segunda-feira, 31 de outubro de 2005

Portas Fechadas!

Uma campanha subtil contra o acesso de Bahá'ís às Universidades Iranianas

Quem conhece um pouco sobre a religião bahá'í sabe como os seus ensinamentos básicos enfatizam a importância da educação; a aplicação prática desse princípio durante algumas gerações fez com que, no Irão, os bahá'ís se tornassem um dos grupos sociais com maior instrução e formação intelectual.

Desde a revolução de 1979, que as autoridades iranianas têm a vindo a colocar sucessivos obstáculos para os jovens bahá'ís que pretendem ingressar no ensino superior. Ao manter prolongadamente uma política que impede os jovens bahá'ís de aceder à universidade, o governo iraniano demonstra os seus objectivos de estrangulamento social da maior minoria religiosa do seu país. Além de produzir um efeito profundamente desmoralizador entre os jovens bahá'ís, estas medidas têm provocado o empobrecimento cultural e intelectual da maior minoria religiosa daquele país.

Há cerca de um ano publiquei neste blog um texto sobre a situação de várias centenas de jovens bahá'ís iranianos que pretendiam ingressar nas universidades públicas daquele país. A atitude das autoridades iranianas em relação a estes candidatos a cursos superiores podia resumir-se nas seguintes palavras: podem entrar na universidade, mas têm de fingir que são muçulmanos.

Recentemente tive conhecimento que esta campanha do governo iraniano prosseguiu no decorrer do mais recente processo de candidaturas à Universidade. Em Agosto deste ano, quando foram publicados os resultados das provas de acesso à universidade, várias centenas de jovens bahá’ís iranianos viram que as autoridades colocaram a palavra “Islão” como sendo a sua identificação religiosa. Vale a pena referir que muitos dos bahá’ís tiveram excelentes notas nos exames de admissão; todo este processo montado pelas autoridades barrou-lhes o acesso à Universidade, e estes promissores candidatos foram substituídos por muçulmanos com notas inferiores.

Para os bahá'ís, trata-se de um processo calculado de forma cínica e com múltiplos objectivos. Por um lado tenta desmoralizar os jovens bahá'ís iranianos induzindo-os a abandonar o país para prosseguir os seus estudos. Por outro lado, permite que o governo iraniano afirme perante os monitores internacionais dos direitos humanos que foi dada uma oportunidade aos bahá’ís para entrar na universidade, e que foram os próprios bahá’ís que recusaram essa oportunidade.

No entanto, o governo iraniano sabe, há muito tempo, que os bahá'ís têm por hábito não negar ou falsear, as suas convicções religiosas. Torna-se claro que as acções das autoridades iranianas são uma política concertada cujo objectivo é privar toda uma geração de bahá'ís do seu direito de acesso ao ensino superior.

Mais informação (em inglês) no site: Closed Doors: Iran's Campaign to Deny higher Education to Bahá'ís.


Actualização:

O mesmo site apresentado pela Comunidade Baha'i do Brasil: Portas Fechadas

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Kitáb-i-Iqán (7)

A Dupla Condição dos Profetas

No Novo Testamento, as seguintes palavras são atribuídas a Jesus Cristo: “Eu e o Pai somos Um”(Jo 10:30) e “O Meu Pai é maior do que Eu”(Jo 14:28). No Alcorão, estão registadas as seguintes palavras de Maomé: “Sou o Servo de Deus”(19:31) e “Sou apenas um homem como vós”(18:110). A comparação de frases como estas é frequente por parte de cristãos e muçulmanos ao argumentar sobre a superioridade do Profeta fundador da sua religião, ou sobre a Sua condição divina. É o tipo de discussão que facilmente se torna interminável.

Relativamente a este tipo de diferenças, os ensinamentos baha’is consideram que é possível olhar para os Profetas sob duas perspectivas: a condição divina e a condição humana. Ao considerarmos os Profetas olhando à Sua condição divina, percebemos que Eles possuem as mesmas características, desempenham o mesmo papel de intermediários entre o Criador e a humanidade, e não é possível fazer distinção entre Eles.

