quinta-feira, 30 de março de 2006

Casa Branca

Pode parecer estranho (ou mesmo maçador) a alguns leitores que nos últimos tempos tenha referido tantas vezes a situação dos bahá’ís no Irão. Sei que corro o risco de passar a imagem que este blog é uma espécie de debate Baha'is-Irão. Claro que eu preferia não ter de abordar estes assuntos; mas não consigo ficar calado. E é sobre este assunto que houve mais um pequeno desenvolvimento. Na passada terça-feira, 28 de Março, o agravamento da situação dos bahá'ís no Irão foi referido pelo secretário de imprensa da Casa Branca, Scott McClellan. Aqui fica a tradução do excerto dessa conferência de imprensa.
(...)
PERGUNTA: Scott, a Relatora Especial das Nações Unidas para a Liberdade de Religião e Crença afirmou que estava altamente preocupada com o facto do governo do Irão estar a aumentar as suas perseguições aos 300.000 membros da fé Bahá’í naquele país. Qual é a mensagem do Presidente ao governo do Irão sobre este assunto?

SR. McCLELLAN: Bem, tal como você disse, ela expressou a sua preocupação pela situação relativa a minorias religiosas no Irão – os Baha’i – que está, de facto a agravar-se. Partilhamos estas preocupações. Apelamos ao regime iraniano para respeitar a liberdade religiosa de todas as suas minorias, e a garantir que essas minorias religiosas são livres de praticar a sua crença religiosa sem discriminações ou medo. E continuaremos a acompanhar de muito perto a situação do Bahá'ís, e a falar sempre que os seus direitos sejam negados.

PERGUNTA: Que pressões instaria, por exemplo, outros países a colocar sobre o Irão?

SR. McCLELLAN: Bem, penso que falaremos com embaixadores de outros países na região e vamos levantar o assunto com eles e com os seus governos. Continuaremos a falar e a levantar o assunto do tratamento dos Baha’is nas Nações Unidas e noutros organismos, e pediremos a todos os que têm algum tipo de influência em Teerão que continuem a defender os direitos dos Bahá’í e de outras minorias religiosas.
(...)
A segunda pergunta também me leva a questionar o que é que o governo português tem feito sobre este assunto. Haverá uma tomada de posição pública? Ou ficará tudo no segredo dos corredores do Palácio das Necessidades?

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LINKS:
Texto completo Conferência Imprensa na Casa Branca (em inglês)
Bahá'ís face yet more persecution in Iran (Ruth Gledhill)
Bahá'ís do Irão: o pior está para vir?

quarta-feira, 29 de março de 2006

Teísmo e Monismo

O texto seguinte é a minha colaboração de hoje na Terra da Alegria.
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O quadro seguinte apresenta uma sistematização simplificada de alguns dos mais importantes aspectos do pensamento religioso nas religiões Ocidentais e Orientais.

Ocidental/Teísta
Oriental/Monista
Um Deus Criador que actua como uma pessoa .
Um conceito de Realidade Última indiferenciada e impessoal.
O ser humano é fundamentalmente diferente e distinto de Deus.
Ou o ser humano é uma realidade idêntica à Realidade Absoluta: Atman é Brahman (monismo); ou, tal como acontece no Budismo, nada se pode dizer sobre a pessoa que atingiu o Nivana.
O mal e o sofrimento resultam do pecado contra a Lei de Deus.
O Mal e o Sofrimento devem-se à ignorância e auto-ilusão humana.
O caminho para a salvação depende das boas obras e da adesão à Lei de Deus, ou é simplesmente uma matéria de fé e graça de Deus.
O Caminho para a salvação é percorrido através da aquisição de conhecimento e sabedoria, isto é, a capacidade de ver as coisas como elas realmente são.
O propósito da salvação é escapar da ameaça do inferno e alcançar a meta do paraíso.
O propósito da salvação é escapar ao sofrimento deste mundo e alcançar um estado de felicidade surprema, o Nirvana ou moksha.
Os elementos mais importantes de um ritual giram em torno da adoração e dos sacramentos.
Os elementos mais importantes de um ritual giram em torno da meditação e estados de consciência alterados.
O tempo histórico é progressivo, tem um princípio e um fim.
O tempo é cíclico; não tem princípio nem fim.


