quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Migrantes

Existem 35 milhões de pessoas com menos de 20 anos que são migrantes internacionais. Têm direito a ser protegidos.


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Mal Extremo


No texto anterior, levantámos algumas questões e reflectimos sobre o sofrimento extremo causado por fenómenos naturais. Agora podemos pensar nas situações em que esse sofrimento extremo é causado por seres humanos. São aquilo que podemos designar como o “Mal Extremo”.

Devia ter 10 anos quando assisti a uma série da BBC intitulada “The World at War”, dedicada à 2ª Guerra Mundial. Cada episódio centrava-se em eventos específicos desses anos terríveis: as principais campanhas, a vida na Alemanha e na Grã-Bretanha, as atrocidades ocorridas nos países ocupados, etc. Um episódio, em particular, intitulado “Genocídio” abordavam a implementação da “Solução Final” dos nazis e os campos da morte. Ver escavadoras a empurrar pilhas de cadáveres para uma vala comum chocou-me tão profundamente que nessa noite não consegui jantar. Foi o meu primeiro contacto com o “mal extremo”.

Vários filmes, documentários e livros têm-nos dado a conhecer o horror do holocausto. Entre todas as descrições e testemunhos que encontrei, consigo destacar uma que é particularmente chocante e que foi escrita por um sacerdote católico, o padre Eloi Leclerc:
Eu estive em Buchenwald e Dachau. Ali vivi os imensos horrores da inumanidade. Uma verdadeira descida aos infernos, no meio de milhares de pessoas massacradas como gado. Ali, fiz a experiência do silêncio de Deus perante tanto mal, tanta dor, sofrimento injusto, desprezo da vida humana, tanta morte. Quem não passou por essa experiência não pode sequer imaginar o que isso é. É o momento do silêncio absoluto de Deus, da ausência. Podia elevar os olhos ao céu, mas o céu não respondia. Os gritos não chegavam lá. Então compreendi que se podia perfeitamente ser ateu. Esta é uma grave interrogação para o crente. Como crer no Deus do Amor, depois de Auschwitz, Dachau, Buchenwald? Perante tanta desgraça, solidão e sofrimento, pode-se ainda crer no Deus do Amor?
Esta questão, que toca no aspecto fundamental da Teodiceia, desafia-nos a todos.

Num texto anterior defini o “mal” como as acções humanas cometidas com o propósito deliberado de provocar sofrimento. Segundo as escrituras Bahá’ís, todos os seres humanos têm livre arbítrio - cada um de nós pode escolher entre cometer boas ou más acções:
Mas na escolha das boas ou más acções, ele é livre; ele comete-as de acordo com a sua própria vontade. Por exemplo, se ele quiser, ele pode passar o seu tempo a louvar a Deus, ou pode ocupar-se com outros pensamentos. Ele pode ser uma luz acesa pelo fogo do amor divino, e um filantropo amante do mundo, ou pode odiar a humanidade e absorver-se com coisas materiais. Ele pode ser justo ou cruel. Todas estas acções estão sob o controle da vontade do próprio homem; consequentemente, ele é responsável por elas. (‘Abdu’l-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas, cap. 70)
Reflectir sobre o mal extremo que as pessoas fazem pode levar-nos a questionar a existência de qualquer bem comparável no mundo. Mas a própria história do Holocausto tem a sua quota de poderosos exemplos de coragem e actos de desprendimento, quando pessoas bondosas salvaram outras arriscando as suas próprias vidas. Na verdade, a resposta do mundo a estas atrocidades é um exemplo extraordinário de compromisso colectivo para acabar com esse mal extremo e impedir que se repita.

Parece-me lógico, que podemos considerar o mal extremo como um resultado extremo da maldade humana. Este fenómeno pode ser tão horroroso que concluímos imediatamente que não trás nenhum benefício à humanidade. Mas o fenómeno do mal extremo obriga-nos a reflectir:
  • Como é que isto pôde acontecer?
  • Como podemos impedir que aconteça novamente?
Se não fizermos esta reflexão, então o sofrimento extremo não trará nenhum benefício à humanidade e poderá manifestar-se novamente. Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í, descreveu o fenómeno do mal extremo como “os estertores da velha ordem mundial”, dominada por forças como o nacionalismo e o racismo, e destinada a ser substituída por uma nova ordem mundial baseada nos ensinamentos Bahá’ís de unidade, governação mundial e cooperação internacional. Ele descreveu estes tempos como uma “era de transição” entre um sistema de conflito sistemático entre soberanias nacionais e uma época mais espiritual, harmoniosa e unificada. Tudo isto é parte de “…processos simultâneos de ascensão e queda, de integração e desintegração, de ordem e caos, com as suas reacções contínuas e recíprocas, umas sobre as outras…” (Shoghi Effendi, The Advent of Divine Justice, p. 72)

Assim, para os Bahá’ís, estas manifestações de mal extremo, por muito trágicas e vastas que sejam, não podem ser vistas apenas como episódios isolados na história recente da humanidade. Em paralelo com estas calamidades, existem outras iniciativas positivas que levam à construção de um mundo mais seguro e tranquilo para toda a humanidade. Recordemos ainda que apesar da mediatização de alguns conflitos e atrocidades, as estatísticas mostram que o nosso planeta se está a tornar menos violento.

Neste mundo constituído por estados-nações, cujas relações se baseavam no conflito e na defesa de interesses nacionais, podemos actualmente testemunhar o surgimento gradual de um mundo unido, uma nova ordem mundial, baseada na cooperação e nos interesses comuns de toda a humanidade.

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Versão em inglês: What is Extreme Evil? (bahaiteachings.org)
Tradução em italiano: Cos'e' il Male Estremo

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Deus Encarnado e os Novos Ateus

Por David Langness.


