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sábado, 15 de julho de 2017

Os Bahá’ís são pacifistas?

Por David Langness.


Pacifismo (nome masculino): 1. atitude de quem rejeita e condena qualquer forma de violência; 2. doutrina que defende o desarmamento das nações e que advoga a resolução dos conflitos internacionais por meios pacíficos
O texto anterior desta série terminou com uma importante citação do Livro Mais Sagrado de Bahá'u'lláh sobre o acto de matar:
... que nenhuma alma mate outra; isto, na verdade, é o que vos foi proibido num Livro que esteve oculto no Tabernáculo da glória. O quê! Mataríeis aquele que Deus ressuscitou, a quem Ele dotou de espírito através de um sopro Seu? Severa, pois, seria a vossa transgressão perante o Seu trono! Temei a Deus, e não levanteis a mão da injustiça e da opressão para destruir o que Ele próprio ressuscitou; pelo contrário, andai no caminho de Deus, o Verdadeiro. (The Most Holy Book, p. 45)
Considerando esta proibição clara como água no livro Bahá’í das leis, como é que os Bahá’ís vêem a autodefesa, a guerra e toda a questão da pena de morte? Mais especificamente, como é que o Livro Mais Sagrado de Bahá’u’lláh, que também permite a aplicação da pena capital para certos crimes, lida com a aparente contradição interna entre essas duas importantes leis sobre o acto de pôr termo a uma vida humana?

Seguramente, este assunto profundo daria facilmente para escrever muitos livros.

Para entender esses princípios, temos de os colocar no contexto de todo o corpo das leis Bahá’ís, que não exige um pacifismo estrito da parte da própria sociedade. Por um lado, os Bahá’ís acreditam que os indivíduos nunca devem prejudicar ou matar outros. De facto, Bahá'u'lláh diz que dar a própria vida é preferível a tirar a vida de outra pessoa:
... prestar auxílio a Deus, neste dia, não consiste nem consistirá, em confrontar ou disputar com qualquer alma; pelo contrário, o que é preferível aos olhos de Deus é que as cidades dos corações dos homens, que são governadas pelas hostes do ego e da paixão, sejam subjugadas pela espada da palavra, da sabedoria e do entendimento. Assim, quem procura ajudar a Deus deve, antes de tudo, conquistar, com a espada da explicação e do significado interior, a cidade do seu próprio coração e protege-la contra a lembrança de tudo salvo Deus, e só então partir para subjugar as cidades dos corações dos outros.

Esse é o verdadeiro significado de prestar auxílio a Deus. A sedição nunca foi agradável a Deus, nem os actos cometidos no passado por certos loucos foram aceitáveis aos Seus olhos. Sabei que ser morto no caminho da Sua complacência é melhor para vós do que matar. (The Summons of the Lord of Hosts, pp. 109-110)
Por outro lado, os Bahá’ís também acreditam que a sociedade, como um todo, tem o direito de usar a força para se defender e proteger:
Os Bahá’ís reconhecem o direito e o dever dos governos a usar a força para a manutenção da lei e da ordem e para proteger o seu povo. Assim, para um Bahá’í, o derramamento de sangue com essa finalidade não é necessariamente um erro essencial. A Fé Bahá’í estabelece uma distinção muito clara entre o dever de um indivíduo de perdoar e "ser morto em vez de matar" e o dever da sociedade de defender a justiça... Na actual condição do mundo, os Bahá’ís tentam manter-se fora dos conflitos mortíferos que assolam os seus semelhantes e evitam derramar sangue em lutas, mas isso não significa que sejamos pacifistas absolutos. (A Casa Universal de Justiça, 9 de Fevereiro de 1967)
Assim, numa perspectiva Bahá’í, as sociedades têm a opção, em circunstâncias terríveis, de usar a força defensiva:
É verdade que os Bahá’ís não são pacifistas, pois defendemos o uso da força ao serviço da justiça e da defesa da lei. Mas não acreditamos que a guerra seja muito necessária; a sua abolição é um dos propósitos essenciais e promessas mais brilhantes da Revelação de Bahá'u'lláh. O seu mandamento específico aos reis da terra é: “Se algum de vós pegar em armas contra outro, levantai-vos todos contra ele, pois isso não é nada senão justiça manifesta”. (Tablet to Queen Victoria, The Proclamation of Baha'u’lláh, 13) O amado Guardião explicou que a unidade da humanidade implica o estabelecimento de uma comunidade mundial, um sistema federal mundial, "... livre da maldição da guerra e das suas misérias... em que a Força se torna serva de Justiça..." cujo executivo mundial "apoiado por uma Força internacional... salvaguardará a unidade orgânica de toda a comunidade". Obviamente isso não é guerra, mas a manutenção da lei e da ordem à escala mundial. A guerra é a tragédia final da desunião entre as nações, onde não existe qualquer autoridade internacional suficientemente poderosa para as impedir de perseguir os seus próprios interesses limitados. Os Bahá'ís pedem, portanto, para servir os seus países de uma maneira não-combatente durante esses conflitos; eles servirão, sem dúvida, numa tal Força internacional como Bahá'u'lláh antevê, quando esta surgir. (De uma carta escrita em nome da Casa Universal de Justiça, 11 de Setembro de 1984)
Da mesma forma, as pessoas quando são atacadas têm o direito à autodefesa, desde que essa autodefesa não degenere em retaliação:
... um Bahá’í não deve se render, mas deve tentar, na medida do possível, defender-se e, mais tarde, apresentar uma queixa às autoridades governamentais. (A Casa Universal de Justiça, 26 de Maio de 1969)
Isto significa, tendo em conta o princípio do direito de uma sociedade a proteger-se, que pode, em casos extremos, executar um criminoso perigoso:
Um indivíduo não tem o direito de procurar vingança, mas o corpo político tem o direito de punir o criminoso. Essa punição tem o objectivo de dissuadir e impedir outros de cometerem crimes semelhantes. É para a protecção dos direitos do homem...

Mas o corpo político tem o direito de preservar e proteger. Não guarda rancor e nem nutre inimizade para com o assassino, mas escolhe prendê-lo ou puni-lo apenas para garantir a protecção dos outros. (‘Abdu'l-Baha, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 309-310)
(...)

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Texto original: Let No Soul Slay Another: are Baha’is Pacifists? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 1 de julho de 2017

Pena de Morte: Sim ou Não?

Por David Langness.


Uma execução não é simplesmente a morte. É tão diferente da privação da vida como um campo de concentração é da prisão. ... Para que houvesse equivalência, a pena de morte teria de castigar um criminoso tivesse advertido a sua vítima da data em que lhe infligiria uma morte horrível e que, a partir desse momento, o confinasse à sua mercê durante meses. Um tal monstro não se encontra na vida privada. (Albert Camus, Reflexions sur la Guillotine)
Há algumas semanas, um de nossos leitores no site BahaiTeachings escreveu: "Como os é que seguidores Bahá’ís justificam a pena de morte? É um enorme ponto de desencontro com a sua prática. Isto é apenas meu ponto de vista e eu estou à procura de uma resposta."

Por pura coincidência, quando ele enviou o seu comentário, eu já tinha começado a escrever esta série de ensaios sobre a pena de morte; e naquele mesmo dia, votei por correio nas eleições gerais aqui na Califórnia. Nessa eleição, cada eleitor do meu estado teve que fazer uma escolha assustadora sobre a pena capital, e decidir sobre duas propostas de lei sobre a pena de morte.

A Proposta 62 revoga a pena de morte na Califórnia. A Proposta 66 pretende manter e reforçar a pena de morte acelerando o processo de recurso nos casos de pena de morte, que são tipicamente demorados nos tribunais. Se a Proposta 62 passar, o Estado da Califórnia perderá o seu direito de aplicar a pena de morte. Se a Proposta 66 passar, o Estado executará mais pessoas. Eu tive que decidir, como todos os eleitores da Califórnia, se eu queria parar ou acelerar a pena de morte para as mais de 700 pessoas que estão no Corredor da Morte na Califórnia.

