terça-feira, 26 de agosto de 2014

Os Bahá’ís acreditam na vida depois da morte?

Por Maya Bohnhoff.



Os Bahá’ís têm algum conceito sobre vida após a morte? Se sim, em que consiste?

A resposta a esta pergunta - um SIM muito claro e enfático - flui ao longo das Escrituras Bahá’ís.

Bahá’u’lláh ensinou que existem inumeráveis de “mundos de Deus”, incluindo aquele em que entramos quando abandonamos a nossa forma física. Mas os Bahá’ís também acreditam que a vida seguinte não é algo com que nos devamos preocupar ao ponto de reduzir a nossa vida neste mundo a uma espécie de sala de espera.

Primeiramente, Bahá’u’lláh afirma que não podemos compreender como será a próxima existência, tal como a criança no ventre materno não consegue compreender o que é este mundo. Por este motivo, não temos um modelo de comparação. Os Bahá’ís acreditam que essa existência após a morte não é um local estático, mas, em vez disso, uma evolução em direcção a Deus.

Várias pessoas fizeram perguntas a Bahá’u’lláh sobre a vida após a morte. Aqui fica a resposta que Ele deu a uma dessas perguntas:
E agora, sobre a tua pergunta referente à alma do homem e à sua sobrevivência após a morte. Sabe tu, em verdade, que a alma após a sua separação do corpo, continuará a progredir até atingir a presença de Deus, num estado e condição que nem a revolução dos séculos e das eras, nem as mudanças e casualidades no mundo, podem alterar. Perdurará enquanto perdurar o Reino de Deus, a Sua soberania, o Seu domínio e poder. Manifestará os sinais de Deus e os Seus atributos, e revelará a Sua amorosa generosidade e bondade. (SEB, LXXXI)
Nessa mesma epístola, Bahá’u’lláh escreve um pouco sobre o poder espiritual das almas puras que já faleceram:
A natureza da alma após a morte nunca poderá ser descrita, não é conhecida, nem é permissível revelar todo o seu carácter aos olhos do homem. Os Profetas e Mensageiros de Deus foram enviados com o único propósito de guiar a humanidade ao íntegro Caminho da Verdade. O propósito subjacente da Sua revelação tem sido educar todos os homens para que eles possam, na hora da morte, ascender - com a maior pureza e santidade, e com absoluto desprendimento - ao trono do Altíssimo. A luz que estas almas irradiam é responsável pelo progresso do mundo e pela evolução dos seus povos. Elas são como o fermento que leveda o mundo do ser, e constituem a força motriz através da qual as artes e as maravilhas do mundo se manifestam. (SEB, LXXXI)
A alma humana, afirmam os ensinamentos Bahá’ís, é eterna. Todos nós temos um ser interior eterno, uma realidade espiritual que retém a nossa individualidade, o nosso carácter e o nosso nível de maturidade e desenvolvimento, quando o nosso corpo morre:
Se o corpo sofre uma mudança, o espírito não tem de ser afectado. Quando se quebra um vidro onde brilha o sol, o vidro parte-se, mas o sol continua a brilhar! Se uma gaiola com um pássaro for destruída, o pássaro fica ileso. Se uma lâmpada se parte, a chama ainda pode arder com brilho! A mesma coisa se aplica ao espírito do homem. Apesar da morte destruir o seu corpo, ela não tem poder sobre o seu espírito. Este é eterno, imortal, sem nascimento, nem morte ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 65-66)
Os Bahá’ís aguardam com expectativa a transição deste mundo para o próximo, o nosso inevitável nascimento naquilo a que ’Abdu’l-Bahá chamou “a segunda vida”.

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Texto original: Do Baha’is Believe in Life After Death? (bahaiteachings.org) 

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A capacidade das crianças para a compaixão



As crianças são as mensagens vivas que enviamos para um tempo que não veremos. (Neil Postman)
Sentei-me num restaurante sombrio, irritada, e exausta. O meu marido carinhosamente ia dizendo palavras de encorajamento enquanto terminávamos a refeição e acabávamos de beber os nossos chás gelados. Uma menina com rabo de cavalo, cerca de oito anos, passou pela nossa mesa a caminho dos lavabos; sorriu para mim e perguntou:-me "Como estava? Estava bom?" Retribui o sorriso e respondi: "Sim". Quando voltou, ela parou novamente perto da nossa mesa e deu-me um sorriso ainda maior. Desta vez, ela fez também o gesto do polegar para cima, muito cómico e entusiasmado. O meu marido e eu começámos a rir. Ela apagou a minha tristeza.

Aquela menina mostrava uma característica que muitas vezes vejo em crianças: uma incrível capacidade para a compaixão. Ela parecia ter percebido que eu me sentia em baixo e que precisava de uma palavra amável e um sorriso feliz. Também percebeu a minha angústia e agiu imediatamente.

Ao longo da minha carreira como psicóloga escolar, vi frequentemente exemplos inspiradores de compaixão das crianças para com outras pessoas. Por exemplo, tive dias especialmente agitados quando eu estava no meu escritório, ocupada com prazos de entrega de relatórios, papelada aparentemente interminável, e telefonemas, e aparecia um aluno que me dava um abraço inesperado.

Eu dizia: "Estava a precisar disso."

