domingo, 19 de fevereiro de 2012

Egipto: Salafistas consideram Bahá’ís uma ameaça

Abdel Moneim al-Shahat
Um porta-voz do movimento Salafista em Alexandria disse que a minoria religiosa Bahá’í representa uma ameaça à segurança nacional do Egipto.

Abdel Moneim al-Shahat, conhecido dirigente Salafista e ex-candidato parlamentar, disse que o Estado deve agir para se proteger contra os que que afirmam que a Fé Bahá’í é uma religião. Anteriormente, na sequência da violência que se seguiu a um jogo de futebol Port Said, Shahat tinha afirmado que ver e jogar futebol é proibido pelo Islão.

"Vamos processar os Baha’is e acusá-los de traição", disse Shahat, num telefonema para o canal de TV Dream 2. "Nós, como salafistas, recusamo-nos a lidar com os Bahá’ís, porque eles não existem em virtude da sua fé."

De acordo com Shahat, os Bahá’ís não têm direitos sob o Islão, porque eles não são uma religião e não são reconhecidos como tal, e a nova Constituição não deve incluir qualquer emenda que proteja os seus direitos. Para justificar a sua decisão, citou uma declaração Al-Azhar, afirmando que os Bahá’ís não são muçulmanos.

Grupos de activistas de direitos humanos dizem os Bahá'is enfrentam discriminação sistemática no Egipto, país árabe conservador, que não reconhece oficialmente a fé. Em 2008, os Bahá'ís conseguiram o direito de obter documentos de identidade oficiais que omitem qualquer referência à sua fé.


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FONTE: Shahat: Baha'is threaten Egypt's national security (Egypt Independent)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Epístola da Sabedoria (7)

HISTORICIDADE

A ênfase nos valores éticos e a tendência para o monoteísmo existente em muitos filósofos gregos sugere que existiu na Grécia uma forte difusão dos valores culturais e religiosos da Palestina Hebraica. A ideia dessa influência dos hebreus sobre os helénicos já tinha sido avançada por Sto Agostinho na sua obra A Cidade de Deus (VIII:11)
Alguns têm pensado que tendo Platão ido ao Egipto, poderia ter ouvido Jeremias, ou lido os seus escritos proféticos durante a viagem. Eu mesmo consignei esta opinião em alguns dos meus livros. Mas um cálculo mais apurado das datas, tais como se contêm na história cronológica, mostra que Platão nasceu cerca de cem anos depois da época em que Jeremias profetizou… Platão não pôde, no decurso da sua viagem, nem ver Jeremias, morto desde há muito tempo, nem ler as suas Escrituras ainda não traduzidas para grego, língua em que era exímio. A menos, talvez, que, apaixonado estudioso como era, tenha delas tido conhecimento por intérpretes, como aconteceu com as egípcias – sem se tratar de uma tradução escrita… Mas sem dúvida que conseguiu, com as suas conversações, tomar conhecimento, na medida do possível, do seu conteúdo. (A Cidade de Deus, VIII:11)

Agostinho também nota que que o Antigo Testamento ainda não tinha sido traduzido para grego no tempo Platão e sugere que é a graça de Deus – e não contactos culturais directos – que explica as semelhanças entre a filosofia grega e as tradições culturais judaico-cristãs.

A sequência cronológica com que Bahá’u’lláh descreve os filósofos gregos, e a relação cronológica com outras personagens históricas tem sido alvo de debate (a, b, c). Existem discrepâncias entre a descrição que Bahá’u’lláh faz da história da Grécia antiga e as actuais teorias históricas. Vejamos o seguinte exemplo:

O texto da Epístola declara que Empédocles era "…contemporâneo de David"[25] e que Pitágoras "…viveu nos dias de Salomão"[25]. Segundo os historiadores modernos, David e Salomão terão vivido no século 10 aC. e Pitágoras viveu no século 6 aC; Empédocles viveu no século 5 aC. Assim encontramos uma grande discrepância entre as datas hoje aceites pela investigação histórica e a exposição cronológica apresentada na Epístola da Sabedoria.

O facto de estas inexactidões constarem numa Epístola de Bahá'u'lláh pode suscitar algumas dúvidas sobre a possibilidade dos textos sagrados conterem erros históricos.

Convém aqui termos presente que a Epístola não pretende descrever uma sucessão de eventos históricos sobre os quais não existem provas. O objectivo é demonstrar a forma como a tradição filosófica da Grécia antiga foi influenciada pelo monoteísmo profético dos hebreus. Essa demonstração é feita de acordo com o enquadramento histórico e filosófico com que o destinatário da Epístola estava familiarizado.

Além disso, é importante ter presente que o conhecimento que os muçulmanos possuíam sobre as biografias dos gregos antigos vinha dos neoplatónicos gregos e dos autores cristãos. A maioria dos historiadores islâmicos era pouco rigorosa relativamente à datação de eventos anteriores ao surgimento do Islão; havia algumas excepções como Abu-Rayhan Biruni (973-1050) e o sírio Abu’l Fidá.

O próprio 'Abdu'l-Bahá afirmou que a datação de eventos anteriores a Alexandre o Grande é pouco fidedigna(d). Desta forma, as datas atribuídas por historiadores islâmicos a eventos pré-islâmicos podem ser consideradas meras aproximações.

Sobre este assunto a Casa Universal de Justiça esclareceu:

“O facto de Bahá’u’lláh fazer estas afirmações para ilustrar princípios espirituais que pretende transmitir, não significa necessariamente que Ele defenda a sua exactidão histórica"(e)

Assim, parece correcto afirmar que a Epistola da Sabedoria contém uma afirmação factualmente incorrecta para os actuais padrões de conhecimento e investigação histórica; no entanto, essa afirmação era válida no meio cultural em que vivia Nabil-i-Akbar, o destinatário da Epístola. Também devemos ter presente que a Epístola da Sabedoria pretende mostrar uma verdade espiritual (Jerusalém exerceu uma influência espiritual sobre Atenas) e não um facto histórico. Assim, temos de acreditar que os conceitos básicos transmitidos na Epístola são verdades infalíveis e eternas, apesar de algumas frases específicas, que sustentam esses conceitos, possam ser incorrectas fora do seu contexto original.