Considere estas opções contrastantes. Como seria o seu voto? Poucas eleições resultam realmente em decisões imediatas de vida ou morte. Mas nesta eleição, e em muitos referendos similares sobre pena capital em todo o mundo, o seu voto sobre a pena de morte pode realmente resultar na execução de alguém - ou salvar a vida dessa pessoa.

Qual a sua opinião sobre esta pesada questão moral sobre a pena de morte? Alguns acham que a pena capital é necessária para a justiça e a dissuasão; outros consideram que isso equivale a castigo desnecessariamente cruel e incomum - e que o Estado nunca deve assumir o papel de um assassino.

Estudos de opinião globais sobre o assunto mostram que a pena capital tende a polarizar as pessoas. A organização Gallup, que tem feito estudos em diferentes países sobre a questão, encontra apoio e oposição à pena de morte em níveis aproximadamente iguais na maioria das nações. Um grupo sem fins lucrativos, o The Death Penalty Information Center, recolhe e colige regularmente várias pesquisas de diferentes países e relata os seus resultados. Essas sondagens indicam que uma pequena maioria (52%) dos russos, por exemplo, apoia a pena capital; enquanto dois terços dos australianos preferem a prisão perpétua pelo crime de homicídio e não a pena de morte. Na Grã-Bretanha, o apoio à pena de morte caiu para menos de 50% pela primeira vez. Nos Estados Unidos, de acordo com o Pew Research Center, cerca de metade de todos os americanos (49%) apoiam a pena de morte, enquanto 42% se opõem a ela - o nível mais baixo de apoio em mais de quatro décadas.


A maioria dos países do mundo aboliu a pena de morte, na prática ou por lei. Cinquenta e oito países ainda utilizam a pena de morte; por outro lado, 134 países tornaram-na ilegal ou deixaram de a aplicar. Há seis países a mantêm apenas para circunstâncias especiais como crimes de guerra e genocídio.

As Nações Unidas apresentaram o Segundo Protocolo Facultativo à Convenção Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, que exige uma moratória sobre a pena de morte - e 81 países ratificaram-na. A União Europeia proíbe a pena de morte, tal como o faz o Conselho da Europa. Apenas dois governos democráticos do mundo desenvolvido - Estados Unidos e Japão - ainda a permitem; e 19 dos 50 estados americanos proíbem a pena de morte; em breve serão 20 estados se a Proposta 62 da Califórnia passar.

Numa perspectiva mundial, as sondagens mostram que o apoio e o uso da pena capital diminuíram durante as últimas cinco décadas. Essa tendência global de longo prazo, no entanto, afecta apenas 40% da população do planeta - uma vez que 60% ainda vivem em nações como a China, Japão, Coreia do Norte e Estados Unidos.

Então, como é que os ensinamentos Bahá’ís lidam com a punição dos crimes mais hediondos - estabelecem a pena de morte ou permitem a prisão perpétua? A resposta é ambas:
A lei de Bahá’u’lláh prescreve a pena de morte por assassinato e incêndio, com a alternativa de prisão perpétua. (The Most Holy Book, pág. 204)

... se alguém tirar deliberadamente a vida de outro, também a ele matareis. ... Se condenardes o incendiário e o assassino à prisão perpétua, isso será permitido de acordo com as disposições do Livro. (Bahá'u'lláh, The Most Holy Book, págs. 203-204)
Quando questionado sobre este versículo no Livro Mais Sagrado de Bahá’u’lláh, Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í:
"... afirmou que apesar da pena capital ser permitida, foi definida uma alternativa - prisão perpétua - com a qual os rigores de tal condenação podem ser seriamente atenuados." Ele afirma que "Bahá’u’lláh deu-nos uma escolha e, portanto, deu-nos liberdade para usar o nosso próprio critério dentro de certas limitações..." (Idem, págs. 204-205)
Claramente, então, um futuro sistema de jurisprudência Bahá’í oferece à sociedade uma opção entre a pena capital e a prisão perpétua para os crimes mais graves. Qual seria a sua escolha? Moralmente, qual é correcta?

Convido o leitor a explorar estas importantes questões nos próximos textos desta série. Examinaremos os ensinamentos e as leis Bahá’ís sobre pena de morte e sobre o assassinato; exploraremos como os Bahá’ís encaram esta questão moral crítica; e tentaremos prever a situação futura de uma sociedade onde a justiça prevalece. E também vos vou contar o sentido do meu voto.

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Texto original: Voting to Execute: Do You Believe in Capital Punishment? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 10 de junho de 2017

As pessoas transgénero podem ser Bahá’ís?

Por David Langness.


Por vezes recebemos perguntas intrigantes aqui no site www.bahaiteachings.org, incluindo esta de um leitor, na semana passada: As pessoas transgénero podem ser Bahá'ís?

Esta é a pergunta tal como a recebemos: "Olá. Eu sou transgénero e tenho estado a ver a religião Bahá'í há vários meses - quase um ano. Sei que há igualdade de género, mas como é que as pessoas Bahá’ís vêem pessoas transgénero como eu? Eu não quero fazer parte de um grupo religioso que me odeia por existir... (se é que isso faz sentido.)"

Enquanto pensava como iria responder a esta pergunta, lembrei-me do primo de um velho amigo meu. Nascido quando eu era adolescente, o bebé que eu vou referir como Bob (não é o seu verdadeiro nome) tinha o que então eufemisticamente se chamava "defeitos de nascença." Mais tarde soube que ele tinha nascido geneticamente ambíguo - com os órgãos genitais de ambos os sexos. Na época, os médicos deram-lhe a designação que agora se considera ofensiva: "hermafrodita".

Quando o Bob nasceu, os seus pais foram confrontados com uma escolha difícil, do tipo “moeda ao ar”: os médicos disseram-lhes que tinham de decidir, imediatamente, que género queriam que o seu filho fosse. Os pais viveram a angústia da escolha, e por fim decidiram; os médicos fizeram uma intervenção cirúrgica e, alguns meses após seu nascimento, deram-lhe as características físicas de um rapaz.

Mas à medida que ele crescia, apesar das grandes doses de hormonas masculinos receitados pelos seus médicos, ele não se sentia, nem agia, nem se identificava como um rapaz. Já quando era criança, pensava em si próprio como uma menina; e os seus pais culparam-se por ter feito a escolha errada. Os anos de adolescência de Bob, como se pode imaginar, foram verdadeiramente difíceis. Finalmente, quando era adulto, Bob tornou-se Bobbi, depois de ter estado quatro anos em aconselhamento e se ter submetido a uma difícil cirurgia que lhe devolveu o género a que ela sempre sentiu que pertencia.

A palavra mais moderna para a condição médica de nascimento de Bobbi é “intersexo”, que significa ter um corpo que não se encaixa nas definições típicas de sexo masculino ou feminino. As pessoas intersexuais têm frequentemente variações genéticas derivadas do cromossoma XY que geralmente define um homem, ou do cromossoma XX que geralmente define uma mulher. Existem muitas variações, e os investigadores estimam que 1,7% de todos os nascimentos humanos têm variantes intersexuais, muitas delas não são imediatamente óbvias após o nascimento.

A ciência está a começar a compreender as pessoas intersexuais, e a lei dos direitos humanos ainda está a lutar para acompanhar a ciência. O Alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, por seu lado, define intersexo desta forma:
As pessoas intersexo nascem com características sexuais (incluindo genitais, gónadas e padrões de cromossomas) que não se encaixam noções binárias típicas de corpos masculinos ou femininos.

Intersexo é um termo abrangente usado para descrever uma ampla gama de variações corporais naturais. Em alguns casos, as características intersexo são visíveis no nascimento, enquanto noutros, eles não são aparentes até a puberdade. Algumas variações cromossómicas intersexo podem não ser fisicamente aparentes. (United Nations Office of the High Commissioner for Human Rights, October 24, 2016)
Aprendi alguma coisa com o difícil caminho da Bobbi ao longo desta existência física. As pessoas transexuais - especialmente aquelas que se submetem à reorganização cirúrgica do sexo, quando são adultos - sentiam como se estivessem aprisionadas no género errado durante toda a sua vida. Nos maus velhos tempos, antes da ciência ter começado a reconhecer e desenvolver adequadamente a capacidade de intervir medicamente para ajudar as pessoas intersexuais, o ódio, os abusos e os suicídios eram comuns. Hoje, felizmente, algumas das atitudes em relação às pessoas transgénero estão a mudar.

