quarta-feira, 13 de julho de 2005

O meu Profeta sofreu mais que o teu

Um familiar disse-me há dias: "Como é que o sofrimento de Bahá'u'lláh pode ser comparado à morte de Jesus na cruz? É certo que Bahá'u'lláh sofreu, mas Cristo foi crucificado!". Não é a primeira vez que numa conversa (e até em comentários neste blog) percebo em alguns cristãos uma certa mentalidade de "o meu Profeta sofreu mais que o teu".

É uma postura estranha, mas que se compreende pelo facto da mentalidade religiosa portuguesa durante muito tempo ter sido condicionada por conceitos teológicos em que se considera que a perfeição de Cristo se deve ao Seu sofrimento; este conceito, alargado a toda a actividade humana, pretende levar à conclusão que tudo na vida apenas se consegue com sofrimento.

Olhando para a história das grandes religiões mundiais, percebemos que todos os Profetas enfrentaram oposição, foram rejeitados e perseguidos. Independentemente de qualquer tentativa de quantificação ou tipo do sacrifício, Eles assumem uma missão cujo propósito é regenerar a vida espiritual e material dos povos a que Se dirigem (este objectivo também é descrito em termos como "salvação do mundo" e "remissão dos pecados"); essa missão é o motivo dos sofrimentos a que Eles são sujeitos.

Mas imagine-se, por hipótese académica, que os fundadores das grandes religiões mundiais nunca tinham sofrido? Será que isso alteraria a Sua condição de Profetas? Para mim é claro que mais importante que o sofrimento dos Profetas, são os Seus ensinamentos e os Seus exemplos de vida. É isso que tem o poder de transformar o mundo.

Terra da Alegria

Hoje é dia de Terra da Alegria.

segunda-feira, 11 de julho de 2005

Os Atentados de Londres(3)

No dia seguinte aos atentados, o Jornal de Notícias titulava: "O medo voltou". Por vezes tenho a sensação que os media gostam de criar medo nas suas audiências. Medo do terrorismo, medo do declínio moral, medo da desintegração social, medo da decadência e fanatismo religioso, medo de tantas doenças físicas e psíquicas da sociedade moderna.

As reacções a todos estes medos são diversas. Há quem sonhe num regresso a um passado utópico; há quem prefira refugiar-se em álcool ou drogas; e outros desejam uma solução apocalíptica que simplifique toda a existência. A violência verbal com que hoje se debatem assuntos como manipulação genética, casamento de homossexuais e lésbicas e utilização de energia nuclear, parecem mais uma manifestação de medo e apreensão perante o desconhecido, do que uma postura séria, racional equilibrada perante os factos.

Neste cenário é legítima a pergunta: estará a civilização em risco? É uma pergunta tão velha quanto a própria civilização. Segundo a perspectiva baha’i, a humanidade evolui através de transformações cíclicas (é um conceito que também existe no Hinduísmo e no Budismo). Ao contrário da escatologia cristã onde se aguarda o "fim dos tempos" (e a segunda vinda de Cristo), os ensinamentos baha'is mostram-nos que estes ciclos de transformação se iniciam com um aparecimento de um Profeta; a Sua mensagem é geradora de um novo impulso espiritual e material, a que inevitavelmente se sucedem o declínio e o colapso.

Assim, como baha'i vivendo nesta sociedade aparentemente sitiada pelo medo, é impossível não recordar as palavras de Sto Agostinho aos habitantes de Cartago quando lhe descreviam as invasões bárbaras do império romano como sendo "o fim do mundo". O santo respondia. "Não é o fim do mundo; é o princípio de um mundo novo".

