quinta-feira, 30 de junho de 2005

Emídio Guerreiro




"Como não pode haver dignidade se não houver liberdade, naturalmente que eu lutei pela liberdade. Lutei contra todos os regimes prepotentes, lutei contra todas as ditaduras."


Emídio Guerreiro, 1899-2005


quarta-feira, 29 de junho de 2005

Vahid

Em 29 de Junho de 1850, Vahid foi martirizado. Trata-se de uma das figuras mais conhecidas dos primeiros tempos das religiões Babi e Baha'i. Bahá'u'lláh referiu-se a ele como "essa figura única e incomparável do seu tempo". Para assinalar esta data, aqui fica um pequeno relato do que foram os seus encontros com o Báb.

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Quando em meados do século XIX, a religião do Báb se começou a espalhar pela Pérsia, vários elementos do clero e do governo quiseram averiguar a natureza daquele movimento. O Xá Muhammad (pai do Xá Nasiri'd-Din) pretendeu avaliar a veracidade das informações que ia recebendo; para esse fim pediu a uma das pessoas em quem mais confiava que se deslocasse a Shiraz e entrevistasse pessoalmente o Báb, e lhe desse uma opinião mais formulada sobre a natureza e propósitos daquela nova religião.

O homem escolhido para essa missão foi Siyyid Yahyay-i-Darabi[1], para os baha'is ficou conhecido como Vahid. O monarca confiava na imparcialidade, competência e visão espiritual deste homem; muitos dirigentes religiosos admiravam a sua eloquência e conhecimentos. Dizia-se que conhecia quase todo o Alcorão do cor e que tinha memorizado mais de trinta mil tradições islâmicas.


Em Shiraz, graças a um amigo que se tinha convertido à religião babi, Vahid conseguiu ser recebido várias vezes pelo Báb. No primeiro encontro, começou por falar durante mais de duas horas sobre temas metafísicos do Islão, excertos mais obscuros do Alcorão, e tradições e profecias misteriosas sobre os Imans[2]. O Báb foi ouvindo todas as suas questões e foi dando respostas breves e concisas; Vahid não conseguia evitar um crescendo de admiração com a lucidez das repostas. Os seus sentimentos iniciais de orgulho e superioridade intelectuais desvaneceram-se lentamente. Quando a entrevista terminou, confidenciou ao amigo: "Ele consegue responder com palavras simples às minhas questões e maiores perplexidades. Senti-me tão humilhado que só pensava em vir-me embora".

Ao iniciar-se a segunda entrevista, Vahid (que tinha uma memória prodigiosa) percebeu que se tinha esquecido de todas as questões que queria colocar ao Báb. Começou a falar de assuntos irrelevantes para o inquérito; mas imediatamente percebeu que o Báb estava a responder, com a mesma lucidez e simplicidade, às questões que ele se havia esquecido. Estranhando a coincidência, pediu para se retirar.

Para a terceira entrevista desejou que o Báb revelasse um comentário ao Sura de Kwathar[3]. Aquilo seria para ele uma derradeira prova da divindade do Báb. Pensou para si próprio que se Ele, sem ser solicitado, revelasse um tal comentário, e de forma diferente dos tradicionais comentadores do Alcorão, então isso seria um prova inequívoca do carácter divino da Sua missão; caso contrário recusaria reconhecer-Lhe esse estatuto.

Assim que entrou na presença d’Ele foi tomado por um invulgar sentimento de medo. O Báb levantou-Se segurou-lhe na mão e disse-lhe: "Procura em Mim o que quer que seja o desejo do teu coração. Eu to revelarei." E perguntou-lhe: "Se eu revelasse um comentário ao Sura de Kawthar, reconhecerias as Minhas palavras como nascidas do Espírito de Deus?" As lágrimas correram pelo rosto de Vahid e apenas conseguiu balbuciar umas palavras.

Pouco depois, o Báb pediu um estojo de canetas e papel e começou a revelar um comentário ao Sura de Kawthar. Vahid foi testemunha da revelação desse comentário; o Báb murmurava as palavras rapidamente e a caneta, em igual ritmo, registava essas palavras. E assim continuou até ao pôr do sol, quando o Báb deu o comentário por completo. Nessa ocasião pousou as canetas e pediu chá; pouco depois começou a ler o texto em voz alta.