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(a) - Problems of Chronology in Baha'u'llah's Tablet of Wisdom, Juan Cole (1979)
(b) – Some chronological Issues in the Lawh-i-Hikmat of Bahá'u'lláh, Peter Terry (1999)
(c) - A study of Pre-Islamic sources on the relation of Greek Philosophers and Jewish sages, Amin Egea, (2007)
(d) - Epístola datada de 1906 dirigida à Sra Ethel Rosenberg
(e) – Citado em "Hermes Trismegistus...", Keven Brown, p. 178

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Entrevista com Junior Seri

Programa "A Fé dos Homens" transmitido na RTP2 no dia 30-Janeiro-2012.
Entrevista com Junior Seri (Comunidade Baha'i de França).

Desigualdade entre ricos e pobres em destaque na ONU

Enquanto a crise económica tem levado muitos a concentrarem-se apenas nas desigualdades a nível nacional, as diferenças entre ricos e pobres a nível internacional têm aumentado ao ponto de se tornarem uma ameaça à estabilidade global. Este foi um dos temas levantados na sessão anual na Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social, que terminou hoje (10-Fevereiro).

O debate, organizada pela Comunidade Internacional Bahá'í e co-patrocinada pela ATD Forth, centrou-se no tema da Comissão, “a erradicação da pobreza” e reuniu diplomatas de topo da ONU, funcionários das agências da ONU e representantes de organizações não-governamentais.

Na sua intervenção, o embaixador Jorge Valero - representante Permanente da Venezuela na ONU e presidente da Comissão para o Desenvolvimento Social - culpou os excessos do capitalismo global pelo aumento da desigualdade, acrescentando que a "desigualdade e a pobreza, as mudanças climáticas e a destruição dos ecossistemas são questões pendentes na agenda internacional".

"Essas calamidades só podem ser tratadas eficazmente se forem atacadas as causas estruturais que as geram: um consumismo egoísta e predatório do sistema global, que se baseia na mercantilização do homem e da natureza" - concluiu.

Ming Hwee Chong (ao centro) participando no debate realizado na ONU como parte da sessão anual da Comissão para o Desenvolvimento Social.

Jomo Kwame Sundaram, secretário-geral Adjunto da ONU para o Desenvolvimento Económico, disse que, enquanto a questão da desigualdade for examinada apenas do ponto de vista nacional, dois terços da desigualdade global tem origem nas diferenças entre os países.

As diferenças internacionais são "muito, muito fortes", afirmou, salientando que essas desigualdades têm aumentado ao longo das últimas três décadas. "A grande promessa da globalização financeira era que, se as restrições fossem aliviadas, haveria um fluxo livre do capital, que o faria passar dos ricos para os pobres. Isso não aconteceu. O capital fluiu em sentido contrário, dos pobres para os ricos", acrescentou.

Entre os outros participantes do painel estavam Isabel Ortiz, directora adjunta de Políticas e Práticas da UNICEF, Christine Bockstal, da Organização Internacional do Trabalho, e Sara Burke, analista da Política Sénior do Friedrich-Ebert-Stiftung.

A Dra. Ortiz informou que, aos 20 por cento da população mais rica do mundo, cabem mais de 80 por cento do rendimento global - mas os 20% mais pobres têm menos de um por cento desse rendimento. "A redistribuição nacional não é suficiente para combater a desigualdade", declarou. "Há uma forte ligação entre a desigualdade dos altos rendimentos, a agitação social e a instabilidade económica."
Nas suas observações, Ming Chong Hwee, da Comunidade Internacional Bahá'í (BIC) chamou a atenção para as observações recentes feitas pelo Secretário-Geral Ban Ki-moon sobre o aumento da desigualdade de rendimentos, a todos os níveis, ao longo dos últimos 25 anos, o que representa um sério obstáculo em todo o mundo para a erradicação da pobreza e a integração social. O Sr. Chong acrescentou que é tempo de fazer algumas perguntas críticas a respeito da relação entre a erradicação da pobreza e as diferenças económicas que existem hoje no mundo.

Apresentando uma declaração da BIC, o Sr. Chong observou que as relações de dominação - uma nação sobre outra, uma raça sobre outra, ou uma classe ou sexo em detrimento de outro - contribuem para o acesso desigual aos recursos e ao conhecimento.

A declaração também expressa a preocupação de que uma "visão materialista do mundo, que sustenta grande parte do pensamento económico moderno, reduz o conceito de valores, de objectivos, e de interacções humanas, a uma busca egoísta de riqueza material."

O Sr. Chong acrescentou que - apesar da muita atenção que tem sido dada às dimensões políticas, diplomáticas e transaccionais da crise actual - o objectivo da discussão foi tentar encontrar colaboração para "criar um espaço para cavar mais fundo, a fim de trazer à superfície alguns dos pressupostos subjacentes que moldam a nossa realidade económica e social".


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FONTE: Inequality between rich and poor highlighted by UN panel (BWNS)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A Epístola da Sabedoria (6)

OS FILÓSOFOS ANTIGOS

NOTA: entre parêntesis rectos [ ] encontram-se referências aos parágrafos da Epístola da Sabedoria.

Academia de Atenas (Rafael)

Como já dissemos, uma das características mais salientes da Epístola da Sabedoria é a referência a vários filósofos da antiga Grécia. Nesta Epístola, o fundador da Fé Bahá’í afirma o Seu apreço pelos homens de conhecimento que descobrem coisas que promovem o bem-estar da humanidade[40]. Também nos adverte para que não deixemos que a sabedoria se torne um obstáculo entre Deus e os seres humanos [36].

