundo esta perspectiva, parece que os Bahá'ís devem ter ideias, pontos de vista e opiniões semelhantes.

Mas não é assim. Os Bahá'ís têm uma vasta gama de pontos de vista - porque não têm as mesmas experiências, culturas, origens ou educações, não têm apenas uma opinião.

Na verdade, essa é a definição clássica de um culto fundamentalista: um grupo altamente manipulador que controla rigorosamente as ideias, os pensamentos e as opiniões dos seus membros, geralmente com um líder carismático que insiste em impor uma ortodoxia rígida que obriga à perda de identidade pessoal.

Assim, por definição, a Fé Bahá’í é exactamente o oposto de um culto: um grupo global de pessoas amplamente diversificado, sem qualquer clero ou liderança carismática dominante, que encoraja verdadeiramente a investigação independente da verdade e o surgimento de opiniões e pontos de vista distintos.

Normalmente, seria de esperar que uma religião com estas características estivesse agora fragmentada numa multiplicidade de seitas e cismas, após quase duzentos anos de existência - mas isso não aconteceu. A religião que ensina a unidade manteve-se unida. Porquê?

Sede da Casa Universal de Justiça
A Fé Bahá’í - global na natureza, múltipla na realidade, extremamente diversificada nos seus membros - apresenta à humanidade um conjunto único de princípios globais. Primeiramente promulgada por Bahá’u’lláh, o profeta e fundador da Fé; expandida pelo Seu filho e exemplo Bahá’í, ‘Abdu’l-Bahá; interpretada e explicada pelo Guardião da Fé Bahá’í, Shoghi Effendi; e depois protegida e promovida pela Casa Universal de Justiça democraticamente eleita; estes princípios permaneceram como um conjunto unitário de ensinamentos durante quase dois séculos.

A Aliança Bahá’í, que estabelece esse processo ordenado e sequencial da transferência de autoridade, permitiu que os Bahá’ís permanecessem juntos e com a mesma Fé.

Embora, em algumas situações, tenham sido feitas tentativas por pequenos grupos de pessoas para se separarem do corpo principal da Fé Bahá'í, todos os cismas sectários fracassaram. Isso significa que, pela primeira vez na história humana, uma religião mundial conseguiu manter a sua coerência, unidade e totalidade originais, não apenas durante o seu primeiro século, mas também no segundo.

Quem estudar a história das anteriores religiões mundiais, perceberá que uma unidade tão prolongada e sustentada é altamente incomum.

A maioria das religiões dividiu-se rapidamente em diferentes denominações rivais, cismas e seitas após a morte dos seus fundadores. A unidade Cristã, por exemplo, começou a fragmentar-se durante o primeiro século. Mais tarde, o Catolicismo e a Igreja Ortodoxa Oriental dividiram os Cristãos em duas facções durante o Grande Cisma; e posteriormente o Protestantismo acelerou o processo. Hoje, a maioria dos historiadores religiosos identifica seis grandes ramos no Cristianismo: Católicos, Protestantes, igrejas Ortodoxas (do leste), Anglicanos, igrejas Ortodoxas orientais e a Igreja Assíria do Oriente. Segundo o Center for the Study of Global Christianity (Centro para o Estudo do Cristianismo Global), estes seis ramos dividiram-se em cerca 41.000 denominações e seitas cristãs no mundo de hoje.

No Islão, as denominações sunitas e xiitas formaram-se logo após o falecimento de Maomé, e hoje existem muitas seitas diferentes no Islão, apesar da advertência de Maomé no Alcorão: "...não se dividam entre vós". No Hinduísmo e no Budismo, existem tantas seitas e crenças que as mensagens originais de Krishna e Buda nem sempre são reconhecíveis em todas elas. O Judaísmo, geralmente visto como constituído por três denominações muito distintas - ortodoxos, conservadores e reformadores - tem muitas sub-denominações em cada uma destas categorias. Nenhuma grande religião mundial, excepto que a Fé Bahá’í permaneceu como uma única religião.

Isto levanta questões complicadas: como é que uma religião global pode permanecer unida? Se as pessoas vêm de diferentes culturas, contextos e civilizações e, inevitavelmente, têm opiniões e pontos de vista muito diferentes, que perspectiva comum ou conjunto de leis e princípios podem possivelmente mantê-las juntas? Num mundo onde a religião geralmente é sinónimo de lutas ideológicas e sectárias, porque é que a Fé Bahá’í conseguiu proteger sua unidade?

Nos próximos artigos vamos explorar estes temas importantes e perceber como é que os Bahá’ís, no panteão das religiões mundiais, mantiveram a sua unidade intacta.

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Texto original: Can Religion Stay Unified? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 16 de setembro de 2017

O fosso crescente entre a Teologia e a Moralidade

Por Behrooz Sabet.


Ao longo da história humana, discutimos sobre a religião. Os ensinamentos Bahá’ís dizem que esse tipo de discórdia deve parar.

Bahá’u’lláh - o profeta e fundador da Fé Bahá’í - proclama que os diferentes entendimentos sobre o estatuto de um profeta são permitidos, desde que não se tornem a causa de desavenças e discórdia entre as pessoas que os defendem.

Os Bahá’ís acreditam que as crenças teológicas não devem ser motivo de querelas e conflitos entre a população. Bahá’u’lláh identifica inequivocamente a natureza e propósito da religião nestas palavras:
Ó filhos dos homens! O propósito fundamental que anima a Fé de Deus e a Sua Religião é a salvaguarda dos interesses e a promoção da unidade da raça humana, o fomentar do espírito de amor e camaradagem entre os homens. Não padeçam tornando-a uma fonte de dissensão e discórdia, de ódio e inimizade. É este o Caminho recto, o alicerce fixo e imóvel. (SEB, CX)
Além disso, as escrituras Bahá'ís afirmam que a existência de discórdia social é um sinal claro de que a religião se desligou da sua base espiritual e que, metaforicamente, Deus ocultou o Seu rosto das pessoas que usam a religião para promover a hostilidade e a intolerância entre a humanidade. Consequentemente, a sociedade, que é a arena de actuação da religião, perde o seu sentido de transcendência e degenera numa grande escala de hipocrisia nas mãos dos seus eclesiásticos.

Poder-se-ia dizer que Bahá’u’lláh, com o Seu mandamento de não lutar por motivos religiosos, avança uma ideia crítica - a ideia de que os conflitos teológicos entre o clero não resultam necessariamente numa ética prática da boa vontade. Sabendo como no passado, as diferenças teológicas causaram conflitos e derramamento de sangue, Bahá’u’lláh recusa-Se a promover qualquer fundamentalismo teológico. Em vez disso, Ele apresenta uma cultura de paz baseada em princípios morais que nos orientam sobre como lidar com outras pessoas.

A religião é amparada espiritualmente pela sua ligação a Deus, a Realidade Última. No entanto, ela opera no mundo, entre as pessoas e nas suas relações sociais. Quando a vontade de Deus é revelada ao mundo, encontra expressões relativas e finitas na mente das pessoas. A revelação, portanto, torna-se uma experiência individual, assim como uma realidade social.

Por exemplo, na noite de 22 de Maio de 1844, quando o Báb Se revelou a Mulla Husayn - a primeira pessoa a receber e abraçar a causa Bábi - essa revelação atingiu Mulla Husayn como um raio que entorpeceu as suas faculdades e, em última análise, deu-lhe força e transfigurou-o. No entanto, na sua totalidade, essa experiência permaneceu individual. Naquela noite, Mulla Husayn não alcançou o total conhecimento de Deus, mas teve uma experiência espiritual pessoal - um encontro que o obrigou a interagir com a sociedade e a envolver-se num processo de mudança social revolucionária.

O encontro da humanidade com a palavra de Deus funciona da mesma maneira. Podemos estabelecer uma ligação com a realidade espiritual última, mas o verdadeiro desafio do progresso espiritual significa traduzir essa ligação na dinâmica da civilização e do progresso social. Bahá’u’lláh ensina-nos que a força de sustentação da evolução social é a moralidade, o centro em torno do qual se desenvolvem os círculos concêntricos da realidade social. Neste contexto, o conceito de espiritualidade está entrelaçado com a responsabilidade do individuo levar avante uma civilização em constante progresso.

