Mostrar mensagens com a etiqueta Sociedade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sociedade. Mostrar todas as mensagens

sábado, 27 de abril de 2019

Proteger Mulheres e Meninas contra Abusos e Violência

Por Layli Miller-Muro.


A caridade é agradável e louvável aos olhos de Deus e é considerada principesca entre as boas acções. (Baha'u'llah, Tablets of Baha'u'llah, p. 71)
No Tahirih Justice Center, a nossa missão de beneficência inclui a protecção de corajosas mulheres e meninas imigrantes que não aceitam ser vítimas de violência.

Utilizando o sistema legal dos EUA, o Tahirih funciona como uma organização nacional sem fins lucrativos que apoia mulheres e meninas de todo o mundo que decidiram enfrentar a sua opressão. Oferecemos-lhes serviços jurídicos e advocacia totalmente gratuitos nos tribunais, nas comunidades e no Congresso. O Tahirih protege mulheres e meninas que procuram protecção contra abusos dos direitos humanos, incluindo violência doméstica, agressão sexual, tráfico de seres humanos, mutilação genital feminina, crimes de honra e casamento forçado.

O Tahirih - uma organização de inspiração Bahá’í - foi fundada na convicção de que atingir a igualdade total entre mulheres e homens é necessária para o progresso da sociedade.

Desde a sua fundação, em 1997, Tahirih ajudou mais de 15.000 mulheres e meninas a conseguir justiça. Actualmente, a organização tem aproximadamente cinquenta funcionários a tempo inteiro, incluindo advogados, assistentes sociais, procuradores e outros funcionários de apoio, que trabalham em Washington (DC), Houston (Texas) e Baltimore (Maryland). Uma rede de mais de mil e duzentos advogados em mais de duzentos grandes escritórios de advocacia que oferecem o seu tempo e competências legais para ajudar os clientes do Tahirih - todos eles multiplicam o impacto dos esforços do Tahirih. O Tahirih Justice Center também tem parceria com médicos, psicólogos, tradutores e outros profissionais para servir os seus clientes. Aproveitando estes serviços profissionais voluntários - avaliados em 13 milhões de dólares americanos em 2013 - o Tahirih transforma cada dólar que lhe é doado num impacto de 4,50 dólares. O Tahirih tem uma taxa de sucesso de 99% nos casos de litígio, mesmo quando se trata de casos extremos, legalmente complexos, considerados como “perdidos” por outros advogados.


A sustentabilidade institucional do Tahirih é assegurada por um corpo de Direcção Administrativa, uma estratégia alargada de captação de recursos financeiros e uma ampla rede de doadores generosos, incluindo indivíduos, empresas, fundações e o próprio governo dos Estados Unidos. Embora o Tahirih receba apoio de Bahá’ís individuais, não é financiado pelas instituições Bahá’ís.

Estrategicamente comprometido com a protecção de curto e longo prazo de mulheres e meninas contra a violência, o Tahirih utiliza uma abordagem em três frentes para capacitar as pessoas a transformar as suas vidas, ajudar as comunidades a reestruturar a questão da violência contra as mulheres no seu contexto cultural e a facilitar mudança nas políticas públicas e na lei. Concretamente, o Tahirih fornece:
  • Serviços legais e sociais gratuitos, que permitem que mulheres e crianças imigrantes de baixos rendimentos consigam os direitos que lhes são garantidos pela lei dos EUA, assegurando protecção legal para si e para as suas famílias, e proporcionando-lhes os recursos necessários para recuperar e reconstruir as suas vidas;
  • Educação pública, divulgação, formação e assistência técnica individualizada, que proporcionam a profissionais (incluindo agentes da lei, prestadores de serviços sociais, advogados, clérigos, profissionais de saúde, etc.) e comunidades maior capacidade para responder às necessidades específicas de imigrantes vítimas de violência de género; e
  • Defesa de políticas públicas, que dão voz aos seus clientes para estimular o diálogo não partidário e as leis que promovam protecção sistémicas da segurança, do bem-estar e dos direitos humanos de mulheres e crianças vulneráveis.
Líder nacional no discurso público e na defesa de mulheres imigrantes contra a violência, o Tahirih foi autor de uma legislação inovadora para proteger as chamadas noivas por correspondência da indústria internacional de casamentos e outras leis para proteger os que fogem da perseguição de género. Além disso, Tahirih é líder de pensamento nos Estados Unidos no tema da violência contra mulheres imigrantes, liderando várias associações nacionais e colaborando com mais de setecentas organizações com ideais semelhantes em questões como casamento forçado e infantil, mutilação genital feminina e tráfico de seres humanos.

Fazemos tudo isto com alegria e satisfação, porque acreditamos na igualdade dos sexos, na unidade da humanidade e nas exortações dos ensinamentos Bahá’ís para ajudar todas as vítimas de opressão:
Sede pais amorosos para o órfão, e um refúgio para os indefesos, e um tesouro para os pobres e uma cura para os enfermos. Sede o auxílio de toda a vítima de opressão, os patronos dos desfavorecidos. Pensai em todos os momentos em prestar algum serviço a todos os membros da raça humana. Não deis ouvidos à aversão e rejeição, ao desprezo, à hostilidade, à injustiça: agi de maneira oposta. Sede sinceramente bondosos, e não apenas na aparência. Que cada um dos amados de Deus centre a sua atenção nisto: ser a misericórdia do Senhor para com o homem; ser a graça do Senhor. Que ele faça algo de bom a cada pessoa cujo caminho ele cruza, e lhe leve algum benefício. Permiti-lhe melhorar o carácter de cada um e de todos, e reorientar as mentes dos homens. Deste modo, a luz da orientação divina resplandecerá, e as bênçãos de Deus embalarão toda a humanidade: pois o amor é luz, em qualquer morada que habite; e o ódio é escuridão, não importa onde possa fazer o seu ninho. (‘Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu'l-Bahá, pag. 3)
E a honra e distinção do indivíduo consistem nisto: que ele entre todas as multidões do mundo se torne uma fonte de bem social. Será concebível alguma bênção maior do que esta, que um indivíduo, olhando para si próprio, descubra que, com a graça confirmadora de Deus, ele se tornou a causa da paz e do bem-estar, da felicidade e do proveito dos seus semelhantes? Não, pelo Deus único e verdadeiro, não há felicidade maior, nem prazer mais completo. ('Abdu'l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, pags. 2–3)

-----------------------------
Texto original: Protecting Women and Girls from Abuse and Pain (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Layli Miller-Muro é fundadora e directora do Tahirih Justice Center (www.tahirih.org), uma organização sem fins lucrativos de inspiração Bahá’í dedicada à protecção de mulheres e meninas contra abusos de direitos humanos. O seu envolvimento nesta organização valeu-lhe vários prémios e distinções, tendo sido mencionada no “150 Fearless Women in the World” (150 Mulheres Destemidas no Mundo) da Newsweek Magazine/Daily Beast. Vive com o marido e três filhos em Washington, DC (EUA).

sábado, 20 de outubro de 2018

O que Podemos Fazer pelos Refugiados no Mundo?




Cuidar dos refugiados do mundo e dos sem-abrigo é uma tarefa difícil, porque as necessidades normalmente superam largamente os meios disponíveis.

Numerosas organizações governamentais e humanitárias fazem o possível para ajudar esses refugiados, fornecendo terrenos, abrigos temporários, comida, bebida, roupas, escolas e muito mais; com isso, os cada vez maiores campos de refugiados no mundo podem responder temporariamente às necessidades de milhões de pessoas deslocadas.

Recentemente, o ACNUR - a Agência das Nações Unidas para os Refugiados - informou que o número de pessoas deslocadas no mundo aumentou para 65,6 milhões - mais do que toda a população do Reino Unido. Esse número surpreendente (inclui um aumento de 300.000 em relação ao ano anterior) é o maior número de refugiados alguma vez registado.

O que pode uma pessoa fazer em relação a esta crise global? Temos a responsabilidade de agir ou devemos deixar essa tarefa para organizações e governos?