A vitalidade da crença dos homens em Deus está a morrer em todas as terras; nada que careça do seu remédio salutar poderá jamais recuperá-la. A corrosão da impiedade está a devorar os órgãos vitais da sociedade humana; que outra coisa, senão o Elixir da Sua Revelação potente pode purificá-la e reanimá-la? (Seleção dos Escritos de Bahá'u'lláh, sec. XCIX)
Uma grande parte das ideias dos "novos ateus" centra-se em torno da incapacidade da ciência para provar a existência de um Deus invisível.

Os ateus têm um bom argumento.

Christopher Hitchens
Alguns dos novos pensadores ateus como Christopher Hitchens e Richard Dawkins afirmam que "a ausência de provas" sobre a existência de Deus é "a prova da ausência." Por outras palavras, uma vez que não existe qualquer prova científica de um Ser Supremo, então logicamente nenhum Ser Supremo pode existir. Se se aborda a questão de uma perspectiva puramente científica, o argumento pode fazer algum sentido.

Mas o argumento tem uma falha fatal, enraizada na natureza da própria ciência, que, por definição, é o estudo racional dos fenómenos observáveis.

A ciência não pode estudar o que não pode observar, ou, pelo menos, inferir a partir da observação. Os neurologistas podem dizer-nos, em condições controladas, quais as áreas do nosso cérebro que activam uma imagem de ressonância magnética quando sentimos certas emoções, mas nenhum cientista nos pode dizer o que nos leva a experimentar o fascínio, a criar arte, ou a amar alguém. Os nossos sentimentos, os nossos pensamentos, as nossas emoções mais elevadas, as nossas motivações altruístas, os nossos anseios espirituais, todos eles transcendem os limites fixos da ciência. A ciência pode medir alguns aspectos da vida; mas não pode incutir significado na vida.

A ciência, por outras palavras, está longe de ser omnipotente; tem os seus próprios limites. Nesta era de enorme progresso científico e descobertas maravilhosas, isso pode parecer difícil de acreditar. Mas até mesmo os cientistas mais perspicazes, reconhecem e aceitam as suas limitações; o conhecido cientista Max Planck disse: "A religião pertence ao reino que é inviolável perante a lei de causa e efeito e, portanto, fechado para a ciência."

Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que ciência e religião, em última análise, andam lado a lado. Mas se reduzíssemos toda a existência humana a dados científicos, a nossa existência perderia toda a sua beleza e mistério. Deixaríamos de ser humanos.

No entanto, as escrituras Bahá'ís concordam com os novos ateus num aspecto importante:
Para todo o coração perspicaz e iluminado, é evidente que Deus, a Essência incognoscível, o Ser divino, está imensamente elevado acima todos os atributos humanos, tais como existência corpórea, subida e descida, saída e regresso. Longe esteja da Sua glória que a língua humana celebre adequadamente o Seu louvor, ou o coração humano compreenda o Seu insondável mistério. Ele está, e sempre esteve, velado na eternidade antiga da Sua Essência, e permanecerá na Sua Realidade eternamente oculto da vista dos homens... Nenhum laço de relação directa pode, hipoteticamente, liga-Lo às Suas criaturas. Ele permanece enaltecido além e acima de toda a separação e união, toda a proximidade e afastamento. Nenhum sinal pode indicar a Sua presença ou a Sua ausência; visto que por uma palavra do Seu mandamento tudo o que está nos céus e na terra veio à existência, e pelo Seu desejo, que é em si próprio a Vontade Primaz, tudo saiu da não-existência absoluta para reino da existência, o mundo do visível. (Bahá'u'lláh, O Livro da Certeza, parag. 104).
Assim, a Fé Bahá'í confirma o que alguns dos novos ateus dizem, que nenhum sinal pode indicar a presença ou ausência de Deus. Os Bahá’ís acreditam que compreendemos a presença de Deus através dos testemunhos dos Manifestantes e dos profetas, os fundadores das grandes religiões do mundo, os mensageiros que reflectem os atributos de Deus para o mundo, aqueles que Bahá'u'lláh designa como "Vice-Regentes" de Deus, os representantes nomeados pelo Criador:
Em todos os Livros Divinos a promessa da Presença Divina tem sido explicitamente registada. Por esta Presença entende-se a Presença d’Aquele que é a Nascente dos sinais, e o Lugar de Alvorada dos testemunhos claros, e a Manifestação dos Nomes Excelsos e, a Fonte dos atributos do Deus verdadeiro, enaltecida seja a Sua glória. Deus na Sua essência e no Seu próprio ser sempre foi invisível, inacessível e incognoscível. Por Presença, portanto, entende-se a presença d’Aquele que é o Seu Vice-Regente entre os homens. (Bahá'u'lláh, Epistle to the Son of the Wolf, pp. 118-119)
Então isso significa que os profetas e os manifestantes representam as formas humanas de um Deus encarnado? Não, de forma alguma. As escrituras Bahá’ís afirmam:
A divindade atribuída a um tão grandioso Ser e a encarnação completa dos nomes e atributos de Deus numa tão excelsa Pessoa não deve, em nenhuma circunstância, ser mal entendida ou mal interpretada... o Deus racional mas invisível que, por muito que louvemos a divindade dos Seus Manifestantes na terra, não pode encarnar a Sua Realidade infinita, incognoscível, incorruptível e vasta na estrutura específica e limitada de um ser mortal. Na verdade, o Deus que pudesse encarnar a Sua própria realidade, à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh, cessaria imediatamente de ser Deus. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u'llah, p. 112)
Este ensinamento Baha'i - de que Deus é incognoscível, inacessível, demasiado vasto e abrangente para qualquer mente humana O compreender - reflecte-se de forma notável na visão científica actual do universo conhecido. Não nos pede para abdicar da nossa inteligência, rejeitar a ciência ou repudiar a lógica. Em vez disso, a visão Bahá’í de Deus diz-nos que a revelação contínua do Criador nas grandes religiões deu-nos os dons de todos os nomes e atributos de Deus, como o amor, conhecimento, poder, soberania, domínio, misericórdia, sabedoria, glória, recompensa, e graça.

