sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Agostinho da Silva



"Estamos numa fase de pré-anarquia que vai levarnos a uma nova Idade, mais humanista, mais espiritualizada. As doenças serão combatidas, a produtividade e a distribuição alteradas, os rendimentos das pessoas deixarão de provir dos empregos, que acabarão. A sociedade civil alargar-se-á, o poder será descentralizado, o lazer libertará as populações, a palavra voltará a ter mais importância que a imagem, as pessoas do que as coisas. O século XXI será religioso, fraterno. É precisamente nos períodos de anarquia que se refaz a história, se criam ideias, se lançam ideologias".

Citado ontem na revista Visão, por Fernando Dacosta.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Kitáb-i-Iqán (13)

A Cidade de Deus

A expressão Cidade de Deus remete-nos imediatamente para a obra de Stº Agostinho. Nesse livro, o Bispo de Hipona descreve a história da humanidade como um conflito entre a Cidade de Deus (constituída pelos que abdicam dos prazeres mundanos e se dedicam à promoção dos valores cristãos) e a Cidade dos Homens (constituída pelos que se afastaram da Cidade de Deus). Tratam de representações figurativas das reacções e comportamentos humanos face à revelação divina.

St. Agostinho (354-430 EC) tem a sua visão da Cidade de Deus descendo do Céu.Mas a expressão "Cidade de Deus" também é usada com alguma frequência para descrever um Manifestante de Deus e os Seus ensinamentos. Compreende-se facilmente a analogia: tal como as cidades foram centros de desenvolvimento material das civilizações, também cada Profeta com os Seus ensinamentos foram sementes de desenvolvimento espiritual das civilizações.

E assim encontramos referências a uma "cidade espiritual" nas Escrituras Sagradas e em místicos do Islão. Os salmos mencionam a Cidade do Senhor dos Exércitos(48:9); S. Paulo refere-se à "Jerusalém, lá do alto, é livre, e esta é nossa mãe." (Gal 4:22-26) que não é cativa em contraposição a uma Jerusalém física que estava cativa dos Romanos. O livro do Apocalipse anuncia o aparecimento de uma "nova Jerusalém" (21:2). No Mathnavi de Rumi podemos ler: "Nesta cidade dos eventos ele é o Senhor, neste reino Ele é o Rei que planta todos os eventos" (XVI).

No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh refere-Se em termos poéticos à Cidade de Deus (a). Ela é o alvo de qualquer pessoa que procura aprofundar a sua ligação com o Criador, é o centro de todo o conhecimento divino que um ser humano pode alcançar, e renova-se ciclicamente. Essa cidade não está reservada a alguns eleitos; esteve sempre disponível para toda a humanidade. Nas Suas palavras:
Essa Cidade não é senão o Verbo de Deus revelado em cada era. No tempo de Moisés, foi o Pentateuco; no de Jesus, o Evangelho; no de Maomé, o Mensageiro de Deus, o Alcorão; neste dia, o Bayán, e na era d'Aquele que Deus tornará manifesto, o Seu próprio Livro - Livro esse ao qual todos os Livros das eras anteriores se devem referir, o Livro que sobressai entre todos eles, transcendente e supremo.[219]
Neste parágrafo Bahá'u'lláh mostra-nos duas coisas. Em primeiro lugar, mostra-nos que o objectivo final de tantos místicos e peregrinos, a chave da transformação dos corações, os alicerces de novas civilizações, se encontra nas Escrituras Sagradas de todas as religiões. Em segundo lugar, reafirma a continuidade da revelação divina. Também 'Abdu'l-Bahá confirmaria a interpretação esta expressão: "Por «aquela grande cidade, a sagrada Jerusalém, descendo do céu vinda de Deus» pretende-se significar a Lei Sagrada de Deus, e esta está exposta em muitas Epístolas e ainda se pode ler nas Escrituras dos Profetas do passado"(b).

O uso desta expressão - com toda a sua carga simbólica anteriormente descrita - é recorrente nas escrituras Bahá'ís. Nos Sete Vales, a expressão "Cidade de Deus" é usada para descrever o objectivo da caminhada de todos os peregrinos que procuram Deus. Na Epístola aos Judeus, Bahá'u'lláh usa este termo para Se referir à Sua própria revelação:
Diz: Este é o Dia em que a Cidade de Deus apareceu e é vista com todos os seus adornos. Esta é a cidade em que o Deus de tudo se tornou manifesto. Reflecti sobre as palavras de João em que ele profetizou sobre a Cidade Santa: "E não vi cordeiro no seu interior, pois o Senhor Deus Omnipotente é o Templo. E a cidade não tinha necessidade de sol, nem de lua, que ali brilhassem, pois a Glória de Deus (Bahá'u'lláh) iluminava-a".

