On Sept 12th 2009 - the Baha'i Communities of the Washington DC Metro Area held an event to raise awareness for their fellow religionists Iran.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Uma nova ordem económica mundial?
Mário Soares, hoje no DN.
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Desde há décadas, na segunda metade do século passado, que nos meios progressistas se falava da necessidade de uma nova ordem económica mundial. Sempre em vão. Desta vez, em plena crise global - que não terminou, insisto -, no encontro dos G20 que teve lugar, há três dias, em Pittsburgh, na América do Norte, a convite de Barack Obama, mas à margem das Nações Unidas, note-se, Gordon Brown decretou, no encerramento da cimeira, que foi "criada uma nova ordem económica mundial para lidar com os problemas financeiros e económicos mundiais", que abrange ou coordena, ao que parece, o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial.
Que verdade existe nesta declaração surpreendente do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown? Responderia que tem uma parte ou meia verdade. O G20 tem vinte países membros dos mais ricos da terra, que representam 85% do PIB (produto interno bruto) mundial. É bastante considerável. Entraram os países emergentes: Brasil, Índia, China, para além da Rússia, Arábia Saudita, Argentina, Japão, África do Sul, Indonésia, México, Turquia, Austrália, e os tradicionais Canadá, Estados Unidos, União Europeia (França, Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha) e o presidente da Comissão Europeia. Foi um amplo alargamento, desde o G7 e, depois, G8. Precisamente mais doze países membros vindos dos cinco continentes, mas tendo como países islâmicos apenas a Arábia Saudita, uma teocracia plutocrática, a Indonésia e a Turquia. O que é manifestamente pouco, para uma organização que se propõe ser "o governo financeiro e económico do mundo". Faltam os outros cento e sessenta e tal países membros da ONU!
Claro que esta "nova ordem" não definiu com suficiente clareza quais as políticas financeiras e económicas susceptíveis de criar, na expressão de Obama, um novo paradigma de desenvolvimento. E não ultrapassou velhas divergências entre os países ditos desenvolvidos e os países emergentes. A economia de casino está longe de ter sido ultrapassada: não se reduziram os prémios bilionários e escandalosos dos gestores das grandes empresas (incluindo os bancos), nem se acabou, como se dizia, com os "paraísos fiscais", nem se criaram os mecanismos de fiscalização necessários para evitar as grandes corrupções. E, sem isso, não será possível ultrapassar a crise.
(...)
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Desde há décadas, na segunda metade do século passado, que nos meios progressistas se falava da necessidade de uma nova ordem económica mundial. Sempre em vão. Desta vez, em plena crise global - que não terminou, insisto -, no encontro dos G20 que teve lugar, há três dias, em Pittsburgh, na América do Norte, a convite de Barack Obama, mas à margem das Nações Unidas, note-se, Gordon Brown decretou, no encerramento da cimeira, que foi "criada uma nova ordem económica mundial para lidar com os problemas financeiros e económicos mundiais", que abrange ou coordena, ao que parece, o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial.
Que verdade existe nesta declaração surpreendente do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown? Responderia que tem uma parte ou meia verdade. O G20 tem vinte países membros dos mais ricos da terra, que representam 85% do PIB (produto interno bruto) mundial. É bastante considerável. Entraram os países emergentes: Brasil, Índia, China, para além da Rússia, Arábia Saudita, Argentina, Japão, África do Sul, Indonésia, México, Turquia, Austrália, e os tradicionais Canadá, Estados Unidos, União Europeia (França, Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha) e o presidente da Comissão Europeia. Foi um amplo alargamento, desde o G7 e, depois, G8. Precisamente mais doze países membros vindos dos cinco continentes, mas tendo como países islâmicos apenas a Arábia Saudita, uma teocracia plutocrática, a Indonésia e a Turquia. O que é manifestamente pouco, para uma organização que se propõe ser "o governo financeiro e económico do mundo". Faltam os outros cento e sessenta e tal países membros da ONU!
Claro que esta "nova ordem" não definiu com suficiente clareza quais as políticas financeiras e económicas susceptíveis de criar, na expressão de Obama, um novo paradigma de desenvolvimento. E não ultrapassou velhas divergências entre os países ditos desenvolvidos e os países emergentes. A economia de casino está longe de ter sido ultrapassada: não se reduziram os prémios bilionários e escandalosos dos gestores das grandes empresas (incluindo os bancos), nem se acabou, como se dizia, com os "paraísos fiscais", nem se criaram os mecanismos de fiscalização necessários para evitar as grandes corrupções. E, sem isso, não será possível ultrapassar a crise.
(...)
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Estes blogs são viciantes
Este blog foi distinguido com o prémio "Este blog é Viciante" pelo José Leitão do Inclusão e Cidadania. Para que saibam que eu também tenho os meus vícios bloguísticos, aqui ficam as minhas leituras que me deixam "agarrado":
Arrastão
Cibertúlia
Água Lisa
Inclusão e Cidadania
Religionline
Entre as Brumas da Memória
Companhia dos Filósofos
Baha'i Views
Iran Press Watch
Muslim Network for Baha'i Rights
sábado, 26 de setembro de 2009
A Special Devotional
Escola Bahá'í de Verão 2009.
Um momento devocional muito especial. São entoadas frases das Escrituras Baha'is e combinados diversos estilos musicais.
Um dos melhores momentos desta Escola.
Um momento devocional muito especial. São entoadas frases das Escrituras Baha'is e combinados diversos estilos musicais.
Um dos melhores momentos desta Escola.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Os Programas Eleitorais e as Confissões Religiosas
Com o aproximar das eleições legislativas vários agentes sociais têm questionado as forças políticas sobre o que se propõem fazer nas múltiplas áreas da governação do nosso país. Como cidadão português e membro de uma minoria religiosa, tentei saber quais as intenções dos partidos e coligações em relação à Lei da Liberdade Religiosa (que ainda não se encontra totalmente regulamentada) e que princípios defendem no que toca ao relacionamento entre o Estado e as Confissões Religiosas do nosso país.
Consultei os programas eleitorais dos partidos em busca de respostas e o resultado é o que se encontra nos quadros seguintes.
Nº de vezes que as palavras Religião ou Confissão Religiosa surge nos programas eleitorais:
NOTA: o programa do PS refere o estabelecimento de parcerias com as confissões religiosas no âmbito de uma política de preservação do Património Histórico e Cultural(p. 59). O programa do CDS refere a "…atávica suspeita das parcerias com o sector social, nomeadamente com as instituições de inspiração ou matriz religiosa"(p.207) e ainda importância do "turismo religioso" (p.215,218)
Nº de vezes que as palavras Laicidade ou Laico surge nos programas eleitorais:
NOTA: O programa do Bloco de Esquerda refere a propósito da morte assistida: "Nenhum Estado laico e democrático deve poder determinar ou impor as condições em que cada um morre. Nenhuma teologia pode determinar o valor da nossa vida e do nosso sofrimento."(p.33)
Nº de vezes que as palavras Liberdade Religiosa ou Concordata surge nos programas eleitorais:
COMENTÁRIO: Será que as Confissões Religiosas, a Laicidade, a Lei da Liberdade Religiosa são temas irrelevantes para as forças políticas? Será que os partidos políticos nada têm a dizer ou a propor nessa matéria? Ou isto serão temas demasiado delicados, cuja referência é preferível omitir nos programas eleitorais?
ACTUALIZAÇÃO
No site da Associação República e Laicidade encontra-se um post intitulado "Sobre a campanha eleitoral para as Legislativas" onde podemos encontrar algumas respostas do BE e do MRPP a estas questões.
Consultei os programas eleitorais dos partidos em busca de respostas e o resultado é o que se encontra nos quadros seguintes.
Nº de vezes que as palavras Religião ou Confissão Religiosa surge nos programas eleitorais:
| PS | 1 |
| PSD | 0 |
| BE | 0 |
| CDU | 0 |
| CDS | 1 |
NOTA: o programa do PS refere o estabelecimento de parcerias com as confissões religiosas no âmbito de uma política de preservação do Património Histórico e Cultural(p. 59). O programa do CDS refere a "…atávica suspeita das parcerias com o sector social, nomeadamente com as instituições de inspiração ou matriz religiosa"(p.207) e ainda importância do "turismo religioso" (p.215,218)
Nº de vezes que as palavras Laicidade ou Laico surge nos programas eleitorais:
| PS | 0 |
| PSD | 0 |
| BE | 1 |
| CDU | 0 |
| CDS | 0 |
NOTA: O programa do Bloco de Esquerda refere a propósito da morte assistida: "Nenhum Estado laico e democrático deve poder determinar ou impor as condições em que cada um morre. Nenhuma teologia pode determinar o valor da nossa vida e do nosso sofrimento."(p.33)
Nº de vezes que as palavras Liberdade Religiosa ou Concordata surge nos programas eleitorais:
| PS | 0 |
| PSD | 0 |
| BE | 0 |
| CDU | 0 |
| CDS | 0 |
COMENTÁRIO: Será que as Confissões Religiosas, a Laicidade, a Lei da Liberdade Religiosa são temas irrelevantes para as forças políticas? Será que os partidos políticos nada têm a dizer ou a propor nessa matéria? Ou isto serão temas demasiado delicados, cuja referência é preferível omitir nos programas eleitorais?