O estilo das Suas palavras, o vigor dos argumentos e o tom poético do texto deixaram Vahid profundamente impressionado. Quando terminou a leitura, o Báb pediu a Vahid e a um secretário que procedessem à transcrição rigorosa do texto, validando as referências às tradições islâmicas citadas. Foi tarefa que os ocupou durante três dias.

Aqueles três encontros de Vahid com o fundador da religião babí alteraram o rumo da sua vida. Aceitou de forma plena e sincera a Mensagem do Báb e passou então a dedicar-se à divulgação da nova religião, viajando pela Pérsia. Vários milhares de pessoas aceitaram a Fé depois de ouvirem as suas palavras; alguns dos primeiros crentes desses tempos também tomaram conhecimento da nova religião graças aos seus esforços. No decorrer de uma dessas viagens chegou mesmo a encontrar-se com Bahá'u'lláh, em Teerão.

Vahid escreveu um relato detalhado dos seus encontros com o Báb e entregou-o ao camareiro do Xá, para que fosse apresentado ao monarca. Quando este soube da conversão de Vahid, comentou com o primeiro ministro: "Fomos informados que Siyyid Yahyay-i-Darabi se tornou babi. Se isto é verdade, então temos que deixar de menosprezar a Causa deste Siyyid[4]".

Os seus dias terminariam durante os massacres que se seguiram após o cerco ao forte de Khajih, em Nayriz. Vahid foi estrangulado e o seu cadáver, arrastado por um cavalo foi exibido pela cidade. Dez dias mais tarde, o próprio Báb seria martirizado em Tabriz.

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NOTAS
[1] - O termo Darabi indica a proveniência. Vahid nasceu em Darab.
[2] - Sucessores de Maomé
[3] - O capítulo mas pequeno do Alcorão
[4] – Refere-se ao Báb

Terra da Alegria

Quarta-feira, dia de Terra da Alegria.

terça-feira, 28 de junho de 2005

Fiel ou Infiel?

A mais recente aberração televisiva chama-se "Fiel ou Infiel". Trata-se um programa em que um elemento de um casal pretende testar a fidelidade do seu parceiro(a). A equipa do programa cria uma situação em que o elemento a testar é colocado perante uma situação de sedução. Invariavelmente, o elemento "apanhado" cai vítima da sedução de um actor/actriz. Posteriormente, dá-se o encontro em palco do parceiro enganado com o parceiro seduzido, uma cena que acaba com insultos e com seguranças tentando evitar agressões entre o casal.

Podíamos discutir se este é o tipo de programas que o povo gosta ou o tipo de programas que uma estação de televisão sabe fazer. Mas um programa de entretenimento em que o espectador é reduzido à condição de mirone de uma "traição amorosa" induzida - e consequentes cenas de peixeirada - deixa muito a desejar.

Um amigo meu tem uma teoria curiosa sobre este programa: "Se é lixo, então deve ser reciclado!" E sugere que a ideia base deste programa seja aplicada à actividade de figuras públicas. "Imagina o que seria um programa destes em que se testa se um político, um dirigente desportivo ou qualquer outra personalidade conhecida é corrupto ou não..."

Para quase todo o grupo de amigos que ouviu esta ideia foi impossível não imaginar ver na TV um político conhecido ser sujeito à tentação de conseguir benefícios pessoais à custa da aceitação de uma proposta desvantajosa para o interesse público, um dirigente desportivo aceitar viciar o resultado de um jogo, um director de jornal negociar uma primeira página,...

Lembro-me que houve um programa nos EUA que fez algo semelhante com um senador ou um congressista. No final da sua carreira política impoluta, o senhor aceitou fazer uns favores a um pretenso príncipe saudita que pretendia refugiar-se nos Estados Unidos. O programa causou enorme polémica e questionava-se até que ponto era legítimo por em causa a reputação de alguém com um facto criado artificialmente, e que legitimidade tinham os autores do programa para fazer uma coisa daquelas.

