sábado, 27 de junho de 2015

Podemos acabar com a guerra?

Por Rodney Richards.


GUERRA, substantivo feminino. 1.conflito armado entre grupos ou estados que envolve mortes e destruição; luta; 2.conflito entre estados ou no interior de um estado que se caracteriza por coacção política, económica, psicológica ou militar; 3. conjunto de operações militares entre nações ou grupos; campanha; 4. situação de hostilidade entre pessoas ou grupos políticos; oposição.
Finalmente, a humanidade começou a ficar cansada da guerra.

Guerra Colonial Portuguesa - Guiné-Bissau
Até agora, no século 21 não tivemos qualquer guerra global generalizada, graças a Deus. Claro, que desde a Segunda Guerra Mundial, os governantes desencadearam dezenas de guerras: as guerras indo-paquistanesas, a Guerra da Coreia, a Guerra do Vietname, a Guerra dos Seis Dias, a Guerra Colonial Portuguesa, a Guerra Suja na Argentina, e até mesmo a Guerra do Futebol, em 1969. Mas desde o início deste século, as guerras têm vindo a diminuir e têm surgido pequenas "revoltas", "guerras de independência", "acções militares", e especialmente "agitações civis". Mas não nos enganemos: estas guerras "menores" ainda provocam o mesmo sofrimento absoluto que as grandes guerras. Miséria e destruição contínuas, êxodos de populações ao longo de grandes distâncias, e morte para dezenas de milhares. Mas neste século, o mundo ainda não teve uma guerra com os números de mortos na casa dos milhões.

Não há guerras ou conflitos de qualquer tipo na América do Norte, a menos que contemos os conflitos raciais e sociais e a "guerra das drogas" no México. A América Central e do Sul mantiveram-se relativamente tranquilas, com excepção de várias guerras civis, agora terminadas, na Nicarágua e em El Salvador, e a Guerra das Malvinas, de curta duração em 1982. A Europa, o progenitor da maioria das guerras na Terra no século 20, tem estado relativamente incólume. O Bloco de Leste e a sua ideologia desfez-se em 1989; vários conflitos de pequena dimensão surgiram na região, mas ainda não surgiu nenhuma guerra de grande dimensão. China tem estado calma. Em África têm ocorrido várias rebeliões e golpes, mas a maior parte do continente permanece calmo.

Porquê?

Os Bahá'ís acreditam que a humanidade está a atingir a sua maioridade - para trás ficam seis mil anos de guerra e derramamento de sangue constantes - e a tornar-se uma espécie mais cautelosa, compreensiva e espiritual:
... é nosso dever fazer os nossos maiores esforços e reunir todas as nossas energias, para que os laços de unidade e harmonia possam ser estabelecidos entre a humanidade. Durante milhares de anos, tivemos carnificinas e conflitos. Foi bastante; já chega. Agora é o momento de nos associarmos em amor e harmonia. Durante milhares de anos usámos a espada e a guerra; deixemos a humanidade viver em paz, pelo menos durante algum tempo. Revejam a história e considerem quantas selvajarias, quantas carnificinas e batalhas o mundo testemunhou. Foi devido a guerras religiosas, guerras políticas ou alguns outros choques de interesses humanos. O mundo da humanidade nunca teve a bênção da Paz Universal. Ano após ano, as ocorrências de guerra foram aumentando e aperfeiçoando-se. Consideremos as guerras dos séculos passados; apenas dez, quinze ou vinte mil, no máximo, foram mortos; mas agora é possível matar cem mil num único dia. Nos tempos antigos, a guerra era executada com a espada; hoje é com armas sem fumo. Antigamente os navios de guerra eram veleiros; hoje são couraçados. Consideremos o aumento e aperfeiçoamento das armas de guerra. Deus criou-nos todos humanos e todos os países do mundo são partes de um mesmo globo. Somos todos Seus servos. Ele é bondoso e justo para todos. Porque devemos ser cruéis e injustos uns com os outros? Ele ampara todos. Porque devemos despojar-nos uns aos outros? Ele protege e preserva todos. Porque devemos matar os nossos semelhantes? ('Abdu'l-Bahá, Foundations of World Unity, p. 50)
As guerras em que nos envolvemos dão para escrever milhares de livros. No entanto, a humanidade pode-se alegrar! Podemos regozijar-nos! As guerras, no sentido tradicional de manter ou expandir as fronteiras de um país contra outro, estão quase a acabar. As consequências da guerra moderna e das armas nucleares tornaram-se demasiado terríveis de suportar - ou desencadear. As escrituras Bahá'ís destacam isso:
Unificação da humanidade inteira é a marca distintiva da etapa que a sociedade humana actualmente se aproxima. A unidade da família, da tribo, da cidade-estado e nação foram sucessivamente tentadas e completamente estabelecida. A unidade do mundo é o objectivo para o qual a humanidade aflita se encaminha. A construção de nações terminou. A anarquia inerente à soberania do Estado está a dirigir-se em direcção a um clímax. Um mundo em amadurecimento deve abandonar esse fetiche, reconhecer a unidade e a integridade das relações humanas e estabelecer, de uma vez por todas, o mecanismo que melhor possa concretizar este princípio fundamental da sua vida. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u'llah, p. 282)
É verdade que tivemos algumas guerras no século 21 - Iraque, Afeganistão, Síria, para citar apenas três – mas estas assumiram a forma de um novo tipo de guerra travada por uma coligação de forças militares de diversos países. Estas guerras não pretendiam alterar fronteiras.

