domingo, 8 de maio de 2005

60 anos


Há 60 anos assistíamos ao fim de "uma tempestade de violência inédita", um "cataclismo titânico" em que "se desintegraram nações, destruíram-se lares e povos e arrasaram-se cidades", como afirmou Shoghi Effendi. Se pensarmos no que eram os países, os povos e as cidades europeias há 60 anos e considerarmos o que são hoje, não podemos deixar de perceber quão valiosa é a paz, o desenvolvimento e a justiça. É importante nunca esquecer isso.

O fim do conflito fica associado à criação da Organização das Nações Unidas. Foi um primeiro passo na construção de uma Ordem Mundial que se pretendia mais justa e equilibrada. Passados 60 anos percebemos que ciclicamente devemos recordar aos povos do mundo e aos dirigentes mundiais que não devem hesitar em continuar a caminhar nesse sentido. É que uma longa caminhada começa sempre com um primeiro passo.

Congo Belga

A primeira parte de um conjunto de postais do Congo Belga. No Antigamente...


sexta-feira, 6 de maio de 2005

Abrupto

Parabéns ao Abrupto que faz hoje dois anos. Todos sabemos que é um dos blogs de referência da blogosfera portuguesa; é visita diária obrigatória para muitos bloggers e leitores de blogs. Tenho a impressão que re-aproximou muita gente do debate político e do debate de ideias. Foi o primeiro (e durante algum tempo o único) blog que conheci. Um dia enviei ao Pacheco Pereira um comentário sobre a polémica do véu islâmico nas escolas francesas. E o comentário foi publicado. Depois comecei a pensar que talvez pudesse criar um blog. Passadas umas semanas nascia o Povo de Bahá. Parabéns ao Abrupto.

Sporting!



Hoje tenho mesmo de falar de futebol! Quando já suspirávamos e pensávamos "Enfim...", "Pois é...", e "Pelo menos fomos até às meias-finais..." a sorte sorriu-nos. E ainda bem. Hoje toda a gente fala e escreve sobre o jogo. Eu também não resisto a fazer uns comentários e provocações.

1 - Existe um núcleo da central da equipa do Sporting que merece uma alegria destas: Sá Pinto, Beto, Pedro Barbosa, Rui Jorge. Sempre mostraram dedicação e orgulho pelo clube.

2 - José Peseiro. Chegou ao Sporting e foi sempre olhado com desconfiança. Ontem mostrou frutos do seu trabalho. E esteve bem ao reconhecer que a sorte esteve do lado do Sporting, esteve bem ao evitar polémicas sobre as condições do estádio holandês, e ao recordar que recentemente Portugal perdeu em casa a final do Euro 2004 contra a Grécia. Foi humilde e correcto no momento da vitória.

3 – Os comentários de Dias da Cunha após o jogo. Foi mais uma vez infeliz. É pena...

4 - Aos meus amigos benfiquistas que me têm felicitado com um grande sorriso de quem diz "Vocês fica com a taça UEFA e nós com o campeonato. Não querem ganhar tudo, pois não...?" digo-vos: "Vocês ficam com a Taça de Portugal e chega. Para que é que querem dois troféus na mesma época?"

5 - Aos meus amigos portistas que gostam de insistir que o Sporting só ganhou porque teve sorte recordo que no ano passado o FCP também só ganhou ao Manchester por sorte. O tal golo do Costinha...

6 - E agora vem a festa da final. Lembro-me da final de Sevilha, há dois anos, dirigentes de vários clubes portugueses estiveram presentes e usaram com orgulho o cachecol do FC Porto. Espero que no próximo dia 18 os mesmos dirigentes (incluindo os do FC Porto) estejam em Alvalade com um cachecol do Sporting.

7 – Só uma provocaçãozinha para terminar: quantos deputados estarão já a preparar "trabalho político" para o dia 18 de Maio?

Acima de tudo fico contente porque pelo terceiro ano consecutivo temos uma equipa portuguesa numa final das provas de clubes da UEFA. Pelo terceiro ano consecutivo temos um treinador português a liderar uma equipa que atinge essa final (este ano Mourinho atingiu o “limite de mandatos” :-) ). Uma palavra de apreço para os vários jogadores brasileiros integram estas equipas; é também uma vitória o talento sul-americano (eu sei que há ali jogadores de outras nacionalidades, mas a minha costela brasileira obriga-me a esta referência...).

quinta-feira, 5 de maio de 2005

Dia da Lembrança

Costumo dizer que em Israel até a mais pequena pedra tem pelo menos 1000 anos de história. Das três vezes que tive a oportunidade de visitar a Terra Santa (sempre por ocasião de algum evento baha'i), fiz questão de ir um pouco mais cedo de modo a ter possibilidade de visitar alguns locais históricos.

Jerusalém, o Muro das Lamentações, a Esplanada das Mesquitas, o Mar Morto, Masada Nazaré, Belém, o Lago Tiberíades... são alguns dos destinos mais conhecidos. Sempre procurei conhecer novos lugares de interesse histórico e cultural naquela que é uma Terra Santa para comunidades religiosas. Mas houve um local que impressionou profundamente e onde me desloquei em cada uma das minhas três visitas: o Yad Vashem, o Museu do Holocausto.

Este museu contém um conjunto de testemunhos impressionantes de uma das páginas mais negras da história recente da humanidade. É impossível não passar ali sem nos sentirmos esmagados por um turbilhão de emoções. As roupas e os sapatos dos prisioneiros, réplicas do interior das camaratas dos campos de concentração, filmes, imagens, números e tantas outras coisas ajudam a preservar a lembrança do holocausto.