Sabemos que a televisão é um reflexo da nossa sociedade. Ali vemos o melhor e o pior daquilo que somos capazes. Este tipo de programas parece-me reflectir o pior: a ganância pelo lucro numa guerra de audiências legitima que a podridão (independentemente de ser induzida, ou não) seja transformada em espectáculo. Apetece citar Pacheco Pereira: "Pobre país, o nosso..."

domingo, 26 de junho de 2005

Fauquembergue - 1917



No interior deste envelope encontrei a maior colecção de postais do meu avô. Ao todo eram 28 postais ilustrados de Fauquemberge, uma pequena povoação na retaguarda das linhas portuguesas. O primeiro conjunto destes postais está hoje no Antigamente...

sexta-feira, 24 de junho de 2005

Notas breves

O Guru Baha'iUm jornal da Tanzânia (link alternativo) refere a visita de um baha'i indiano que descreve como "guru baha'i". É difícil evitar um sorriso perante esta expressão, pois que não existem autoridades individuais. Mas a interacção com os media tem coisas destas; por vezes aquilo que somos não é exactamente igual à imagem que transmitimos. E se o jornalista tiver algumas ideias preconcebidas, então é fácil encontrar coisas destas.

Native Americans - Baha'is host international gathering in Navajoland. (link alternativo)
Um encontro de representantes de 25 tribos dos "Native Americans" (o termo politicamente correcto) organizado pelo Native American Baha'i Institute. Isto é evento a que gostava de assistir.

Voices of Bahá - Não sabia da existência do Voices of Bahá, um grupo coral com 200 baha’is de várias nacionalidades. Um jornal de Porto Rico (link alternativo) refere um espectáculo deste grupo.

quinta-feira, 23 de junho de 2005

Insegurança

A insegurança tornou-se o tema predilecto dos media sensacionalistas. É assalto no comboio, esticão na avenida, pancadaria num bairro de subúrbio... tudo serve para as primeiras páginas e até abertura de telejornais. Infelizmente, e como seria de esperar, políticos menos escrupulosos não hesitam em fazer aproveitamento do tema.

Quem viveu os anos 70 e 80 no bairro dos Olivais, em Lisboa, sabe o que é insegurança. Desde cedo sabíamos que se levávamos dinheiro para comprar um bolo na escola, havia sempre uma certa probabilidade de algum grupo de miúdos - a quem chamávamos "ciganos" - o roubarem; levar umas estaladas ou apanhar com uma pedrada na cabeça também eram probabilidades. Com o passar do tempo, fenómenos como droga, assaltos violentos e roubo de carros também se tornaram ocorrências regulares.

Até há pouco tempo morei na Pontinha - bem próximo da Azinhaga dos Besouros, que é tido hoje pelos media como um dos bairros mais inseguros da periferia de Lisboa. Também ali encontrei o sentimento de insegurança: roubos, assaltos e actos de vandalismo eram frequentes. A única diferença em relação aos Olivais pareceu-me ser a cor da pele dos miúdos que arranjavam problemas.

Assim, comparando o caso dos Olivais com o que os media nos relatam hoje, consigo identificar duas questões: qual deve ser o papel dos media e quais são as raízes deste tipo de problemas. Por exemplo, se os media de então tivessem feito eco daquele ambiente de insegurança que se vivia no Olivais, isso seria um contributo para a minimizar ou apenas aumentaria e generalizaria ainda mais esse sentimento? E se os chamados "ciganos" fossem miúdos de um grupo étnico diferente do nosso, até que ponto este problema não passaria a ser considerado um "clima de tensão racial"?

terça-feira, 21 de junho de 2005

Nayriz

Há exactamente 155 anos, no dia 21 de Junho, várias centenas de Babis foram massacrados em Nayriz, no sul da Pérsia. Foi um dos poucos momentos em que na história da religião Babi, os crentes pegaram em armas para se defender. Foi também um dos eventos trágicos daquele ano de 1850, que culminaria com o fuzilamento do Báb.

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O episódio de Nayriz está profundamente ligado a um dos mais distintos discípulos do Báb: Siyyid Yahyay-i-Darabi, mais conhecido por Vahid (em português, "Incomparável"). Vahid era um homem de confiança do Xá que tinha sido encarregado por este de investigar as actividades do Báb e dos Seus seguidores e que acabou por aceitar a religião babi. O seu prestígio na Pérsia e, especialmente, entre os Babis era enorme. Para onde quer que viajasse a sua presença era sempre aguardada com grande interesse.