Apesar de sabermos que as principais correntes ortodoxas do Islão, do Cristianismo e do Judaísmo possuem uma natureza claramente teísta, podemos encontrar alguns místicos nestas religiões que defendiam ideias comuns ao monismo oriental. Por exemplo, Zohar fala da alma como uma emanação de Deus que pretende reunir-se com a sua fonte criadora; S. João da Cruz também falou também se referiu à união da alma com Deus como sendo o objectivo final de quem segue um caminho místico. Os sufis seguidores de Ibn-Arabi defendem o conceito de wahdat al-wujud (unicidade do ser), tendo evoluído para uma abordagem claramente monista.

Por seu lado na Índia, têm surgido várias correntes de pensamento teísta. A seitas bhakti possuem uma conceptualização teísta de vários deuses – particularmente Shiva e Vishnu. Também no em algumas seitas do Budismo Mahayana encontramos elementos de teísmo; Buda é visto como salvador e fonte de graça, que pode ser adorado e a quem se pode orar.

Resumindo: teísmo e monismo ocorrem tanto nas religiões orientais como ocidentais. O Teísmo é predominante nas religiões ocidentais e o monismo nas religiões orientais, mas nenhum é o exclusivo de nenhuma delas

Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pag. 36-37

Comentário:
Como o próprio autor assume, o quadro apresentado é contém várias simplificações e generalizações. No entanto, parece-me particularmente útil como uma base para qualquer comparação entre os sistemas de pensamento desenvolvidos nas religiões ocidentais (abraâmicas) e as religiões orientais.

terça-feira, 28 de março de 2006

Talk sparks ire at interfaith event

By MAYA KREMEN (STAFF WRITER)

HASBROUCK HEIGHTS -- The mood at the annual Interfaith Brotherhood-Sisterhood brunch on Sunday was mostly one of unity.

Women in headscarves chatted with women in saris.

A minister gamely shouted out "Shalom" to a rabbi.

A founding member called the brunch, which is in its 20th year, "a rainbow coalition."

But when 350 people from six different faiths gather in the same hotel ballroom, there is bound to be some disagreement.

And there was, when a keynote speaker's address about the persecution of Baha'is in Iran touched off anger among some Muslim attendees. Adherents of the Baha'i religion, who number 5 million worldwide, claim that hundreds in Iran have been killed or imprisoned or prevented from practicing basic tenets since the 1970s. The monotheistic religion originated in Persia in 1844 and is now Iran's biggest minority group.

William L. H. Roberts, a national Baha'i leader, spoke about "Freedom to Believe." He condemned the Iranian government's "policy of slow, constant strangulation, discrimination and persecution." Roberts called for those gathered to speak out against all religious persecution, and used as another example an Afghan man who had been facing possible execution for converting from Islam to Christianity.

A court has dismissed the case, which set off an outcry in the United States and other nations. An official in Afghanistan said the man, Abdul Rahman, could soon walk free, perhaps as early as today.

Several Muslims said after the speech that they were offended by what they saw as Roberts' singling out of Islam as a persecuting religion.

"I felt that he's bashing Islam indirectly," said Mehdi Eliefifi, president of the New Jersey Outreach Group, which works to bring different faiths together.

"It feeds into the stereotype, putting examples of bad behavior of individuals and governments as being the main theme of Islam," he said.

Besides religious persecution, Roberts asked members to speak out against genocide in Darfur. He spoke about freedom to worship as a "basic human right," and used as another example of the abuse of this right the persecution of a native religious group in Brazil.

Joy Kurland, an organizer of the brunch and director of the Jewish Community Relations Council of the UJA Federation of Northern New Jersey, said that she did not think Roberts meant to be divisive.

"Because he is a Baha'i, and because he's involved in the national Baha'i community, he's connected to the issues that resonate with his people," she said.
She added that differences in opinion between groups are a natural occurrence of the growth of the Brotherhood-Sisterhood coalition.

The group, which started as a coalition of North Jersey Jews, Protestants and Catholics in 1987, has grown to encompass Muslims, Hindus, Jains, Sikhs and Baha'is.
Since its advent, members have come together to pray for peace in the Middle East and organized an interfaith Seder dinner. The organization has spawned grass-roots programs, such as one in which members of a church and a mosque visit a soup kitchen together.

As the organization has grown, disagreement has occasionally been a part of life, said Rabbi Joshua Finkelstein of Temple Emanuel in Franklin Lakes. Finkelstein said that he often disagrees with Waheed Khalid of Darul Islah, a Teaneck mosque, when they talk about Israel.

