quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Odon Vallet

Pequeno Livro das Ideias Falsas sobre as Religiões

O diálogo inter-religioso exige que pessoas de diferentes credos se conheçam melhor, desfazendo ideias preconcebidas e distorcidas que obstam a esse diálogo e entendimento. Mais do que uma moda, tornou-se uma necessidade de um mundo globalizado, sequioso de tranquilidade e bem-estar. Alguns crentes poderão questionar até que ponto as suas convicções religiosas poderão sobreviver a um diálogo de verdades plurais. Outros, em que me incluo, entendem que se exige um esforço a cada um de nós para compreendermos quem tem convicções diferentes das nossas.

O Pequeno Livro das Ideias Falsas sobre as Religiões, de Odon Vallet foi publicado há alguns meses no nosso país; é um livro que inevitavelmente desperta a atenção de quem se interessa pelo diálogo inter-religioso. O autor, licenciado em Direito e Ciência das Religiões pela Universidade Panthéon Sorborne (Paris) já publicou vários livros sobre religião, e propôs-se, nesta obra, desfazer uma série de equívocos – para não dizer disparates – que se tornam recorrentes entre muitas pessoas que abordam o tema da religião.

Veja-se por exemplo, quando se combinam temas como religião, pacifismo e violência. A maioria das pessoas no Ocidente associa a violência religiosa ao Islão e o pacifismo ao Budismo; logo no prefácio do livro o autor lembra o conceito de Jihad enquanto esforço de aperfeiçoamento interior e a existência de monges guerreiros tibetanos. Ao longo deste livro, Odon Vallet mostra-nos que as ideias falsas sobre religião surgem em diversas formas: simplificações abusivas (o judaísmo, o cristianismo e o islamismo são três religiões monoteístas), anacronismos (Moisés era judeu), ideias sem sentido (A circuncisão é o sinal da aliança entre Deus e o povo judeu), erros geográficos e culturais (Os muçulmanos são árabes), contradições históricas (A Índia é a pátria da não-violência), e meias-verdades (A Igreja sempre defendeu os poderes estabelecidos).

Para quem gosta debater e estudar diversos temas de religião e frequentemente se depara com tanta ideia distorcida, este livro prometia ser uma agradável surpresa. Ao folheá-lo pela primeira vez, imaginei logo algumas pessoas conhecidas a quem gostaria de oferecer. Não demorei muito a comprá-lo.

Inevitavelmente, este livro reflecte também a formação e as origens do autor. As referências à experiência religiosa em França e a episódios ocorridos naquele país sucedem-se ao logo do texto (exemplos: pags. 98, 103, 110, 138, 143, 155-156). Também a forma como são apresentados alguns assuntos reflectem as raízes cristãs do autor. Por exemplo, a comparação entre o Papa e o Dalai Lama é considerada incorrecta sobretudo porque o primeiro tem mais seguidores do que o segundo [pag. 64]. Também ao referir-se ao pecado original [pag. 148] o autor não hesita em declarar que o ser humano é intrinsecamente pecador (uma perspectiva negativista muito querida a alguns cristãos).

Além disso, em alguns capítulos, Odon Vallet desmonta as ideias erradas sem, no entanto, procurar conceitos comuns e unificadores. Por exemplo, no capítulo com o título "O judaísmo, o cristianismo e o judaísmo são as religiões do livro" [pag. 106], demonstra-se o erro do sentido literal da expressão. Estas três religiões não possuem o mesmo Livro Sagrado; judaísmo e cristianismo possuem vários livros sagrados; o Islão possui um Livro Sagrado. Por seu lado, outras religiões como o Budismo e o Sikhismo também possuem livros sagrados. Estranhamente, o autor não desenvolve o significado da expressão "religião do livro" enquanto sinónimo de revelação divina. Na minha opinião, tão importante como afirmar o erro de uma interpretação distorcida de uma expressão, é sugerir significados alternativos para essa mesma expressão.

Também ao referir o Monoteísmo - para desmontar a ideia "o judaísmo, o cristianismo e o islamismo são três religiões monoteístas" [pag. 112] - o autor apresenta as diferentes concepções de Divindade (o Deus único do Islão versus a trindade cristã; o Deus de Israel e a trindade hindu) para mostrar como a ideia está longe da realidade; no entanto, o autor dedica poucas linhas para mostrar como as religiões tendem para a unidade de culto.