Do ponto de vista de Bahá’í, ajudar os refugiados sem lar é um assunto para todos. Bahá’u’lláh - Ele próprio um refugiado e exilado - escreveu:

Ó ricos da terra! Não fujais da face do pobre que jaz no pó; pelo contrário, sede amigos dele e permiti-lhe que conte a história dos males com que o inescrutável decreto de Deus o afligiu. Pela rectidão de Deus! Enquanto estiveres com ele, a Assembleia no alto estará a olhar por vós, a interceder por vós, a louvar os vossos nomes e a glorificar a vossa acção. (Gleanings fromthe Writings of Baha’u’llah, sec. CXLV)

‘Abdu’l-Bahá, que também foi refugiado e prisioneiro juntamente com o Seu Pai, afirmou:

Que todos vós possais estar unidos, que possais concordar, que possais servir a solidariedade da espécie humana.  Que possais ser os bem-intencionados para toda a humanidade. Que possais ser os auxiliadores de todo o pobre, que possais ser os enfermeiros do doente. Que possais ser fontes de conforto dos que têm o coração despedaçado. Que possais ser um refúgio para o vagabundo. Que possais ser uma fonte de coragem para o assustado. Assim, com o favor e assistência de Deus poderá erguer-se o estandarte da felicidade humana no centro do mundo e a insígnia da concórdia universal será desfraldada. (The Promulgation of Universal Peace, p. 425)

Como exemplo do quão terrível se tornou a actual crise de refugiados no mundo, vejamos o pequeno Líbano. Com 10.000 km2, é um dos países mais pequenos do mundo em termos de superfície terrestre. Durante a década de 1960, o Líbano era conhecido como "a Suíça do Oriente" e Beirute, a sua capital, "a Paris do Médio-Oriente ".

Como sabemos, o Líbano tem como vizinhos a Síria (a norte e a leste) e Israel (a sul). O Líbano tem sido atormentado por violência sectária e guerra civil; em 1990, a guerra civil terminou e havia quase um milhão de libaneses deslocados. Algumas partes do Líbano ficaram em ruínas, e a Síria foi uma potência ocupante até 2005. Seguiram-se uma série de assassinatos de líderes libaneses, facto que dificultou a formação de um governo estável. Depois, em 2012, a guerra civil na Síria ameaçou transbordar para o Líbano e, em 2013, mais de 677.000 refugiados sírios atravessaram a fronteira libanesa, procurando a segurança relativa do país. Hoje o Líbano tem mais de 1 milhão de refugiados sírios, aproximadamente um sétimo da população do país.

Mas o Líbano não é o único país com pessoas deslocadas e sem-abrigo. Como podemos nós, indivíduos, lidar com essas questões urgentes e prestar ajuda aos deslocados, aos sem-abrigo e aos refugiados? Quem pode servir como exemplo na ajuda a essas multidões indefesas?

Em 1932, Shoghi Effendi escreveu sobre uma Bahá’í que fez exatamente isso:

O rebentar da Grande Guerra deu-lhe mais uma oportunidade para revelar o verdadeiro valor do seu caráter e libertar as energias latentes no seu coração. A residência de 'Abdu'l-Bahá em Haifa estava rodeada, durante todo aquele conflito sombrio, por um grupo de homens, mulheres e crianças famintas, que a má administração, a crueldade e a negligência dos funcionários do governo otomano tinham levado a procurar ajuda para as suas aflições. Das suas mãos [de Bahiyyih Khanum, irmã de Abdu'l-Bahá], e da abundância do seu coração, essas vítimas infelizes de uma tirania abjecta recebiam, dia após dia, provas inesquecíveis de um amor que aprenderam a invejar e a admirar. As suas palavras de alegria e conforto, a comida, o dinheiro, as roupas que ela distribuía livremente, os medicamentos que, por um processo próprio, ela mesma preparava e ministrava diligentemente - tudo isso teve a sua parte no confortar do inconsolável, no recuperar da visão do cego, no abrigar do órfão, no curar do doente e auxiliar o desalojado e o vagabundo. (Baha’i Administration,, p. 193)

A Grande Guerra foi a Primeira Guerra Mundial; o cenário era a Palestina; a Folha Mais Sagrada era o título da Bahiyyih Khanum, a irmã mais velha de Abdu'l-Bahá.

Durante a Primeira Guerra Mundial, quando a Palestina esteve isolada do mundo e ameaçada pela fome, Bahiyyih Khanum e ‘Abdu’l-Bahá tornaram-se exemplos brilhantes de cuidado pelos pobres e necessitados, pelos destituídos, pelos desafortunados e pelos refugiados – o tipo de exemplo que começa no coração dos indivíduos, e inspira grupos e nações que hoje fornecem ajuda:

Nem as autoridades britânicas foram lentas em expressar a sua gratidão sobre o papel que ‘Abdu’l-Bahá desempenhou no aliviar do fardo dos sofrimentos que oprimiam os habitantes da Terra Santa durante os dias tenebrosos daquele conflito angustiante. (Shoghi Effendi, God Passes By, p. 306)

O governo britânico atribuiu o título de Cavaleiro a ‘Abdu’l-Bahá devido ao seu trabalho que evitou a fome entre o povo da Palestina durante a guerra.

Apenas o envolvimento pessoal, o amor e a unidade – unidade de pensamento, de vontade e de acção – pode dar início a soluções permanentes. Essa unidade, essa fraternidade global, esse amor, podem nascer das soluções espirituais e práticas proclamadas por Bahá’u’lláh.

------------------------------------------------------------
Texto original: What Can One Person Do about the World’s Refugees? (bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sábado, 13 de outubro de 2018

Como seria um Mundo Pacífico?

Por David Langness.


Mais do que qualquer outra coisa, os ensinamentos Bahá’ís focam-se no alcançar a paz universal através da unidade global – a unidade das raças, religiões e nações.

A visão de Bahá’u’lláh para o futuro da humanidade centra-se em torno da construção da unidade do planeta, estabelecendo laços de fraternidade entre todos os povos e nações, e descobrindo o nosso rumo, enquanto espécie, para uma paz global duradoura, justa e unificadora:
Tão poderosa é a luz da unidade que pode iluminar toda a terra. Esforçai-vos para que consigais alcançar esta condição transcendente e mui sublime, uma condição que pode assegurar a protecção e segurança de toda a humanidade. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, CXXXII)
Todos os dias milhões de Bahá’ís celebram, honram e trabalham diligentemente para este ideal irresistível. Shoghi Effendi - o Guardião da Fé Bahá’í e historiador e intelectual educado em Oxford - resumiu esse ideal quando, em 1936, delineou brevemente a visão Bahá’í da unificação da humanidade:
A unidade da raça humana, tal como antecipada por Bahá'u'lláh, implica o estabelecimento de uma comunidade mundial em que todas as nações, raças, credos e classes estão íntima e permanentemente unidas, e em que a autonomia dos seus Estados membros, e a liberdade e iniciativa pessoais dos indivíduos que as compõem, estão definitiva e completamente salvaguardadas.

Esta comunidade deve, tanto quanto a podemos visualizar, incluir um parlamento mundial, cujos membros, enquanto fideicomissários de toda a humanidade, irão, em última análise, controlar todos os recursos de todas as nações que a integram, e promulgar leis que sejam necessárias para regular a vida, satisfazer as necessidades e organizar as relações entre todas as raças e povos.

Um executivo mundial, apoiado por uma força internacional, executará as decisões e aplicará as leis promulgadas por este parlamento mundial, e protegerá a unidade orgânica de toda a comunidade mundial.

Um tribunal mundial julgará e emitirá o seu veredicto vinculativo e final em todas e quaisquer disputas que possam surgir entre os vários elementos que constituam este sistema universal.

Um mecanismo de intercomunicação mundial será concebido, envolvendo todo o planeta, livre de entraves ou restrições nacionais, e funcionando com maravilhosa rapidez e perfeita regularidade.

Uma metrópole mundial actuará como centro nervoso de uma civilização mundial, foco para onde convergirão as forças unificadoras da vida e da qual emanarão as suas influências estimulantes.

Uma língua mundial será inventada ou escolhida entre as línguas existentes e será ensinada nas escolas de todas as nações federadas como auxiliar à sua língua materna.

Uma escrita mundial, uma literatura mundial, um sistema universal e padrão de moeda, pesos e medidas simplificará e facilitará o relacionamento e a compreensão entre nações e raças da humanidade.

Nessa sociedade mundial, ciência e religião, as duas mais poderosas forças da vida humana, reconciliar-se-ão, cooperarão e desenvolver-se-ão harmoniosamente.

A imprensa, num tal sistema, dará um espaço pleno à expressão das diversificadas opiniões e convicções da humanidade e deixará de ser manipulada de forma maliciosa por interesses poderosos, sejam privados ou públicos, e libertar-se-á da influência de governos e povos rivais.

Os recursos económicos do mundo serão organizados, as suas fontes de matérias primas serão aproveitadas e totalmente utilizadas, os seus mercados serão coordenados e desenvolvidos, e a distribuição dos seus produtos será regulada equitativamente.

Rivalidades, ódios e intrigas entre nações cessarão e a animosidade e o preconceito racial serão substituídos pela amizade, compreensão e cooperação raciais.