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ACTUALIZAÇÃO
No site da Associação República e Laicidade encontra-se um post intitulado "Sobre a campanha eleitoral para as Legislativas" onde podemos encontrar algumas respostas do BE e do MRPP a estas questões.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Quando os Baha’is forem livres, os Iranianos também serão
O texto que se segue foi publicado no site da CNN e é de autoria do Hamid Dabashi, professor Estudos iranianos e Literatura Comparada na Columbia University em Nova York. Os sublinhados a amarelo são da minha responsabilidade.
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No seu último comunicado sobre o destino dos sete membros da minoria religiosa Baha’i detidos no Irão, a Amnistia Internacional, expressou profunda preocupação pelo facto de poderem enfrentar a pena de morte se forem considerados culpados das acusações de "espionagem para Israel", "insulto a santidades religiosas" e "propaganda contra o sistema".
Com a Republica Islâmica do Irão a experimentar o mais sério desafio à sua legitimidade em 30 anos de história, a vulnerabilidade das minorias étnicas e religiosas é o barómetro mas preciso da crise que todos os iranianos enfrentam nestas circunstâncias.
As minorias sempre estiveram à mercê de autoridade beligerantes, particularmente quando enfrentam uma crise de legitimidade. Os curdos no Irão ocidental, as comunidades de língua árabe no sul, assim como os Turcomanos e os Baluchis no oriente estiveram na primeira linha dessas discriminações, que por sua vez instigaram movimentos separatistas crónicos nessas áreas.
Simultaneamente, Zoroastrianos, Judeus e Arménios Iranianos também enfrentaram diferentes níveis de discriminação, a nível oficial e cultural, à medida que se juntaram aos seus irmãos muçulmanos na oposição à tirania doméstica e à intervenção estrangeira.
Entre todas estas minorias, os Baha’is permanecem a mais frágil, em parte devido às hostilidades sectárias intra-xiitas que datas de meados do século XIX, e devido ao surgimento de um movimento messiânico muito popular conhecido como Babismo, do qual os actuais Baha’is são uma ramificação. Os seus aderentes consideram-se seguidores de uma religião inteiramente nova, que na verdade é a mais recente religião monoteísta iraniana com mais de cinco milhões de adeptos espalhados por 200 países.
Enquanto outras minorias religiosas estão especificamente protegidas pela Constituição da República Islâmica, tal não é o caso dos Bahá'ís.
O artigo 13º da Constituição reconhece de forma específica e exclusiva Zoroastrianos, Judeus e Cristãos como as "únicas minorias religiosas reconhecidas, que, dentro dos limites da lei, são livres para realizar os seus ritos e cerimónias religiosas, e para agir de acordo com os seus próprios cânones em matéria de assuntos pessoais e educação religiosa".
A palavra "únicas" neste artigo parece especificamente escolhida para excluir os Baha’is desta cláusula. Com o mesmo efeito, o artigo 14 da Constituição estipula que a protecção constitucional das minorias é exclusiva daquelas que se “abstêm de envolvimento em conspiração ou actividade contra o Islão e a República Islâmica do Irão”.
A localização dos lugares sagrados Baha'is em Haifa, Israel, tem sido o principal motivo de hostilidade e intimidação contra os Baha'is. Isto data do antigo período Otomano, e precedeu o estabelecimento do Estado Judaico em 1948. é também algo sobre o qual os Baha'is não tiveram controlo.
Face ao sistemático abuso de liberdades civis dos Baha'is, o governo americano pouco pode fazer, particularmente na rescaldo da presidência Bush e oito anos de vasta islamofobia que nem deixaram incólume a última campanha presidencial.
Tendo-se envolvido em duas guerras com nações muçulmanas, o governo americano encontra-se na mais desfavorável posição para defender os direitos das minorias não Muçulmanas nos seus países. Além disso, durante os oito anos da presidência Bush, e como consequência dos eventos do 11 de Setembro, ser Muçulmano tornou-se um handicap nos Estados Unidos, criando problemas até para o nome do meio do Presidente Obama.
Foi apenas quando o antigo Secretário de Estado Colin Powell veio a público expressando-se fortemente contra a calúnia contra os muçulmanos, é que se viu uma figura pública colocar o problema na consciência nacional.
Tanto quanto o Governo Americano está na pior posição para poder ajudar os Bahá’ís, os Muçulmanos americanos estão perfeitamente preparados, para expressar a sua indignação contra o abuso das minorias religiosas no Irão e em toda a parte do mundo Muçulmano, pois sabem o que é sentir-se um pária político e uma minoria religiosa num contexto esmagadormente diferente.
Desde os terríveis eventos do 11 de Setembro, as comunidades Muçulmanas americanas suportaram muita suspeição e preconceito religioso e racial, pois viram os valores e os símbolos sagrados da sua fé caluniados e ridicularizados na Europa Ocidental, na América do Norte e na Austrália.
Multiplicando muitas vezes essa experiência e prolongando a mesma até ao final do século XIX, obteríamos a experiência dos Baha'is iranianos, presos na sua própria pátria, impedidos de exercer os seus próprios princípios sagrados.
As experiências dos Muçulmanos aqui nos Estados Unidos ou na Europa, nessa matéria, colocam-nos numa posição única para levantar a voz contra o ataque às minorias não muçulmanas no Irão e no resto do mundo Muçulmano.
Num mundo agora caracterizado pela presença de múltiplas fés no interior de muitas nações, e à medida que os Muçulmanos americanos aprendem a unir-se para proteger os seus direitos constitucionais numa velha democracia, seria adequado que levantassem a sua voz na defesa de outras minorias religiosas que procuram garantir os seus direitos básicos às liberdades religiosas em países que aspiram tornar-se democracias.
O destino dos Baha’is iranianos não é apenas uma questão relacionada com os seus direitos civis fundamentais no contexto de qualquer república Islâmica, ou outra. É a própria pedra angular da cidadania democrática sem a qual a maioria dos Iranianos muçulmanos tem negada a sua protecção constitucional. Veja-se cuidadosamente o destino dos baha’is iranianos.
No dia em que eles forem livres para praticar a sua religião sem receio, os iranianos em geral, terão garantido finalmente as suas liberdades civis.
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No seu último comunicado sobre o destino dos sete membros da minoria religiosa Baha’i detidos no Irão, a Amnistia Internacional, expressou profunda preocupação pelo facto de poderem enfrentar a pena de morte se forem considerados culpados das acusações de "espionagem para Israel", "insulto a santidades religiosas" e "propaganda contra o sistema".
Com a Republica Islâmica do Irão a experimentar o mais sério desafio à sua legitimidade em 30 anos de história, a vulnerabilidade das minorias étnicas e religiosas é o barómetro mas preciso da crise que todos os iranianos enfrentam nestas circunstâncias.
As minorias sempre estiveram à mercê de autoridade beligerantes, particularmente quando enfrentam uma crise de legitimidade. Os curdos no Irão ocidental, as comunidades de língua árabe no sul, assim como os Turcomanos e os Baluchis no oriente estiveram na primeira linha dessas discriminações, que por sua vez instigaram movimentos separatistas crónicos nessas áreas.
Simultaneamente, Zoroastrianos, Judeus e Arménios Iranianos também enfrentaram diferentes níveis de discriminação, a nível oficial e cultural, à medida que se juntaram aos seus irmãos muçulmanos na oposição à tirania doméstica e à intervenção estrangeira.
Entre todas estas minorias, os Baha’is permanecem a mais frágil, em parte devido às hostilidades sectárias intra-xiitas que datas de meados do século XIX, e devido ao surgimento de um movimento messiânico muito popular conhecido como Babismo, do qual os actuais Baha’is são uma ramificação. Os seus aderentes consideram-se seguidores de uma religião inteiramente nova, que na verdade é a mais recente religião monoteísta iraniana com mais de cinco milhões de adeptos espalhados por 200 países.
Enquanto outras minorias religiosas estão especificamente protegidas pela Constituição da República Islâmica, tal não é o caso dos Bahá'ís.
O artigo 13º da Constituição reconhece de forma específica e exclusiva Zoroastrianos, Judeus e Cristãos como as "únicas minorias religiosas reconhecidas, que, dentro dos limites da lei, são livres para realizar os seus ritos e cerimónias religiosas, e para agir de acordo com os seus próprios cânones em matéria de assuntos pessoais e educação religiosa".
A palavra "únicas" neste artigo parece especificamente escolhida para excluir os Baha’is desta cláusula. Com o mesmo efeito, o artigo 14 da Constituição estipula que a protecção constitucional das minorias é exclusiva daquelas que se “abstêm de envolvimento em conspiração ou actividade contra o Islão e a República Islâmica do Irão”.
A localização dos lugares sagrados Baha'is em Haifa, Israel, tem sido o principal motivo de hostilidade e intimidação contra os Baha'is. Isto data do antigo período Otomano, e precedeu o estabelecimento do Estado Judaico em 1948. é também algo sobre o qual os Baha'is não tiveram controlo.