A sabedoria é um bem precioso; é fruto da capacidade racional do ser humano. Essa capacidade é a maior dádiva de Deus à humanidade(a). Bahá'u'lláh afirma que essa capacidade é distribuída por todos os povos do mundo[37-38] e acrescenta que houve conhecimento desenvolvido por povos do passado que se perdeu e que hoje não pode ser reproduzido [39].

As grandes religiões semitas sempre tiveram uma relação estreita com a filosofia clássica. No Cristianismo e no Islão, a assimilação dos valores e ensinamentos da filosofia clássica grega foi um processo lento e nem sempre linear. S. Agostinho (354-430) introduziu o Neoplatonismo (desenvolvido por Plotino e Porfírio) no pensamento antigo cristão; S. Tomás de Aquino (1225-1274) introduziu o pensamento de Aristóteles no pensamento cristão medieval. No Islão, a assimilação desses valores e ensinamentos iniciou-se em Bagdade, entre 750 EC e 850 EC, com a tradução de textos clássicos gregos para árabe.

A Epístola da Sabedoria pode ser vista como o pivot da integração filosofia clássica grega na Fé Bahá’í. Ao longo de vários parágrafos desta Epístola Bahá'u'lláh faz a apologia dos antigos filósofos gregos. Esses sábios da antiguidade clássica lançaram os alicerces sobre os quais se desenvolveram a filosofia e sabedoria modernas. A Abençoada Beleza salienta o facto desses sábios nunca terem negado a existência de Deus[21, 22] e terem sido influenciados pelos Profetas do passado [26, 24].

Convém aqui referir que estes filósofos fizeram reflexões sobre o Divino, e simultaneamente criticaram os sistemas religiosos e mitológicos vigentes no seu tempo; cada um destes filósofos desenvolveu o seu próprio conceito do Divino, de acordo com a sua metafísica e a sua moral.

Ao referir-Se aos filósofos antigos, Bahá'u'lláh cita e parafraseia textos historiadores muçulmanos Abu'l-Fath-i-Shahristani (1076-1153 A.D.) e Imadu'd-Din Abu'l-Fida (1273-1331 A.D.). Os textos destes autores eram conhecidos de Nabil, o destinatário da Epístola. Desta forma, Bahá'u'lláh usa um enquadramento histórico-filosófico que é familiar a Nabil.

O texto da Epístola contém referências a Empédocles ("…distinguiu-se na Filosofia…"[25]), Pitágoras ("...Influenciado pelos Profetas hebraicos..."[25]), Hipócrates ("...Eminente filósofo que acreditava em Deus..."[28]) e Balinus ("...Excedeu outros da difusão de letras e ciências..."[30]).

Os maiores elogios vão para Sócrates; Bahá'u'lláh alonga-se em elogios e descreve-o como se tivesse sido o expoente máximo da sabedoria humana: "Ele é quem mais se distinguiu entre todos os filósofos e era altamente versado em sabedoria"[28], "Parece-Me que ele sorveu uma porção quando o Mais Grandioso Oceano"[28]

Aristóteles, que Bahá’u’lláh designa como "Célebre homem de conhecimento"[29], foi o primeiro a formular a teoria da degenerescência religiosa da humanidade(b), afirmando que as religiões apareciam e desapareciam numerosas vezes (esta ideia seria retomada por Averroes). Aristóteles acreditava que a existência de movimento no mundo era uma prova da existência de Deus.

Platão, a quem Bahá’u’lláh chama "o divino Platão"[29], acreditava que todo o movimento do mundo tinha origem numa "Primeira Causa" inamovível. Para ele, existia um artesão (Demiurgo) responsável pela construção e desenvolvimento do universo físico.

Antes da revelação desta Epístola, já ‘Abdu’l-Bahá, no livro "O Segredo da Civilização Divina", tinha tecido elogios à influência dos filósofos gregos no pensamento moderno, acrescentando que tinham sido influenciados por Profetas Hebreus. O filho de Bahá’u’lláh chega a afirmar que Sócrates esteve na Palestina para falar com sábios e teólogos hebraicos.

Posteriormente, durante as Suas viagens na Europa e Estados Unidos 'Abdu'l-Bahá repetiu essas referências elogiosas aos filósofos da antiguidade clássica.

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(a) - Selecção dos Escritos de Baha’u’llah, XCV. Ver também parágrafos iniciais d' O Segredo da Civilização Divina
(b) - Metafísica XII, cap. 7º

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Irão: bloqueio económico contra os Bahá’ís

A campanha do governo iraniano para arruinar economicamente os Bahá’ís não mostra sinais de abrandamento. Segundo informações recebidas pela Comunidade Internacional Bahá’í, esta campanha assumiu proporções significativas na cidade de Kerman (centro-sul do Irão).

"Fomos informados que o Departamento de Supervisão de Espaços Públicos negou a renovação de licenças - e revogou algumas já existentes - a empresas pertencentes aos Bahá’ís na cidade", declarou Bani Dugal, principal representante da Comunidade Internacional Bahá'í nas Nações Unidas. "Uma vasta gama de profissões estão a ser alvo - desde lojas de venda e reparação de computadores, até aos correctores de imóveis. Os Bahá’ís envolvidos na venda de ferragens, aço, ou ouro estão a perder as suas licenças, assim como as empresas de produtos alimentares, serviços de saúde e cosméticos e de oftalmologia", acrescentou.


Vários Bahá’ís de Kerman foram também informados de que não estão autorizados a possuir muitas lojas na mesma rua. "As autoridades foram ao ponto de revogar as licenças de parceiros de negócios dos Bahá’ís, mesmo quando estes não são membros da Fé Bahá'í", disse a Sra. Dugal.