Talvez o irónico deste livro seja o facto de ver Odon Vallet cometer alguns erros semelhantes aos que se propõe corrigir. Por exemplo, uma simplificação anacrónica verifica-se quando se usa a expressão "Estado de Israel" [pags. 61, 157] para designar os antigos Reinos de Judá e Israel; não será isto lançar uma semente de uma nova ideia falsa? Também o Sikhismo é referido como uma "religião guerreira" [pag. 118]; não será isto criar um estereótipo, ao associar uma religião com a violência? Será que o autor conhece os escritos do Guru Nanak? Se o autor consegue evitar este erro ao referir-se ao Islão, porque não consegue fazê-lo ao referir-se ao Sikhismo?

A religião bahá'í - mencionada nas pags. 57, 147, 179, 206 - é referida pelo autor como "um sincretismo entre islamismo, cristianismo, judaísmo e zoroastrismo" [pag. 57]; posteriormente, Odon Vallet afirma que "os cinco milhões de bahaístas veneram Abraão, Moisés, Zoroastro, Buda Jesus Cristo e Maomé, mas a sua religião fundada no Irão em meados do século XIX, não se assemelha a nenhuma outra"[pag. 206]. Se a religião baha'i não se assemelha a nenhuma outra, então como pode ser um sincretismo? E se o próprio autor assume que o termo sincretismo "tem má reputação nos meios científicos e religiosos" e é "sinónimo de confusão infantil e ignorância popular" [pag. 188], não estará ele a lançar um preconceito, uma ideia falsa, sobre uma religião? Afinal, quais foram os seus objectivos ao escrever este livro?

Em resumo: A palavra "religião" pode ser usada para designar diferentes aspectos do fenómeno religioso: os ensinamentos originais dos Manifestantes, as organizações religiosas, o clero, as comunidades dos crentes, as escrituras, as tradições, etc. Ao longo deste livro, Odon Vallet, raramente apresenta o seu entendimento da palavra religião antes de abordar algum ideia. Mesmo assim, o livro tem alguns capítulos muito interessantes, apesar de noutros sentirmos que o autor podia ter ido mais longe. Em algumas referências a religiões não-cristãs, o autor nem sempre consegue ser esclarecedor, chegando por vezes a sugerir ideias tão incorrectas quanto as que pretende esclarecer.

Uma nota final para a tradução. O texto usa o estrangeirismo Corão e vez de Alcorão; também os capítulos do Alcorão são referidos como “Salmos”.

----------------------------------------------------------------
ABSTRACT: A commentary to the book Petit lexique des idées fausses sur les Religions (Little Book of False Ideas about Religions), by the French author Odon Vallet. The book has several interesting chapters, and in some cases Mr. Vallet seems able to explain misconceptions that originated from the use of popular expressions (such as "Religions of the Book"). He seldom sugests a correct meaning for such expressions. However, in some chapters Mr Vallet makes incorrect references to other religions: the ancient Hebrew kingdoms as "State of Israel", and to Sikhism as a "warrior religion". References to the Baha’i Faith are contradictory: "syncretism” and “not similar to any other".

terça-feira, 8 de agosto de 2006

Vou dá um "meguio"!

Aconteceu no passado fim-de-semana com o meu filho mais velho. Estava eu a filmar as suas habilidades na piscina - e ele adora atirar-se para dentro de água - quando apanhei um susto. Umas braçadeiras pouco apertadas foram o motivo.

Quem tem miudos não está livre da apanhar um susto destes. Com crianças temos de estar sempre alerta.


Powered by Castpost

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Uma entrevista reveladora

Uma entrevista com o Shiekh al-Azhar, Dr. Muhammad Sayyid Tantawi, foi publicada recentemente no jornal egípcio "al-Watany el-Youm" (A Pátria Hoje), com o título “Não me demitirei e não encerrarei o Centro de Investigação Islâmica de al-Azhar”. O entrevistador colocou algumas perguntas bem pertinentes ao Dr. Tantawi. Aqui ficam dois exemplos:

P. Qual o seu comentário à exigência de remoção do Segundo Artigo da Constituição Egípcia onde se declara: "O Islão é a religião do Estado... e a principal fonte de legislação é a Jurisprudência Islâmica (Sharia)"?

R. "Não vejo motivos para esta exigência, pois a Constituição há muito tempo que é baseada na Sharia Islâmica. Em particular, a Constituição Egípcia proporciona igualdade de direitos e responsabilidades para todos os cidadãos. Não existe opressão de não-Muçulmanos que exija a eliminação desse artigo..."

