sexta-feira, 30 de setembro de 2005
Visions of Science
Visions of Science Photographic Awards. Uma iniciativa da Novartis e do The Daily Telegraph com foto-reportagem na BBC.
quinta-feira, 29 de setembro de 2005
Kitáb-i-Íqán (3)
Deus, a Essência Incognoscível
Abraão, ao apresentar um conceito de uma divindade transcendente (que não se identificava com um ídolo ou uma imagem) tornou mais difícil a resposta à pergunta “o que é Deus?”. Como pode o ser humano perceber uma realidade que o transcende? E se a Divindade não se identifica com nada do que conhecemos, como pode a Sua existência pode ser provada pela ciência ou pela razão?
Os sucessivos Profetas fundadores das grandes religiões mundiais afirmaram a existência de Deus de diferentes maneiras, de acordo com a capacidade de compreensão dos povos a quem Se dirigiam. Isto é claramente perceptível no Judaísmo, no Cristianismo e no Islão; nestas três grandes religiões o conceito de Divindade Única e Transcendente é comum apesar de cada um dos Seus Fundadores ter feito essa proclamação com termos e expressões adequados à cultura e maturidade dos povos que Os ouviram.
Sendo o Kitáb-i-Iqán um livro essencialmente de carácter teológico, é com alguma naturalidade que ali encontramos uma significativa referência a este tema. O fundador da religião bahá’í afirma o seguinte sobre o Criador:
Shoghi Effendi (bisneto de Bahá'u'lláh) ao descrever os múltiplos temas do Kitáb-i-Iqán, começa por dizer que Bahá'u'lláh "proclama inequivocamente a existência e a unicidade de um Deus pessoal, Incognoscível, Omnisciente, Inacessível, Omnipresente, Fonte de toda a Revelação, Todo-Poderoso e Eterno"(c). Esta frase resume de forma clara e sucinta o conceito de Deus na religião baha’i. Os significados dos termos usados por Shoghi Effendi são relativamente fáceis de perceber, com excepção do primeiro ("Deus pessoal"). O próprio Guardião esclareceu este conceito:
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NOTAS
(a) – Nas escrituras Baha’is, a expressão "essência incognoscível" é usada com frequência para fazer referência a Deus. O próprio Báb usa esta expressão: "Nenhuma criatura jamais Te poderá compreender de um modo condizente com a realidade de Teu santo Ser, nem poderá jamais um servo Te adorar de uma maneira digna de Tua incognoscível Essência. "
(b) - Bahá'u'lláh, Prayers and Meditations, pag. 123.
(c) - Shoghi Effendi, A Presença de Deus, pag. 200.
(d) - Shoghi Effendi, 21 Abril, 1939, Lights of Guidance.
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Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo citado. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.
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Abraão, ao apresentar um conceito de uma divindade transcendente (que não se identificava com um ídolo ou uma imagem) tornou mais difícil a resposta à pergunta “o que é Deus?”. Como pode o ser humano perceber uma realidade que o transcende? E se a Divindade não se identifica com nada do que conhecemos, como pode a Sua existência pode ser provada pela ciência ou pela razão?
Os sucessivos Profetas fundadores das grandes religiões mundiais afirmaram a existência de Deus de diferentes maneiras, de acordo com a capacidade de compreensão dos povos a quem Se dirigiam. Isto é claramente perceptível no Judaísmo, no Cristianismo e no Islão; nestas três grandes religiões o conceito de Divindade Única e Transcendente é comum apesar de cada um dos Seus Fundadores ter feito essa proclamação com termos e expressões adequados à cultura e maturidade dos povos que Os ouviram.
Sendo o Kitáb-i-Iqán um livro essencialmente de carácter teológico, é com alguma naturalidade que ali encontramos uma significativa referência a este tema. O fundador da religião bahá’í afirma o seguinte sobre o Criador:
É evidente a todo coração iluminado e possuidor de discernimento, que Deus, a Essência incognoscível(a), o Ser Divino, é imensamente elevado além de todos os atributos humanos, tais como existência corpórea, ascensão e descida, saída e regresso. Longe esteja de Sua glória que a língua humana celebre adequadamente Seu louvor, ou o coração humano compreenda o Seu insondável mistério. Ele está, e sempre esteve, velado na eternidade antiga da Sua Essência, e permanecerá na Sua Realidade, para todo o sempre, escondido da vista dos homens... Nenhum laço de relação directa pode, em absoluto, ligá-Lo às Suas criaturas. Ele mantém-se elevado além e acima de toda separação e união, toda proximidade e todo afastamento. Nenhum sinal pode indicar Sua presença ou Sua ausência... [104]No Kitáb-i-Iqán, Bahá'u'lláh afirma que os próprios Profetas e Sábios reconhecem a sua incapacidade para compreender a realidade Divina. Quanto a quem afirma ter conhecido Deus, Bahá'u'lláh escreveu numa outra epístola "Quem afirmar que Te conheceu, em virtude de tal afirmação, terá dado testemunho da sua própria ignorância; e de quem acreditar que Te alcançou, todos os átomos da terra darão testemunho da sua incapacidade e proclamarão o seu falhanço"(b).