Desde a Revolução Islâmica de 1979, milhares de Bahá’ís perderam os seus empregos ou fontes de subsistência. Em 1993, a ONU revelou um memorando do governo iraniano - aprovado pelo Líder Supremo do país – que delineava explicitamente um plano para "bloquear" o "desenvolvimento da comunidade Bahá’í iraniana."

Para além da limitações colocadas aos jovens Bahá’ís no acesso ao ensino superior, é claro que as autoridades continuam com uma série de outras acções para levar a cabo esta política, afirmou a Sra. Dugal. "Recebemos relatos de pelo menos 60 incidentes nos últimos cinco anos, destinados a reduzir as perspectivas económicas dos Bahá’ís", informou.

Alguns exemplos recentes incluem:
  • De 2 a 12 de Janeiro de 2012, mais de 70 por cento das empresas de Bahá’ís, em Sari e Ghaemshahr (província de Mazandaran), e outras em Gorgan e Gonbad (província de Golestan), foram sujeitas a rusgas para tentarem encontrar algum pretexto que justificasse ameaças ou detenção de bahá'ís. As autoridades revistaram ainda as residências de Bahá’ís, que trabalham em casa, em alguns casos há mais de dois anos, desde que foram obrigados a fechar as suas lojas.
  • Em Julho de 2011, o proprietário Bahá’í de uma loja, em Abadan recebeu uma notificação da união dos retalhistas e fabricantes de jóias, relógios e óculos, exigindo-lhe a devolução da sua licença de trabalho e a liquidação dos seus bens dentro de 24 horas;
  • Em Junho de 2011, uma loja de óptica foi selada sob o pretexto de transferir a licença para um novo local. O chefe do Departamento de Supervisão de Espaços Públicos informou que a ordem para selar a loja tinha sido emitida pelas autoridades superiores. A loja já tinha sido fechada pelas autoridades em Dezembro de 2008, juntamente com quatro outras lojas de Bahá’ís, em Nazarabad. Mas depois de uma batalha legal, o proprietário conseguiu reabri-la num novo local, apenas para ser selada novamente.
  • Após uma onda de ataques incendiários a uma dúzia de empresas de Bahá’ís em Rafsanjan, no final de 2010, foram enviadas cartas de aviso, a cerca de 20 casas e empresas, exigindo que os Bahá’ís assinassem um compromisso para "se absterem de ter contactos ou de criar amizades com os muçulmanos "e de" utilizar ou contratar estagiários muçulmanos. "
  • No início de 2009, na cidade de Semnan, a associação dos Sindicatos fez sair um regulamento declarando que nenhum Bahá’í podia receber licença comercial. Logo a seguir, uma série de empresas e lojas de Bahá’ís em toda a cidade, foram fechadas ou seladas.
  • Num exemplo de outro tipo de pressão económica, um Bahá’í, em Isfahan - pouco antes de ser demitido do seu trabalho - pediu à segurança social a retribuição do valor que tinha sido descontado do seu salário, para a pensão. Recebeu uma resposta dizendo que o seu pedido não estava a ser tratado porque era "uma falsa questão", dado o facto de que o motivo de ter perdido o emprego era a sua participação na "seita desviante bahaista". O aviso especificava ainda que, ele e outros 14 indivíduos, tinham sido demitidos com base na proibição legal de terem sido contratados, em primeiro lugar e, assim, as suas reivindicações não seriam levadas em conta.
"O direito internacional enuncia firmemente o direito das pessoas serem livres para trabalhar e ganhar a vida, sem discriminações", disse a Sra.Dugal. "No mês passado, a comunidade internacional votou esmagadoramente na ONU para condenar o Irão pelas suas contínuas e recorrentes violações dos direitos humanos. Seguramente, está na hora do Irão perceber que não pode continuar a oprimir os seus cidadãos e pensar que ninguém vai dar por isso."

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 FONTE: New crackdown highlights campaign to block progress of Iranian Baha'is (BWNS)


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Os bahá’ís vivem numa espécie de “apartheid religioso” no Irão

Texto de Filipe Avillez, publicado no blog Actualidade Religiosa.
 
Transcrição completa de entrevista com Marco Oliveira, da Comunidade Bahá’í em Portugal. Vejam a notícia aqui.


Últimamente tem aumentado a perseguição aos bahá’í no Irão, mas a religião Bahá’í nasceu no Irão. Pode-nos contar brevemente a história das origens? 
A Fé Baha’i nasceu no Irão no século XIX. O fundador foi um nobre persa chamado Bahá'u'lláh que começou por apoiar um movimento messiânico, o Babismo, que é referido por Eça de Queirós. Por causa desse apoio foi exilado para o que é hoje o Iraque. No Iraque começou a organizar os seguidores da religião Babí e anunciou ser ele o profeta prometido pelo fundador da religião Babí, o Bab. Posteriormente foi novamente exilado, primeiro para Constantinopla, depois para Adrianópolis, ainda no império Otomano, e eventualmente para a fortaleza de Akká, na Palestina Otomana e hoje fica no Estado de Israel. Hoje há cerca de cinco milhões de Bahá’ís espalhados por todas as religiões do mundo.

Templo Baha'i

E no Irão, quantos há? Actualmente vivem no Irão cerca de 300 mil bahá’ís, são a maior minoria não muçulmana no Irão. 

Portanto a religião nasceu no seio do islão, mas os bahá’í consideram-se muçulmanos? A fé Baha’i é uma religião independente, tem os seus próprios livros sagrados, as suas próprias leis e a sua própria administração. A relação que tem com o Islão é a mesma que o Cristianismo tem com o Judaísmo, isto é, nasceu num meio islâmico mas mostrou rapidamente que era uma religião independente. No Irão há também comunidades cristãs e judaicas que até são respeitadas.

