Confirmando rumores que circularam nos últimos dias, a Comunidade Internacional Baha'i confirmou hoje a detenção de 54 jovens bahá'ís na cidade iraniana de Shiraz. Trata-se de uma das maiores detenções colectivas desde os anos 1980. As detenções coincidem com rusgas em seis residências de famílias bahá'ís, durante as quais foram confiscados computadores, vários livros e diversos documentos.
As detenções ocorreram na passada sexta-feira (19 de Maio) quando os Bahá'ís, juntamente com outros voluntários que não eram Bahá'ís, trabalhando ao abrigo de um programa da UNICEF leccionavam aulas a crianças desfavorecidas numa escola. No momento da detenção os jovens tinham consigo as autorizações necessárias para a sua actividade emitidas pelo Conselho Islâmico de Shiraz.
Três das jovens bahá'ís detidas na passada sexta-feira
A natureza das acusações contra os Bahá'ís ainda é desconhecida. No dia seguinte às detenções, um juiz disse aos familiares que todos os detidos seriam libertados em breve. À data de hoje, aparentemente, todos os jovens não-baha’ís e apenas um jovem bahá’í foram libertados sem pagamento de qualquer fiança.
"Estas novas detenções em Shiraz, surgem após um ano de detenções aleatórias, elevando o número total de Bahá'ís detidos sem acusação para mais de 125, desde o início de 2005" afirmou Bani Dugal, representante da comunidade Internacional Bahá’í nas Nações Unidas. E acrescentou: "No seu todo, este padrão de detenções e prisões arbitrárias resume-se à mais pura forma de perseguição religiosa e reflecte um esforço calculado do governo iraniano em manter a Comunidade Bahá’í num estado de medo e terror".
As detenções surgem num momento em que aumentam as preocupações de observadores internacionais de direitos humanos, relativamente à campanha que o governo iraniano tem mantido nos últimos 25 anos contra a Comunidade Bahá'í daquele país (300.000 pessoas), a maior minoria religiosa do Irão.
Em Março, a Relatora Especial da Comissão de Direitos Humanos das ONU, revelou a existência de uma carta secreta do alto comando militar iraniano, ordenando à Polícia e às unidades da Guarda Revolucionária que "identificassem" e "seguissem" os membros da Comunidade Bahá'í, afirmando que a existência dessa carta a deixara "profundamente preocupada".
Além disso desde o final de 2005, mas de 30 artigo depreciativos e difamatórios sobre os bahá'ís e a sua religião foram publicados no "Kayhan", o jornal diário oficial de Teerão. Também vários programas de Rádio e Televisão têm vindo a condenar os bahá’ís e as suas crenças.
Desde o início do ano, outros sete baha’is foram presos e detidos durante um mês em Kermanshah, Isfahan e Teerão. Entre os detidos em Janeiro estava a Sra. Roya Habibi de Kermanshah que alegadamente foi interrogada durante mais de oito horas seguidas sobre as suas actividades como coordenadora de um programa de instrução da Fé Baha'i. No tribunal, os documentos que descreviam a acusação referiam que ela "é acusada de ensinar a seita do Bahaismo e agir de forma insultuosa contra o Islão".
"Apesar de frequentemente ser difícil obter detalhes das acusações contra os Bahá'ís, não há dúvida que a maioria deles – tal como o da Sra Habibi – são motivados apenas por preconceito e intolerância religiosa", afirmou a Sra. Dugal.
Nos últimos 14 meses, 72 Bahá'ís foram presos no Irão; o período de detenção variou entre vários dias e alguns meses. Alguns desses detidos estiveram incomunicáveis e em locais desconhecidos, enquanto os seus familiares os procuraram desesperadamente.
Nos anos 1980, mais de 200 Bahá'ís foram mortos ou executados. Milhares foram presos e centenas estiveram detidos durante longos períodos de tempo. Nos anos mais recentes, em reacção às pressões internacionais, as execuções e as detenções prolongadas cessaram.
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LINKS:
54 Baha'is arrested in Iran (notícia original no BWNS)
Bahá'ís do Irão: o pior está para vir?
The Growing Threat to Iran's Bahá'ís (site oficial Bahá'í)
Iran: Revived Persecution of Baha'is 54 Arrested in Shiraz (Juan Cole)
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ACTUALIZAÇÃO:Ao contrário do que escrevi aqui, fiquei hoje (31-Maio-2006) a saber que este grupo de jovens não trabalhava para um projecto directamente associado à UNICEF, mas sim num projecto elaborado à semelhança de outros projectos da UNICEF. Pelo lapso, aqui ficam as minhas desculpas.