Para os Bahá’ís, até o mais esotérico conceito de salvação pessoal se desenvolve no contexto dos contributos individuais para uma civilização mundial. O conceito de virtudes espirituais interiores - como a coragem, a honra, a veracidade e a lealdade - representa a fusão entre as acções individuais e a dinâmica da humanidade como um todo. Essas virtudes, de acordo com os ensinamentos Bahá’ís, encaminham-nos para uma civilização global, na medida em que promovem o princípio fundamental da unicidade da humanidade.

Assim, os ensinamentos Bahá’ís, como todas as outras religiões, enfatizam a moralidade, mas em dimensões muito maiores do que apenas as pessoais. Os ensinamentos Bahá’ís constituem um quadro conceptual que relaciona a moral e a religião com os processos orgânicos da expansão da civilização.

Por exemplo, desde o início da história da humanidade, as pessoas organizaram-se em unidades familiares, posteriormente conseguiu-se a solidariedade tribal, depois evoluiu-se para a constituição das cidades-estado, para a construção de nações independentes e soberanas, e agora, para o extraordinário empreendimento de construção um mundo unido e pacífico. Neste vasto processo histórico, podemos detectar várias expressões de ordem moral, que revelam a luta moral da humanidade para superar divisão e conflito, e conseguir a verdadeira universalidade.

Bahá’u’lláh traçou um paralelismo estrutural entre o ritmo evolutivo da ordem moral e a era da maturidade colectiva da raça humana - a emancipação da humanidade à medida que alcança o seu destino final de se tornar exteriormente e interiormente unida.

Este nível de unidade global exemplifica a moralidade autêntica. No entanto, historicamente, na ausência de moral autêntica, falsas justificações têm sido usadas para alcançar o poder ou para tornar a decadência apetecível - e essa falsa moralidade muitas vezes tornou-se uma crença cultural partilhada ou a filosofia política de várias sociedades.

Bahá’u’lláh apresentou o conceito de moralidade autêntica como um modelo para a unidade - e libertar a civilização emergente do alheamento e do afastamento. Este ensinamento Bahá’í elimina qualquer base teológica para a justificação moral do conflito.

Essa autenticidade moral dá à religião uma unidade de propósito ao invés de desavença doutrinária - a própria causa de desunião e divisão na religião. Ao longo da história, os clérigos alegaram ter o exclusivo da compreensão do conhecimento divino e, portanto, a legitimidade moral para governar. Bahá’u’lláh considerou essa reivindicação como potencialmente opressiva, provocando posteriormente a violência sectária. Ao longo do Seu ministério, Bahá’u’lláh anulou a prática xiita do taqlid, ou imitação de clérigos, e revogou a guerra santa. Aboliu a instituição do sacerdócio e encorajou a investigação independente da verdade. Em vez do taqlid, Bahá’u’lláh enfatizou o poder da auto-reflexão e do consenso racional.

 Actualmente, a humanidade está envolvida numa disputa entre a consciência da ética global e uma catástrofe geopolítica; mas a ética global não pode sobreviver apenas com boas intenções. As instituições legítimas - como as criadas para a segurança colectiva e a aplicação do direito internacional - são primordiais para contrariar os interesses particulares e a selvajaria brutal que se escondem sob o verniz da nossa civilização. Ao mesmo tempo, o ressurgimento de ortodoxias fanáticas que promovem a intolerância religiosa e a tirania ameaçam directamente a segurança internacional e a paz da raça humana. E porque este fanatismo religioso está actualmente em ascensão, alimentando o conflito global, o mundo está numa encruzilhada: o fim da fé religiosa ou um apelo a um novo modelo de fé e ética global?

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Texto original: The Widening Breach Between Theology and Morality (www.bahaiteachings.org)

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Behrooz Sabet é professor universitário, doutorado pela State University de Nova Iorque, em Buffalo. Durante mais de 20 anos fez estudos e investigações sobre os cruzamentos entre religião, ciência e cultura no Médio Oriente. É um estudioso de religião, movimentos e pensamento político contemporâneo no Irão. Traduziu e escreveu muito sobre religião, ética, educação, filosofia e temas sociais.

sábado, 20 de maio de 2017

Espiritual mas não Religioso? Qual a diferença?

Por Rebecca Sherry Eshraghi.


Muitos dos meus amigos mais próximos dizem-me: "Eu sou boa pessoa, uma pessoa espiritual; por isso não preciso de religião, especialmente de religião organizada..."

Admiro essa atitude. Sim, os meus amigos são boas pessoas que vivem vidas admiráveis e virtuosas. Ao longo da minha vida conheci muitas pessoas que não pertencem a qualquer religião e são mais bondosas do que outros que se intitulam religiosos e causam conflitos e divisões.

Na verdade, se eu não conhecesse a Fé Bahá’í e os seus ensinamentos, também não gostaria de pertencer a uma religião tradicional. Na realidade, a religião aparente tem sido e ainda é a causa de muitas guerras e muito sofrimento. Mas, ao estudar os ensinamentos Bahá'ís, percebi que, na sua essência mais profunda, todas as religiões só pretendem criar unidade e progresso.

Os ensinamentos Bahá'ís dizem que cada dispensação religiosa tem dois tipos diferentes de leis transformadoras. Uma categoria de leis são os ensinamentos espirituais e a outra são as leis e normas sociais. As leis e normas sociais são condicionais e mudam ao longo do tempo. As leis sociais das várias religiões diferem porque, no fundo, cada revelação divina ocorreu num momento diferente e num lugar diferente com circunstâncias distintas.

Por outro lado, os ensinamentos espirituais imutáveis de todas as religiões são iguais ou muito semelhantes: orientam-nos para o propósito e sentido da vida; mostram-nos como ser e agir; incentivam a oração e a meditação; estimulam o desprendimento do mundo material; fomentam a bondade e o serviço para com os nossos semelhantes; e explicam-nos e ensinam-nos sobre a nossa verdadeira essência. Esses ensinamentos espirituais enfatizam as verdades eternas - que Deus existe, ama a Sua criação e quer que cada uma das nossas almas cresça e se desenvolva.

Não sabendo isto, os meus amigos - que dizem que não são religiosos, mas espirituais - estão a aproveitar essa realidade espiritual eterna que os inspira a serem bons e espirituais. Quem faz isso, pode ser Bahá’í - alguém que aceita a unicidade de todas as Fés.