Porque é que os bahá’í são tão perseguidos? 
Há sobretudo um aspecto teológico-religioso na base dessa perseguição. Para os muçulmanos o Judaísmo e o Cristianismo são religiões do Livro. Os muçulmanos aceitam Moisés e aceitam Jesus como profetas legítimos e divinos, mas segundo o Islão Maomé terá sido o último dos profetas. A Fé Baha’i ensina que não houve um último dos profetas, mas que há uma sequência contínua de profetas e que o mais recente foi Bahá'u'lláh. Isto contraria aquilo em que os muçulmanos acreditam e é isso que está na base das perseguições. Para além disso os Bahá’í têm um conjunto de ensinamentos que o clero muçulmano mais tradicional não aceita, como por exemplo a igualdade de direitos entre homens e mulheres, a necessidade de investigação da verdade e a abolição de todas as formas de preconceito. Portanto há um conjunto de circunstâncias que tornam a Fé Bahá’í um alvo preferencial das ditaduras islâmicas.

E recentemente tem havido um aumento da perseguição? 
É verdade. Temos assistido com muita preocupação a um conjunto de medidas que visam descriminar e ostracizar a fé Baha’i no Irão. Em termos simplistas diria que se está a criar um sistema de apartheid religioso em que os Bahá’ís além de não terem direitos de cidadania, porque não estão defendidos pela constituição iraniana, neste momento estão impedidos de um conjunto de actividades. Por exemplo os jovens não podem ingressar na universidade, quando ingressam acabam por ser expulsos passados alguns meses. Os bahá’ís não podem ser funcionários públicos, os reformados viram canceladas as suas reformas e foram obrigados a devolver o que já tinham recebido, várias pessoas que têm pequenos negócios de comércio têm visto as suas licenças revogadas, há lares e propriedades destruídas ou incendiadas e tudo isto nos cria uma situação que nos preocupa verdadeiramente e para a qual temos chamado a atenção da comunidade internacional nos diversos fóruns internacionais e junto de Governos em todo o mundo.

E em Portugal também há bahá’ís de origem iraniana? 
Em Portugal há cerca de sete mil bahá’ís. Alguns destes são pessoas que nasceram no Irão e, devido às perseguições que lá ocorrem, tiveram que vir para Portugal como refugiados e acabaram por fazer aqui a sua vida. A maioria encontra-se hoje plenamente integrada na sociedade portuguesa. Há médicos, engenheiros, professores universitários, plenamente integrados na sociedade portuguesa

Nelson Évora é o Baha'i português mais conhecido

Rádio Renascença: Irão endurece perseguição aos Bahá’ís

Texto de Filipe Avillez, publicado no site da Rádio Renascença
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A Comunidade Bahá’í nasceu no Irão e é a maior minoria religiosa não islâmica no país. Nas últimas semanas têm sentido a pesada mão da perseguição de Teerão.

Dezenas de seguidores da religião Bahá’í foram detidos nas últimas semanas com o aumento das medidas persecutórias contra a comunidade naquele país.

Segundo Marco Oliveira, da comunidade Bahá’í em Portugal, os seus correligionários no iranianos vivem agora um sistema de “apartheid”, e um ambiente cada vez mais sufocante.

“Os bahá’ís além de não terem direitos de cidadania, porque não estão defendidos pela constituição iraniana, neste momento estão impedidos de um conjunto de actividades. Por exemplo os jovens não podem ingressar na universidade, quando ingressam acabam por ser expulsos passados alguns meses. Os bahá’ís não podem ser funcionários públicos, os reformados viram canceladas as suas reformas e foram obrigados a devolver o que já tinham recebido, várias pessoas que têm pequenos negócios de comércio têm visto as suas licenças revogadas, há lares e propriedades destruídas ou incendiadas”, explica Marco Oliveira.

Os piores episódios têm-se registado na cidade de Kerman, onde até parceiros e sócios que têm negócios com os bahá’í mas que não pertencem a essa religião, estão a ser afectados.

A religião Bahá’í nasceu na Pérsia e ainda existem naquele país cerca de 300 mil seguidores, que constituem a maior minoria não islâmica do Irão. O Irão tende a respeitar as comunidades indígenas de outras religiões, como os cristãos e os judeus, concedendo-lhes certos direitos na condição de que não interfiram na vida política. As excepções surgem quando muçulmanos se tentam converter a outras religiões.

Contudo, esse respeito não se estende aos bahá’í, por várias razões, como explica Marco Oliveira: “Para os muçulmanos o Judaísmo e o Cristianismo são religiões do Livro. Os muçulmanos aceitam Moisés e aceitam Jesus como profetas legítimos e divinos, mas segundo o Islão Maomé terá sido o último dos profetas. A Fé Baha’i ensina que há uma sequência contínua de profetas e que o mais recente foi Bahá'u'lláh. Isto contraria aquilo em que os muçulmanos acreditam e é isso que está na base das perseguições.”

Marco Oliveira acredita que há ainda outras razões que enfurecem a hierarquia islâmica do Irão e de outros países muçulmanos: “Os baha’i têm um conjunto de ensinamentos que o clero muçulmano mais tradicional não aceita, como por exemplo a igualdade de direitos entre homens e mulheres, a necessidade de investigação da verdade e a abolição de todas as formas de preconceito. Portanto há um conjunto de circunstâncias que tornam a Fé Bahaí um alvo preferencial das ditaduras islâmicas”.

Actualmente, segundo dados fornecidos pelos próprios bahá’í, há cerca de uma centena de pessoas da comunidade iraniana encarcerados unicamente pelas suas crenças religiosas, cerca de o dobro do que havia há poucos meses.

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FONTE: Irão endurece perseguição aos Baha'is (Rádio Renascença)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Diálogo Inter-Religioso - Crise e Fé

Um Baha'i, um Católico e um Judeu dialogam sobre a Crise e a Fé.
Programa "Caminhos" emitido no dia 29-Janeiro-2012, na RTP2

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Religiões mostram ser possível viver em harmonia

Texto de Nuno Abreu, publicado no jornal A Bola.