Mas voltemos à pergunta original: Como é que os Bahá’ís vêem pessoas transgénero? Em primeiro lugar, os Bahá’ís vêem todas as pessoas com uma perspectiva de universal de amor e aceitação:
Considerando que Deus é amoroso, porque devemos ser injustos e indelicados? Se Deus manifesta lealdade e misericórdia, porque devemos mostrar inimizade e ódio? Certamente a política divina é mais perfeita do que o plano e a teoria humana; pois não importa quão sábio e arguto o homem se possa tornar, ele nunca poderá alcançar uma política que seja superior à política de Deus. Assim, devemos imitar a atitude de Deus, amar todas as pessoas, ser justos e bondosos com toda a criatura humana. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 174)
No que toca à questão específica do nosso leitor, contudo, a Casa Universal de Justiça - o corpo administrativo Bahá’í eleito de forma global e democrática - determinou há muito tempo que a mudança de género transgénero/transexual deve ser uma decisão totalmente privada a cargo do indivíduo e dos médicos especialistas:
A Casa da Justiça não encontrou qualquer texto nas escrituras Bahá'ís que aborde explicitamente os temas da transexualidade ou das operações cirúrgicas realizadas para mudança de sexo ou para escolher um único sexo. Foi decidido que as mudanças de sexo ou as tentativas de mudança de sexo devem, neste momento, ser consideradas questões médicas sobre as quais se deve procurar aconselhamento e orientação de especialistas nessa área. (Agosto de 1983)
Porque os Bahá’ís acreditam firmemente no princípio básico da conformidade entre ciência e religião; e porque esta delicada orientação da Casa Universal de Justiça aconselha os Bahá’ís a tratar as questões dos transgéneros como questões puramente médicas; e também porque a Bobbi finalmente se tornou uma Bahá’í que a sua comunidade aceitou e amou; eu penso que é seguro dizer que na comunidade Bahá'í, estimado leitor, ninguém o vai "odiar por existir". Os Bahá’ís não são perfeitos - todas as pessoas são propensas a preconceitos e a ideias pré-concebidas - mas 'Abdu'l-Bahá estabeleceu o verdadeiro padrão Bahá’í quando afirmou:
Assim como Deus ama a todos e é amável com todos, assim devemos realmente amar e ser bondosos com todos. Não devemos considerar ninguém como mau, ninguém digno de repulsa, ninguém como inimigo. Devemos amar a todos; ou melhor, devemos considerar todos como aparentados connosco... (The Promulgation of Universal Peace, p. 267)
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Texto original: Can Transgender People Be Baha’is? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 27 de maio de 2017

As Ilusões da Fama e a busca da Verdadeira Grandeza

Por Greg Hodges.


Alguma vez sonhou ser famoso(a)? Quase todas as pessoas têm esse sonho num momento ou outro - é um desejo surpreendentemente generalizado.

Sim, é uma fantasia comum: toda a gente conheceria o seu nome, a sua cara e aquilo que o torna tão famoso. Quando nos sentimos desrespeitados, desprezados e ignorados, é difícil resistir à emanação de prazer que vem de fantasiar sobre a fama.

Normalmente, esse desejo de excelência foca-se em algo específico. Queremos ser grandes artistas, engenheiros, industriais, líderes ou qualquer outra coisa que nos interesse. A maioria de nós não procura ser "famoso por ser famoso", a forma seguida por algumas quase-celebridades. A questão é que se fossemos óptimos em alguma, seria melhor que também fôssemos reconhecidos por isso.

É bom mantermos esse desejo de excelência. Mas é importante que consigamos separá-lo, tanto quanto possível, do desejo de fama. O caminho para a excelência encoraja-nos a desenvolver as nossas capacidades e a colocá-las em prática. O caminho para a fama pode cair rapidamente num remoinho de ego, vaidade e ilusão. Segundo as escrituras de muitas religiões, um destes caminhos agrada a Deus; mas o outro cega a nossa percepção espiritual.

Segundo o Evangelho de Mateus, Jesus disse:
Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles: aliás não tereis galardão junto do vosso Pai que está nos céus. Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada ocultamente: e teu Pai, que vê em segredo, te recompensará publicamente. (Mateus 6: 1-4)
Este é o segredo da fama: o mais importante não é o que outras pessoas pensam de nós. É o que Deus - que é o autor da própria bondade - pensa em nós. Quando as nossas acções são orientadas em função da aprovação de Deus, em vez da aprovação humana, tentamos harmonizar-nos com o trabalho da providência divina. Não é importante se somos lembrados, ou não, por fazer isso.

Bahá’u’lláh, o fundador da Fé Bahá’í, escreveu:
Ser-vos-ia proveitoso se, como ingenuamente imaginais, os vossos nomes perdurassem? … Se os vossos nomes desaparecerem de toda mente mortal, e ainda assim Deus estivesse agradado convosco, serieis, de facto, contados entre os tesouros do Seu nome, o Mais Oculto. (Summons of the Lord of Hosts, p. 46)
Estas duas citações apresentam imensa sabedoria, porque não são apenas sobre desprendimento deste mundo, mas também como nos envolvermos eficientemente com ele. Ao separar a excelência espiritual da fama, as citações ilustram a sabedoria espiritual que também inclui sabedoria prática.

O progresso do mundo é impulsionado por uma vasta rede de contributos de multidões de pessoas que nunca poderiam ser comemoradas individualmente. Nenhum génio recordado pela história faz uma descoberta inovadora sem os muitos avanços modestos daqueles que vieram antes dele. Nenhum conquistador histórico pode capturar uma simples aldeia sem soldados, cujos nomes são mal conhecidos até mesmo pelos seus comandantes. Nenhum empresário "constrói uma empresa" sem a ajuda de funcionários e outros parceiros. Mesmo quando somos muito competitivos, a cooperação é um modo de fazer coisas, à qual é tão difícil fugir; é como se estivesse virtualmente registada na nossa essência como seres humanos.

Elevar uma pessoa à custa de todos as outras pode ser uma táctica de liderança útil em alguns casos. A fama e a celebridade podem vender programas de televisão, filmes e revistas. Mas também comportam o risco de distorcer a percepção de como realmente evolui qualquer esforço colectivo. A realidade é esta: as nossas contribuições para o progresso e o bem-estar da humanidade podem durar mais do que a memória de qualquer pessoa. Prestar atenção excessiva a quem é proeminente e famoso distorce essa realidade.

O mundo está cheio de heróis desconhecidos. A maneira como comemoramos as realizações do passado e nos encorajamos uns aos outros para o futuro deve levar isso em conta. Só porque alguém é esquecido isso não significa que o que eles fizeram não é valioso. A realização em si é desejável - mas a fama efémera que cerca a realização não dura para sempre.

Assim, na próxima vez em que pensarmos ingenuamente na fama, talvez devêssemos pensar em honrar as massas anónimas em cujos ombros nos encontramos agora, e a cujas incontáveis fileiras poderemos um dia ter a sorte de nos juntar.

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Texto original: The Illusions of Fame and the Pursuit of True Greatness (www.bahaiteachings.org)

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Greg Hodges é um apaixonado pela combinação da mudança social com a renovação espiritual. Vive com a sua esposa no Maine (EUA).

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Estaremos a viver num Mundo “Pós Verdade”?

Por David Langness.


A verdade é uma; os caminhos são muitos. (Mahatma Gandhi)
Eis uma pergunta difícil: existem múltiplas verdades, ou apenas uma verdade? Não é a verdade, por definição - e em última análise - uma coisa única?

Estas questões importantes têm uma relevância enorme nos tempos modernos, porque chegámos a um ponto em que algumas pessoas afirmam que diferentes grupos podem ter "verdades diferentes" - o que é verdade para você pode não ser verdade para mim; os factos são substituíveis e a verdade é apenas uma questão de perspectiva.