Mesmo as pessoas como os meus amigos - que não pertencem formalmente a uma religião - ainda tentam seguir os ensinamentos espirituais que tiveram origem e se difundiram ao longo da história através de revelações divinas como o Budismo, o Hinduísmo, o Judaísmo, o Cristianismo, o Islão, e agora, nesta era, os ensinamentos da Fé Bahá’í:
A realidade não admite a multiplicidade, embora cada uma das religiões divinas seja separável em duas divisões. Uma diz respeito ao mundo da moralidade e da formação ética da natureza humana. Foca-se no avanço do mundo da humanidade em geral; revela e inculca o conhecimento de Deus e torna possível a descoberta das verdades da vida. Este é o ensinamento ideal e espiritual, a qualidade essencial da religião divina, e não está sujeito a mudanças ou transformações. É o fundamento único de todas as religiões de Deus. Portanto, as religiões são essencialmente uma e a mesma coisa. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pag. 364-365)
As leis sociais religiosas visam criar ordem e justiça para permitir o avanço da civilização; no entanto, porque são condicionais, o caos e a confusão ocorrem quando os tempos e circunstâncias mudam, e as pessoas apegam-se às anteriores leis sociais que já não se adaptam mais às necessidades dos novos tempos:
A segunda classificação ou divisão inclui leis e normas sociais aplicáveis à conduta humana. Esta não é a qualidade espiritual essencial da religião. Está sujeita a mudanças e transformações de acordo com as exigências e requisitos de tempo e lugar. Por exemplo, no tempo de Noé alguns requisitos tornaram necessário que toda a comida do mar fosse permitida ou legal... Outras leis anteriormente válidas foram anuladas durante o tempo de Moisés... Tais mudanças e transformações nos ensinamentos da religião são aplicáveis às condições gerais da vida, mas não são importantes ou essenciais. Moisés viveu no deserto do Sinai, onde o crime exigia punição directa. Não havia prisões ou penas de prisão. Portanto, de acordo com a exigência do tempo e do lugar, havia uma lei de Deus de olho por olho e dente por dente. Não seria praticável aplicar esta lei no momento actual... Na Torá há muitos mandamentos sobre a punição de um assassino. Não seria permitido ou possível cumprir hoje estes mandamentos. As condições e as exigências humanas são tais que até mesmo a questão da pena de morte - a única pena que a maioria das nações continuou a impor por assassinato - está agora em discussão por sábios que estão a debater a sua adequabilidade. Na verdade, as leis para as condições normais de vida só são válidas temporariamente. As exigências do tempo de Moisés justificaram cortar a mão de um homem por roubo, mas tal pena não é agora permitida. O tempo muda as condições e as leis mudam para responder às condições. Devemos lembrar que estas leis em mudança não são o essencial; elas são os acessórios da religião. Os mandamentos essenciais estabelecidos por um Manifestante de Deus são espirituais; estes dizem respeito às moralidades, ao desenvolvimento ético do homem e à fé em Deus. São ideais e necessariamente permanentes - expressões de um fundamento e não passíveis de mudança ou transformação. Portanto, a base fundamental da religião revelada de Deus é imutável, permanente ao longo dos séculos, e não sujeita às diferentes condições do mundo humano. (Idem, pag. 365-366)
Escolhi ser Bahá’í porque as suas leis sociais e espirituais progressistas e inovadoras são as necessárias para este tempo e idade. Como Bahá’í, e crente na unicidade essencial de todas as religiões, posso trabalhar activamente no avanço de uma nova civilização mundial unificada.

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Texto original: Spiritual but not Religious? How to Tell the Difference (www.bahaiteachings.org)

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Rebecca Sherry Eshraghi é uma Bahá'í que vive na Flórida. É casada e tem dois filhos. Cresceu na Alemanha num ambiente multicultural, onde obteve o seu diploma em Negócios Internacionais. Recentemente concluiu o doutoramento em Medicina Natural.

sábado, 13 de maio de 2017

Em busca da Arca da Aliança

Por David Langness.


Provavelmente já viram o filme “Os Salteadores da Arca Perdida” (“Os Caçadores da Arca Perdida”, no Brasil), de Steven Spielberg, onde Indiana Jones vive aventuras emocionantes e cheias de acção, em busca da Arca da Aliança.

Nos “Salteadores”, a arca que Indiana Jones procura tem uma longa história de veneração e ocultação, e possui poderes notáveis devido às suas antigas origens religiosas. No filme, todos querem ficar com ela, e essa perseguição competitiva estimula a acção implacável do filme.


Spielberg não inventou a Arca da Aliança para desenvolver a sua história; ele pegou numa verdadeira lenda que tem raízes profundas em toda a história religiosa e cultural. A verdadeira Arca da Aliança aparece nas escrituras sagradas de diversas religiões, e define um rumo em todas as religiões abraâmicas. O Livro do Êxodo no Antigo Testamento descreve a Arca da Aliança como um cofre construído para guardar as duas tábuas da lei, as duas placas de pedra que continham os Dez Mandamentos revelados a Moisés:
E deu a Moisés (quando acabou de falar com ele, no monte de Sinai) as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus. (Êxodo 31:18)
Essas duas "placas" de pedra (referidas como “tábuas”) e o cofre de madeira banhada a ouro que as guardava desempenham papéis importantes no Antigo Testamento, no Novo Testamento e no Alcorão. No Livro do Êxodo, Deus ordena a Moisés que construa uma Arca para guardar a lei de Deus, e depois a Arca faz acontecer milagres poderosos, separando o Rio Jordão e ajudando a derrubar os muros de Jericó. A descrição detalhada no Êxodo diz-nos exactamente como é a Arca da Aliança – as suas medidas exactas, o seu revestimento de ouro, os seus dois querubins que adornam um kapporet ou uma capa de ouro, a que os cristãos chamam Propiciatório. Guardado no Santo dos Santos, o santuário interior do antigo Templo de Jerusalém, a Arca serviu como a representação física da lei de Deus e do pacto divino entre o Criador e a Sua criação.

Há milhares de anos que historiadores e teólogos debatem a realidade física da Arca da Aliança, e existem centenas de livros sobre o assunto. Moisés gravou - verdadeiramente - as duas placas de pedra com os Dez Mandamentos enquanto as recebia de Deus, e depois guardou-as numa verdadeira caixa de ouro?

Muitas seitas e denominações religiosas assumem esta história bíblica como literalmente verdadeira. Essa interpretação literal produziu dúzias de alegações e teorias sobre o paradeiro actual da Arca perdida, incluindo o Monte Nebo, perto do Rio Jordão, o túmulo do rei Tut no Egipto, numa caverna nas montanhas Dumghe, na África Austral, sob o Monte do Templo, em Jerusalém, escondido na catedral de Chartres, em França, enterrada numa colina na Irlanda ou disfarçada perto da Igreja Cristã Abissínia de Nossa Senhora do Monte Sião em Axum, na Etiópia. (Ninguém parece ter encontrado a Arca, excepto Indiana Jones.)

Outros vêem a Arca da Aliança apenas como um símbolo poderoso, representando a presença de Deus e a promessa aos hebreus. Mas porque as histórias bíblicas dizem que os seguidores de Moisés transportaram a Arca durante os quarenta anos em que andaram pelo deserto, depois de se libertarem da escravidão, ela acabou por representar o "receptáculo" da promessa de Deus, a Sua aliança sagrada mutuamente vinculativa com os Filhos de Israel. Esse pacto primordial declara essencialmente que Deus continuará a guiar os Seus filhos, desde que estes sigam os Seus mandamentos e "não tenham outros deuses além de Mim".

Mas, independentemente da sua existência real ou alegórica, a Arca da Aliança representa um acordo amplo e eterno em todos os ensinamentos religiosos - a continuidade eterna da orientação de Deus para a humanidade:
... é um princípio básico da Lei de Deus que, em cada Missão Profética, Ele estabeleça uma Aliança com todos os crentes - uma Aliança que perdura até ao fim dessa Missão, até ao dia prometido quando a Personagem estipulada no início do Missão se manifesta. Considere-se Moisés, Aquele que conversou com Deus. Na verdade, no Monte Sinai, Moisés estabeleceu uma Aliança relativa ao Messias, com todas aquelas almas que viveriam no dia do Messias. E essas almas, apesar de terem surgido muitos séculos depois de Moisés, estavam, no entanto, - no que diz respeito à Aliança, que é intemporal - ali presentes com Moisés. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of ’Abdu’l-Bahá, nº 181)
Este princípio místico - que todo ser humano tem a oportunidade de participar numa aliança com Deus - existe também nos ensinamentos Bahá’ís. Na verdade, os Bahá’ís acreditam em dois tipos de alianças religiosas:
Existe... a Aliança Maior que cada Manifestante de Deus faz com os Seus seguidores, prometendo que na plenitude dos tempos um novo Manifestante será enviado, e obtendo deles o compromisso de O aceitar quando isto ocorrer. Há também a Aliança Menor que um Manifestante de Deus faz com os Seus seguidores para que eles aceitem o Seu sucessor depois d’Ele. Se assim fizerem, a Fé poderá permanecer unida e pura. Caso contrário, a Fé divide-se e a sua força gasta-se. (A Casa Universal da Justiça, Messages 1963 to 1986, p. 737)
Então, como podemos encontrar a Arca da Aliança? Os ensinamentos Bahá'ís dizem que cada um dos profetas, mensageiros e manifestantes de Deus trazem essa aliança com eles, para garantir aos seus seguidores e aos seus descendentes que Deus não os abandonará desprovidos de orientação agora e no futuro:
O Senhor do universo jamais levantou um profeta, nem fez descer um Livro, sem que tivesse estabelecido a Sua aliança com todos os homens, apelando à sua aceitação da Revelação seguinte e do Livro seguinte, na medida em que as efusões da Sua generosidade são incessantes e sem limites. (O Bab, Selections from the Writings of the Bab, p. 87)
Esta garantia, renovada em cada revelação, dá-nos uma sequência contínua de alianças espirituais ao longo da história. Todas as alianças proféticas do Antigo Testamento de Noé, Abraão, Moisés, Arão e David, prometem uma orientação e bênçãos divinas duradouras em troca da fidelidade do povo. Também prometem a vinda do Messias, e o Reino de Deus na Terra.