Face ao sistemático abuso de liberdades civis dos Baha'is, o governo americano pouco pode fazer, particularmente na rescaldo da presidência Bush e oito anos de vasta islamofobia que nem deixaram incólume a última campanha presidencial.
Tendo-se envolvido em duas guerras com nações muçulmanas, o governo americano encontra-se na mais desfavorável posição para defender os direitos das minorias não Muçulmanas nos seus países. Além disso, durante os oito anos da presidência Bush, e como consequência dos eventos do 11 de Setembro, ser Muçulmano tornou-se um handicap nos Estados Unidos, criando problemas até para o nome do meio do Presidente Obama.
Foi apenas quando o antigo Secretário de Estado Colin Powell veio a público expressando-se fortemente contra a calúnia contra os muçulmanos, é que se viu uma figura pública colocar o problema na consciência nacional.
Tanto quanto o Governo Americano está na pior posição para poder ajudar os Bahá’ís, os Muçulmanos americanos estão perfeitamente preparados, para expressar a sua indignação contra o abuso das minorias religiosas no Irão e em toda a parte do mundo Muçulmano, pois sabem o que é sentir-se um pária político e uma minoria religiosa num contexto esmagadormente diferente.
Desde os terríveis eventos do 11 de Setembro, as comunidades Muçulmanas americanas suportaram muita suspeição e preconceito religioso e racial, pois viram os valores e os símbolos sagrados da sua fé caluniados e ridicularizados na Europa Ocidental, na América do Norte e na Austrália.
Multiplicando muitas vezes essa experiência e prolongando a mesma até ao final do século XIX, obteríamos a experiência dos Baha'is iranianos, presos na sua própria pátria, impedidos de exercer os seus próprios princípios sagrados.
As experiências dos Muçulmanos aqui nos Estados Unidos ou na Europa, nessa matéria, colocam-nos numa posição única para levantar a voz contra o ataque às minorias não muçulmanas no Irão e no resto do mundo Muçulmano.
Num mundo agora caracterizado pela presença de múltiplas fés no interior de muitas nações, e à medida que os Muçulmanos americanos aprendem a unir-se para proteger os seus direitos constitucionais numa velha democracia, seria adequado que levantassem a sua voz na defesa de outras minorias religiosas que procuram garantir os seus direitos básicos às liberdades religiosas em países que aspiram tornar-se democracias.
O destino dos Baha’is iranianos não é apenas uma questão relacionada com os seus direitos civis fundamentais no contexto de qualquer república Islâmica, ou outra. É a própria pedra angular da cidadania democrática sem a qual a maioria dos Iranianos muçulmanos tem negada a sua protecção constitucional. Veja-se cuidadosamente o destino dos baha’is iranianos.
No dia em que eles forem livres para praticar a sua religião sem receio, os iranianos em geral, terão garantido finalmente as suas liberdades civis.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Bahá'í deportado do Uzbequistão
Segundo a agência noticiosa russa Ferghana, que cita fontes no Uzbequistão, o Sr. Timur Chekparbayev, um Bahá’í do Cazaquistão foi detido durante 15 dias e posteriormente deportado de Tashkent, a capital do Uzbequistão. O tribunal que decretou a expulsão justificou a medida com base nas suas actividades de promoção e divulgação da religião Baha’i deste cidadão cazaque.
"É suspeito que um cidadão estrangeiro seja capaz de construir uma forte comunidade religiosa, num curto espaço de tempo, não apenas em Tashkent, mas também em Dzijak e Bukhara", lê-se no site gorizont.uz, apoiado pelos serviços nacionais de segurança do Uzbequistão.
O mesmo site refere que o Sr. Chekparbayev não tinha autorização para efectuar a sua "actividade missionária" pois os Baha’is "não são reconhecidos pela comunidade mundial como uma religião independente e oficial."
Por último o site descreve os actos do Sr. Chekparbayev como um acto de "sabotagem ideológica com objectivos claros e ligação à crescente influência geopolítica do Irão perturbadora de milhões de cidadãos Uzebeques. Não é um trabalho fácil recuperar os danos morais causados nas almas imaturas de jovens" afirma o site, acrescentando que "entre os seguidores do Sr. Chekparbayev existem crianças menores de idade!"
COMENTÁRIO: Os governos autoritários têm tendência a limitar os direitos civis e não hesitam em formular acusações absurdas. No Irão acusam os Baha’is de ser agentes de Israel; no Uzebequistão acusam-nos de ser agentes do Irão...
"É suspeito que um cidadão estrangeiro seja capaz de construir uma forte comunidade religiosa, num curto espaço de tempo, não apenas em Tashkent, mas também em Dzijak e Bukhara", lê-se no site gorizont.uz, apoiado pelos serviços nacionais de segurança do Uzbequistão.
O mesmo site refere que o Sr. Chekparbayev não tinha autorização para efectuar a sua "actividade missionária" pois os Baha’is "não são reconhecidos pela comunidade mundial como uma religião independente e oficial."
Por último o site descreve os actos do Sr. Chekparbayev como um acto de "sabotagem ideológica com objectivos claros e ligação à crescente influência geopolítica do Irão perturbadora de milhões de cidadãos Uzebeques. Não é um trabalho fácil recuperar os danos morais causados nas almas imaturas de jovens" afirma o site, acrescentando que "entre os seguidores do Sr. Chekparbayev existem crianças menores de idade!"
COMENTÁRIO: Os governos autoritários têm tendência a limitar os direitos civis e não hesitam em formular acusações absurdas. No Irão acusam os Baha’is de ser agentes de Israel; no Uzebequistão acusam-nos de ser agentes do Irão...
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
O "crime" de ser bahá'i está a ser pago na cadeia
O artigo publicado ontem no jornal Público.
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Por Margarida Santos Lopes
Os sete líderes da maior minoria religiosa iraniana estão presos há mais de um ano sem julgamento. Algumas acusações podem condená-los à morte, mas o Governo de Teerão sabe que eles são inocentes
Às 3h30 de 14 de Maio de 2008, agentes secretos chegaram a casa de Fariba Kamalabadi, em Teerão. Traziam um mandado de busca. Demoraram três a quatro horas a revistar tudo. Detiveram-na e confiscaram vários objectos, desde computadores a fotos da família. Iraj Kamalabadi, um dos cinco irmãos, que vive na Califórnia, denuncia: "Foi um plano concertado para deter todos os líderes bahá'is. As suas moradias foram invadidas à mesma hora."
A psicóloga Fariba, de 46 anos, foi levada para a prisão de Evin no mesmo dia que o empresário Jamaloddin Khanjani, de 75, o industrial Afif Naemi, de 47, o engenheiro agrícola Saeeid Rezaie, de 51, o antigo assistente social Behrouz Tavakkoli, de 57, e o optometrista Vahid Tizfahm, de 37. A professora Mahvash Sabet, de 55, já tinha sido presa a 5 de Março de 2008, em Mashhad, para onde fora convocada pelo Ministério dos Serviços Secretos, sob o pretexto de responder sobre um funeral no cemitério bahá'i.
Depois de meses de isolamento, só muito recentemente os sete dirigentes da maior minoria religiosa do Irão ficaram a conhecer acusações formais: "espionagem a favor de Israel, insulto a santidades religiosas, propaganda contra a República Islâmica e corrupção na Terra". Iraj Kamalabadi, numa entrevista ao PÚBLICO, por telefone, não se conforma: "Eles são inocentes e só estão presos por serem bahá'is".
A lei prevê a pena de morte para espionagem e "corrupção na Terra", mas o Centro de Defesa dos Direitos Humanos do Irão, cuja presidente, a Prémio Nobel da Paz Shirin Ebadi, integra a equipa de advogados, garante que não há provas para os condenar e recomenda que o julgamento, marcado para 18 de Outubro, após vários adiamentos, seja aberto ao público.
Iraj confia em que as pressões internacionais salvem a sua irmã e os outros do fim que tiveram, depois da revolução islâmica de 1979, as primeiras assembleias espirituais nacionais bahá'is no Irão - conselhos consultivos de nove membros eleitos pelos crentes e que regem a vida de uma comunidade sem clero. Em 21 de Agosto de 1980, os nove foram raptados. "Nunca mais ninguém os viu, estarão mortos", afirma o consultor que, em 1977, foi estudar para Boston e não mais pôde regressar a casa.
A 27 de Dezembro de 1981, na segunda assembleia, só um dos nove sobreviveu ao pelotão de fuzilamento. Em 1984, da terceira assembleia, quatro dos nove foram executados.
"Em meados dos anos 1980, o Governo decretou que as assembleias espirituais deviam ser dissolvidas", conta Iraj. "Como os bahá'is são obedientes às leis dos países onde vivem, a comunidade dissolveu as suas instituições. Foi então criada, com consentimento das autoridades, uma associação informal, os Yaran [em persa, significa "Amigos que ajudam"], que administra as necessidades básicas dos bahá'is." Os sete detidos em Março e em Maio eram os líderes Yaran.