Shoghi Effendi (bisneto de Bahá'u'lláh) ao descrever os múltiplos temas do Kitáb-i-Iqán, começa por dizer que Bahá'u'lláh "proclama inequivocamente a existência e a unicidade de um Deus pessoal, Incognoscível, Omnisciente, Inacessível, Omnipresente, Fonte de toda a Revelação, Todo-Poderoso e Eterno"(c). Esta frase resume de forma clara e sucinta o conceito de Deus na religião baha’i. Os significados dos termos usados por Shoghi Effendi são relativamente fáceis de perceber, com excepção do primeiro ("Deus pessoal"). O próprio Guardião esclareceu este conceito:
O que se pretende dizer por Deus pessoal é que se trata de um Deus consciente da Sua Criação, que tem uma Mente, uma Vontade, um Propósito, e não é, tal como muitos cientistas e materialistas acreditam, uma força inconsciente e determinada que opera o universo. Uma tal concepção do Ser Divino como realidade suprema e sempre presente em todo o mundo, não é antropomórfica, pois transcende todas as limitações e formas humanas, e de forma alguma tenta definir a essência da Divindade, que, obviamente, esta para lá de qualquer compreensão humana. Dizer que Deus é uma realidade pessoal não significa que Ele tenha uma forma física, nem que de forma alguma se assemelha a um ser humano. Defender uma crença assim seria pura blasfémia. (d)
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NOTAS
(a) – Nas escrituras Baha’is, a expressão "essência incognoscível" é usada com frequência para fazer referência a Deus. O próprio Báb usa esta expressão: "Nenhuma criatura jamais Te poderá compreender de um modo condizente com a realidade de Teu santo Ser, nem poderá jamais um servo Te adorar de uma maneira digna de Tua incognoscível Essência. "
(b) - Bahá'u'lláh, Prayers and Meditations, pag. 123.
(c) - Shoghi Effendi, A Presença de Deus, pag. 200.
(d) - Shoghi Effendi, 21 Abril, 1939, Lights of Guidance.
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Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo citado. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.
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quarta-feira, 28 de setembro de 2005
terça-feira, 27 de setembro de 2005
segunda-feira, 26 de setembro de 2005
Jesus e Maomé: Palavras Comuns
O meu texto de hoje na Terra da Alegria.
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Quando passei pelo liceu, frequentei as aulas de Moral e Religião. Houve um dos anos lectivos em que a professora perguntou que temas gostaríamos de ver abordados. Alguém sugeriu que se falasse de outras religiões. E assim foi. Recebemos um pequeno livro com a declaração do Vaticano II sobre as religiões não-cristãs, e durante algumas semanas ouvimos falar sobre Buda e Maomé. A mais de vinte anos de distância dessas aulas percebo que a experiência de vida da professora (tinha passado vários anos no Vietname e, provavelmente, era uma entusiasta do Vaticano II) permitiram-lhe a abertura mental necessária para aquelas aulas sobre outras religiões.
Assim, é com naturalidade que subscrevo a ideia do Miguel Marujo que na última edição da Terra da Alegria sugeriu que as aulas de Educação Moral e Religiosa fossem um espaço de aprendizagem sobre cada uma das religiões. Fazer deste espaço lectivo, um momento de diálogo inter-religioso, de aprendizagem das semelhanças e diferenças nos ensinamentos das grandes religiões mundiais, é uma forma da escola dar o seu contributo para a construção de uma sociedade multicultural onde as diferentes comunidades religiosas convivem em harmonia.
A este propósito, e para todos os apoiantes do diálogo inter-religioso, gostaria de chamar a atenção para um livro recentemente pela editora Estrela Polar intitulado Jesus e Maomé: Palavras Comuns. Da autoria de um judeu, e prefaciado por um muçulmano e por um cristão, o livro apresenta as semelhanças entre os ensinamentos de Jesus e os ensinamentos de Maomé.
Organizado por temas - como Deus, a Fé, o Amor, a Sabedoria, a Lei, o Pecado, e a Jihad - o livro vai expondo sucessivas citações de palavras de Jesus e Maomé; o paralelismo é impressionante, e torna-se evidente que estas duas religiões possuem o mesmo fundamento espiritual e moral (não obstante algumas diferenças de ensinamentos que são apontadas nas últimas páginas).
Para despertar a vossa curiosidade, aqui ficam algumas citações:
Amai os vosso inimigos e orai pelos que vos perseguem para poderdes ser filhos do vosso Pai no céu. (Mateus 5:44-45)
Não vos odieis uns aos outros e não tenhais inveja uns dos outros e não vos boicoteis uns aos outros, e sede servos de Deus como irmãos. (Hadith de Bukhari 78:57)
Se alguém te bater na face direita, vira para ele também a esquerda. (Mateus 5:39)
O homem forte não é o bom lutador; o homem forte é somente aquele que se controla quando está irado. (Hadith de Bukhari 73:135)
O céu e a terra perecerão, mas as Minhas palavras nunca perecerão. (Marcos 13:31)
Tudo na terra perecerá, mas o rosto do vosso Senhor permanecerá resplandecente de majestade e glória. (Alcorão 55:26-27)
Porque me chamas bom? Ninguém é bom, a não ser Deus. (Marcos 10:18)
Diz, Sou apenas um homem como vós. Foi-me revelado que o vosso Deus é um Deus. Que pratique o bem aquele que espera encontrar o seu Senhor. (Alcorão 18:110)
É mais fácil para um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que para um homem rico entrar no reino de Deus. (Marcos 10:25)
Para aqueles que rejeitas os Nossos sinais e arrogantemente lhes viram as costas, as portas do céu não serão abertas, nem entrarão pelo paraíso enquanto o camelo não passar pelo buraco da agulha. (Alcorão 7:40)
Embora vejam, não vêem; embora ouçam, não ouvem nem compreendem. (Mateus 13:13)
Eles têm corações com os quais não compreendem, e têm olhos com os quais não vêem, e têm ouvidos com os quais não ouvem. (Alcorão 7:179)
E, quando orares, não sejas como os hipócritas, pois eles adoram orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelo homens. (Mateus 6:5)
Os hipócritas querem enganar Deus, mas Ele é que os enganar! Quando se levantam para orar, levantam-se descuidadamente, para serem vistos pelos homens e lembram-se pouco de Deus. (Alcorão 4:142)
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Quando passei pelo liceu, frequentei as aulas de Moral e Religião. Houve um dos anos lectivos em que a professora perguntou que temas gostaríamos de ver abordados. Alguém sugeriu que se falasse de outras religiões. E assim foi. Recebemos um pequeno livro com a declaração do Vaticano II sobre as religiões não-cristãs, e durante algumas semanas ouvimos falar sobre Buda e Maomé. A mais de vinte anos de distância dessas aulas percebo que a experiência de vida da professora (tinha passado vários anos no Vietname e, provavelmente, era uma entusiasta do Vaticano II) permitiram-lhe a abertura mental necessária para aquelas aulas sobre outras religiões.
