sábado, 28 de março de 2015

Provas da Existência de Deus

Por Gregory Samsa e Jerry Schoendorf.



Talvez o erro mais comum que os cientistas têm sobre a religião é pensar que ela requer uma crença na existência física de Deus. O cientista ouve, ou acredita que ouve, algo parecido com o seguinte de uma pessoa de fé: "a criação está incompleta sem Deus. Deus é logicamente necessário para a existência do mundo, para o milagre da vida para ter ocorrido, e devido a fenómenos religiosos que acontecem. Em última análise, a autoridade religiosa deriva da obediência a um Deus todo-poderoso. Qualquer discussão sobre a religião acaba por ser uma discussão a respeito de Deus".

Esta crença incorrecta, apoiada por várias "provas" da existência de Deus apresentadas desde a Idade Média até aos dias actuais, tem dificultado o diálogo. Exemplos dessas "provas" incluem:

"Toda acção tem uma causa, portanto, Deus deve ser a primeira causa",

"O universo é maravilhoso demais para não ter um criador",

"O universo foi literalmente criado conforme descrito em Génesis", e assim por diante.

Muitos cientistas têm examinado o significado material de cada uma dessas chamadas “provas”, de acordo com os padrões da ciência, e encontram-lhes falhas. E consequentemente, seguindo a regra do elo mais fraco, rejeitam a religião. Essa tendência vai aumentar no futuro, à medida que a ciência avança para explorar os primeiros milésimos de segundo do Universo; a clonagem, que nos aproxima da criação da vida; a consciência humana, entendida como uma série de reacções bioquímicas no cérebro; as experiências quase-religiosas estimuladas electronicamente; a utilização de modelos de computador que explicam a vantagem evolutiva da compaixão, do altruísmo, de outras características proto-religiosas, e assim por diante.

O que provoca essa situação desagradável para as pessoas de fé? Como é que elas respondem à "desmitologização" da crença e da prática religiosa do passado? E mais importante: os aspectos supersticiosos de muitos dos nossos pressupostos sobre religião estão a ser eliminados. Qual deve ser a nossa resposta?

Primeiro de tudo, e mais importante que tudo: não sabemos nada sobre Deus - absolutamente nada. Nunca seremos capazes provar, através de meios lógicos ou materiais, exigidos pela ciência, que Deus existe. Como poderíamos fazer isso? Como poderia um Criador Todo-Poderoso ser algo sobre o qual nós tivéssemos capacidade suficiente para o entender ou descrever? Aqui não existe matéria que seja objecto de teste ou de hipótese científica. Nunca poderemos ver Deus, ouvir Deus, sentir Deus ou tocar em Deus de uma forma que um cientista aceite.

 Os ensinamentos Bahá'ís dizem:
Para todo o coração perspicaz e iluminado, é evidente que Deus, a Essência Incognoscível, o Ser Divino, está imensamente elevado acima todos os atributos humanos, tais como existência corpórea, subida e descida, saída e regresso. Está longe da Sua glória que a língua humana consiga celebrar adequadamente o Seu louvor, ou que o coração humano compreenda o Seu mistério insondável. Ele está, e sempre tem estado, velado na eternidade antiga da Sua Essência, e permanecerá na Sua Realidade oculto para sempre da vista dos homens. (Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh, sec. XIX).
Também a filosofia, usando argumentos lógicos, não consegue provar que Deus existe. Dizer que algo existe, é contê-lo e defini-lo. Um Deus cuja existência pode ser demonstrada logicamente não é essencialmente diferente de um Deus que possa ser visto, e tudo o que Deus "é" (ou não é) deve, por definição, ser muito mais poderoso do que isso.

Assim, parece que estamos a perder todas as bases lógicas de um diálogo com um cientista sobre Deus e espiritualidade. Se a religião recebe a sua autoridade de Deus, e não conseguimos provar ou demonstrar de forma científica a existência de Deus, qual a base razoável para um cientista aceitar, ou considerar, a religião?

Os ensinamentos Bahá'ís indicam que mentes racionais e científicas admitem que o conceito de infinito, incompreensível e incognoscível é provável ou demonstrável. Consideremos o seguinte: as ciências, a matemática e a física utilizam o conceito de infinito. Os cientistas apresentam o infinito como um conceito abstracto, mas muito útil, prontamente aceite e até mesmo necessário para a sua compreensão básica das suas disciplinas.

