terça-feira, 31 de maio de 2005

As diferenças entre as Religiões

Afirmar que, se Deus é único então a religião também é apenas uma (com as suas diversas expressões humanas e culturais) é algo que suscita várias objecções. A maioria destas sustenta que as leis e ensinamentos reveladas em cada religião são tão diferentes entre si que dificilmente se poderia conceber alguma espécie de reconciliação. Trata-se de um argumento compreensível se pensarmos na confusão que por vezes se cria em torno do significado da palavra "religião".

As diferenças apontadas surgem tanto em aspectos doutrinários, como em aspectos sociais. Começando por estes últimos, podemos perceber que as leis religiosas que abordam aspectos práticos das sociedades se referem a temas como higiene, vestuário, medicina, alimentação e actividades laborais e económicas. As leis que abordam estes aspectos devem sempre ser consideradas em função das envolventes culturais em que surgiram as diferentes religiões. Actualmente muitas destas expressões culturais e religiosas estão num considerável estado de fluidez devido às pressões resultantes da integração planetária. Para um observador atento e equidistante, não faz sentido considerar as práticas ou rituais como o propósito essencial da religião; isso seria confundir os aspectos eternos com os aspectos efémeros de uma religião.

Quanto às diferenças doutrinárias são, na verdade, diferenças entre modelos teológicos. Tratam-se de interpretações dos textos sagrados que - na ausência de uma autoridade institucional inquestionável - reivindicam um controlo exclusivo sobre a interpretação da Vontade Divina. Os efeitos práticos da maioria destes modelos de interpretação resultam no desencorajar da actividade intelectual, no focar de atenção em rituais minuciosos e no estimular do preconceito religioso contra os que não seguem o mesmo caminho dos auto-proclamados lideres religiosos. Independentemente do valor dos ensinamentos originais que lhe estão subjacentes, conceitos como ressurreição física, paraíso para satisfação de prazeres carnais e fantásticas reencarnações panteístas constituem hoje barreiras que provocam tensões e conflitos num tempo em que a terra se tornou um só país e os seres humanos devem tornar-se os seus cidadãos.

domingo, 29 de maio de 2005

Falecimento de Bahá'u'lláh



Às primeiras horas do dia hoje, os Baha’is, em todo o mundo, recordaram o Falecimento de Bahá'u'lláh. O fundador da Religião Baha’i faleceu na Terra Santa em 1892, na sua casa de Bahji. O Seu Santuário é hoje considerado pelos Baha'is como o local mais sagrado do planeta. As celebrações incluíram leituras de orações e das escrituras Baha'is.

ACTUALIZAÇÃO

Ver aqui uma pequena apresentação (em Flash) feita pelos Baha'is de Nova Iorque a propósto deste dia.


sábado, 28 de maio de 2005

Laventie, na retaguarda das linhas portuguesas

Em Fevereiro de 1917, o meu avô desembarcou em França integrando o primeiro contingente de tropas portuguesas que constituiriam o CEP. Fiel aos seus hábitos continuou a coleccionar postais de várias localidades por onde passava. Hoje no Antigamente..., publico uma primeira colecção de postais europeus: a vila de Laventie, situada na retaguarda das linhas portuguesas.


sexta-feira, 27 de maio de 2005

Linux ou Windows?

Ouvi na passada 4ª feira, Jerónimo de Sousa questionar o nosso Primeiro-Ministro sobre vários aspectos das medidas tomadas para conter o défice das finanças públicas. Entre as muitas coisas, perguntou "Quanto paga o Estado à Microsoft?" Apesar de não ter simpatia pelos comunistas, gostei de ouvir aquela questão colocada ao Governo. Eu próprio também já aqui questionei quanto é que o Estado Português gasta em licenças de Windows e Office.

A opção pelo Linux, em detrimento do Windows, permitiria várias coisas:
  • Redução dos custos de aquisição de software;
  • Redução dos custos de manutenção de software;
  • Várias empresas poderia orientar os seus serviços para esta área (criando uma concorrência sempre saudável ao mercado e quebrando-se o monopólio);
  • Algum alívio no mercado de trabalho da informática (surgiria maior procura por técnicos de Linux).
Por outras palavras, reduzia-se a despesa pública e dava-se um pequeno impulso ao famigerado "choque tecnológico".

A ler: LINUX vs. WINDOWS, A comparison of Linux and Windows de Michael Horowitz.

Dizzy Gillespie

A propósito de uma biografia de Dizzy Gillespie recentemente publicada: Biography is a testament to Dizzy Gillespie's greatness. (texto também disponível aqui)

quarta-feira, 25 de maio de 2005

Liberdade de Expressão

A propósito de um post do Ricardo Alves sobre a "Liberdade de Expressão e Blasfémia" aqui fica uma pequena reflexão.
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Felizmente já passou em Portugal o tempo em que “não se discutia Deus, a Pátria e a Família”. Hoje, na nossa sociedade estamos habituados a debater e a questionar tudo e mais alguma coisa. Há quem considere isto uma crise social, uma época de transição ou uma evolução normal no processo de amadurecimento social.

