Reza Aslan é entrevistado por Rainn Wilson, numa Igreja Presbiteriana, e falam sobre o livro “O Zelota”. O autor reitera o seu respeito e admiração por Jesus. Depois refere-se o outro livro sobre Maomé e menciona-se a Fé Bahá’í.
Reza Aslan é um dos mais prestigiados académicos irano-americano. No ano passado apoiou apelos à liberdade de educação dos Bahá’ís no Irão
Note-se a forma respeitosa como Wilson fala com Aslan (em contraste com os apresentadores da CNN e da FOX).
Esta entrevista teve lugar em 25/Julho/2013.
Reza Aslan in conversation with Rainn Wilson from Ted Habte-Gabr on Vimeo.
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
Acabar com a Selvajaria e a Vingança
Por David Langness.
De facto, muitos dos antigos códigos de conduta invocam a antiga regra de retaliação, a lei de talião (olho por olho).
Mas retribuição apenas perpetua a selvajaria.
Vivi durante algum tempo nos Balcãs, onde muitos povos rurais ainda praticam o Kanun, conhecido como o código das montanhas. Este antigo código de conduta, que provavelmente tem origens na Idade do Bronze, é muito parecido com o conceito italiano de vendetta - exige uma retribuição igual por um assassinato. Se alguém assassina um membro de uma família, então o autor do crime, ou alguém da sua família, deve ser assassinado. É claro que estes actos de vingança (chamados Gjakmarrja) nunca acabam, e as famílias vão-se matando umas às outras, literalmente, durante séculos; a vingança só é considerada concluída quando todos os homens de uma família estiverem mortos. O governo albanês estima que mais de 3000 famílias rurais que vivem nas montanhas, estão hoje envolvidas em vinganças do tipo Kanun, e que estas provocaram mais de 10.000 mortos nas últimas duas décadas.
Quando fui militar no Vietname aprendi que este tipo de vingança aumenta sempre e nunca termina. Vi isso acontecer durante quase todos os dias da guerra. E funciona assim: você vê um amigo ser ferido ou morto. Você experimenta a sua agonia ou a sua morte, e isso deixa-o furioso. Você quer vingança, e assim você mata o primeiro "inimigo" que vê. Muitas vezes, essa pessoa não é nem sequer é um soldado do outro lado, mas apenas um pobre civil. Alguém do outro lado vê essa a morte, e quer vingança. E as mortes vão-se somando.
São exactamente estes mesmos padrões que ocorrem na violência de gangues, no terrorismo selvagem que mata o inocente, e na guerra.
O professor e psicólogo Ian Robertson, que estudou a selvajaria humana, afirma que alguma da selvajaria e brutalidades recentes praticada pelos combatentes do “Estado Islâmico”, no norte da Síria e no Iraque pode ser atribuída a esse tipo de vingança retributiva:
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Texto original: Stopping Savagery and Revenge (bahaiteachings.org)
David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
Olho por olho e o mundo acabará cego - Mahatma GandhiAlgumas das culturas ainda valorizam a vingança e a retaliação. O desejo de retaliar - para retribui os mesmos danos a quem nos magoou - atravessa toda a história da sociedade humana. Em alguns lugares, ainda é ensinada às crianças: se ele te bate, bate-lhe também!
… a vingança, segundo a razão, também é condenável, pois não traz proveito algum ao vingador. Se um homem atacar outro, e este se vingar, retribuindo o golpe, qual será a vantagem conseguida? Será isso um bálsamo para sua ferida, ou um remédio para a sua dor? Não, Deus nos proteja! Na verdade, os dois actos são iguais; ambos são ofensas. A única diferença é que um ocorreu primeiro e o outro ocorreu depois. Se, pelo contrário, aquele que foi atacado perdoar, e agir de forma contrária àquilo que lhe foi feito, isso será louvável... Quando aquele que foi atacado perdoa, ele mostra a maior misericórdia. Isto é digno de admiração (‘Abdu'l-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas, cap 76)
De facto, muitos dos antigos códigos de conduta invocam a antiga regra de retaliação, a lei de talião (olho por olho).
Mas retribuição apenas perpetua a selvajaria.
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| Marsel (6 anos) é orfão devido uma vingança do tipo Kanun |
Quando fui militar no Vietname aprendi que este tipo de vingança aumenta sempre e nunca termina. Vi isso acontecer durante quase todos os dias da guerra. E funciona assim: você vê um amigo ser ferido ou morto. Você experimenta a sua agonia ou a sua morte, e isso deixa-o furioso. Você quer vingança, e assim você mata o primeiro "inimigo" que vê. Muitas vezes, essa pessoa não é nem sequer é um soldado do outro lado, mas apenas um pobre civil. Alguém do outro lado vê essa a morte, e quer vingança. E as mortes vão-se somando.
São exactamente estes mesmos padrões que ocorrem na violência de gangues, no terrorismo selvagem que mata o inocente, e na guerra.
O professor e psicólogo Ian Robertson, que estudou a selvajaria humana, afirma que alguma da selvajaria e brutalidades recentes praticada pelos combatentes do “Estado Islâmico”, no norte da Síria e no Iraque pode ser atribuída a esse tipo de vingança retributiva:
A vingança, que é um valor forte na cultura árabe, pode desempenhar um papel na perpetuação da selvajaria. Claro que a vingança devido a uma selvajaria gera mais selvajaria num ciclo interminável. Mas se a vingança é um motivador poderoso, ela também é enganadora, porque as evidências mostram que a vingança contra alguém, longe de aplacar a angústia e raiva, na verdade perpetua-a e amplia-a.Do ponto de vista bahá'í, acabar com vinganças define a própria razão pela qual a humanidade educa os seus filhos e desenvolve sociedades civis. As leis de todas as civilizações avançadas impedem hoje a vingança, limitam a aplicação da justiça ao sistema jurídico e proíbem a violência contra outros. Mas sem inculcar os valores de misericórdia, amor e bondade, a sociedade humana, volta a cair, inevitavelmente, na velha lei da selva ou no código das montanhas:
Se queremos iluminar este plano escuro da existência humana, devemos retirar o homem do cativeiro desesperante da natureza, educá-lo e mostrar-lhe o caminho da luz e do conhecimento, até que, elevado acima da sua condição de ignorância, ele torna-se sábio e conhecedor; não mais selvagem e vingativo, ele torna-se civilizado e bondoso; outrora malvado e sinistro, ele é dota-se de atributos celestiais. Mas abandonado na sua condição natural, sem educação ou formação, é certo que ele se tornará mais depravado e cruel do que o animal... ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 309)
Se não houvesse um educador, todas as almas permaneceriam selvagens; e se não fosse o professor, as crianças seriam criaturas ignorantes. ('Abdu'l-Bahá, Selecção dos Escritos de 'Abdu'l-Bahá, nº 98)Então, como é que vamos parar tamanha selvajaria? Os ensinamentos Bahá’ís vêem a solução para a violência e brutalidade humanas na aplicação da mensagem de Bahá'u'lláh para a humanidade:
Os santos Manifestantes de Deus vêm ao mundo para dissipar as trevas da natureza animal, ou física, do homem e purificá-lo das suas imperfeições, para despertar a sua natureza celestial e espiritual, despertar as suas qualidades divinas, para tornar visíveis as suas perfeições, para revelar as suas potencialidades e para trazer à existência todas as virtudes do mundo humano nele latentes. Estes santos Manifestantes de Deus são os Educadores e Instrutores do mundo da existência e Professores do mundo humano. Eles libertam o homem das trevas do mundo da natureza, salvam-no do desespero, do erro, da ignorância, das imperfeições e de todas as qualidades malignas. Eles vestem-no com o traje das perfeições e virtudes elevadas. (Abdu’l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, pp. 465-466.)