O cobertor no chão
A perseguição não é novidade para Fariba Kamalabadi, mãe de três filhos que sonhava ser médica mas que, tal como todos os bahá'is, em 30 anos de revolução, não pôde entrar na universidade. "É a terceira vez que é detida", refere Iraj. "A primeira foi há cinco anos; a segunda há três anos e meio. Também o nosso pai esteve na prisão. Levaram-no de pijama. Severamente torturado, morreu pouco depois de ser libertado, com problemas cardíacos agravados pelos maus tratos."
Iraj acredita que a sua irmã não esteja a ser molestada fisicamente, mas alerta para a degradação das condições em que ela e os outros seis líderes se encontram. "Nos primeiros meses de isolamento, foram submetidos a duros interrogatórios", conta. "As celas não têm ventilação, nem luz natural. Deram-lhes um cobertor e uma almofada. A comida é horrível, e as porções têm vindo a ser gradualmente reduzidas. Os utensílios onde os alimentos são cozinhados e servidos não são lavados. Até o pão é bolorento."
Desde os protestos contra os resultados das eleições presidenciais de Junho, adianta Iraj, as celas "ficaram sobrelotadas com novos presos. Muitos contraíram doenças. A minha irmã estava a tomar medicamentos para o colesterol e batimentos cardíacos irregulares. Na prisão, não lhe permitem tratar-se. Está gravemente doente. Quando a minha mãe foi autorizada a visitá-la, há três meses - pela primeira vez - não reconheceu a própria filha: só pele e osso. Todos sofrem de má nutrição. A pele revela os sintomas de não estar exposta ao sol. Porque a maior parte do tempo é passada a dormir ou sentados no chão, têm problemas de ossos."
Uma "flor" na prisão
No meio da adversidade, Fariba conseguiu um pequeno milagre. "Um dia, quando se aproximava o 14.º aniversário da filha mais nova [Taraneh Taefi], não encontrando nada para lhe dar de presente, reparou que na refeição vinha uma cenoura podre", conta Iraj. "Notou que na base da cenoura havia raízes a rebentar. Embrulhou-a em papel humedecido em água, e os rebentos começaram a crescer, mesmo sem luz solar. Quando a família a foi visitar, ela ofereceu a cenoura à filha como prenda de anos. Foi um momento muito comovente."
Iraj repete que não há qualquer justificação para os sete líderes dos Yaran não serem libertados. As autoridades "sabem que as acusações são falsas, mas infligem dor devido a uma profunda hostilidade face aos bahá'is."
Apesar de tudo, sente-se encorajado com as mudanças de mentalidade que a sociedade tem demonstrado. "Em Fevereiro, um grupo de académicos, escritores, jornalistas, artistas, activista iranianos publicou uma carta aberta intitulada Nós temos vergonha. Num gesto sem precedentes, reconheceram ter ignorado, desde há 150 anos, o sofrimento dos bahá'is."
Inquirida sobre as expectativas em relação às próximas negociações do Irão com o grupo 5+1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha), Diane Ala'i, representante da comunidade bahá'i internacional na ONU, em Genebra, diz ao PÚBLICO que só tem um pedido: "Ponham os direitos humanos na agenda e não os sacrifiquem em nome de outros interesses."
Roxana Saberi ao PÚBLICO
"A fé não as deixa ter medo de morrer"
O namorado de Roxana Saberi fazia anos a 31 de Janeiro. A sua "rapariga iraniana, de olhos japoneses e nacionalidade americana", faltou à promessa de saírem juntos porque, este ano, entrou nesse dia na penitenciária de Evin, em Teerão. E foi aqui, numa cela da "secção 209", reservada aos prisioneiros de consciência, que ela conheceu Mahvash Sabet e Fariba Kamalabadi, duas líderes da comunidade bahá'i detidas desde Março e Maio de 2008, respectivamente.
"Mahvash esteve em isolamento durante os primeiros seis meses e Fariba durante quatro", relata Saberi numa entrevista que aceitou dar ao PÚBLICO, por e-mail, depois de deixar claro que não falaria da sua própria experiência. Pela sua vívida descrição, não é difícil, porém, perceber que as condições a que foi submetida até à libertação, a 11 de Maio, não foram muito diferentes.
"A cela em Evin tem dois por três metros", precisou Saberi. "Junto ao tecto havia duas pequenas janelas fechadas, cobertas por placas metálicas com buracos. Uma luz intensa acesa, permanentemente. O chão de cimento estava coberto por um fino tapete castanho. Dorme-se em cobertores sobre o chão. Havia uma bacia, mas, para usar a sanita ou o chuveiro, era preciso pressionar um botão na parede para chamar uma guarda que deixasse ir à casa de banho. Nos primeiros meses, [Mahvash e Fariba] quase não tinham visitas da família. Não tinham caneta nem papel. Apenas os livros islâmicos permitidos pelas autoridades. Só vários meses depois tiveram acesso a outros livros e a um televisor."
"Não fiquei com a sensação de que Mahvash e Fariba temessem a morte", diz a filha do iraniano Reza e da japonesa Akiko. "Pelo contrário, estão dispostas a aceitar o que lhes for exigido para manter a sua fé e o bem-estar da comunidade bahá'i do Irão. Acredito que terem fé e princípios ajuda a que se mantenham espiritual e psicologicamente fortes, apesar das pressões que lhes são impostas e das violações dos seus direitos básicos."
Da secção 209, "muitas outras prisioneiras entraram e saíram, mas Mahvash e Fariba ficaram para trás", lamenta Roxana, uma das que conseguiram sair quando o regime percebeu que a condenação internacional pela sua prisão o prejudicava.
Repórter freelance para vários jornais, rádios e cadeias de televisão desde que se mudara para Teerão em 2003, Roxana Saberi foi primeiro acusada de ter comprado uma garrafa de vinho e depois de trabalhar sem credenciais. Em Abril, surgiu a acusação de espionagem e a condenação a oito anos de cadeia. A 11 de Maio, a sentença foi reduzida, após um recurso, para dois anos de pena suspensa. Quatro dias depois, deixaram-na partir para os EUA. Entre a primeira sentença e a libertação fez uma greve de fome de duas semanas, que terminou com o internamento numa clínica.
Roxana, de 32 anos, Miss Dakota 1997 e quase Miss América 1998, já estava há dez dias em Evin quando a deixaram contactar o pai. Foi o pai que informou o namorado, o cineasta Bahman Ghobadi, a quem ela mentira, num telefonema abruptamente interrompido, dizendo que faltara à sua festa de anos porque precisara de ir a Zahedan. Ele, cujos filmes se vendem no mercado negro depois de banidos, seguiu-a até Zahedan, mas não a encontrou. Foi então que decidiu escrever uma carta aberta ao regime: Shame on you; shame on us.
Perseguições começaram no século XIX
Mais de 20 mil mortos em 150 anos
Os bahá'is são perseguidos no Irão desde que a sua religião foi fundada em 1844, mas a revolução islâmica de 1979 parece ter feito da extinção desta comunidade - cerca de 300 mil pessoas - um dos seus objectivos ideológicos, negando-lhe os mais básicos direitos de cidadania.
As perseguições começaram com Báb, o primeiro profeta, várias vezes preso até ser fuzilado, em 1850. O sucessor, Bahá'u'lláh, foi preso e forçado ao exílio: morreu na Palestina Otomana, em 1892. Para os muçulmanos xiitas do Irão, a ideia de que poderia haver "mensageiros de Deus" depois de Maomé era uma "heresia".
Se os bahá'is foram responsáveis por revoltas contra a dinastia Qajar, incluindo uma tentativa de assassínio do xá Nasir al-Din Shah, em 1852, com Bahá'u'lláh adoptaram uma filosofia de obediência e lealdade ao Governo. A nova religião continuou, porém, a ser vista como uma ameaça teológica (e política) ao xiismo.
De 1917 a 1979, sob o reinado do primeiro xá Pahlavi, Reza Khan, os bahá'is não eram autorizados a ter as suas escolas e os funcionários públicos foram despromovidos ou despedidos. Os casamentos dos bahá'is não eram reconhecidos -os casais podiam ser presos por adultério e os filhos considerados "ilegítimos". Com a chegada ao poder do ayatollah Khomeini, os bahá'is foram acusados de "associação ao regime do xá, colaboração com a polícia secreta SAVAK, oposição à revolução islâmica e espionagem a favor de Israel."
À acusação de serem "heréticos" e "inimigos do islão", os bahá'is lembram que a sua fé é reconhecida como religião independente, até por juristas muçulmanos. Quanto a serem "agentes do sionismo", insistem que ela se baseia no facto de o seu profeta, Bahá'u'lláh, estar sepultado no monte Carmelo, onde morreu em exílio forçado - quando Israel ainda não existia -, e de a sede internacional (Casa Universal da Justiça) funcionar em Haifa. Face à acusação de estarem "envolvidos em prostituição", lembram que os seus rituais de casamento não são reconhecidos e por isso as mulheres bahá'is são tratadas, pelo Governo, como "prostitutas". Quanto à acusação de "adultério e imoralidade", vêem-na como a recusa em aceitar uma religião que defende a igualdade entre homens e mulheres e não aceita a segregação.