Assim, é com naturalidade que subscrevo a ideia do Miguel Marujo que na última edição da Terra da Alegria sugeriu que as aulas de Educação Moral e Religiosa fossem um espaço de aprendizagem sobre cada uma das religiões. Fazer deste espaço lectivo, um momento de diálogo inter-religioso, de aprendizagem das semelhanças e diferenças nos ensinamentos das grandes religiões mundiais, é uma forma da escola dar o seu contributo para a construção de uma sociedade multicultural onde as diferentes comunidades religiosas convivem em harmonia.A este propósito, e para todos os apoiantes do diálogo inter-religioso, gostaria de chamar a atenção para um livro recentemente pela editora Estrela Polar intitulado Jesus e Maomé: Palavras Comuns. Da autoria de um judeu, e prefaciado por um muçulmano e por um cristão, o livro apresenta as semelhanças entre os ensinamentos de Jesus e os ensinamentos de Maomé.
Organizado por temas - como Deus, a Fé, o Amor, a Sabedoria, a Lei, o Pecado, e a Jihad - o livro vai expondo sucessivas citações de palavras de Jesus e Maomé; o paralelismo é impressionante, e torna-se evidente que estas duas religiões possuem o mesmo fundamento espiritual e moral (não obstante algumas diferenças de ensinamentos que são apontadas nas últimas páginas).
Para despertar a vossa curiosidade, aqui ficam algumas citações:
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Amai os vosso inimigos e orai pelos que vos perseguem para poderdes ser filhos do vosso Pai no céu. (Mateus 5:44-45)
Não vos odieis uns aos outros e não tenhais inveja uns dos outros e não vos boicoteis uns aos outros, e sede servos de Deus como irmãos. (Hadith de Bukhari 78:57)
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Se alguém te bater na face direita, vira para ele também a esquerda. (Mateus 5:39)
O homem forte não é o bom lutador; o homem forte é somente aquele que se controla quando está irado. (Hadith de Bukhari 73:135)
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O céu e a terra perecerão, mas as Minhas palavras nunca perecerão. (Marcos 13:31)
Tudo na terra perecerá, mas o rosto do vosso Senhor permanecerá resplandecente de majestade e glória. (Alcorão 55:26-27)
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Porque me chamas bom? Ninguém é bom, a não ser Deus. (Marcos 10:18)
Diz, Sou apenas um homem como vós. Foi-me revelado que o vosso Deus é um Deus. Que pratique o bem aquele que espera encontrar o seu Senhor. (Alcorão 18:110)
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É mais fácil para um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que para um homem rico entrar no reino de Deus. (Marcos 10:25)
Para aqueles que rejeitas os Nossos sinais e arrogantemente lhes viram as costas, as portas do céu não serão abertas, nem entrarão pelo paraíso enquanto o camelo não passar pelo buraco da agulha. (Alcorão 7:40)
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Embora vejam, não vêem; embora ouçam, não ouvem nem compreendem. (Mateus 13:13)
Eles têm corações com os quais não compreendem, e têm olhos com os quais não vêem, e têm ouvidos com os quais não ouvem. (Alcorão 7:179)
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E, quando orares, não sejas como os hipócritas, pois eles adoram orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelo homens. (Mateus 6:5)
Os hipócritas querem enganar Deus, mas Ele é que os enganar! Quando se levantam para orar, levantam-se descuidadamente, para serem vistos pelos homens e lembram-se pouco de Deus. (Alcorão 4:142)
domingo, 25 de setembro de 2005
Nas notícias...
City faiths cross Mersey in unity (BBC)
Church hosts safer Slough initiative (ICBerkshire)
Interfaith conference focuses on healing (Corvallis Gazette-times)
Church hosts safer Slough initiative (ICBerkshire)
Interfaith conference focuses on healing (Corvallis Gazette-times)
sexta-feira, 23 de setembro de 2005
A bem da Democracia
Concordo a 100% com VJS.Mas o simples facto de todos eles [Fátima Felgueiras, Avelino Ferreira Torres, Isaltino Morais e Valentim Loureiro] estarem indiciados pela prática de crimes deveria constituir um impeditivo legal, político e cívico para concorrerem a eleições.
Vicente Jorge Silva, no Diário de Notícias de hoje.