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Texto original: Stopping Savagery and Revenge (bahaiteachings.org)
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
A vida com um propósito: a dança da vida
Um vídeo produzido pela Comunidade Baha'i dos Estados Unidos.
sábado, 27 de setembro de 2014
Demonizar os "Outros": os tormentos do inferno
Por David Langness.
Hoje sabemos que todas essas identidades de grupo tinham originalmente um propósito, nomeadamente, a protecção e a auto-defesa; mas além disso tinham tendência a provocar uma divisão entre as pessoas. Quem pertence a um "grupo" cria também os “fora do grupo”, os inimigos, ou aquilo a que os psicólogos chamam os "outros".
O professor Ian Robertson do Trinity College descobriu na sua investigação que à medida que este mecanismo de divisão se desenvolve algumas pessoas começam a ver o “outro” como menos humano:
Esta desumanização é mais flagrante na guerra. Quando estamos em guerra, os outros - os "inimigos" - tornam-se sub-humanos, monstros do mal, e são retratados como criaturas terríveis e desprezíveis que não merecem viver. Todos os militares conhecem este mecanismo para demonizar o inimigo. Durante a guerra do Vietname, por exemplo, os soldados norte-americanos chamavam “gooks” (chinos) aos soldados vietnamitas, uma alcunha depreciativa que pretendia diminuir a sua humanidade e torná-los - na consciência - mais fáceis de matar.
Os Bahá'ís não acreditam em qualquer forma de separação dos seres humanos uns dos outros. Em vez disso, os ensinamentos Bahá’ís enfatizam a unidade da humanidade - que não tem fronteiras raciais, étnicas, religiosas ou nacionais. Os ensinamentos Bahá’ís declaram que as antigas divisões de religião já não se aplicam mais, que não se pode simplesmente afirmar pertencer a uma religião e fugir aos seus ensinamentos morais, e que um sistema de crenças é definido pelas acções dos indivíduos:
Como alternativa, as escrituras Bahá’ís exortam-nos a banir completamente o próprio conceito de inimigo dos nossos corações:
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Texto original: Demonizing the “Other”—The Torments of Hell
David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
Pensai no amor e no bom companheirismo como as delícias do céu; pensai na hostilidade e no ódio como os tormentos do inferno. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 244.)Há milénios que as pessoas se organizam em unidades exclusivas, chamadas tribos, raças, etnias ou nacionalidades. Parece natural que as pessoas façam isso; basta pensar nos grupos que muitas vezes se formam nas escolas, para perceber o que quero dizer.
Hoje sabemos que todas essas identidades de grupo tinham originalmente um propósito, nomeadamente, a protecção e a auto-defesa; mas além disso tinham tendência a provocar uma divisão entre as pessoas. Quem pertence a um "grupo" cria também os “fora do grupo”, os inimigos, ou aquilo a que os psicólogos chamam os "outros".
O professor Ian Robertson do Trinity College descobriu na sua investigação que à medida que este mecanismo de divisão se desenvolve algumas pessoas começam a ver o “outro” como menos humano:
Quando as pessoas se unem, os níveis de oxitocina aumentam no seu sangue, mas a consequência disso é uma maior tendência para demonizar e desumanizar quem está fora do grupo. Esse é o paradoxo da entrega altruísta ao grupo: torna-se mais fácil anestesiar a empatia para com os fora do grupo e vê-los como objetos. E fazer coisas terríveis a objetos é aceitável, porque eles não são humanos.
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| O holocausto foi um exemplos flagrante de desumanização |
Os Bahá'ís não acreditam em qualquer forma de separação dos seres humanos uns dos outros. Em vez disso, os ensinamentos Bahá’ís enfatizam a unidade da humanidade - que não tem fronteiras raciais, étnicas, religiosas ou nacionais. Os ensinamentos Bahá’ís declaram que as antigas divisões de religião já não se aplicam mais, que não se pode simplesmente afirmar pertencer a uma religião e fugir aos seus ensinamentos morais, e que um sistema de crenças é definido pelas acções dos indivíduos:
Nos tempos antigos, os homens ou se tornavam crentes, ou se tornavam inimigos da causa de Deus... A fé consistia na aceitação cega destas verdades; aqueles que aceitavam eram considerados salvos, os outros eram sentenciados à condenação eterna. Mas, neste dia, a questão é muito mais importante. A fé não consiste na crença; consiste em acções. (‘Abdu’l-Bahá, Divine Philosophy, p. 38)A psicologia de grupo que nos permite demonizar outros pode transformar o mundo inteiro num campo de guerra, onde o antagonismo se torna normativo e começamos a pensar nas pessoas, não como seres humanos, mas como inimigos. Quando isso acontece, segue-se o conflito.
Como alternativa, as escrituras Bahá’ís exortam-nos a banir completamente o próprio conceito de inimigo dos nossos corações:
Bahá'u'lláh afirmou claramente nas Suas Epístolas que se você tem um inimigo, não deve considerá-lo como um inimigo. Não seja apenas paciente; não, pelo contrário, ame-o… Nem diga que ele é seu inimigo. Não veja quaisquer inimigos. Apesar de ele ser o seu assassino, não o veja como inimigo. Veja-o com os olhos da amizade. Tenha em mente que se o deixar de considerar como um inimigo e apenas o tolerar, isso é simplesmente um estratagema e hipocrisia. Considerar um homem como inimigo e amá-lo é hipocrisia. Isto não é digno de nenhuma alma. Você deve encará-lo como amigo. Você deve tratá-lo bem. Isso está certo. ('Abdu'l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, p. 267)
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Texto original: Demonizing the “Other”—The Torments of Hell
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
sábado, 20 de setembro de 2014
A Multidão e a Perda de Consciência Humana
Por David Langness.
No texto anterior desta pequena série, iniciámos uma exploração psicológica e espiritual de um dos mais sombrios e terríveis aspectos do comportamento humano: a selvajaria. Como exemplo mais recente de guerras brutais em vários lugares do mundo, a crise do “Estado Islâmico” no norte da Síria e no Iraque chamou a atenção do mundo com selváticos assassinatos em massa, decapitações e genocídio sectário.