Tomai o bordão da renúncia em nome de Deus e guiai o povo errante, com total ruptura, à Cidade de Deus, para que porventura os que se perderam possam alcançar a verdadeira terra natal e os cegos possam receber uma visão perspicaz. Em verdade, Ele é Poderoso para fazer o que deseja. Todas as coisas estão nas mãos do Seu Poder. Em verdade, Ele é o Grandioso!
(c)
---------------------------
NOTAS:
(a) - Ver também:
A Study of Baha'u'llah's Kitab-i-Iqan, The Book of Certitude
(b) - Selections from the
Writings of 'Abdu'l-Baha, p. 165
(c) - Citado em Bahá’í Scriptures, nº 47

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Terra da Alegria

Mais textos, hoje na Terra da Alegria.

Ainda as caricaturas de Maomé (4)

Das muitas coisas que li a propósito das caricaturas de Maomé, não resisto a partilhar este pequeno excerto de um port de Isaac Freeman, intitulado Drawing Pictures of Muhammad is Discourteous (recomendo a leitura de todo o post):
Um não-muçulmano não pode fazer qualquer mal ao Islão ao publicar uma imagem de Maomé, por muito insultuosa que seja. Na verdade, não há nada que um não-muçulmano possa fazer para prejudicar o Islão. O Islão apenas pode ser prejudicado pelos próprios muçulmanos, tal como o Cristianismo apenas pode ser prejudicado pelos cristãos, e a Fé Bahá’í pelos bahá’ís. Nenhuma quantidade de caricaturas ofensivas desenhadas por não-muçulmanos pode alguma vez igualar-se a um único acto de violência cometido por um muçulmano. Esta é a responsabilidade que temos quando pertencemos a uma religião.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Ainda as caricaturas de Maomé (3)

Excertos do artigo de Teresa de Sousa hoje no Público.
--------------------------


É difícil de admitir que doze cartoons publicados num jornal dinamarquês em Setembro do ano passado possam justificar esta violência, mesmo que possam ter causado a indignação genuína de muitos muçulmanos. Sobretudo quando já se sabe que a divulgação das caricaturas nas capitais do Médio Oriente - devidamente acrescentadas de mais três, bastante mais chocantes, mas que ninguém publicou - foi deliberadamente feita por um grupo de clérigos fundamentalistas radicados na Dinamarca.

Mas é fácil de admitir que, depois dos atentados terroristas cometidos em solo europeu em nome de Alá e do seu profeta, estas imagens alimentem a islamofobia na opinião pública europeia. A questão excede, em muito, o debate sob a liberdade de imprensa.

(...)

Basta pensar dois minutos para entender até que ponto o que vemos é em grande medida o resultado da manipulação política dos sentimentos religiosos de muita gente pelo islamismo radical e pelos governos ditatoriais e teocráticos do mundo islâmico. Os mesmos dois minutos chegam para se concluir que, ofendidos ou não pelas caricaturas do profeta, milhões de muçulmanos não partilham do mesmo sentimento de vingança e de ódio, que muitos têm opiniões diferentes que sabem que não podem exprimir em voz alta, sob pena de repressão violenta.

Querer responder a tudo isto com meia dúzia de considerações politicamente correctas - ou aparentemente sensatas - sobre exageros de parte a parte, que se alimentam mutuamente é confundir tudo. Querer responder a tudo isto com discussões mais ou menos bizantinas sobre os limites à liberdade de imprensa nos países europeus é não compreender a verdadeira dimensão do problema. Se não fossem os cartoons, seria outra coisa qualquer a desencadear a aparente indignação do mundo islâmico conta a islamofobia ocidental. Outros episódios haverá com as mesmas consequências.
(...)

Ainda as caricaturas de Maomé (2)

No Prós & Contras de ontem, Vasco Rato perguntou abertamente ao Sheik Munir se ele publicaria as caricaturas de Maomé. O Sheik respondeu que não, e Vasco Rato concluiu que o Sheik era contra a liberdade de imprensa.