"Sometimes conversations are quite pointed," he said. "Sometimes it's like a marriage. But if we can connect here, there's a hope that we can do that in the state, in the nation and in the world."

For Sulekha Kalyan of Ridgewood, the brunch is a time to forget about differences and sectarian conflicts.

"Here we bring what's common between us," said Kalyan, a Hindu woman sitting at a table of Muslims and Sikhs. "From here you see why it's happening, and why it shouldn't be happening. Your horizon broadens."

Darul Islah Imam Saeed Qureshi, who spoke after Roberts, apologized for the persecution of Baha'is in Iran, but also asked those gathered not to judge all Muslims by the actions of a few.

"Today we are together with Muslims who you see and experience as peaceful humans. There are others that call themselves terrorists." If you judge all Muslims by the actions of the terrorists, he said, "there will never be peace."


Publicado no NorthJersey.com, em 27 de Março de 2006


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COMENTÁRIO: É natural que os muçulmanos se sintam incomodados quando se refere as perseguições contra os baha’is, ou contra outros grupos minoritários que vivem no seio de sociedades islâmicas. Mas o que é estranho é que alguns muçulmanos se sintam mais ofendidos com os protestos de baha’is (que clamam apenas por justiça e respeito pelos direitos humanos) do que com actos praticados seus irmãos de fé que perseguem as minorias. Esperemos que ninguém caia na tentação de rotular de “islamofobia” qualquer crítica contra os actos de fundamentalistas islâmicos ou regimes totalitários islâmicos.

Ruth Gledhill - Articles of Faith

Excerto de um artigo de Ruth Gledhill, publicado ontem no Times.
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Bahá'ís face yet more persecution in Iran

On the site of Holocaust survivor Alexander Kimel is a fairly comprehensive overview of the factors of anti-Semitism and demonisation of the Jewish people that culminated in the murder of six million Jews, along with many thousands of people from Romany, gay, disabled and other minority communities. Kimel concludes that for many reasons, a Holocaust could not happen again today. One reason that he doubts this is because it would necessitate the recurrence of a particular set of conditions, including the 'silence and indifference of the whole world toward the fate of the Jews.' It is for that reason among other obvious ones that I am highlighting here the current fate of the Baha'i community in Iran. (See this photo of Bahá'í temple in Delhi and others on this site.)

I do not want to be part of another 'conspiracy of silence'. And some Bahá'ís believe that aspects of what they are experiencing in Iran - the officially sanctioned recording of their existence and religious affiliation - bear terrifying comparisons with what happened to Jewish people in Germany in the run-up to their slaughter at Auschwitz and elsewhere.

segunda-feira, 27 de março de 2006

Será que um Baha'i deve acreditar cegamente em Bahá'u'lláh?

Uma questão que coloquei a vários bahá'ís. Aqui ficam as respostas.
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Claro que deve acreditar cegamente em Bahá'u'lláh, pois Ele tem em si os nossos olhos!

(JMF)


É pá a tua pergunta, de alguma forma deveria ser melhor explicada, mas segundo aquilo que entendi, a minha resposta é a seguinte:

Se estás a falar de um bahá'í apronfundado nas Escrituras Sagradas, idealmente não só as Escrituras Bahá'ís, com experiência, e que tenha aceitado Bahá'u'lláh quer pela razão mas também pelo coração, deve ou não acreditar em Bahá'u'lláh cegamente, eu respondo que sim. Não há razão para persistir na dúvida depois de se fazer uma descoberta intensa e bem estruturada. Muita gente hoje em dia caí no erro de se viciarem no processo de busca, pelo que mesmo quando encontram o que procuram, não querem acreditar e seguem procurando porque de alguma forma dão mais valor ao processo de busca do que ao objectivo dele.

Agora, para um novo bahá'í que ainda não conhece bem as leis bahá'ís, e a própria Revelação de Bahá'u'lláh, acho de alguma forma justificável e aceitável que hajam dúvidas na sua Fé. O processo de desenvolvimento espiritual de um bahá'í, é em tudo idêntico ao dos outros crentes das outras religiões, requer tempo, desejo e empenho da própria pessoa. É claro, uns precisam mais tempo do que outros.

Em resumo: Acho que o resultado final do processo de busca e conhecimento do Manifestante Divino é chegar ao ponto de não haver dúvidas sobre a realidade do Manifestante Dívino, neste caso falamos de Bahá'u'lláh, logo acreditar cegamente nas Suas palavras e leis. Mas isso só é válido se a busca for verdadeira e pura, o que a meu ver significa, ser impulsionada pelo coração e suportada pela razão.