No início de 1850, depois de passar por Yazd - onde proclamou abertamente o aparecimento do Qaim na pessoa do Báb - seguiu viagem para a região de Nayriz. A sua fama e influência precedia-o e numa das povoações da região - Chinar-Sukhtih – onde a maioria da população tinha aceite a nova religião, a sua chegada era aguardada com expectativa. Ao contrário, o governador de Nayriz, Zaynu'l-'Abidin Khan, encorajado pelo clero muçulmano, estava determinado a impedir a sua permanência na região; chegaram mesmo a ameaçar os habitantes com severas represálias se permitissem a estadia de Vahid naquelas terras. Esta ameaça foi reforçada com a preparação de mil soldados para enfrentar a chegada de Vahid.



As ameaças do governador esmoreceram a fé de alguns babis e estimularam o entusiasmo de outros. Ao ter conhecimento das ameaças e intenções do governador, Vahid preocupou-se primeiramente com a segurança dos Babis que viajavam consigo. Decidiu ocupar o pequeno forte de Khajih nas imediações de Chinar-Sukhtih, onde outros babis se juntaram ao seu grupo; seguidamente ordenou que se reforçassem os muros do forte e da povoação.

Alguns dias mais tarde os soldados do Governador cercaram o forte. Após os primeiros confrontos (em que foi morto o irmão do governador e dois dos seus sobrinhos foram feitos prisioneiros), o governador pediu um reforço militar (canhões e cavalaria) ao Governador-Geral de Shiraz. Mas a determinação dos babis era enorme e nem a chegada desses reforços - com ordem para exterminar os sitiados - foi suficiente para tomar o forte.

O governador de Nayriz tentou outro método: a traição. Enviou uma mensagem aos sitiados onde afirmava ter sido induzido a atacar os babis por pessoas indignas; que começava agora a conhecer o verdadeiro carácter dos ensinamentos daquela religião quem em nada denegria o Islão, nem encontrava motivações políticas entre os babis que pudessem meter pôr em causa a segurança do país; e para dissipar todas as dúvidas e evitar mais derramamento de sangue, solicitava que os chefes babis viessem a falar com as autoridades no exterior do forte.

Apesar de perceber as intenções do Governador, Vahid abandonou o forte, na companhia de cinco babis e dirigiu-se ao acampamento militar, onde durante três dias foi saudado com grandes celebrações. Durante esses dias os oficiais fingiram grande interesse pelaspalavras de Vahid e satisfizeram todos os seus pedidos. Exteriormente manifestavam respeito e admiração pelas suas palavras, mas em segredo engendravam um estratagema para tomar o forte.

Pediram a Vahid que escrevesse uma mensagem aos companheiros que ainda estavam no forte, solicitando-lhes que abandonassem o local, pois a tropa não lhes faria qualquer mal. Vahid decidiu escrever duas mensagens; a primeira correspondeu aos pedidos dos sitiantes; a segunda alertava os babis para não se deixarem enganar pelas maquinações do Governador. No entanto, o portador desta segunda mensagem acabou por a levar às mãos do Governador e nunca foi entregue aos Babis. Apenas a primeira mensagem chegou ao forte.

Após aqueles três dias, os babis sitiados aguardavam com ansiedade instruções de Vahid; ao lerem a única mensagem que lhes foi entregue, abandonaram o forte e dirigiram-se a Chinar-Sukhtih. Logo à entrada dessa localidade foram emboscados e começaram a ser massacrados. Entretanto, no campo dos sitiantes começaram a insultar Vahid e a recordar-lhe os nomes dos familiares do Governador que tinha morrido nos combates. O tom agressivo da linguagem foi subindo e acabaram por amarrar Vahid e sujeitá-lo a várias humilhações.

Em Chinar-Sukhtih a população pôs-se em fuga; várias famílias, com crianças e idosos, tentaram fugir para as montanhas; outros esconderam-se onde podiam na povoação. Várias casas foram incendiadas e outras saqueadas. A maioria dos homens capturados foi executada; as mulheres e crianças, agredidas e aprisionadas. Parte dos cativos foi obrigada a desfilar pelas ruas de Nayriz, no meio de insultos e espancamentos; outros foram levados para Shiraz, onde, perante os cadáveres desmembrados dos seus entes queridos, também foram obrigados a desfilar pelas ruas da cidade.