P. O Centro de Investigação Islâmica de al-Azhar apelou à eliminação dos Baha’is do Egipto. Qual é a sua resposta?

R. "Eles não pretenderam dizer morte com eliminação, mas eles pretenderam dizer que não devíamos ter contactos ou colaboração com eles; devíamos ostracizá-los... pois eles não pertencem a uma das três religiões reconhecidas... e uma Fatwa considerou-os heréticos..."

-----------------

COMENTÁRIO: A contradição nestas duas respostas é bem evidente. As respostas deste senhor fazem lembrar aquela frase do livro "O Triunfo dos Porcos": Todos são iguais, mas há uns que são mais iguais do que outros. Que se pode esperar de alguém que defende uma clara violação dos direitos humanos, invocando valores religiosos?

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

O Deus dos Privilegiados

Algumas das notas breves, sob o título "O Deus dos Privilegiados", de José Luis Cortés, no seu livro Um Deus chamado Abba.
----------------------------------------------


  • Que imagem de Deus podem ter aqueles que, em nome de Deus, abusam da sua força (sejam as vítimas camponeses, bispos ou prisioneiros)?

  • Esta imagem do Deus aristocrata que está do lado dos ricos e dos poderosos é, de todas as falsas imagens de Deus, a que mais indigna aqueles que procuram Deus com o coração despojado. É a que mais urgentemente incita à revolta, abençoada ou não abençoada.

  • Deus não está com os ricos, mas também não está com os pobres. Menos ainda se no conceito de pobre entra o rancor, a ânsia de possuir o que não se tem, o egoísmo indiferente que existe entre muitos pobres

  • Pobres dos que se sentem eleitos de Deus! Pobres dos que crêem que os seus males são uma prova do Senhor!

  • Atenção profetas sociais: saber descobrir o bem pode ter tanto ou mais mérito que denunciar o mal.

  • De qualquer maneira, Deus deve-nos uma explicação em relação a alguns casos verdadeiramente intoleráveis de dor humana.
  • quarta-feira, 2 de agosto de 2006

    Um novo livro de Escrituras Bahá’ís

    Acaba de ser publicado um novo livro de Escrituras Baha’is; tem o título "The Tabernacle of Unity" (O Tabernáculo da Unidade) e contém cinco epístolas de Bahá’u’lláh, dirigidas a indivíduos de origem zoroastriana. Alguns excertos das epístolas agora publicadas já eram conhecidas; a famosa frase "Sois frutos de uma só árvore e folhas de um só ramo" surge na segunda epístola. No entanto, esta é a primeira vez que as epístolas são publicadas em inglês na sua totalidade.

    As primeiras duas epístolas deste livro surgiram como resposta a questões de Manikchi Sahib, um diplomata que representava os Parsees da Índia na Pérsia. Manikchi Sahib tornara-se um admirador de Bahá’u’lláh, e decidiu colocar-lhe várias questões sobre assuntos religiosos. As restantes epístolas foram dirigidas a outros dos primeiros bahá'ís de origem zoroastriana que colocaram questões do mesmo tipo. Apesar destas epístolas terem sido dirigidas a pessoas de origem zoroastriana, as respostas de Bahá'u'lláh não se limitam à perspectiva zoroastriana.

    Segundo Steven Phelps, um dos tradutores envolvidos neste trabalho, nestas epístolas "além de reafirmar os princípios centrais da Fé, tais como a unidade orgânica da raça humana, o carácter progressivo da revelação divina e a natureza mundial de pretensão profética de Bahá'u'lláh, os textos também apresentam novas perspectivas no debate sobre a fronteira entre o absoluto e o relativo na verdade religiosa. Talvez o aspecto comum mais importante destas epístolas seja o facto de exporem de forma eloquente a necessidade urgente da religião reclamar o seu papel como força unificadora e capaz de transformar o mundo."

    A tradução do livro foi feita pelo Departamento de Pesquisa da Casa Universal de Justiça, a partir dos textos originais. O resultado obtido foi fruto do trabalho e dedicação de várias pessoas, que se esforçaram por seguir o estilo de tradução adoptada por Shoghi Effendi. Este pequeno volume de Escrituras é apenas uma pequena porção das Escrituras de Bahá'u'lláh, reveladas durante os quarenta anos do Seu ministério.