Guerras militares para colonizar ou construir nações praticamente acabaram, e hoje as disputas territoriais são feitas pela via diplomática ou nos tribunais. Podemos estar gratos pelo desaparecimento das guerras mundiais globais; no entanto, a agitação da humanidade cresce com o seu descontentamento em relação à velha Ordem Mundial, como tem sido claramente demonstrado por apelos de cidadãos em todo o mundo que reúnem em gigantescas manifestações de agitação civil.

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Texto original: Can we end War? (bahaiteachings.org)

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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sábado, 13 de junho de 2015

Conspirações e Pseudociência

Por David Langness.


Se for contrária à ciência e à razão, então é superstição. Uma teoria que não é aceitável para a mente do homem e que a ciência rejeita, está privada de realidade. ('Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 2, p. 7)
Ultimamente tenho notado que alguns dos meus amigos começaram a acreditar em coisas muito estranhas.

Já ouviram falar em "Geoengenharia" e "Rastos Quimicos” (chemtrails)? Essa ideia sustenta a existência de uma vasta conspiração entre os governos e as companhias aéreas para pulverizar a atmosfera superior com produtos químicos tóxicos. Supostamente, os produtos químicos são feitos para: 1) alterar o clima; 2) manipular psicologicamente os seres humanos; 3) fazer uma guerra biológica. Esta crença pressupõe a existência de um plano secreto e diabólico, que envolve 40 mil pilotos de companhias aéreas comerciais que participam numa conspiração para nos envenenar a nós, e aos seus próprios filhos.

Apesar da conspiração dos "Rastos Químicos" ter sido investigada e refutada por muitas universidades famosas e conceituadas, pelas mais conhecidas as organizações científicas, e pelas principais publicações científicas, ela ainda persiste.

Depois, há o “movimento da verdade”, uma teoria da conspiração sobre o “11 de Setembro”, na qual os cépticos afirmam que a tragédia terrorista do 11 de Setembro nos Estados Unidos foi "um trabalho interno", organizado secretamente e realizado por elementos conspiradores e ocultos dentro do próprio governo dos EUA.

O movimento dos “negacionistas” das alterações climática questiona a validade e o âmbito da ciência do clima, apesar do nível crescente do aquecimento global ter sido repetidamente provado e aceite pela grande maioria dos cientistas e organizações científicas mundiais.

E também já ouvimos falar do o movimento "anti-vacinação", que rejeita as vacinas para as crianças e usa "evidências" pseudocientíficas desacreditadas para provar suas alegações.

E há a ideia ridícula de que os governos ocidentais estão a monitorizar todas as nossas comunicações telefónicas e e-mail ... Umm, esperem. Esta tem um pouco de verdade, não é?