(Pedro Reis)


Marco, para mim é claro. Acreditamos com toda a visão dos nossos olhos interiores em Bahá'u'lláh! O "cegamente" é paleio de quem só usa os olhos limitados que estão imbutidos na face. Estes dão-nos a perspectiva de uma realidade limitada e incompleta.

Beijinhos!

(Stella)


Em princípio, penso que sim, mas aí tudo depende da Fé de cada um.

Antes de nos tornarmos baha'is, como é natural, temos todo o direito de O questionarmos, mas uma vez que O aceitemos como um Mensageiro de Deus, então creio que isso deixa de fazer sentido.

Porém, como não somos perfeitos, nossa fé costuma ter altos e baixos, e às vezes fraquejamos.

(Coriolano J. S. Corrêa)


Questão dificil Marco, porque acho que acima de tudo é uma questão de Fé e coração e não puramente intelectual e da mente. Duvido que alguem se torna Baha'i meramente via debate intelectual ou provas materiais. A dada altura, ou algo nos toca a alma e coração ou nada ...achamos tudo muito bonito e até podemos achar os principio validos mas isso em si não prova divinidade a ninguem :-)

(Navid)


Não penso que seja essa a Sua vontade.

(JMoutinho)


Se Bahá'u'llah ensinou a livre investigação da verdade, teria querido que todas as pessoas que O conhecessem viessem a pôr em causa algumas das coisas sobre as quais falou, escreveu e que fazem parte integrante da Sua Mensagem. Um Bahá'i deve ser alguém que aceita conscientemente os princípios da Fé Bahá'i.

Como é evidente, há coisas que nós não entendemos e que nos parece que não se aplicam aos nossos dias, mas deve haver boas razões, por parte do Manifestante de Deus para as ter citado como parte de um código de vida. Essas coisas, têm a ver mais com o desenvolvimento da Sociedade em que nos inserimos, pois os princípios espirituais são imutáveis e muito semelhantes a tudo o que os outros Manifestantes de Deus disseram. Portanto, acho que alguém que acredita em Bahá'u'llah não O aceitou "cegamente". Reconheceu nele as qualidades ensinadas pelos Manifestantes que O precederam e acredita que os ensinamentos que nos deixou, levarão à construção de um mundo mais equilibrado onde a Humanidade seja como as "ondas de um só mar" e "as flores de um só jardim".

Ser bahá'i não é abdicar dos ensinamentos dos outros Manifestantes de Deus, é conseguir um "valor acrescentado" à Mensagem Divina, ao aceitar Bahá'u'llah!

(Maria Lagos)


Great question! The answer is, I believe, no. Here are a few quotes and links:

A humanity which has come of age no longer needs the language of parable and allegory; faith is not a matter of blind belief, but of conscious knowledge. Nor is the guidance of an ecclesiastical elite any longer required: the gift of reason confers on each individual in this new age of enlightenment and education the capacity to respond to Divine guidance."(Baha'i International Community Office of Public Information, Baha'u'llah, 1991, p. 5)

"[Baha'i]Apologetics must show that faith is not blind belief but is the culmination of the full exercise of humankind's essential nature as 'the rational soul'." (Ian Klug "Apologetics: A Personal Vision")

"I believe that reason and faith do not contradict each other but are two mutually reinforcing means to comprehend reality. The Baha'i principle of the harmony between science and religion highlights this matter. According to this principle, Science, without religion, will lead mankind into an age of materialism and can be abused to produce dangerous and destructive developments that are in contrast to the purpose of science, which is to be of benefit to humankind.
Pursue of religion on the other hand, without a belief in science, is going to result in blind superstition." (Carlo Schroeder, "My Faith and Me")

(George Dannells)


I'm not sure the question really applies. Because Baha'u'llah says that we should seek out the truth for ourselves, we must be educated. At the same time, we must have faith that if we believe in Him, we must follow His laws, regardless of whether we understand all of the reasons behind them. Faith and reason must go hand in hand, otherwise religion becomes superstition.

(Please don't use my name. :-))


Creo que un bahá'í debe creer en Bahá'u'lláh con tanta certeza como cree que el agua es fluida, que el fuego consume, y que el sol saldrá mañana, pero debe buscar respuestas, así como un verdadero investigador busca conocer y entender la naturaleza del agua, del fuego, y el movimiento de rotación de la tierra.