Desde a revolução islâmica de 1979, pelo menos 200 bahá'is foram mortos ou executados no Irão, elevando para mais de 20 mil as vítimas das perseguições iniciadas há 150 anos. M.S.L.
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Por Margarida Santos Lopes
Os sete líderes da maior minoria religiosa iraniana estão presos há mais de um ano sem julgamento. Algumas acusações podem condená-los à morte, mas o Governo de Teerão sabe que eles são inocentes
Às 3h30 de 14 de Maio de 2008, agentes secretos chegaram a casa de Fariba Kamalabadi, em Teerão. Traziam um mandado de busca. Demoraram três a quatro horas a revistar tudo. Detiveram-na e confiscaram vários objectos, desde computadores a fotos da família. Iraj Kamalabadi, um dos cinco irmãos, que vive na Califórnia, denuncia: "Foi um plano concertado para deter todos os líderes bahá'is. As suas moradias foram invadidas à mesma hora."
A psicóloga Fariba, de 46 anos, foi levada para a prisão de Evin no mesmo dia que o empresário Jamaloddin Khanjani, de 75, o industrial Afif Naemi, de 47, o engenheiro agrícola Saeeid Rezaie, de 51, o antigo assistente social Behrouz Tavakkoli, de 57, e o optometrista Vahid Tizfahm, de 37. A professora Mahvash Sabet, de 55, já tinha sido presa a 5 de Março de 2008, em Mashhad, para onde fora convocada pelo Ministério dos Serviços Secretos, sob o pretexto de responder sobre um funeral no cemitério bahá'i.
Depois de meses de isolamento, só muito recentemente os sete dirigentes da maior minoria religiosa do Irão ficaram a conhecer acusações formais: "espionagem a favor de Israel, insulto a santidades religiosas, propaganda contra a República Islâmica e corrupção na Terra". Iraj Kamalabadi, numa entrevista ao PÚBLICO, por telefone, não se conforma: "Eles são inocentes e só estão presos por serem bahá'is".
A lei prevê a pena de morte para espionagem e "corrupção na Terra", mas o Centro de Defesa dos Direitos Humanos do Irão, cuja presidente, a Prémio Nobel da Paz Shirin Ebadi, integra a equipa de advogados, garante que não há provas para os condenar e recomenda que o julgamento, marcado para 18 de Outubro, após vários adiamentos, seja aberto ao público.
Iraj confia em que as pressões internacionais salvem a sua irmã e os outros do fim que tiveram, depois da revolução islâmica de 1979, as primeiras assembleias espirituais nacionais bahá'is no Irão - conselhos consultivos de nove membros eleitos pelos crentes e que regem a vida de uma comunidade sem clero. Em 21 de Agosto de 1980, os nove foram raptados. "Nunca mais ninguém os viu, estarão mortos", afirma o consultor que, em 1977, foi estudar para Boston e não mais pôde regressar a casa.
A 27 de Dezembro de 1981, na segunda assembleia, só um dos nove sobreviveu ao pelotão de fuzilamento. Em 1984, da terceira assembleia, quatro dos nove foram executados.
"Em meados dos anos 1980, o Governo decretou que as assembleias espirituais deviam ser dissolvidas", conta Iraj. "Como os bahá'is são obedientes às leis dos países onde vivem, a comunidade dissolveu as suas instituições. Foi então criada, com consentimento das autoridades, uma associação informal, os Yaran [em persa, significa "Amigos que ajudam"], que administra as necessidades básicas dos bahá'is." Os sete detidos em Março e em Maio eram os líderes Yaran.
O cobertor no chão
A perseguição não é novidade para Fariba Kamalabadi, mãe de três filhos que sonhava ser médica mas que, tal como todos os bahá'is, em 30 anos de revolução, não pôde entrar na universidade. "É a terceira vez que é detida", refere Iraj. "A primeira foi há cinco anos; a segunda há três anos e meio. Também o nosso pai esteve na prisão. Levaram-no de pijama. Severamente torturado, morreu pouco depois de ser libertado, com problemas cardíacos agravados pelos maus tratos."
Iraj acredita que a sua irmã não esteja a ser molestada fisicamente, mas alerta para a degradação das condições em que ela e os outros seis líderes se encontram. "Nos primeiros meses de isolamento, foram submetidos a duros interrogatórios", conta. "As celas não têm ventilação, nem luz natural. Deram-lhes um cobertor e uma almofada. A comida é horrível, e as porções têm vindo a ser gradualmente reduzidas. Os utensílios onde os alimentos são cozinhados e servidos não são lavados. Até o pão é bolorento."
Desde os protestos contra os resultados das eleições presidenciais de Junho, adianta Iraj, as celas "ficaram sobrelotadas com novos presos. Muitos contraíram doenças. A minha irmã estava a tomar medicamentos para o colesterol e batimentos cardíacos irregulares. Na prisão, não lhe permitem tratar-se. Está gravemente doente. Quando a minha mãe foi autorizada a visitá-la, há três meses - pela primeira vez - não reconheceu a própria filha: só pele e osso. Todos sofrem de má nutrição. A pele revela os sintomas de não estar exposta ao sol. Porque a maior parte do tempo é passada a dormir ou sentados no chão, têm problemas de ossos."
Uma "flor" na prisão
No meio da adversidade, Fariba conseguiu um pequeno milagre. "Um dia, quando se aproximava o 14.º aniversário da filha mais nova [Taraneh Taefi], não encontrando nada para lhe dar de presente, reparou que na refeição vinha uma cenoura podre", conta Iraj. "Notou que na base da cenoura havia raízes a rebentar. Embrulhou-a em papel humedecido em água, e os rebentos começaram a crescer, mesmo sem luz solar. Quando a família a foi visitar, ela ofereceu a cenoura à filha como prenda de anos. Foi um momento muito comovente."
Iraj repete que não há qualquer justificação para os sete líderes dos Yaran não serem libertados. As autoridades "sabem que as acusações são falsas, mas infligem dor devido a uma profunda hostilidade face aos bahá'is."
Apesar de tudo, sente-se encorajado com as mudanças de mentalidade que a sociedade tem demonstrado. "Em Fevereiro, um grupo de académicos, escritores, jornalistas, artistas, activista iranianos publicou uma carta aberta intitulada Nós temos vergonha. Num gesto sem precedentes, reconheceram ter ignorado, desde há 150 anos, o sofrimento dos bahá'is."
Inquirida sobre as expectativas em relação às próximas negociações do Irão com o grupo 5+1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha), Diane Ala'i, representante da comunidade bahá'i internacional na ONU, em Genebra, diz ao PÚBLICO que só tem um pedido: "Ponham os direitos humanos na agenda e não os sacrifiquem em nome de outros interesses."
* * * * * * * * *
Roxana Saberi ao PÚBLICO
"A fé não as deixa ter medo de morrer"
O namorado de Roxana Saberi fazia anos a 31 de Janeiro. A sua "rapariga iraniana, de olhos japoneses e nacionalidade americana", faltou à promessa de saírem juntos porque, este ano, entrou nesse dia na penitenciária de Evin, em Teerão. E foi aqui, numa cela da "secção 209", reservada aos prisioneiros de consciência, que ela conheceu Mahvash Sabet e Fariba Kamalabadi, duas líderes da comunidade bahá'i detidas desde Março e Maio de 2008, respectivamente.
"Mahvash esteve em isolamento durante os primeiros seis meses e Fariba durante quatro", relata Saberi numa entrevista que aceitou dar ao PÚBLICO, por e-mail, depois de deixar claro que não falaria da sua própria experiência. Pela sua vívida descrição, não é difícil, porém, perceber que as condições a que foi submetida até à libertação, a 11 de Maio, não foram muito diferentes.
"A cela em Evin tem dois por três metros", precisou Saberi. "Junto ao tecto havia duas pequenas janelas fechadas, cobertas por placas metálicas com buracos. Uma luz intensa acesa, permanentemente. O chão de cimento estava coberto por um fino tapete castanho. Dorme-se em cobertores sobre o chão. Havia uma bacia, mas, para usar a sanita ou o chuveiro, era preciso pressionar um botão na parede para chamar uma guarda que deixasse ir à casa de banho. Nos primeiros meses, [Mahvash e Fariba] quase não tinham visitas da família. Não tinham caneta nem papel. Apenas os livros islâmicos permitidos pelas autoridades. Só vários meses depois tiveram acesso a outros livros e a um televisor."
"Não fiquei com a sensação de que Mahvash e Fariba temessem a morte", diz a filha do iraniano Reza e da japonesa Akiko. "Pelo contrário, estão dispostas a aceitar o que lhes for exigido para manter a sua fé e o bem-estar da comunidade bahá'i do Irão. Acredito que terem fé e princípios ajuda a que se mantenham espiritual e psicologicamente fortes, apesar das pressões que lhes são impostas e das violações dos seus direitos básicos."
Da secção 209, "muitas outras prisioneiras entraram e saíram, mas Mahvash e Fariba ficaram para trás", lamenta Roxana, uma das que conseguiram sair quando o regime percebeu que a condenação internacional pela sua prisão o prejudicava.