Um grupo de escuteiros irrompeu para o palco para cantar uma canção e muitos ficaram surpresos. Notou-se que a maioria das pessoas não pensava existir escuteiros de outros credos, mas no agrupamento 36 existem e são muçulmanos ismailitas. Não podia haver melhor metáfora para o encontro que ocorreu este sábado de manhã, no Mercado de Santa Clara em Lisboa, promovido pela Aliança das Civilizações. Entre 1 e 7 de fevereiro comemora-se a Semana Mundial de Harmonia entre Fés.

Fotos de António Azevedo/ ASF


Mais de 13 credos juntaram-se para partilharem a sua visão de convivência entre religiões. Desde a fé bahá’i, passando pelas comunidades hindus, sikh, muçulmana, muçulmana ismailita, judaica, cristã e até ateia partilharam os seus testemunhos, todos com semelhante objetivo de tolerância e de união, mesmo que caminhando por «estradas diferentes».

Jorge Sampaio, antigo Presidente da República e atual Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, destacou o papel de Portugal como país que vive na multiculturalidade. «Numa semana de eventos violentos temos de nos lembrar que esta é também uma semana de harmonia. Uma semana para aprender a respeitar a diferença, sendo que todos partilhamos a nossa Humanidade. Portugal é um país onde há séculos existe uma aliança entre credos, com os mais diversos templos espalhados por todo o país», disse.

União das fés

Uma plateia multicultural, à imagem da celebração que decorria, ouviu atenta as palavras dos mais diversos representantes dos credos presentes em Portugal que, como objetivo da celebração, iam encontrando «harmonia» entre si, apesar de professarem credos diferentes. Como Marco Oliveira, da comunidade bahá’i, que destacou a iniciativa como forma de «refletir os diversos caminhos da verdade que permitem a construção da paz», opinião que Shree Trivedi, da comunidade hindu portuguesa, veio corroborar ao citar Gandhi, afirmando que «cada religião é um caminho diferente para atingir o mesmo ponto».

A comunidade hindu é um exemplo de integração que começou ainda fora de Portugal. «Moçambique foi o primeiro país a dar exemplo de convivência com os hindus e essa convivência amena foi trazida para a Europa, onde ainda se mantém», disse Trivedi.

Abdool Karim Vakil, presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa, ilustrou a convivência inter-religiosa dando o exemplo da Península Ibérica, quando três religiões (cristã, judaica e islâmica) trabalharam lado a lado no Al-Andaluz, numa época de grande evolução. O líder islâmico apelou também a que «seja incutido nas crianças a solidariedade e compaixão entre povos».

Os representantes da comunidade islâmica ismaili, da comunidade israelita, da comunidade de Santo Egídio, dos Sikh, da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, da Igreja Lusitana da Comunhão Anglicana, Sagrado Coração de Maria e do Templo de Shiva foram cada um falando sobre união entre credos, partilhando votos de paz mundial.

Para o fim ficou o pequeno-almoço de sabores do mundo, onde em cima da mesa, e como foi pedido pelos oradores, se reuniram em harmonia iguarias de todo o Mundo, desde África à Turquia, passado pela Croácia, Marrocos ou Sudeste Asiático.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A Epístola da Sabedoria (5)

O VERBO DE DEUS

NOTA: entre parêntesis rectos [ ] encontram-se referências aos parágrafos da Epístola da Sabedoria.

Depois de proclamar a harmonia entre diferentes conceitos “acto da Criação” e “Eternidade da Criação”, Bahá’u’lláh sustenta que as origens e desenvolvimento do universo dependem, não apenas de forças naturais, mas também do Verbo de Deus (Palavra Criativa). Para Ele, a Natureza é um reflexo da Vontade de Deus[12, 14]. Trata-se de uma posição que refuta o materialismo e positivismo europeu do sec. XIX.[21, 22, 41]

O conceito de Verbo de Deus, enquanto palavra criativa de Deus, encontra-se nas escrituras de outras religiões. No primeiro capítulo do Evangelho de S. João lemos:
"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez."
No Islão também se proclama o poder da Palavra Criativa de Deus, ao afirmar-se que Deus criou o mundo apenas com uma palavra. Bahá’u’lláh reafirma este conceito na Oração Obrigatória Longa e na Epístola da Visitação. Trata-se de uma metáfora que nos transmite duas ideias: o poder do Verbo (enquanto palavra criativa) e o consequente poder de Deus.

Na Epístola da Sabedoria, Bahá’u’lláh indica que o Verbo está na origem da Criação, mas não Se alonga muito no tema do Verbo, e declara mesmo que não pretende continuar a abordar o assunto. No entanto, outras das Suas Epístolas focam este tema:
O Verbo de Deus é o Rei das Palavras e a sua influência penetrante é incalculável. Sempre dominou e para sempre continuará a dominar o mundo da existência. O Grande Ser diz: o Verbo é a chave-mestra para o mundo inteiro, pois através da sua potência, as portas dos corações dos homens, que na realidade são as portas do céu, descerram-se... É um oceano de inesgotáveis riquezas, que envolve todas as coisas. Cada coisa que se possa discernir é apenas uma emanação dele.(a)
O Verbo pode manifestar-se na forma de palavra revelada pelos Manifestantes. Essa palavra revelada também está dotada de um enorme poder:
...no momento em que manar dos Meus lábios a palavra que exprima o Meu atributo "o Omnisciente", cada coisa criada segundo a sua capacidade e suas limitações, será investida de poder para desenvolver o conhecimento das mais maravilhosas ciências, e será capacitada a manifestá-las no decorrer do tempo, a mando d'Aquele que é o Todo-Poderoso, o Conhecedor de Tudo. Sabe tu, com certeza, que a Revelação de todos os outros Nomes é acompanhada de uma manifestação semelhante de poder divino. Cada uma das letras que procede dos lábios de Deus é, em verdade, uma Letra Mãe, e toda a palavra proferida por Aquele que é o Manancial da Revelação Divina é uma Palavra-Mãe, e a Sua Epístola é uma Epístola-Mãe. Bem-aventurados os que aprendem esta verdade.(b)
'Abdu'l-Bahá descreve a natureza do Verbo comparando-o aos raios do sol(c). Deus é como o sol; enquanto o sol existiu, também existiram os raios de sol. No entanto, a existência dos raios depende apenas do sol. Tal como o sol emana raios sem se dividir, Deus emana o Verbo sem partilhar a Sua essência. Quando os raios brilham sobre um espelho perfeito (o Manifestante), as qualidades do sol aparecem.