Assim, da mesma forma que pensamos na ideia de infinito, poderia ser útil cientificamente sugerir que as questões em torno do conceito de Deus são hipóteses não-testáveis. Ou seja, no fundo, estão fora do âmbito e da demonstrabilidade da ciência. (Nota: uma hipótese não-testável não significa apenas que a hipótese não pode ser provada, mas também que não pode ser refutada Jamais um cientista desmentiu a existência de Deus.) Esta clarificação deve permitir duas coisas: Primeiro: desliga o interruptor "dúvida e refutar" dentro da cabeça do cientista. Segundo: liga igualmente um interruptor da “curiosidade” na cabeça do cientista.

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Texto original: Proof of the Existence of God (bahaiteachings.org)

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Gregory Samsa é director de estudos de pós-Graduação no Departamento de Bioestatística e Bioinformática na Universidade de Duke (EUA), e entre os seus interesses intelectuais está a desconstrução da prática estatística em componentes que podem ser estudadas cientificamente. Um pai de 5 filhos e treinador de futebol em escolas de ensino secundário.

Jerry Schoendorf é um ilustrador médico reformado e anaplastologista que trabalhou na Universidade de Duke e mais tarde num consultório particular em Durham (Carolina do Norte, EUA). Vive em Chapel Hill, Carolina do Norte, onde se dedica à ilustração, apicultura, e olaria.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Lembram-se do pequeno Artin?

Lembram-se do pequeno Artin, cujos pais estavam presos por serem ‪Baha'is‬?

É aquele rapazinho a quem o dissidente iraniano Mohammad ‪Nourizad‬ beijou os pés, e que posteriormente, o pai lhe escreveu uma carta.

Pois, durante o ‪‎Naw-Ruz‬ a mãe teve permissão para se ausentar da prisão durante quatro dias.

A foto abaixo diz tudo sobre a emoção desse momento.



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Sobre o pequeno Artin:
-- Seguindo exemplo do Papa, dissidente Iraniano beija os pés de criança Bahá’í
-- Na prisão, o pai do pequeno Artin responde a Nourizad

terça-feira, 24 de março de 2015

Definição de anti-Cristo

Por Tom Tai-Seale.


Talvez a pior coisa que um Cristão pode dizer a uma pessoa que adere a uma nova religião é que ela está a seguir o "anti-Cristo".

A Bíblia tem quatro referências à palavra "anti-Cristo" e uma referência a "anti-Cristos." Nenhuma destas foi feita por Jesus. Quatro das cinco referências surgem na Primeira Carta de João. Esta carta foi escrita para proteger os cristãos inexperientes de falsas doutrinas que tinham surgido no seio do Cristianismo. Nas duas primeiras referências lemos: "Ouvistes dizer que há-de vir um anti-Cristo; pois bem, já apareceram muitos anti-Cristos; por isso reconhecemos que é a última hora." (1 Jo 2:18). Quem eram estes anti-Cristos, é descrito na referência seguinte onde se lê: "Quem é, então, o mentiroso? Quem é, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse é o Anticristo, aquele que nega o Pai e igualmente o Filho." (1 Jo 2:22).

A Fé Bahá'í sustenta firmemente que Jesus era o Cristo. Bahá'u'lláh escreve sobre a rejeição judaica do Messias, Jesus:
E quando os dias de Moisés terminaram, e a luz de Jesus, brilhando na alvorada do Espírito, envolveu o mundo, todo o povo de Israel se levantou em protesto contra Ele. Vociferavam que Ele cujo advento da Bíblia tinha predito devia necessariamente promulgar e cumprir as leis de Moisés, enquanto este jovem Nazareno, que reivindicou a condição de Messias divino, tinha anulado as leis do divórcio e do sábado - as mais significativas de todas as leis de Moisés. Além disso, onde estavam os sinais do Manifestante que estava por vir? Este povo de Israel, ainda no dia de hoje, está à espera do Manifestante que a Bíblia predisse! Quão numerosos os Manifestantes da Santidade, quão numerosos os Reveladores da eterna luz que apareceram desde o tempo de Moisés, e, no entanto, Israel, envolta nos mais densos véus de fantasia satânica e falsas imaginações, ainda aguarda que o ídolo da sua própria obra surja com sinais como ela própria concebeu! (Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh, sec. XIII).
E 'Abdu'l-Bahá, diz o seguinte sobre Cristo:
Vê quantos reis conquistadores existiram, quantos estadistas e príncipes, organizadores poderosos; todos eles desapareceram, enquanto as brisas do Cristo ainda sopram; a Sua luz ainda resplandece; a Sua melodia ainda ecoa; o Seu estandarte ainda flutua; os Seus exércitos ainda lutam; a Sua voz celestial ainda é docemente melodiosa; das Suas nuvens ainda chovem preciosidades; o Seu relâmpago ainda cintila; o Seu reflexo é ainda claro e brilhante; o Seu esplendor ainda é radiante e luminoso; e o mesmo acontece com aquelas almas que estão sob a Sua protecção e brilham com a Sua luz. (Respostas a Algumas Perguntas, cap. 38)
Os Bahá'ís não podem, de forma alguma, ser descritos como anti-Cristos. Na verdade, os Baha'is reverenciam Cristo e os Seus ensinamentos.