Quando estes crimes terríveis contra a humanidade ocorrem, fazem-nos muitas vezes querer culpar um determinado grupo étnico, seita religiosa ou nacionalidade. Mas os instintos selvagens nos seres humanos são muito mais profundos do que essas filiações; segundo com os ensinamentos Bahá’ís encontram-se, potencialmente, em todos nós:
Testemunhei pessoalmente a forma como esta mentalidade de multidão e a selvajaria se pode desencadear - entre soldados e guerrilheiros de ambos os lados durante a guerra do Vietname; em motins urbanos em Los Angeles e Manila; no comportamento bárbaro dos esquadrões da morte patrocinados pelo governo durante a guerra civil em El Salvador; e nos terríveis crimes de guerra cometidos pelos sérvios e depois pelas forças albanesas durante, e após, a limpeza étnica no Kosovo. Depois de ver essas coisas acontecerem, percebi que quase toda a gente - se a crueldade, a miséria e depravação desumana os estimularem suficientemente - pode cair no pântano espiritual de mentalidade de multidão e perder a sua consciência humana.
E quem pensa: "A mim, não. Eu sou uma boa pessoa! Eu nunca faria essas coisas!", então não está sozinho. Quase todas as pessoas cujo comportamento caiu na selvajaria, provavelmente também sentiu uma vez o mesmo sobre si próprio, até que as circunstâncias das suas vidas lhes fizeram sentir que não tinham escolha.
A única coisa que eu sei que pode impedir tal queda face a uma dificuldade extrema é uma fé clara e inabalável.
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Texto original: Mob Mentality and the Loss of Human Conscience (bahaiteachings.org)
David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
No texto anterior desta pequena série, iniciámos uma exploração psicológica e espiritual de um dos mais sombrios e terríveis aspectos do comportamento humano: a selvajaria. Como exemplo mais recente de guerras brutais em vários lugares do mundo, a crise do “Estado Islâmico” no norte da Síria e no Iraque chamou a atenção do mundo com selváticos assassinatos em massa, decapitações e genocídio sectário.
Quando estes crimes terríveis contra a humanidade ocorrem, fazem-nos muitas vezes querer culpar um determinado grupo étnico, seita religiosa ou nacionalidade. Mas os instintos selvagens nos seres humanos são muito mais profundos do que essas filiações; segundo com os ensinamentos Bahá’ís encontram-se, potencialmente, em todos nós:
... mas quando o homem não abre o seu coração e a sua razão para a bênção do espírito, mas volta a sua alma para o lado material, para a parte física da sua natureza, então ele cai da sua posição elevada e ele torna-se pior que os habitantes do reino animal. Neste caso, o homem encontra-se numa situação miserável! Porque, se as qualidades espirituais da alma, aberta ao sopro do Espírito Divino, nunca são usadas, atrofiam-se, enfraquecem, e, por fim, tornam-se inúteis; quando as qualidades materiais da alma se exercitam isoladamente tornam-se terrivelmente poderosas - e homem, infeliz e perdido, torna-se mais selvagem, mais injusto, mais vil, mais cruel, mais maléfico do que os próprios animais inferiores. Todas as suas aspirações e desejos são fortalecidos pela sua natureza inferior, ele torna-se cada vez mais brutal, até que todo o seu ser deixa de ser superior à dos animais que perecem. Homens assim, pretendem fazer o mal, magoar e destruir; eles estão totalmente desprovidos do espírito da compaixão divina, pois a natureza celestial da alma foi dominada pela material. Se, pelo contrário, a natureza espiritual da alma tiver sido tão fortalecida ao ponto de dominar o lado material, então o homem aproxima-se do Divino; a sua humanidade torna-se tão gloriosa que as virtudes da Assembleia Celestial se manifestam nele; ele irradia a Misericórdia de Deus, estimula o progresso espiritual da humanidade, pois tornou-se uma lâmpada que ilumina o seu caminho com luz. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp 97-98.)As qualidades materiais da alma, como salienta ‘Abdu'l-Bahá, podem levar a um existência brutal e selvagem. Os psicólogos sabem que quando essas qualidades são socializadas num grupo ou até mesmo uma multidão sem lei, estas tendem a reforçar cada membro e a contribuir para uma identidade de grupo agressiva, violenta e cruel. O professor Ian Robertson do Trinity College, em Dublin, que estudou essas tendências dos seres humanos para a brutalidade, diz que a imersão numa identidade de grupo pode produzir uma enorme selvajaria:
Quando o Estado entra em colapso, e com ele a lei e a ordem e da sociedade civil, há apenas um recurso para a sobrevivência: o grupo. Seja definido pela religião, raça, política, tribo ou clã - ou mesmo pelo domínio brutal de um líder - a sobrevivência depende da segurança mútua oferecida pelo grupo.
A guerra une as pessoas nos seus grupos e esta ligação alivia um pouco o medo terrível e sofrimento que o indivíduo sente quando o Estado colapsa. Também oferece auto-estima às pessoas que se sentem humilhadas pela sua perda de lugar e estatuto numa sociedade relativamente ordenada. À medida que isto acontece, as identidades individuais e de grupo fundem-se parcialmente e as acções da pessoa tornam-se tanto uma manifestação do grupo, como da vontade individual. Quando isso acontece, as pessoas podem fazer coisas terríveis que nunca teria imaginado fazer noutras circunstâncias: a consciência individual tem pouco espaço num grupo aguerrido e hostilizado, porque as identidades individuais e de grupo tornam-se uma, enquanto existir a ameaça externa. São os grupos que são capazes de selvajaria, muito mais do que qualquer indivíduo isolado.Esta perda de vontade individual - e da consciência humana individual - pode ocorrer de forma rápida e completa num contexto de grupo. Quando nos entregamos a nossa própria humanidade a um qualquer grupo - uma milícia violenta, uma multidão, um exército, um gangue, uma seita - arriscamo-nos a perder a nossa própria humanidade.
Podemos ver isso nos rostos dos jovens militantes do Estado Islâmico, quando desfilam nos seus veículos, agitando bandeiras negras, com grandes sorrisos, erguendo punhos cerrados, recém-chegados de uma matança de infiéis que não se converteram ao Islão. O que podemos ver é uma elevada concentração bioquímica combinando a hormona oxitocina de pertença e a hormona testosterona de dominância. Muito mais do que a cocaína ou o álcool, estas drogas naturais levantam o humor, induzem o optimismo e estimulam uma acção agressiva por parte do grupo. E porque a identidade individual se encontra fortemente imersa na identidade do grupo, o indivíduo estará muito mais disposto a sacrificar-se numa batalha - ou num atentado suicida. Porquê? Porque se eu estiver imerso grupo, eu vivo no grupo mesmo que o "eu individual" morra.
Testemunhei pessoalmente a forma como esta mentalidade de multidão e a selvajaria se pode desencadear - entre soldados e guerrilheiros de ambos os lados durante a guerra do Vietname; em motins urbanos em Los Angeles e Manila; no comportamento bárbaro dos esquadrões da morte patrocinados pelo governo durante a guerra civil em El Salvador; e nos terríveis crimes de guerra cometidos pelos sérvios e depois pelas forças albanesas durante, e após, a limpeza étnica no Kosovo. Depois de ver essas coisas acontecerem, percebi que quase toda a gente - se a crueldade, a miséria e depravação desumana os estimularem suficientemente - pode cair no pântano espiritual de mentalidade de multidão e perder a sua consciência humana.
E quem pensa: "A mim, não. Eu sou uma boa pessoa! Eu nunca faria essas coisas!", então não está sozinho. Quase todas as pessoas cujo comportamento caiu na selvajaria, provavelmente também sentiu uma vez o mesmo sobre si próprio, até que as circunstâncias das suas vidas lhes fizeram sentir que não tinham escolha.