Os defensores mais radicais desta teoria dizem agora que entrámos num mundo “pós-verdade” ou “pós-factual” - uma cultura política onde a "veracidade" (para usar o eufemismo cómico de Stephen Colbert) é enquadrada pelo apelo às emoções em vez do intelecto; e a verdade real e factual está completamente perdida ou irremediavelmente obscurecida.

Em 2016, os Oxford Dictionaries escolheram "pós-verdade" (post-truth) como a sua Palavra do Ano, em grande parte devido ao seu impacto nas muitas eleições e debates políticos em diversas nações e culturas.

Para descobrir as respostas a estas perguntas espinhosas sobre a verdade, vamos fazer uma breve caminhada pela floresta desconcertante daquilo que constitui a verdade no mundo, e ver se podemos encontrar qualquer sentido de tudo.

A maioria dos filósofos diz que os seres humanos reconhecem três tipos diferentes de realidade: 1. verdade subjectiva; 2. a verdade dedutiva ou lógica; 3. verdade indutiva ou científica.

A verdade subjectiva significa experiência pessoal: por exemplo, eu odeio beringela. Para mim, isso é a verdade, e por isso evito comer beringela sempre que puder. Mas tenho uma boa amiga que adora beringela, e usa-a em muitas das suas refeições. Por causa da nossa amizade, concordamos em discordar sobre assuntos relacionados com beringela. A verdade subjectiva, portanto, é simplesmente uma opinião pessoal, influenciada pela experiência de vida, pelo gosto e pelo condicionamento cultural e tão amplamente variável quanto as pessoas no mundo. Assim, a verdade subjectiva é válida - mas apenas de maneira pessoal.

A verdade dedutiva - que alcançamos através da lógica - provavelmente pode ser melhor explicada pelo exemplo de um silogismo: todos os peixes nadam; uma truta é um peixe; portanto, uma truta nada. Esse é um argumento rígido e lógico - se as premissas são verdadeiras, então a conclusão também deve ser verdadeira. Obrigado Aristóteles, Wittgenstein e Alfred North Whitehead. Então, quando queremos ter uma discussão produtiva sobre a verdade, normalmente usamos a estrutura razoável e racional de um caminho lógico para a alcançar. Assim, a verdade dedutiva é universalmente válida.

A verdade indutiva, ou científica, a terceira categoria de verdade, é um pouco mais complicada. A partir de observações científicas, feitas com cuidado e feitas repetidamente, extraímos conclusões indutivas sobre realidades maiores: por exemplo, sabemos que é verdade que a Terra está a ficar mais quente, porque medimos as temperaturas em muitos lugares, muitas vezes, durante um período de tempo muito longo. Temos os dados científicos para provar a verdade dessa afirmação.

Mas porque a ciência exige a constante revisão e re-imaginação das suas conclusões (basta perguntar a Newton ou Einstein), com a investigação científica, só podemos chegar a uma versão actual do que é "verdadeiro". Por exemplo, se eu for astrofísico, posso observar repetidamente que os buracos negros não têm massa; mas algum cientista mais inteligente e com melhor informação pode, no futuro, vir a provar que conseguiu medir a massa de um buraco negro. Lá se vai minha teoria. A ciência, portanto, pela sua própria natureza, nunca descobre uma verdade completamente estabelecida, porque a verdade indutiva, ou científica, irá inevitavelmente aprofundar-se, evoluir, expandir e mudará conforme nossa capacidade de a medir e de a entender. Por natureza, a verdade indutiva, ou científica, evolui sempre. Assim, a verdade científica ou indutiva é válida até ao momento em que muda.

Com essas três categorias de verdade em mente - subjectiva, dedutiva e indutiva - temos um problema: se ignorarmos, confundirmos ou baralharmos estes três tipos de verdade, obteremos o caos. Isso acontece quando a verdade pessoal, subjectiva começa a ultrapassar os seus limites e entra nos reinos dedutivos ou indutivos, e as pessoas começam a realmente acreditar que não existem factos, ou que as suas opiniões fortes significam que eles podem ter o seu próprio conjunto de factos.

As escrituras da Fé Bahá’í ajudam-nos a pôr ordem neste caos e confusão. Isso acontece porque uma verdade válida - dizem os ensinamentos Bahá’ís - é essencialmente uma realidade indivisível:
Primeiro, incumbe a toda a humanidade investigar a verdade. Se tal investigação for feita, todos devem concordar e estar unidos, pois a verdade - ou a realidade - não é múltipla; não é divisível. As diferentes religiões têm uma verdade subjacente; portanto, sua realidade é uma. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 105-106)
Não é múltipla e não é divisível, diz 'Abdu’l-Bahá sobre a verdade. Se isso é verdade, significa que toda a verdade e toda a realidade se combinam para fazer uma única verdade derradeira.

Assim, de acordo com os ensinamentos Bahá’ís, a verdade é uma, mas todos nós a experimentamos de forma diferente. O mundo tem um oceano, mas nós damos-lhe nomes diferentes consoante a nossa geografia. Todos nós vivemos num globo, num sistema solar, num universo, mas ninguém tem exactamente a mesma vida que qualquer outra pessoa. A realidade é uma, mas cada um de nós processa-a e compreende-a através da sua cultura, mentes e alma individualmente distinta das outras. As manifestações da verdade são uma, mas as Escrituras, os Profetas e os sábios variam de uma era para a outra. A religião é uma, embora nos venha de diferentes mensageiros que aparecem em diferentes épocas para diferentes povos.

Assim, a nossa tarefa como seres humanos individuais, inclui descobrir uma verdade mais elevada, e despertar para a consciência da sua unicidade. No próximo ensaio desta série, examinaremos como isso pode acontecer - se mantivermos uma mente aberta sobre o pluralismo da religião; e se dizemos a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade.

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Texto original: Are We Living in a “Post-Truth” World? (www.bahaiteachings.org)

Artigo seguinte: Pode alguma Religião ter o Exclusivo da Verdade?
Artigo anterior: Quantos são os caminhos para Deus?

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Quantos são os caminhos para Deus?

Por David Langness.


Quantos são os caminhos para Deus? Há tantos caminhos para Deus quantas as almas na Terra. (Rumi)
Provavelmente, a maioria das pessoas concordará que cada um de nós molda o seu próprio caminho para Deus, tal como Rumi sugeriu. Além disso, a maioria também concordará que os muitos e diversificados caminhos religiosos têm, pelo menos, alguma validade.

Mas nem toda a gente pensa assim. Algumas pessoas discordam profundamente, afirmando que a sua religião - ou o seu caminho particular - é o único caminho para alcançar a salvação, ou a espiritualidade, ou qualquer verdadeira iluminação; e acrescentam que todos os outros caminhos para Deus são falsos.

E o leitor? Em qual dessas perspectivas acredita?

Se você favorecer a perspectiva de Rumi, então é o que se chama pluralista religioso. Pode nunca ter ouvido nunca a expressão ou pensado em si nesta forma; mas veja estas definições de pluralismo para ver se elas reflectem aquilo que pensa e acredita:
Pluralismo: Vários grupos étnicos, religiosos, etc. coexistindo numa nação ou sociedade.

Pluralismo religioso: Uma perspectiva da fé geralmente caracterizada pela humildade em relação ao nível de verdade e eficácia da própria religião, e aos objectivos de diálogo respeitoso e compreensão mútua com outras tradições.
Ultimamente, os filósofos e os teólogos tendem a agrupar cada vez mais as pessoas de fé em três categorias distintas de crença: pluralistas, exclusivistas e inclusivistas.

O autor britânico e teólogo anglicano Alan Race, apresentou este conceito de três categorias em 1983. Sendo um conhecido defensor do entendimento e das actividades inter-religiosas, escreveu:
Os estudos religiosos estão a corrigir as nossas visões estereotipadas sobre as outras religiões; o princípio ético de respeito nas relações com os nossos vizinhos exige que aprendamos com as outras religiões; o diálogo abre a porta para uma "comunhão crítica" com outras religiões...
Então, antes de explorarmos esta nova ideia, vamos definir o que significam as duas outras abordagens de fé:

Exclusivista: pessoa religiosa que acredita que apenas um conjunto de crenças, ou práticas, pode ser, em última instância, verdadeira ou correcta, e todas as outras estão erradas.