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Texto original: Finding the Ark of the Covenant (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 6 de maio de 2017

As religiões mentem?

Por Tim Wood.


Certo dia, o grande especialista em mitologia Joseph Campbell, estava numa entrevista de rádio sobre o seu trabalho em religião e mitologia comparadas, quando lhe foi dito que as religiões mentem.

Campbell disse ao entrevistador que as religiões não mentem porque falam em metáforas. O entrevistador contestou essa noção até que Campbell pôs à prova o seu entendimento e lhe pediu que desse um exemplo de uma metáfora. O entrevistador, julgando que se tratava de um pedido simples, respondeu: "O meu amigo John corre tão depressa que algumas pessoas dizem que ele é uma gazela." Campbell, numa resposta rápida, disse: "Não. Uma metáfora seria: ‘John é uma gazela’". O entrevistador de rádio afirmou em resposta: "Isso não é uma metáfora, é uma mentira", e com essa frase terminou a entrevista.

No seu livro Thou Art That, Campbell escreveu sobre essa entrevista, dizendo:
... levou-me a pensar que metade das pessoas no mundo pensa que as metáforas das suas tradições religiosas, por exemplo, são factos. E a outra metade contesta que elas não são factos. Como resultado, temos pessoas que se consideram crentes porque aceitam metáforas como factos, e temos outras que se classificam como ateus porque pensam que as metáforas religiosas são mentiras.
As metáforas funcionam como a poesia, em termos de conotações e não de denotações. As metáforas apontam para os significados internos para lá dos símbolos designados. Campbell diz:
A referência nas tradições religiosas aponta para algo transcendente que não é verdadeiramente uma coisa qualquer. Se você pensa que a metáfora é uma referência para si própria, seria como ir a um restaurante, pedir um menu, e vendo lá escrito “Bife”, começar a comer o menu.
A sugestão de que uma pessoa se senta e come um menu quando ela quer comida é completamente absurda, neste caso, porque sabemos que a mente da pessoa se foca no significado da palavra escrita “bife”, e no pedaço real de carne. No entanto, nas situações em que o objecto de pensamento não é físico, a metáfora desempenha um papel crucial, ajudando a mente a concentrar-se em algo que não podemos perceber com os nossos cinco sentidos.

As metáforas concentram a mente num significado pretendido. Quando permitimos que as nossas mentes interpretem a afirmação "John é uma gazela" como metáfora, podemos ver o John correndo sobre pedras e saltando um ribeiro com agilidade e facilidade. É claro que o John não é uma gazela, mas se toda a nossa atenção consciente se foca nisso, perdemos a capacidade para perceber o significado mais profundo da frase.

Os ensinamentos Bahá’ís convidam-nos a aumentar a nossa compreensão do espírito humano através das metáforas. 'Abdu'l-Bahá diz:
... quando se deseja explicar a realidade do espírito e as suas condições e graus, é-se obrigado a descrevê-las em termos de coisas sensíveis, pois exteriormente nada existe salvo o sensível. Por exemplo, a dor e a felicidade são coisas inteligíveis, mas quando se deseja expressar essas condições espirituais, diz-se: "O meu coração ficou pesado", ou "O meu coração ergueu-se", embora o coração não seja literalmente pesado nem se erga. Pelo contrário, é uma condição espiritual ou inteligível, cuja expressão requer o uso de termos sensíveis. (Some Answered Questions, newly revised edition, p. 94)
Sabemos pelos ensinamentos Bahá’ís que o caminho da consciência leva do sensível ao inteligível. Podemos compreender aqueles aspectos da vida que estão fora do alcance dos sentidos, apenas referindo a realidade sensível, como diz 'Abdu'l-Bahá, "naquele reino de fenómenos através do qual o caminho consciente nos conduz ao reino de Deus."

(...)

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Texto original: Do Religions Lie? (www.bahaiteachings.org)

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Tim Wood é um estudante e trabalhou em mediação, reforma da justiça criminal, defesa dos direitos humanos e educação. É membro da comunidade Bahá’í desde 2007.

sábado, 31 de dezembro de 2016

A Religião segundo os Grandes Pensadores



A religião é a resposta da humanidade à orientação Divina. Deus inicia-a através dos Profetas e nós observamos, ignoramos, rejeitamos ou distorcemos essa orientação. A religião é a professora e a geradora da civilização - uma estrutura social e cultural construída sobre virtudes universais como a bondade, a compaixão, o serviço, a veracidade, a paz, a justiça, a sabedoria e a unidade. Seguidamente, apresento um conjunto de citações que seleccionei ao longo dos anos, definindo a religião como era entendida pelas mentes e corações dos Profetas de Deus e grandes pensadores.

Al-Ghazali: “O cerne da experiência religiosa não pode ser apreendido pelo estudo, mas apenas pela experiência imediata, prova, êxtase e mudança moral”.

Immanuel Kant: “Duas coisas enchem a mente com espanto e temor crescentes... o céu estrelado acima de nós... e a lei moral dentro de nós...”

Georg Hegel: “A religião é a consciência de Deus... o Espírito Absoluto (ou a potencialidade pura) ... que se reconcilia progressivamente com a autoconsciência humana (nas formas de ciência, arte, religião e filosofia)”.

William Ellery Channing: “A luz Infinita estaria para sempre oculta de nós, se não lançasse os raios da aurora e brilhasse dentro de nós”.

Karl Marx: “A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, assim como é o espírito de uma situação sem espírito. É o ópio do povo”.

Arnold Toynbee: “A religião é a força condutora da história... ajuda a humanidade a transcender o egocentrismo ... e descobre uma relação directa e pessoal com a realidade transcendente dentro, atrás e além do universo”.

Carl Jung: “A religião autêntica é... uma experiência viva e irrefutável de uma relação intensamente pessoal entre o homem e uma autoridade extra-mundana”.

Robert Bellah: “Deixem-me definir a religião como um conjunto de formas simbólicas e actos que relacionam o homem com as condições finais da sua existência”.

Patricia Mische: “A religião evoluiu a partir de um sentido humano de uma realidade maior do que o eu, maior do que a soma total de factos, fenómenos físicos, económicos, políticos ou sociais quantificáveis... As religiões constituem uma força moral poderosa... uma forma de governação nos assuntos humanos”.

Livro de Tiago: “A religião pura e sem mácula diante daquele que é Deus… é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo”.

Bahá’u’lláh: “A religião é o principal instrumento para o estabelecimento da ordem no mundo e tranquilidade entre os seus povos… é uma luz radiante e uma fortaleza inexpugnável par a protecção e bem-estar dos povos do mundo”.

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Harold é um educador inter-religioso mestrados em educação, religião e filosofia; gosta de facilitar o entendimento e a cooperação inter-religiosa. Lecciona cursos sobre religiões mundiais para audiências universitárias e comunitárias. O seu livro Founders of Faith: The Parallel Lives of God’s Messengers sobre os ensinamentos de Moisés, Zoroastro, Krishna, Buda, Cristo, Maomé e Bahá’u’lláh surgiu da sua experiência nestes cursos. Está agora a escrever um livro sobre a história da humanidade e o papel da religião na ascensão, queda e renovação das civilizações.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Abandonar as Pretensões Religiosas de Exclusivismo e Finalidade


As religiões mundiais podem abandonar as suas pretensões de exclusividade e finalidade?