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Texto original: God Incarnate and the New Atheists (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Educação em Angola

Entre 2001 e 2012 o número de crianças a frequentar a escola primária em Angola aumentou 241%


sábado, 20 de dezembro de 2014

Uma estudante Bahá’í fala com três deputados iranianos

O texto seguinte foi escrito por uma jornalista iraniana residente no Irão, que escreve sob pseudónimo para proteger a sua identidade.

Por Raha Bushehri - cidadã e jornalista

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Sou estudante do terceiro ano do ensino secundário. As minhas notas são excelentes. Os meus professores esperam que nos exames de admissão à universidade no próximo ano o meu nome esteja entre os primeiros. Mas eu sei que mesmo que eu esteja entre os primeiros, não haverá lugar para mim nas universidades iranianas, tal como não houve para a minha irmã que era estudante de arquitectura na Universidade de Beheshti e foi expulsa no segundo ano.

Na segunda-feira, 15 de Dezembro, o académico Ayatollah Moussavi Bojnourdi defendeu claramente a negação dos direitos civis elementares aos Bahá’ís. "Nós nunca dissemos que os Bahá’ís têm direito à educação", declarou à agência de notícias FARS. "Eles não têm quaisquer direitos civis. Cristãos, judeus e zoroastrianos têm direitos civis e humanos, porque estas são religiões abraâmicas."

Então tive uma ideia. Perguntei-me, quando eles próprios nos dizem que não temos direitos, junto de quem podemos nós protestar? Nós não temos um representante no parlamento a quem possamos recorrer. Decidi telefonar para alguns membros da Comissão Parlamentar de Educação e pedir-lhes, como estudante Bahá’í, que analisassem os meus direitos como cidadã iraniana. Todos os três representam Teerão, têm doutoramentos e ensinam em universidades ou centros de investigação.


Zohreh Tabib-Zadeh Nuri: "Converte-te ao Islão e o teu problema será resolvido."

Zohreh Tabib-Zadeh Nuri é dentista formada na Universidade Shahid Beheshti e membro do conselho científico. Ela foi um dos deputados que questionaram o ex-ministro da Ciência Reza Faraji Dana sobre o regresso de estudantes Bahá’ís às universidades.

Olá Sra. Tabib-Zadeh. Tenho um problema e gostaria de ter uma pequena conversa consigo.

Por favor, seja breve porque eu tenho que ir para uma reunião agora mesmo.

Eu sou estudante iraniana e todos os meus professores esperam que eu tenha as melhores notas nos exames de admissão no próximo ano. Mas não há nenhuma garantia de que eu possa ir para a universidade.

Porquê?

Porque eu sou Bahá’í.

Como é que obteve o meu número?

O seu número foi-me dado por uma amiga que é jornalista. Disseram-me que você faria tudo o que pudesse.

Olha, minha filha. Vocês, Bahá’ís são hostis ao Islão e não podemos permitir os inimigos do Islão em universidades islâmicas. Vocês entram nas universidades e começam a tentar converter os outros. Hoje em dia, devido a uma falha da antiga equipa de gestão do Ministério da Ciência vários estudantes Bahá'ís entraram nas universidades e já foram distribuídos folhetos promocionais Bahá'ís. É claro que os muçulmanos não se deixam enganar por esses folhetos, e os Bahá’ís também sabem disso, e só fazem essas coisas devido à vossa animosidade para com o Islão.

Quer dizer que você não pode fazer nada?

Olha, minha querida. Vai, estuda o Alcorão, aprende mais sobre o Islão e tentar decidir por ti própria. Prometo-te que se o estudares cuidadosamente e decidires com sabedoria, vais escolher a religião do Islão e os teus problemas desaparecem. Se precisas de materiais para estudar, podes entrar em contacto com o meu escritório. Toma nota do número do meu escritório e telefona-me. Que Deus esteja contigo. Agora tenho que ir para a minha reunião.


Mehdi Koochek-Zadeh: "Vai-te embora do Irão".

Mehdi Koochek-Zadeh tem um doutoramento em engenharia pela Universidade Modarres e é membro do seu conselho científico. É um deputado da linha-dura e membro da Frente de Resistência. Após duas horas a telefonar para o seu escritório e com ajuda da sua secretária, consegui finalmente autorização para falar com ele, porque insisti que tinha que explicar o meu problema diretamente ao deputado.

Olá, Sr. Koochek-Zadeh. Eu sou boa aluna e os meus professores esperam que nos exames de admissão do próximo ano eu tenha das melhores notas.

Bom, oxalá. O que posso fazer por si?

Eu não posso entrar na faculdade porque sou Bahá’í.

[Risos] Você não precisa das nossas universidades. Vocês têm a vossa própria universidade, organização e sei lá que mais. Vá para a vossa própria universidade secreta e não nos faça perder tempo.

Sr. Koochek-Zadeh, qualquer que seja a minha religião, eu sou iraniana e você representa todo o povo iraniano. Essa é a sua única resposta?

Você pode fazer outra coisa. Você pode ir para os Estados Unidos ou para Israel e peça-lhes ajuda. Diga-lhes que é um deles poderá facilmente entrar na faculdade e obter um diploma. Porque é que você quer ficar aqui e criar problemas para si e para nós?

Mas eu quero viver no meu país.

Então obedeça à lei. [o seu telemóvel toca] Eu não tenho mais tempo para esta conversa.


Mohammad Nabavian: "As universidades não são para os Bahá'ís."