Como é que nós - cidadãos, membros do público, maioritariamente não-cientistas - avaliamos todas essas teorias e suas afirmações distintas? Como podemos distinguir entre a pseudociência e a realidade?

Os ensinamentos Bahá'ís recomendam dois rumos de acção muito claros para cada um de nós. Em primeiro lugar, educar; e, em segundo, investigar:
... A educação é a base indispensável de toda excelência humana e permite ao homem fazer o seu caminho até aos cumes da glória eterna. ('Abdu'l-Bahá, Seleção dos Escritos de 'Abdu'l-Bahá, nº 103)

Para encontrar a verdade, devemos desistir das nossas pequenas ideias. O facto de imaginarmos estar certos e todos os outros para estarem errados, é o maior obstáculo... Assim, devemos renunciar aos nossos próprios preconceitos e superstições particulares, se somos sinceros na nossa busca da verdade. A menos que façamos uma distinção clara entre dogma, superstição, preconceito, por um lado, e Verdade, por outro, nunca seremos bem sucedidos. Quando queremos encontrar uma coisa, procuramo-la em todos os lugares; por isso temos de seguir este princípio na nossa busca da verdade. A ciência deve ser aceite. A luz é boa em qualquer lâmpada que brilhe; uma rosa é bela em qualquer jardim onde cresça; uma estrela tem o mesmo brilho onde quer que surja. (‘Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 2, pp 3-4)

... Temos de pôr de lado essas crenças e investigar a realidade. Aquilo que descobrirmos ser real e estiver conforme a razão deve ser aceite, e qualquer que a ciência e a razão não possam sustentar, deve ser rejeitado como imitação e não realidade. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 175
Os Bahá'ís confiam na ciência e não na superstição. Em matéria de política, facto e fé, os ensinamentos Bahá'ís dizem que os nossos sistemas de crenças devem todos ser objecto de análise lúcida da razão e da racionalidade:
[A religião] deve concordar com factos e provas científicas para que a ciência aprove a religião e a religião fortaleça a ciência. Ambas estão indissociavelmente ligadas e unidas na realidade. Se as afirmações e ensinamentos da religião forem contrários à ciência e à razão, então são resultado da superstição e da imaginação. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 175)
Assim, se podem existir cabalas e conspirações hostis, a nossa responsabilidade como indivíduos implica que nos informemos sobre os factos reais e usemos a razão e a ciência para determinar a verdade. Teorias da conspiração e pseudociência podem confortar-nos, levando-nos a acreditar que nós, humanos, construímos convulsões aleatórias e complexas que perturbam o mundo, e conseguimos ver padrões onde eles não existem; mas temos de ver para lá do conforto das nossas noções e descobrir a ciência e da base factual da realidade.

Se conseguirmos fazer isso nas nossas interacções diárias com o mundo, também podemos fazê-lo com as nossas crenças religiosas:
Se as afirmações e ensinamentos da religião forem contrários à ciência e à religião, eles são resultado da superstição e da imaginação. Inúmeras doutrinas e crenças desse tipo surgiram nos tempos do passado. Considerai as superstições e mitologia dos romanos, dos gregos e dos egípcios; todas eram contrárias à religião e ciência. Agora é evidente que as crenças dessas nações eram superstições, mas naqueles tempos eles acreditavam firmemente nelas. Por exemplo, um dos muitos ídolos egípcios era para essas pessoas um verdadeiro milagre, quando na realidade era um bloco de pedra. Como a ciência não poderia aceitar a origem e natureza milagrosa de um pedaço de rocha, a crença nela deve ter sido superstição. É agora evidente que era superstição. Portanto, devemos pôr de lado essas crenças e investigar a realidade. Aquilo que for considerado real e conforme a razão deve ser aceite, e qualquer coisa a ciência e a razão não possam suportar, deve ser considerado imitação e não realidade. Assim, as diferenças de crença irão desaparecer. Tudo se tornará como uma única família, um só povo, e a mesma susceptibilidade à generosidade e educação divina será testemunhada entre a humanidade. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp 175-176)

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Texto original: Conspiracies and Pseudoscience - How to Separate Fact from Theory (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 6 de junho de 2015

Deus criou a Matemática?