As causas de luta religiosa serão permanentemente removidas, as barreiras e as restrições económicas serão completamente abolidas, e a desmesurada distinção entre classes será suprimida.

A indigência, por um lado, e a acumulação grosseira de bens, por outro, desaparecerão.

A enorme energia que se gasta e desperdiça na guerra, seja económica ou política, será consagrada a objectivos, como o alargamento do alcance das invenções humanas e o desenvolvimento técnico, o aumento da produtividade da humanidade, o extermínio da doença, o alargamento da investigação científica, a melhoria do nível de saúde física, o aperfeiçoamento e refinamento do cérebro humano, a exploração dos recursos insuspeitos e não utilizados do planeta, o prolongamento da vida humana e a promoção de qualquer outro meio que estimule a vida intelectual, moral e espiritual de toda a raça humana. (The World Order of Bahá’u’lláh, p. 203.)
Esta poderosa e emocionante visão Bahá’í sobre uma nova ordem mundial - caracterizada pela justiça, paz e unidade - inspira Bahá’ís e os seus apoiantes em todo o mundo a trabalhar para o dia em que as forças unificadoras da vida culminem num mundo pleno de esperança, alegria e harmonia.

Se essa visão agita a sua alma e intriga a sua mente, talvez lhe interesse saber mais sobre como o plano de paz Bahá’í pretende trazer esse mundo justo e pacífico à existência. Vamos analisar, no próximo texto desta série, como os ensinamentos Bahá’ís recomendam que façamos o desarmamento do nosso planeta.

-----------------------------
Texto original: What Would a Peaceful World Look Like? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 29 de setembro de 2018

Abandonar o Consumismo

Por Christine Muller.


Vivemos num mundo onde um número crescente de pessoas consome cada vez mais coisas – e este consumo excessivo prejudica a humanidade.

Este consumismo esgota os recursos da Terra; polui perigosamente o nosso ar, águas e solos; e é a principal causa do aquecimento global. Já não há dúvidas: o crescimento económico contínuo é irrealista num planeta finito.

As Nações Unidas abordaram este tremendo problema no documento Desenvolvimento Sustentável Objectivo 12: Consumo e Produção Responsáveis, em que afirma que devemos “reduzir urgentemente a nossa pegada ecológica, mudando a forma como produzimos e consumimos bens e recursos”.

Simultaneamente, há demasiadas pessoas que não conseguem satisfazer as suas necessidades básicas. Necessitam de ser apoiadas no desenvolvimento sustentável e devem ter direito à sua parte de recursos da Terra. Isto torna ainda mais importante a redução do consumo das pessoas mais ricas do mundo – o que inclui a maioria das pessoas que vivem em países desenvolvidos, assim como pessoas abastadas e da classe média no mundo desenvolvido.

O desafio que enfrentamos é enorme porque as actuais gerações cresceram numa cultura de consumismo. Nunca experimentaram outro modo de vida. As pessoas consideram os bens de consumo como garantidos e sentem que têm direito a possuí-los.

Apesar da possibilidade para usufruir de bens materiais numa escala e qualidade sem precedentes na história humana, muitas pessoas não são felizes; uma crise de saúde mental está a espalhar-se atingindo números cada vez maiores de pessoas atormentadas com depressões e vícios - com algumas propensas ao suicídio e a actos violentos. Os estudos mostram que quando se satisfazem as necessidades básicas, uma maior quantidade de bens materiais não aumentam a felicidade.

Assim, materialismo e consumismo não respondem às verdadeiras necessidades das pessoas, e na verdade, acabam por destruir os sistemas vitais da Terra, colocando em perigo a sobrevivência da civilização humana.

Todas as grandes religiões advertem contra a ganância. Por exemplo, o Tao Te Ching afirma “Não há calamidade maior do que satisfazer a ganância”. A Bíblia declara “Olhai, guardai-vos de toda a ganância, porque, mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens.” (Lc 12:15). O Islão adverte: “Ó filhos de Adão,… comei e bebei, mas não sejais extravagantes. Na verdade, Ele não gosta dos que cometem extravagâncias”. (Alcorão 7:31)

Isto não significa que devamos ir para o outro extremo, o ascetismo. Podemos usufruir das coisas boas que o mundo nos oferece, e simultaneamente reduzir o nosso consumo de forma significativa.

Tudo isto significa que precisamos de repensar o propósito das nossas vidas, considerando que os seres humanos são seres espirituais. Se não alimentarmos as nossas almas, ficaremos famintos, mesmo que usufruamos de uma enorme quantidade de coisas materiais. Os ensinamentos Bahá’ís dizem que:
… o mundo é apenas um espectáculo, com aspecto de realidade. Não ponham os vossos afectos nele… o mundo é como o vapor no deserto, que o sedento sonha ser água e se esforça com todo o seu poder por atingi-lo, até que a alcança e descobre que é mera ilusão. (Selecção das Escrituras de Bahá'u'lláh, CLIII)
Mas pedir apenas às pessoas que reduzam os seus consumos será provavelmente inútil. O seu vazio deve ser preenchido com uma ligação espiritual, com um sentido e sensação de pertença. Uma compreensão mais profunda sobre o propósito da vida será uma base para uma redução substancial do consumo. Seguidamente, as promessas vazias do materialismo já não serão necessárias. As pessoas estarão mais abertas para enfrentar a realidade da crise ambiental do nosso planeta – e viver uma vida mais simples e ambientalmente sustentável.

A adoração do bezerro de ouro do materialismo e o mito do crescimento económico ilimitado poderão, então, ser substituídos pela ligação entre a nossa essência espiritual e o Criador.

A Torá afirma: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma e com toda a tua força.” (Deuteronómio 6:5). E Jesus disse: “Amarás o teu próximo como a ti próprio.” (Mc 12:31). O amor a Deus e à Sua criação leva-nos a preocuparmo-nos mais com todas as pessoas que são exploradas no actual sistema económico, e a preocuparmo-nos com todas as outras criaturas da Terra que sofrem (ou estão à beira da extinção) porque perdem o seu habitat, são afectados pela poluição ou por alterações climáticas.

Esse amor cria um propósito na nossa vida e também um sentimento de pertença.

Os Bahá’ís acreditam que todas as pessoas são criadas como seres nobres e devem ter direitos iguais. Simultaneamente, cada ser humano partilha a responsabilidade pelo bem-estar da sociedade. Os ensinamentos Bahá’ís dizem que as pessoas encontram a felicidade na promoção dos “...melhores interesses dos povos… da terra” (Selecção das Escrituras de Bahá’u’lláh, CXVII)

Bahá’u’lláh disse: “Que a vossa visão seja de âmbito mundial em vez de se confinar ao vosso próprio ser.” (Idem, XLIII). Essa atitude altruísta vem do fundo de um individuo e é a chave para a felicidade individual – assim como um pré-requisito para mudanças de maior escala necessárias para criar uma civilização sustentável.

Imaginemos uma sociedade que se preocupa com o bem-estar de cada pessoa e onde os indivíduos desejam contribuir para o bem comum. Servir juntos para tornar o mundo um local melhor torna as pessoas verdadeiramente felizes. Dá às suas vidas um objectivo profundo e um sentimento de pertença a um círculo social significativo. Existem muitas áreas de acção social onde podemos fazer a diferença em vez de gastarmos o nosso tempo, mente e coração em compras sem sentido.

A questão complicada é como chegamos lá. Ao longo das últimas décadas, a Comunidade Bahá’í tem experimentado um modelo de transformação social que parece dar resultados. As comunidades capacitam-se com aulas de estudo que proporcionam alimento espiritual, valores éticos e também competências e experiência para serviço prático à comunidade. Este modelo tem sido usado com adultos, jovens e crianças em quase todos os países do mundo.

Estes esforços educativos podem ser alargados e replicados. Já mostraram que produzem resultados e são promissores, pois lançam as bases da transformação social. As pessoas não sentem necessidade de consumo excessivo porque têm uma vida preenchida e com sentido.

Os ensinamentos Bahá’ís dizem:
...a honra e a distinção do individuo consiste nisto: que ele, entre as multidões do mundo, se torne uma fonte de bem social. Será possível conceber uma dádiva maior que esta, quando o individuo olha para si próprio e vê que, através da graça confirmadora de Deus, ele se tornou uma fonte de paz e bem-estar, de felicidade de progresso para os seus semelhantes? Não, pelo Deus Uno e Verdadeiro, não existe alegria maior, nem deleite mais completo. (‘Abdu’l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, pp. 2-3)

------------------------------------------------------------
Texto original: We Can Overcome Consumerism (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Christine Muller estudou música e é uma apaixonada pelo meio-ambiente e pela Fé Bahá’í. Actualmente é professora no Wilmette Institute no curso sobre alterações climáticas.

sábado, 8 de setembro de 2018

Obrigado aos Jornalistas!