    -------------------------
    Notícia original (BWNS):
    New volume of Baha'i sacred writings is published

    segunda-feira, 31 de julho de 2006

    Sahba Sanai

    Baha'i, iraniano e português

    --------------------
    Texto da entrevista de Maria João Seixas a Sahba Sanai, publicada na revista Pública (suplemento do jornal Público) de ontem. A sombreado amarelo assinalei as ideias que me parecem ser mais interessantes. A "carta aberta" referida nesta entrevista encontra-se aqui.
    --------------------


    Tem 20 anos e estuda Engenharia Civil no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. É cidadão português, nascido em Faro. O seu nome é de origem iraniana. Por circunstâncias familiares, religiosas e políticas, os pais de Sahba encontraram em Portugal, há já mais de duas décadas, um lugar de acolhimento para o traçado de um futuro novo.

    Sahba é alto, de figura atlética, e pratica com grande desenvoltura um modo de sorrir (quando fala e quando ouve quem com ele fala), que abre de par em par qualquer portada que tenha pela frente. Conhecedor e utilizador das novas tecnologias, Sahba convive desassombradamente com blogues e “sites”, como todos os da sua geração.

    Em Novembro de 2005 “e-mailou” aos seus “queridos amigos” uma carta, partilhando a notícia da morte da avó paterna. Começava assim: “Para os que não sabem, a ‘amiga’ que vos dizia estar doente era ela - a minha melhor amiga, companheira de todas as horas, solidária comigo na alegria (sobre tudo!) e na tristeza. É uma alma mágica que trouxe luz à nossa casa quando, há cerca de 11 anos, veio para Portugal…”

    Sahba, como os pais, professa a fé baha’i. O respeito pelos outros é um postulado da sua religião, que Sahba vive com a mesma absoluta naturalidade com que respira. Tenta exigir de si o melhor cumprimento dos preceitos de Bahá'u'lláh, fundador desta religião (a mais jovem do mundo).

    Trata-se de uma religião sincretista, que preza e venera os profetas de todas as grandes religiões. Sem ritos e sem clero, teve o seu começo na segunda metade do século XIX e conta com sete milhões de crentes espalhados pelos sete cantos da terra. Bahá'u'lláh era filho de uma família nobre da Pérsia e a Pérsia do seu tempo perseguiu-o, e aos seus seguidores, tendo muitos sido torturados e mortos. No Irão de hoje e pela mesma razão de fé, os baha’is continuam a sofrer ameaças e prisões. Já em Março de 2006, Sahba voltou a escrever outra carta: “Carta aberta aos meus amigos”. Principiava desta maneira: “Olá! Se és meu amigo recomendo-te seriamente que leias esta carta, pois espero que a partir de agora baseies o teu relacionamento comigo no que aqui está escrito.” Seguem-se depois algumas clarificações sobre o que é ser baha’i e o que é ser filho de pais iranianos. Se Sahba é português deve-se justamente ao facto de ser filho de pais iranianos e baha’is. Vieram a Portugal, há mais de 20 anos, festejar o reencontro com familiares dispersos por vários continentes. Durante essa estadia, o Irão endureceu e uma nova intolerância política e religiosa começou a ser estabelecida. Os pais de Sahba queriam continuar a ser o que eram, fiéis à fé em que acreditavam, sem por isso terem de viver atemorizados e serem maltratados. Por esse motivo não regressaram à pátria amada. Portugal assumiu-se como lugar de refúgio, dando-lhes a alegria de poderem viver segundo as suas convicções, em paz e liberdade. Sahba já nasceu entre nós.

    Sahba, diz-me quem és.

    Quem sou? Boa pergunta. Suponho que sou mais um. Esta é a melhor definição, no meu entender.

    Mas ao seres “mais um” deves reconhecer em ti algumas características próprias. É sobre elas que gostava que falasses.

    Uma coisa que me ocorre tem a ver com aquela pergunta que às vezes se faz aos gémeos: “Como é ser-se gémeo?” E eles muitas vezes respondem que não sabem como é não se ser gémeo. Também não sei o que dizer, quando me perguntam se me sinto mais português ou mais iraniano. Acho que a melhor abordagem é a que me leva a dizer que me sinto cidadão do mundo. E que me vejo como alguém que aprecia a perfeição que procura.

    Tens dupla nacionalidade?

    Não. Sou português. Nasci em Faro há 20 anos e um bocadinho.

    Que língua falas com a tua família?

    Em casa fala-se uma mistura de persa (farsi), português, e até um pouquinho de inglês.

    Escolheste o curso de Engenharia por convicção e gosto?