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NOTAS
Descrições mais detalhadas do Episódio de Nayriz:
* Narrative of Mulla Muhammad Shafi' Nayrizi (inclui os incidentes de 1850 e 1853)
* The Nayriz Upheaval (The Dawnbreakers)
* If Walls Could Speak - An eyewitness account of the Bábís of Nayriz

segunda-feira, 20 de junho de 2005

Tiago Monteiro



Duas visões da mesma realidade:

Na Gazeta Esportiva: Português comemora sozinho no pódio da corrida da vergonha

No Record: Governo felicita Tiago Monteiro pelo terceiro lugar

Para que serve o simbolismo nas Escrituras?

Aqui fica o meu texto de hoje na Terra da Alegria.
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Em posts no Povo de Bahá, anteriores mencionei os simbolismos nas palavras que os evangelistas atribuem a Jesus e as interpretações simbólicas de S. Paulo. Mas é óbvio que alguns versículos das Escrituras contêm um significado literal. Por exemplo: "Não matarás" [Ex. 20:13] tem um significado literal. No entanto, o significado e a razão desta lei envolvem um significado espiritual intrínseco.

Existem outras passagens dos textos sagrados em que podemos reconhecer simbolismos, mas dificilmente compreendemos os respectivos significados. Por exemplo, quando Cristo se refere à Sua segunda vinda, são-lhe atribuidas as seguintes palavras: "Logo após a aflição daqueles dias, o Sol obscurecer-se-á, a Lua não dará a sua luz, as estrelas cairão do céu e as forças do céu serão abaladas" [Mt 24:29]. Os Cristãos discordam entre si sobre o significado deste versículo, demonstrando com isso - tal como disse Bahá'u'lláh - que o seu significado está oculto e velado. Neste caso específico, é impossível aceitar um significado literal, a menos que deixemos de acreditar na ciência. E mesmo que um Cristão reconheça que estas palavras são simbólicas, é difícil determinar com absoluta certeza o que elas significam.

Para nos ajudar a compreender os significados interiores das Escrituras, Bahá'u'lláh explicou-nos que os Manifestantes de Deus e os Apóstolos têm uma linguagem dupla: "É evidente a ti que as Aves do Céu e as pombas da eternidade falam um linguagem dupla". Uma, explica Bahá'u'lláh, é "a linguagem exterior", que é "destituída de alusões, ocultação ou véu". A outra linguagem é "velada e oculta".

Podemos então questionar: Para que servem os simbolismos? Não serão apenas meras figuras de estilo literário? E porque é que o texto sagrado não indica claramente quais são as passagens que devem ser interpretadas simbolicamente e quais devem ser interpretadas literalmente? A resposta a estas questões encontram-se nos próprios Livros Sagrados.

Cristo afirmou que falava em parábolas para que aqueles que têm sensibilidade espiritual e aqueles que procuram a verdade divina possam descobrir o seu significado, e aqueles que não são receptivos ou não procuram conhecimento espiritual não consigam apreciar o significado dos Seus ensinamentos [Mc 4:10-12; Mt 13:13- 16]. Por outro lado, o autor da Epístola aos Hebreus assegura que existe um propósito no modo como a Escritura é apresentada, isto é, mostrar as intenções do coração:
Porque a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes; penetra até dividir a alma e o corpo, as junturas e as medulas e discerne os pensamentos e intenções do coração. [Heb 4:12]
Talvez fosse à Palavra de Deus - essa linguagem dupla - que Jesus se referiu quando afirmou: "Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada" [Mt 10:34]. Neste versículo, entendo o termo “espada” como simbolizando algo que corta e separa; não como instrumento de guerra ou agressão (mas isto é apenas uma interpretação pessoal).

Tal como a Bíblia, também as Escrituras Bahá'ís asseguram que Deus utiliza linguagem simbólica e alegórica para testar os Seus servos, e não para os confundir ou impedir de compreender. Deus deu às Escrituras significados ocultos e dotou os seres humanos de capacidade para as compreender.

Além deste objectivo da linguagem simbólica, devemos ter presente outro aspecto: uma decisão de fé baseia-se no exercício da livre vontade do indivíduo. Se todo o texto sagrado tivesse apenas significados literais, isso implicaria a ocorrência de fenómenos tão extraordinários, que todos os seres humanos que os testemunhassem se veriam impedidos de exercer o livre exercício da sua livre vontade.

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NOTA
[1] - Bahá'u'lláh, O Livro da Certeza, pag 155.