No entanto, é com facilidade que se encontra quem faça distinção entre os Profetas, apontando alguma(s) característica(s) que um parece evidenciar e outros não. A esse respeito, Bahá'u'lláh escreveu no Kitáb-i-Íqán:
Estes atributos de Deus não são, e nunca foram, concedidos especialmente a certos Profetas e negados a outros. Não, todos os Profetas de Deus, Seus favorecidos, santos e escolhidos Mensageiros, são, sem excepção, portadores dos Seus nomes e incorporam os Seus atributos... Por não haverem estas Essências do Desprendimento manifestado, aparentemente, certo atributo de Deus, não se deve inferir, em absoluto, que estas Auroras dos Seus atributos, os Tesouros dos Seussantos nomes, realmente não o tivessem possuído. [110]
Assim, segundo os ensinamentos baha’is, ao considerarmos a condição divina dos Profetas não podemos encontrar diferenças entre Eles. O facto dos Profetas partilharem os mesmos atributos divinos, permite que se identifiquem uns com os outros, e inclusive sejam identificados pelo mesmo nome. Desta forma, cada vez que surge um novo Profeta, é correcto dizer que Ele é o regresso dos Profetas anteriores [162]. Ainda sobre este assunto é possível fazer a seguinte analogia: os Mensageiros de Deus são como o sol que surge em dias diferentes, mas é sempre o mesmo sol.

Sob uma perspectiva humana, podemos identificar alguns aspectos distintos de cada Profeta. Cada um possui um nome, uma individualidade própria, e uma Missão específica (apresentando ensinamentos de acordo com as necessidades e capacidades dos povos a quem se dirige). Desta forma, os ensinamentos éticos e sociais de cada religião apresentam diferenças entre si. Sob esta distinção material que se pode fazer entre os Profetas, Bahá'u'lláh escreveu no Kitáb-i-Íqán:
É por causa desta diferença na sua condição e missão, que as palavras e afirmações provenientes desses Mananciais do Conhecimento Divino parecem divergir... Como a maioria dos homens não soube apreciar essas condições a que Nos referimos, sente-se, portanto, confusa e perplexa perante afirmações divergentes pronunciadas por Manifestantes que são, essencialmente, um e o mesmo.[192]
Desta forma, se algum Profeta afirma “Eu sou Deus” isso é uma metáfora perfeitamente consistente com a sua condição divina; o Profeta não é fisicamente semelhante ao Omnipotente (reflectem os Seus atributos, mas não possuem a Sua Essência); e se algum Profeta afirma “Sou apenas um homem” essa afirmação deve ser considerada de acordo com a sua condição material. É extremamente importante ter presente a dupla condição dos Profetas para podermos compreender as Suas palavras e ensinamentos.

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

Sala de Espera

As salas de espera para consultas de obstetrícia têm um ambiente muito especial. As grávidas comparam as respectivas barrigas e parece que se medem umas às outras pela quantidade de semanas de gestação; algumas metem conversa e falam das sensações, das ansiedades, dos sonhos e expectativas. As mãos que fazem festas às barrigas e o "andar à pinguim" são também imagens comuns destes locais.

Mas da última vez foi diferente. Do gabinete de consultas saiu outro casal; ele estava branco como cal, e ela chorava agarrada a ele. Um choro de desespero que interrompeu as conversas e despertou todas as atenções. Lembrei-me que nem sempre o ser humano consegue realizar os seus mais belos sonhos. Oxalá este casal consiga forças para superar este momento tão difícil.

Terra da Alegria

Mais uma edição da Terra.

terça-feira, 25 de outubro de 2005

O conceito de religião

"A nível social, devemos reconhecer que a tendência do Ocidente para conceptualizar a religião como um aspecto social da vida da humanidade, separado do governo e da cultura, é algo estranho em relação àquilo que muitas vezes se designa por religião noutras partes do mundo. A maioria das pessoas no mundo vê a sua religião, cultura e, frequentemente, a ordem política como um todo indivisível. Numa sociedade, a religião pode dar a justificação para a ordem social (o sistema de castas na Índia, por exemplo); noutras até pode proporcionar a legitimação da estrutura política (por exemplo, o califado no Islão até ao início do século vinte); e na maioria das sociedades, a cultura e a religião são indistintas."

Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach.

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

sábado, 22 de outubro de 2005

O Ranking das Escolas

Foi hoje publicado no jornal Expresso um auto-intitulado "ranking das escolas". Trata-se de uma análise e ordenação das escolas com base nas notas obtidas pelos alunos. Outra comunicação social já fez eco desse ranking; entrevistam-se professores e alunos das escolas no topo e no fim da lista e tentam-se perceber o porquê dos resultados obtidos pelos alunos dessas escolas.

Na verdade, este "ranking" consiste numa simples análise das notas dos alunos. Fará sentido comparar notas de alunos provenientes de famílias da alta classe média que vivem em bairros elegantes, com as notas de alunos provenientes bairros degradados, cujas famílias vivem com grandes dificuldades? E porque razão a composição e habilitações literárias do agregado familiar não são tidas em conta quando se tenta fazer um estudo destes? Poder-se-á comparar as notas do filho do doutor com as notas do filho do operário que tem uma instrução elementar?

Poderíamos ainda referir outros aspectos que de alguma forma condicionam a avaliação de uma escola (formação dos professores, instalações, etc.). Mas parece-me óbvio que com critérios de classificação tão simplistas, o "ranking" apenas consegue ser uma visão distorcida e parcial do nosso mundo escolar. Esperemos que no próximo ano o Expresso nos consiga apresentar um ranking mais elaborado e consistente.

Paris-Plage

Postais antigos de Paris-Plage, no Antigamente...

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Kitáb-i-Iqán (6)

A Revelação Progressiva
E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob. (Lc 20:37)

Dizei: «Cremos em Deus, na revelação que nos enviou, e no que foi revelado a Abraão, Ismael, Isaac, Jacob e às Tribos, no que foi revelado a Moisés e a Jesus, no que foi revelado aos Profetas pelo seu Senhor. Não fazemos distinções entre qualquer um deles. Submetemo-nos a Deus. (Alcorão 2:130)
As citações anteriores, além de evidenciarem o tronco comum do Cristianismo e do Islão, mostram um conceito que é hoje enfatizado pela religião bahá'í: Deus tem-Se revelando progressivamente à humanidade. No entanto, a maioria dos seguidores destas religiões acredita que a revelação divina terminou (ou teve o apogeu) com o aparecimento do Profeta fundador da sua religião.

Mas num mundo cada vez mais multi-cultural e globalizado estas ideias são questionadas com frequência crescente. Porque é que Deus escolheria apenas um único povo e um único momento na história da humanidade para Se manifestar e dar a conhecer a Sua Vontade? Porque é que a enorme maioria dos adeptos de todas as religiões acredita que o seu Profeta foi o último que Deus enviou?

Na tentativa de procurar respostas a este tipo de questões podemos destacar dois tipos de reacções: o diálogo inter-religioso (procurando compreender as diferentes convicções e expressões religiosas) e a criação de comunidades e doutrinas religiosas estanques voltadas sobre si próprias e, de alguma forma, desajustada das realidades sociais que hoje vivemos.

Relativamente a este segundo tipo de reacção, é de notar que nestas comunidades religiosas estanques os adeptos reclamam duas coisas: a exclusividade (ou superioridade) da revelação divina proclamada pelo Profeta fundador da sua religião, e o fim da revelação divina (Deus não enviará mais Profetas). Esta perspectiva exclusivista e derradeira sob a natureza da mensagem religiosa fomentou durante muito tempo mal-entendidos, tensões e conflitos entre adeptos de diferentes religiões.

Esta atitude em relação ao fenómeno religioso enferma de várias contradições:


  • Fará sentido acreditar num Deus Omnipotente que "tem as mãos atadas"(a) e não pode enviar mais Mensageiros?


  • Fará sentido acreditar num Deus Misericordioso, cuja Mensagem nunca chegaria a determinados povos do mundo?


  • Todos os Profetas elogiaram os Seus antecessores. Porque devem os Seus seguidores entrar em contenda?


  • Todas as religiões anunciam uma nova revelação e um Prometido em termos profundamente elogiosos. Porque haveremos de pensar que a intervenção divina terminou?