Construir sociedades inclusivas exige uma profunda mudança de mentalidade, é a opinião da Comunidade Internacional Baha'i (BIC) num discurso na Cimeira Global sobre Religião, Paz e Segurança realizada no passado mês de Novembro, no Palácio das Nações, em Genebra.

Com o apoio da União Europeia e do governo de Espanha, o evento foi co-organizado pelo Escritório das Nações Unidas para a Prevenção do Genocídio e a Responsabilidade de Proteger, bem como pela Associação Internacional para a Defesa da Liberdade Religiosa. Concentrou-se no papel e importância da liberdade religiosa na prevenção do extremismo violento e dos crimes de atrocidade e explorou a relação entre estes.

Os participantes incluíram o Conselheiro Especial da ONU para a Prevenção do Genocídio, Adama Dieng; Assessor Principal da Cultura do Fundo de População das Nações Unidas, Azza Karam; Embaixador Geral da Aliança das Civilizações, Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação da Espanha, Belen Alfaro Hernandez; e o Enviado Especial da União Europeia para a Promoção da Liberdade Religiosa ou Crença fora da UE, Jan Figel, entre outros.

Dirigindo-se ao fórum, Diane Ala'i, representante da Comunidade Internacional Bahá'í para as Nações Unidas em Genebra, falou sobre o papel crítico que a liderança religiosa desempenha no desenvolvimento de mentalidades inclusivas e tolerantes. "Construir sociedades pacíficas e salvaguardar a liberdade de religião e crença dependem do abandono das pretensões de exclusividade e finalidade por líderes religiosos", afirmou.

Ala'i também discutiu a importância de cultivar a unidade entre populações diferentes. "Viver lado a lado não é suficiente", explicou. "Pessoas de diferentes crenças devem aprender a viver juntas".

"Estamos a descobrir", prosseguiu, "que o serviço colectivo ao bem comum é um poderoso factor para dissipar mal-entendidos entre as pessoas".

Mais uma vez, existe alguma acção no mundo que seria mais nobre que o serviço ao bem comum? Há alguma bênção maior concebível para um homem, do que ele tornar-se a causa da educação, do desenvolvimento, da prosperidade e da honra dos seus semelhantes? Não, pelo Senhor Deus! A mais elevada honra de todas é que as almas abençoadas segurem as mãos dos desamparados e as libertem da sua ignorância, humilhação e pobreza, e com motivos puros e somente por causa de Deus, se levantem e se dediquem energicamente ao serviço das massas, esquecendo-se da sua própria vantagem mundana e trabalhando apenas para servir o bem comum. (‘Abdu'l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p. 103)

Baseando-se no exemplo da resposta da comunidade Bahá’í no Irão à perseguição patrocinada pelo Estado, Ala’i explicou: "A comunidade tem sido capaz de contribuir para a mudança de corações e mentes no país através da resistência construtiva que tem demonstrado face a décadas de opressão, trabalhando lado a lado com outros cidadãos para o melhoramento da sociedade iraniana."

"Na sua abordagem construtiva à mudança social, testemunhou um nível crescente do apoio de iranianos dentro e fora do país nos últimos anos."

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sábado, 17 de dezembro de 2016

A Revolução Científica libertou a Ciência da Religião?




A religião e a ciência são duas asas com as quais a inteligência do homem pode subir às alturas, com as quais a alma humana pode progredir. Não é possível voar apenas com uma asa! Se um homem tentar voar apenas com a asa da religião cairá rapidamente no atoleiro da superstição, enquanto se tentar apenas com a asa da ciência não conseguirá qualquer progresso, mas cairá no lamaçal desesperante do materialismo. (‘Abdu’l-Bahá, excerto de uma palestra na Rue Camoens, Paris, 12-Novembro-1911)

A Revolução Científica libertou a ciência da religião. A nova ciência libertou o espírito da matéria. A razão e a experiência substituíram a revelação como fonte de conhecimento no mundo. Após a Revolução Científica tornou-se inevitável que Deus acabasse por ser totalmente afastado da natureza e que a ciência negasse a existência de Deus. (Margaret J. Osler, Professora de História e Professora Adjunta de Filosofia na Universidade de Calgary e autora do livro Reconfiguring the World: Nature, God,and Human Understanding in Early Modern Europe)

No seu ensaio no livro Galileo goes to Jail, a professora Osler prossegue o raciocínio anterior com estas palavras:

“Estas afirmações não fundamentadas fizeram o seu percurso na história popular da ciência e são frequentemente repetidas”. Osler apresenta uma lista de pessoas das facções religiosa e secular do debate que “repetem este mantra reforçando a crença de que o séc. XVII testemunhou o divórcio entre ciência e religião”.

Acho interessante que ela use a ideia de divórcio – como se a ciência e a religião fossem um casal numa crise de meia-idade que trocam a sua vida a dois por fantasias de juventude e carros desportivos. Olhando para o álbum dos anos em que ciência e religião estiveram juntas, é claro que a palavra não foi escolhida por acaso.

Até ao século XIX, a ciência ainda não era ciência; era “filosofia natural” ou “história natural”. Nem existiam cientistas, conhecidos como tal. Os homens e mulheres que se dedicavam à ciência eram, muito frequentemente, pessoas de fé, e muitas vezes, membros do clero. Como referi anteriormente, a filosofia natural era parte integrante dos currículos de todas as universidades medievais, e tinha poucas referências à doutrina da Igreja. A teologia era ensinada como uma área de estudos distinta, numa faculdade especializada.

A filosofia natural focava-se em temas como a origem do universo ou a Primeira Causa, as leis que regiam a criação e a sua concepção, a natureza da alma e do corpo humano. Nesses tempos, a ciência incipiente estava próximo do significado do seu nome scientia – isto é, o conhecimento real da essência das coisas. Aos olhos de alguns, isto impediu a “filosofia natural” de se tornar uma verdadeira ciência (scientia) porque as observações dos seres humanos eram imperfeitas, e consequentemente incapazes do nível de rigor necessário para conhecer a essência de qualquer coisa.

Johannes Kepler
Quando li sobre a história da filosofia mecânica, que tenta explicar todos os fenómenos naturais em termos mecanicistas, assumi que os seus promotores pretendiam eliminar Deus do processo. Mas fiquei surpreendida ao descobrir que eles eram profundamente religiosos. Entre eles incluíam-se luminárias como Gassendi, Descartes e Boyle. Até mesmo Johannes Kepler, com a sua certeza que Deus tinha criado um universo que exibia ordem e harmonia mecânica, podia ser contado entre os proponentes da filosofia mecânica.

A analogia que me vem à ideia quando penso na alegada dicotomia entre filosofia mecânica e filosofia espiritual é a escrita. Quando penso no que é necessário para escrever um romance desde o primeiro brilho nos olhos até ao último parágrafo, vejo dois grandes processos em funcionamento: místico e mecânico. O místico inclui a geração da ideia para a história – o nascimento e génese das personagens, os momentos de inspiração e voo da imaginação, a paixão que liga eventos, personagens e linhas do enredo e traduzi-lo por palavras. Por outro lado, a actividade mecânica de passar estas palavras e ideias para uma forma física – escrever, tal como escrevi este texto – exige que que elas sejam elaboradas de forma a serem experimentadas por outras pessoas.

Estes dois processos dependem mutuamente um do outro. As ideias ficam no campo dos sonhos se não as colocamos no papel; se isso acontecer, nunca se tornarão uma história. Por outro lado, sem essas ideias, essas interligações, essas personagens, o meu amor por elas e a minha paixão pela história, não haverá nada para o processo mecânico registar, e também não haverá história. Parafraseando a professora Osler: até numa criação mecânica há espaço (ou necessidade) de um propósito e de um desenho.