Inclusivista: pessoa religiosa que acredita que um conjunto de crenças é absolutamente verdadeiro, mas que outros são, pelo menos, parcialmente verdadeiras.

Resumindo:

  • Se você acredita que a sua religião é a verdade absoluta e que todas as outras são falsas, você é um exclusivista.
  • Se você acredita que sua religião é a mais verdadeira, mas que as outras também possuem alguma verdade, você é um inclusivista.
  • Se você acredita que sua religião é verdadeira, mas não a fonte exclusiva da verdade, e que as múltiplas crenças religiosas podem e devem coexistir no mundo, você é um pluralista.

Como é que o leitor se classifica?

Os Bahá’ís são pluralistas - na verdade, os Bahá’ís vão além do pluralismo religioso. Os ensinamentos Bahá’ís transcendem a tolerância e o pluralismo e defendem a unidade religiosa:
O princípio fundamental enunciado por Bahá'u'lláh - acreditam firmemente os seguidores de Sua Fé - é que a verdade religiosa não é absoluta, mas relativa; que a Revelação Divina é um processo contínuo e progressivo; que todas as grandes religiões do mundo têm origem divina; que os seus princípios básicos estão em completa harmonia; que os seus objectivos e propósitos são um e o mesmo; que os seus ensinamentos são apenas facetas de uma verdade; que as suas funções são complementares; que diferem apenas nos aspectos não essenciais das suas doutrinas; e que as suas missões representam etapas sucessivas na evolução espiritual da sociedade humana. (Shoghi Effendi, The Baha’i Faith – The World Religion, A Summary of Its Aims, Teachings and History, presented to the United Nations, 1947)
Os Bahá’ís não pensam apenas na religião de forma pluralista - eles pensam na religião como uma entidade única, como um fluxo contínuo de revelação, como "facetas de uma verdade:"
As religiões divinas devem ser motivo de unidade entre os homens e instrumentos de unidade e de amor; devem promulgar a paz universal, libertar o homem de todo o preconceito, dar alegria e regozijo, exercitar bondade para com todos os homens e acabar com todas as diferenças e distinções. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #13)
Mas como podem as várias religiões - tantas vezes em desacordo umas com as outras - tornar-se sempre "motivo da unidade entre os homens" e "acabar com todas as diferenças e distinções?"

Nesta série de ensaios sobre o pluralismo religioso, vamos ver como os ensinamentos Bahá’ís se propõem resolver este antigo dilema humano.

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Texto original: How Many Paths to God? (www.bahaiteachings.org)

Artigo seguinte: Estaremos a viver num Mundo “Pós Verdade”?

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Descobrir a Esperança num Mundo em desordem



Todos nós somos afectados pelo sofrimento das pessoas em qualquer lugar; então, como podemos manter a esperança viva?

O sofrimento ultrapassa todas as fronteiras: vemos isso na Síria e noutras regiões devastadas pela guerra; nos numerosos refugiados que abandonaram as suas terras natais por causa da guerra, da perseguição, da degradação ambiental e da pobreza; nos quase mil milhões de pessoas que passam fome todos os dias; nos trabalhadores fabris e agrícolas explorados em muitos lugares do mundo; nas crianças pobres que não têm alimentação, cuidados de saúde e educação adequados; entre as muitas pessoas que sofrem com a violência armada e com um sistema criminal e prisional injusto; entre os povos indígenas que lutam pela sobrevivência cultural e pela protecção das suas águas e terras; entre as muitas pessoas cujas mentes são oprimidas por informação enganosa e pela manipulação; entre todas as pessoas que são discriminadas devido à sua raça, religião ou opiniões políticas; entre muitas pessoas que sofrem de perseguição devido ao fanatismo religioso, como os Bahá’ís no Irão; e entre as muitas mulheres que ainda são oprimidas em muitos locais do mundo.

Também estamos profundamente conscientes da contínua extinção de espécies vegetais e animais devido à destruição de habitats, exploração, poluição e alterações climáticas. Preocupamo-nos com as gerações futuras devido aos atrasos nas acções para manter o aquecimento global dentro de certos limites. Preservar um planeta habitável para as gerações futuras parece tornar-se um objectivo cada vez mais ilusório.

No entanto, não devemos perder a esperança.

Os Bahá’ís acreditam que Deus nos enviou uma nova revelação, na pessoa de Bahá’u’lláh, que fala destes problemas actuais - e que todos podem ser enfrentados de forma eficiente, implementando os ensinamentos Bahá'ís, a nível individual e colectivo. Mas Bahá’u’lláh alertou-nos que a humanidade passará por um período de grave sofrimento antes de estar pronta para ouvir a nova mensagem de Deus. As escrituras Bahá’ís explicam:

O propósito de Deus não é outro senão dar início - de maneiras que só Ele consegue, e cujo pleno significado só Ele pode sondar - à Grandiosa Idade de Ouro de uma humanidade há muito dividida e atormentada. O seu estado actual, e até mesmo o seu futuro imediato, é sombrio, angustiantemente sombrio. O seu futuro distante, porém, é radiante, gloriosamente radiante - tão radiante que nenhum olhar o pode visualizar.

"Os ventos do desespero", escreve Bahá'u'lláh, ao avaliar os destinos imediatos da humanidade, "estão, infelizmente, a soprar de todas as direcções, e a luta que divide e atormenta a raça humana aumenta diariamente. Os sinais das convulsões e caos iminentes podem agora ser discernidos, pois a ordem predominante parece estar lamentavelmente defeituosa." (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, p.116)

Bahá’u’lláh também nos advertiu sobre os exageros da civilização material e de ultrapassarmos os nossos limites:

Quem adere à justiça, não pode, em nenhuma circunstância, transgredir os limites da moderação... A civilização, tão frequentemente alardeada pelos sábios representantes das artes e das ciências, se lhe for permitido transpor os limites da moderação, provocará um grande mal aos homens... Se levada ao excesso, a civilização mostrar-se-á como uma prolífica fonte de mal, tal como tinha sido de benevolência quando mantida dentro dos limites da moderação. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, sec. CLXIV)

Enquanto vemos os problemas da humanidade crescerem para dimensões enlouquecedoras, também podemos ver o espírito da nova revelação Bahá’í começar a florescer, permeando os pensamentos e sentimentos da humanidade.

A escravidão foi abolida nos Estados Unidos no ano em que Bahá’u’lláh proclamou a Sua missão. O mundo tem feito progressos consistentes na igualdade racial e de género. O ensinamento originalmente revolucionário de Bahá'u'lláh de que "a Terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos" tocou as almas de muitas pessoas em todo o mundo. A cooperação internacional evoluiu e atingiu um nível significativo com o Acordo Climático de Paris de 2015. Os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas abordam todos estes problemas e parecem estar marcados com o espírito que Bahá’u’lláh trouxe ao mundo.

Assim, podemos esperar que o processo de maturação e a unificação da humanidade seja precedido de grande agitação. No entanto, Deus prometeu-nos através de todas as religiões que haverá um tempo em que as pessoas viverão em paz, quando "transformarem as suas espadas em arados". As escrituras Bahá'ís explicam isso muito bem:

O mundo, na verdade, está a avançar em direcção ao seu destino. A interdependência dos povos e nações da Terra, não obstante o que os líderes das forças divisórias do mundo possam dizer ou fazer, já é um facto consumado. A sua unidade na esfera económica é agora compreendida e reconhecida. O bem-estar de uma parte significa o bem-estar do todo, e o sofrimento de uma parte angustia o todo. A Revelação de Bahá’u’lláh, segundo as Suas próprias palavras, deu "um novo impulso e definiu uma nova direcção" para este vasto processo que agora opera no mundo. Os incêndios ateados por esta grande provação são as consequências do fracasso dos homens em reconhecê-lo. Eles estão, além disso, a acelerar a sua consumação. A adversidade, prolongada, global, tormentosa, aliada ao caos e à destruição universal, deve necessariamente abalar as nações, agitar a consciência do mundo, desenganar as massas, precipitar uma mudança radical no próprio conceito de sociedade e juntar os membros ensanguentados e dispersos da humanidade num corpo único, organicamente unido e indivisível. (Shoghi Effendi, The PromisedDay is Come, pag. 122-123)

Então o que é que todos nós podemos fazer? Os Bahá’ís trabalham em duas áreas para realizar a unidade do mundo. Em primeiro lugar, participam numa comunidade mundial assente nos princípios espirituais e nos ensinamentos sociais de Bahá’u’lláh - com o objectivo de construir uma sociedade global espiritual, justa e um ambientalmente sustentável, onde cada ser humano seja respeitado e cuidado, e onde cada indivíduo se esforça para servir o bem comum. Em segundo lugar, sempre que podem, os Bahá’ís colaboram com pessoas de outras religiões e sem religião para aliviar o sofrimento humano e encontrar soluções para os problemas sociais. Todos são bem-vindos para se unirem nestes esforços.