Por Jaine Toth.


A preocupação e a valorização das pessoas que nos protegem - militares, bombeiros e policias - é comum e por bons motivos. A nossa segurança é sua principal prioridade.

Eles protegem a nossa integridade física e os nossos bens; e porque o medo pode ter efeitos prejudiciais, as suas acções também servem como protecção para nossa saúde psicológica e emocional.

Poucos de nós têm o mesmo apreço pelos jornalistas - mas devíamos ter. Jornalistas de investigação e fotojornalistas colocam-se frequentemente em perigo para manter as nossas mentes livres e informadas - e também, para manter as nossas sociedades livres de mentiras e corrupção.

Um repórter que conheço, David Leeson, trabalhou como fotógrafo (para um jornal) e como fotojornalista de 1977 a 2008. Mesmo depois de ter sido ferido quando cobria os protestos no Panamá durante o período que antecedeu a queda de Manuel Noriega, Leeson continuou a cobrir acontecimentos em todo o mundo, e também aqui nos EUA. Recebeu prémios famosos, incluindo o Pulitzer em 2004 para Reportagem Fotográfica pela sua cobertura da guerra no Iraque, da qual a sua esposa e amigos ficaram aliviados quando ele regressou vivo e ileso.

No Arizona, onde eu vivo, basta dizer o nome Don Bolles e as pessoas fecham os olhos e abanam a cabeça, lembrando o seu assassinato. A maioria dos leitores pode não conhecer a história de Bolles; aqui fica um breve resumo do AZCentral.com:
Em 2 de Junho de 1976, uma bomba explodiu debaixo do carro do jornalista do Arizona Republic Don Bolles. Onze dias depois, ele morreu. Hoje, ainda há quem acredite que o assassinato de Bolles é um mistério. Os procuradores dizem que ele foi morto devido às suas histórias que atacavam o poderoso empresário Kemper Marley. Outros pensam que ele morreu devido ao que escreveu sobre o crime organizado. E há ainda quem acredite que o crime foi combinado pelos dois. A verdade está enterrada nas mentes, ou nos túmulos, dos que estiveram envolvidos.
Em numerosos países, os jornalistas geralmente não podem escrever ou filmar nada que não esteja de acordo com a posição oficial do governo; é o governo que decide aquilo que as pessoas podem (ou não) saber. Há criminosos que não querem que os seus crimes sejam divulgados; e também há políticos corruptos com a mesma atitude.

Os ensinamentos Bahá’ís elogiam o jornalismo e enaltecem o seu papel numa sociedade livre e desenvolvida:
Podemos determinar o progresso, ou retrocesso, de uma nação pelo seu jornalismo... Os jornalistas devem escrever artigos relevantes, artigos que fomentem o bem-estar público. Se o fizerem, serão os primeiros agentes do desenvolvimento da comunidade. (‘Abdu’l-Bahá, from the Pennsylvania Public Ledger.  Texto de Mina Yazdani’s no livro Abdu’l-Baha’s Journey West)
Em todo o mundo, os jornalistas que concordam com estas palavras de ‘Abdu'l-Bahá e que arriscam as suas vidas para descrever factos reais aos seus leitores, por vezes acabam na prisão ou são executados. Morrem em guerras. Arriscam tudo para nos trazer a verdade.

Mesmo aqui nos Estados Unidos, há muitas pessoas poderosas que tentam subverter o trabalho dos jornalistas. E há jornalistas que enfrentam perigos para descobrir segredos incómodos que o público deve - e precisa - conhecer.

David Gilkey
Em 2016, um ataque no Afeganistão tirou a vida do fotógrafo e editor de vídeo da NPR, David Gilkey, e do repórter afegão Zabihullah Tamanna. Encontravam-se com um pequeno grupo de jornalistas da NPR e viajavam com uma unidade do exército afegão quando a sua coluna foi atacada.

O general do exército dos EUA, John W. Nicholson, comandante da missão de apoio dos EUA-NATO no Afeganistão emitiu uma declaração sobre os jornalistas mortos. Dizia: "Temos o maior respeito pelo seu trabalho, bem como o de outros que suportam as dificuldades que surgem quando se faz cobertura noticiosa em zonas de conflito".

Gilkey, que fazia a cobertura noticiosa da situação no Afeganistão desde os ataques de 11 de Setembro nos Estados Unidos, e que começou a trabalhar para a NPR em 2007, recebeu a honra de ser eleito Fotógrafo do Ano de 2011 pela Associação de Fotógrafos da Casa Branca.

Funcionários da NPR também falaram sobre a importância do trabalho feito por estes jornalistas e pelos seus colegas. "Ele dedicou-se a ajudar o público a ver essas guerras e as pessoas apanhadas por elas", disse Michael Oreske, vice-presidente e director da NPR. “Ele morreu mantendo esse compromisso... Como homem e como fotojornalista, o David trouxe a humanidade de todos ao seu redor. Ele permitiu-nos ver o mundo e ver-nos uns aos outros através dos seus olhos. ”

Jarl Mohn, presidente e CEO da NPR, afirmou: “Eventos horríveis como este lembram-nos o papel importante que os jornalistas têm na vida cívica dos Estados Unidos. Eles ajudam-nos a entender além dos cabeçalhos e títulos, e a ver a humanidade nos outros”.

Pessoas como Gilkey, Tamanna e os seus colegas jornalistas merecem o nosso mais profundo respeito e apreço. Os seus esforços mostram que o custo da guerra afecta as pessoas, especialmente as inocentes. Eles partilham as suas histórias para que o mundo preste atenção e entenda.

As escrituras Bahá’ís dizem-nos:
Incumbe a cada alma gastar estes poucos dias de vida na veracidade e justiça... (Bahá’u’lláh, Bahá’í Scriptures, p. 85)
… Devemos falar a verdade; de outra forma não agiremos com sabedoria… Os maiores talentos do homem são a razão e a eloquência de expressão. ('Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 103)
Falar a verdade no jornalismo também pode ajudar a:
(…) extinguir, através do poder da sabedoria e da força da vossa palavra, o fogo da inimizade e do ódio que arde no coração dos povos do mundo. (Bahá’u’lláh, Epistle to the Son of the Wolf, p. 12)
Assim, gostaria de agradecer a todos os jornalistas de investigação e fotojornalistas: vocês merecem a nossa mais profunda gratidão. A vossa coragem e integridade ajudam-nos a manter a nossa independência e ajudam-nos a dar-nos os factos que usamos para formar as nossas próprias opiniões e tomar as nossas decisões.

-----------------------------
Texto original: Thanking Journalists: First Responders for the Truth (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - -

Jaine Toth é actriz, escritora e formadora. Vive no Arizona (EUA), perto do Desert Rose Baha'i Institute. É autora de uma coluna semana num jornal.

sábado, 25 de agosto de 2018

Os Bahá’ís e as Armas de Fogo

Por David Langness.


Cresci a caçar e a pescar no estado de Washington (EUA). Os meus pais tinham cinco filhos, e pouco dinheiro; por isso, durante minha infância, apanhávamos ou matávamos muita de nossa comida.

O meu pai, oficial de infantaria nos fuzileiros durante a Segunda Guerra Mundial, ensinou-me a disparar com armas de fogo. Era um atirador experiente e tinha treinado fuzileiros no campo de tiro; preocupava-se profundamente com a segurança das armas. Eu era o mais velho dos seus filhos e ele ensinou-me a conhecer e a compreender o poder das armas, a usá-las com cuidado extremo e a respeitar o perigo grave que representavam.

Quando eu vinha da escola, a minha mãe costumava pedir-me para ir buscar o jantar. Não ia à loja. Em vez disso, pegava na minha espingarda de calibre 16 e no Jinx (o meu cão de caça) e andava pelos campos da quinta à procura de um faisão, um pato ou um ganso que pudéssemos comer naquela noite.

Não passávamos fome. À mesa durante o jantar, tinha um jogo com os meus irmãos e irmãs - enquanto comíamos os pássaros que meu pai ou eu tínhamos caçado, tentávamos ver quem encontrava na sua comida o maior número de chumbos da munição da espingarda. Juntávamos os nossos pratos e contávamos os chumbos. Quem encontrava mais chumbos comia a sobremesa primeiro.