Se todos os visados por VJS pertencessem apenas a um partido político, uma afirmação destas poderia sempre ser interpretada como mais uma das muitas farpas que são lançadas nas arenas dos debates políticos. Mas tratando-se de políticos pertencentes a diferentes forças partidárias, torna-se claro que estamos na presença de um problema que afecta o sistema democrático português. A regra sugerida por VJS para corrigir este problema deveria ser um princípio elementar do nosso sistema político.
quinta-feira, 22 de setembro de 2005
Kitáb-i-Íqán (2)
Os Temas do Kitáb-i-Íqán
Devo confessar que tive dificuldades para começar a ler este livro. O estilo da escrita, a não sequencialidade dos conceitos e explicações apresentadas, e a utilização de palavras e expressões típicas de outra cultura foram provavelmente os meus grandes obstáculos para começar a compreender o Kitáb-i-Íqán(a). Mas o livro, apesar de ser dirigido a um destinatário de religião xiita e à comunidade Babí, contém muitas as passagens em que Bahá'u'lláh se dirige a toda a humanidade: "Santificai vossas almas ó povos do mundo..."[1]. Com o tempo, as minhas dificuldades desapareceram.
Tal como as cores e padrões de um tapete persa, no Kitáb-i-Íqán cruzam-se diversos temas de forma harmoniosa e eloquente. Shoghi Effendi, bisneto de Bahá'u'lláh descreve-o como "um modelo de prosa persa, com um estilo simultaneamente original, simples e vigoroso, notavelmente lúcido, e simultaneamente persuasivo e incomparável na sua irresistível eloquência"(b).
No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh começa por falar sobre os Profetas que fundaram as grandes religiões mundiais; descreve as Suas vidas e os Seus sofrimentos e demonstra a verdade das Suas Missões; ao longo dessas descrições vai assinalando aspectos comuns das Suas Religiões. Desta forma, Ele demonstra ao leitor os verdadeiros alicerces em que assenta a religião, e aquilo que devem ser consideradas provas da validade da religião do leitor. Esses mesmos critérios são depois aplicados a outras religiões, sendo o leitor levado a aplicá-los a outros Profetas e a validar os Seus ensinamentos.
A grande maioria dos seguidores das religiões mundiais, são ensinados a acreditar apenas num único Profeta, ou a venerar um Profeta acima dos outros; a sua prática religiosa tende a preocupar-se mais com a forma, do que com o conteúdo. Poder-se-ia fazer a seguinte analogia: uma pessoa pode possuir um pequena peça de outro e saber que possui um grande valor; no entanto, essa mesma pessoa pode ser incapaz perceber o valor de outra peça de ouro apenas porque tem uma forma diferente (pode até ser incapaz de distinguir ouro do bronze!).
Note-se que não está em causa a sinceridade da crença pessoal de cada pessoa. A questão essencial consiste no facto das pessoas se agarrarem a algo que consideram ser a sua religião e, de alguma forma, ignorarem as verdadeiras provas da veracidade do fundador da sua religião; este facto deixa-as incapazes de compreender as provas da veracidade dos fundadores de outras religiões.
Os temas do Kitáb-i-Íqán são tão diversos como a existência de Deus, a relatividade e continuidade da revelação divina, a semelhança dos ensinamentos fundamentais dos Profetas fundadores das religiões, e a explicação de excertos alegóricos do Novo Testamento e do Alcorão (descreve-se o significado de termos e expressões como "Ressurreição", "Dia do Juízo", "Sêlo dos Profetas" e outros) . Estes temas são ainda cruzados com outros, tais como a denúncia da perversidade dos sacerdotes e doutores de cada era, e ainda o elogio à Virgem Maria e ao Iman Hussein. Por fim afirma-se a demonstra-se a veracidade da Mensagem do Báb e enaltece-se a coragem dos Seus primeiros discípulos.
Para um leitor de língua portuguesa, o Kitáb-i-Íqán com o seu estilo de escrita, com o uso de nomes e expressões árabes e persas(c), e com a frequente citação de tradições islâmicas(d) com as quais estamos pouco familiarizados, aparenta ser um livro de leitura pouco fácil. Temos de ter presente que o destinatário deste livro era um muçulmano com perguntas muito específicas sobre o Báb. No entanto, é importante ter presente que Bahá'u'lláh demonstra a validade das religiões do passado, citando com alguma frequência o Antigo e o Novo Testamento(e).
No entanto, algumas das questões colocadas pelo tio do Báb encontram paralelismo no Cristianismo. Por exemplo, o facto do décimo segundo Iman estar vivo encontra paralelo no facto de muitos cristãos acreditarem que Cristo está vivo. Por outro lado, conceitos como "Ressurreição" e a descrição dos acontecimentos que devem ocorrer quando surgir o Prometido têm uma enorme semelhança nas duas religiões.
Como todos os livros sagrados, não é possível compreender o Kitáb-i-Íqán com uma única leitura. Em cada leitura, os diferentes temas sucedem-se, e a sua riqueza vai-se revelando gradualmente. Sucessivas leituras deste livro permitirão não só compreender melhor os assuntos, mas também descobrir novos temas e significados. Como alguém disse, ler este livro é iniciar uma caminhada em direcção à descoberta da vontade divina
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NOTAS
(a) - O texto completo (em inglês) está disponível aqui na Bahai Reference Library. Particularmente útil para o estudo do Kitab-í-Íqan, é o livro de Hooper Dunbar, A Companion to the Study of the Kitáb-i-Íqán. Neste aspecto também merece destaque o trabalho do prof. Christopher Buck: The Kitab-i Iqan: An Introduction to Bahá'u'lláh's Book of Certitude
(b) - God Passes By, pag. 138-139.