Por David Langness.


As únicas teorias físicas que estamos dispostos a aceitar são as bonitas. (Albert Einstein)

Se existe um Deus, ele é um grande matemático. (Paul Dirac)

As leis da natureza são apenas os pensamentos matemáticos de Deus. (Euclides)

Quando tento resolver um problema apenas penso na beleza quando termino; se a solução não é bela, então está errada. (Buckminster Fuller)

Regozijamo-nos, como se fosse um acaso favorável às nossas intenções, quando encontramos essa unidade sistemática entre leis meramente empíricas. (Kant)
Tenho fascínio por matemática e ciências.

Para mim, mesmo quando ainda estava na escola primária, adorava os novos conhecimentos que encontrava na ciência, e pensava que a matemática tinha uma pureza e uma verdade encantadoras. Os cálculos que aprendi, a álgebra, a geometria e a trigonometria, tudo parecia ter uma beleza abstracta suplementar que de alguma forma parecia genuína. Gostava especialmente das minhas aulas de geometria, onde conseguia de algum modo, olhar para aquelas formas e intuir as respostas. Eu ainda não percebo porquê.

Quando tinha 10 anos de idade, o meu professor, o Sr. Heikel viu que eu gostava de matemática. Sendo licenciado em matemática, interessou-se por mim, e desafiou-me a resolver alguns problemas "avançados" de matemática. Encontrei as respostas para alguns deles; mas houve outros que me deixaram perplexo. O meu professor apenas sorriu, e depois deu-me um artigo para ler, chamado A efectividade irracional da Matemática nas Ciências Naturais. Era escrito por um laureado Nobel chamado Eugene Wigner, mas eu não percebi muito daquilo - mas entusiasmei-me quando li sobre "a enorme utilidade da matemática nas ciências naturais é algo que se aproxima do mistério."

Wigner fez-me pensar: Como pode a matemática ser misteriosa? Dois e dois são quatro, certo?

O meu professor explicou o que Wigner queria dizer: o mundo natural tem uma ligação muito próxima e quase inexplicável com o mundo teórico da matemática, e essa ligação diz algo profundo sobre a criação. Talvez Deus fosse um matemático, disse o Sr. Heikel.

Se todo o universo funciona com base num conjunto fixo e sofisticado de leis científicas e matemáticas, pensei, faz sentido que essas leis tenham vindo de algum lugar.

Acontece que também é assim que pensam muitos cientistas e matemáticos. Nas disciplinas altamente sofisticadas de matemática avançada e física quântica, as teorias mais belas e elegantes teorias revelam ser as mais verdadeiras. E os filósofos acreditam que isso revela a existência de uma beleza e verdade superiores na própria criação. Suponho que podemos chamar a isso de uma prova científica de Deus.

Alguns cientistas dizem que encontram a mesma emoção e encanto na simplicidade e beleza de um teorema ou num conjunto de números que outros vêem na música, na arte, no cinema ou na literatura. A partir dessa perspectiva, a experiência estética inerente à ciência e à matemática pode levar-nos ao reconhecimento da beleza, harmonia e coerência existentes na própria criação, e ligar o espírito humano ao transcendente e à mística:
O espírito no mundo humano é o descobridor das realidades da existência. Todas as invenções, todas as ciências, todos os mistérios ocultos são trazidas à luz através da actividade do espírito no plano da vida. Enquanto vive no Oriente organiza os assuntos no Ocidente; enquanto vive na terra descobre as constelações celestes. Estes exemplos devem mostrar que o espírito da vida é omnipotente, especialmente quando estabelece uma comunicação com Deus e se torna o destinatário da eterna luz - então ele transforma-se num raio do esplendor do sol eterno. (‘Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 165)