Terra da Alegria

Hoje é dia de Terra da Alegria!

domingo, 10 de julho de 2005

sexta-feira, 8 de julho de 2005

O Atentado de Londres (2)

Após os atentados terroristas de ontem, o desejo de vingança pode ser uma reacção natural; mas, acima de tudo, é uma reacção destrutiva. O desejo de vingança leva a que se atinjam pessoas inocentes ou a que se cometam novos actos de terrorismo. A vingança é um acto impulsivo e irracional. Pelo contrário, a justiça é um acto deliberado que se pretende seja exercido de acordo com os factos. E é ao Estado que compete o exercício da justiça.

Notei como Tony Blair se apressou a fazer a distinção entre os autores dos atentados em Londres e a comunidade muçulmana. Foi uma atitude muito sensata. Na verdade, o Islão, é mal conhecido no Mundo Ocidental. Quanto mais soubermos sobre o Islão e a sua história, melhor compreenderemos que quem comete este tipo de actos não segue os seus ensinamentos, tal como aqueles que colocam bombas em clínicas que praticam abortos invocando o nome de Jesus também não seguem os Seus ensinamentos.

Na ressaca destes actos terroristas em Londres, a ignorância, o preconceito e o desejo de vingança podem ser incentivos para ataques contra muçulmanos inocentes. Depois das famílias afectadas pela tragédia de ontem, a imensa maioria da comunidade muçulmana - que, tal como nós, ficou chocada com o ataque - merece o nosso apoio.

Aos leitores deste blog, convido-os a ler um bom livro sobre o Islão.

O Atentado em Londres(1)

Darfur, Uganda e Zimbabwe, o caos iraquiano e agora mais um ataque terrorista numa grande capital: Londres. Os pormenores da notícia vão surgindo e surge inevitávelmente uma espécie de choque emocional: raiva, ódio, desejo de vingança, dor, e medo.

Por vezes basta ouvir um noticiário ou ler uns títulos de qualquer jornal para pensarmos se a humanidade não está cercada. Estaremos cercados por inimigos mais numerosos e diversificados do que estávamos anteriormente? Ou será que agora estamos mais conscientes destes problemas do que em tempos passados? Provavelmente é um misto das duas coisas.



O terrorismo não é algo de novo. A corrupção e os ciclos económicos também não são novidades. E mesmo os déspotas, tiranos e conflitos internacionais sempre tiveram a sua quota de atenção nos noticiários. Mas de alguma forma estas ameaças parecem ter uma nova dimensão. A tecnologia sempre em evolução e a crescente interdependência entre os povos do mundo alteraram o cenário de tal forma que este tipo de ameaça, apesar de não ser novo, é significativamente diferente no âmbito e na dimensão.

Quem lê regularmente Baghdad Burning perceberá que os atentados terroristas afectam a população civil iraquiana com muita regularidade. Afinal porquê tanta emoção com os sofrimento dos londrinos? Serão eles superiores ao iraquianos ou será que o sofrimento dos civis iraquianos se tornou demasiado rotineiro? É certo que Londres está mais perto de Lisboa do que Bagdade; e também há mais portugueses com ligações e afinidades com os britânicos do que com os iraquianos. Mas o sofrimento humano com um acto destes não deveria merecer igual simpatia de todos nós?

Sejamos claros: um ataque contra civis - seja ele em Londres, Nairobi, Nova Iorque ou Bagdade - é um acto de enorme cobardia. E se considerarmos a diversidade dos povos que habitam nestas cidades, podemos mesmo considerá-los um ataque contra a humanidade. Foi o que aconteceu ontem em Londres.

segunda-feira, 4 de julho de 2005

domingo, 3 de julho de 2005

sexta-feira, 1 de julho de 2005

O Islão e as Minorias

O texto seguinte é uma tradução/adaptação (feita à pressa) de um artigo que surgiu recentemente no Iranian.com. É de autoria de Christopher Buck, professor na Michigan State University. Este texto apresenta apenas os parágrafos iniciais de um artigo mais vasto intitulado Islam & minorities: The case of the Bahais. O texto completo desse artigo encontra-se aqui (em inglês) e aqui (em persa).