Quando fiz 12 anos, chegou o momento do ritual padrão de passagem na vida de um menino na América rural - caçar o meu primeiro veado. O meu pai, que trazia suficiente carne de veado para casa todos os anos para nos alimentar durante o inverno, levou-me a caçar. Depois de um dia frio na floresta, vimos um grande macho. Apontei a minha arma. Então, de repente, percebi, ao olhar para aquele animal lindo através da mira telescópica na espingarda do meu pai, que não conseguia puxar o gatilho. Sabia que o animal representava comida para a minha família - mas, por alguma razão desconhecida, tomei a decisão de não disparar. Senti-me muito mal, mas o meu pai – honra lhe seja feita - compreendeu. Agora, olhando para trás, acredito que aquele momento representou o surgimento de algo espiritual em mim.

Naquele dia, larguei as armas para sempre.

Seis anos mais tarde, quando tinha 18 anos, tomei duas decisões importantes. Tornei-me Bahá’í e registei-me no recrutamento militar como objector de consciência. Os ensinamentos Bahá'ís ensinaram-me claramente que eu deveria perder a minha própria vida em vez de tirar a vida de outra pessoa:
Que ninguém lute contra outro, e que nenhuma alma mate outra; isto, em verdade, é o que vos foi proibido… O quê? Mataríeis aquele a quem Deus vivificou, a quem Ele dotou de espírito através do seu sopro? Severa seria, então, a vossa transgressão perante o Seu trono! (Bahá’u’lláh, The Kitab-i-Aqdas,¶73)
Quando li estas palavras no Livro Mais Sagrado de Bahá’u’lláh, percebi imediatamente que não podia matar outro ser humano. Assim, com o apoio dos Bahá’ís e da minha nova Fé, solicitei e recebi o estatuto de objector de consciência; isto significava que podia ser chamado para o Exército, mas não usaria armas, nem seria treinado para matar.

Em Julho do ano seguinte, o Exército enviou-me para o Vietname e, durante um ano, vi o que as armas fazem aos seres humanos. Sim, elas matam pessoas, mas não apenas com balas. Elas também matam o espírito do assassino. A carnificina e a morte ao meu redor fizeram-me perceber a sabedoria do mandamento de Bahá’u’lláh.

Quarenta anos depois, infelizmente, as nossas sucessivas guerras ajudaram a transformar a América numa cultura de armas. Existem mais armas mortais do que pessoas no nosso país. As armas tornaram-se fáceis de obter e fáceis de usar, e nos EUA morrem mais pessoas devido a armas de fogo do que em qualquer outra nação industrializada.

Então, o que acreditam os Bahá’ís sobre armas? Primeiro, uma vez que Bahá’u’lláh disse que é melhor ser morto do que matar, os Bahá’ís não tiram a vida dos outros. Além disso, Bahá’u’lláh apelou ao desarmamento de todo tipo de armas, não apenas por nações, mas por indivíduos. Consequentemente, a lei Bahá’í apenas permite a posse e o porte de armas se for absolutamente necessário:
Bahá’u’lláh confirma uma determinação que torna ilegal o porte de armas, a menos que seja necessário fazê-lo. Em relação às circunstâncias em que o porte de armas pode ser “essencial” para um indivíduo, ‘Abdu’l-Bahá dá permissão a um crente para autoprotecção num ambiente perigoso. Há uma série de outras situações em que as armas são necessárias e podem ser legitimamente usadas; por exemplo, em países onde as pessoas caçam a sua comida e roupas, e em desportos como tiro desportivo, tiro com arco, e esgrima. (The Kitab-i-Aqdas, p. 240)
Descrevendo os Bahá’ís, Bahá’u’lláh disse:
Deus misericordioso! Estas pessoas não precisam de armas de destruição, na medida em que elas se prepararam para reconstruir o mundo. As suas hostes são as hostes das boas acções e as suas armas as armas da conduta íntegra. (Baha'u'llah and the New Era, p. 170)
-----------------------------
Texto original: Baha’is and Guns (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

domingo, 24 de setembro de 2017

A minha amiga que tentou suicidar-se

Por David Langness.


Tive uma amiga no ensino secundário, viva e magnética, com cabelo ruivo flamejante. Um dia ela parecia que estava um pouco triste e desanimada. Quando vinha da escola e regressava a casa, parei na casa dela e perguntei-lhe: "Tu estás bem?"

E enquanto ficámos frente a frente, à porta da casa, ela não resistiu e começou a soluçar. As lágrimas caíam como dois rios sobre a sua face. Aproximei-me e abracei-a; ela chorou ainda mais e todo o seu corpo se afundou um choro convulsivo.

Após cerca de dez minutos, ela mostrou-me um enorme frasco de comprimidos que tinha na mão. "Estava quase a tomar isto tudo", disse ela. E acrescentou que tinha feito uma promessa silenciosa a si própria: que, se durante todo aquele dia, ninguém lhe perguntasse como é que ela estava, ela suicidar-se-ia.

Aconteceu que o seu namorado tinha terminado a relação com ela no dia anterior, e, na mesma noite, o seu pai anunciou que ele e a sua mãe se iam divorciar. A minha amiga sentiu que a sua vida esta a desabar e que nunca mais voltaria a ser feliz. Por isso, decidiu acabar com a sua vida, a menos que alguém interferisse. Por sorte, e sem saber disso, eu interferi nos seus planos.

Sentámo-nos na sala de estar e conversámos. Eu ainda não era Bahá’í, mas disse-lhe que os ensinamentos Bahá’ís, tal como os ensinamentos de todas as grandes religiões, proíbem o suicídio. A vida é considerada como uma oferta do Criador:
Deus criou o homem sublime e nobre, tornou-o um factor dominante na criação. Especializou o homem com favores supremos, conferiu-lhe mente, percepção, memória, abstracção e os poderes dos sentidos. Estas dádivas de Deus para o homem tinham como objectivo fazer dele a manifestação das virtudes divinas, uma luz radiante no mundo da criação, uma fonte de vida e um agente construtivo nos campos infinitos da existência. Devemos, pois, destruir este grande edifício e as suas próprias fundações, derrubar este templo de Deus, o corpo social ou político? (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 352)
Todos os anos, em todo o mundo, há quase um milhão de pessoas que se suicida - e isso sem contar com os excessos de drogas ou álcool, muitas vezes rotulados como "morte acidental", mas que são realmente intencionais. Imagine o que essas almas abandonadas poderiam ter dado à humanidade e ao mundo se tivessem decidido viver. Imagine os danos permanentes que as suas mortes causam nos seus entes queridos. Imagine, também, o que poderia ter acontecido se elas tivessem decidido superar pacientemente os seus testes e provações, e reconhecer que os caprichos da vida significam que nossos problemas acabam por passar:
Não deveis ferir-vos ou suicidar-vos... Não é permitido... Se alguém, em algum momento, encontrar situações difíceis e intricadas, deve dizer a si próprio: "Isto em breve passará." (‘Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 7, p. 280)
A minha amiga, que tinha 15 anos naquela altura, não pôs termo à sua vida. Cresceu, teve um casamento feliz, foi mãe de três filhos maravilhosos, que hoje são adultos e têm os seus próprios filhos. Ela também se tornou uma artista de sucesso, cujas belas pinturas valorizaram milhões de vidas.

No entanto, os ensinamentos Bahá’ís não condenam, nem castigam, aqueles que põem termo às suas próprias vidas. Apesar das leis Bahá’ís proibirem o suicídio, os Bahá’ís entendem que algumas pessoas simplesmente não conseguem enfrentar outro momento neste plano difícil da nossa existência. Na verdade, os ensinamentos Bahá’ís consideram o suicídio como triste e deplorável - mas também reconhecem o ímpeto subjacente que todas as pessoas enfrentam e vêem-no com piedade e compaixão. Essa compreensão amável, exemplificada nesta carta de ‘Abdu’l-Bahá a uma mulher cujo marido acabara com a sua própria vida, assegura-nos que as condições de depressão grave, angústia e tristeza que levam ao suicídio serão aliviadas no próximo mundo:
Ó buscadora do Reino! A tua carta foi recebida. Escreveste sobre a grave calamidade que te aconteceu - a morte do teu respeitável marido. Esse homem honrado foi sujeito a tamanho stresse e tensão neste mundo que o seu maior desejo era libertar-se dele. Assim é esta morada mortal: um armazém de aflições e sofrimento. É a ignorância que o liga ao homem, pois nenhum conforto se pode assegurar a qualquer alma neste mundo, desde o monarca até o mais humilde dos plebeus. Se, numa ocasião esta vida oferece um cálice doce a um homem, seguir-se-ão cem amargos; essa é a condição deste mundo.