    Foi uma decisão complicada. Não sei sequer se passei pela fase de os miúdos quererem ser bombeiros ou polícias, porque estive sempre, desde pequeno, fixado em olhar para o céu, ver as estrelas e seguir o que se passava lá fora, na grande abóbada. A astronomia ou a astrofísica deviam ser os domínios que, quando crescesse, me deveriam interessar. Mais tarde, por volta do 9º e 10º ano, pus-me a pensar que em Portugal ou talvez em qualquer outro país, não conseguiria atingir algo de muito extraordinário, que era o que eu mais desejava, e comecei a viciar-me literalmente, em computadores. Cheguei a pensar tirar um curso profissional e desistir até de qualquer licenciatura. Andava completamente obcecado. Os meus pais é que não andavam nada satisfeitos com a ideia e eu senti, e sinto, que não podia tomar uma decisão tão drástica sobre o meu futuro sem o apoio deles. Consultei-os sobre as razões daquele desagrado relativamente ao que eu queria fazer no mundo dos computadores, ouvimo-nos mutuamente e, entre tudo o resto de que eu também gostava, escolhi Engenharia Civil. Olhando para trás, ainda bem, os computadores não eram de facto o melhor para mim e é curioso como, por não querer ir contra a vontade dos meus pais, acabei por encontrar o sítio certo, aquele onde queria mesmo chegar.

    Sendo a formação do teu pai em Arquitectura, terá sido esse universo ligado às construções a influenciar a tua escolha?

    Penso que não. Para além de ser arquitecto, o meu pai domina outros saberes que, no sue conjunto, sempre exerceram em mim um grande fascínio. Não foi especificamente esse “universo ligado às construções” que me levou à decisão de ser engenheiro. Não sendo aquilo que eu mais gostava no momento, acreditei que seria bom aprender a gostar mais. É o que está a acontecer, posso dizê-lo, agora que estou a acabar o 3º ano do curso.

    Quando a tua avó morreu, escreveste uma carta dando a notícia da partida da tua melhor amiga; na escolha do teu curso deste a entender que as tuas opções passaram e devem passar pelo assentimento dos teus pais. Esse culto e respeito pelos mais velhos é uma característica dominante da educação que recebeste, de preceitos iranianos praticados na tua família?

    Sinto, de facto, alguma diferença de atitude em relação aos mais velhos quando olho em volta e comparo os comportamentos das pessoas que me rodeiam. Há uma coisa na cultura iraniana e, em geral, em todas as culturas orientais, que sempre me fascinou – a ideia de que atingimos o nosso melhor grau de perfeição quando, por assim dizer, inexistimos. Deste princípio decorre talvez o natural respeito que sentimos por quem temos diante de nós, pelos outros. É uma atitude transmitida desde a infância e que, para os ocidentais, pode parecer quase formal, mas não é nada, é antes próxima de uma dimensão mística, de devoção e cortesia. A relação com a minha avó paterna, por exemplo, foi de uma intensidade e importância incríveis para mim.

    Há uma história de amor oriental, entre Laylí e Madjnún, que conta como duas pessoas que desejam estar uma com a outra devem absolutamente estar uma com a outra. Esta história, um pouco como a de Romeu e Julieta para os ocidentais, não acaba bem, os amantes não se juntam. Podem ouvir-se canções na Pérsia que continuam a dizer que se Laylí e Madjnún se tivessem unido, o mundo sofreria menos, porque o seu equilíbrio não teria sido mais alterado.

    Sem saber explicar muito bem o significado profundo dos versos desta história, sei, com absoluta convicção, que o tal equilíbrio do mundo foi poupado a mais alterações pelo simples facto de eu ter chegado à minha avó. Teria nove anos quando ela veio do Irão para a nossa casa no Algarve. Logo no dia seguinte, após acordar, quando os meus pais saíram para o trabalho, disseram-me: “Vai estar algum tempo com a tua avó que está na cozinha.” Senti-me inibido de início, porque, afinal, não a conhecia! Entretanto, lá fui e ela começou a contar-me histórias da sua vida no Irão. Não tive a imediata consciência do que estava a acontecer, mas o incrível era que a minha avó não fazia nenhum esforço para “simplificar” ou tornar mais impressionante o que me ia contando. Cabia-me a mim o esforço de estar à altura dos extraordinários eventos cujas histórias partilhava comigo. Isso transmitia um conforto e uma serenidade incríveis. Havia nela uma majestade interior que lhe dava uma autoridade fantástica. Em todas as circunstâncias, e até ao fim da vida, foi assim.

    Interessas-te pela história do Irão?