O romance existe porque eu pego no produto do meu processo intelectual/espiritual e aplico-lhe o processo mecânico. As palavras que escrevo revelam o intelecto por trás de si. Também são evidências do processo espiritual.

Não me surpreende descobrir que vários filósofos naturais expressaram a opinião de que, tal como disse Osler, "a filosofia natural, devidamente seguida, leva ao conhecimento do Criador". Entre os que sustentavam essa visão estava Lord Kelvin (físico matemático e engenheiro) que aconselhou:

Não tenham medo de ser livre pensadores. Se pensarem com força suficiente, serão forçados pela ciência a acreditar em Deus, que é a base de toda Religião. Descobrirão que a ciência não é antagónica, mas útil à religião. (William Thomson, 1º Barão Kelvin)

Opiniões semelhantes têm surgido de vozes religiosas – especialmente de Bahá'u'lláh, que escreveu "O princípio de todas as coisas é o conhecimento de Deus", e do Seu filho 'Abdu'l-Bahá, que escreveu: "A ciência é o esplendor do Sol da Realidade, o poder de investigar e descobrir as verdades do universo, o meio pelo qual o homem encontra um caminho para Deus".

Isaac Newton escreveu no Principia que:

... todo o discurso sobre Deus é derivado de uma certa semelhança das coisas humanas, que, embora não sendo perfeita, é, no entanto, um certo tipo de semelhança... E abordar o Deus dos fenómenos é certamente parte da filosofia natural.

Por outras palavras, por muito imperfeita que seja a nossa capacidade de compreensão, a criação pode dizer-nos alguma coisa sobre as qualidades do Criador, tal como a minha escrita diz ao leitor algo sobre mim.

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Texto original: Did the ScientificRevolution Liberate Science from Religion? (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 22 de outubro de 2016

O Cristianismo é a mãe da Ciência Moderna?

Por Maya Bohnhoff.

Suposições teológicas únicas ao Cristianismo explicam porque é que a ciência nasceu apenas na Europa Cristã. Ao contrário da sabedoria transmitida, a ciência e a religião não só eram compatíveis, mas também eram inseparáveis… A teologia Cristã foi essencial para o surgimento da ciência. (Rodney Stark, For the Glory of God [2003])
Parafraseando Newton, o ensaísta Noah Efron (da cadeira de Ciência, Tecnologia e Sociedade na Universidade Bar-Ilan, em Israel) nota que “para cada mito existe um mito igual e oposto”. E prosseguindo o seu raciocínio, produz um mito que nunca tinha ouvido antes: o Cristianismo não apenas deu à luz a ciência moderna, mas também – supõe Rodney Stark – seria o único antepassado possível para essa disciplina.

Mas ele não está só na defesa desta ideia. O Pe. Stanley L. Jaki – professor de Física em Seton Hall – tem afirmado que a ciência foi um nado-morto em todas as culturas antigas e apenas teve um nascimento bem-sucedido na Europa Cristã.

Qualquer pessoa conhecedora de história da ciência na Europa tem motivos para questionar esta afirmação, apesar de reconhecer que os ensinamentos Bíblicos encorajam (em vez de desencorajar) o tipo de investigação racional que está no âmago da ciência moderna:
Os céus proclamam a glória de Deus; o firmamento anuncia a obra das suas mãos.
Um dia passa ao outro esta mensagem e uma noite dá conhecimento à outra noite.
Não são palavras nem discursos cujo sentido se não perceba.
O seu eco ressoou por toda a terra, e a sua palavra, até aos confins do mundo.
(Salmos 19:2-5)
Este trecho da Bíblia dá-nos um convite aberto para explorar o mundo, o cosmos e o nosso ser interior. O Universo físico “passa a mensagem” e “dá conhecimento” sem palavras. Esta ideia – de que o Universo físico fala eloquentemente sobre o seu Criador – é um conceito fundamental em todas as religiões reveladas. Igualmente é a expectativa de que a humanidade use as suas múltiplas e únicas faculdades para “ouvir” o que universo tem a dizer.

Jesus Cristo explica que devemos julgar as coisas pelo seus “frutos” ou resultados (Mat 7:17-20). Posteriormente, Ele reforça esta ideia usando a metáfora que sabemos que o verão está próximo ao observar as evidências dos fenómenos naturais (Mat 24:32). Estas são apenas dois dos muitos trechos em que Cristo invoca a prática da observação e da faculdade racional humana para compreender o mundo e tomar decisões.

Os ensinamentos originais do Judaísmo e do Cristianismo promovem claramente a exploração do universo através da observação e da razão. Assim, não deveria ser surpresa o facto de muitos eruditos Cristãos terem estudado história natural. De Descartes a Newton, de Occam a LeMaitre, os homens da fé Cristã mergulharam de cabeça no estudo do universo que acreditavam ter sido criado por Deus. Mas será correcto dizer que apenas o Cristianismo poderia ter dado origem às ciências físicas?

Sábios Muçulmanos
Tal como Noah Efron salienta no seu ensaio, as ideias Cristãs sobre o universo não são exclusivamente Cristãs. Têm as suas raízes no Judaísmo, foram partilhadas por outras religiões tão diversas como o Budismo ou o Zoroastrismo, e emergiram em culturas tão díspares como a Chinesa e a Grega. Eruditos Muçulmanos como Ibn Sina, Ibn Rushd e outros também tiveram influência na ciência e na cultura.

De facto, todas as pessoas envolvidas no desenvolvimento da ciência dependeram de outros eruditos que existiram anteriormente. Nenhuma ciência surgiu completamente formada numa cultura, religião ou filosofia. Na realidade, os sábios Cristãos da Europa medieval devem muito da sua ciência ao trabalho que os antepassados indianos, persas e gregos herdaram e expandiram. No séc. IX existiam mais livros sobre temas científicos escritos em Árabe do que em Latim ou qualquer outra língua.

A afirmação de que o Cristianismo é a mãe da ciência moderna é significativa numa era em que a unidade na diversidade se tornou uma técnica de sobrevivência. O Dr. Efron nota que quando as pessoas expressam esta ideia, não estão apenas a dizer qualquer coisa sobre o Cristianismo e “os outros”; também estão a dizer algo sobre a ciência. Esta afirmação pretende – na sua essência – que a ciência teve apenas uma história, um único ponto de origem e apenas pode ser entendida de uma única perspectiva.

Esta afirmação sobre o caminho da ciência lembra-me outra semelhante feita por um amigo Evangélico sobre o caminho para Deus. Ele perguntou como é que eu e o meu marido nos tornámos crentes. Eu fui educada como Cristã e o meu marido como Agnóstico; ambos chegámos à Fé Bahá’í – que inclui a aceitação de Cristo – através do amor à razão. O meu amigo evangélico insistiu que isto estava errado. Apenas havia uma maneira de chegar a Deus e esse era através do temor e reconhecimento da nossa própria inutilidade. Esse era o caminho que ele tinha seguido para chegar à fé e nada nas Escrituras que evidenciasse o contrário podia convencê-lo que se podia encontrar Deus por outro caminho.

Basta um breve momento de reflexão para perceber que este conceito particular de Cristianismo está a anos-luz da crença e da fé que inspiraram os primeiros cientistas e filósofos cristãos. Esse conceito reduz a religião e a ciência de sábios não-cristãos a uma admirável insignificância, privada da qualidade intelectual que supostamente apenas os eruditos Cristãos possuem.

Jesus Cristo pediu que os Seus seguidores que avaliassem as afirmações de verdade com a medida da razão - julgar as coisas pelos seus frutos ou resultados. Qualquer olhar objectivo para a história da ciência revela que ela, antes de mais, é um esforço humano e que os humanos que lhe deram forma – para o bem e para o mal – surgiu em todos os cenários possíveis. É certo que podemos afirmar houve contributos mais significativos realizados nos primeiros anos das ciências por crentes de diversas religiões; mas a partir do séc. XIX, o número de cientistas sem religião, agnósticos e ateus tem vindo a crescer.