Imagem do anti-Cristo num Mosteiro Macedónio
João tinha uma preocupação particular quando escreveu os versículos sobre os anti-Cristos. Um grupo de cristãos conhecidos como docetistas alegava que a forma humana de Jesus era uma ilusão. João estava ansioso por rejeitar essa falsa noção. A sua preocupação com os ensinamentos docetistas reflecte-se claramente na última referência ao anti-Cristo na sua primeira carta:
Reconheceis que o espírito é de Deus por isto: todo o espírito que confessa Jesus Cristo que veio em carne mortal é de Deus; e todo o espírito que não faz esta confissão de fé acerca de Jesus não é de Deus. Esse é o espírito do anti-Cristo, do qual ouvistes dizer que tem de vir; pois bem, ele já está no mundo. (1 Jo 4,2-3)
Este mesmo tema continua na Segunda Carta de João, onde surge a quinta e última referência a um anti-Cristo: "É que apareceram no mundo muitos sedutores que afirmam que Jesus Cristo não veio em carne mortal. Esse é o sedutor e o anti-Cristo!" (2 Jo 1:7).

É claro que os Bahá'ís acreditam que Jesus veio na carne, como um ser humano de verdade, um Manifestante de Deus.

Na Bíblia, um anti-Cristo refere simplesmente aqueles que se opõem ou negam o Escolhido de Deus. Nos dias de Jesus, alguns quiseram negar o Seu papel como o Escolhido de Israel; outros, por razões teológicas, quiseram negar que Jesus tinha um corpo humano. Os Bahá'ís negam nenhuma das duas.

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Texto Original: Defining the Anti-Christ (bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A & M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

domingo, 22 de março de 2015

O que significa uma verdadeira Liderança

Por Payam Akhavan.
A leitura da história nos leva à conclusão de que todos os homens verdadeiramente grandes, os benfeitores da humanidade, aqueles que conduziram os homens a amar o bem e a odiar o mal, e que causaram um verdadeiro progresso, todos eles foram inspirados pela força do Espírito Santo. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 165)
(Este artigo é uma adaptação do discurso do Prof. Payam Akhavan na Cerimónia de Abertura da McGill University Model United Nations em 22 de Janeiro de 2015, em Montreal, no Canadá.)

No mundo de hoje, o que significa ser líder?

De minha própria experiência de trabalho como um investigador de direitos humanos das Nações Unidas, percebi que liderança não tem a ver com estatuto VIP. Não se trata de políticos carismáticos e celebridades de Hollywood. Não se trata de aparecer na CNN. Não se trata de dominar ou controlar os outros. Não se trata de acumular riqueza obscena.

Liderança é acima de tudo empatia; é a coragem e a compaixão para sentir a dor dos outros; é o poder e o discernimento para substituir o egoísmo pelo altruísmo.

Se pensarmos nos líderes que verdadeiramente têm inspirado mudanças no mundo, aqueles que nos dão esperança num futuro melhor, percebemos que eles têm um aspecto comum. Vemos que, apesar deles terem vivido em diferentes períodos históricos e em culturas diferentes, e de terem enfrentado desafios diferentes, todos eles partilharam uma experiência comum: o sofrimento

Os Gandhis, os Luther Kings, os Mandelas deste mundo, todos eles sofreram. Todos eles pagaram um preço por aquilo em que acreditavam. Eles não confundiram palavras bonitas com boas acções. Eles não se deixaram escravizar pelos seus confortos e interesses egoístas. Eles estavam livres em espírito, dispostos a sentir dor no caminho da justiça, e a ser desinteressados na sua luta contra a injustiça.