Este pequeno episódio é bem ilustrativo de uma perversão de raciocínio. Seguindo a lógica de Vasco Rato, só quem publica aquelas caricaturas de Maomé é que está a favor da liberdade de imprensa. Vasco Rato confundiu a liberdade para fazer uma coisa com a obrigação de fazer essa coisa. Não será isto uma atitude radical do tipo "quem não está comigo está contra mim"? Ou será que para defender a liberdade de expressão temos necessariamente de ofender os outros?

A responsabilidade que deve acompanhar a liberdade de expressão nunca deverá ser regulamentada por leis; deve estar presente na consciência de cada indivíduo. E como é óbvio, essa responsabilização não pode ser regulamentada por leis.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Ainda as caricaturas de Maomé (1)

Um episódio menor – e ridículo aos nossos olhos -, mostrou esta semana como esse ódio ganha força e aumenta o fosso entre o Ocidente e o mundo muçulmano. O caso dos "cartoons" sobre Maomé, publicados em Setembro por um jornal dinamarquês, serviu aos radicais para incendiarem a opinião publica muçulmana. Nas nossas sociedades laicizadas, o pretexto afigura-se patético e revela apenas o propósito político de exacerbar os ânimos contra o Ocidente. (...)

Mas, à margem do caso em concreto, que os extremistas empolaram de forma absurda e inaceitável para incitar os muçulmanos à revolta, não era mau que ponderássemos sobre o mau uso que, por vezes, se faz da liberdade de expressão. Ela está erigida em valor sacrossanto numa sociedade à qual o sagrado é cada vez mais estranho e que foi perdendo a noção dos limites, dos valores, e não raro, da razoabilidade e do bom senso.

Eu não teria escrito nem publicado "cartoons" a troçar com Maomé ou com a Nossa Senhora de Fátima. Porque respeito as crenças e sensibilidade religiosa dos outros, por mais absurdas que elas me possam parecer. Mas no meu código de valores – que é a liberdade – não proíbo que outros o façam, porque a falta de gosto ou de sensibilidade também têm liberdade de existir. E depois as pessoas escolhem o que adoptar. (...)

É por isso que eu, que todavia sou um apaixonado pelo mundo árabe e islâmico, quanto toca ao essencial, sou europeu – graças a Deus. Pelo menos, enquanto nos deixarem ser e tivermos orgulho e vontade em continuar a ser a sociedade da liberdade e da tolerância.
  • Miguel Sousa Tavares, Expresso, 04-Fev-2006

Qual é a fronteira exacta entre a crítica ao fundamentalismo religioso e o insulto gratuito e permanente a uma cultura?

sábado, 4 de fevereiro de 2006

Um fogo que devora o mundo

A recente polémica sobre as "caricaturas de Maomé" pode parecer apenas mais um exemplo de choque de culturas. Em termos simplistas poder-se-ia pensar que estamos perante um confronto entre a liberdade de expressão e a ortodoxia religiosa. É uma visão reducionista pouco elucidativa do que se passa. Na minha opinião, o problema em causa começa pela falta de respeito. No fundo, alguém se esqueceu de um princípio elementar: devemos tratar os outros da mesma maneira que gostaríamos de ser tratados.

Ainda na última campanha eleitoral para Presidência da República pudemos testemunhar alguns episódios de manifesta falta de respeito entre alguns candidatos. Alguns políticos tentaram justificar essas atitudes insultuosas como fazendo parte natural do "jogo político". Será mesmo assim? Deve a falta de respeito ser uma prática normal aceitável no relacionamento entre pessoas e povos? Convém recordar que, pelo facto de termos liberdade para fazer qualquer coisa, isso não significa que devemos fazer essa coisa. Com a liberdade vem sempre a responsabilidade.

Existe ainda um outro aspecto: a justiça. Mesmo que no Islão fosse aceitável representar o Profeta, a verdade é que algumas destas caricaturas são baseadas em estereótipos e informação incorrecta sobre o próprio Maomé. Dá para pensar se o autor das caricaturas sabe alguma coisa sobre o Islão ou sobre a história de Maomé. A desinformação sobre estes assuntos tem sido tremenda desde os primórdios do contacto do Islão com o Ocidente; nos dias que correm, nada pode justificar essa desinformação.