(c) - No final do Kitáb-i-Íqán existe um glossário com nomes e termos pouco comuns.
(d) - Talvez a mais curiosa tradição referida seja o facto de Jesus ter "ascendido ao quarto céu"[98]. Segundo a tradição xiita, o céu está dividido em sete partes e Jesus quando morreu ascendeu ao quarto céu. Na minha opinião, a frase é feita em função do enquadramento cultural e religioso do tio do Báb, que era o destinatário do livro. É fácil imaginar que se o tio do Báb fosse cristão, Bahá'u'lláh poderia referir que "Jesus está sentado à direita do Pai". (mas isto é uma opinião muito pessoal!)
(e) – Sobre as aplicações do Kitáb-i-Íqán ao Cristianismo ver The Kitab-i-Iqan: The Key to Unsealing the Mysteries of the Holy Bible, de Brent Poirier
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Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo citado. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.
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Devo confessar que tive dificuldades para começar a ler este livro. O estilo da escrita, a não sequencialidade dos conceitos e explicações apresentadas, e a utilização de palavras e expressões típicas de outra cultura foram provavelmente os meus grandes obstáculos para começar a compreender o Kitáb-i-Íqán(a). Mas o livro, apesar de ser dirigido a um destinatário de religião xiita e à comunidade Babí, contém muitas as passagens em que Bahá'u'lláh se dirige a toda a humanidade: "Santificai vossas almas ó povos do mundo..."[1]. Com o tempo, as minhas dificuldades desapareceram.
Tal como as cores e padrões de um tapete persa, no Kitáb-i-Íqán cruzam-se diversos temas de forma harmoniosa e eloquente. Shoghi Effendi, bisneto de Bahá'u'lláh descreve-o como "um modelo de prosa persa, com um estilo simultaneamente original, simples e vigoroso, notavelmente lúcido, e simultaneamente persuasivo e incomparável na sua irresistível eloquência"(b).No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh começa por falar sobre os Profetas que fundaram as grandes religiões mundiais; descreve as Suas vidas e os Seus sofrimentos e demonstra a verdade das Suas Missões; ao longo dessas descrições vai assinalando aspectos comuns das Suas Religiões. Desta forma, Ele demonstra ao leitor os verdadeiros alicerces em que assenta a religião, e aquilo que devem ser consideradas provas da validade da religião do leitor. Esses mesmos critérios são depois aplicados a outras religiões, sendo o leitor levado a aplicá-los a outros Profetas e a validar os Seus ensinamentos.
A grande maioria dos seguidores das religiões mundiais, são ensinados a acreditar apenas num único Profeta, ou a venerar um Profeta acima dos outros; a sua prática religiosa tende a preocupar-se mais com a forma, do que com o conteúdo. Poder-se-ia fazer a seguinte analogia: uma pessoa pode possuir um pequena peça de outro e saber que possui um grande valor; no entanto, essa mesma pessoa pode ser incapaz perceber o valor de outra peça de ouro apenas porque tem uma forma diferente (pode até ser incapaz de distinguir ouro do bronze!).
Note-se que não está em causa a sinceridade da crença pessoal de cada pessoa. A questão essencial consiste no facto das pessoas se agarrarem a algo que consideram ser a sua religião e, de alguma forma, ignorarem as verdadeiras provas da veracidade do fundador da sua religião; este facto deixa-as incapazes de compreender as provas da veracidade dos fundadores de outras religiões.
Os temas do Kitáb-i-Íqán são tão diversos como a existência de Deus, a relatividade e continuidade da revelação divina, a semelhança dos ensinamentos fundamentais dos Profetas fundadores das religiões, e a explicação de excertos alegóricos do Novo Testamento e do Alcorão (descreve-se o significado de termos e expressões como "Ressurreição", "Dia do Juízo", "Sêlo dos Profetas" e outros) . Estes temas são ainda cruzados com outros, tais como a denúncia da perversidade dos sacerdotes e doutores de cada era, e ainda o elogio à Virgem Maria e ao Iman Hussein. Por fim afirma-se a demonstra-se a veracidade da Mensagem do Báb e enaltece-se a coragem dos Seus primeiros discípulos.
Para um leitor de língua portuguesa, o Kitáb-i-Íqán com o seu estilo de escrita, com o uso de nomes e expressões árabes e persas(c), e com a frequente citação de tradições islâmicas(d) com as quais estamos pouco familiarizados, aparenta ser um livro de leitura pouco fácil. Temos de ter presente que o destinatário deste livro era um muçulmano com perguntas muito específicas sobre o Báb. No entanto, é importante ter presente que Bahá'u'lláh demonstra a validade das religiões do passado, citando com alguma frequência o Antigo e o Novo Testamento(e).
No entanto, algumas das questões colocadas pelo tio do Báb encontram paralelismo no Cristianismo. Por exemplo, o facto do décimo segundo Iman estar vivo encontra paralelo no facto de muitos cristãos acreditarem que Cristo está vivo. Por outro lado, conceitos como "Ressurreição" e a descrição dos acontecimentos que devem ocorrer quando surgir o Prometido têm uma enorme semelhança nas duas religiões.