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Christine Muller estudou música e é uma apaixonada pelo meio-ambiente e pela Fé Bahá’í. Actualmente é professora no Wilmette Institute no curso sobre alterações climáticas.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Não digam às minhas filhas que elas são bonitas (pelo menos ao início!)



Estimado Mundo,

O meu nome é Layli Miller-Muro. Sou Bahá’í e advogada; fundei uma organização sem fins lucrativos chamada Tahirih Justice Center, cuja missão inclui proteger as mulheres imigrantes abusadas; e sou mãe de duas meninas e um rapaz.

Todos os dias no meu trabalho, vejo o impacto da sexualização das meninas e da enorme atenção que a sociedade dá à sua aparência. Em todo o mundo, as mulheres são transformadas em objectos - os seus corpos são a primeira coisa em que se repara e são vistos como tendo mais valor do que as suas mentes. Os resultados são devastadores. No meu trabalho, vejo mulheres e meninas vendidas para a escravatura sexual, violadas por homens (incluindo membros da própria família), forçadas a casar-se muito jovens e violentamente abusadas.

Percebi que as mulheres que conseguem superar as piores experiências e tribulações da vida costumam ter um profundo sentido interior do seu próprio valor espiritual, e cheguei à conclusão que pretendo - mais do que tudo - ensinar essa nobreza e essa auto-estima profundamente enraizadas a todos os meus filhos.

Assim, quando você um dia encontrar as minhas filhas, por favor, tente evitar, se possível, que o seu primeiro e único comentário seja sobre sua aparência física. O meu marido e eu temos trabalhado muito para lhes incutir a ideia de que o seu carácter, a sua mente e sua alma têm mais importância do que o seu aspecto físico - mas a realidade daquilo que as pessoas parecem valorizar na nossa cultura profundamente materialista parece muitas vezes desfazer os nossos melhores esforços.

Recentemente, a nossa filha de seis anos estava obcecada com a roupa que ia vestir e disse: “Se eu não estiver bonita as pessoas não são simpáticas para mim.” Infelizmente, ela está a aprender muito depressa a verdade sobre muitas interacções de adultos com meninas. Se algum de vós vir as minhas filhas, por favor, não deixe a primeira coisa que lhes diga seja "Estás tão bonita!" Já houve muitas pessoas que fizeram isso, e de certa forma, as minhas filhas já aprenderam que as pessoas acham que a aparência delas é muito importante.

Em vez disso, perguntem-lhes sobre os projectos de serviço em que elas estão a participar, sobre as suas colecções Lego, sobre os livros que estão a ler e os desportos que mais gostam. Foque as suas perguntas e o seu diálogo numa virtude ou num atributo espiritual que gostasse de encorajar.

Não me interpretem mal - não há nada de errado em ser, ou sentir-se, bonita. E é bom ouvir isso dos outros de vez em quando. Mas isso não deve ser o primeiro comentário – e o mais frequente – que as meninas devem ouvir. Isso envia-lhes uma mensagem de que isso é o mais importante. O louvor e a atenção reforçam o comportamento que queremos ver nos outros. A obsessão pela aparência não é o comportamento que desejamos.

Obrigado pela sua ajuda no combate às pressões sobre as meninas para, em primeiro lugar, serem bonitas. E obrigado por ajudar as minhas filhas, e todas as meninas do mundo, a valorizar os seus atributos interiores mais do que os exteriores:

Assim, é claro que a honra e o engrandecimento do homem devem ser algo mais do que riquezas materiais. Os confortos materiais são apenas um ramo, mas a raiz do engrandecimento do homem são os bons atributos e as virtudes que são os adornos da sua realidade. Estas são as aparências divinas, as bênçãos celestiais, as emoções sublimes, o amor e o conhecimento de Deus; sabedoria universal, percepção intelectual, descobertas científicas, justiça, equidade, veracidade, benevolência, coragem natural e força mental inata; o respeito pelos direitos e a manutenção de acordos e convénios; rectidão em todas as circunstâncias; servir a verdade em todas as condições; o sacrifício da própria vida para o bem de todos; bondade e estima por todas as nações; obediência aos ensinamentos de Deus; serviço ao Reino Divino; a orientação do povo e a educação das nações e raças. Esta é a prosperidade do mundo humano! Este é o engrandecimento do homem no mundo! Esta é a vida eterna e a honra celestial! ('Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, p. 79)

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Layli Miller-Muro é fundadora e directora do Tahirih Justice Center (www.tahirih.org), uma organização sem fins lucrativos de inspiração Bahá’í dedicada à protecção de mulheres e meninas contra abusos de direitos humanos. O seu envolvimento nesta organização valeu-lhe vários prémios e distinções, tendo sido mencionada no “150 Fearless Women in the World” (150 Mulheres Destemidas no Mundo) da Newsweek Magazine/Daily Beast. Vive com o marido e três filhos em Washington, DC (EUA).

sábado, 10 de setembro de 2016

Combater o Culto do Corpo

Por David Langness.


O teu propósito na vida é encontrar o teu propósito e dar-lhe todo o teu coração e alma. (Gautama Buda)
Isto é uma verdadeira afirmação Zen - e não vem de um dos Seus discípulos, mas do próprio Buda. "O teu propósito na vida é encontrar o teu propósito..." Soa bastante paradoxal, não é?

No entanto, se pensarmos profundamente, esta parábola Zen faz sentido. Esforçamo-nos, durante toda a vida, a procurar e depois a realizar o que consideramos ser mais valioso. O Buda pede-nos que procuremos um propósito real, e assim que o encontrarmos, dar-lhe tudo o que temos.

O leitor já encontrou o seu propósito na vida?

Conhece o seu propósito - o seu objectivo, intenção, projecto, a sua esperança mais profunda. Tem uma direcção final, um desígnio, uma aspiração? Tal como um barco no oceano, você tem um destino?

Por outras palavras, qual é o sentido da sua vida?

Muitos de nós estamos tão envolvidos nas tarefas necessárias à vida e à sobrevivência que não pensamos muito profundamente no seu objectivo maior. Vamos para o trabalho ou para a escola, pagamos o aluguer ou a hipoteca, comemos, dormimos, tratamos das nossas famílias e tentamos manter a nossa saúde. A natureza implacável da vida - o seu ritmo quotidiano puro – faz-nos focar simplesmente em concluir esforços e ultrapassar obstáculos, tentando manter o nosso equilíbrio, e passar para a tarefa seguinte.

Assim, a maioria das pessoas, parece às vezes, passar a vida apenas a sobreviver, apenas a satisfazer os seus instintos e impulsos, apenas a satisfazer as necessidades do corpo físico:
Se um homem é bem-sucedido no seu negócio, arte ou profissão fica capacitado para aumentar o seu bem-estar físico e dar ao seu corpo a quantidade de comodidades e conforto com que se deleita. Hoje, à nossa volta, vemos como o homem se rodeia com todas as conveniências e luxos modernos, e nada nega ao lado físico e material da sua natureza. Mas, acautelai-vos, para que ao pensar demasiado nas coisas do corpo vos esqueceis das coisas da alma; pois os benefícios materiais não elevam o espírito de um homem. A perfeição em coisas mundanas é uma alegria para o corpo de um homem, mas isso de modo algum glorifica a sua alma.