No entanto, independentemente do sistema de crenças do cientista (e é importante ter presente que a ciência em si não é um sistema de crença), a ciência pode ser usada de forma maligna se não tiver um enquadramento moral que que se aproxime da regra de ouro de Jesus (“O que quiserdes que os outros vos façam, fazei-lho vós também”) e do triplo filtro de Sócrates (“É verdade? É bom? É útil?”).

Tanto a ciência como a religião podem ser, e têm sido, veículos de interesses humanos dogmáticos. No coração da Fé Bahá’í está a firme convicção que devemos fazer o nosso máximo para impedir que isso aconteça. Tal como disse 'Abdu’l-Bahá numa palestra em Nova Iorque em 1912:
A Razão é a primeira faculdade humana e a religião de Deus está em harmonia com ela. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 231)

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Texto original: Did Christianity Give Birth to Modern Science? (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 17 de setembro de 2016

A Igreja Medieval suprimiu a Ciência?

Por Maya Bohnhoff.


"O que tem Atenas a ver com Jerusalém?"
Esta questão - colocada de forma fabulosa por Tertuliano, um dos primeiros filósofos cristãos - constitui a base de um mito relacionado que abordei no meu texto anterior. Esse mito sustenta que a igreja medieval suprimiu activamente o desenvolvimento da ciência. John Draper fomentou a ideia em 1874, com a sua obra The History of Conflict Between Religion and Science, onde afirmou:
A Igreja . . . estabeleceu-se como depositária e árbitro do conhecimento. . . Assim, ela seguiu um rumo que determinou toda a sua futura carreira; ela tornou-se uma pedra no caminho do avanço intelectual da Europa durante mais de mil anos.
Carl Sagan deu credibilidade à ideia na série Cosmos (1980), onde apresentou um gráfico do progresso na astronomia. O gráfico inicia-se com o antigo pensamento grego até ao tempo de Hipácia, e em seguida, contém um intervalo de cerca de mil anos entre a dama da matemática e Copérnico e DaVinci. Na legenda do gráfico de Sagan, este enorme "fosso" criou "uma pungente oportunidade perdida para a humanidade."

Carl Sagan
Quando era adolescente, eu idolatrava Carl Sagan. E também aceitava o mito. Ainda tenho um enorme respeito pelo "tio" Carl e a sua desmistificação da ciência, mas reconheço que até os homens muito inteligentes podem estar mal-informados. Sagan e outros ignoraram completamente as contribuições para a filosofia natural feitas por luminares do Oriente Médio como Ibn-Rushd (Averróis), Ibn Sina (Avicena) e Ibn Firnas.

Mas ainda há mais! Uma pequena lista das realizações desta era supostamente das trevas na ciência europeia inclui: a obra de William of Saint-Cloud sobre eclipses solares; as descobertas de frade dominicano Dietrich von Freiberg sobre o arco-íris; a aplicação da teoria do ímpeto de Jean Buridan para explicar um projéctil de movimento, a aceleração em queda livre e a rotação do céu nocturno. O bispo Nicole d’Oresme desenvolveu argumentos, na sua juventude, em defesa da rotação da Terra, embora não houvesse então qualquer evidência empírica ou argumentos racionais conclusivos para a ideia. Entretanto, em Oxford, os filósofos naturais estavam a aplicar a matemática para o estudo do movimento.

Sabemos agora que havia ciência durante a Idade Média em lugares como Oxford, onde foi fundada uma universidade em 1096 EC (embora lenda a coloque em 872). Também foram fundadas universidades em Bolonha e Paris antes de 1200 CE. Por volta de 1500, havia cerca de 60 dessas instituições espalhadas por toda a Europa, com cerca de 30 por cento dos currículos dedicado ao estudo do mundo natural.

A organização que dava maior apoio a essas instituições foi... a Igreja Católica. O historiador John Heilbron (mais conhecido pelas suas histórias da física), escreveu:
A Igreja Católica Romana deu mais apoio financeiro e social para o estudo da astronomia durante seis séculos - desde a recuperação de dados antigos no final da Idade Média até ao Iluminismo - do que qualquer, e provavelmente todas, outras instituições. - The Sun in the Church, Harvard University Press, 1999.
Michael Shank - professor emérito de história da ciência na Universidade de Wisconsin, Madison - observa no livro em Galileo goes to jail que a descoberta do papel da Igreja no financiamento destas primeiras universidades, foi recebido com o argumento de que, é claro, os estudantes dessas escolas eram monges ou sacerdotes que estudam principalmente teologia. No entanto, de acordo com registos das escolas, este não foi o caso. A maioria dos alunos nem sequer fazia quaisquer estudos em teologia. Sim, havia clérigos em algumas universidades que estudavam teologia, mas isso exigia fazer os votos, por um lado, e um curso de Master of Arts por outro. De facto, algumas universidades nem sequer tinham uma faculdade teológica, portanto, apenas eram leccionados estudos "seculares".


Aula numa Universidade, séc. XIV
O facto facilmente esquecido é que, mesmo que se a maioria dos eruditos estivessem a estudar "a rainha das ciências" (teologia), juntamente com a astronomia, história natural e matemática por ordem da Igreja Católica, isso minaria qualquer noção de que a Igreja via filosofia natural como algo a ser evitado pelos Cristãos. Milhares de estudantes (o professor Shank cita um número de cerca de 250.000 só na Alemanha, a partir de 1350 EC) aprendiam o mais recente de conhecimento científico - fossem clérigos ou leigos. A Igreja não só permitiu isso, mas também o incentivou e financiou.

Mas houve casos em que os teólogos entraram em conflito com essas universidades? Certamente. Por alguma razão, isso aconteceu várias vezes entre a Universidade de Paris e o bispo local, que, a dado momento, entrou em controvérsia com o seu colega aristotélico, Tomás de Aquino. Na verdade, parece ter sido necessária uma bula papal (Parens scientiarum ou "Mãe da Ciências") para defender o currículo universitário contra o bispo de Paris.

Vendo as coisas de uma forma equilibrada, torna-se óbvio o perigo de atribuir as acções das autoridades locais à "Igreja" ou ao "Cristianismo". Isso permite a criação de mitos que fomentam o preconceito e a irracionalidade, e apresentam uma visão distorcida da relação histórica entre a ciência e a religião. Em geral, a Igreja - como uma instituição - não suprimi ciência, mas pelo contrário, promoveu-a.

Para resumir, se a Igreja Católica tivesse a intenção de suprimir as ciências, os seus métodos pareceriam particularmente bizarros. Esta promoção religiosa contraproducente de ideias científicas - se acreditarmos que a religião se opõe inerentemente à ciência - também foi seguida pelo Islão, e ainda mais acentuadamente continuada pela Fé Bahá'í. Maomé fez a famosa exortação aos seus seguidores para procurarem todos os tipos de conhecimento até aos confins da terra; a história atesta o resultado disto. Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá elevaram o estudo e a aplicação das ciências ao nível de adoração:
O conhecimento científico é a mais elevada realização no plano humano, pois a ciência é o descobridor das realidades. É de dois tipos: materiais e espirituais. A ciência material é a investigação dos fenómenos naturais; a ciência divina é a descoberta e realização de verdades espirituais. O mundo da humanidade deve adquirir ambas. Um pássaro tem duas asas; ele não pode voar apenas com uma. As ciências materiais e espirituais são as duas asas de elevação e realização humanas. Ambas são necessárias... ('Abdu'l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, p. 138)
'Abdu'l-Bahá fez esta declaração acima numa cidade famosa pelas suas instituições de ensino superior. Também falou na Universidade de Stanford na Califórnia e lá, como em muitos dos Seus discursos, falou sobre a importância da ciência e a sua harmonia essencial com a religião. Esta consideração profunda pela ciência no reino da religião é directamente responsável pelo facto de muitas pessoas de fé terem optado por procurar o conhecimento científico e terem feito importantes descobertas científicas. Não tenho dúvidas que continuarão a fazê-lo.