Na verdade, eles tinham uma atitude completamente diferente em relação ao poder. Eles não desejavam o poder. Pelo contrário, o seu poder veio directamente de não desejarem o poder para seu próprio benefício. O seu poder veio de uma fonte superior.

Quantos líderes políticos nos dizem que apenas querem o poder para fazer o bem? E porque são tão poucos os que realmente acabam por fazer o bem, à medida que se deixam corromper e aceitam compromissos no caminho traiçoeiro que conduz ao poder? Este é o mundo cínico dos que são demasiado fracos para resistir às tentações egoístas, dos que tentam mascarar a sua indiferença com palavras ilusórias e vazias.

Temos que reconhecer que esta concepção de poder não tem qualquer significado. É apenas uma ilusão. A verdadeira liderança - a liderança moral - surge quando não se quer o poder pelo poder. A verdadeira liderança começa com uma conversa autêntica com o nosso próprio eu interior, com um sincero desejo de sentir a dor dos outros, de ajudar aqueles que sofrem, não por causa da recompensa ou do reconhecimento, mas por causa da dimensão da nossa própria consciência. Para alcançar a grandeza, devemos alcançar a humildade. Para ser mestre da humanidade, primeiro é preciso ser servo da humanidade.

Para refazer a imagem do mundo, também temos de refazer o conceito de poder e de responsabilidade pessoal, de liderança nas bases, e muitas vezes contra tudo e contra todos.

Mães da Plaza de Mayo, Argentina
Consideremos a coragem heróica das Mães da Plaza de Mayo que confrontaram a ditadura militar na Argentina. Elas desafiaram os poderosos generais e protestaram frente ao palácio presidencial, exigindo saber o destino dos seus filhos que tinham desaparecido durante a chamada "Guerra Suja" da década de 1970. Consideremos as Mães de Srebrenica que durante tantos anos exigiram justiça para genocídio bósnio de 1995 que custou a vida aos seus filhos e maridos. Ou no meu país de origem, o Irão, de onde tenho estado exilado durante tantos anos por ser Bahá'í, consideremos as extraordinárias Mães de Khavaran, o nome do bairro onde os seus filhos foram lançados numa vala comum após a execução em massa de presos políticos em 1988.

Estas corajosas mães enfrentaram espancamentos e prisões apenas por chorar os seus entes queridos. Mas elas nunca pararam de falar, de chorar e exigiram justiça. Consideremos o poder de uma mãe que perdeu o seu filho. Que força pode atravessar-se no seu caminho, enquanto ela chora pela redenção da sua perda irreparável? E a sua coragem contrasta com a cobardia daqueles oportunistas e bandidos que matam os inocentes, e têm tanto medo da verdade que nem sequer deixar uma mãe chorar no túmulo do seu filho. A violência destes homens emana da sua fraqueza, surge da sua necessidade desesperada de poder, da sua incapacidade até para reconhecer a sua própria humanidade.

Ao longo da minha carreira, conheci muitos líderes famosos. Mas aqueles homens e mulheres que mais me inspiraram, aqueles que me têm mostrado o poder e a resistência do espírito humano, aqueles que me enchem de esperança em relação ao futuro da humanidade, são aqueles que você provavelmente nunca ouviu falar. Eles são os heróis anónimos deste mundo, aqueles que trabalham em silêncio e com amor, que querem ajudar os outros, não por fama ou riqueza, mas devido à sua própria inquietação e compaixão por outros seres humanos.

Dag Hammarskjöld
Todos nós temos um papel a desempenhar. Todos nós temos que assumir a nossa parte do fardo, na luta por um mundo melhor. A questão que devemos colocar a nós próprios é: em que é que eu acredito, e qual o preço que estou disposto a pagar para ser fiel aos meus princípios, para ser fiel ao mim próprio?

Considero-me culpado pelo falhanço da liderança quando ouço duras críticas aos que detêm poder neste mundo. Assim como pequena redenção, vou concluir com as palavras de um líder mundial que ousou ser diferente; que não permitiu que o seu estatuto eminente obscurecesse as suas mais profundas crenças e princípios morais. Falo do diplomata sueco Dag Hammarskjöld, o Secretário-Geral das Nações Unidas desde 1953 até à sua morte prematura em 1961, num estranho acidente de avião no Congo.