Mohammad Nabavian é clérigo e tem um doutoramento em filosofia comparada. É professor assistente no Centro de Educação e Investigação Imam Khomeini. Foi estudante da linha-dura do Ayatollah Mesbah Yazdi e falou muitas vezes sobre como tornar as universidades mais islâmicas.

Mr. Nabavian, estou impedida de entrar na universidade. Os meus amigos sugeriram que eu entrasse em contacto consigo e lhe falasse sobre o meu problema.

Porque é que foi impedida? Eles expulsaram-na da universidade? Você tinha algum problema moral?

Não, eu não fui para a universidade. Mas eu acredito que estou impedida de ingressar no ensino superior, porque sou Bahá’í. Isso é verdade?

Sim, é verdade; as universidades não são para os Bahá’ís. As universidades em países islâmicos devem ser islâmicas.

Mas há alunos que têm uma religião diferente. Certo?

Religiões, sim. Mas o Bahaismo não é uma religião. É uma seita. Uma seita inventada.

Mas qualquer que seja a minha religião, eu sou iraniana e você representa todos os iranianos.

Não. Eu não sou seu representante. Eu represento o povo muçulmano do Irão.


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Texto Original em inglês: A Baha’i Student Interviews Three Members of Iranian Parliament (IranWire)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Sofrimento Extremo


Em 1918, acabou a primeira Grande Guerra e os militares começaram a regressar a casa. Na Europa desenharam-se novas fronteiras e surgiam novas nações. Mas nesse momento surgiu uma nova calamidade: a gripe espanhola espalhou-se pelo mundo e durante dois anos ceifou 50 a 100 milhões de vidas em toda a parte (três a cinco por cento da população mundial).

Nessa época a minha avó era aluna no Conservatório de Música em Lisboa. Contou-nos uma vez que na sua turma morreram metade das suas colegas. Conseguem imaginar o que é perder metade os colegas de escola ou trabalho?

Recentemente ao acompanhar um dos meus filhos a estudar História, revimos o episódio do terramoto que arrasou Lisboa em 1755. Nesse ano, um sismo - seguido de um tsunami - arrasou a capital portuguesa, destruindo milhares de edifícios, provocando múltiplos incêndios e fazendo milhares de mortos.

Vitimas da Pandemia da Gripe de 1918
Estes são apenas dois exemplos de calamidades naturais em que o “sofrimento natural” assume dimensões extremas. Quando estes fenómenos extremos surgem, é natural que nos questionemos:

  • Será mesmo necessário que o mundo contenha casos tão esmagadores e aflitivos de sofrimento extremo? Será necessário que fomes devastadoras atinjam milhões de pessoas?
  • Serão necessárias calamidades naturais que arrasem cidades e matem milhares de pessoas em poucas horas? Serão necessárias epidemias que matam milhões de pessoas?
  • Nestes eventos, onde está o benefício para as almas? Pode haver algum desenvolvimento espiritual resultante de um processo implacavelmente destrutivo?

As respostas a estas questões devem ser consideradas tendo em conta a evolução da humanidade neste planeta.

Na minha opinião, nós, humanos, enquanto espécie, ainda estamos a aprender a viver neste planeta. Ainda não encontrámos forma de nos proteger de todos os fenómenos naturais de natureza destrutiva. A ciência e o desenvolvimento material têm ajudado a reduzir o sofrimento provocado por estes fenómenos. Mas a ciência moderna tem apenas 500 anos. E a massificação dos benefícios da ciência ainda é mais recente.

A comparação dos efeitos de algumas calamidades naturais no passado e no presente, permite perceber que estamos a evoluir. Por exemplo, hoje existem diversas técnicas de construção que permitem minimizar os estragos provocados por sismos. E existem várias doenças que praticamente desapareceram devido a grandes campanhas de vacinação e melhoria de cuidados de higiene e saúde. Desenvolvemos e começamos a usar sistemas de aviso de tsunamis e tornados.

Assim, podemos dizer que o intelecto humano é desafiado por estas calamidades naturais; desenvolvemos ciências e técnicas que minimizam os impactos dessas situações extremas. Mas por outro lado, as escrituras Bahá’is dizem-nos que estas calamidades naturais também nos devem levar a reflectir. Ao referir-se ao terramoto de S. Francisco (1906), 'Abdu’l-Bahá escreveu:
Esses eventos em S. Francisco foram realmente terríveis. Desastres deste tipo devem servir para despertar as pessoas, e diminuir o amor dos seus corações por este mundo inconstante. É neste mundo inferior que tais coisas trágicas têm lugar: este é o cálice que contém um vinho amargo. (Selecção dos Escritos de 'Abdu'l-Bahá, nº 39)
O sofrimento extremo causado por desastres naturais desafia-nos e apela a uma resposta dupla: desenvolver os meios materiais para mitigar os efeitos e ajudar as vítimas; e reflectir sobre a fragilidade da nossa existência, perguntando a nós próprios que sentido tem o apego exagerado às coisas materiais.

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Versão em inglês: How Spiritual People See Extreme Suffering (bahaiteachings.org)
Tradução em italiano: Come le Persone Spirituali vedono la Soffrenza Estrema

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O que é o mal?


“Não nos deixeis cair em tentação mas livrai-nos do mal”
Esta frase da oração do “Pai Nosso” deve ser conhecida de todos os Cristãos. Também eu quando fui criado como Cristão me familiarizei com estas palavras. Mas o seu significado apenas o encontrei nas Escrituras Bahá’ís.

Para perceber o seu significado, primeiramente é necessário perceber que o sofrimento neste mundo físico tem duas origens: causas naturais e causas humanas. A primeira é o resultado de leis naturais e a que chamamos apenas “sofrimento”; a segunda é resultado do livre arbítrio do ser humano e a que chamaremos “mal”.

Então o que dizem as Escrituras Bahá’ís sobre o mal?