O homem sábio, portanto, não se liga a esta vida mortal e não depende dela; em alguns momentos, até, ele desejará ansiosamente a morte, para que, com isso, se possa libertar dessas dores e aflições. Assim, vê-se que alguns, sob extrema pressão da angústia, se suicidaram.
Quanto ao teu marido, tem a certeza: ele será imerso no oceano de perdão e da indulgência e tornar-se-á o receptor da graça e do favor. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, nº 170)
Hoje, 10 de Setembro, é o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. A Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio tem uma série de sugestões no seu site para ajudar quem pensa em suicidar-se. Também descreve os casos de muitas pessoas suicidas que não queriam morrer, mas preferiram que alguém interferisse e as parasse - que esperavam e procuravam activamente alguém que sentisse o seu desespero e lhes perguntasse se elas estavam bem.

Às vezes, as pessoas suicidas dizem que fizeram uma promessa a si próprias: que se alguém lhes perguntasse, contariam tudo e permitiriam que interferissem, tal como aconteceu com a minha amiga ruiva.

A próxima vez que um amigo, um membro da família ou algum estranho parecer estar em baixo ou deprimido, você vai perguntar-lhe?

Todos sabemos que a vida é preciosa e, por vezes, precária. Durante algum momento particular de grande sofrimento, depressão ou tristeza, quase toda a gente pensa que a morte pode ser mais fácil do que a vida. Então, perder um minuto para falar com alguém e perguntar-lhes se está bem - seja um estranho, um amigo ou um familiar próximo - pode mudar o rumo daquela vida, e da sua também.

-----------------------------
Texto original: My Friend Who Tried to Kill Herself (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O que eu aprendi com o furação Irma

Por Rebecca Sherry Eshraghi.


Vivo na Flórida, exactamente no trajecto de destruição do furacão Irma. Por sorte, a minha família e eu saímos a tempo.

O Irma causou uma tremenda devastação na Flórida e nas ilhas das Caraíbas, por isso sinto-me abençoada por ter conseguido sair antes que a tempestade chegasse, e porque a nossa casa sofreu estragos mínimos. Claro que fiquei extremamente preocupada com todos aqueles que não puderam partir.

Vocês aperceberam-se? Aparentemente está a ocorrer um aumento de desastres naturais em todo o mundo. Há quem defenda que sempre foi assim, e há outros que dizem que aumentaram em frequência e intensidade. Eu costumo concordar com estes últimos.

Por isso, pergunto-me a mim e aos outros: porquê? Quem têm uma visão científica geralmente acredita que é devido às alterações climáticas, e quem tem uma visão mais religiosa diz que é profecia e ira de Deus. E há ainda quem diga, simplesmente, que é assim que a natureza funciona. Como Bahá’í, eu sou religiosa - mas, como todos os Bahá’ís, também acredito fortemente na ciência e tento encontrar as ligações entre os dois em relação aos desastres naturais.

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que a natureza é governada por uma lei universal, e que a religião e a ciência concordam nas suas verdades essenciais:
... a natureza está sujeita a uma sólida organização, a leis invioláveis, a uma ordem impecável e a uma concepção perfeita, das quais nunca se afasta. Até certo ponto, é verdade que se a contemplasses com olhos da percepção e do discernimento, observarias que todas as coisas - desde o menor átomo invisível até aos maiores globos do mundo da existência, tais como o sol ou outras grandes estrelas e corpos luminosos - estão perfeitamente organizadas, no que diz respeito à sua ordem, à sua composição, à sua forma exterior ou ao seu movimento, e que todas estão sujeitas a uma lei universal da qual nunca se afastarão. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, p. 3)
Assim, a natureza tem uma ordem - mas não tem consciência, nem livre vontade - e reage à manipulação de forças externas. Nós, os seres humanos, somos parte da natureza; mas porque temos consciência, intelecto e espírito, acreditamos que estamos acima da natureza, principalmente porque conseguimos influenciar a natureza em grande parte para nosso favor.

Há vários anos que tenho estado a estudar microbiota com fascínio. A microbiota humana é o nosso ecossistema interno, especialmente no nosso intestino, o sistema digestivo. As evidências científicas mostram que os biliões de micróbios que residem nos nossos corpos podem influenciar a nossa saúde intestinal, afectando os nossos riscos de obesidade, diabetes, saúde do cólon, sistema imunitário, causando cancro e outras coisas. Manipular esse mundo microbiano invisível dentro de nós afecta muitas partes do nosso corpo e o corpo como um todo - até pode afectar a nossa função cerebral. O facto de pequenos micróbios invisíveis que residem dentro de nós poderem ser tão poderosos recorda-me o que ‘Abdu’l-Bahá explicou, de que existe uma ordem desde o micromundo dos átomos até ao macromundo dos planetas.

Se retirarmos um electrão do átomo ou adicionarmos um protão, criamos um novo átomo. Essa manipulação também se aplica ao macromundo.

Se temos uma poluição maciça numa parte do mundo, exploração excessiva de petróleo noutra parte do mundo, consumismo e materialismo extremo que causa lixo supérfluo, como equipamentos electrónicos usados, resíduos nucleares e outras coisas, então estamos a manipular e a devastar o nosso meio ambiente.

Quando visitei a Alemanha no verão passado, pude observar o esforço que a Alemanha faz para proteger o meio ambiente. Não sabia se devia ficar feliz ou triste, porque sabia que noutras partes do mundo não se faz 1% do esforço que a Alemanha faz na protecção do meio ambiente e senti que não era justo.

Agora, a questão: "O que é que a religião e a profecia têm a ver com isso?" Bem, enquanto há quem pense que os chamados " desastres naturais" são a ira de Deus, eu diria que são uma consequência de ignorar os mandamentos de Deus.

A Fé Bahá’í afirma que a ciência e a religião devem andar de mãos dadas. Apesar de termos feito um grande progresso científico no mundo e termos construído civilizações tecnologicamente avançadas, se a ciência for conduzida sem valores religiosos e morais, torna-se mais prejudicial do que útil. A ciência precisa ser conduzida sem o objectivo da ganância, com a mais alta integridade em relação aos resultados obtidos, para responder a todos e não apenas a alguns, com respeito pela natureza, e com a percepção de que somos parte da natureza e precisamos trabalhar com ela, e não contra ela.

Os Bahá’ís reconhecem que, em última análise, o mundo tem que se unir como um todo para resolver os graves problemas globais. Assim como os membros de um corpo não podem ser separados, o mundo não deve ser considerado segregado - porque o que acontece numa parte do mundo afectará as outras partes. Se não respondermos a este apelo para nos unirmos num esforço humano colectivo, Bahá’u’lláh adverte-nos:
Ó povos do mundo! Saibam, em verdade, que uma calamidade imprevista vos persegue, e esse castigo severo vos aguarda. Não pensem que os actos que cometeram foram apagados da Minha vista. (SEB, CIV)

-----------------------------
Texto original: What Hurricane Irma Taught Me (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Rebecca Sherry Eshraghi é uma Bahá'í que vive na Flórida. É casada e tem dois filhos. Cresceu na Alemanha num ambiente multicultural, onde obteve o seu diploma em Negócios Internacionais. Recentemente concluiu o doutoramento em Medicina Natural.

sábado, 16 de setembro de 2017

O fosso crescente entre a Teologia e a Moralidade

Por Behrooz Sabet.


Ao longo da história humana, discutimos sobre a religião. Os ensinamentos Bahá’ís dizem que esse tipo de discórdia deve parar.

Bahá’u’lláh - o profeta e fundador da Fé Bahá’í - proclama que os diferentes entendimentos sobre o estatuto de um profeta são permitidos, desde que não se tornem a causa de desavenças e discórdia entre as pessoas que os defendem.

Os Bahá’ís acreditam que as crenças teológicas não devem ser motivo de querelas e conflitos entre a população. Bahá’u’lláh identifica inequivocamente a natureza e propósito da religião nestas palavras:
Ó filhos dos homens! O propósito fundamental que anima a Fé de Deus e a Sua Religião é a salvaguarda dos interesses e a promoção da unidade da raça humana, o fomentar do espírito de amor e camaradagem entre os homens. Não padeçam tornando-a uma fonte de dissensão e discórdia, de ódio e inimizade. É este o Caminho recto, o alicerce fixo e imóvel. (SEB, CX)
Além disso, as escrituras Bahá'ís afirmam que a existência de discórdia social é um sinal claro de que a religião se desligou da sua base espiritual e que, metaforicamente, Deus ocultou o Seu rosto das pessoas que usam a religião para promover a hostilidade e a intolerância entre a humanidade. Consequentemente, a sociedade, que é a arena de actuação da religião, perde o seu sentido de transcendência e degenera numa grande escala de hipocrisia nas mãos dos seus eclesiásticos.