Não deixa de ser curioso é a forma como hoje invocamos a liberdade de expressão, sem nos apercebermos como ela pode ser um pau de dois bicos. Veja-se a seguinte situação: se eu disser cobras e lagartos de uma religião diferente da minha, isso é liberdade de expressão; se alguém disser cobras e lagartos da minha religião (ou crença religiosa) isso é blasfémia? Manifestação de intolerância e preconceito religioso? Ou será apenas exercício da mesma liberdade de expressão?

Esta dualidade de critérios com que se invoca a liberdade de expressão pode ser ainda aplicada nas outras áreas: se alguém critica a homossexualidade isso é liberdade de expressão ou uma manifestação de homofobia? Se alguém contar uma piada sobre outro povo, isso é liberdade de expressão ou uma manifestação de etnocentrismo? Se alguém critica uma obra de um qualquer artista isso é liberdade de expressão ou uma evidência de analfabetismo cultural?

E as questões não se ficam por aqui: até que ponto um cidadão comum e um cidadão conhecido (alguém com responsabilidade ou visibilidade numa organização política, social ou religiosa) podem estar em pé de igualdade ao usufruir da liberdade de expressão? Não poderá a responsabilidade social do segundo ser um condicionante da sua liberdade de expressão?

Acima de o uso da liberdade de expressão deve ser feito com bom senso; e naturalmente, sem que sob pretexto dessa liberdade se enverede por caminhos de violência verbal. Podemos questionar tudo, mas não há necessidade de ofender ninguém.

Terra da Alegria

Terra da Alegria, a edição de 4ª feira.



Bird Sanctuary - Imagem obtida no BOAB ART GALLERY

terça-feira, 24 de maio de 2005

Epístola de Maqsúd (5)

O quinto (e último) post sobre a Epístola de Maqsud. Entre parentesis rectos indicam-se os números dos parágrafos. O primeiro parágrafo começa com as palavras "Ele é Deus, excelso é Ele, o Senhor de Majestade e poder".
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REVELAÇÃO E A RELIGIÃO

Na epístola de Maqsúd, além de resumir alguns conceitos teológicos já abordados noutras epístolas, Bahá'u'lláh aponta também o papel da religião na resolução dos problemas dos povos.

O segundo parágrafo da Epístola a Maqsúd contém um resumo daquilo que na terminologia baha'i se designa por "revelação progressiva". De acordo com este conceito, Deus envia ciclicamente Mensageiros Divinos à humanidade. Esses Mensageiros - os fundadores das grandes religiões mundiais - trazem ensinamentos cujo objectivo é guiar e esclarecer os povos. E sempre que apareceu algum Mensageiro divino, Ele foi perseguido e acusado de ser instigador da miséria e aflição entre os povos (a).

A epístola de Maqsúd descreve o Verbo de Deus como a força mais poderosa entre a criação: “...a sua influência penetrante é incalculável. Sempre dominou e para sempre continuará a dominar o reino da existência[32]. Apesar de Bahá'u'lláh não Se alargar muito sobre este assunto nesta epístola, ainda assim utiliza metáforas interessantes que descrevem o poder do Verbo Divino: “...um oceano cujas riquezas são inesgotáveis[32]...chave mestra para o mundo inteiro[32].

Para descrever o papel da religião na transformação do mundo, a Epístola de Maqsúd mostra-nos quais devem ser os objectivos da religião e quais as suas potencialidades. Assim, segundo o fundador da religião Bahá’í, o propósito da religião é a “salvaguarda dos interesses, a promoção da unidade do género humano e nutrir entre os homens o espírito de amor e amizade. Não permitimos que se torne fonte de dissensão, discórdia ou inimizade[15]. Bahá'u'lláh acrescenta uma breve referência aos dirigentes religiosos, os quais devem consultar com os governantes sobre o que melhor sirva os interesse da humanidade; os dirigentes religiosos também têm o seu papel a desempenhar na reabilitação da condição humana.

Na mitigação das tribulações que afectam a humanidade, a religião tem um papel que não pode ser ignorado. Segundo Bahá'u'lláh, a chave para a resolução dos problemas humanos está contida nas escrituras. Para referir este aspecto, utiliza a metáfora “frutos da árvore da sabedoria[27] para se referir aos ensinamentos de Deus contidos nas escrituras, e acrescenta que os povos do mundo parecem incapazes de apreciar o paladar desses frutos devido à “febre da negligência e da insensatez[33] (b).

Segundo Bahá'u'lláh, a origem de muitos dos problemas da humanidade parece estar na incapacidade dos seres humanos para por verdadeiramente em prática os ensinamentos de qualquer religião. Quando uma pessoa põe em prática os ensinamentos de uma religião, ela transforma-se e afecta de forma positiva todos os que a rodeiam; a mera transformação política e social também defendida nesta epístola, só por si não surtirá grandes efeitos. É necessária também uma transformação ao nível individual. Como alguém escreveu, não é possível fazer uma sociedade de ouro com pessoas de chumbo.