As Escrituras Bahá’ís respondem a esta pergunta complexa com dois tipos de respostas. No livro Respostas a Algumas Perguntas, ‘Abdu’l-Bahá aborda o tema do mal, começando por advertir que a explicação do assunto é difícil. Seguidamente, descreve o mal como uma ausência e não como uma presença:
“... as realidades intelectuais, tais como todas as qualidades e admiráveis perfeições do homem são puramente boas e existem. O mal é simplesmente a sua não existência… De modo idêntico, as realidades sensíveis são absolutamente boas, e o mal deve-se à sua não existência, o que significa que a cegueira é a ausência de visão, a surdez é ausência de audição, a pobreza é a ausência de riqueza…” (Some Answered Questions, ch. 74)

“... tudo o que Deus criou, Ele criou bom. O mal é a não existência, tal como a morte é a ausência de vida… é evidente que todos os males retornam à não existência. O bem existe; o mal é não existente.” (Some Answered Questions, ch 74)
‘Abdu’l-Bahá apresenta várias analogias para explicar a não-existência do mal. Ele afirma que a cegueira existe devido à falta de visão; de igual forma, o mal existe porque representa a ausência do bem; e a existência do mal é efémera e está confinada a este mundo.

Será que isto significa que o mal não existe? Não. Isto significa que o mal não tem existência própria.

Isto é confuso? Vamos tentar outra analogia

Pensem na sombra de um objecto. Essa sombra apenas existe na área em que esse objecto obscurece a luz. A sombra não tem existência própria, porque se não existisse o objecto, a sombra também não existiria. Assim, podemos dizer que a sombra é não-existente; no entanto, não podemos negar a existência da sombra.

Noutra ocasião, ‘Abdu’l-Bahá apresentou outras respostas com uma perspectiva mais empírica e explicou alguns significados simbólicos:
“O mal é a imperfeição. O pecado é a condição do homem no mundo de natureza inferior, pois na natureza existem defeitos como a injustiça, a tirania, o ódio, a hostilidade, e o conflito… Através da educação devemos libertar-nos destas imperfeições.” (Paris Talks, p. 177)

"A realidade subjacente a esta questão é que o espírito mau, o Satã ou o que quer que seja interpretado como mal, refere-se à natureza inferior no homem. Esta natureza inferior é simbolizada de várias maneiras… Deus nunca criou um espírito mau; todas essas ideias e nomenclaturas são símbolos que expressam a natureza meramente humana ou terrena do homem. É uma condição essencial do solo que dele germinem espinhos, cardos e árvores infrutíferas. Relativamente falando, isto é mau; é simplesmente o mais baixo estado e o mais elementar produto da natureza." (The Promulgation of Universal Peace, p. 293)
Uma das definições Bahá’ís sobre o mal tem uma perspectiva complexa e metafísica; a outra apresenta uma visão mais simples e empírica. Estas respostas, que se complementam, permitiram-me perceber melhor a frase da oração do Pai Nosso: “Não nos deixeis cair em tentação mas livrai-nos do mal”

Esta abordagem Bahá’í abriu-me as portas para um novo entendimento do problema do mal. Cristo aconselhou os Seus seguidores a pedir a Deus que nãos os deixasse cair na tentação de se reduzirem à sua natureza inferior. Se entendermos o mal como a nossa natureza inferior - vingança, violência, ódio e outras coisas do género - então percebemos que essas características nos podem reduzir a um nada absoluto.

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Versão em inglês: How Do You Define Evil? (bahaiteachings.org)


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O governo iraniano não engana ninguém


Nas instituições internacionais, o governo iraniano refuta todas as acusações e nega repetidamente que os Bahá'ís sejam perseguidos no Irão. Mas as próprias agencias noticiosas iranianas que destacam algumas notícias como esta.

Imagem da Boroumand Foundation.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Pode o Sofrimento ser Justo e Proporcional?



Imaginemos que vivíamos num mundo onde o sofrimento surgia sempre de forma justa e proporcionada. Nesse mundo o sofrimento nunca seria brutal, aleatório, ou aparentemente injusto; seria sempre proporcional, justo e merecido, e teria sempre um propósito.

Num mundo assim, sempre que nos deparássemos com uma calamidade ou com um simples acidente, este um evento merecido (uma punição ou uma recompensa).

Se soubéssemos que as nossas acções teriam consequências automáticas, quem se atreveria a cometer actos maldosos? Não estaríamos todos constrangidos a fazer apenas boas acções? Se esse tipo de punição/recompensa automatizada existisse neste mundo, poderíamos ser verdadeiramente livres para tomar decisões morais? Como poderíamos desenvolver o nosso carácter moral - as nossas virtudes - se não fossemos livres para, ocasionalmente, tomar decisões imorais, ver os seus resultados e aprender com as consequências?

Num mundo assim, a moralidade seria substituída por uma prudência calculista e interesseira e a nossa natureza moral (as virtudes) não teria espaço para se desenvolver. Se as recompensas e as punições fossem proporcionais e justas em relação aos nossos actos, não haveria espaço para tomar opções morais ou para fazer um uso construtivo da adversidade. Tal como os músculos do nosso corpo exigem exercício e esforço para desenvolver as suas capacidades, também as nossas mentes e almas necessitam de uma diversidade de experiências (boas e más) que permitam o seu crescimento espiritual.

Deus criou o universo com capacidade auto-organizativa e dotado de uma estrutura e leis estáveis, nas quais existem contingências e acidentes, bons e maus. Apenas num mundo com estas características, se pode desenvolver o carácter moral de um ser humano.

As contingências do mundo fazem parte de um processo criativo divino, cujo propósito é permitir que todos nós que vivemos neste mundo autónomo (em que o Criador não é evidente) possamos desenvolver livremente os nossos atributos morais e espirituais. Neste mundo real, onde tomamos decisões reais, envolvendo riscos e oportunidades; temos liberdade para fazer boas e más acções; temos possibilidades reais de sucesso ou fracasso.