A única coisa que eu sei que pode impedir tal queda face a uma dificuldade extrema é uma fé clara e inabalável.
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Texto original: Mob Mentality and the Loss of Human Conscience (bahaiteachings.org)
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
sábado, 13 de setembro de 2014
O "Estado Islâmico" e a Selvajaria Humana
Por David Langness.
No Ocidente, muitas pessoas que se aperceberam deste tipo de selvajaria culpam o fundamentalismo islâmico, e atribuem-no "àqueles muçulmanos loucos". A comunicação social ocidental raramente dá cobertura aos milhões de muçulmanos pacíficos e devotos, preferindo focar-se numa pequena minoria de militantes armados e terroristas genocidas, que são motivo de notícias mais sensacionais. Revoltada com a crueldade bárbara e abominável dessas acções, e desconhecendo os ensinamentos islâmicos sobre paz e justiça, classificam - errada e injustamente - todos os muçulmanos como um grupo fundamentalista violento.
Se o leitor pensa assim, eu posso entender a forma como desenvolveu essa ideia. Mas eu gostaria de argumentar contra esse tipo de reacção, e tentar explicar porque é que isso desvaloriza e destrói a humanidade de milhões de pessoas muito boas, amáveis e pacíficas.
Primeiro, e mais importante, quero dizer que a selvajaria humana e barbárie não são pertença exclusiva de uma etnia, uma nacionalidade ou de um grupo "religioso".
E infelizmente, não faltam provas que demonstrem esse facto.
O genocídio Hutu contra os Tutsi no Ruanda, em 1994; o genocídio nazi nas décadas de 1930 e 1940; o genocídio dos Khmer Vermelhos contra a elite intelectual do Cambodja na década de 1970; o genocídio americano e canadiano contra os índios; o genocídio sérvio contra Kosovo na década de 1990; todos estes exemplos provam que selvajaria humana não pode ser confinada a um grupo. Existem centenas de outros exemplos deste tipo. Massacres brutais, selvagens e desumanos, se eles ocorrem numa hora ou num dia ou ao longo de um século, não são exclusivo dos muçulmanos, dos cristãos, dos judeus ou dos budistas; atravessam todas as barreiras e, ao longo da história da humanidade, quase todos os grupos já foram perpetradores ou vítimas.
Se não podemos identificar as origens desses surtos terríveis de selvajaria numa qualquer etnia, religião, nacionalidade, grupo racial ou ideologia política em particular, então de onde vem ela? E se potencialmente vem de dentro de qualquer pessoa, o que isso diz sobre nós? E se todos nós temos o potencial para a selvajaria, o que podemos fazer sobre isso?
Ian Robertson, professor de psicologia no Trinity College, em Dublin, na Irlanda, e ex-diretor e fundador do Instituto de Neurociências do Trinity College, estudou as origens da selvajaria humana, e, na sua pesquisa, descobriu que esta não pode ser atribuída a qualquer um religião ou ideologia. Na verdade, o professor Robertson diz que, como seres humanos, todos estamos potencialmente propensos a comportamentos selvagens e desumanos. A investigação de Robertson indica que as principais causas da selvajaria incluem os seguintes factores:
Neste pequeno conjunto de ensaios, vamos examinar essas cinco causas da selvajaria, explorar como se podem desenvolver e criar metástases, e, posteriormente, analisá-las através de uma perspectiva espiritual e humanitária dos ensinamentos Bahá’ís, que explicam como entender a selvajaria e o que podemos fazer para pará-la.
O professor Robinson diz:
Estes dados estatísticos contêm dor e esperança. Dizem-nos que a interrupção do ciclo de selvajaria e abuso pode ser uma difícil tarefa multi-geracional; mas também nos diz que os seres humanos podem conscientemente parar o ciclo, e que muitos conseguem fazê-lo.
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Texto original: The ISIS Crisis and Human Savagery (bahaiteachings.org)
David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
Deus dotou-nos com intelecto, não com o propósito de nos fazer instrumentos de destruição, mas para que pudéssemos tornar-nos difusores de luz, criar o amor entre os corações, estabelecer a comunhão entre os espíritos e reunir o povo do oriente e do ocidente. ('Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 182)
Não há nada tão desolador e terrível como uma explosão de selvajaria humana! ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 28)Horrorizado, o mundo viu militantes do recém-formado "Estado Islâmico" no Iraque e na Síria a chacinar milhares de pessoas, e a filmar alguns desses assassinatos em massa e decapitações.
No Ocidente, muitas pessoas que se aperceberam deste tipo de selvajaria culpam o fundamentalismo islâmico, e atribuem-no "àqueles muçulmanos loucos". A comunicação social ocidental raramente dá cobertura aos milhões de muçulmanos pacíficos e devotos, preferindo focar-se numa pequena minoria de militantes armados e terroristas genocidas, que são motivo de notícias mais sensacionais. Revoltada com a crueldade bárbara e abominável dessas acções, e desconhecendo os ensinamentos islâmicos sobre paz e justiça, classificam - errada e injustamente - todos os muçulmanos como um grupo fundamentalista violento.
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| Militantes do "Estado Islâmico" na Síria |
Primeiro, e mais importante, quero dizer que a selvajaria humana e barbárie não são pertença exclusiva de uma etnia, uma nacionalidade ou de um grupo "religioso".
E infelizmente, não faltam provas que demonstrem esse facto.
O genocídio Hutu contra os Tutsi no Ruanda, em 1994; o genocídio nazi nas décadas de 1930 e 1940; o genocídio dos Khmer Vermelhos contra a elite intelectual do Cambodja na década de 1970; o genocídio americano e canadiano contra os índios; o genocídio sérvio contra Kosovo na década de 1990; todos estes exemplos provam que selvajaria humana não pode ser confinada a um grupo. Existem centenas de outros exemplos deste tipo. Massacres brutais, selvagens e desumanos, se eles ocorrem numa hora ou num dia ou ao longo de um século, não são exclusivo dos muçulmanos, dos cristãos, dos judeus ou dos budistas; atravessam todas as barreiras e, ao longo da história da humanidade, quase todos os grupos já foram perpetradores ou vítimas.
Se não podemos identificar as origens desses surtos terríveis de selvajaria numa qualquer etnia, religião, nacionalidade, grupo racial ou ideologia política em particular, então de onde vem ela? E se potencialmente vem de dentro de qualquer pessoa, o que isso diz sobre nós? E se todos nós temos o potencial para a selvajaria, o que podemos fazer sobre isso?
Ian Robertson, professor de psicologia no Trinity College, em Dublin, na Irlanda, e ex-diretor e fundador do Instituto de Neurociências do Trinity College, estudou as origens da selvajaria humana, e, na sua pesquisa, descobriu que esta não pode ser atribuída a qualquer um religião ou ideologia. Na verdade, o professor Robertson diz que, como seres humanos, todos estamos potencialmente propensos a comportamentos selvagens e desumanos. A investigação de Robertson indica que as principais causas da selvajaria incluem os seguintes factores:
- Selvajaria gera selvajaria
- Submersão no grupo
- Os extra-grupo como objectos
- A Vingança
- Líderes
Neste pequeno conjunto de ensaios, vamos examinar essas cinco causas da selvajaria, explorar como se podem desenvolver e criar metástases, e, posteriormente, analisá-las através de uma perspectiva espiritual e humanitária dos ensinamentos Bahá’ís, que explicam como entender a selvajaria e o que podemos fazer para pará-la.