Pode acontecer que a um homem que tenha todos os benefícios materiais e que viva rodeado por todos os grandes confortos que a civilização moderna lhe pode dar, lhe seja negado o dom importantíssimo do Espírito Santo.

Na verdade, progredir materialmente é uma coisa boa e louvável, mas ao fazê-lo, não vamos negligenciar o progresso espiritual que é mais importante, e fechar os olhos para a Luz Divina que brilha entre nós.

Apenas ao melhorar espiritualmente assim como materialmente podemos fazer algum progresso real, e tornarmo-nos seres perfeitos. Foi para trazer esta vida e luz espirituais ao mundo que todos os grandes Professores têm aparecido. Eles vieram para que o Sol da Verdade se pudesse manifestar e brilhar no coração dos homens, e que através do seu poder maravilhoso os homens pudessem alcançar a Luz Eterna. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 62)
"Acautelai-vos", aconselha 'Abdu'l-Bahá, "para que ao pensar demasiado nas coisas do corpo vos esqueceis das coisas da alma..." As nossas sociedades modernas parecem muito focadas em pensar demasiado seriamente nas coisas do corpo, não é? Para onde quer que vamos, vemos a idealização do físico. Em anúncios, em ecrãs de cinema, na internet, em revistas e até mesmo na publicidade em paragens de autocarro, somos continuamente bombardeados com imagens de perfeição física, como se isso fosse o único objectivo da vida. Os media gritam "Juventude! Beleza! Músculos esculturais! Cabelo esplendoroso! Pele brilhante! Abdominais rijos!"e nós compramos tudo isto.

Há uma expressão para descrever esta tendência: o culto do corpo. Os nossos corpos físicos exigem uma grande dose de atenção constante - comida, água, exercício, descanso, roupas, abrigo e cuidados de saúde - mas quando nós exageramos, e "pensamos demasiado" nas nossas necessidades físicas, perdemos as mais importantes e duradouras realidades da vida. Quando o culto do corpo aparece, torna-se uma obsessão, uma preocupação constante que se pode transformar numa obrigação quase religiosa. Em vez de cuidar da aparência geral do corpo físico, e de considerar a nossa saúde como uma forma de conservar os nossos corpos para que as nossas mentes e almas possam fazer coisas boas, algumas pessoas obcecadas da aptidão física vêem a perfeição física e material como o objectivo derradeiro da vida.

Quando isso acontece, temos o culto do corpo em acção.

É claro que nenhum esforço consistente que possamos fazer com o corpo - halterofilismo, muitas horas no ginásio, praticar um desporto ou correr centenas de quilómetros - trará dividendos físicos e mentais. O problema? Os dividendos não duram. Os nossos corpos têm datas de validade registadas no nosso ADN. A determinado momento, os nossos corpos envelhecem e ficam frágeis. Todos nós nos libertamos destas camadas físicas exteriores e passaremos para uma existência mais espiritual. Nunca houve alguém que conseguisse contornar esta dura lei da existência.

O conselho sábio de 'Abdu'l-Bahá para que nos esforcemos para sermos seres perfeitos "melhorando tanto espiritual como materialmente" aplica-se aqui. Ao criar um equilíbrio saudável, inteligente entre nossas necessidades físicas e espirituais, podemos realmente progredir e dar o primeiro passo para encontrar o nosso maior objectivo na vida.

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Texto original: Combatting the Cult of the Body (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 16 de julho de 2016

Globalização e Nova Ordem Mundial

Por David Langness.

O desejo de paz pela humanidade apenas se pode realizar com a criação de um governo mundial. Com todo o meu coração, acredito que o actual sistema mundial de nações soberanas apenas pode levar à barbaridade, à guerra e à desumanidade. (Albert Eisntein)

Deus permita que os povos do mundo sejam graciosamente ajudados a preservar a luz dos seus conselhos amorosos no globo da sabedoria. Nutrimos a esperança que todos sejam adornados com o traje da verdadeira sabedoria, a base do governo do mundo. (Baha’u’llah, Tablets of Baha’u’llah, p. 166)

Estamos no limiar de uma era cujas convulsões proclamam simultaneamente os estertores de morte da velha ordem e as dores de parto da nova ordem. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, p. 169)
A Fé Bahá’í foca-se essencialmente no conceito de unidade mundial. Bahá’u’lláh revelou esse princípio fundamental em meados do século XIX, muito antes de o mundo ter tido qualquer visão do planeta como uma única entidade. Hoje, porém, as forças cada vez mais globais da economia e das migrações fizeram da unidade mundial um conceito polarizador:
A nova ordem mundial que está em construção deve focar-se na criação da democracia, paz e prosperidade mundiais, para todos. (Nelson Mandela)

O caminho dos Rockefellers e dos seus aliados é criar um governo mundial combinando o supercapitalismo e o comunismo sob o mesmo tecto, tudo sob o seu controlo. Estou a dizer que isto é uma conspiração? Sim, estou. Acredito que existe uma conspiração, de âmbito mundial, planeada há muitas gerações, com objectivos incrivelmente malignos. (Larry P. MacDonald , antigo membro da Câmara dos Representantes dos EUA)
Pode-se perceber pelo tom da última citação que a expressão “nova ordem mundial” se tornou sinónimo de conspiração mundial para algumas pessoas. Quando encontramos expressões como “nova ordem mundial” ou “governo mundial” num livro ou numa página da internet, por vezes refere-se a uma visão de conspiração do “fim dos tempos”, de um estado totalitário mundial controlado por uma elite secreta, perversa e poderosa que pode dominar o mundo a qualquer momento – e, se calhar, “eles” até já estão no poder. Há pessoas que acreditam nestas teorias da conspiração; e até tentam “demonstrar” as suas ideias de “nova ordem mundial” relacionando-as com as forças reais da globalização que estão agora em acção no mundo.

Na perspectiva Bahá’í, a expressão “nova ordem mundial” tem um significado totalmente diferente. Em vez de significar tirania e autoritarismo, significa, num contexto Bahá’í, liberdade – estar livre da fome, da pobreza, da guerra e da opressão. Nos ensinamentos Bahá’ís, um nova ordem mundial refere-se à próxima fase inevitável e evolutiva na governação do mundo – uma verdadeira democracia mundial.
O equilíbrio do mundo for perturbado pela influência vibrante desta grandiosa, desta nova Ordem Mundial. (Baha’u’llah, Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, p. 136)

Aproxima-se o dia em que teremos recolhido o mundo e tudo o que nele existe, e colocaremos uma nova ordem no seu lugar. (Idem, p 313)

Esta Nova Ordem Mundial, cuja promessa está consagrada na Revelação de Bahá'u'lláh, cujos princípios fundamentais foram enunciados nas escrituras do Centro da Sua Aliança, implica nada menos do que a unificação completa de toda a raça humana. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, p. 161)
Há poucas pessoas que ainda negam a marcha imparável das forças da globalização. Caracterizada pelo movimento, a globalização movimenta ideias, produtos, fundos, conhecimento e pessoas por todo o planeta de uma forma mais rápida e eficiente do que nunca. As nações tornaram-se completamente interdependentes. As economias interligaram-se. O comércio aumentou muito. As fronteiras e as identidades nacionais tornaram-se cada vez menos importantes. A nossa sociedade internacional recém-globalizada criou uma teia complexa de forças e factores que unem conceitos, culturas, mercados, crenças, práticas e pessoas, aproximando-as cada vez mais umas das outras. A unificação completa de toda a raça humana, como se pode ver agora, aproxima-se rapidamente.

Mas nem todas as forças da globalização são todas positivas. Muitos dizem que elas tendem a privilegiar os interesses corporativos em detrimento dos interesses das classes trabalhadoras, pobres e indígenas; que promovem a perda de postos de trabalho, permitindo que as empresas se desloquem para países de baixo custo; que prejudicam o meio ambiente global, dando às empresas multinacionais uma autonomia ilimitada para poluir em países sem leis ambientais; e que aumentam o movimento de migrantes e refugiados do Oriente e do Sul globais para o Norte e Ocidente globais. Por estas e outras razões, a globalização assusta muitas pessoas, e começou a criar uma reacção etnocentrista e xenófoba em grande parte do mundo desenvolvido. A saída da Grã-Bretanha da União Europeia é apenas um exemplo dessa reacção que vai, sem dúvida, agravar e aumentar os problemas, ou dar ao mundo uma lição sobre os perigos de resistir à unificação.