Hammarskjöld tinha de se mover no mundo cínico da política da Guerra Fria na ONU. Teve de lutar para manter a sua independência e integridade, para não se tornar um instrumento de interesses específicos de algumas nações. Diz-se que após a sua morte, os amigos descobriram um poema profético escrito na sua Bíblia. O poema descreve de forma belíssima o que muitos sentiram com a terrível perda deste líder visionário e corajoso. Deixo-vos com as mesmas palavras para reflectirem na vossa busca por um significado e um propósito:
No dia que nasceste todos estavam felizes - tu choraste sozinho. Segue tua vida de tal maneira, que, na tua derradeira hora todos chorem e tu sejas o único sem uma lágrima para derramar!

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Texto Original: On the Meaning of True Leadership (bahaiteachings.org)

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Payam Akhavan é professor de Direito na Universidade Internacional McGill, em Montreal (Canadá) e professor convidado na Universidade de Oxford (Reino Unido). Já trabalhou como procurador da ONU em Haia, e também trabalhou com as Nações Unidas sobre os direitos humanos na Bósnia, Cambodja, Guatemala, Ruanda e Timor Leste.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Sobre o Falhanço da Liderança

Por Payam Akhavan.


O bem-estar da humanidade, a sua paz e segurança, são inatingíveis, a não ser que, primeiro, se estabeleça firmemente sua unidade. (Bahá'u'lláh, SEB, sec. CXXXI)

Bahá'u'lláh ensinou que um padrão comum de direitos humanos deve ser reconhecido e adotado. Na perspectiva de Deus todos os homens são iguais; não há distinção ou preferência por qualquer alma no domínio da Sua justiça e equidade. ('Abdu'l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, p. 181)

(Este artigo é uma adaptação do discurso do Prof. Payam Akhavan na Cerimónia de Abertura da McGill University Model United Nations em 22 de Janeiro de 2015, em Montreal, no Canadá.)

Muita coisa mudou no mundo durante a última década, mas o que permanece igual é a importância vital das Nações Unidas, assim como a necessidade imperativa de um fórum global onde os líderes mundiais possam reflectir, fazer diplomacia e encontrar soluções para os graves desafios enfrentados pela humanidade.

Winston Churchill proferiu a famosa frase de que "a diplomacia é a arte de dizer às pessoas para irem para o inferno, de tal maneira que elas nos perguntem qual é o caminho." O actor e comediante americano, Will Rogers, formulou outra definição em 1930: "Diplomacia é a arte de dizer «Cãozinho bonito!» até se encontrar uma pedra"

Qualquer que seja a definição de diplomacia, todos podemos concordar que o debate e o diálogo são preferíveis à guerra e à violência.

Hoje, o mundo que testemunhamos reflecte a sua liderança, ou melhor, o falhanço da sua liderança. O ódio, a guerra, o terrorismo, o genocídio, a ganância, a pobreza, a doença, a fome, o envenenamento do nosso planeta, todas estas aflições, todas estas fontes de sofrimento humano, são apenas um espelho que reflecte as escolhas feitas por aqueles que estão no poder.

Comecei a minha carreira nas Nações Unidas, com pouco mais de vinte anos. Sair da universidade para uma zona de guerra foi um despertar violento. Uma coisa é para falar sobre os ideais numa sala de aula, e outra é ver a realidade do sofrimento humano. Eu tinha-me formado na Harvard Law School e estava confiante que tinha todas as respostas. Acreditava na missão da ONU. Acreditava nos direitos humanos. Sabia tudo o que havia para saber sobre direito internacional.

Capacetes Azuis na antiga Jugoslávia
Quando rebentou a guerra na Jugoslávia em 1991, eu estava entre os primeiros no terreno. Era investigador idealista dos direitos humanos, pronto a testemunhar os horrores da "limpeza étnica" e do genocídio. Lembro-me da emoção ao colocar o meu capacete azul das Nações Unidas pela primeira vez, de voar nos helicópteros brancos e nos aviões de carga da ONU para Vukovar e Sarajevo, de fugir às bombas e aos tiros e de viver no limite. Mas nenhuma das minhas qualificações académicas, nenhuma quantidade de auto-confiança profissional, me tinha preparado para as cenas horríveis que iria testemunhar nos anos que se seguiram.