Repórter freelance para vários jornais, rádios e cadeias de televisão desde que se mudara para Teerão em 2003, Roxana Saberi foi primeiro acusada de ter comprado uma garrafa de vinho e depois de trabalhar sem credenciais. Em Abril, surgiu a acusação de espionagem e a condenação a oito anos de cadeia. A 11 de Maio, a sentença foi reduzida, após um recurso, para dois anos de pena suspensa. Quatro dias depois, deixaram-na partir para os EUA. Entre a primeira sentença e a libertação fez uma greve de fome de duas semanas, que terminou com o internamento numa clínica.
Roxana, de 32 anos, Miss Dakota 1997 e quase Miss América 1998, já estava há dez dias em Evin quando a deixaram contactar o pai. Foi o pai que informou o namorado, o cineasta Bahman Ghobadi, a quem ela mentira, num telefonema abruptamente interrompido, dizendo que faltara à sua festa de anos porque precisara de ir a Zahedan. Ele, cujos filmes se vendem no mercado negro depois de banidos, seguiu-a até Zahedan, mas não a encontrou. Foi então que decidiu escrever uma carta aberta ao regime: Shame on you; shame on us.
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Perseguições começaram no século XIX
Mais de 20 mil mortos em 150 anos
Os bahá'is são perseguidos no Irão desde que a sua religião foi fundada em 1844, mas a revolução islâmica de 1979 parece ter feito da extinção desta comunidade - cerca de 300 mil pessoas - um dos seus objectivos ideológicos, negando-lhe os mais básicos direitos de cidadania.
As perseguições começaram com Báb, o primeiro profeta, várias vezes preso até ser fuzilado, em 1850. O sucessor, Bahá'u'lláh, foi preso e forçado ao exílio: morreu na Palestina Otomana, em 1892. Para os muçulmanos xiitas do Irão, a ideia de que poderia haver "mensageiros de Deus" depois de Maomé era uma "heresia".
Se os bahá'is foram responsáveis por revoltas contra a dinastia Qajar, incluindo uma tentativa de assassínio do xá Nasir al-Din Shah, em 1852, com Bahá'u'lláh adoptaram uma filosofia de obediência e lealdade ao Governo. A nova religião continuou, porém, a ser vista como uma ameaça teológica (e política) ao xiismo.
De 1917 a 1979, sob o reinado do primeiro xá Pahlavi, Reza Khan, os bahá'is não eram autorizados a ter as suas escolas e os funcionários públicos foram despromovidos ou despedidos. Os casamentos dos bahá'is não eram reconhecidos -os casais podiam ser presos por adultério e os filhos considerados "ilegítimos". Com a chegada ao poder do ayatollah Khomeini, os bahá'is foram acusados de "associação ao regime do xá, colaboração com a polícia secreta SAVAK, oposição à revolução islâmica e espionagem a favor de Israel."
À acusação de serem "heréticos" e "inimigos do islão", os bahá'is lembram que a sua fé é reconhecida como religião independente, até por juristas muçulmanos. Quanto a serem "agentes do sionismo", insistem que ela se baseia no facto de o seu profeta, Bahá'u'lláh, estar sepultado no monte Carmelo, onde morreu em exílio forçado - quando Israel ainda não existia -, e de a sede internacional (Casa Universal da Justiça) funcionar em Haifa. Face à acusação de estarem "envolvidos em prostituição", lembram que os seus rituais de casamento não são reconhecidos e por isso as mulheres bahá'is são tratadas, pelo Governo, como "prostitutas". Quanto à acusação de "adultério e imoralidade", vêem-na como a recusa em aceitar uma religião que defende a igualdade entre homens e mulheres e não aceita a segregação.
Desde a revolução islâmica de 1979, pelo menos 200 bahá'is foram mortos ou executados no Irão, elevando para mais de 20 mil as vítimas das perseguições iniciadas há 150 anos. M.S.L.
domingo, 20 de setembro de 2009
Discussões religiosas do Egito mostram indícios de pluralismo
O site globo.com publicou hoje a tradução de um artigo do New York Times sobre pluralismo religioso no Egipto.
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Internet tem ampliado audiência de visões islâmicas mais liberais.
Criticado em site, intelectual se diz feliz porque suas ideias agora circulam.
Michael Slackman, do New York Times
Escrevendo em sua coluna semanal no jornal, Gamal al-Banna disse recentemente que Deus havia criado os humanos como seres falíveis, e por isso, destinados a pecar. Dessa forma, uma dançarina de dança do ventre parcamente vestida, e por que não uma dançarina de strip-tease, não deveria ser automaticamente condenada como imoral – deveria, sim, ser julgada por uma comparação de seus pecados frente a suas boas ações.
Essa visão é provocante na conservadora sociedade do Egito, onde muitos argumentam que tais pensamentos vão de encontro às regras da lei divina. Duas horas depois da publicação do artigo no site de Al Masry al Youm, os leitores já haviam deixado mais de 30 comentários – nenhum deles apoiando sua posição.
“Então uma mulher pode dançar à noite e rezar pela manhã; isso é duplicidade e ignorância”, escreveu um leitor que se identificou como Hany. “Tema a Deus e não pregue a impiedade”.
Ainda assim, Banna ficou contente porque suas ideias estavam ao menos circulando. O autor, que tem 88 anos e é irmão de Hassan al Banna, fundador da Irmandade Muçulmana, tem pregado visões islâmicas liberais há décadas.
Entretanto, somente agora ele teve a chance de ser amplamente ouvido. Não que uma maioria concorde com ele; não que a maré esteja mudando a uma interpretação mais moderada da religião.
Acontece que o crescimento das mídias relativamente independentes – como jornais de propriedade privada, canais de televisão por satélite e a internet – lhe deu acesso a uma audiência mais ampla.
Existe ainda outra razão: os pensadores mais radicais e menos flexíveis deixaram de intimidar todos com opiniões diferentes do silêncio.
“Tudo tem seu tempo”, diz Banna, sentado em seu empoeirado escritório, abarrotado de prateleiras de livros que vão do chão ao teto.
Isso é um testamento de quão pouco debate tem existido sobre o valor do pluralismo, ou, mais especificamente, sobre o papel da religião na sociedade, para que tantos vejam a mera chance de provocar como um progresso.
Desafiando pensamentos
Porém, agora, mais do que nunca, há pessoas dispostas a se arriscar desafiando pensamentos convencionais, segundo escritores, acadêmicos e pensadores religiosos como Banna.
“Existe um relativo desenvolvimento, suficiente para apresentar uma opinião diferente que confronte a opressiva corrente religiosa governante na política e nas ruas, e que fez o estado tentar comprar os grupos religiosos”, diz Gamal Asaad, ex-membro do parlamento e intelectual cóptico.
É difícil dizer exatamente por que isso está acontecendo. Alguns daqueles que começaram a falar afirmam agir apesar – e não com o estímulo – da posição do governo egípcio. Analistas políticos dizem que o governo ainda tentava competir com a Irmandade Muçulmana, um movimento islâmico banido, porém tolerado, para se apresentar como o guardião dos valores muçulmanos conservadores.
Desilusão ideológica
Diversos fatores mudaram a discussão pública e apagaram alguns dos temores associados a desafiar a ortodoxia convencional, segundo analistas políticos, acadêmicos e ativistas sociais. Isso inclui uma desilusão e a crescente rejeição da ideologia islâmica mais radical, associada à al-Qaeda, dizem eles.
Ao mesmo tempo, o alcance do presidente Barack Obama ao mundo muçulmano tem silenciado as acusações de que os Estados Unidos estejam em guerra contra o Islã, tornando mais fácil para muçulmanos liberais promoverem ideias seculares mais ocidentais, dizem os analistas políticos egípcios.
“Não se trata de uma mudança estratégica ou transformacional, mas é uma mudança relativa”, disse Asaad, enfatizando que a dinâmica estava para os cristãos assim como estava também para os muçulmanos no Egito. “E as forças civis podem se unir para capitalizar sobre esta atmosfera e investir nela, para que se torne uma atmosfera mais geral”.
Na TV
Dois acontecimentos, neste verão, destacaram a nova disposição de uma minoria para enfrentar a maioria – e a devastadora reação de uma comunidade ainda conservadora.
Em junho, um comitê de escritores, afiliado ao Ministério de Cultura, entregou um prestigioso prêmio a Sayyid al-Qimni, um afiado crítico do fundamentalismo islâmico que, após receber ameaças de morte em 2005, parou de escrever, repudiou seu próprio trabalho e se mudou.
Muhammad Salmawy, um membro do comitê e presidente da União dos Escritores Egípcios, disse achar que Qimni havia sido homenageado, em parte, porque “ele representa a direção secular e discute religião numa base objetiva, além de ser contra a corrente religiosa”.
O que aconteceu em seguida seguiu um caminho previsível, mas então se desviou do curso. Fundamentalistas islâmicos, como o xeique Youssef al-Badri, pediram que o governo revogasse o prêmio e partiram para registrar um processo contra Qimni e o governo.