Poder-se-ia dizer que Bahá’u’lláh, com o Seu mandamento de não lutar por motivos religiosos, avança uma ideia crítica - a ideia de que os conflitos teológicos entre o clero não resultam necessariamente numa ética prática da boa vontade. Sabendo como no passado, as diferenças teológicas causaram conflitos e derramamento de sangue, Bahá’u’lláh recusa-Se a promover qualquer fundamentalismo teológico. Em vez disso, Ele apresenta uma cultura de paz baseada em princípios morais que nos orientam sobre como lidar com outras pessoas.

A religião é amparada espiritualmente pela sua ligação a Deus, a Realidade Última. No entanto, ela opera no mundo, entre as pessoas e nas suas relações sociais. Quando a vontade de Deus é revelada ao mundo, encontra expressões relativas e finitas na mente das pessoas. A revelação, portanto, torna-se uma experiência individual, assim como uma realidade social.

Por exemplo, na noite de 22 de Maio de 1844, quando o Báb Se revelou a Mulla Husayn - a primeira pessoa a receber e abraçar a causa Bábi - essa revelação atingiu Mulla Husayn como um raio que entorpeceu as suas faculdades e, em última análise, deu-lhe força e transfigurou-o. No entanto, na sua totalidade, essa experiência permaneceu individual. Naquela noite, Mulla Husayn não alcançou o total conhecimento de Deus, mas teve uma experiência espiritual pessoal - um encontro que o obrigou a interagir com a sociedade e a envolver-se num processo de mudança social revolucionária.

O encontro da humanidade com a palavra de Deus funciona da mesma maneira. Podemos estabelecer uma ligação com a realidade espiritual última, mas o verdadeiro desafio do progresso espiritual significa traduzir essa ligação na dinâmica da civilização e do progresso social. Bahá’u’lláh ensina-nos que a força de sustentação da evolução social é a moralidade, o centro em torno do qual se desenvolvem os círculos concêntricos da realidade social. Neste contexto, o conceito de espiritualidade está entrelaçado com a responsabilidade do individuo levar avante uma civilização em constante progresso.

Para os Bahá’ís, até o mais esotérico conceito de salvação pessoal se desenvolve no contexto dos contributos individuais para uma civilização mundial. O conceito de virtudes espirituais interiores - como a coragem, a honra, a veracidade e a lealdade - representa a fusão entre as acções individuais e a dinâmica da humanidade como um todo. Essas virtudes, de acordo com os ensinamentos Bahá’ís, encaminham-nos para uma civilização global, na medida em que promovem o princípio fundamental da unicidade da humanidade.

Assim, os ensinamentos Bahá’ís, como todas as outras religiões, enfatizam a moralidade, mas em dimensões muito maiores do que apenas as pessoais. Os ensinamentos Bahá’ís constituem um quadro conceptual que relaciona a moral e a religião com os processos orgânicos da expansão da civilização.

Por exemplo, desde o início da história da humanidade, as pessoas organizaram-se em unidades familiares, posteriormente conseguiu-se a solidariedade tribal, depois evoluiu-se para a constituição das cidades-estado, para a construção de nações independentes e soberanas, e agora, para o extraordinário empreendimento de construção um mundo unido e pacífico. Neste vasto processo histórico, podemos detectar várias expressões de ordem moral, que revelam a luta moral da humanidade para superar divisão e conflito, e conseguir a verdadeira universalidade.

Bahá’u’lláh traçou um paralelismo estrutural entre o ritmo evolutivo da ordem moral e a era da maturidade colectiva da raça humana - a emancipação da humanidade à medida que alcança o seu destino final de se tornar exteriormente e interiormente unida.

Este nível de unidade global exemplifica a moralidade autêntica. No entanto, historicamente, na ausência de moral autêntica, falsas justificações têm sido usadas para alcançar o poder ou para tornar a decadência apetecível - e essa falsa moralidade muitas vezes tornou-se uma crença cultural partilhada ou a filosofia política de várias sociedades.

Bahá’u’lláh apresentou o conceito de moralidade autêntica como um modelo para a unidade - e libertar a civilização emergente do alheamento e do afastamento. Este ensinamento Bahá’í elimina qualquer base teológica para a justificação moral do conflito.

Essa autenticidade moral dá à religião uma unidade de propósito ao invés de desavença doutrinária - a própria causa de desunião e divisão na religião. Ao longo da história, os clérigos alegaram ter o exclusivo da compreensão do conhecimento divino e, portanto, a legitimidade moral para governar. Bahá’u’lláh considerou essa reivindicação como potencialmente opressiva, provocando posteriormente a violência sectária. Ao longo do Seu ministério, Bahá’u’lláh anulou a prática xiita do taqlid, ou imitação de clérigos, e revogou a guerra santa. Aboliu a instituição do sacerdócio e encorajou a investigação independente da verdade. Em vez do taqlid, Bahá’u’lláh enfatizou o poder da auto-reflexão e do consenso racional.

 Actualmente, a humanidade está envolvida numa disputa entre a consciência da ética global e uma catástrofe geopolítica; mas a ética global não pode sobreviver apenas com boas intenções. As instituições legítimas - como as criadas para a segurança colectiva e a aplicação do direito internacional - são primordiais para contrariar os interesses particulares e a selvajaria brutal que se escondem sob o verniz da nossa civilização. Ao mesmo tempo, o ressurgimento de ortodoxias fanáticas que promovem a intolerância religiosa e a tirania ameaçam directamente a segurança internacional e a paz da raça humana. E porque este fanatismo religioso está actualmente em ascensão, alimentando o conflito global, o mundo está numa encruzilhada: o fim da fé religiosa ou um apelo a um novo modelo de fé e ética global?

------------------------------------------------------------
Texto original: The Widening Breach Between Theology and Morality (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Behrooz Sabet é professor universitário, doutorado pela State University de Nova Iorque, em Buffalo. Durante mais de 20 anos fez estudos e investigações sobre os cruzamentos entre religião, ciência e cultura no Médio Oriente. É um estudioso de religião, movimentos e pensamento político contemporâneo no Irão. Traduziu e escreveu muito sobre religião, ética, educação, filosofia e temas sociais.

sábado, 9 de setembro de 2017

Podemos caçar e comer animais?

Por Derrick Stone.


Ser bondoso para com os animais significa não os comer?

Caçar animais pela carne tem uma longa tradição na história humana. No entanto, em muitas culturas, a caça tornou-se uma história do passado, à medida que a agricultura moderna foi afastando as famílias do processamento da carne, e as pessoas ficaram menos habituadas a abater e desmanchar animais. Consequentemente, os caçadores desenvolveram uma dupla imagem: tanto parecem figuras históricas nostálgicas como atormentadores de animais.

Os ensinamentos Bahá’ís pedem-nos para sermos bondosos para com os animais:
Não sobrecarregueis um animal com mais do que ele pode suportar. Em verdade, proibimos esse tratamento através da mais firme interdição registada no Livro. Sede as personificações da justiça e da equidade entre toda a criação. (Bahá’u’lláh, The Most Holy Book, ¶187)
Isto cria um sério dilema: podemos ser bondosos com os animais e, ainda assim, comê-los? Em várias cartas, 'Abdu'l-Bahá indicou que, se considerarmos o nosso aspecto físico, temos partes do corpo de herbívoros (não temos garras, por exemplo), e que a carne um dia desaparecerá das nossas dietas:
Qual será a alimentação do futuro? Frutas e grãos. Virá o tempo em que a carne já não será consumida. A ciência médica está apenas na sua infância, mas mostrou que a nossa dieta natural é aquela que cresce a partir do solo. As pessoas desenvolver-se-ão gradualmente até a condição deste alimento natural. (‘Abdu’l-Bahá, Bahá’í Scriptures, p. 453)
Será que isso implica que os Bahá’ís devem abandonar a prática da caça? Devem todos os Bahá’ís tornar-se vegetarianos? Talvez não. Bahá’u’lláh também estabeleceu orientação para os Bahá’ís em relação à caça:
Ao caçar com a ajuda de animais ou aves de rapina, invocai o Nome de Deus quando os enviares em perseguição da sua presa; pois o que quer que capturem ser-vos-á lícito, mesmo que a encontreis morta. Ele, verdadeiramente, é o Omnisciente, o Informado de Tudo. No entanto, acautelai-vos para não caçar em excesso. Trilhai o caminho da justiça e da equidade em todas as coisas. (The Most Holy Book, ¶60.)
Em resposta a uma pergunta sobre "o consumo de animais inocentes", ‘Abdu’l-Bahá escreveu:
Não te surpreendas com isso. Reflecte sobre as realidades interiores do universo, as sabedorias ocultas envolvidas, os enigmas, as inter-relações e as leis que governam tudo. Pois cada parte do universo está ligada a todas as outras por laços que são muito poderosos e não admitem qualquer desequilíbrio ou enfraquecimento. No reino físico da criação, todas as coisas se alimentam e são alimento: a planta absorve o mineral, o animal morde e engole a planta, o homem alimenta-se do animal e o mineral devora o corpo do homem. Os corpos físicos passam uma barreira após outra, de uma vida para outra, e todas as coisas estão sujeitas a transformação e mudança, salvo unicamente a essência da própria existência - pois esta é constante e imutável e nela baseia-se a vida de todas as espécies e raças, de toda a realidade contingente em toda a criação. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #137)
Isso significa que os Bahá’ís devem caçar, ou que os Bahá’ís devem comer carne com prazer? (Este é um caso em que os ensinamentos Bahá’ís, à primeira vista, podem parecer contraditórios.) Numa palavra: não. Esses ensinamentos não são contraditórios na perspectiva dos princípios espirituais em causa. O princípio principal é: as pessoas devem ser saudáveis! Precisamos de uma dieta variada que nos forneça todos os componentes necessários ao corpo humano, incluindo vitaminas, minerais, proteínas, fibras e gorduras.