Como todos os livros sagrados, não é possível compreender o Kitáb-i-Íqán com uma única leitura. Em cada leitura, os diferentes temas sucedem-se, e a sua riqueza vai-se revelando gradualmente. Sucessivas leituras deste livro permitirão não só compreender melhor os assuntos, mas também descobrir novos temas e significados. Como alguém disse, ler este livro é iniciar uma caminhada em direcção à descoberta da vontade divina
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NOTAS
(a) - O texto completo (em inglês) está disponível aqui na Bahai Reference Library. Particularmente útil para o estudo do Kitab-í-Íqan, é o livro de Hooper Dunbar, A Companion to the Study of the Kitáb-i-Íqán. Neste aspecto também merece destaque o trabalho do prof. Christopher Buck: The Kitab-i Iqan: An Introduction to Bahá'u'lláh's Book of Certitude
(b) - God Passes By, pag. 138-139.
(c) - No final do Kitáb-i-Íqán existe um glossário com nomes e termos pouco comuns.
(d) - Talvez a mais curiosa tradição referida seja o facto de Jesus ter "ascendido ao quarto céu"[98]. Segundo a tradição xiita, o céu está dividido em sete partes e Jesus quando morreu ascendeu ao quarto céu. Na minha opinião, a frase é feita em função do enquadramento cultural e religioso do tio do Báb, que era o destinatário do livro. É fácil imaginar que se o tio do Báb fosse cristão, Bahá'u'lláh poderia referir que "Jesus está sentado à direita do Pai". (mas isto é uma opinião muito pessoal!)
(e) – Sobre as aplicações do Kitáb-i-Íqán ao Cristianismo ver The Kitab-i-Iqan: The Key to Unsealing the Mysteries of the Holy Bible, de Brent Poirier
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Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo citado. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.
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quarta-feira, 21 de setembro de 2005
terça-feira, 20 de setembro de 2005
Notas e Fotos de Viagem
Centro Baha'i de Londres



Livros
Ao olhar para os títulos de livros que se vendem no Centro Baha'i de Londres percebi duas tendências claras entre as publicações dos últimos anos. A primeira é a quantidade de livros com estudos comparativos de religiões; a segunda são os livros de memórias de pessoas que conviveram, ou conheceram, com alguma das Figuras Centrais da religião baha'i.
Mais tarde na livraria Waterstone demorei-me nas secções de religião e história. Nas estantes dedicadas ao Islão destaca-se o livro An Introduction to Shi'i Islam, de Moojan Momen. É irónico que o que parece ser um dos mais referenciados livros de introdução ao Islão xiita tenha sido escrito por um baha'i.
Cemitério

Pela primeira vez visitei o cemitério onde está sepultado Shoghi Effendi. Não sabia que era um cemitério multi-religioso. Os túmulos dos chineses, com tinir dos "espanta-espíritos", dão uma sensação estranha quando se entra. As diferentes áreas do cemitério não estão rigorosamente delimitadas. É possível encontra uma campa com inscrições em persa no meio de campas cristãs; encontram-se campas com inscrições em cirílico por entre as campas baha'is. O local tem a tranquilidade normal dos cemitérios; apenas se ouvia o vento e alguns pássaros; por vezes, lá aparecia um esquilo. Depois de fazer as minhas orações junto da campa de Shoghi Effendi, notei que sobre esta estavam algumas sementes caídas de uma árvore ali próximo. Trouxe-as comigo.



Livros
Ao olhar para os títulos de livros que se vendem no Centro Baha'i de Londres percebi duas tendências claras entre as publicações dos últimos anos. A primeira é a quantidade de livros com estudos comparativos de religiões; a segunda são os livros de memórias de pessoas que conviveram, ou conheceram, com alguma das Figuras Centrais da religião baha'i.
Mais tarde na livraria Waterstone demorei-me nas secções de religião e história. Nas estantes dedicadas ao Islão destaca-se o livro An Introduction to Shi'i Islam, de Moojan Momen. É irónico que o que parece ser um dos mais referenciados livros de introdução ao Islão xiita tenha sido escrito por um baha'i.
Cemitério

Pela primeira vez visitei o cemitério onde está sepultado Shoghi Effendi. Não sabia que era um cemitério multi-religioso. Os túmulos dos chineses, com tinir dos "espanta-espíritos", dão uma sensação estranha quando se entra. As diferentes áreas do cemitério não estão rigorosamente delimitadas. É possível encontra uma campa com inscrições em persa no meio de campas cristãs; encontram-se campas com inscrições em cirílico por entre as campas baha'is. O local tem a tranquilidade normal dos cemitérios; apenas se ouvia o vento e alguns pássaros; por vezes, lá aparecia um esquilo. Depois de fazer as minhas orações junto da campa de Shoghi Effendi, notei que sobre esta estavam algumas sementes caídas de uma árvore ali próximo. Trouxe-as comigo.
segunda-feira, 19 de setembro de 2005
Perante o Exclusivismo
O meu texto de hoje na Terra da Alegria.
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Num post anterior referi que o exclusivismo religioso não é um aspecto inerentes às religiões, mas sim uma atitude dos crentes em relação à religião e pode ter consequências nefastas no relacionamento humano. Essa atitude baseia-se no conteúdo de alguns excertos das Sagradas Escrituras. Nos parágrafos seguintes vou expor algumas reacções possíveis perante as atitudes exclusivistas dos cristãos.