O professor Robinson diz:
A primeira parte de uma resposta pode ser terrivelmente simples: a selvajaria gera selvajaria. Brutalidade, agressividade e falta de empatia são respostas comuns de pessoas que foram mal tratadas. Nos campos de concentração nazis, por exemplo, muitos dos guardas mais cruéis eram eles próprios prisioneiros - os conhecidos "kapos". Crianças abusadas sexualmente - especialmente os homens - são mais propensos a tornarem-se abusadores sexuais quando se tornam adultos, embora isso não aconteça com a maioria. As vítimas, por outras palavras, muitas vezes respondem ao trauma tornando-se elas próprias vitimizadoras.Os abusados, por outras palavras, tornam-se muitas vezes os abusadores. Na vida, quando se sofre abusos terríveis ou violência ou guerra ou condições desumanas na vida, é-se mais propenso a perder a sensibilidade a essas coisas e reconhecê-la nos outros. A investigação mostra que entre trinta a quarenta por cento das crianças abusadas tornam-se abusadores na idade adulta.
Estes dados estatísticos contêm dor e esperança. Dizem-nos que a interrupção do ciclo de selvajaria e abuso pode ser uma difícil tarefa multi-geracional; mas também nos diz que os seres humanos podem conscientemente parar o ciclo, e que muitos conseguem fazê-lo.
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Texto original: The ISIS Crisis and Human Savagery (bahaiteachings.org)
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
sábado, 6 de setembro de 2014
Os Bahá’ís acreditam no inferno?
Por Maya Bohnhoff.
Se existe um "paraíso" na religião Bahá’í, como se vai para lá? Há alguma coisa que se deva fazer? Ou toda a gente pode entrar?
Bahá'u'lláh afirmou que os conceitos de céu e inferno não representam lugares físicos, mas sim estados de existência que podemos experimentar aqui neste mundo físico - e na próxima vida. Em qual destes estados habitamos depende inteiramente de nós, e da graça de Deus.
O conceito Bahá'í de "paraíso" ou “céu” não nada semelhante ao conceito de “céu” que me foi transmitido quando era jovem e frequentava igrejas. Os ensinamentos Bahá’ís não descrevem o céu como um lugar para onde se vai se Deus autoriza, ou se se acredita numa doutrina, numa igreja ou num sistema específico.
Em vez disso, Bahá'u'lláh compara o céu com proximidade de Deus, e o inferno com afastamento de Deus.
Do ponto de vista Bahá’í, temos de fazer escolhas - aqui neste nível de existência - sobre que tipo de pessoa que vamos ser e que qualidades espirituais (ou vícios animais) vamos desenvolver. Se nos esforçamos por desenvolver qualidades divinas (amor, perdão, lealdade, justiça, etc) isso irá nutrir e estimular faculdades espirituais que nos permitirão prosperar na próxima vida. Se não as desenvolvermos, não iremos prosperar - em vez disso, entraremos na vida futura com deficiências espirituais significativas.
E além disso, se não as desenvolvermos, não vamos crescer espiritualmente neste mundo. Nem vamos ajudar os outros a crescer.
A minha opinião pessoal sobre isto é semelhante à minha opinião sobre as leis da física. Quem tenta violar uma das leis da física, pode sofrer um choque violento. Um passo fora do telhado de um edifício e lei da gravidade entra em acção - podemos acabar com uma perna partida. Buda disse que "O ódio não cessa com o ódio; o ódio cessa com o amor. Esta é uma lei eterna". Outros professores Divinos também ensinaram que o amor é a primeira lei. Se violarmos essa lei espiritual fundamental, então podemos estragar ou destruir alguma coisa - uma amizade, uma família, uma comunidade, uma nação, o nosso próprio espírito. Violar essa lei tem consequências. Vemos essas consequências expostas todos os dias nas notícias. Eu vejo-as sempre que falo com pessoas envoltas em ódio contra outros seres humanos. Penso que isso é uma boa definição de inferno.
Bahá'u'lláh também diz que as pessoas têm diferentes capacidades para crescer espiritualmente:
Por este motivo, não estamos autorizados, nem obrigados, a julgar os outros. Um pequeno teste para uma alma pode ser uma imensa tarefa para outra, e só Deus sabe a diferença.
Jesus falou sobre a "porta estreita" que conduz à vida eterna: "estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida, e como são poucos os que o encontram." (Mateus 7:14). Essa porta estreita, no contexto das Suas palavras, é este mandamento que Ele dá imediatamente antes de advertir sobre a estreiteza da porta. Este existe nas escrituras de todas as religiões reveladas: "... o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas" (Mateus 7: 12)
Assim, nós não adoramos a Deus porque desejamos o "céu" ou porque temos medo do "inferno". O Báb escreveu:
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Texto original: Do Baha’is Believe in Hell? (bahaiteachings.org)
Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.
Se existe um "paraíso" na religião Bahá’í, como se vai para lá? Há alguma coisa que se deva fazer? Ou toda a gente pode entrar?
Bahá'u'lláh afirmou que os conceitos de céu e inferno não representam lugares físicos, mas sim estados de existência que podemos experimentar aqui neste mundo físico - e na próxima vida. Em qual destes estados habitamos depende inteiramente de nós, e da graça de Deus.
O conceito Bahá'í de "paraíso" ou “céu” não nada semelhante ao conceito de “céu” que me foi transmitido quando era jovem e frequentava igrejas. Os ensinamentos Bahá’ís não descrevem o céu como um lugar para onde se vai se Deus autoriza, ou se se acredita numa doutrina, numa igreja ou num sistema específico.
Em vez disso, Bahá'u'lláh compara o céu com proximidade de Deus, e o inferno com afastamento de Deus.
Do ponto de vista Bahá’í, temos de fazer escolhas - aqui neste nível de existência - sobre que tipo de pessoa que vamos ser e que qualidades espirituais (ou vícios animais) vamos desenvolver. Se nos esforçamos por desenvolver qualidades divinas (amor, perdão, lealdade, justiça, etc) isso irá nutrir e estimular faculdades espirituais que nos permitirão prosperar na próxima vida. Se não as desenvolvermos, não iremos prosperar - em vez disso, entraremos na vida futura com deficiências espirituais significativas.
E além disso, se não as desenvolvermos, não vamos crescer espiritualmente neste mundo. Nem vamos ajudar os outros a crescer.
A minha opinião pessoal sobre isto é semelhante à minha opinião sobre as leis da física. Quem tenta violar uma das leis da física, pode sofrer um choque violento. Um passo fora do telhado de um edifício e lei da gravidade entra em acção - podemos acabar com uma perna partida. Buda disse que "O ódio não cessa com o ódio; o ódio cessa com o amor. Esta é uma lei eterna". Outros professores Divinos também ensinaram que o amor é a primeira lei. Se violarmos essa lei espiritual fundamental, então podemos estragar ou destruir alguma coisa - uma amizade, uma família, uma comunidade, uma nação, o nosso próprio espírito. Violar essa lei tem consequências. Vemos essas consequências expostas todos os dias nas notícias. Eu vejo-as sempre que falo com pessoas envoltas em ódio contra outros seres humanos. Penso que isso é uma boa definição de inferno.