As Escrituras Bahá’ís também afirmam que o Verbo é causa da criação e continua a exercer poder e influência sobre o mundo. É "o poder penetrante em todas as coisas, quem move as almas, quem une e regula o mundo da humanidade"(d) e "nunca foi negado ao mundo da existência"[10].

Se - como vimos no post anterior - os dois conceitos sobre o início da Criação são válidos, se o Verbo é a causa da Criação e se o Verbo está sempre presente (nunca nos foi negado), então podemos deduzir que a criação não é um acto que ocorre isolado no tempo, mas antes um processo contínuo. Assim conseguimos perceber porque é que Bahá'u'lláh afirma que existe harmonia entre os dois conceitos. O que não é compatível com os ensinamentos Bahá’ís é a ideia de criação como um acto único que ocorre no tempo, estabelecendo uma separação clara entre existência e não existência.


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(a) - Epístola de Maqsud
(b) - Seleção Escritos de Bahá'u'lláh, LXXIV
(c) - Respostas a Algumas Perguntas, cap. 53
(d) - Sel. Escritos de 'Abdu'l-Bahá, nº 225

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Educação e Formação para melhorar a sociedade

Uma declaração da Comunidade Internacional Bahá'í na 55 ª Sessão da Comissão das Nações Unidas sobre o Estatuto da Mulher

22 de Fevereiro de 2011

Que a educação e a formação das mulheres e das jovens são fundamentais para o bem-estar e progresso das comunidades e das nações, isso é um facto definitivamente estabelecido. Os benefícios dessa educação têm sido tradicionalmente enquadrados em termos de crescimento económico, mas o bem-estar material é apenas uma das muitas condições que afecta a participação das mulheres e das jovens na formação da sociedade. Alcançar um aumento significativo e sustentável desta participação vai exigir um diálogo mais aprofundado sobre a natureza do desenvolvimento, "modernidade", e a organização actividade geradora de conhecimento.

O ser humano não é apenas uma criatura económica e social, mas é também espiritual, com livre arbítrio e uma consciência que permite a busca de sentido e da verdade. Sem a liberdade para prosseguir esta busca essencialmente humana, nem dignidade, nem justiça, nem o desenvolvimento - na sua plena acepção - são possíveis. A Comunidade Internacional Bahá'í entende o desenvolvimento, como sendo um empreendimento global que permite a todos os indivíduos desenvolverem as suas capacidades inerentes e qualidades espirituais, e contribuir para o avanço da sua comunidade[1] . O desenvolvimento é uma iniciativa que exige esforços tanto dos homens como das mulheres, trabalhando juntos para construir uma ordem social caracterizada pela justiça, equidade, reciprocidade e prosperidade colectiva. Os sistemas de educação, ciência e tecnologia devem, por isso, ser organizados de forma a reflectir tanto as dimensões espirituais como materiais do ser humano, permitindo a cada pessoa desempenhar a sua legítima função na melhoria da sociedade.

Uma aula de formação no Barli Development Institute for Rural Women em Indore (India)


A divisão do mundo em produtores e utilizadores do conhecimento, é uma característica deficiente da actual ordem mundial, com profundas implicações para a qualidade e legitimidade da educação, ciência e tecnologia, bem como para a governação e formulação de políticas. Se a maioria da humanidade continua a ser vista como utilizadores da tecnologia produzida algures, é improvável que um desenvolvimento significativo e sustentável crie raízes [2]. Se o acesso ao conhecimento é um direito de todo o ser humano, a participação na sua criação, aplicação e difusão é uma responsabilidade que cada indivíduo deve assumir e estar capacitado a assumir[3]. Reformar o fluxo actual de conhecimento - de "Norte" para "Sul", do urbano para o rural, dos homens para mulheres - libertará o desenvolvimento dos limitados conceitos de "modernização".

A experiência mundial da Comunidade Bahá'í no campo da educação e desenvolvimento comunitário, tem demonstrado que alguns conceitos são particularmente importantes para orientar os processos educativos (incluindo o desenvolvimento curricular) para atingir o objectivo final, nomeadamente a transformação dos indivíduos e das suas comunidades. Esses conceitos incluem:

* Educação espiritual e moral. No campo da educação, o desenvolvimento espiritual e moral tem estado frequentemente divorciado da formação intelectual e vocacional. Esta separação surgiu muitas vezes de intenções nobres de tolerância e respeito. No entanto, deve-se reconhecer que todas as sociedades são caracterizadas por interesses políticos, económicos e culturais que promovem padrões corrosivos do pensamento e do comportamento entre os jovens. Transmitir a capacidade de reflectir e aplicar princípios espirituais, morais e éticos será, por isso, indispensável para a tarefa de construir uma civilização mundial próspera.

* Repensar os estudantes, repensar os professores. Cada programa educacional baseia-se em pressupostos básicos sobre a natureza humana. Alcançar o desenvolvimento sustentável dependerá assim de repensar conceitos subjacentes a professores e alunos. A criança - longe de ser um recipiente vazio, esperando ser preenchido - deve ser vista como "uma mina rica em jóias de inestimável valor"; os seus tesouros poderão ser revelados e desenvolvidos para benefício da humanidade apenas através da educação. Da mesma forma os professores - cuja louvável profissão foi durante demasiado tempo negligenciada e subestimada – devem, do mesmo modo, reconhecer que se desejam efectuar uma transformação ao nível do carácter e do intelecto, devem, antes de tudo, personificar e seguir os princípios que ensinam.