E o aluno respondia: "Eu sei, a senhora Campbell. Eu podia adivinhar."

Os ensinamentos Bahá’ís dizem:
As crianças são o tesouro mais precioso que uma comunidade pode possuir, pois nelas está a promessa e a garantia do futuro. Eles têm as sementes do carácter da sociedade futura, que é em grande parte moldado por aquilo que os adultos membros da comunidade fazem - ou deixam de fazer - em relação às crianças. Eles são uma esperança que nenhuma comunidade pode negligenciar impunemente. (A Casa Universal de Justiça)
Esta citação parece dizer-nos que as crianças possuem um enorme potencial, e que os adultos desempenham um papel importante para as guiar no desenvolvimento desse potencial. De facto, esta citação parece salientar que orientar as crianças da nossa comunidade é um imperativo moral.

A Fé Bahá'í também possui muitas - e belas - orações sobre (e para) crianças que fazem alusão ao seu potencial, à sua necessidade de orientação, e à sua importância para o mundo. Aqui ficam alguns exemplos:
Ó Deus! Educa estas crianças. Estas crianças são as plantas do Teu pomar, as flores do Teu prado, as rosas do Teu jardim. Permite que sobre elas caia a Tua chuva; permite que o Sol da Realidade brilhe sobre elas com o Teu amor. Permite que a Tua brisa as refresque, para que sejam educadas, cresçam e se desenvolvam e manifestem a maior beleza. Tu és o Generoso! Tu és o Compassivo! ('Abdu’l-Bahá)

Ó Senhor! Eu sou uma criança. Permite-me a crescer à sombra da Tua Amorosa Generosidade. Sou uma pequena planta; deixa-me ser alimentada pelas efusões das nuvens da Tua generosidade. Sou um rebento do jardim do amor; torna-me uma árvore frutífera. Tu és o Omnipotente e Poderoso, e Tu és o Todo-Amoroso, o Omnisciente, Aquele que tudo vê. ('Abdu'l-Bahá)
Se as crianças são os nossos "tesouros", as nossas "pequenas planta[s]", e, em última análise, a nossa "promessa e garantia" do futuro, não deveremos protegê-las, orientá-las e tratá-las como entidades preciosa que são ?

Não deveremos tratar todas as crianças com compaixão?
A terra é uma única pátria, um único lar; e todas as pessoas são filhos de um único Pai. Deus criou-os, e eles são os destinatários da Sua compaixão. Portanto, se alguém ofende outro, ele ofende a Deus. É desejo do nosso Pai celestial que cada coração se alegre e fique cheio de harmonia, e que vivamos juntos em felicidade e alegria. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 468).
Podemos ser pais, mães, tias, tios, avós, avôs, padrinhos, madrinhas, tutores, pais adoptivos, professores, mentores, treinadores, baby-siters, monitores de jovens, ou instrutores de aulas infantis; todos temos um papel na protecção, educação e orientação das crianças do mundo. E porque as crianças aprendem com o exemplo, com as nossas palavras e com o nosso comportamento, devemos reflectir as nossas crenças na igualdade entre mulheres e homens, e as nossas crenças na unidade mundial. Vamos ensinar às crianças virtudes como a bondade, o amor, o respeito e a compaixão. Vamos incentivá-las a desenvolver o seu potencial, enquanto tratamos e cuidamos delas. Talvez, através dos nossos esforços combinados, consigamos ver ainda mais exemplos de compaixão, semelhante à compaixão que aquela menina mostrou quando me sorriu, me deu um sinal positivo, e iluminou o meu dia.


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Texto original: Children’s Capacity for Compassion (bahaiteachings.org)

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Jennifer Campbell é psicóloga escolar e escritora. Ela e o marido Kurt são Bahá'ís e vivem no Colorado (EUA).

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A lição d’Os Miseráveis: toda a verdade é relativa.

Por David Langness.


A maioria das pessoas concorda que roubar é errado. Mas quantos de nós roubariam um pedaço de pão para alimentar uma família com fome?

Essa é a questão ética e filosófica do conhecido escritor francês Victor Hugo coloca apresenta no seu magnífico monumental Os Miseráveis. Provavelmente os leitores já viram a peça ou alguma versão no cinema; ou talvez tenham lido as 1400 páginas do livro. Literalmente, milhões de pessoas em todo o mundo têm sido profundamente influenciadas por esta grandiosa obra de arte. Se não a conhecem , então aqui fica um breve resumo: Jean Valjean, um ex-presidiário, libertado após cumprir uma pena de prisão de 19 anos por roubar um pedaço de pão para alimentar os filhos da sua irmã, tenta mudar de vida e fazer o bem aos outros, enquanto foge à perseguição do implacável do polícia Javert, um homem cego pela lei.

Victor Hugo
O romance de Hugo causou uma grande polémica quando surgiu pela primeira vez na década de 1860; nesse mesmo período surgiu a Fé Bahá'í. Os Miseráveis desafiou o pensamento convencional, ao questionar a crueldade do primado absoluto da lei, praticado pela aristocracia europeia e autoridades religiosas. Jean Valjean defendida a democracia, o humanismo, a justiça misericordiosa e o homem comum, e elevou esses valores acima abordagem rigorosa e absolutista de Javert, que exemplificava os princípios legais e religiosos praticados nessa época pela maioria dos governos despóticos do mundo. Os Miseráveis ficou famoso pela forma como apresentou a terrível situação das classes desfavorecidas parisienses, defendendo uma abordagem humana e inteligente para resolver problemas sociais.