Os Bahá’ís acreditam que só existe uma única coisa que pode controlar, aproveitar e direccionar as forças incontroláveis da globalização: uma nova ordem mundial. Esse sistema de unidade espiritual e governação global, democrática nas suas origens e de âmbito mundial, constitui a "missão suprema" e derradeira da Fé Bahá'í:
A Revelação de Bahá'u'lláh, cuja missão suprema não é senão a realização desta unidade orgânica e espiritual de todo o corpo das nações, deve, se queremos ser fiéis às suas implicações, ser considerada como sinalizando através do seu advento a idade adulta de toda a raça humana. Ela deve ser vista não apenas como mais uma revitalização espiritual nos destinos em constante mudança da humanidade, não apenas como mais uma etapa numa sequência de Revelações progressivas, nem mesmo como o culminar de uma série de ciclos proféticos recorrentes, mas sim como marcando a última e mais elevada fase na fantástica evolução da vida colectiva do homem neste planeta. O aparecimento de uma comunidade mundial, a consciência da cidadania mundial, a fundação de uma civilização e cultura mundial... deve, pela sua própria natureza, ser considerada, no que toca a esta vida planetária, como o mais longínquo limite na organização da sociedade humana, embora o homem, enquanto indivíduo, deva, como resultado dessa consumação, continuar indefinidamente a progredir e desenvolver-se. (Idem, p.163)

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Texto original: Globalization: Welcome to the New World Order (www.bahaiteachings.org)

Artigo Anterior: O Brexit, a União Europeia, a Imigração e a Xenofobia
Artigo Seguinte: Ser global, ser cidadão do mundo

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 2 de julho de 2016

Como acabar com a corrupção?

Por David Langness.


Ó povo, não causes corrupção na terra e não disputes com os homens; pois, em verdade, isso não é digno de quem escolheu uma condição que, de facto, permanecerá segura, ao abrigo do seu Senhor. (Bahá’u’lláh, Tablet of the Branch)
Quando inicialmente se deu a fuga de informação dos Papéis do Panamá - cerca de 11,5 milhões de documentos - surgiram manchetes sensacionalistas em todo o mundo. Líderes políticos, magnatas e celebridades foram referidos e identificados como directores de empresas de fachada que escondiam milhares de milhões de dólares da tributação legítima. Fizeram-se ouvir protestos indignados de muitos lados, exigindo que os países alterem as suas leis bancárias e parem de servir como paraísos fiscais para os super-ricos. A corrupção e suborno também tinham uma presença forte nesta história, porque muitos dos políticos e líderes eleitos não tinham qualquer fonte de rendimento visível além dos seus salários relativamente pequenos.

No fundo, é difícil compreender que uma pessoa acumule mil milhões de dólares, quando o seu salário somado ao longo de mil anos não atinge esse valor.

Muito especialistas e comentadores acreditam e afirmaram, que este tipo de corrupção óbvia vai deixar as pessoas ainda mais desconfiadas em relação aos governos. O que pensa disto?

Em todo o mundo, a confiança nos governos caiu dramaticamente ao longo das últimas décadas. O alheamento em relação ao processo político, já está em níveis muito elevados, tem aumentando rapidamente. Os “candidatos de protesto” externos ao sistema político; uma sensação de impotência e isolamento; uma crença generalizada de que todos os governos são corruptos; e uma convicção geral de que o governo já não trabalha para o bem do povo, mas apenas serve uma elite rica; cada um destes sintomas de alienação política tem demonstrado uma força crescente em todo o mundo.

As sondagens mostram que a erosão da confiança pública no governo - um fenómeno mundial - começou na década de 1960, quando proliferaram tumultos, assassinatos, guerras desnecessárias e escândalos políticos ; e também quando a comunicação social noticiava cada vez mais sobre estes problemas. O Pew Research Center tem perguntado aos americanos se eles confiam no seu governo desde 1958; os resultados mostram que em 1964, 77% confiavam. Mas passada uma década, o nível de confiança caiu para menos de 25%. Hoje, está no nível mais baixo alguma vez medido: 19%.

A Gallup World Poll chegou a conclusões semelhantes na sua recente sondagem sobre confiança global nos governos nacionais dos países desenvolvidos realizada para a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico). Realizada em todos os 34 países membros da OCDE, revelou que a confiança geral também tinha recuado para um novo mínimo de 40%.

Em geral, parece que não confiamos nos nossos dirigentes. Então o que podemos fazer em relação a essa falta de confiança? Como podemos erradicar e libertar-nos da corrupção que parece ser uma doença na nossa política e nos nossos governos?

Os ensinamentos Bahá’ís apresentam uma solução:
É óbvio que somente quando o povo for educado, somente quando a opinião pública estiver correctamente focada, somente quando os funcionários governamentais - mesmo os de mais baixo escalão - estiverem livres do mais pequeno vestígio de corrupção, pode o país ser devidamente administrado. Só quando a disciplina, a ordem e a boa governação atingirem um nível em que um indivíduo, mesmo que faça os maiores esforços, seja incapaz de se desviar da rectidão, na medida da espessura de um fio de cabelo, poderão as desejadas reformas serem consideradas totalmente estabelecidas.

Além disso, toda e qualquer instituição, mesmo que seja o instrumento do maior bem para a humanidade, pode ser mal utilizada. O seu uso adequado, ou abuso, dependem dos vários níveis de discernimento, capacidade, fé, honestidade, dedicação e magnanimidade dos líderes de opinião pública. (‘Abdu’l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p. 16)
As virtudes civilizadoras da honestidade, do dever, da lealdade tão centrais ao progresso humano são cultivadas pela linguagem do coração e pela voz da consciência. Imperativos legais e penalizações, apesar de essenciais, são limitados na sua eficácia. Perceber as raízes espirituais que estão no coração da identidade e propósito humanos é libertar o único impulso que pode garantir a transformação social genuína. Assim, na perspectiva Bahá’í, o aparecimento de instituições públicas geradoras de confiança pública e isentas de corrupção, está intimamente ligada ao processo de desenvolvimento moral e espiritual. Tal com Bahá’u’lláh confirma: “Enquanto a natureza de uma pessoa se entregar às paixões malignas, o crime e a transgressão prevalecerão” (Overcoming Corruption and Safeguarding Integrity in Public Institutions: A Baha’i Perspective, statement from the Baha’i International Community, pp. 2-3)
Fundamentalmente, os Bahá’ís acreditam que o carácter moral de cada líder - e de cada ser humano - baseia-se no nível de desenvolvimento espiritual da pessoa:
Depois de reajustar o aspecto moral da humanidade, então realizar-se-á a maior unidade; mas sem este reajustamento moral é impossível estabelecer a harmonia e a concórdia, pois é um facto que a guerra, conflito, atrito e luta, são apenas os resultados visíveis de deterioração da moralidade e da corrupção de carácter. ('Abdu’l-Bahá, Divine Philosophy, pp. 176-177)
A única forma real e duradoura de acabar com a corrupção, dizem os ensinamentos Bahá'ís, é começar pelo indivíduo:
Para vós, desejo distinção espiritual - isto é, deveis tornar-vos eminentes e distintos na moral. No amor de Deus, deveis tornar-vos distintos de tudo o resto. Deveis tornar-vos distintos por amar a humanidade, pela unidade e pela harmonia, pelo amor e pela justiça. Em resumo, deveis tornar-vos distintos em todas as virtudes do mundo humano - pela lealdade e pela sinceridade, pela justiça e pela fidelidade, pela firmeza e pela constância, pelas obras filantrópicas e serviços ao mundo humano, pelo amor para com todos os seres humanos, pela unidade e pela harmonia com todas as pessoas, pela remoção de preconceitos e promoção da paz internacional. ('Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 187)

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Texto original: How Do We Really End Corruption? (www.bahaiteachings.org)

Artigo anterior: Imposto Único ou Imposto Progressivo?

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.