* Aprendizagem sistemática e participação. O conceito de participação surge também sob uma nova luz. A participação efectiva requer um processo sistemático de aprendizagem dentro de cada comunidade, de forma a permitir à comunidade identificar as suas forças e as suas necessidades; experimentar novas ideias e métodos, novas tecnologias e processos; e, finalmente, tornarem-se os agentes primários do seu desenvolvimento. Um dos primeiros passos na criação de desenvolvimento participativo é promover o compromisso de um número crescente de indivíduos em processos de aprendizagem - caracterizados pela acção, pela reflexão sobre a acção e pela deliberação colectiva - num esforço constante para gerar e aplicar conhecimentos que melhorem as condições da vida comunitária.

* Transformação individual e social. A transformação da sociedade humana requer simultaneamente a transformação do indivíduo e a criação cuidadosa de novas estruturas sociais. Os indivíduos devem ser educados e capacitados, mas deve ser dada atenção às condições culturais, científicas e tecnológicas, educacionais, económicas e sociais que os vão moldar. A contínua interacção entre o desenvolvimento do indivíduo e a criação de novas estruturas sociais proporciona um rumo de mudança social e evita tanto a complacência como a violência.

* Solidariedade global. Os desafios associados com a remoção de obstáculos à educação e formação das meninas e das mulheres, exigirá um sistema de governação global que promova a segurança colectiva, a promoção dos direitos humanos, a sustentabilidade ambiental, e uma ordem económica equitativa e justa. Entre as suas características distintivas estará a adesão ao princípio da administração colectiva e a compreensão de que a vantagem de qualquer das partes pode ser melhor garantida com as vantagens do todo.

Permitir que um número crescente de jovens e mulheres possam aceder à educação e à formação, para desempenhar um papel activo na produção e aplicação da ciência e da tecnologia, não é apenas um questão de tecnologia ou economia. Pelo contrário, isto exige que as nações e as comunidades tenham de enfrentar uma gama muito maior de pressupostos sobre o desenvolvimento, a natureza humana, os processos de produção e partilha do conhecimento, do progresso e da modernidade. Os acordos políticos, só por si, serão insuficientes, bem como as estratégias e tácticas de puro pragmatismo. Somente quando a igualdade entre homens e mulheres - trabalhando lado a lado para a melhoria das suas comunidades - for elevada ao nível de "princípio", o verdadeiro potencial do espírito humano poderá começar a ser aproveitado. Quando os princípios da equidade, justiça e generosidade se tornarem métricas de avaliação do programa, e a natureza humana for considerada na sua totalidade, e não apenas na sua dimensão material, então inicia-se o verdadeiro desenvolvimento.
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[1] - Entre outros, estes incluem a capacidade de examinar vários pontos de vista e ideias, a capacidade de considerar novas perspectivas com uma mente aberta, a capacidade de ver a diversidade como uma fonte de força, a capacidade de diagnosticar a situação de uma comunidade local e de trabalhar para atingir a meta desejada, a capacidade de elevar o discurso ao nível de princípio moral ou espiritual, e a capacidade de auto-expressão. Qualidades espirituais incluem fidedignidade, justiça, honestidade, integridade, abnegação e humildade.

[2] - Tal como a organização da actividade científica, em qualquer cultura, é fortemente influenciada por forças culturais, sociais, económicas e políticas, o mesmo acontece com a actividade tecnológica. Por exemplo, apesar de muitos trabalhos agrícolas, nos países em desenvolvimento, serem realizados por mulheres de baixos rendimentos, os principais utilizadores e construtores das tecnologias agrícolas nesses países foram os homens. Um desafio fundamental é, por isso, o seguinte: como criar as condições e fortalecer as capacidades das mulheres para identificar as necessidades tecnológicas, e criar e adaptar tecnologias, em função das necessidades sociais e limitações de recursos. Como podem as mulheres passar de utilizadores passivos das tecnologias desenvolvidas noutros lugares, para agentes activos na criação de tecnologias que atendam às necessidades das suas famílias e comunidades? Como podem ser moldados os processos de desenvolvimento tecnológico para melhor reflectirem as necessidades básicas da população mundial, particularmente os marginalizados pelas forças do mercado actual? Estas perguntas desafiam-nos a considerar a "tecnologia moderna" sob uma luz diferente, ou seja, tecnologia que responda às necessidades definidas localmente e leve em conta a prosperidade material, social e espiritual da sociedade como um todo.

[3] - A questão de como a actividade científica e tecnológica deve ser organizada, de modo a permitir que as pessoas em todos os lugares possam participar ness actividade, é um desafio central do desenvolvimento. Grande parte do mundo está sem acesso à ciência, especialmente as raparigas e as mulheres. Para a maior parte, o conhecimento científico "moderno" é gerado nas universidades e centros de pesquisa especializados dos países industrializados, cada vez mais propriedade de empresas privadas. Apesar das instituições ligadas à ciência moderna desempenharem um papel de enorme valor, a aplicação do conhecimento com a finalidade de melhorar o bem-estar da humanidade, de forma equitativa, requer a participação de uma diversidade cada vez maior de mentes. Temos de considerar: quais são as implicações do predomínio do sexo masculino na liderança da investigação científica? Fariam as mulheres perguntas diferentes? Será que elas financiariam a investigação de forma diferente? Considerando que 95% da ciência moderna, no mundo, é criada em países que compõem apenas um quinto da população mundial, quais são as implicações da ausência dos outros quatro quintos, de países e culturas, na contribuição para a pesquisa científica?

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FONTE: Education and Training for the Betterment of Society (BIC)