A história d’Os Miseráveis tem um enorme eco nos ensinamentos Bahá’ís. Não só aborda princípios semelhantes aos Bahá’ís - amar a todos, a unidade da humanidade, a futilidade da guerra, a eliminação dos extremos de pobreza e riqueza - mas também abrange um tema central enfatizado pelos ensinamentos Bahá’ís: a relatividade.

Não… não se trata da teoria da relatividade de Einstein. Os Miseráveis torna-se famoso ao colocar-nos uma grande questão: A verdade é absoluta ou relativa?

Até meados do século XIX, a maioria das pessoas teria, provavelmente, escolhido a primeira resposta. Até essa época, as autoridades governamentais e religiosas exerciam o poder com punhos de ferro e detinham autoridade absoluta sobre os seus súbditos. Proliferavam as mais inflexíveis leis e regras de conduta. Tipicamente, a dissidência, ou a discordância, recebiam uma resposta dura e até mesmo fatal. As pessoas acreditavam, em grande parte, que a inflexibilidade da verdade absoluta tornava necessário um regime autoritário.

Então, subitamente, deu-se uma mudança gigantesca. Surgiu a revelação Bahá'í, trazendo consigo um novo conjunto de pressupostos sobre a natureza da verdade. Apareceu uma nova visão da ciência, gerada pelos avanços do Iluminismo e pensadores como Darwin. A era da modernidade, com toda a sua glória perturbadora, começou a florescer. E no meio de todas essas mudanças, em vez de adoptar a abordagem absolutista da época, Bahá'u'lláh afirmou que a própria verdade não é absoluta, mas relativa:
O princípio fundamental enunciado por Bahá'u'lláh... é que a verdade religiosa não é absoluta, mas relativa, que a Revelação Divina é um processo contínuo e progressivo, que todas as grandes religiões do mundo têm origem divina, que os seus princípios básicos estão em completa harmonia, que os seus objectivos e propósitos são uma e a mesma coisa, que os seus ensinamentos são apenas facetas de uma verdade, que as suas funções são complementares, que diferem apenas nos aspectos não-essenciais das suas doutrinas, e que as suas missões representam etapas sucessivas na evolução espiritual da sociedade humana .... (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, pag. v.)
Bahá'u'lláh não nos deu apenas uma nova forma de olhar para a evolução da própria verdade; os Seus ensinamentos apresentam uma maneira completamente revolucionária para ver a evolução da humanidade:
... A Sua missão é proclamar que as idades da infância e da meninice da raça humana já passaram, que as convulsões associadas à actual fase da sua adolescência estão lenta e dolorosamente a prepará-la para atingir o fase da maturidade, e que anunciam o Tempo dos Tempos, em que as espadas serão transformadas em arados, em que o Reino prometido por Jesus Cristo será estabelecido e a paz do planeta será assegurada de forma definitiva e permanente. Bahá'u'lláh não proclama que a Sua própria Revelação tenha um carácter final, mas declara que uma medida mais completa da verdade Lhe foi delegada pelo Todo-Poderoso para ser concedida à humanidade, num momento tão crítico do seu destino, devendo necessariamente ser revelada em futuras etapas da evolução constante e ilimitada da humanidade. (Idem)
Da mesma forma, os ensinamentos Bahá’ís apresentam uma visão de uma nova sociedade global concebida para banir o absolutismo e o despotismo da face da Terra:
A Fé Bahá'í sustenta a unidade de Deus, reconhece a unidade dos Seus Profetas e inculca o princípio da unidade e integridade de toda a raça humana. Ela proclama a necessidade e a inevitabilidade da unificação da humanidade, declara que esta se está gradualmente aproximando, e afirma que apenas o espírito transformador de Deus, operando através do Seu Porta-Voz eleito neste dia, poderá consegui-lo. Além disso, impõe aos seguidores o dever primordial de procurar irrestritamente a verdade, condena todas as formas de preconceito e superstição, declara que o propósito da religião é a promoção da amizade e concórdia, proclama que esta deve estar em harmonia com a ciência, e reconhece-a como o agente principal para a pacificação e o progresso tranquilo da sociedade humana... (Idem, pags. v-vi)
Gostava que Victor Hugo e os seus Miseráveis tivessem vivido para ver isto.

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Texto original: The Lesson of Les Miserables: All Truth is Relative (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 26 de julho de 2014

Indonésia admite reconhecimento oficial da Fé Bahá’í

Lukman Saifuddin, Ministro dos Assuntos Religiosos da Indonésia
O novo Ministro dos Assuntos Religiosos da Indonésia afirmou que a Fé Bahá’í deve ser a sétima religião a ser reconhecida oficialmente no país. "A [fé] Bahá'í é uma religião; não é uma seita" escreveu Lukman Saifuddin na sua conta no Twitter @lukmansaifuddin na passada quinta-feira. "Há 220 crentes em Banyuwangi, 100 em Jacarta, 100 em Medan, 98 em Surabaya, 80 em Palopo, 50 em Bandung, 30 em Malang e em outras regiões."