Vi belas cidades reduzidas a escombros, famílias sem tecto deambulando no frio do inverno à procura de comida e abrigo, a dor indescritível dos sobreviventes de violação e tortura nos campos de concentração, e, claro, as imagens inesquecíveis de mães chorando e olhando para os seus filhos em valas comuns. Foi uma experiência profundamente mortificante, sair da aprendizagem teórica e da ambição profissional, para sentir a realidade íntima das pessoas que deviam ser protegidas pela ONU. E depois, ir das aldeias da Bósnia onde vi famílias que tinham sido queimadas vivas, para as reuniões do Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra, onde o eufemismo diplomático e as resoluções cuidadosamente formuladas limpavam realidades desagradáveis e criavam a ilusão de progresso.

O pior foi em 1994 quando, apesar de repetidas avisos de que um genocídio estava prestes a acontecer, o mundo abandonou o povo do Ruanda. Em vez de protegerem civis, a ONU retirou as suas forças de paz, sabendo o terrível destino que aguardava aqueles que tinham sido abandonados. Enquanto diplomatas justificavam as suas políticas cínicas com terminologia sofisticada, quase um milhão de civis eram exterminados.

A minha querida amiga Esther Mujawayo entrou em pânico quando recebeu as notícias de que muitos dos seus entes queridos tinham sido assassinados. Sem ninguém para ajudá-la, desatou a correr freneticamente por Kigali, para tentar salvar as vidas das suas três meninas. Encontrou soldados europeus que tinham sido enviados para evacuar os estrangeiros e os seus animais de estimação. Viu-os a apanhar cães e gatos e a colocá-los nos camiões militares que levariam diplomatas e trabalhadores humanitários para o aeroporto de onde seriam evacuados para a Europa.

Num momento de desespero total, ela deu a sua filha recém-nascida a um dos soldados. Pediu-lhe para levar a menina para a Europa e dá-la para adopção a uma boa família. Foi o acto de uma mãe desesperada, tentando salvar, pelo menos, uma das suas filhas da perspectiva da morte iminente.

O soldado recusou levar a menina. Explicou que tinha ordens para evacuar apenas os estrangeiros. Quando contou esta história Esther tinha os olhos cheios de lágrimas, e disse: "A vida de um cão europeu era mais importante do que a vida da minha filha."

Há algo tão intenso, tão gritante, no contraste entre a história de Esther e as resoluções e deliberações vazias que a ONU estava adoptar nesse mesmo momento. É uma espécie de caricatura daqueles líderes presunçosos que recordam o Holocausto dizendo "nunca mais" e simultaneamente permitem que esse mal extremo se manifeste diante dos nossos olhos. Somente quando temos esta visão íntima do sofrimento podemos começar a apreciar o significado da verdadeira liderança. Só depois de perceber o contraste entre as declarações de princípios nobres entre os poderosos e a dura realidade dos oprimidos, podemos começar a ter uma conversa honesta sobre o futuro da ONU e a perspectiva de um sistema de governo mundial.

Não podemos reduzir o sofrimento humano a estatísticas, a declarações solenes e a sentimentalismos superficiais. As vítimas não são estatísticas. Atrás de cada vítima, há um nome. Atrás de cada vítima, há uma história. Há uma mãe e um pai, um irmão e uma irmã, um melhor amigo e um colega de trabalho. Atrás de cada vítima há um universo de emoções e relações, dilacerado pela violência, destruído para sempre.

Quando nos sentamos e deliberamos sobre os problemas mundiais nos corredores do poder, e falamos sobre esses problemas numa linguagem anti-séptica e politicamente correta, numa terminologia jurídica, e com os procedimentos burocráticos, criamos um universo auto-suficiente. Ficamos cegos para a contradição entre a nossa auto-imagem virtuosa, e nossa falta de compromisso; a contradição entre a nossa vontade de fazer um discurso sobre a moralidade, e nossa falta de vontade de pagar um preço por isso.

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Texto Original: On the Failure of Leadership (bahaiteachings.org)

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Payam Akhavan é professor de Direito na Universidade Internacional McGill, em Montreal (Canadá) e professor convidado na Universidade de Oxford (Reino Unido). Já trabalhou como procurador da ONU em Haia, e também trabalhou com as Nações Unidas sobre os direitos humanos na Bósnia, Camboja, Guatemala, Ruanda e Timor Leste.

sábado, 14 de março de 2015

Deus pode vir à Terra?