  • No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh descreve como a revelação divina é contínua, e que nunca a humanidade esteve, ou estará, privada dos Seus Mensageiros:
    ... em todos os tempos, as múltiplas graças do Senhor de todos os seres têm abrangido a terra e todos os que nela habitam, através dos Manifestantes de Sua Essência Divina. Nem por um momento sequer, negou Ele a Sua graça; jamais as chuvas da Sua benevolência cessaram de cair sobre a humanidade.[14]
    Tal como os alunos de uma escola que vão adquirindo conhecimentos ao longo dos anos, através de sucessivos professores, também a humanidade vai amadurecendo e evoluindo ao longo dos séculos, graças aos ensinamentos de sucessivos Profetas. E semelhante a uma escola, onde os professores continuam o trabalho dos anteriores e anunciam novos professores, também os Profetas continuam o trabalho dos Seus antecessores e anunciam um Sucessor.

    O tema da revelação progressiva é recorrente nos livros e epístolas do fundador da religião baha'i(b). Um único Deus é a fonte de todos os Profetas fundadores das grandes religiões mundiais; a sequência de Profetas enviados pelo Criador deve ser vista como um processo evolutivo destinado a inspirar o progresso humano e civilizacional.

    ---------------------------------------NOTAS(a) – "A mão de Deus está presa por correntes" (Alcorão 5:64) Esta era a resposta dados pelos Judeus da Arábia perante a pretensão de Maomé ser Profeta. Curiosamente, hoje a grande maioria dos muçulmanos acredita que a Revelação Divina terminou com Maomé.
    (b) – Um dos excertos mais citados das escrituras bahá'ís sobre este assunto é a seguinte: "Contempla tu com a vista interior a corrente de sucessivas Revelações que ligou a Manifestação de Adão com a do Báb. Dou testemunho perante Deus de que cada um desses Manifestantes foi enviado através da operação da Vontade e Desígnios Divinos, que cada um foi o Portador de uma Mensagem específica, que a cada um se confiou um Livro divinamente revelado e foi incumbido de desvendar os mistérios de uma Epístola poderosa." (Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh, XXXI).

    quinta-feira, 20 de outubro de 2005

    Feriado


    Santuário do Báb, no Monte Carmelo, em Haifa
    (ilustração de Ângela Rodrigues)

    O dia 20 de Outubro é um feriado no calendário baha'i. Celebra-se o nascimento do Báb (1819-1850), o Profeta-Mártir da religião baha'i. Nascido em Shiraz, na Pérsia, o Báb anunciou a Sua missão em 1844, proclamando o iminente aparecimento de Bahá'u'lláh (referia-se a Ele como "Aquele que Deus tornará Manifesto"). Neste dia os baha'is não trabalham e organizam celebrações abertas a toda a gente. Não existe qualquer ritual prescrito para estas celebrações; geralmente incluem leitura das sagradas escrituras, orações, música e momentos de convívio.

    quarta-feira, 19 de outubro de 2005

    A caminho de uma Paz Menor?

    Notícia da edição de hoje no jornal Metro:

    Menos guerras do que há uma década

    Um estudo realizado pelo Human Security Centre, da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, revelou que os conflitos bélicos em todo o mundo são menos frequentes e causam menos mortos do que há 10 anos, noticiou a BBC.

    O documento afirma que a incidência de guerras civis, genocídio e crises internacionais sofreu uma redução de 40 por cento desde o fim da Guerra Fria e as despesas em compra de armamento desceram um terço nos últimos 13 anos. A única forma de violência que não registou uma queda é o terrorismo.

    ONU contribui para a paz
    Para o decréscimo das guerras no mundo contribuíram, segundo os investigadores, as operações de manutenção de paz e intervenções das Nações Unidas, assim como, a distribuição de ajuda humanitária. O estudo revela que o número mais baixo de conflitos internacionais deu espaço para um aumento de confrontos étnicos dentro dos países.

    A maioria dos conflitos ocorre actualmente em África, onde também foi registado uma redução de número e de intensidade.


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    Só um comentário: porque é que esta notícia não é tema de capa?