    A sua história actual interessa-me pouco, acho que é um mísero ponto nesta linha do tempo. O que me fascina é a filosofia mística da Pérsia antiga, os sufis, os derviches… Embora não conhecendo a realidade iraniana, imagino que seja possível no Irão, ainda hoje, um rapaz da minha idade responder a uma pergunta do pai com uns versos de um poeta místico de há sete séculos. Não seria comum, mas também, parece-me, não seria incomum uma situação destas acontecer. Eu, como português, quando falo do quotidiano, não cito Sócrates, ou Kant ou Fernando Pessoa, para traduzir o que quero dizer. Não temos esse hábito entranhado entre nós. Falta-nos essa dimensão da espiritualidade.

    Planeias visitar o país da tua avó, dos teus pais?

    Desejo muito, mas de momento não planeio. Não penso que o meu pai possa ir ao Irão, por causa das perseguições aos baha’is, por terem o nome dele referenciado como parte das informações recolhidas sobre os baha’is. Nem sei se quererá ir lá, pelo estado das coisas actualmente. Não é esta a sua pátria natal. Houve perseguição muito intensa nas últimas décadas contra os baha’is - e continua a haver. Inclusive, um irmão do meu pai foi morto apenas por ser baha’i. No entanto, e embora não o diga, suponho que não lhe seria fácil ver-me ir ao Irão sem ele poder ir - “tão perto mas tão longe”.

    Mas tu também és um baha’i Não corres riscos?

    Sou um baha’i, mas sou também português. Faz toda a diferença. Não se vai capturar um português no Irão, pois não?

    O que queres dizer quando dizes “Sou um baha’i”?

    A designação Bahá'u'lláh significa “Glória de Deus”. “Baha’i” é uma palavra árabe que quer dizer, numa tradução pobre, “seguidor da Glória”. Ser baha’i é isso, procurar atingir a perfeição em tudo, não só individualmente, como socialmente. Procurar chegar à unidade do género humano é também ajudar e servir os outros. Não há ritos, nem uma hierarquia eclesiástica na fé baha’i - tento viver diariamente os princípios estabelecidos por Bahá'u'lláh e procuro também não falhar os nossos encontros, quer as Festas de 19 Dias, quer a Escola de Verão, quer outros que sinto serem, no fundo, encontros basilares da comunidade baha’i.

    Escreveste e divulgaste uma “carta aberta” para corrigir alguns preconceitos de análise dos teus amigos sobre ti. Porquê?

    A motivação essencial que me levou a escrever a carta e a publicá-la na Internet está assente no princípio de que qualquer relacionamento se deve basear na compreensão mútua. Não queria exactamente “corrigir preconceitos”, mas sim tentar esclarecer alguns equívocos que se tinham instalado. Tudo começou a surgir na minha cabeça enquanto assistia a uma palestra sobre “A Juventude e a Fé Baha’i”, dada por um amigo meu, também português e também baha’i. Este amigo chama-se André, gosta de carros, de “tuning” e de “hip-hop”. Se eu falasse aos meus amigos mais próximos sobre o André, eles achariam estranho, porque o único baha’i que eles conhecem sou eu, que me chamo Shaba e sou filho de pais iranianos. Pus-me a pensar mais no assunto e comecei a notar que talvez as piadas que os meus amigos fazem comigo – “Ah, o bombista”, “esse fundamentalista nuclear”, etc – fossem, na realidade, baseadas numa compreensão errónea de quem eu sou. E achei que devia propor-lhes algumas reflexões sobre a minha realidade e o facto de que ser-se iraniano e ser-se baha’i são coisas diferentes. E quis explicar-lhes que esta religião está longe de ser um obscuro movimento oriental. Bem pelo contrário. A carta passou a ser um assunto de conversa na minha turma, uns deixaram de dizer piadas de iranianos à minha frente (e não era isso que eu pretendia, queria apenas que não lessem a totalidade do real por um qualquer estereótipo), outros passaram a dizer ainda mais piadas (muito engraçadas) mas já com outra compreensão de quem eu sou - o que era o próprio objectivo da carta. Outros ainda disseram-me que pensavam que eu era da Índia ou de um outro país, ou que pensavam que ser-se iraniano e ser-se baha’i são coisas equivalente e iam procurar saber mais coisas sobre a fé baha’i.

    E, do teu lado, tens alguns equívocos em relação ao Irão?