Por Tom Tai-Seale.


Uma das doutrinas mais problemáticas da Trindade é o conceito de Deus encarnado. Como vimos, o Credo Niceno explica que Jesus era:
... consubstancial ao Pai; por quem foram criadas todas as coisas que estão no céu ou na terra... por nós homens e para nossa salvação, desceu (do céu) ... encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria, e se fez homem.
Note-se que o credo estipula que Jesus "encarnou pelo Espírito Santo". Mas como pode o espírito de Deus encarnar e ainda permanecer espírito? Deus pode vir à terra?

Zeus, "pai dos deuses"
na antiga religião grega
Esta distinção, entre Deus encarnado (que não é afirmado no credo) e espírito encarnado (o que é afirmado) exige muitos momentos de reflexão. Apesar disto, o entendimento cristão comum é que Jesus era Deus encarnado.

No entanto, a noção primitiva cristã de Deus encarnado era claramente uma adaptação do conceito greco-romana de homem-Deus. Os deuses gregos pareciam homens e muitas vezes vinham à terra; também os imperadores romanos eram vistos como deuses encarnados. Na verdade, muito da doutrina cristã primitiva é problemática precisamente porque os estudiosos que a elaboraram estavam mais imersos em conceitos e filosofias grega e romana do que nos ensinamentos judaicos.

Tal como muitos dos Padres Apostólicos, as escrituras Bahá'ís afirmam que Deus, a Realidade Divina, é eterno, homogéneo, indivisível, e incognoscível na sua essência. 'Abdu'l-Bahá escreve:
A Realidade Divina, que está purificada e santificada acima da compreensão dos seres humanos e que nunca pode ser imaginada por pessoas de sabedoria e inteligência, está isenta de toda a concepção. Essa Realidade Senhorial não admite divisão, pois a divisão e multiplicidade são propriedades de criaturas que são existências contingentes, e não acidentes que acontecem ao auto-existente. (Some Answered Questions, cap. 27)
Os Bahá’ís acreditam que Deus está livre de divisão, e é também, como ‘Abdu'l-Bahá explica, "santificado da unicidade." Tudo o que Deus é, Ele é infinitamente superior à nossa capacidade para explicar ou compreender.

Quanto ao Filho, Jesus, e todos os outros Profetas de Deus, ‘Abdu'l-Bahá explica: "Tudo o que é mencionado sobre os Manifestantes e Locais de Alvorada de Deus expressa um reflexo divino, e não uma descida às condições da existência."

Por outras palavras, o Deus incognoscível não desce, nem aparece como Profeta. Em vez disso, o Seu Esplendor ou o Logos reflecte-se na alma do Manifestante de Deus, que é como um " espelho puro, limpo, polido." Deus, o Sol, "não desce para habitar e permanecer no espelho. Não; continua a subsistir na Sua grandeza e sublimidade, apesar de aparecer e manifestar-se no espelho em beleza e perfeição. "

Quanto ao Espírito Santo, ‘Abdu'l-Bahá explica que:
O Espírito Santo é a Bênção de Deus que se torna visível e evidente na realidade de Cristo. A condição de Filho está no coração de Cristo, e o Espírito Santo é a condição do Espírito de Cristo. Assim, tornou-se certo e provou-se que a essência da divindade é absolutamente única, e não tem igual, semelhante, ou equivalente.
Este é o entendimento Bahá'í sobre a Trindade. Contém os três elementos da fé: Deus, o Seu Eleito, e o Espírito Santo. Todos estão unidos numa só substância: luz. E ainda assim, Deus é claramente o governante supremo.

'Abdu’l-Bahá conclui a Sua declaração indicando que os argumentos sobre a Trindade devem ser lógicos. Ele escreve:
Este é o significado das Três Pessoas da Santíssima Trindade. Se assim não fosse, os fundamentos da Religião de Deus assentariam numa proposição ilógica que a mente nunca poderia conceber; e como pode a mente ser forçada a acreditar numa coisa que não pode conceber? Uma coisa não pode ser percebida pela inteligência, excepto quando está numa forma inteligível; caso contrário, é apenas um esforço da imaginação.

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Texto Original: Can God Come to Earth? (bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A & M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.