Talvez o mais impressionante seja a Ala das Crianças (foi renovada recentemente). Numa sala escura estão afixados fotos de crianças entre os 3 e os 10 anos. Têm o sorriso inocente e encantador de qualquer criança. E na sala apenas se ouve uma voz que vai dizendo o nome, a idade e o campo de concentração onde a criança morreu. Sente-se um aperto no estômago, um nó na garganta, e faz-se força para conter as lágrimas...

Não se consegue esquecer.

Se voltar a visitar a Terra Santa, irei novamente ao Yad Vashem.

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Infância perdida

No Chade, nos campos de refugiados junto à fronteira sudanesa, elementos da organização Human Rights Watch deram às crianças cadernos e lápis para os manter ocupados enquanto falavam com os pais. Sem qualquer sugestão ou orientação, algumas das crianças desenharam cenas que retratam as suas experiências dramáticas vividas no Sudão.

Salah, Age 13
"There were soldiers from Sudan, Janjaweed, and planes and bombs. I saw the Janjaweed take girls and women. The women were screaming. They seized them, they took them by force. The pretty ones were taken away…Girls were taken, small girls too, I think 5 and 7 and 14. Some came back after four or five hours... some we haven’t seen again."



A ler e ver: The Conflict in Darfur Through the Chidren's Eyes

É impossível não sentir revolta, raiva e ódio.
É impossível não ficar a pensar "O que posso fazer por esta gente?"

Terra da Alegria

Terra da Alegria, a edição de 4ª feira.



SEA SCOUTS JETTY - Imagem obtida no BOAB ART GALLERY

terça-feira, 3 de maio de 2005

Epístola de Maqsúd (2)

O segundo post sobre a Epístola de Maqsud. Entre parentesis rectos indicam-se os números dos parágrafos. O primeiro parágrafo começa com as palavras "Ele é Deus, excelso é Ele, o Senhor de Majestade e poder".
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TEMAS DA EPÍSTOLA

Como já escrevi uma vez, a análise de uma epístola de Bahá'u'lláh não é simples; podemos identificar os principais temas e perceber como estes se relacionam entre si. Mas existem sempre alguns temas secundários – referidos por vezes numa pequena frase ou metáfora – que nos podem passar despercebidos. Além disso o estilo da escrita e a estrutura do texto - sem uma divisão em parágrafos e com os temas intercalados entre si - a que se acresce o facto deste geralmente ser revelado em resposta a uma ou mais perguntas - que nem sempre conhecemos - dificultam a contextualização dos assuntos expostos.

Não obstante estes obstáculos, na Epístola de Maqsúd parece-me ser possível identificar alguns temas centrais:
  • a situação da humanidade;
  • a criação de uma nova ordem mundial;
  • a religião:
  • o papel do ser humano na transformação social.
Estes temas são intercalados por palavras dirigidas a Maqsúd, invocações ao Criador e orações.

EQUACIONANDO OS PROBLEMAS

Segundo Bahá'u'lláh, a humanidade tem sido afligida por várias convulsões, e no entanto, ninguém parece ter parado para reflectir um momento sobre os motivos da intranquilidade dos povos [6]. Os seres humanos parecem estar divididos uns contra os outros e sempre dispostos à luta e contenda. A humanidade, que foi criada para a unidade, entrega-se a actos condenáveis; e Bahá'u'lláh recorda: "Sois os frutos de uma só árvore e as folhas de um mesmo ramo"[6]

O Ser Humano, enquanto criatura racional tem todas as capacidades para resolver os seus problemas; mas, estranhamente, não parece querer fazer uso dessas capacidades para resolver esses problemas. "Os ventos do desespero, lastimavelmente, sopram de todos os lados e aumenta dia a dia a contenda que divide o género humano"[27]. Toda a organização social e política parece irremediavelmente defeituosa.

Ao olhar para a sucessão de conflitos e barbáries, e a persistência de alguns dirigentes nesse tipo de actos, Bahá'u'lláh deixa uma lamentação: “Por quanto tempo haverá a injustiça de continuar? Até quando reinará entre os homens o caos e a confusão? Até quando haverá a discórdia de agitar a face da sociedade? [26] Apesar do nosso planeta ter mudado muito - para melhor e para pior - desde o momento da revelação desta epístola até aos dias de hoje, estas questões não podem deixar de nos fazer pensar um pouco.

Os problemas que Bahá'u'lláh aponta não são apenas os existentes na Sua época(a); as palavras do fundador da religião bahá’í nesta epístola aplicam-se à história da civilização humana. No decorrer do texto podemos perceber algumas soluções para os tribulações da humanidade. Essas soluções passam pelo definição de uma ordem mundial justa e equilibrada, pelo renascer da religião enquanto força criadora e inspiradora dos povos, e pela consciencialização de cada indivíduo do seu papel numa sociedade global e em constante progresso.

As propostas descritas nesta epístola não são as únicas que Bahá'u'lláh apresentou; existem mais escritos onde se apresentam outros princípios destinados à transformação humana, social e política do planeta(b). Pessoalmente acredito que estes princípios não devem ser vistos como uma panaceia; parecem mais as linhas mestras que permitem transformar um mundo de nações e impérios numa aldeia global, justa, equilibrada e em constante progresso.

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NOTAS
(a) – Nos anos anteriores à revelação da Epístola de Maqsúd tinha-se assistido à invasão do Egipto e à guerra Russo-Otomana; estes acontecimentos lançaram muita perturbação no mundo islâmico em que se movimentava a recém-nascida comunidade Bahá’í.
(b) - Princípios como a educação obrigatória universal, a igualdade de direitos entre homens e mulheres, e a eliminação de preconceitos são abordados noutros textos.

segunda-feira, 2 de maio de 2005