“Salman Rushdie foi menos desastroso que Sayyid al-Qimni”, disse Badri numa aparição televisiva na O TV, um canal por satélite independente do Egito. “Salman Rushdie, todos o atacaram porque ele destruiu o islã abertamente. Mas Sayyid al-Qimni está atacando o islã e destruindo-o de forma diplomática, elegante e educada”.
Desta vez, porém, Qimni não se escondeu. Ele apareceu num programa de televisão, sentado ao lado de Badri.
Mais tolerância aos Baha'is
Um segundo desenvolvimento envolveu uma minoria religiosa, a fé baha’i, que enfrenta discriminação no Egito, onde as únicas crenças legalmente reconhecidas são o islamismo, o judaísmo e o cristianismo. Nove anos atrás, o estado parou de emitir registros de identificação aos Baha’is, contanto que eles concordassem em se considerar membros de uma das três religiões reconhecidas. Os documentos são essenciais para o acesso de todas as agências governamentais.
Um grupo independente, a Iniciativa Egípcia pelos Direitos Pessoais, venceu uma ordem judicial em benefício dos baha’is que forçava o governo a emitir os registros deixando a identificação religiosa em branco. Os primeiros cartões foram emitidos neste mês. Mesmo que a decisão visasse especificamente resolver o problema enfrentado pela comunidade baha’i, o caso mexeu com o crescente debate, segundo o diretor executivo do grupo, Hossam Bahgat.
“Reconhecer que alguém pode ser egípcio sem aderir a uma dessas três religiões é um ato sem precedentes”, disse Bahgat. Ainda assim, ele continua pouco otimista; a maior parte da reação popular à vitória legal dos baha’is foi negativa, disse Bahgat.
“Sabe-se que vocês são apóstatas”, dizia um dos muitos comentários postados no site do Al Youm Al Sabei, jornal online citado no início deste texto.
Houve, entretanto, ao menos um indício de diversidade e debate em resposta às afirmações de Banna sobre as dançarinas de dança do ventre. Horas depois que sua coluna foi publicada, alguns leitores começaram, embora hesitantemente, a tentar defendê-lo.
“Peguem leve com o homem”, dizia um comentário anônimo. “Ele não emitiu um edital religioso dizendo que a dança do ventre está perdoada. Ele está dizendo que os atos de uma pessoa serão colocados na equação, pois Deus é justo. Há algo de errado nisso?”
* Colaborou Mona el-Naggar
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Internet tem ampliado audiência de visões islâmicas mais liberais.
Criticado em site, intelectual se diz feliz porque suas ideias agora circulam.
Michael Slackman, do New York Times
Escrevendo em sua coluna semanal no jornal, Gamal al-Banna disse recentemente que Deus havia criado os humanos como seres falíveis, e por isso, destinados a pecar. Dessa forma, uma dançarina de dança do ventre parcamente vestida, e por que não uma dançarina de strip-tease, não deveria ser automaticamente condenada como imoral – deveria, sim, ser julgada por uma comparação de seus pecados frente a suas boas ações.
Essa visão é provocante na conservadora sociedade do Egito, onde muitos argumentam que tais pensamentos vão de encontro às regras da lei divina. Duas horas depois da publicação do artigo no site de Al Masry al Youm, os leitores já haviam deixado mais de 30 comentários – nenhum deles apoiando sua posição.
“Então uma mulher pode dançar à noite e rezar pela manhã; isso é duplicidade e ignorância”, escreveu um leitor que se identificou como Hany. “Tema a Deus e não pregue a impiedade”.
Ainda assim, Banna ficou contente porque suas ideias estavam ao menos circulando. O autor, que tem 88 anos e é irmão de Hassan al Banna, fundador da Irmandade Muçulmana, tem pregado visões islâmicas liberais há décadas.
Entretanto, somente agora ele teve a chance de ser amplamente ouvido. Não que uma maioria concorde com ele; não que a maré esteja mudando a uma interpretação mais moderada da religião.
Acontece que o crescimento das mídias relativamente independentes – como jornais de propriedade privada, canais de televisão por satélite e a internet – lhe deu acesso a uma audiência mais ampla.
Existe ainda outra razão: os pensadores mais radicais e menos flexíveis deixaram de intimidar todos com opiniões diferentes do silêncio.
“Tudo tem seu tempo”, diz Banna, sentado em seu empoeirado escritório, abarrotado de prateleiras de livros que vão do chão ao teto.
Isso é um testamento de quão pouco debate tem existido sobre o valor do pluralismo, ou, mais especificamente, sobre o papel da religião na sociedade, para que tantos vejam a mera chance de provocar como um progresso.
Desafiando pensamentos
Porém, agora, mais do que nunca, há pessoas dispostas a se arriscar desafiando pensamentos convencionais, segundo escritores, acadêmicos e pensadores religiosos como Banna.
“Existe um relativo desenvolvimento, suficiente para apresentar uma opinião diferente que confronte a opressiva corrente religiosa governante na política e nas ruas, e que fez o estado tentar comprar os grupos religiosos”, diz Gamal Asaad, ex-membro do parlamento e intelectual cóptico.
É difícil dizer exatamente por que isso está acontecendo. Alguns daqueles que começaram a falar afirmam agir apesar – e não com o estímulo – da posição do governo egípcio. Analistas políticos dizem que o governo ainda tentava competir com a Irmandade Muçulmana, um movimento islâmico banido, porém tolerado, para se apresentar como o guardião dos valores muçulmanos conservadores.
Desilusão ideológica
Diversos fatores mudaram a discussão pública e apagaram alguns dos temores associados a desafiar a ortodoxia convencional, segundo analistas políticos, acadêmicos e ativistas sociais. Isso inclui uma desilusão e a crescente rejeição da ideologia islâmica mais radical, associada à al-Qaeda, dizem eles.
Ao mesmo tempo, o alcance do presidente Barack Obama ao mundo muçulmano tem silenciado as acusações de que os Estados Unidos estejam em guerra contra o Islã, tornando mais fácil para muçulmanos liberais promoverem ideias seculares mais ocidentais, dizem os analistas políticos egípcios.
“Não se trata de uma mudança estratégica ou transformacional, mas é uma mudança relativa”, disse Asaad, enfatizando que a dinâmica estava para os cristãos assim como estava também para os muçulmanos no Egito. “E as forças civis podem se unir para capitalizar sobre esta atmosfera e investir nela, para que se torne uma atmosfera mais geral”.
Na TV
Dois acontecimentos, neste verão, destacaram a nova disposição de uma minoria para enfrentar a maioria – e a devastadora reação de uma comunidade ainda conservadora.
Em junho, um comitê de escritores, afiliado ao Ministério de Cultura, entregou um prestigioso prêmio a Sayyid al-Qimni, um afiado crítico do fundamentalismo islâmico que, após receber ameaças de morte em 2005, parou de escrever, repudiou seu próprio trabalho e se mudou.
Muhammad Salmawy, um membro do comitê e presidente da União dos Escritores Egípcios, disse achar que Qimni havia sido homenageado, em parte, porque “ele representa a direção secular e discute religião numa base objetiva, além de ser contra a corrente religiosa”.
O que aconteceu em seguida seguiu um caminho previsível, mas então se desviou do curso. Fundamentalistas islâmicos, como o xeique Youssef al-Badri, pediram que o governo revogasse o prêmio e partiram para registrar um processo contra Qimni e o governo.
“Salman Rushdie foi menos desastroso que Sayyid al-Qimni”, disse Badri numa aparição televisiva na O TV, um canal por satélite independente do Egito. “Salman Rushdie, todos o atacaram porque ele destruiu o islã abertamente. Mas Sayyid al-Qimni está atacando o islã e destruindo-o de forma diplomática, elegante e educada”.
Desta vez, porém, Qimni não se escondeu. Ele apareceu num programa de televisão, sentado ao lado de Badri.
Mais tolerância aos Baha'is
Um segundo desenvolvimento envolveu uma minoria religiosa, a fé baha’i, que enfrenta discriminação no Egito, onde as únicas crenças legalmente reconhecidas são o islamismo, o judaísmo e o cristianismo. Nove anos atrás, o estado parou de emitir registros de identificação aos Baha’is, contanto que eles concordassem em se considerar membros de uma das três religiões reconhecidas. Os documentos são essenciais para o acesso de todas as agências governamentais.
Um grupo independente, a Iniciativa Egípcia pelos Direitos Pessoais, venceu uma ordem judicial em benefício dos baha’is que forçava o governo a emitir os registros deixando a identificação religiosa em branco. Os primeiros cartões foram emitidos neste mês. Mesmo que a decisão visasse especificamente resolver o problema enfrentado pela comunidade baha’i, o caso mexeu com o crescente debate, segundo o diretor executivo do grupo, Hossam Bahgat.
“Reconhecer que alguém pode ser egípcio sem aderir a uma dessas três religiões é um ato sem precedentes”, disse Bahgat. Ainda assim, ele continua pouco otimista; a maior parte da reação popular à vitória legal dos baha’is foi negativa, disse Bahgat.