    Não sei, é provável que tenha, mas… o Irão ainda não me dirigiu nenhuma “carta aberta”. Nunca se sabe ao certo se alimentamos dentro de nós equívocos e preconceitos sobre alguém, um país, um povo, um ideia, não é? Gostaria que isso não me acontecesse.

    Foram recentemente presos pelas autoridades iranianas mais de 50 jovens baha’is que participavam num programa de escolarização. Como é que reages a isso?

    Como qualquer pessoa reage a notícias destas, suponho – com espanto, consternação. Desde a Revolução Islâmica, em 1979, foram assassinados mais de 200 baha’is no Irão, simplesmente por serem baha’is. Uma dessas pessoas, como disse, era da nossa família. Parece uma ironia, uma vez que os baha’is não têm qualquer aspiração política, bem longe disso.

    Reconheces qualidades de tolerância e acolhimento do “outro” na sociedade portuguesa?

    Não conheço outra sociedade a fundo, não tenho por isso termo de comparação. Mas acho que sim, sobretudo pela experiência vivida pelos meus pais, quando há quase 30 anos vieram a Portugal. Eles não esquecem e fazem questão que a minha irmã e eu saibamos.

    Sendo um baha’i de convicção profunda, tendo 20 anos, como é que lidas com a dominante materialista da vida de hoje?

    Com muita atenção a ela, porque essa dominante faz-se sentir em tudo. Como exemplo, a água é um bem escasso e precioso, mas estamos mecanizados a pensar que desde que paguemos por ele, ele não se esgotará. Esquecemo-nos que pode chegar o dia em que já não temos água para pagar. O dinheiro e a velocidade da vida afastam-nos daquilo que, para mim é essência e que vem da vida espiritual. Esta exige tempo e interioridade, coisas difíceis que são normalmente substituídas pelo facilitismo do consumo. A maioria das pessoas sente falta de qualquer coisa mais, mas distrai-se dessa falta no centro comercial mais próximo. É importante não nos distrairmos, procuro estar atento a essa tentação. Não é fácil mas também não é impossível.

    O que é que pensas fazer depois do curso?

    Sempre me questionei sobre o que faria depois do curso. Acho que talvez tente fazer uma pós-graduação, depois trabalhar, ganhar alguns anos de experiência e, feito isso, ir em seguida para África.

    África?

    Sim. Fascinam-me os projectos de desenvolvimento sócio-económico e gostava de poder vir a colaborar num deles. Li uma vez um artigo sobre um senhor que tinha prestado o maior serviço a uma determinada aldeia em África, apenas por ter instalado uma bomba de água lá no poço. A noção de poder dar muito com tão pouco entusiasma-me. Ver como, com pequenos conhecimentos e poucos meios, se pode beneficiar realmente a vida de uma comunidade, deve dar uma satisfação enorme. Talvez seja por preguiça minha que gostaria de fazer coisas deste género! Mas acho que não. Acho que é tão importante o que fazemos como o modo como fazemos. E esse deve implicar uma grande entrega da nossa parte e uma clara definição dos objectivos a atingir. Não quero perder de vista a possibilidade de ajudar os outros, de contribuir concretamente para a melhoria das suas condições de vida.

    És bom aluno?

    Não, sou um aluno razoável.

    Dá-me uma palavra de eleição?

    Unidade. Acho que é menos danoso não se saber o que se fazer do que o não se tentar compreender o ponto de vista do outro. Sem esse passo conciliatório é muito difícil progredir. A unidade é fundamental para o progresso – é condição necessária e também suficiente.

    sábado, 29 de julho de 2006

    No jornal Público

    A propósito do conflito no Médio-Oriente, o jornal Público apresenta hoje o artigo HAIFA: «Somos todos um alvo» onde se lê:
    (...)

    Mesmo ao fim da rua, os famosos jardins baha'i estão encerrados, como a maioria dos locais de referência em Haifa. Elevam-se pelo Monte Carmel[o] em 19 coloridos Terraços, enfeitados com fontes de mármore, coníferas e roseiras brancas, envolto entre as plantas que cuida com devoção, o jardineiro Fade Kanboura parece simbolizar a diversidade religiosa e cultural que tornou Haifa uma cidade famosa. É um católico, trabalha para os baha’is, e num estado judaico está a ser atacado por radicais palestinianos.

    "Somos todos um alvo", diz Kanboura, quando graceja da suposição de que os judeus possam retaliar face aos seus vizinhos árabes devido aos ataques do Hezbollah. "Um rocket não distingue entre um judeu, um árabe e um cristão".

    (...)

    Mais notícias do Egipto...