Lukman esclareceu posteriormente que fez o comentário, como resultado de uma carta enviada pelo Ministério do Interior solicitando esclarecimentos sobre a religião: "Eu disse [ao Ministério do Interior] que a [fé] Bahá'í é uma religião protegida por artigos 28E e 29 da Constituição".

O Ministro acrescentou ainda que os Bahá’ís devem ter direito a identificar-se como tal nos seus cartões de identidade nacionais - e que esse reconhecimento que tornaria mais fácil a obtenção de documentos oficiais, tais como cartas de condução, certidões de nascimento, certidões de casamento e registo de propriedades.

Recorde-se que alguns governos locais assumem uma linha dura contra as minorias na Indonésia, não lhes dando documentos oficiais por não pertencerem a uma das seis religiões reconhecidas no país: islão, budismo, catolicismo, protestantismo, o confucionismo e hinduísmo.

O Ministro do Interior, Gamawan Fauzi, tinha afirmado que aguardava uma resposta do Ministério de Assuntos Religiosos antes de reconsiderar se a Fé Bahá’í deveria ser incluída como opção nos cartões de identidade.

"Se for declarada como uma das religiões aqui reconhecidas, então vamos colocá-la nos cartões de identidade", disse na sexta-feira Gamawan citado pelo jpnn.com. "Se houver necessidade de a acrescentar [às seis religiões existentes] por favor informem-nos, pois há apenas seis opções de religião no cartão de identidade."

O porta-voz da Comunidade Bahá’í na Indonésia não quis fazer comentários sobre o assunto.

Na Indonésia - o mais populoso dos países muçulmanos - este assunto não é pacífico. São cada vez mais visíveis sinais de hostilidade contra grupos xiitas e Ahmadiyahs. E, recentemente, sobre a Fé Bahá’í, o secretário do Indonesian Ulema Council, Amirsyah Tambunan, afirmou-se contra o reconhecimento da fé Bahá’í, acrescentando que as religiões devem ser provenientes de uma revelação, como as religiões abraâmicas.

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Sobre este assunto:
Acceptance of Baha’i faith welcomed (Jakarta Post)
New Religious Affairs Minister Supports State Recognition of Baha’i Religion (Jakarta Globe)

domingo, 20 de julho de 2014

Este pequeno planeta não merece ser dividido

Por David Langness.


A guerra civil na Síria já atravessou a fronteira e entrou no Iraque. Mas quem fez essa fronteira?

Para perceber a resposta a esta pergunta, é importante conhecer o significado de duas palavras: Levante e al-Jazira.

Governada ao longo dos séculos por persas, gregos, romanos e árabes, a Al-Jazira tem sido descrita como o berço da civilização, e corresponde ao território da antiga Mesopotâmia, onde os seres humanos fizeram as primeiras colheitas agrícolas e domesticaram animais. Os arqueólogos descobriram evidências consistentes na região sobre o estabelecimento de sociedades de caçadores-colectores que lentamente se tornaram agrícolas, por volta de 9000 aC. Foi aqui que as pessoas começaram a fazer culturas agrícolas; e como consequência, as suas civilizações prosperaram e espalharam-se em todas as direções.

Toda a região que circunda a Al-Jazira é conhecida desde o século VXI como Levante ou Mediterrâneo Oriental; esta região inclui as actuais nações de Israel, Jordânia, Líbano, Síria, Palestina, a Província de Hatay do Sul da Turquia e a ilha de Chipre. A região tem o seu nome da palavra francesa "levant", que significa "nascente." A palavra designado a região como o lugar no Oriente onde o sol nasce, onde a luz tem origem e onde surgem as religiões.

Guerra Civil na Síria
Após a Primeira Guerra Mundial, os governos britânico e francês criaram a fronteira actual entre a Síria e o Iraque na parte da al-Jazira, no Levante. A Grã-Bretanha e a França dividiram uma região desértica, rural e contígua entre os rios Tigre e Eufrates, que constitui a região central da al-Jazira. Quando desenharam aquela fronteira arbitrária, dividiram uma população árabe sunita predominantemente rural com fortes afinidades tribais, em duas nacionalidades diferentes.

Talvez isso explique por que a cidade iraquiana de Mosul, recentemente "tomada" pelas forças do ISIL, caiu tão rapidamente. As províncias iraquianas de Anbar, Nínive e Diyala, são regiões predominantemente sunitas com profundas ligações à Síria, têm mais simpatia e afinidade com seus correligionários sunitas na Síria do que com os que formam o governo xiita de Bagdade. Mosul, historicamente, tinha laços mais fortes com a região síria de Aleppo do que alguma vez teve com Bagdade.

Mas podemos dizer que a queda de Mosul e outras cidades iraquianas na região da Al-Jazira é culpa da partição Europeia de há quase um século? Não totalmente. Também temos de ter em conta a crescente divisão sectária entre muçulmanos sunitas e xiitas no Iraque, agravada pelas opções políticas do governo iraquiano do pós-guerra, liderado por xiitas.