Existe, obviamente, o outro lado da moeda. Estes princípios de respeito e justiça também se aplicam para quem é alvo de insultos; nessas situações o melhor é ignorar o caso e não reagir. Frequentemente o silêncio consegue ser uma resposta mais eficaz do que qualquer agressão verbal. Ignorar de um insulto permite muita vezes que ele passe despercebido. Afinal quem é que se lembra do que foi publicado nos jornais dinamarqueses em Setembro do ano passado?

Nos países islâmicos a expressão dos protestos assemelhou-se a motins de rua. Inspirados por grupos radicais, ou, quem sabe, por governos que desejam desviar a atenção dos seus cidadãos dos seus problemas internos, as reacções são o que se tem visto: manifestações de fanatismo e radicalismo na forma de insultos à bandeira dinamarquesa, ameaças a cidadãos europeus, ataques a representações diplomáticas,... Os media dos países islâmicos – tantas vezes alinhados com a voz dos respectivos governos – fazem eco desses protestos.

Este é sem dúvida mais um episódio que ameaça a convivência entre os povos e denigre a imagem da religião; provavelmente, repetir-se-á. Infelizmente, num momento em que são necessárias pontes e diálogo entre os povos, criam-se muros de preconceitos e incompreensão, recorrendo a actos ofensivos e injustos. É impossível não recordar a advertência de Bahá'ú'lláh proferida há mais de cem anos atrás: "O fanatismo e o ódio religioso são um fogo que devora o mundo e cuja violência ninguém consegue apagar."

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Flores e Corvo

A segunda parte da colecção de postais antigos das ilhas das Flores e do Corvo estão hoje no Antigamente.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Mea Culpa de um iraniano



Confesso que fico chateado quando vejo todo o Islão e o mundo islâmico identificado com o fanatismo e terrorismo. Infelizmente vários eventos nos últimos anos tem vindo a levar cada vez mais os povos ocidentais a identificar os muçulmanos com a violência e o ódio de cariz politico-religioso. Para quem costuma fazer esse juízo de valores, recomendo a leitura do artigo: We should be sorry: Iranians and anti-semitism. O autor é um iraniano muçulmano.

Aqui ficam alguns excertos:
As a child growing up in Tehran I was lucky enough to attend school with Iranians from various religious backgrounds. Mostly Jewish, Christian and Bahai kids. It never occurred to us that religion should play any part on how we felt about each other as friends.

It was not until my family moved to the United States when it became apparent to me that many Moslem Iranians are anti-Semitic and anti-Bahai. At the beginning it was a shock to me. It still kills me to say it, but I have come to accept the ugly truth about us as a community.

(...)

It is time for Iranians to face this ugly truth. In my view, Iran's liberation will not begin until we can reconcile with other religious minorities, especially Jewish and Bahai communities. We Moslems need to extend our hands, apologize and beg for their forgiveness.

A propósito da visita do Sr. Gates



A propósito da visita do CEO da Microsoft a Portugal (e de todo o evento mediático que se foi fazendo ao seu redor) ficam umas dúvidas:

Quanto gasta actualmente o Estado Português em licenças Windows e MS-Office?

Quanto pouparia se usasse Linux e Open Office?

Será que o tal choque tecnológico implica que Portugal se torne uma coutada da Microsoft?

----------------

ACTUALIZAÇÃO:


Sobre este assunto recordo um post publicado aqui há cerca de um ano: Linux na Administração Pública?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

A intervenção das Religiões

Aqui fica o meu texto publicado hoje na Terra da Alegria.
Na edição de hoje também se encontram textos do Zé Filipe, Vitor Mácula, Timshel, Maria da Conceição, Manuel Vieira e Carlos Cunha.
-------------------------------------------


A necessidade de partilha da experiência religiosa pessoal está na base da formação de comunidades religiosas. E nas dinâmicas comunitárias que estas partilhas suscitam podemos encontrar crentes com dois tipos de atitudes bem distintas: os que se afastam do mundo, tentando criar comunidades perfeitas, tentando seguir um estilo de vida ideal de acordo com os ensinamentos religiosos; e os que tomam o caminho oposto, tentando transformar o mundo num local melhor, e desenvolvendo diversas actividades que visam melhorar a vida dos povos.