(Husayn Villar)

sexta-feira, 24 de março de 2006

quinta-feira, 23 de março de 2006

Kitáb-i-Iqán (15)

O Regresso de Cristo

Num post anterior sobre o Kitáb-i-Íqán referi que, na perspectiva baha'i, os Manifestantes de Deus podem ser vistos sob duas perspectivas distintas: uma perspectiva divina e uma perspectiva histórica. Na perspectiva divina, percebemos que todos Eles possuem as mesmas características, desempenham o mesmo papel de intermediários entre o Criador e a criação. Na perspectiva histórica podemos perceber que cada um deles possui um nome e uma individualidade própria; expressam os Seus ensinamentos de acordo com as necessidades e maturidade dos povos a quem se dirigem (sendo este o motivo para as diferenças entre os ensinamentos éticos e sociais das religiões).

Se considerarmos apenas a perspectiva divina, percebemos que os Manifestantes possuem a mesma essência e os mesmos poderes. Sob esta perspectiva não é possível fazer distinção entre os Mensageiros de Deus. O facto dos Profetas partilharem os mesmos atributos divinos, permite que se identifiquem uns com os outros, e inclusive sejam identificados pelo mesmo nome. Desta forma, cada vez que surge um novo Profeta, é correcto dizer que ele é o regresso dos Profetas anteriores.
É claro e evidente a ti, que todos os Profetas são Templos da Causa de Deus, embora tenham aparecido vestidos com diferentes adornos. Se observares com discernimento, verás que todos habitam no mesmo tabernáculo, voam no mesmo céu, sentam-se no mesmo trono, proferem o mesmo discurso e proclamam a mesma Fé. Tal é a unidade destas Essências da Existência, destes Luminares de infinito e imensurável esplendor. Assim, se um destes Manifestantes da Santidade proclamasse, dizendo: "Sou o regresso de todos os Profetas", Ele diria, realmente, a verdade. De igual modo, em cada Revelação subsequente, o regresso da Revelação anterior é um facto cuja verdade está firmemente estabelecida. Visto que o regresso dos Profetas de Deus, conforme atestam os versículos e as tradições, foi convincentemente demonstrado, também o regresso dos Seus eleitos está definitivamente provado. [162]
Uma analogia recorrente em muitos livros baha'is consiste em comparar os Manifestantes de Deus com o sol. Tal como o vemos, o sol surge sobre o horizonte e ilumina as diferentes regiões do planeta. Todos os dias a sua influência faz-se sentir. Algumas pessoas até podem fazer distinções entre os efeitos do sol que vêem hoje com o sol que viram ontem. Mas a verdade é que é sempre o mesmo sol.

É importante ainda referir que se insistimos numa interpretação literal das escrituras no que toca ao regresso de Cristo, encontramos descrições inconsistentes com a ciência e a razão. Foi isso que 'Abdu'l-Bahá referiu numa entrevista com uma das primeiras crentes ocidentais:
... os sinais e condições que foram referidas [para a segunda vinda de Cristo] têm um sentido simbólico, e não devem ser entendidas literalmente. Entre outras coisas, diz-se que as estrelas cairão sobre a terra. As estrelas são incontáveis, infinitas, e, os matemáticos modernos definiram e provaram cientificamente que o globo solar é cerca de um milhão e meio de vezes maior que a terra, e cada uma das estrelas fixas é mil vezes maior que o sol. Se fossem cair sobre a superfície da terra, onde iriam essas estrelas encontrar lugar? Seria como se mil milhões de Himalaias caíssem em cima de um grão de mostarda! De acordo com a razão e a ciência, isto é absolutamente impossível. (Respostas a Algumas Perguntas, cap. XXVI)
Nas escatologias cristãs e islâmicas, a ressurreição dos mortos e o regresso de Cristo são dois eventos que quase sempre foram entendidos literalmente. Para quem foi educado na religião cristã, esta perspectiva sobre o regresso de Cristo, que descrevi nos parágrafos anteriores, pode ser surpreendente (e até incompreensível!). Mas quem acompanha este blog com regularidade já deve ter percebido uma das características essenciais do modelo baha’i de interpretação das escrituras: quando a interpretação literal dos textos sagrados vai contra a ciência, então devemos procurar os significados simbólicos do texto.