A Autenticidade dos Textos
Questionar a autenticidade dos textos é talvez a mais comum (e a mais atraente!) das atitudes em relação ao exclusivismo. Há sempre quem argumente que esses textos foram adicionados às Escrituras originais. John Hick segue este tipo de argumentação e questiona se algumas passagens do Novo Testamento alguma vez teriam sido pronunciadas por Jesus Cristo[1]. Talvez por este tipo de argumentos ser frequentemente usado para questionar a pureza, a legitimidade e a autenticidade da própria religião cristã, nem sempre é levado a sério.
Sobre este assunto, a perspectiva baha'i é muito clara. 'Abdu'l-Bahá, numa conversa com um grupo de sacerdotes protestantes, em Paris, abordou o sentido dos textos e nunca questionou a sua autenticidade. Segundo as Suas palavras: "A nossa crença em Cristo é aquela que se encontra registada no Evangelho; no entanto, ao elucidamos este assunto não falamos literalmente"[2]. Também Shoghi Effendi afirmou que o Alcorão, a Bíblia e as Escrituras Baha'is podem ser considerados livros autênticos.[3]
A Representatividade dos Textos
Os textos que servem de base às atitudes exclusivistas poderão ser considerados os mais relevantes nas escrituras cristãs? Algumas comunidades cristãs (especialmente as de tendência mais conservadora) costumam extrapolar a importância dos textos exclusivistas e presumir que toda a Bíblia apenas contém textos deste género. Neste tipo de atitude enfatizam-se apenas alguns excertos das escrituras e atribui-se um carácter secundário aos restantes textos. Por exemplo, há que afirme que a mensagem do Evangelho está contida na expressão "o Filho único" (Jo 3:16) e que todo o texto deve ser encarado tendo esta expressão em mente.
Mas há também os teólogos cristãos que enfatizam os textos não-exclusivistas. O conceito judaico do Deus de Abraão soberano sobre todos os povos foi adoptado pelo Novo Testamento; um Deus e Pai de todos os povos, "a luz verdadeira que ilumina todos os homens"(Jo 1:9), que deseja que todos os homens sejam salvos (1 Tim 2:4), a quem "agrada" o que "põe em prática a justiça" (Act 10:35). Alguns chegam mesmo a argumentar que Mateus descreve Cristo como uma espécie de mediador entre Deus e a humanidade.
No Livro da Certeza, Bahá'u'lláh critica os sacerdotes muçulmanos que fazem leituras selectivas do Alcorão:
A Interpretação dos Textos
Uma terceira atitude em relação ao exclusivismo é afirmar que este se baseia em interpretações incorrectas das escrituras. Um exemplo típico deste tipo de debate é a interpretação do versículo "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém chega ao Pai salvo através de mim." (Jo 14:6). Aqui os teólogos dividem-se entre os que consideram que esta afirmação se refere ao Jesus da história, e os que consideram que é uma referência ao Cristo da fé.
Pode-se argumentar que o Jesus do Evangelho de João é diferente do Jesus dos evangelhos sinópticos. "O Jesus de João é o Jesus da fé, o Jesus da imaginação da igreja dos primeiros tempos"[6], "de reflexão espiritual do que de fiabilidade histórica"[7] . É importante ter presente que o Evangelho de João se inicia com a encarnação do Verbo e não com o nascimento de Jesus. John Cobb, um teólogo protestante defensor do diálogo inter-religioso, argumenta que é o Verbo de Deus que fala na primeira pessoa nas páginas do Evangelho de João:
------------------------NOTAS
[1] – Hick, Second Christianity, p.28
[2] - 'Abdu'l-Bahá on Christ and Christianity, pag. 8
[3] - Shoghi Effendi, citado em Lights of Guidance, nº 1033
[4] - Alcorão 2:85. Trata-se de uma acusação de Maomé aos Judeus e Cristãos do Seu tempo. No livro, Bahá'u'lláh mostra que esta acusação é agora aplicável aos próprios muçulmanos.
[5] - Kitáb-i-Íqán, parágrafo 181
[6] - Dialogue, pag. 16
[7] - Carpenter, Jesus, pag. 14
[8] - Cobb, Dialogue, pag. 16
[9] - Raimundo Pannikar, professor de religiões comparadas. Este autor afirma ainda que Cristo representa o centro de uma realidade, e que Rama e Khrishna são outros dos Seus nomes.
[10] – No livro Jesus Christ in Bahai Writings, Robert Stockman defende que, no Evangelho de João, quando Jesus fala na primeira pessoa, fá-lo na Sua condição de Manifestante de Deus e não na Sua condição humana.
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Num post anterior referi que o exclusivismo religioso não é um aspecto inerentes às religiões, mas sim uma atitude dos crentes em relação à religião e pode ter consequências nefastas no relacionamento humano. Essa atitude baseia-se no conteúdo de alguns excertos das Sagradas Escrituras. Nos parágrafos seguintes vou expor algumas reacções possíveis perante as atitudes exclusivistas dos cristãos.
A Autenticidade dos Textos
Questionar a autenticidade dos textos é talvez a mais comum (e a mais atraente!) das atitudes em relação ao exclusivismo. Há sempre quem argumente que esses textos foram adicionados às Escrituras originais. John Hick segue este tipo de argumentação e questiona se algumas passagens do Novo Testamento alguma vez teriam sido pronunciadas por Jesus Cristo[1]. Talvez por este tipo de argumentos ser frequentemente usado para questionar a pureza, a legitimidade e a autenticidade da própria religião cristã, nem sempre é levado a sério.