Se Deus estivesse constantemente a proteger-nos da dor e do sofrimento, Ele teria de interferir constantemente nas leis naturais e mudar o rumo dos acontecimentos. Seria um mundo viciado. Se vivêssemos num mundo paradisíaco, livre de dor, tensão e sofrimento, ninguém poderia ajudar ou prejudicar outros, pois não existiriam carências, perigos ou danos.

Só num mundo imperfeito nos podemos deparar com opções morais, e podemos iniciar o desenvolvimento espiritual. Assim, um mundo onde as almas se podem desenvolver não pode ser um paraíso.

O mundo em que vivemos (com leis naturais estáveis, onde nos deparamos com problemas, desafios e dificuldades) possui as condições necessárias ao desenvolvimento espiritual do ser humano.

Os ensinamentos Baha’is descrevem este mundo como um local onde nos preparamos para uma existência espiritual eterna que um dia todos experimentaremos. Numa carta dirigida a uma mãe que tinha perdido um filho, 'Abdu'l-Bahá escreveu:
Ó serva amada de Deus! Embora a perda de um filho seja verdadeiramente de partir o coração e esteja para lá dos limites da capacidade humana, ainda assim, a pessoa que sabe e compreende tem a certeza que o filho não foi perdido, mas pelo contrário, passou deste mundo para outro, e ela encontrá-lo-á no reino divino. Esse encontro será para a eternidade, enquanto neste mundo a separação é inevitável e traz consigo uma dor ardente. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 171)
‘Abdu’l-Bahá descreve a perda de um filho como uma dor que está para lá da capacidade humana. Se é verdade que alguns de nós têm de suportar esse tipo de dor desproporcional, também fica clara promessa de ‘Abdu’l-Bahá de que o sofrimento está confinado a este mundo e que nos reinos divinos as almas se reencontrarão.

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Versão em inglês: Can Suffering Be Fair and Proportional? (bahaiteachings.org)


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Pressupostos para compreender o Sofrimento


Todas as tentativas de compreender a questão da teodiceia (explicar porque é que Deus permite a existência do Mal) têm como base um determinado entendimento da vida e do propósito da nossa existência.

Assim, antes de tentar responder a algumas questões sobre este tema é importante deixar claro algumas ideias e conceitos. Vamos começar com as próprias palavras “sofrimento” e “mal”. O sofrimento humano tem duas causas: natural e humana.

Como sabemos, existem fenómenos naturais – tempestades, terramotos, tsunamis, erupções vulcânicas, secas, epidemias - que podem causar – e de facto causam – grande sofrimento. A ciência mostra que estes desastres, grandes ou pequenos, resultam de leis naturais que governam o nosso universo. Não podem ser considerados actos malignos porque não existiram opções morais que tenham levado a estes eventos. Assim, não podemos descrever um terramoto ou uma epidemia como “mal”, independentemente da escala do sofrimento que possam causar. Neste conjunto de artigos irei designar estes fenómenos como “sofrimento natural”.

Coluna de refugiados durante a Guerra da Coreia (1951)
Por outro lado, as acções humanas cometidas com o objectivo deliberado de causar sofrimento, dor ou morte exigem uma opção moral. Consideramos que a guerra ou um assalto como “mal”, pois os seus perpetradores sabem antecipadamente que vão provocar sofrimento. Nesta série de artigos vou designar este tipo de acções como “mal”.

Sabemos que o mundo em que vivemos não é um paraíso. Nós, seres humanos não somos perfeitos; temos falhas, e por vezes, naturezas violentas. Também sabemos que somos animais racionais, capazes de escolhas e juízos morais. E também sabemos que somos fruto de um lento e contínuo processo de evolução.

No mundo em que vivemos a presença de Deus não é evidente (existe a tal «distância epistémica»). Temos liberdade e autonomia em relação ao nosso Criador (é o chamado «livre arbítrio»). Tomamos consciência do Criador através de um acto livre de interpretação da realidade (acreditamos que existe algo que nos transcende; temos «fé»).

Com estes pressupostos e definições podemos formular algumas questões e procurar respostas.

As escrituras Bahá’ís dizem-nos que o nosso distanciamento em relação a Deus é uma característica própria da nossa condição humana; não é uma imperfeição moral (ou uma natureza imperfeita!) e tem uma razão de ser no propósito de Deus para a nossa existência. A actual situação humana - com todas as suas ambiguidades - não é fruto de um acto maligno que tentou subverter a vontade de Deus, mas representa uma fase da nossa evolução espiritual enquanto espécie.

Segundo a Fé Bahá’í, a vida terrena não é a totalidade da existência humana. As nossas almas evoluem para uma forma de existência mais espiritual após a morte do corpo físico. Mas é durante a vida física que se inicia um processo - não coercivo - de desenvolvimento espiritual, desenvolvimento esse que prossegue após a morte do corpo físico. O sofrimento, segundo a perspectiva Bahá’í, é um elemento chave nesse desenvolvimento espiritual.

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Versão em inglês: A Starting Point for Understanding Suffering (bahaiteachings.org)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Porque sofremos?


Quando olhares ao teu redor com olhos perspicazes, notarás que nesta terra de pó todos os seres humanos sofrem. Aqui nenhum homem encontra descanso como recompensa por aquilo que fez em vidas passadas, nem há ninguém tão abençoado que pareça estar a colher o fruto de uma angústia de tempos idos. E se a vida humana, com a sua existência espiritual, estivesse limitada a este período terreno, qual seria então o fruto da criação? De facto, quais seriam os efeitos e os resultados da própria Divindade? (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 184)
Para que serve o sofrimento? Qual a sua origem? Qual a sua utilidade? Porque parece ser tão brutal e aleatório?