Tentar perceber os muitos significados simbólicos das escrituras não é fácil; exige uma reflexão desapaixonada sobre os textos e um esforço para nos libertarmos de ideias pré-concebidas. No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh encorajou o destinatário a reflectir cuidadosamente sobre os significados simbólicos das Escrituras; e anunciou-lhe o resultado desses esforços:
Esforça-te, pois, a fim de compreender o significado de "regresso", que, apesar de tão explicitamente revelado no próprio Alcorão, ninguém até agora entendeu. Que dizes? Se disseres que Maomé foi a "Regresso" dos Profetas da Antiguidade, assim como atesta este versículo, também devem os Seus Companheiros ser o "regresso" dos Companheiros antigos, do mesmo modo que o "regresso" do povo anterior é claramente afirmado pelo texto dos versículos acima mencionados. E se a isto negares, terás repudiado, certamente, a verdade do Alcorão, o mais seguro testemunho de Deus aos homens. Esforça-te também para compreender o que significam "regresso", "revelação" e "ressurreição", verificadas nos dias dos Manifestantes da Essência Divina, para que possas contemplar com os teus próprios olhos o "regresso" das almas santas em corpos santificados e iluminados, e possas eliminar a poeira da ignorância e, com as águas da misericórdia que emanam da Fonte do Conhecimento divino, limpar o ego obscurecido, de modo a conseguires, porventura, através do poder de Deus e da iluminação divina, distinguir entre a tenebrosa noite do erro e o Amanhecer do esplendor imperecível. [160]

Letters from Elise

Letters from Elise é o meu blog preferido.
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Esclarecimento aos leitores: isto é o resultado de uma aposta!

terça-feira, 21 de março de 2006

Bahá'ís do Irão: o pior está para vir?

É triste publicar um post destes num dia festivo, mas tem mesmo de ser.

Ontem, um documento apresentado pela Relatora Especial das Nações Unidas para a Liberdade Religiosa, Asma Jahangir, fez soar o alarme entre os representantes da Comunidade Internacional Baha'i junto da ONU. Ao descrever as acções do governo iraniano contra os Baha'is daquele país, a Relatora afirmou estar profundamente preocupada e expressou a sua preocupação num comunicado à imprensa relativo a "uma carta confidencial enviada em 29 de Outubro de 2005 pelo presidente do Quartel-General das Forças Armadas Iranianas a várias organismos governamentais".

"A carta", declarou a Sra Jahangir, "que é dirigida ao Ministério da Informação, aos Guardas da Revolução e às forças policiais, afirma que o Líder supremo, o Ayatollah Khamenei, deu instruções ao Quartel-General para identificar as pessoas que aderem à Fé Bahá’í e monitorizar as suas actividades. A carta prossegue solicitando aos destinatários para que recolham toda e qualquer informação sobre membros da Fé Bahá’i." A Sra. Jahangir também afirmou que "considera que uma tal monitorização constitui uma intolerável e inaceitável interferência com os direitos dos membros das minorias religiosas."

Bani Dugal, a representante da Comunidade Internacional Baha’i junto da ONU, reagiu: "Estamos gratos à Sra. Jahangir por ter dado a conhecer esta actividade. Partilhamos a sua preocupação pelo bem-estar dos baha’is e receamos pensar no que isto pode significar. Tratando-se de uma acção governamental sem precedentes, dirigimos ao Embaixador Iraniano um pedido de explicações." E acrescentou: "A preocupação da Relatora Especial no sentido de que essa informação possa ser «usada como base para um aumento das perseguições e discriminações contra membros da Fé Bahá'í» está claramente bem fundamentada".

"Sabemos bem a que é que a propaganda de ódio pode levar; a história recente apresenta muitos exemplos dessas horríveis consequências. E em nome dos baha’is iranianos, apelamos a todas as nações e povos para que não permitam que esta comunidade pacífica enfrente as consequências de um ódio cego", disse a Sra Dugal. "Não devemos permitir que os actos horríveis que surgiram de circunstâncias similares no passado, se repitam novamente. Nunca mais".

ATAQUES NOS MEDIA IRANIANOS

Nos últimos meses, vários jornais e programas de rádio têm prosseguido uma intensa campanha anti-Baha'i. Entre Setembro e Novembro de 2005, o influente jornal governamental Kayhan publicou mais de trinta artigos difamando a Fé Bahá'í com a clara intenção de suscitar entre os leitores o preconceito, a suspeita e o ódio contra comunidade baha’i do Irão. Esses artigos fazem uma deliberada distorção histórica, apresentam documentos históricos forjados, e descrevem os baha’is como tendo princípios morais ofensivos para os muçulmanos.