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De todas as minorias religiosas no Médio Oriente, os Baha'is são tipicamente os menos capazes de praticar livremente a sua religião. Com algumas excepções notáveis, no Médio Oriente moderno, e nos países Muçulmanos em geral, os baha'is não podem promover abertamente a sua religião.

No entanto, os governos do Paquistão e do Bangla Desh permitem que os Baha’is realizem reuniões públicas, divulguem publicamente a Fé, criem centros baha’is, e elejam conselhos administrativos (conhecidos como "Assembleias Espirituais" nacionais ou locais). Além disso, no Paquistão, representantes de entidades governamentais têm comparecido ocasionalmente em eventos nos centros baha’is. E na Indonésia, após várias décadas de crescimento sereno, a religião está reconhecida legalmente e os seus aderentes são livres para eleger as assembleias espirituais (conselhos administrativos).

Na Turquia, a Fé Baha'i é legal há décadas. A Comunidade Baha'i também tem estatuto legal na Albânia e na maioria das nações da Ásia Central. Durante os últimos anos, uma vaga de artigos e diálogos surgidos nos media de língua persa nos Estados Unidos começaram a falar abertamente sobre a situação dos baha’is no Irão, tendo alguns predito que na futura sociedade civil iraniana, até os baha'is devem ter liberdade de religião. Além disso, vários académicos iranianos não-baha'is estão a começar a falar de uma conspiração de silêncio contra esta religião.

A evidência, na forma de feedback de ouvintes, mostra que uma vasta audiência no Irão ouve diariamente as emissões baha'is, em língua persa, por onda curta e satélite. No entanto, falar de assuntos de estado no que toca a governos que implementaram medidas anti-baha’i é algo sensível e deve ser abordado com um certo grau de delicadeza.

Criticar um estado islâmico onde existe um pequeno enclave baha’i pode literalmente pôr em perigo essa comunidade. A liberdade de religião que possam usufruir é precária. Na melhor das hipóteses, os baha'is poderão levar uma existência virtualmente clandestina. Na pior, nos casos extremos em que as instituições foram proscritas por lei, os baha'is dissolveram os seus conselhos administrativos eleitos em obediência ao princípio baha'i de obediência aos "governos justos" e à lei do país.

Como os baha'is estão proibidos de agir contra os seus respectivos governos, seria imprudente – e até perigoso – fazer um inventário da situação país por país. No entanto, a Republica Islâmica do Irão é um caso especial, pois as suas políticas anti-baha'i são notórias e foram abertamente condenadas pela comunidade internacional durante quase um quarto de século. Esta notoriedade, tal como no caso Salman Rushdie, tem resultado em muita pressão negativa sobre o Irão, enquanto país, e, infelizmente, sobre o Islão, enquanto religião, apesar da prática do Islão no Irão ser peculiar devido à sua forma de Xiismo.

Este artigo mostrará que "a questão baha'i" levanta sérias questões no Ocidente sobre o quão "tolerante" o Islão realmente é. Poder-se-á dizer que as percepções populares do Islão serão crescentemente moldadas pela forma como os países Muçulmanos tratam as suas minorias, especialmente as minorias religiosas. O caso Baha'i, com a possível excepção dos Ahmadiyyah no Paquistão, é o primeiro caso de teste para as pretensões islâmicas de tolerância religiosa.

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ACTUALIZAÇÃO- Exemplos de artigos recentes de autoria de iranianos onde é feita alguma referência à situação dos baha’is no Irão:

* Public Letter for the attention of G-8 summit in Scotland, pelo SMCCDI (estudantes iranianos)
* Why Allah, Oh Why? por Ahmed Simon

Barnabé

O Barnabé vai acabar no domingo. É pena. Era uma das minhas visitas diárias. Fico à espera que alguns dos seus colaboradores (especialmente, o Daniel Oliveira) reapareçam brevemente na blogosfera.