Bahá'u'lláh também diz que as pessoas têm diferentes capacidades para crescer espiritualmente:
O dever integral do homem neste Dia, é atingir aquela parte do fluxo de graça que Deus derrama para ele. Que ninguém, portanto, considere a grandeza ou pequenez do recipiente. A porção de alguns pode estar na palma da mão de um homem, a porção de outros pode encher uma taça, e a de outros, pode até ter a medida de um galão. (SEB, V)
Jesus falou sobre a "porta estreita" que conduz à vida eterna: "estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida, e como são poucos os que o encontram." (Mateus 7:14). Essa porta estreita, no contexto das Suas palavras, é este mandamento que Ele dá imediatamente antes de advertir sobre a estreiteza da porta. Este existe nas escrituras de todas as religiões reveladas: "... o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas" (Mateus 7: 12)
Assim, nós não adoramos a Deus porque desejamos o "céu" ou porque temos medo do "inferno". O Báb escreveu:
Adora tu a Deus de tal maneira que, se a tua adoração te levasse ao fogo, nenhuma alteração se mostraria na tua adoração, e, o mesmo aconteceria se o paraíso fosse a recompensa. Assim - e somente assim - deveria ser a adoração digna do Deus Uno e Verdadeiro. Fosse tu adorá-Lo por medo, isso seria impróprio na Corte santificada da Sua presença, e não poderia ser considerado como um acto teu dedicado à Unicidade do Seu Ser. Ou se o teu olhar fixasse no paraíso, e tu O adorasses nutrindo essa esperança, estarias a fazer da criação de Deus um parceiro d’Ele, não obstante o facto de o paraíso ser desejado pelos homens. (Selecção das Escrituras do Báb)Bahá’ís não acreditam que apenas os Bahá’ís "vão para o céu", mas simplesmente que Bahá'u'lláh tem os ensinamentos de Deus para esta época - tal como Cristo tinha os ensinamentos adequados para um povo de outra época e também falou sobre a próxima etapa do seu desenvolvimento. Bahá'u'lláh descreve a situação desta forma:
O Médico Omnisciente tem o Seu dedo no pulso da humanidade. Ele percebe a doença e, na Sua sabedoria infalível, prescreve o remédio. Cada era tem o seu próprio problema, e cada alma a sua aspiração particular. O remédio a que o mundo necessita nas suas aflições actuais nunca poderá ser o mesmo exigido numa era posterior. Preocupai-vos impacientemente com as necessidades da era em que viveis e concentrai as vossas deliberações nas suas exigências e nos seus requisitos. (SEB, CVI)
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Texto original: Do Baha’is Believe in Hell? (bahaiteachings.org)
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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.
terça-feira, 26 de agosto de 2014
Os Bahá’ís acreditam na vida depois da morte?
Por Maya Bohnhoff.
Os Bahá’ís têm algum conceito sobre vida após a morte? Se sim, em que consiste?
A resposta a esta pergunta - um SIM muito claro e enfático - flui ao longo das Escrituras Bahá’ís.
Bahá’u’lláh ensinou que existem inumeráveis de “mundos de Deus”, incluindo aquele em que entramos quando abandonamos a nossa forma física. Mas os Bahá’ís também acreditam que a vida seguinte não é algo com que nos devamos preocupar ao ponto de reduzir a nossa vida neste mundo a uma espécie de sala de espera.
Primeiramente, Bahá’u’lláh afirma que não podemos compreender como será a próxima existência, tal como a criança no ventre materno não consegue compreender o que é este mundo. Por este motivo, não temos um modelo de comparação. Os Bahá’ís acreditam que essa existência após a morte não é um local estático, mas, em vez disso, uma evolução em direcção a Deus.
Várias pessoas fizeram perguntas a Bahá’u’lláh sobre a vida após a morte. Aqui fica a resposta que Ele deu a uma dessas perguntas:
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Texto original: Do Baha’is Believe in Life After Death? (bahaiteachings.org)
Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.
Os Bahá’ís têm algum conceito sobre vida após a morte? Se sim, em que consiste?
A resposta a esta pergunta - um SIM muito claro e enfático - flui ao longo das Escrituras Bahá’ís.
Bahá’u’lláh ensinou que existem inumeráveis de “mundos de Deus”, incluindo aquele em que entramos quando abandonamos a nossa forma física. Mas os Bahá’ís também acreditam que a vida seguinte não é algo com que nos devamos preocupar ao ponto de reduzir a nossa vida neste mundo a uma espécie de sala de espera.
Primeiramente, Bahá’u’lláh afirma que não podemos compreender como será a próxima existência, tal como a criança no ventre materno não consegue compreender o que é este mundo. Por este motivo, não temos um modelo de comparação. Os Bahá’ís acreditam que essa existência após a morte não é um local estático, mas, em vez disso, uma evolução em direcção a Deus.
Várias pessoas fizeram perguntas a Bahá’u’lláh sobre a vida após a morte. Aqui fica a resposta que Ele deu a uma dessas perguntas:
E agora, sobre a tua pergunta referente à alma do homem e à sua sobrevivência após a morte. Sabe tu, em verdade, que a alma após a sua separação do corpo, continuará a progredir até atingir a presença de Deus, num estado e condição que nem a revolução dos séculos e das eras, nem as mudanças e casualidades no mundo, podem alterar. Perdurará enquanto perdurar o Reino de Deus, a Sua soberania, o Seu domínio e poder. Manifestará os sinais de Deus e os Seus atributos, e revelará a Sua amorosa generosidade e bondade. (SEB, LXXXI)Nessa mesma epístola, Bahá’u’lláh escreve um pouco sobre o poder espiritual das almas puras que já faleceram:
A natureza da alma após a morte nunca poderá ser descrita, não é conhecida, nem é permissível revelar todo o seu carácter aos olhos do homem. Os Profetas e Mensageiros de Deus foram enviados com o único propósito de guiar a humanidade ao íntegro Caminho da Verdade. O propósito subjacente da Sua revelação tem sido educar todos os homens para que eles possam, na hora da morte, ascender - com a maior pureza e santidade, e com absoluto desprendimento - ao trono do Altíssimo. A luz que estas almas irradiam é responsável pelo progresso do mundo e pela evolução dos seus povos. Elas são como o fermento que leveda o mundo do ser, e constituem a força motriz através da qual as artes e as maravilhas do mundo se manifestam. (SEB, LXXXI)A alma humana, afirmam os ensinamentos Bahá’ís, é eterna. Todos nós temos um ser interior eterno, uma realidade espiritual que retém a nossa individualidade, o nosso carácter e o nosso nível de maturidade e desenvolvimento, quando o nosso corpo morre:
Se o corpo sofre uma mudança, o espírito não tem de ser afectado. Quando se quebra um vidro onde brilha o sol, o vidro parte-se, mas o sol continua a brilhar! Se uma gaiola com um pássaro for destruída, o pássaro fica ileso. Se uma lâmpada se parte, a chama ainda pode arder com brilho! A mesma coisa se aplica ao espírito do homem. Apesar da morte destruir o seu corpo, ela não tem poder sobre o seu espírito. Este é eterno, imortal, sem nascimento, nem morte ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 65-66)Os Bahá’ís aguardam com expectativa a transição deste mundo para o próximo, o nosso inevitável nascimento naquilo a que ’Abdu’l-Bahá chamou “a segunda vida”.