Em 1955 e 1979, o governo iraniano organizou violentos ataques contra os Bahá’ís daquele país. Estes ataques sempre foram precedidos de campanhas nos jornais e na rádio que fizeram crescer a animosidade e preconceito, aparentemente com o objectivo de preparar o público com o que estava para vir.

A SOCIEDADE HOJJATIEH

A crescente influência nos meios governamentais da Hojjatieh (link Wikipedia) - uma organização assumidamente empenhada na destruição da Fé Bahá'í -, apenas aumenta os receios sobre o futuro dos baha’is. Esta organização, fundada em 1953, por um clérigo muçulmano xiita, desempenhou durante a revolução iraniana de 1979, um importante papel ao acicatar a animosidade contra os baha’is. No entanto, devido a algumas diferenças teológicas - entre outras coisas, a Hojjatieh acredita que um estado verdadeiramente islâmico não pode ser estabelecido antes do regresso do 12º Imam - a Sociedade caiu em desgraça e foi proibida pelo regime em 1984.

Alguns observadores externos têm associado o ressurgimento da Sociedade com o regresso dos extremistas aos meios governamentais, incluindo o Presidente que afirmou frequentemente que esperava para breve o regresso do 12º Imam.

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LINKS:

UN Religious Freedom Official expresses fears for Baha'is in Iran (notícia original no BWNS)
UN warns against moves to monitor Iran Bahais (IranMania.com)
Summary and Analysis of Recent Media Attack against Baha'is in Iran (bahai.org)
The press in Iran (BBC)


Naw-Ruz (Ano Novo)

Ontem foi o último dia de jejum.

No último mês do calendário baha'i, os baha'is adultos devem abster-se de ingerir líquidos e alimentos entre o nascer e o pôr-do-sol. Longe de ser encarado como um sacrifício ou acto penitencial, o jejum deve ser um período de meditação, oração e preparação de um novo ano; é um acto profundamente espiritual, em que a abstinência de alimentos simboliza o controle sobre o ego; pessoalmente, sinto-o sempre como um teste ao meu desprendimento: levantar muito cedo, alterar horários de refeições e ter muito tempo disponível à hora de almoço, constituem uma mudança de hábitos significativa.

E hoje, é dia de Naw-Ruz (a palavra persa para "Ano Novo"). É um dia festivo que assinala o início do ano 163 do calendário baha’i. Curiosamente, é o único feriado baha'i que não está associada a algum evento ocorrido com a vida do Báb ou de Bahá'u'lláh.

Será estranho um calendário em que o ano se inicia com a primavera? A julgar por um calendário inter-religioso que encontrei recentemente, diria que não é assim tão estranho; o equinócio de primavera sempre teve um significado especial em muitas culturas e religiões do mundo.

O Naw-Ruz, propriamente dito, não é uma criação baha'i. Na antiga Pérsia esta data assinalava o início do ano Zoroastriano (e o dia em que Zoroastro recebeu a revelação de Deus). Mas alguns historiadores dizem que o Naw-Ruz tem origens anteriores a Zoroastro. Também é interessante notar que apesar do Naw-Ruz nunca ter sido uma festividade islâmica, manteve-se na Pérsia após esta ter caído sob domínio muçulmano. Na religião baha'i, tanto o Báb como Bahá'u'lláh proclamaram aos Seus seguidores a adopção do chamado calendário Badi, onde o Naw-Ruz, o primeiro dia do ano, é celebrado no primeiro dia de Primavera.

Nas celebrações de Naw-Ruz, alguns baha'is iranianos têm por hábito preparar a "mesa de Naw-Ruz"; ali se encontram sete travessas de que contêm coisas que na língua persa começam por "S" ou "SH"; a maioria das coisas colocadas nas travessas simboliza a paz, a prosperidade, o crescimento e outros bons desejos de ano novo. Entre os baha’is ocidentais, o Naw-Ruz é celebrado com uma festa que assinala o fim do jejum; ainda é muito cedo para terem surgido formas tradicionais de celebração desta data.

Feliz ano novo para todos os meus leitores.


(Esta apresentação é da autoria dos Bahá's de Nova Iorque)


NOTA: Sobre o Naw-Ruz, ver esta página na Wikipedia.