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NOTAS
(a) - Este tema já tinha sido largamente abordado no Kitáb-i-Íqán.
(b) – Sobre este assunto, Bahá'u'lláh escreveu também : "A religião é o maior de todos os meios para o estabelecimento de ordem no mundo e para o contentamento pacífico de todos os que aí habitam. O enfraquecimento dos pilares da religião fortaleceu as mãos dos ignorantes e tornou-os ousados e arrogantes." E noutra epístola : "A religião é uma luz radiante e uma fortaleza inexpugnável para a protecção e bem-estar dos povos do mundo, pois o temos a Deus impele o homem a segurar-se firmemente àquilo que é bom e a repelir todo o mal. Se a lâmpada for obscurecida, caos e confusão reinarão, e as luzes da equidade, da justiça, da tranquilidade e da paz deixarão de brilhar. " [Bahá'u'lláh citado em World Order of Bahá'u'lláh, 186-187]

segunda-feira, 23 de maio de 2005

Feriado!



Hoje é feriado Baha'i. Comemoramos o dia em que o Báb declarou a sua missão ao seu primeiro discípulo. Foi na Pérsia, na cidade de Shiraz, que em 1844, na noite de 22 para 23 de Maio se viveu o primeiro acto das religiões Babi e Baha'i.


ACTUALIZAÇÃO

Ver aqui uma pequena apresentação (em Flash) feita pelos Baha'is de Nova Iorque a propósto deste dia.

Sete Mártires de Yazd: o testemunho holandês

Em 1891, enquanto na legação britânica se acompanhava com alguma preocupação os motins contra os babís em várias cidades da Pérsia, o encarregados de negócios daquela missão diplomática recebeu de um diplomata holandês, um relato de um comerciante holandês que testemunhara os eventos em Yazd:
Na passada segunda-feira, dia 18 de Maio, 7 Babis foram executados de forma inesperada. Um foi enforcado na presença do Príncipe e seis outros foram mortos em diferentes bairros da cidade. É a primeira vez que os babis são mortos aqui e a sua execução provocou algum tumulto. Os corpos foram sepultados pela multidão sob um monte de pedras. O Príncipe deu ordens para que nas noites de segunda e terça-feira os bazares estivessem iluminados e ele próprio apareceria ao final da tarde de terça-feira. Na terça-feira de manhã ele deu ordens para que as iluminações não fossem retiradas e que todos os que dissessem alguma coisa sobre os Babis teriam a língua cortada. Desde a passada terça-feira que as perseguições têm prosseguido. O sacerdote dos Babis, o Mollah Ibrahim foi preso e escoltado esta manhã de Taft até Yazd ao som de música. Um comerciante de seda de Yazd e quatro homens dos arredores também foram detidos. Creio que estas seis pessoas serão mortas nesta semana. A maioria dos comerciantes aqui são Babis e a maior parte deles encontra-se em perigo; especialmente Haji Mirza Md. Taki, Shirazi e o seu filho Haji Mirza Md, Haji Seyed Mirza, Shirazi, Haji Md Ibrahim, Haji Md. Jadegh, Afsahdi. Diz-se que o Príncipe já há algum tempo tinha dado ordens para que eles obtivessem passaportes assinados pelos primeiros Mollahs. A situação é muito crítica e há medo que havendo mais ocorrências sérias os negócios fiquem parados.

Os Mollahs que provocaram as execuções e perseguições são Shaikh Hassan e seu filho Shakh Taqi, Mirza Seyed Ali, Mollah Hassan e Mollah Husein. Os nomes das pessoas mortas são:
1. Mollah Mehti (de Getki)
2. Mollah Ali (de Sabsevar)
3. Ashghar (de Yazd)
4. Muhammad Baker (de Yazd)
5. Ashghar (de Yazd)
6. Hassan (de Yazd)
7. Ali (de Yazd)
todos excepto o nº 5 são casados e têm filhos. As suas propriedades foram confiscadas e os Babis neste momento têm muito medo de os ajudar. As mulheres e os filhos das vítimas foram insultados pela multidão. Os Mollahs que têm grande influência sobre o Príncipe são Shakh Hassan e o seu filho Shakh Takki. Enviaram a várias pessoas conhecidas como Babis, ameaças de denúncia caso não recebessem quantias de 25, 50 ou 100 tomans. Os Babis morreram como verdadeiros mártires, sem medo e dizendo apenas bem da sua religião. O Príncipe queria apenas que eles falassem contra a religião babi; sete recusaram; dois homens, porém, filhos do Mollah Mehti, fizeram-no e foram libertados[1].

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NOTA
[1]- Citado em The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, pag 302-303