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Texto original: Do Baha’is Believe in Life After Death? (bahaiteachings.org)
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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
A capacidade das crianças para a compaixão
Por Jennifer Campbell.
As crianças são as mensagens vivas que enviamos para um tempo que não veremos. (Neil Postman)Sentei-me num restaurante sombrio, irritada, e exausta. O meu marido carinhosamente ia dizendo palavras de encorajamento enquanto terminávamos a refeição e acabávamos de beber os nossos chás gelados. Uma menina com rabo de cavalo, cerca de oito anos, passou pela nossa mesa a caminho dos lavabos; sorriu para mim e perguntou:-me "Como estava? Estava bom?" Retribui o sorriso e respondi: "Sim". Quando voltou, ela parou novamente perto da nossa mesa e deu-me um sorriso ainda maior. Desta vez, ela fez também o gesto do polegar para cima, muito cómico e entusiasmado. O meu marido e eu começámos a rir. Ela apagou a minha tristeza.
Aquela menina mostrava uma característica que muitas vezes vejo em crianças: uma incrível capacidade para a compaixão. Ela parecia ter percebido que eu me sentia em baixo e que precisava de uma palavra amável e um sorriso feliz. Também percebeu a minha angústia e agiu imediatamente.
Ao longo da minha carreira como psicóloga escolar, vi frequentemente exemplos inspiradores de compaixão das crianças para com outras pessoas. Por exemplo, tive dias especialmente agitados quando eu estava no meu escritório, ocupada com prazos de entrega de relatórios, papelada aparentemente interminável, e telefonemas, e aparecia um aluno que me dava um abraço inesperado.
Eu dizia: "Estava a precisar disso."
E o aluno respondia: "Eu sei, a senhora Campbell. Eu podia adivinhar."
Os ensinamentos Bahá’ís dizem:
As crianças são o tesouro mais precioso que uma comunidade pode possuir, pois nelas está a promessa e a garantia do futuro. Eles têm as sementes do carácter da sociedade futura, que é em grande parte moldado por aquilo que os adultos membros da comunidade fazem - ou deixam de fazer - em relação às crianças. Eles são uma esperança que nenhuma comunidade pode negligenciar impunemente. (A Casa Universal de Justiça)Esta citação parece dizer-nos que as crianças possuem um enorme potencial, e que os adultos desempenham um papel importante para as guiar no desenvolvimento desse potencial. De facto, esta citação parece salientar que orientar as crianças da nossa comunidade é um imperativo moral.
A Fé Bahá'í também possui muitas - e belas - orações sobre (e para) crianças que fazem alusão ao seu potencial, à sua necessidade de orientação, e à sua importância para o mundo. Aqui ficam alguns exemplos:
Ó Deus! Educa estas crianças. Estas crianças são as plantas do Teu pomar, as flores do Teu prado, as rosas do Teu jardim. Permite que sobre elas caia a Tua chuva; permite que o Sol da Realidade brilhe sobre elas com o Teu amor. Permite que a Tua brisa as refresque, para que sejam educadas, cresçam e se desenvolvam e manifestem a maior beleza. Tu és o Generoso! Tu és o Compassivo! ('Abdu’l-Bahá)Se as crianças são os nossos "tesouros", as nossas "pequenas planta[s]", e, em última análise, a nossa "promessa e garantia" do futuro, não deveremos protegê-las, orientá-las e tratá-las como entidades preciosa que são ?
Ó Senhor! Eu sou uma criança. Permite-me a crescer à sombra da Tua Amorosa Generosidade. Sou uma pequena planta; deixa-me ser alimentada pelas efusões das nuvens da Tua generosidade. Sou um rebento do jardim do amor; torna-me uma árvore frutífera. Tu és o Omnipotente e Poderoso, e Tu és o Todo-Amoroso, o Omnisciente, Aquele que tudo vê. ('Abdu'l-Bahá)
Não deveremos tratar todas as crianças com compaixão?
A terra é uma única pátria, um único lar; e todas as pessoas são filhos de um único Pai. Deus criou-os, e eles são os destinatários da Sua compaixão. Portanto, se alguém ofende outro, ele ofende a Deus. É desejo do nosso Pai celestial que cada coração se alegre e fique cheio de harmonia, e que vivamos juntos em felicidade e alegria. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 468).Podemos ser pais, mães, tias, tios, avós, avôs, padrinhos, madrinhas, tutores, pais adoptivos, professores, mentores, treinadores, baby-siters, monitores de jovens, ou instrutores de aulas infantis; todos temos um papel na protecção, educação e orientação das crianças do mundo. E porque as crianças aprendem com o exemplo, com as nossas palavras e com o nosso comportamento, devemos reflectir as nossas crenças na igualdade entre mulheres e homens, e as nossas crenças na unidade mundial. Vamos ensinar às crianças virtudes como a bondade, o amor, o respeito e a compaixão. Vamos incentivá-las a desenvolver o seu potencial, enquanto tratamos e cuidamos delas. Talvez, através dos nossos esforços combinados, consigamos ver ainda mais exemplos de compaixão, semelhante à compaixão que aquela menina mostrou quando me sorriu, me deu um sinal positivo, e iluminou o meu dia.
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Texto original: Children’s Capacity for Compassion (bahaiteachings.org)
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quarta-feira, 6 de agosto de 2014
A lição d’Os Miseráveis: toda a verdade é relativa.
Por David Langness.
A maioria das pessoas concorda que roubar é errado. Mas quantos de nós roubariam um pedaço de pão para alimentar uma família com fome?
Essa é a questão ética e filosófica do conhecido escritor francês Victor Hugo coloca apresenta no seu magnífico monumental Os Miseráveis. Provavelmente os leitores já viram a peça ou alguma versão no cinema; ou talvez tenham lido as 1400 páginas do livro. Literalmente, milhões de pessoas em todo o mundo têm sido profundamente influenciadas por esta grandiosa obra de arte. Se não a conhecem , então aqui fica um breve resumo: Jean Valjean, um ex-presidiário, libertado após cumprir uma pena de prisão de 19 anos por roubar um pedaço de pão para alimentar os filhos da sua irmã, tenta mudar de vida e fazer o bem aos outros, enquanto foge à perseguição do implacável do polícia Javert, um homem cego pela lei.
O romance de Hugo causou uma grande polémica quando surgiu pela primeira vez na década de 1860; nesse mesmo período surgiu a Fé Bahá'í. Os Miseráveis desafiou o pensamento convencional, ao questionar a crueldade do primado absoluto da lei, praticado pela aristocracia europeia e autoridades religiosas. Jean Valjean defendida a democracia, o humanismo, a justiça misericordiosa e o homem comum, e elevou esses valores acima abordagem rigorosa e absolutista de Javert, que exemplificava os princípios legais e religiosos praticados nessa época pela maioria dos governos despóticos do mundo. Os Miseráveis ficou famoso pela forma como apresentou a terrível situação das classes desfavorecidas parisienses, defendendo uma abordagem humana e inteligente para resolver problemas sociais.