    Bilo continua a informar-nos sobre a evolução da situação dos Bahá'is no Egipto; gostava que houvesse mais bahá'ís com blogs assim!. Nos últimos dias tem referido as forma como os media em língua árabe têm vindo a mostrar interesse pela religião bahá'í e seus seguidores.

    Certidão de NascimentoO site da BBC (em árabe) publicou um entrevista com o Dr. Basma Mousa, professor de cirurgia na Universidade do Cairo. Nesta entrevista descreve-se como a sua família tem sobrevivido no Egipto. Também se explora a história da religião bahá'í no Egipto, sendo referido o caso dos cartões de identidade e o reconhecimento dos Bahá'ís no Egipto. A entrevista foi feita enquanto a televisão emitia um programa sobre os bahá'ís. O artigo mostra uma imagem do Santuário do Báb e dos jardins em Haifa. Também mostra uma imagem de parte de uma antiga certidão de nascimento de um dos seus filhos, onde se registou a religião dos pais; a palavra escrita é «Bahá'í».

    Por seu lado, o jornal egípcio "Sowt el-Omma" (Voz da Nação) entrevistou quatro bahá’ís egípcios, com o objectivo de saber a sua reacção a um livro recentemente publicado que apelava à morte dos bahá'ís. O artigo – com o título «Revolta entre os baha’is devido à publicação de um livro pelo Ministério dos Assuntos religiosos onde se justifica a sua eliminação» – transmite a ideia que aquele livro viola todas as formas de decência, civilidade e até era contra a lei internacional. Num dos subtítulos, lia-se: "«Se todas as nações matassem aqueles que têm crenças e opiniões diferentes, a humanidade desapareceria da existência».

    O artigo apresenta os bahá'ís de forma clara e honesta. Enfatiza que com base em precedentes legais no Egipto, a Constituição e a Sharia, a Fé Bahá'í foi oficialmente reconhecida no Egipto. Também a recente decisão do tribunal em 4 de Abril confirmou o direito dos bahá'ís a serem reconhecidos e tratados com igualdade. Além disso, o texto consegue fazer um boa defesa contra todas as acusações incluídas no livro, analisando a situação dos bahá'ís no Egipto, e sugerindo a necessidade de reconhecimento oficial desta religião.


    -----------------------
    Posts a ler no blog Baha'i Faith in Egypt:
    On Egyptian Baha'is: Middle East Online
    Egypt: An Open Letter From A Baha'i To His Homeland
    Egypt: Another Strong Call In Support Of Religious Freedom
    Egypt: A Student's Struggle For Identity

    sexta-feira, 28 de julho de 2006

    O falso Abrupto



    Entrar na casa de outro, sem autorização, para roubar ou destruir, isso é crime. Não importa se é casa de rico, ou casa de pobre; é sempre um crime. E, de certa forma, um blog é como uma casa. É um espaço pessoal ou colectivo, cujo formato e conteúdo reflectem os interesses e as preocupações do(s) seu(s) autor(es).

    O que está a acontecer ao Abrupto é uma tentativa de destruição do espaço de Pacheco Pereira. Não sei que legislação existe sobre esta matéria, mas espero que tudo isto se resolva rapidamente. Eu não gostava - mesmo nada! - que me fizessem isto.

    quinta-feira, 27 de julho de 2006

    O Deus dos Fanáticos

    Algumas das notas breves, sob o título "O Deus dos Fanáticos", de José Luis Cortés, no seu livro Um Deus chamado Abba.
    ----------------------------------------------

  • Note-se que nenhum fanático se considera a si como fanático: dir-se-á devoto, crente, observante... muito devoto, muito crente, muito observante.


  • O Deus dos fanáticos não se serve desenvolvendo todas as potencialidades (intelectuais, afectivas, sociais,...) que Deus deu ao homem, mas antes reprimindo-as.


  • O fanatismo impede que as pessoas creiam de verdade, porque as impede, sob pena de excomunhão, de duvidarem, de experimentarem, de se enganarem.


  • O fanático, acaba, mais cedo ou mais tarde, por projectar sobre si mesmo a imagem que tem de Deus: torna-se também autoritário, exclusivista, impiedoso.


  • O fanático coloca a defesa de Deus acima da defesa dos homens. Em nome de Deus, não se importa de fazê-los sofre, nem mesmo de matá-los. Mas o que pode Deus ganhar com a morte de um homem?


  • Ninguém que chame a Deus "o meu" Deus (ou "o nosso" Deus) adora o Deus verdadeiro.