Questões como estas são tão antigas como a humanidade. E as sucessivas explicações que filósofos e teólogos têm apresentado sempre foram alvo de muitos e prolongados debates. Uma coisa parece certa: o sofrimento é inerente à condição humana. Por outras palavras, todo o ser humano experimenta o sofrimento em algum momento na sua vida.

Todas as grandes religiões mundiais procuraram apresentar explicações para a existência do sofrimento. Algumas afirmam que todo o sofrimento faz parte do processo de desenvolvimento da alma no seu caminho em direcção ao Criador. E acrescentam que mesmo que nesta vida não consigamos ver algum benefício, no decorrer da nossa existência encontraremos algum benefício resultante desse sofrimento. Vejamos de forma abreviada o que dizem as grandes religiões mundiais sobre o assunto:

  • O Hinduísmo considera o sofrimento dos indivíduos num contexto mais amplo de um ciclo cósmico de nascimento, vida, destruição e renascimento. A maioria dos hindus vê o sofrimento como uma punição pelos pecados cometidos nesta vida ou em vidas passadas. Mesmo uma pessoa aparentemente inocente que não se libertou do mau karma de vidas passadas pode sofrer essa punição.
  • Para a maioria das escolas Budistas, toda a vida é sofrimento causado pelo apego às coisas mundanas. Este apego, que pode assumir a forma de ganância, ódio e ignorância nesta vida e em vidas passadas, pode regressar como mais sofrimento (karma), a menos que seja mitigado. O sofrimento não é necessariamente um castigo divino, mas sim algo que deve ser superado através do desprendimento em relação a objectos e relacionamentos materiais.
Crianças num campo de concentração
  • O Antigo Testamento contém algumas histórias onde se descreve que o sofrimento se deve à fraqueza na devoção a Deus. Muitos Judeus acreditam que parte do sofrimento também se deve ao livre arbítrio que Deus concedeu aos seres humanos, e que o Seu propósito ao permitir o sofrimento dos inocentes deve ser bom, apesar de misterioso. Durante muitos séculos, o livro de Job marcou profundamente a visão judaica sobre o sofrimento e mais recentemente, após o Holocausto o tema voltou a ser profundamente debatido por vários pensadores judaicos.
  • No Islão, o sofrimento - suportar a dor ou uma perda - é um caminho na submissão à vontade de Deus. Algum sofrimento é obra de Satanás ou é trabalho dos seus associados no mundo dos espíritos (os “jinn”) e é permitido por Deus como um teste à humildade e à fé. Muitos Muçulmanos acreditam que o sofrimento e a adversidade fortalecem a fé pessoal, e também que a dor leva muitas vezes ao arrependimento, à oração e às boas obras.
  • No Cristianismo, o relato sobre Adão e Eva no livro dos Génesis foi adoptado durante muitos séculos como uma justificação da existência do sofrimento. Tipicamente, acreditava-se que teria existido um passado de perfeição, no qual os seres humanos teriam caído em pecado. Hoje todos seríamos pecadores desde que nascemos. Jesus Cristo teria surgido para nos redimir dos nossos pecados, e os frutos da vida de cada ser humano podem levar a pessoa à condenação eterna ou a alcançar a salvação.
Hoje muitos cristãos consideram que o relato da criação é simbólico. Os conceitos de “queda” ou “condenação eterna” são considerados como expressões mitológicas de um processo de tomada de consciência. Mas apesar dessa nova interpretação, ainda existe um número significativo que acredita na história de Adão e Eva como uma verdade literal.
Este breve resumo das várias explicações e justificações para a existência de sofrimento nas principais religiões do mundo apenas toca superficialmente um dos debates mais profundos e persistentes da humanidade.

No século XVII, o filósofo alemão Leibniz apresentou o conceito de Teodiceia, no qual tentava demonstrar que a presença do sofrimento no mundo não entra em conflito com a bondade de Deus. Leibniz acreditava que o sofrimento trazia consigo um bem maior, ou impedia um mal ainda maior; por esse motivo, dizia ele, vivíamos no “melhor mundo possível”.

Cem anos mais tarde, Voltaire rejeitou frontalmente o conceito de Teodiceia, dando como exemplo o terramoto de Lisboa em 1755 onde morreram milhares de pessoas. Para este filósofo francês, o sofrimento surge de forma aleatória, brutal e injusta, parecendo imerecido e excedendo tudo o que seria expectável.

Também durante o Iluminismo, o filósofo escocês David Hume recuperou as antigas questões de Epicuro: “Ele deseja impedir o mal, mas não é capaz? Então não é omnipotente. Ele é capaz, mas não deseja? Então é malévolo. Ele é capaz e está disposto? Então de onde vem o mal?”

Após muitos séculos de debates teológicos e filosóficos, as questões permanecem: Se Deus é perfeito, porque é que não vivemos num mundo perfeito? Considerando a realidade do pecado e do sofrimento, será que Deus existe? Se é necessário que exista o sofrimento, porque é que ele não surge de forma proporcional e justa? Porque é que Deus permite o sofrimento de pessoas inocentes, especialmente as crianças? Será que foi Deus que criou o sofrimento? Onde está Deus no meu sofrimento?

Nesta série de ensaios, vamos olhar estas questões com objectividade e ver se podemos encontrar algumas respostas satisfatórias. Vamos explorar a perspectiva Baha'i sobre o sofrimento – uma perspectiva única entre todas as grandes religiões do mundo - e examinar a sua relação com a questão profunda 'Abdu'l-Bahá coloca: " E se a vida humana, com a sua existência espiritual, estivesse limitada a este período terreno, qual seria então o fruto da criação?"

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Versão em inglês: Why Do We Suffer? (bahaiteachings.org)

sábado, 6 de dezembro de 2014

Os Iconoclastas e a Religião: destruir os ídolos

Por David Langness.