A história d’Os Miseráveis tem um enorme eco nos ensinamentos Bahá’ís. Não só aborda princípios semelhantes aos Bahá’ís - amar a todos, a unidade da humanidade, a futilidade da guerra, a eliminação dos extremos de pobreza e riqueza - mas também abrange um tema central enfatizado pelos ensinamentos Bahá’ís: a relatividade.
Não… não se trata da teoria da relatividade de Einstein. Os Miseráveis torna-se famoso ao colocar-nos uma grande questão: A verdade é absoluta ou relativa?
Até meados do século XIX, a maioria das pessoas teria, provavelmente, escolhido a primeira resposta. Até essa época, as autoridades governamentais e religiosas exerciam o poder com punhos de ferro e detinham autoridade absoluta sobre os seus súbditos. Proliferavam as mais inflexíveis leis e regras de conduta. Tipicamente, a dissidência, ou a discordância, recebiam uma resposta dura e até mesmo fatal. As pessoas acreditavam, em grande parte, que a inflexibilidade da verdade absoluta tornava necessário um regime autoritário.
Então, subitamente, deu-se uma mudança gigantesca. Surgiu a revelação Bahá'í, trazendo consigo um novo conjunto de pressupostos sobre a natureza da verdade. Apareceu uma nova visão da ciência, gerada pelos avanços do Iluminismo e pensadores como Darwin. A era da modernidade, com toda a sua glória perturbadora, começou a florescer. E no meio de todas essas mudanças, em vez de adoptar a abordagem absolutista da época, Bahá'u'lláh afirmou que a própria verdade não é absoluta, mas relativa:
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Texto original: The Lesson of Les Miserables: All Truth is Relative (bahaiteachings.org)
David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
A maioria das pessoas concorda que roubar é errado. Mas quantos de nós roubariam um pedaço de pão para alimentar uma família com fome?
Essa é a questão ética e filosófica do conhecido escritor francês Victor Hugo coloca apresenta no seu magnífico monumental Os Miseráveis. Provavelmente os leitores já viram a peça ou alguma versão no cinema; ou talvez tenham lido as 1400 páginas do livro. Literalmente, milhões de pessoas em todo o mundo têm sido profundamente influenciadas por esta grandiosa obra de arte. Se não a conhecem , então aqui fica um breve resumo: Jean Valjean, um ex-presidiário, libertado após cumprir uma pena de prisão de 19 anos por roubar um pedaço de pão para alimentar os filhos da sua irmã, tenta mudar de vida e fazer o bem aos outros, enquanto foge à perseguição do implacável do polícia Javert, um homem cego pela lei.
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| Victor Hugo |
A história d’Os Miseráveis tem um enorme eco nos ensinamentos Bahá’ís. Não só aborda princípios semelhantes aos Bahá’ís - amar a todos, a unidade da humanidade, a futilidade da guerra, a eliminação dos extremos de pobreza e riqueza - mas também abrange um tema central enfatizado pelos ensinamentos Bahá’ís: a relatividade.
Não… não se trata da teoria da relatividade de Einstein. Os Miseráveis torna-se famoso ao colocar-nos uma grande questão: A verdade é absoluta ou relativa?
Até meados do século XIX, a maioria das pessoas teria, provavelmente, escolhido a primeira resposta. Até essa época, as autoridades governamentais e religiosas exerciam o poder com punhos de ferro e detinham autoridade absoluta sobre os seus súbditos. Proliferavam as mais inflexíveis leis e regras de conduta. Tipicamente, a dissidência, ou a discordância, recebiam uma resposta dura e até mesmo fatal. As pessoas acreditavam, em grande parte, que a inflexibilidade da verdade absoluta tornava necessário um regime autoritário.
Então, subitamente, deu-se uma mudança gigantesca. Surgiu a revelação Bahá'í, trazendo consigo um novo conjunto de pressupostos sobre a natureza da verdade. Apareceu uma nova visão da ciência, gerada pelos avanços do Iluminismo e pensadores como Darwin. A era da modernidade, com toda a sua glória perturbadora, começou a florescer. E no meio de todas essas mudanças, em vez de adoptar a abordagem absolutista da época, Bahá'u'lláh afirmou que a própria verdade não é absoluta, mas relativa:
O princípio fundamental enunciado por Bahá'u'lláh... é que a verdade religiosa não é absoluta, mas relativa, que a Revelação Divina é um processo contínuo e progressivo, que todas as grandes religiões do mundo têm origem divina, que os seus princípios básicos estão em completa harmonia, que os seus objectivos e propósitos são uma e a mesma coisa, que os seus ensinamentos são apenas facetas de uma verdade, que as suas funções são complementares, que diferem apenas nos aspectos não-essenciais das suas doutrinas, e que as suas missões representam etapas sucessivas na evolução espiritual da sociedade humana .... (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, pag. v.)Bahá'u'lláh não nos deu apenas uma nova forma de olhar para a evolução da própria verdade; os Seus ensinamentos apresentam uma maneira completamente revolucionária para ver a evolução da humanidade:
... A Sua missão é proclamar que as idades da infância e da meninice da raça humana já passaram, que as convulsões associadas à actual fase da sua adolescência estão lenta e dolorosamente a prepará-la para atingir o fase da maturidade, e que anunciam o Tempo dos Tempos, em que as espadas serão transformadas em arados, em que o Reino prometido por Jesus Cristo será estabelecido e a paz do planeta será assegurada de forma definitiva e permanente. Bahá'u'lláh não proclama que a Sua própria Revelação tenha um carácter final, mas declara que uma medida mais completa da verdade Lhe foi delegada pelo Todo-Poderoso para ser concedida à humanidade, num momento tão crítico do seu destino, devendo necessariamente ser revelada em futuras etapas da evolução constante e ilimitada da humanidade. (Idem)Da mesma forma, os ensinamentos Bahá’ís apresentam uma visão de uma nova sociedade global concebida para banir o absolutismo e o despotismo da face da Terra:
A Fé Bahá'í sustenta a unidade de Deus, reconhece a unidade dos Seus Profetas e inculca o princípio da unidade e integridade de toda a raça humana. Ela proclama a necessidade e a inevitabilidade da unificação da humanidade, declara que esta se está gradualmente aproximando, e afirma que apenas o espírito transformador de Deus, operando através do Seu Porta-Voz eleito neste dia, poderá consegui-lo. Além disso, impõe aos seguidores o dever primordial de procurar irrestritamente a verdade, condena todas as formas de preconceito e superstição, declara que o propósito da religião é a promoção da amizade e concórdia, proclama que esta deve estar em harmonia com a ciência, e reconhece-a como o agente principal para a pacificação e o progresso tranquilo da sociedade humana... (Idem, pags. v-vi)Gostava que Victor Hugo e os seus Miseráveis tivessem vivido para ver isto.
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Texto original: The Lesson of Les Miserables: All Truth is Relative (bahaiteachings.org)
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
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