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Texto original: Did the Medieval Church Suppress Science? (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 27 de agosto de 2016

A Ascensão do Cristianismo e a Ruína da Ciência

Por Maya Bohnhoff.


Um dos mitos mais comuns sobre ciência e religião é que o crescimento da fé - ou da ortodoxia - provocou a ruína das ciências nascentes.

Um modelo usado para sustentar esta ideia é o confronto clássico entre Galileu e a Igreja Católica. Outro é o martírio da matemática egípcia, Hipátia, no século V. Segundo a lenda, Hipátia foi arrastada da sua carruagem e morta numa igreja de Alexandria, por uma multidão de cristãos fanáticos. Havia um panfleto escrito sobre ela em 1720 por um tal John Toland com este título impressionante (respire fundo antes de ler): A História de uma Mulher Belíssima; que foi despedaçada pelo clero de Alexandria para satisfazer o orgulho, a rivalidade, e a crueldade do Arcebispo, comummente, mas imerecidamente, intitulado São Cirilo.

Esta história foi apresentada durante séculos como um exemplo do que acontece quando a ciência iluminada entra em conflito com qualquer forma de crença religiosa. Mas será uma história fidedigna? Segundo uma biografia recente de Hipátia, escrita por Maria Dzielska, a resposta é não. Dzielska revela que Hipátia estava envolvida numa luta política local com o referido Cirilo de duvidosa santidade - que Dzielska descreve como "um clérigo ambicioso e implacável, desejando alargar a sua autoridade" - e Orestes, o Perfeito Imperial Romano da região, e também um amigo Hipátia.

O martírio de Hipátia, em Alexandria
Orestes, tal como Cirilo, era cristão. Mas Cirilo não gostava de Orestes porque o Prefeito desafiou a sua própria autoridade e ambições. Cirilo invocou a amizade de Orestes com a pagã Hipácia para denegrir a sua reputação. Para apimentar a história, Cirilo acusou a mulher de feitiçaria.

Orestes era o verdadeiro alvo de Cirilo, e não Hipátia. Era um alvo por razões políticas, e não religiosas ou científicas. Cirilo nunca perseguiu os filósofos naturais como classe, embora tenha atacado violentamente os pagãos. Apesar das suas acções, as ciências e a matemática floresceram em Alexandria nas décadas seguintes. Os registos históricos não confirmam a alegação de que a ascensão do Cristianismo como religião foi o toque de finados do desenvolvimento científico.

O falecido historiador da ciência David C. Lindberg apresentou a ideia de que os relatos enganadores encontrados em obras como The Closing of the Western Mind de Charles Freeman são "tentativas de manter vivo um mito antigo: a imagem do cristianismo primitivo como um refúgio de anti- intelectualismo, uma fonte de sentimento anticientífico", e a causa do que se tornou conhecido como Idade das Trevas na Europa.

Então, de onde vem o mito?

Lindberg olha para as declarações de Tertuliano e outros filósofos religiosos que eram expressão de um certo desdém para com "Atenas" (sinónimo de erudição pagã). Taciano, um estudioso da Mesopotâmia do século II e contemporâneo de Tertuliano, perguntou:
Que coisas nobres produziste na tua busca pela filosofia? Qual dos teus homens mais eminentes se libertaram da vanglória?... Portanto, não te deixes levar pelas assembleias solenes de filósofos que não são filósofos, que dogmatizam as fantasias rudes do momento. (Galileo Goes to Jail, p. 11)
Aqui, Taciano foca-se nos "frutos" da filosofia, naquilo que ela realmente produz. Bahá'u'lláh expressou um sentimento semelhante:
Conhecimento é semelhante a asas para o ser (do homem) e como uma escada para subir. Compete a todos adquirir conhecimento, mas daquelas ciências que podem beneficiar o povo da terra, e não aquelas ciências que são meras palavras e terminam em meras palavras. (Baha’i World Faith, p. 189)
Mas, em seguida, acrescenta o seguinte:
Os possuidores de ciências e artes têm uma grande prerrogativa entre os povos do mundo. Na verdade, o verdadeiro tesouro do homem é o seu conhecimento. O conhecimento é o instrumento da honra, prosperidade, alegria, alegria, felicidade e exaltação. (Idem).
O contexto é fundamental. Tertuliano e Taciano não denegriram o conhecimento, mas antes o dogmatismo construído sobre "fantasias rudes" e tendências intelectuais. A sua atitude para com o dogmatismo filosófico deve ser considerada no contexto do facto de que eles e os seus colegas utilizarem os métodos da filosofia grega nas suas próprias áreas de estudo e pensamento. Eles alinharam as suas ideias com aqueles parceiros agradáveis como as escolas filosóficas do platonismo ou neoplatonismo, estoicismo, aristotelismo e neopitagorismo.

Lindberg coloca uma questão fascinante e simultaneamente crítica: "O que é que essas tradições religiosas e filosóficas têm a ver com a ciência?"

Naquele momento da história, a "ciência" não existia como uma disciplina, e seu progenitor - a chamada filosofia natural - não se distinguia da religião ou filosofia em geral. Havia, é claro, crenças sobre a natureza, medicina, bem-estar, doença, fenómenos naturais e a vida em geral. Essas coisas eram estudadas e escrevia-se sobre elas, muitas vezes com ênfase na sua relação com Deus ou deuses. A ideia de que pessoas religiosas desse tempo fossem foram patetas que não pensavam em nada senão as páginas da Bíblia (se é que possuíam esse documento), é uma caricatura, na melhor das hipóteses. O estudo do mundo natural foi um ramo do saber para pensadores cristãos e pensadores não-cristãos. Passariam séculos antes que essas áreas do saber fossem assinaladas com rótulos onde se lia "Ciência" e "Religião".

Na verdade, o que os filósofos cristãos discutiam era o propósito do conhecimento e a atitude apropriada para com o que se poderia retirar da realidade física. No decurso deste debate, eles revelaram uma profunda compreensão e domínio das metodologias utilizadas também nas filosofias a que se opunham. De facto, eles não se opunham à filosofia natural, mas a certos princípios filosóficos que concluíram - racionalmente - serem irrelevantes, infrutíferos, ou mesmo enganadores. Considerando a ênfase de Cristo na vida frutífera do cristão, isto não é surpreendente.

Longe de denegrir o conhecimento, os primeiros pensadores cristãos promoveram os benefícios de uma congregação bem informada. Foi neste contexto que Agostinho lamentou a ignorância de alguns dos seus companheiros cristãos:
Mesmo um não-cristão sabe alguma coisa sobre a terra, os céus, e os outros elementos... sobre o movimento e órbita das estrelas... e assim por diante, e é esse conhecimento ele defende, como sendo correcto segundo a razão e a experiência. Agora é uma coisa vergonhosa e perigosa para um infiel [um não-cristão] ouvir um cristão... a dizer disparates sobre esses assuntos; e devemos tomar todas as medidas para evitar uma situação tão embaraçosa, em que as pessoas vêem uma vasta ignorância num Cristão e riem-se em desprezo.
Agostinho e os seus companheiros aplicaram metodologias filosóficas greco-romanas aos fenómenos naturais e à interpretação bíblica. Não surpreende, portanto, que algumas das maiores conquistas e descobertas científicas que sustentam a ciência ocidental tenham sido feitas por estudiosos da religião, ou que o principal agente a incentivar esta descoberta e conquista tenha sido a igreja Cristã.

Além das multidões de fanáticos de ambos os "lados" (cristãos e não-cristãos citaram Tertuliano para defender os seus pontos de vista) a diferença entre as ideologias "científica" e "religiosa" estava em grande parte na atitude. Os filósofos naturais Cristãos defendiam o conhecimento aplicado - um conhecimento que não era um fim em si mesmo, mas sim uma ferramenta para ser usada na compreensão do propósito da existência humana.

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Texto original: The Rise of Christianity and the Demise of Science (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.