... A Essência de Deus é incompreensível, assim como também são os mundos além deste e a sua condição. É concedida ao homem a capacidade para obter conhecimento, para atingir a grande perfeição espiritual, para descobrir verdades ocultas e até manifestar os atributos de Deus; mas, apesar disso, o homem não pode compreender a essência de Deus. Quando o sempre crescente círculo do conhecimento do homem se encontra com o mundo espiritual, um Manifestante de Deus é enviado para espelhar o Seu esplendor. ('Abdu'l-Bahá, 'Abdu'l-Baha in London, p. 66)
O leitor considera-se um iconoclasta?

Geralmente, usamos esse termo para referir as pessoas que desafiam o dogma, as crenças ou as instituições tradicionais quando julgam que as ideias e conceitos amplamente aceites estão erradas. Mas a palavra nem sempre teve esse significado.

Consegue adivinhar de onde veio a palavra? Sim, você provavelmente está a pensar correctamente que a origem da palavra é ícone, que originalmente se aplicava a ícones religiosos, aquelas representações físicas da Divindade que algumas pessoas de facto adoravam. Iconoclasta originalmente significava alguém que deliberadamente destruía ícones e imagens religiosas. [Iconoclasta vem do grego Eikon, que significa imagem; e o verbo grego klaein, que significa quebrar.] Em sentido inverso, a iconodulia significa a adoração de ídolos, ícones, estátuas, ou, por extensão, alguém que venera os sistemas de crenças tradicionais.

Abraão destruindo os ídolos
Visto desta maneira, os grandes iconoclastas foram os fundadores e os profetas de grandes religiões mundiais - Abraão, Moisés, Jesus, Maomé e Bahá'u'lláh, por exemplo - que destruíram todos os ídolos, de forma literal ou figurativa. Eles revolucionaram o mundo da fé, mudando a vida de milhões de pessoas e fazendo evoluir o conhecimento espiritual do mundo, desafiando sempre a tradição e o dogma aceites, substituindo-os por um novo conjunto de ensinamentos. Eles destruíram os nossos ícones, e pediram-nos que víssemos para lá do material, para o espiritual.

O leitor pensa em si próprio como um iconoclasta ou um iconodulista? Se se sente mais atraído mais pelo ponto de vista iconoclasta, provavelmente concorda que é disparatado tentar entender Deus de forma literal e fundamentalista, ou até mesmo pensar num Criador em termos humanos limitados.

Também é exactamente isso que as escrituras Bahá’ís afirmam. Os Bahá’ís acreditam que os seres humanos necessitam de um intermediário para começar a entender um Deus, que em última análise é incognoscível. Esses intermediários - os profetas e fundadores das grandes religiões do mundo, esses poderosos mensageiros que os ensinamentos Bahá'ís descrevem como "Manifestantes de Deus" - trazem-nos provas reais dos atributos de Deus. Nas suas vidas, nas suas condutas, no seu amor por toda a humanidade, esses Manifestantes dão-nos uma noção do potencial das nossas próprias almas, em que lugar gracioso que 'Abdu'l-Bahá refere como "o círculo cada vez maior do conhecimento do homem que encontra o espiritual mundo ".

Este parágrafo único de Bahá'u'lláh, o profeta e fundador da Fé Bahá'í, resume de forma única e lógica a forma como os Bahá’ís vêem esta verdade fundamental:
A porta do conhecimento do Ser Antigo sempre esteve, e sempre estará, fechada perante a face dos homens. Nenhuma compreensão humana conseguirá jamais ter acesso à sua Corte sagrada. Como um sinal da Sua misericórdia, porém, e como uma prova da Sua amorosa bondade, Ele tem manifestado aos homens os Sóis da Sua orientação divina, os Símbolos da Sua unidade divina, e ordenou o conhecimento destes santificados seres fosse idêntico ao conhecimento do seu próprio Ser. Quem os reconheceu, reconheceu Deus. Quem escutou o seu chamamento, escutou a Voz de Deus, e quem testemunhou a verdade da sua revelação, testemunhou a verdade de Deus. Quem se afastou deles, afastou-se de Deus, e quem não acreditou neles, não acreditou em Deus. Cada um deles é o Caminho de Deus que liga este mundo com os reinos do além, e é o Estandarte da Sua Verdade para todos os que estão nos reinos da terra e do céu. Eles são os Manifestantes de Deus entre os homens, as evidências da Sua verdade, e os sinais da Sua glória. (Bahá'u'lláh, Seleção dos Escritos de Bahá'u'lláh, sec. XXI)
Esta mensagem profunda, a mesmo que Cristo proferiu quando disse: "Quem me vê, vê o Pai" (Jo, 14:9), aparece repetidamente ao longo da história. Os Manifestantes de Deus demonstram os atributos radiantes do Criador - amor, paz, unidade, bondade, conhecimento, compreensão e compaixão. Quer se chamem Buda, Moisés, Cristo ou Bahá'u'lláh, esses Mensageiros transmitem ao mundo os mistérios de Deus, tendo vidas de enorme sacrifício para transmitir os Seus ensinamentos.

Será que isso significa, de alguma forma, que Deus Se torna um ser humano e desce à terra? Esta ideia, o conceito de encarnação, afirma que Deus assume uma forma humana. A resposta é um Não definitivo. Os ensinamentos Bahá’ís declaram:
O sol não deixa o seu lugar no céu e desce para o espelho, pois os actos de subir e descer, ir e voltar, não pertencem ao Infinito; tratam-se de métodos de seres finitos. No Manifestante de Deus, o espelho polido perfeito, surgem as qualidades do Divino numa forma que o homem é capaz de compreender. ('Abdu'l-Baha, Paris Talks, p. 25)
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Texto original: Iconoclasts and Religion - Smashing the Idols (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.