Sobre este assunto, a perspectiva baha'i é muito clara. 'Abdu'l-Bahá, numa conversa com um grupo de sacerdotes protestantes, em Paris, abordou o sentido dos textos e nunca questionou a sua autenticidade. Segundo as Suas palavras: "A nossa crença em Cristo é aquela que se encontra registada no Evangelho; no entanto, ao elucidamos este assunto não falamos literalmente"[2]. Também Shoghi Effendi afirmou que o Alcorão, a Bíblia e as Escrituras Baha'is podem ser considerados livros autênticos.[3]
A Representatividade dos Textos
Os textos que servem de base às atitudes exclusivistas poderão ser considerados os mais relevantes nas escrituras cristãs? Algumas comunidades cristãs (especialmente as de tendência mais conservadora) costumam extrapolar a importância dos textos exclusivistas e presumir que toda a Bíblia apenas contém textos deste género. Neste tipo de atitude enfatizam-se apenas alguns excertos das escrituras e atribui-se um carácter secundário aos restantes textos. Por exemplo, há que afirme que a mensagem do Evangelho está contida na expressão "o Filho único" (Jo 3:16) e que todo o texto deve ser encarado tendo esta expressão em mente.
Mas há também os teólogos cristãos que enfatizam os textos não-exclusivistas. O conceito judaico do Deus de Abraão soberano sobre todos os povos foi adoptado pelo Novo Testamento; um Deus e Pai de todos os povos, "a luz verdadeira que ilumina todos os homens"(Jo 1:9), que deseja que todos os homens sejam salvos (1 Tim 2:4), a quem "agrada" o que "põe em prática a justiça" (Act 10:35). Alguns chegam mesmo a argumentar que Mateus descreve Cristo como uma espécie de mediador entre Deus e a humanidade.
No Livro da Certeza, Bahá'u'lláh critica os sacerdotes muçulmanos que fazem leituras selectivas do Alcorão:
Que estranho! Estas pessoas, com uma mão, agarram-se àqueles versículos do Alcorão e àquelas tradições do povo da certeza que acham de acordo com suas inclinações e interesses e, com a outra mão rejeitam os versículos e tradições que são contrários aos seus desejos egoístas. "Acreditais, então, uma parte do Livro, e negais uma parte?" [4] Como poderíeis julgar o que não compreendeis?[5]Com alguma facilidade se percebe que esta crítica é extensível a outras religiões. Assim, na minha interpretação pessoal dos ensinamentos de Bahá'u'lláh, os cristãos que defendem crenças exclusivistas estão a distorcer os ensinamentos de Jesus, ao seleccionar e enfatizar alguns versículos em detrimento de outros.
A Interpretação dos Textos
Uma terceira atitude em relação ao exclusivismo é afirmar que este se baseia em interpretações incorrectas das escrituras. Um exemplo típico deste tipo de debate é a interpretação do versículo "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém chega ao Pai salvo através de mim." (Jo 14:6). Aqui os teólogos dividem-se entre os que consideram que esta afirmação se refere ao Jesus da história, e os que consideram que é uma referência ao Cristo da fé.
Pode-se argumentar que o Jesus do Evangelho de João é diferente do Jesus dos evangelhos sinópticos. "O Jesus de João é o Jesus da fé, o Jesus da imaginação da igreja dos primeiros tempos"[6], "de reflexão espiritual do que de fiabilidade histórica"[7] . É importante ter presente que o Evangelho de João se inicia com a encarnação do Verbo e não com o nascimento de Jesus. John Cobb, um teólogo protestante defensor do diálogo inter-religioso, argumenta que é o Verbo de Deus que fala na primeira pessoa nas páginas do Evangelho de João:
Afirma-se, assim, que o Verbo, que tinha encarnado em Jesus, é o Caminho, a Verdade e a Vida, e que ninguém chega ao Pai salvo através do Verbo. Isto não significa que o Verbo esteja presente e activo apenas em Jesus; no prólogo do Evangelho afirma-se que o Verbo era desde o início da Vida, e que esta vida era a luz verdadeira que ilumina toda a gente[Jo 1:9] [8]"O Cristo que estamos a falar não é monopólio dos Cristãos, nem é um mero Jesus de Nazaré."[9] . Estamos assim na presença de um Cristo Eterno (distinto do Jesus histórico) que se manifesta em diferentes eras. Esta forma de interpretação dos textos exclusivistas é muito semelhante ao método baha'i de interpretação das Escrituras[10].
------------------------NOTAS
[1] – Hick, Second Christianity, p.28
[2] - 'Abdu'l-Bahá on Christ and Christianity, pag. 8
[3] - Shoghi Effendi, citado em Lights of Guidance, nº 1033
[4] - Alcorão 2:85. Trata-se de uma acusação de Maomé aos Judeus e Cristãos do Seu tempo. No livro, Bahá'u'lláh mostra que esta acusação é agora aplicável aos próprios muçulmanos.
[5] - Kitáb-i-Íqán, parágrafo 181
[6] - Dialogue, pag. 16
[7] - Carpenter, Jesus, pag. 14
[8] - Cobb, Dialogue, pag. 16
[9] - Raimundo Pannikar, professor de religiões comparadas. Este autor afirma ainda que Cristo representa o centro de uma realidade, e que Rama e Khrishna são outros dos Seus nomes.
[10] – No livro Jesus Christ in Bahai Writings, Robert Stockman defende que, no Evangelho de João, quando Jesus fala na primeira pessoa, fá-lo na Sua condição de Manifestante de Deus e não na Sua condição humana.
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