Quando qualquer governo privilegia uma comunidade ou grupo religioso acima de outro, então as tensões aumentam inevitavelmente. Tanto na Síria como no Iraque, os governos actuais e anteriores favoreceram grupos religiosos e tribais minoritários, mantendo o seu poder através de uma repressão brutal e da força militar. Os ensinamentos Bahá'ís falam claramente sobre as soluções para estes problemas aparentemente insolúveis:
Nestes dias deve existir um grande poder de entendimento incutido nas nações. Os princípios da unidade do mundo da humanidade devem ser proclamados, compreendidos e postos em prática, de modo que todas as nações e religiões possam lembrar-se novamente do facto, há muito esquecido, que são todos descendentes de uma primeira humanidade, Adão, e habitantes de uma única terra. Não respiram todos o mesmo ar? Não é o mesmo sol que brilha para todos? Não são todos ovelhas de um único rebanho? Deus não é o pastor universal? Ele não é bondoso para com todos? Vamos banir os pensamentos irreais sobre oriente e ocidente, norte e sul, europeus e americanos, ingleses e alemães, persas e franceses.

Considerai a criação do universo infinito. Este nosso mundo é um dos mais pequenos planetas. Esses corpos fantásticos giram num espaço imensurável, a abóbada celeste azul infinita de Deus, são muitas vezes maior do que a nossa pequena terra. Aos nossos olhos este globo parece vasto; no entanto, quando olhamos para ele com olhos divinos, este fica reduzido ao mais pequeno átomo. Este pequeno planeta não merece ser dividido. Não é uma única casa, uma única terra natal? Não é toda a humanidade uma única raça? Na criação não existe qualquer diferença entre os povos.

Que visão acanhada teríamos se tentássemos dividir uma sala em zonas oriental e ocidental. A divisão geográfica deste mundo é um paralelismo igual. Com a nossa ignorância e falta de visão dividimos esta casa comum, dividimos os membros desta família em várias raças, dividimos a religião em diferentes seitas e depois com essas supostas divisões fazemos guerra uns contra os outros; derramamos o sangue dos outros e saqueamos os seus bens. Não é isto uma ignorância imperdoável? Não é isto o cúmulo da injustiça? ('Abdu'l-Baha, Divine Philosophy, pp. 177-179)
 
Aquilo que 'Abdu'l-Bahá designa como "supostas divisões" é descrito agora por estudiosos como "identidades políticas" modernas. Muitas nações e facções em todo o mundo aprenderam a usar os conflitos inerentes a algumas políticas de identidade para obter vantagens. Ao reforçar o impulso sectário em populações específicas e ao fomentar divisões entre as pessoas, utilizando os meios de comunicação modernos, os líderes políticos e militares de países como o Iraque, a Síria, o Irão, muitos países dos Balcãs e lugares como Ruanda e Sudão usam as origens étnicas cultural e religiosas para dividir e conquistar. Depois transformam estas divisões sectárias profundas em guerra, fome e caos.

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Texto original: This Small Planet, Not Worthy of Division (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Cristo é Deus?

Por Alex Gottdank.


Aparentemente as Escrituras Bíblicas contêm um paradoxo: Cristo é, e não é, Deus.

Vejamos as seguintes citações:
"... Cristo Jesus... não considerou como uma usurpação ser igual a Deus" (Filipenses 2:5-6).

Cristo declarou: "... o Pai é mais do que eu" (João 14:28).

Cristo proclamou: "Eu e o Pai somos Um" (João 10:30).

Cristo perguntou: "... Porque me interrogas sobre o que é bom? Bom é um só... " (Mateus 19:17).

"Jesus disse-lhe... Quem me vê, vê o Pai.... "(João 14:9).

"A Deus jamais alguém o viu... " (João 1:18).

"No princípio existia o Verbo... e o Verbo era Deus... E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco..." (João 1:1, 14).

"Porque é nele que habita realmente toda a plenitude da divindade" (Colossenses 2:9).

"Será que Deus poderia mesmo habitar sobre a terra? Pois se nem os céus nem os céus dos céus te conseguem conter! Quanto menos este templo que eu edifiquei?" (1 Reis 08:27).
A Igreja tentou conciliar estas frases, e outras como estas, declarando que Cristo era homem e Deus, um mistério que teríamos de aceitar com base na fé. Mas a frase passagem bíblica - "[Cristo] é a imagem do Deus invisível..." (Colossenses 1:15) e os ensinamentos Bahá'ís que comparam Cristo a um espelho perfeito apresentam-nos uma maneira de compreender este mistério com clareza. Basta apenas pensar como funciona um espelho para compreender o papel de Cristo como um espelho espiritual, ou como imagem de Deus.

Se olharmos para um espelho voltado para o sol, podemos ver o sol; mas que sabemos que a imagem não é o próprio sol; é apenas um reflexo, porque o sol não desce para o espelho. Em vez disso, é o seu atributo - a luz - que se reflecte no espelho.

Da mesma forma, se olharmos para o espelho espiritual de Cristo, veremos Deus; mas sabemos que Cristo é a imagem de Deus, e não o próprio Deus; é o reflexo de Deus, pois Deus não desce para o espelho. Em vez disso, os Seus atributos de amor, poder, omnisciência, etc. reflectem-se no espelho.

As Escritura sustentam este conceito, pois Salomão declarou que nem o seu templo, nem "o céu e o céu dos céus" poderiam "conter" Deus. Consequentemente, se Deus não pode ser contido na Terra, e logicamente descer a ela ou habitar nela, então quando Cristo "habitou entre nós", podemos inferir que não é a essência de Deus, mas os atributos de Deus, que habitaram entre nós.