As pessoas em países materialmente prósperos podem ter acesso a uma grande variedade de alimentos que não contêm carne e que podem constituir uma dieta bem equilibrada; mas aqueles que vivem noutros países não podem. Os ensinamentos Bahá’ís, destinados a toda a raça humana, deixam bastante espaço para todos.

Então, sim, devemos praticar a bondade para com todas as coisas, incluindo animais. À medida que aprendemos mais sobre nutrição e agricultura eficiente, os humanos não precisarão de usar animais para alimentação nas quantidades que precisam hoje. Além disso, será mais barato produzir grandes quantidades de vegetais e grãos; um factor crítico a considerar se queremos evitar que a população mundial em rápido crescimento sofra fome.

Isto ilustra o poder crítico do pensamento espiritual ao considerar duas perspectivas de um problema que podem parecer contraditórias. Este entendimento fundamental dos ensinamentos Bahá'ís pode ajudar-nos a navegar no mundo dividido de hoje e evitar confrontos destrutivos que surgem em questões em que dois lados não encontram um espaço comum – incluindo a alimentação com carne. No entanto, com um entendimento espiritual elevado, uma perspectiva global que inclui todas as culturas e um foco na saúde humana, podemos resolver o conflito.

-----------------------------
Texto original: Should We Hunt and Eat Animals? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Derrick Stone é Bahá’í, marido, pai e dono de um cão. Trabalha na Universidade da Virgínia, onde é Director de Desenvolvimento de Software para o Sistema de Saúde, e professor do Departamento de Ciência da Computação.

sábado, 22 de julho de 2017

O propósito da Religião – Agora e Sempre

Por Behrooz Sabet.



Os ensinamentos Bahá'ís apresentam uma forma completamente nova para compreender a religião: a revelação progressiva.

As escrituras Bahá’ís identificam dois objectivos para a religião: construir uma relação espiritual perpétua entre Deus e a humanidade; e adaptar-se às exigências de cada era na história humana.

O primeiro objectivo - a relação perpétua entre Deus e a humanidade - impulsiona o processo de crescimento espiritual em que a humanidade, reconhecendo aquele que é objectivo de todo conhecimento, aprende a desenvolver as suas potencialidades internas. Este primeiro propósito da religião é universal e eterno no seu percurso e acumulativo no seu conteúdo.

O segundo objectivo da religião provoca mudanças e renova as condições sociais dentro do contexto de uma determinada cultura e no âmbito do conhecimento humano. Este objectivo da religião é relativo, temporário e sujeito a mudanças de acordo com as exigências do tempo e do lugar. As escrituras Bahá'ís explicam estes dois objectivos nestes breves textos:
As religiões divinas possuem dois tipos de mandamentos. Primeiro, há aqueles que constituem o essencial ou o espiritual. Essas são a fé em Deus, o adquirir de virtudes... Este é o aspecto fundamental da religião de Deus... Este é o fundamento essencial de todas as religiões divinas, a realidade em si, comum a todas... Em segundo lugar, existem leis e mandamentos que são temporárias e não-essenciais. Estas referem-se aos afazeres e relações humanas. São acidentais e sujeitos a mudanças de acordo com as exigências do tempo e do lugar. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 403)

O propósito de Deus ao enviar os Seus Profetas aos homens é duplo. O primeiro é libertar os filhos dos homens das trevas da ignorância e guiá-los à luz da verdadeira compreensão. O segundo é assegurar a paz e tranquilidade da humanidade, e fornecer todos os meios com os quais eles podem ser estabelecidos. (Gleanings from the Writings of Baha'u'llah, pp. 79-80)
Os dois propósitos da religião estão inter-relacionados e interligados. Cada nova revelação acrescenta mais conhecimento ao processo geral de crescimento espiritual da humanidade, que por sua vez cria um novo modelo para a organização da sociedade humana. Por exemplo, Bahá'u'lláh proclama que, neste dia, o princípio espiritual do amor encontrou um significado universal e um alcance mais amplo. Houve um tempo em que o amor à pátria era um elemento de espiritualidade; mas agora o amor à humanidade constitui a mais alta aspiração espiritual:
... não se deve vangloriar quem ama o seu país, mas quem ama o mundo. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, p. 95)
Consequentemente, como o significado do amor alarga o seu âmbito, a sua correspondente expressão social também precisa de um modelo universal. Nesse sentido, se o amor à pátria exigiu o modelo de Estados soberanos e a construção das nações, o amor ao mundo exige a unidade do planeta e o estabelecimento de uma ordem global.


Bahá'u'lláh ensinou que as grandes religiões mundiais, tal como as revelações do propósito de Deus para o desenvolvimento espiritual e o progresso social da humanidade, têm uma linha comum subjacente à sua natureza básica, valores e propósito; todas elas têm origem divina e juntas constituem uma religião permanente. As revelações sucessivas representam um processo progressivo semelhante aos passos sequenciais de aprendizagem. Na verdade, as escrituras Bahá'ís usam os termos "professor" e "educador" para referir os Profetas e os Manifestantes de Deus e enfatizam que não há diferenças de estatuto entre os Manifestantes de Deus. Diferenças nas afirmações dos vários mensageiros reflectem apenas diversos níveis da maturidade espiritual dos povos de diferentes época, e diferentes exigências do tempo em que a revelação ocorreu:
Atribuímos duas condições a cada um dos Luminares que Se elevam nas Alvoradas da santidade eterna. Uma dessas condições, a condição da unidade essencial, já a explicamos. "Nenhuma distinção fazemos entre qualquer um deles." A outra é a condição da distinção, e pertence ao mundo da criação e às suas limitações. Neste aspecto, cada Manifestante de Deus tem uma individualidade distinta, uma missão definitivamente prescrita, uma Revelação predestinada e limitações especialmente designadas. Cada um deles é conhecido por um nome diferente, é caracterizado por um atributo especial, cumpre uma Missão precisa e é-Lhe confiada uma Revelação particular. (Baha'u'llah, O Livro da Certeza, parag. 171)

É claro e evidente para ti que todos os Profetas são os Templos da Causa de Deus, Que surgem vestidos com diferentes trajes. Se observares com olhos que discernem, contemplá-los-ás habitando no mesmo tabernáculo, voando no mesmo céu, sentados no mesmo trono, proferindo o mesmo discurso e proclamando a mesma Fé. Assim é a unidade dessas Essências do ser, aqueles Luminares de esplendor infinito e imensurável. Portanto, se um desses Manifestantes da Santidade proclamar: "Eu sou o regresso de todos os Profetas", Ele, de facto, fala a verdade. (Idem, parag. 162)

------------------------------------------------------------
Texto original: The Purpose of Religion—Now and Forever (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Behrooz Sabet é professor universitário, doutorado pela State University de Nova Iorque, em Buffalo. Durante mais de 20 anos fez estudos e investigações sobre os cruzamentos entre religião, ciência e cultura no Médio Oriente. É um estudioso de religião, movimentos e pensamento político contemporâneo no Irão. Traduziu e escreveu muito sobre religião, ética, educação, filosofia e temas sociais.