Os parágrafos que se seguem são excertos de escrituras e palavras de teólogos de várias religiões, onde se justifica a necessidade da comunidade religiosa intervir no mundo, e de o transformar numa sociedade mais justa e mais equilibrada. As citações foram retiradas do livro The Phenomenon of Religion: A Thematic Aproach de Moojan Momen; a tradução é da minha responsabilidade.

SIKHISMO
... cada Sikh age e ora pela fraternidade universal: o Sikh ora em busca da sarbat da bhala (bem-estar para todos)...

o Sikhismo é muito claro quanto ao tipo de serviço que deve ser prestado e a quem deve ser prestado. O serviço material, assim como o proporcionar de descanso e alívio aos outros, ou a leitura das escrituras para os outros para lhes oferecer conforto espiritual é muito superior aos incontáveis fogos de sacrifício, à prática de cerimónias ou à mera meditação e conhecimento mundano... O sikhismo também contém instruções contra a oferenda de comida ou dinheiro aos chamados "renascidos"; em vez deles, são os pobres e os necessitados que devem ser auxiliados. O Guru Gobind Singh faz uma declaração claramente inequívoca a este respeito: o verdadeiro serviço é o serviço a estas pessoas (vulgares). Não estou inclinado a servir as castas elevadas; a caridade dará frutos neste e noutros mundos apenas se for dada a essas pessoas necessitadas. (Singh, Sikh Theology of Liberation, pag. 124, 127-128)

RELIGIÃO BAHÁ'Í
O quarto princípio ou ensinamento de Bahá'u'lláh é o reajustamento e equilíbrio dos padrões económicos da humanidade. Isto lida com a questão da subsistência humana. É evidente que sob os presentes sistemas e condições de governação, os pobres estão sujeitos a grandes necessidades e miséria, enquanto que outros mais afortunados vivem no luxo e com muito mais do que as suas reais necessidades. Esta desigualdade de quinhão e privilégio é um dos problemas mais profundos e vitais da sociedade humana. Que existe uma necessidade de um equilíbrio e partilha através dos quais todos possuam os confortos e os privilégios da vida, isso é evidente. O remédio é legislar sobre o reajustamento das condições. Os ricos também devem ser misericordiosos com os pobres, contribuindo voluntariamente para as suas necessidades, sem serem forçados ou compelidos a fazê-lo. A tranquilidade do mundo será assegurada através do estabelecimento deste princípio na vida religiosa da humanidade ('Abdu'l-Bahá, Promulgation of Universal Peace, p.107-108)

CRISTIANISMO
A Teologia deve vir dos pobres... A Igreja necessita da reflexão dos pobres. Eles conhecem a morte num nível íntimo que nenhum intelectual conhece.... O ponto de partida da teologia da libertação é o compromisso com os pobres, as “não-pessoas”. As suas ideias vêm das vítimas... O compromisso com os pobres é o verdadeiro local da experiência espiritual. No compromisso com os pobres... encontra-se Deus. [Gutierrez] reconheceu que Deus não é o principal tema na teologia da libertação, mas acrescentou "Estamos a trabalhar nisso"... A teologia da libertação não é optimista. Fala frequentemente de pecado e a situações de pecado. "Não temos a certeza noutra sociedade, mas temos a certeza que a presente sociedade não é viável e devemos mudá-la." (relatório de Gustavo Gutierrez dirigido a uma reunião da Associação de Teologia Católica, Junho 1978, citado em Schall, Liberation Theology in Latin America)

JUDAISMO
A teologia da libertação judaica reconhece que o mundo mudou, e que pela simples aplicação das categorias pré-holocausto e holocausto ao mundo contemporâneo fechamos os nosso olhos e ouvidos à dor e à possibilidade do presente. Ao transportar a nossa própria história, legamos à posteridade uma compreensão das lutas contemporâneas. Se estivermos esmagados, porém, pela história e procuramos esmagar os outros, a nossa memória torna-se um calço de cólera e estreiteza de espírito, um instrumento rude em vez de uma memória delicadamente nutrida... Aqueles que queriam um regresso ao Egipto recusavam o risco do deserto, certamente uma posição compreensível. Mas a liberdade estava noutro local, para lá do conhecido, e novos padrões de vida e culto seriam desenvolvidos na dor e luta pela libertação. (Ellis, Towards a Jewish Theology of Liberation, pag. 121)