As escrituras Bahá’ís declaram:
Se dissermos que se vê o sol no espelho, não queremos dizer que o próprio sol desceu das alturas sagradas do seu céu e entrou no espelho! Isso é impossível. A Natureza Divina vê-se nos Manifestantes e a sua Luz e Esplendor são visíveis em glória extrema.( 'Abdu'l-Bahá in London, p. 23)
Como tal, reconhecemos que Cristo, sendo uma imagem de Deus para a humanidade, reflecte os atributos de Deus, e não a essência de Deus. Com esta distinção clara, podemos agora conciliar as citações anteriores.

Quando a Escritura proclama Cristo como "igual" a Deus, mas ao mesmo tempo descreve Deus como "maior que" Cristo, fá-lo, porque Cristo é igual a Deus em propósito, espírito, palavra e qualidades, mas não em essência, porque a essência de Deus é "maior que" a essência de Cristo.

Da mesma forma, quando Cristo diz: "Eu e o Pai somos Um", isso significa que são um em espírito, propósito e atributos de Deus. No entanto, quando Cristo diz: "Porque me interrogas sobre o que é bom? Bom é um só", Ele quer dizer que a Sua essência não se pode comparar com a essência de Deus.

Da mesma forma, pode-se "ver o Pai", olhando para Cristo, pois vêem-se os atributos de Deus em Cristo, mas não se pode ver a essência de Deus, pois "a Deus jamais alguém o viu".

E, por último, Cristo enquanto imagem de Deus que se fez carne encarna "totalmente" os atributos de Deus, a Palavra, e o Espírito na Terra, mas não a essência de Deus, pois a essência de Deus não pode "habitar" no meio de nós.

Os ensinamentos Bahá'ís declaram de forma inquestionável que Cristo é, e não é, Deus, tal como a Bíblia ensina. Por um lado, Cristo é Deus, pois quando olhamos para Cristo vemos a imagem e a presença de Deus na terra. Por outro lado, Cristo não é Deus, pois enquanto "imagem do Deus invisível", Cristo reflecte os atributos de Deus para a humanidade, sem encarnar a essência de Deus. Por outras palavras:
... o homem perfeito [Cristo],... tem a pureza e a transparência de um espelho perfeito - aquele que reflecte o Sol da Verdade. De tal... podemos dizer que a Luz da Divindade com as perfeições celestes habita nele. ('Abdu'l-Bahá in London, p. 23)
Além disso, ao reconhecer Cristo como "imagem de Deus" sustentamos a crença monoteísta na unicidade de Deus (a essência de Deus), conforme descrito nas Escrituras Hebraicas: "Eu sou o Senhor... não existe outro Deus além de mim... (Isaías 45:5).

Em resumo, conhecemos Deus porque conhecemos e temos uma relação pessoal com nosso Senhor Jesus Cristo. Através do Seu reflexo perfeito de Deus, conhecemos as qualidades de Deus, o propósito de Deus, a Palavra de Deus e o Espírito de Deus. No entanto, apesar de Deus ser cognoscível dessa maneira, Ele permanece incognoscível na sua mais íntima essência.

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Texto original em inglês: Is Christ God? (bahaiteachings.org)

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Alex Gottdank é um Bahá’í de origem judaica e cristã, autor do livro Preparing for Christ’s New Name, uma análise da natureza do regresso de Cristo. Como pioneiro bahá'í, ele foi membro da Assembleia Espiritual Nacional das Western Caroline Islands entre 1988 e 2000. Actualmente é professor de história em San Juan Capistrano, na Califórnia.

sábado, 21 de junho de 2014

Porque Sofremos? (5ª parte)

Quinta parte de uma apresentação dedicada ao tema "Porque Sofremos?"

Conteúdo:
- Estaremos a ser testados?
- Sofrimento” é sinónimo de Teste?
- Conclusões


terça-feira, 17 de junho de 2014

Quem é Jesus Cristo para os Bahá'ís?

Por Brent Poirier.


Quem é Jesus Cristo para os Bahá'ís? Um homem bom? Um mero profeta? Numa curta resposta: os Bahá’ís acreditam que Jesus é quem Ele diz ser.

Devemos ter em mente que quando tentamos entender Jesus - que é essencialmente divino - com as nossas limitadas mentes humanas, temos de ter cuidado para não O limitar a definições fáceis. Ao descrever a condição dos Mensageiros de Deus, os ensinamentos Bahá’ís afirmam:
Em todos os casos, Eles pronunciaram palavras que estava de acordo com os requisitos do momento, e atribuíram todas estas declarações a Si próprios, declarações que vão desde o domínio da Revelação divina ao reino da criação, e até do domínio da Divindade ao domínio da existência terrena. Assim é, que tudo o que seja a Sua palavra - quer pertença ao reino da Divindade, do Domínio, da Profecia, do Mensageiro, da Protecção, do Apostolado ou da Servidão - tudo é verdade, sem sombra de dúvida. (O Livro da Certeza, parágrafo 181)
A Bíblia refere-se a Jesus com muitos destes mesmos títulos e estatutos. Os versículos afirmam claramente o Seu Domínio, referindo-se também a Ele como o Senhor e como Mestre:
"Vós chamais-me 'o Mestre' e 'o Senhor', e dizeis bem, porque o sou." (João 13:13)

"Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor." (Mateus 24:42)
Jesus Cristo é referido como um "profeta" nos versículos da Bíblia. Os Cristãos aceitam amplamente este versículo como uma promessa da vinda de Jesus Cristo no Pentateuco:
Christ II, por Robert Silvers
"Suscitar-lhes-ei um profeta como tu, dentre os seus irmãos; porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que Eu lhe ordenar." (Deuteronómio 18:18)

"Mas Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua pátria e em sua casa.»." (Mateus 13:57)

"Mas hoje, amanhã e depois devo seguir o meu caminho, porque não se admite que um profeta morra fora de Jerusalém." (Lucas 13:33)

"E a multidão respondia: «É Jesus, o profeta de Nazaré, da Galileia." (Mateus 21:11)
Será que isto significa que Jesus é "apenas" um profeta? Continuemos a leitura. Jesus refere-Se a Si próprio como Filho do Homem:
Jesus ouviu dizer que o tinham expulsado e, quando o encontrou, disse-lhe: «Tu crês no Filho do Homem?» Ele respondeu: «E quem é, Senhor, para eu crer nele?" (João 9:35-36)
Os seguintes versículos da Bíblia referem-se a Jesus Cristo como um "Mensageiro", o "Mensageiro da Aliança":
Eis que Eu vou enviar o meu mensageiro, a fim de que ele prepare o caminho à minha frente. E imediatamente entrará no seu santuário o Senhor, que vós procurais, e o mensageiro da aliança, que vós desejais. Ei-lo que chega! -, diz o Senhor do universo. (Malaquias 3:1.)
Na Epístola aos Hebreus, S. Paulo refere-se a Jesus como um "apóstolo" e como o "Sumo-sacerdote":
"Por conseguinte, irmãos santos, participantes de uma vocação celeste, considerai Jesus como o Apóstolo e o Sumo-sacerdote da fé que professamos..." (Hebreus 3:1)
A própria Bíblia expressa a servidão e a humildade de Jesus. Em Isaías, Deus refere Jesus como "Meu servo", e Jesus confirmou que o versículo se refere a Ele:
"Eis o meu servo, que Eu amparo, o meu eleito, que Eu preferi" (Isaías 42:1; Mateus 12:17-18 confirma que este versículo refere-se a Jesus.)
A Bíblia também refere Jesus como "Salvador":
"E o anjo disse-lhes:" ... Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. " (Lucas 2:10-11)
Então, quem é Jesus? De acordo com a Bíblia, Ele é o Filho do Homem, o Filho de Deus, Senhor, Profeta, Mensageiro, Mestre, Servo, Salvador, Apóstolo e Sumo-sacerdote. Assim, os versículos bíblicos acima citados demonstram a explicação de Bahá'u'lláh de que em diferentes circunstâncias os Manifestantes de Deus se identificam por diferentes nomes e condições - até mesmo a condição da Divindade:
Fosse algum dos reconhecidos Manifestantes de Deus declarar "Eu sou Deus!", Ele, na verdade, diria a verdade, e dúvida alguma haveria sobre isso. Pois tem sido repetidamente demonstrado que através da sua Revelação, dos seus atributos e nomes, a Revelação de Deus, o Seu nome e os seus atributos, se manifestam no mundo... (O Livro da Certeza, parágrafo 196)

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Texto original em inglês: Who is Jesus Christ to Baha’is? (bahaiteachings.org)

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Brent Poirier nasceu numa família católica e frequentou o seminário, antes de se formar na Loyola Marymount University. Advogado de profissão, tem trabalhado em escolas de verão bahá'ís em várias funções, inclusive como bibliotecário.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

domingo, 15 de junho de 2014

Porque Sofremos? (4ª parte)

Quarta parte de uma apresentação dedicada ao tema "Porque Sofremos?"

Conteúdo:
- Como justificar o sofrimento extremo?
- Como justificar o mal extremo?


terça-feira, 10 de junho de 2014

Meninas, Livros e Terror

Um texto de David Langness.


O que assusta  os fundamentalistas fanáticos e terroristas mais do que qualquer outra coisa? Uma menina com um livro.

Sei que soa como uma piada de mau gosto, mas é uma triste verdade.

Na semana passada, a República Islâmica do Irão permitiu que os seus Guardas Revolucionários profanassem e destruíssem o cemitério Bahá'í em Shiraz, onde está sepultada Mona Mahmudnizhad.

Mona Mahmudnizhad
Talvez se lembrem de Mona, se já eram nascidos em 1983 e estivessem atentos. Era uma adolescente entusiasta e brilhante com óptimo aproveitamento escolar, que se ofereceu para dar aulas para crianças e ajudava num orfanato. Tinha dezassete anos quando foi enforcada.

O mundo reagiu com indignação. As condenações vieram de todos os lados. Todas as nações civilizadas se manifestaram contra as sentenças de morte. Vários artistas escreveram livros e músicas em honra de Mona.

Enviado para o cadafalso com outras nove mulheres Bahá’ís, todos foram mortas por enforcamento, em vez de negar a sua fé. Elas não violaram qualquer lei, mas o governo iraniano fez a temível acusação de apostasia - o terrível crime de pertencer a uma religião progressista, que promove a paz no mundo, a unidade racial, a igualdade entre homens e mulheres e a unidade essencial de todas as religiões.