“Sabe-se que vocês são apóstatas”, dizia um dos muitos comentários postados no site do Al Youm Al Sabei, jornal online citado no início deste texto.
Houve, entretanto, ao menos um indício de diversidade e debate em resposta às afirmações de Banna sobre as dançarinas de dança do ventre. Horas depois que sua coluna foi publicada, alguns leitores começaram, embora hesitantemente, a tentar defendê-lo.
“Peguem leve com o homem”, dizia um comentário anônimo. “Ele não emitiu um edital religioso dizendo que a dança do ventre está perdoada. Ele está dizendo que os atos de uma pessoa serão colocados na equação, pois Deus é justo. Há algo de errado nisso?”
* Colaborou Mona el-Naggar
Angola: José Eduardo dos Santos cria Comissão Interministerial para estudar fenómeno religioso
O Presidente Angolano, José Eduardo dos Santos, criou na passada sexta-feira, 18/Setembro, em Luanda, uma Comissão Interministerial para o Estudo e Tratamento do Fenómeno Religioso, por considerar necessário que o Estado Angolano desenvolva acções no sentido de estancar a proliferação anárquica de igrejas por todo o país.
Segundo uma nota de imprensa dos Serviços de Apoio ao Presidente da República, a proliferação de igrejas tem estado a preocupar a sociedade angolana e mesmo, em alguns casos, a criar agitação social.
A comissão foi criada para dar tratamento urgente e multidisciplinar a este problema e imprimir uma nova dinâmica à estratégia gizada pelo Governo.
A mesma será coordenada pela ministra da Cultura, integrando os ministros da Administração do Território, da Justiça, do Comércio, da Assistência e Reinserção Social, da Família e Promoção da Mulher e o assessor social do Presidente da República.
Entre as suas muitas atribuições, a comissão deverá elaborar um estudo sobre as origens e causas do fenómeno religioso em Angola e adoptar um conjunto de medidas que visem estancar a expansão de seitas religiosas no território nacional, dando especial atenção às acusações de feitiçarias à crianças.
Deverá também promover encontros com os líderes das igrejas reconhecidas e auscultar as suas opiniões, nomeadamente no que se refere aos conflitos das lideranças, bem como elaborar um estudo sobre a eventual alteração do quadro jurídico vigente sobre o exercício da liberdade de consciência, de religião e de culto.
Um grupo técnico, integrado por representantes dos órgãos designados, apoiará a comissão, que deverá concluir o trabalho no prazo de 120 dias.
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FONTE: Chefe de Estado cria Comissão Interministerial para estudar fenómeno religioso (Angop/AngoNotícias)
Segundo uma nota de imprensa dos Serviços de Apoio ao Presidente da República, a proliferação de igrejas tem estado a preocupar a sociedade angolana e mesmo, em alguns casos, a criar agitação social.
A comissão foi criada para dar tratamento urgente e multidisciplinar a este problema e imprimir uma nova dinâmica à estratégia gizada pelo Governo.
A mesma será coordenada pela ministra da Cultura, integrando os ministros da Administração do Território, da Justiça, do Comércio, da Assistência e Reinserção Social, da Família e Promoção da Mulher e o assessor social do Presidente da República.
Entre as suas muitas atribuições, a comissão deverá elaborar um estudo sobre as origens e causas do fenómeno religioso em Angola e adoptar um conjunto de medidas que visem estancar a expansão de seitas religiosas no território nacional, dando especial atenção às acusações de feitiçarias à crianças.
Deverá também promover encontros com os líderes das igrejas reconhecidas e auscultar as suas opiniões, nomeadamente no que se refere aos conflitos das lideranças, bem como elaborar um estudo sobre a eventual alteração do quadro jurídico vigente sobre o exercício da liberdade de consciência, de religião e de culto.
Um grupo técnico, integrado por representantes dos órgãos designados, apoiará a comissão, que deverá concluir o trabalho no prazo de 120 dias.
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FONTE: Chefe de Estado cria Comissão Interministerial para estudar fenómeno religioso (Angop/AngoNotícias)
sábado, 19 de setembro de 2009
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
A Fé Bahá'í no Líbano
O texto que se segue é uma tradução de um excerto de um artigo publicado originalmente no jornal libanês al-Nahar, e posteriormente traduzido e publicado em inglês na Muslim Network for Baha'i Rights.
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Uma congregação sob suspeita... sem clero (homens de religião), de pessoas que não pertencem a qualquer partido político... e os Islamitas apelam à sua erradicação.
No sétimo dia do último mês de Junho, durante as eleições parlamentares, uma mulher entrou na secção de voto em Al-Ashrafiya. Quando o chefe do departamento perguntou o seu nome e religião, e ela disse-lhe que era "Baha’i", todos os delegados se viraram com surpresa para saber se ela era libanesa. Perguntaram-lhe se a sua religião era uma das 18 congregações reconhecidas pelas autoridades libanesas.
Os Baha'is chegaram ao Líbano em 1870, e imediatamente se dirigiram para Beirute, que era o principal centro de atracção no século XIX.
Os Baha’is vivem em muitas áreas do Líbano, desde a capital Beirute, até ao Beqaa Ocidental, e cidades do monte Líbano. O número de Baha’is residentes no Líbano ronda os 350, e têm um grande número de familiares residentes no estrangeiro. Na cidade de Mashghara, em Beqaa, as famílias Baha’is vivem e praticam os ses ritos religiosos assim como a sua vida privada e social sem qualquer interferência exterior ou ameaça de hostilização. A fé Bahá’í chegou a essa cidade com o Imam Sheikh Ja’afar Al-Tahhan, originalmente xiita, que faleceu em 1923 após aceitar a fé Bahá’í. As famílias Bahá’ís residentes nessa cidade têm relações próximas com os xiitas.
Um aspecto interessante é que a maioria dos Baha'is está registada como Xiita, e os registos de alguns deles foram colocados em listas de pertencentes a sunitas, maronitas, cristãos ortodoxos gregos e alguns druzos. O motivo disto deve-se ao facto do governo libanês não reconhecer oficialmente os Baha'is, apesar de alguns deles estarem registados como Baha'is e durante as eleições parlamentares e municipais serem considerados uma minoria.
O Líbano, ao contrário da Jordânia e do Bahrain, por exemplo, não reconhece os certificados dos casamentos dos Baha’is. Os Baha’is têm um centro em Beit Mii, situado na margem norte, onde celebram os seus eventos. Costumavam ter um lugar no bairro de Hreik, que mantiveram até ao início dos anos 1980. Também têm um grande cemitério em Khilda e outro em Mashghara, que foi estabelecido em 1971.
(...)
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Ler o artigo completo (em inglês): The Baha'i Faith in Lebanon (MNBR)
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Uma congregação sob suspeita... sem clero (homens de religião), de pessoas que não pertencem a qualquer partido político... e os Islamitas apelam à sua erradicação.
No sétimo dia do último mês de Junho, durante as eleições parlamentares, uma mulher entrou na secção de voto em Al-Ashrafiya. Quando o chefe do departamento perguntou o seu nome e religião, e ela disse-lhe que era "Baha’i", todos os delegados se viraram com surpresa para saber se ela era libanesa. Perguntaram-lhe se a sua religião era uma das 18 congregações reconhecidas pelas autoridades libanesas.
Os Baha'is chegaram ao Líbano em 1870, e imediatamente se dirigiram para Beirute, que era o principal centro de atracção no século XIX.
Os Baha’is vivem em muitas áreas do Líbano, desde a capital Beirute, até ao Beqaa Ocidental, e cidades do monte Líbano. O número de Baha’is residentes no Líbano ronda os 350, e têm um grande número de familiares residentes no estrangeiro. Na cidade de Mashghara, em Beqaa, as famílias Baha’is vivem e praticam os ses ritos religiosos assim como a sua vida privada e social sem qualquer interferência exterior ou ameaça de hostilização. A fé Bahá’í chegou a essa cidade com o Imam Sheikh Ja’afar Al-Tahhan, originalmente xiita, que faleceu em 1923 após aceitar a fé Bahá’í. As famílias Bahá’ís residentes nessa cidade têm relações próximas com os xiitas.
Um aspecto interessante é que a maioria dos Baha'is está registada como Xiita, e os registos de alguns deles foram colocados em listas de pertencentes a sunitas, maronitas, cristãos ortodoxos gregos e alguns druzos. O motivo disto deve-se ao facto do governo libanês não reconhecer oficialmente os Baha'is, apesar de alguns deles estarem registados como Baha'is e durante as eleições parlamentares e municipais serem considerados uma minoria.
O Líbano, ao contrário da Jordânia e do Bahrain, por exemplo, não reconhece os certificados dos casamentos dos Baha’is. Os Baha’is têm um centro em Beit Mii, situado na margem norte, onde celebram os seus eventos. Costumavam ter um lugar no bairro de Hreik, que mantiveram até ao início dos anos 1980. Também têm um grande cemitério em Khilda e outro em Mashghara, que foi estabelecido em 1971.
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Ler o artigo completo (em inglês): The Baha'i Faith in Lebanon (MNBR)
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