Três dessas corajosas almas eram mulheres casadas - Nusrat Yalda'i, Mrs. Tahirih Siyavushi, e 'Izzat Janami Ishraqi. As outras sete eram adolescentes e jovens solteiras com cerca de 20 anos: Roya Ishraqi, Zarrin Muqimi, Shirin Dalvand, Akhtar Sabit, Simin Saberi, Mahshid Nirumand, e Mona Mahmudnizhad.

Tentem imaginar o momento na sala do tribunal em que o juiz diz: "Se negares a tua fé, deixamos-te sair. Se não o fizeres, serás enforcada."

Todas as dez mulheres se recusaram a pronunciar as palavras que salvariam as suas vidas.

Para a maioria de nós, esse nível de coragem excede os limites da imaginação. Penso muitas vezes nessas dez mulheres, e fico maravilhado com a coragem e firmeza da sua recusa colectiva a curvarem-se perante a coerção final. Eles deram a vida pelas suas convicções, enfrentaram os homens que as desonraram, e disseram "não" a um estado fundamentalista; elas não se submeteram à sua intolerância e ao ódio. Elas desafiaram mecanismo de extermínio fanático do Irão, e triunfaram.

Como? Na morte, estas dez mulheres nunca serão esquecidas. Pensem nisso só por um instante. Os seus torturadores, os seus perseguidores, o juiz que deliberou as suas ímpias sentenças, os políticos brutais e os chamados clérigos que se abstiveram de intervir, o carrasco que colocou a corda nos seus pescoços – quem se lembrará deles? Quando eles forem para as suas sepulturas, como iremos todos nós, as suas vidas estarão para sempre manchadas pela sua injustiça e crueldade; o mundo vai esquecê-los de forma completa e absoluta. O pó dos seus ossos irá misturar-se com a terra sob os seus caixões, enquanto nós continuaremos a homenagear o carácter e a coragem das suas vítimas.

Recentemente, quando os terroristas do Boko Haram na Nigéria sequestraram cerca de 300 alunas, pensei novamente em Mona e nas mulheres Bahá’í que morreram com ela. E perguntei-me: o que há de tão ameaçador sobre as meninas educadas?

Parece que uma menina com um livro assusta algumas pessoas mais do que qualquer coisa.

Malala Yousefzai, a menina paquistanesa com quinze anos de idade que os Talibans balearam na cabeça por defender a educação universal, deu ao mundo um excelente exemplo dessa cobardia inimiga das meninas. Mona e as suas compatriotas mostraram que o governo iraniano, que espanca publicamente as mulheres por não se "cobrirem", tem o mesmo receio de mulheres modernas, capacitadas e educadas. Os terroristas do Boko Haram, ao sequestrarem centenas de estudantes cristãs e ao forçá-las a converterem ao seu tipo de Islão fundamentalista - um acto bárbaro que todos os muçulmanos civilizados abominam e rejeitam – partilham obviamente desse mesmo terror sobre meninas com livros. Aparentemente, os Talibans, o Boko Haram e os mullás fundamentalistas iranianos sabem que as jovens educadas representam o fim do seu poder e dos seus privilégios.

Mas não se pense que este medo é um problema que se confina ao fundamentalismo islâmico. Em todo o mundo, literalistas de diferentes espécies ocupam-se activamente a negar uma educação escolar às meninas. Muitas sociedades "tradicionais" entre hindus, budistas e judeus e cristãos e até mesmo algumas culturas não-religiosas fazem exactamente a mesma coisa, reprimindo, contendo e controlando firmemente a população feminina, negando às jovens qualquer tipo de educação e impedindo-as de desenvolver o seu potencial.

Do ponto de vista Bahá’í, nada poderia ser mais repreensível e retrógrado:
De acordo com o espírito desta época, as mulheres devem progredir e cumprir a sua missão em todos os sectores da vida, tornando-se iguais aos homens. Elas devem estar ao mesmo nível que os homens e gozar os mesmos direitos. Esta é a minha oração fervorosa e é um dos princípios fundamentais de Bahá'u'lláh. (‘Abdu’l-Bahá, Baha’u’llah and the New Era, p. 147).
Na verdade, os Bahá'ís acreditam que o mundo não pode alcançar a paz sem conceder a todas as mulheres a plena igualdade:
A emancipação da mulher - a concretização da plena igualdade entre os sexos - é um dos pré-requisitos mais importantes, embora dos menos reconhecidos, para o estabelecimento da paz. A negação dessa igualdade perpetra uma injustiça contra metade da população do mundo, e promove entre os homens atitudes e hábitos nocivos que são transportados do ambiente familiar para o local de trabalho, para a vida política, e, em última análise, para a esfera das relações internacionais. Não existem quaisquer fundamentos morais, práticos ou biológicos que justifiquem essa privação. Só quando as mulheres forem bem recebidas em todos os campos de actividade humana, em condições de igualdade, é que se criará o clima moral e psicológico do qual poderá emergir a paz internacional. (A Casa Universal de Justiça, A Promessa da Paz Mundial)
Se você está interessado em alcançar a igualdade, promover a paz e terminar com a opressão em todo o mundo, eduque uma menina.

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Texto original: Girls, Books and Terror (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.