Os mais eruditos e versados teólogos, os mais ilustres sábios, estudaram diligentemente aqueles ramos do conhecimento cuja raiz e origem foram os filósofos gregos como Aristóteles e outros, e consideraram a aquisição dos textos gregos sobre ciências como a medicina e ramos da matemática, incluindo álgebra e aritmética, como um feito muito valioso. (‘Abdu'l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p. 30)

O espírito do homem é um poder envolvente que abarca as realidades de todas as coisas. Tudo o que vês ao teu redor - os produtos maravilhosos do engenho e da arte humana, as invenções, as descobertas e outras evidências semelhantes - cada um desses foi um segredo oculto ausente no reino do desconhecido. O espírito humano revelou esse segredo, e trouxe-o do invisível para o mundo visível. Há, por exemplo, o poder do vapor, a fotografia e o fonógrafo, e telegrafia sem fios, e os avanços na matemática: cada um destes foi outrora um mistério, um segredo bem guardado; mas o espírito humano desvendou estes segredos e levou-os do invisível para a luz do dia. Assim, é claro que o espírito humano é um poder envolvente que exerce o seu domínio sobre as essências interiores de todas as coisas criadas, descobrindo os mistérios contidos no mundo material. (‘Abdu'l-Bahá, Seleção dos Escritos de Abdu'l-Baha, nº 145)

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Texto original: Did God Create Math? (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 30 de maio de 2015

A religião à força: acredita ou morres!

Por David Langness.


O caminho para a orientação é o do amor e da compaixão, não da força e da coerção. (O Bab, Selections from the Writings of the Bab, p. 77)
Os actos de brutalidade para coagir pessoas a acreditar em coisas diferentes têm uma história longa e sinistra.

As conversões forçadas sob ameaça de morte aconteceram ao longo dos séculos e foram perpetradas por Hindus, Budistas, Judeus, Cristãos, Muçulmanos e até mesmo Ateus. Recentemente ouvimos falar disso quando militantes fundamentalistas obrigaram prisioneiros a converterem-se à sua ideologia - como aconteceu com o Boko Haram na Nigéria - mas a prática nefasta de conversão forçada existe há muito tempo.

Em 392, o imperador romano Teodósio I, por exemplo, decretou que todos os romanos se deviam converter ao Cristianismo:
É Nossa vontade que todos os povos que são governados pela administração da Nossa Clemência devem praticar a religião que o divino Apóstolo Pedro transmitiu aos romanos... Os restantes, a quem julgaremos dementes e loucos, serão sancionados com a infâmia de dogmas heréticos, os seus locais de reunião não receberão o nome de igrejas, e eles serão atingidos primeiro pela vingança divina, e depois, pela retaliação da Nossa própria iniciativa.
Em 1201 EC, o Papa permitiu formalmente a conversão forçada, através de tortura, intimidação e ameaça de morte, como uma prática católica completamente aceitável. Durante a Idade das Trevas, as inquisições em Espanha e em Goa torturaram e obrigaram à conversão de Hindus, Muçulmanos e Judeus ao Cristianismo. A história judaica tem muitos relatos de conversões forçadas, tal como as histórias Hindu e Budista, até mesmo nos tempos modernos. Vários governos e instituições religiosas usaram meios legais para converter à força populações inteiras, e simultaneamente, destruir os seus lugares de culto, livros sagrados e símbolos religiosos.

Um dos piores exemplos recentes de conversão forçada ocorreu na América do Norte durante os séculos 19 e 20, quando os governos dos EUA e do Canadá pagaram a organizações religiosas cristãs para raptarem crianças nativo-americanas que viviam nas reservas indígenas, arrancando-as à sua cultura e origens, e obrigando-as depois a rejeitar as suas crenças nativas e adoptar o Cristianismo como o seu sistema de crença. Esta política de genocídio cultural, realizada nos EUA pelo Gabinete de Assuntos Indígenas, também resultou na construção de centenas de colégios internos para isolar, assimilar e converter gerações inteiras de crianças indígenas.

Felizmente, em muitas partes do mundo as coisas têm evoluído desde então.

O artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma:
Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.
A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas também proclamou oficialmente que a escolha pessoal de uma religião (ou a não escolha), é um direito humano protegido por lei:
... A liberdade de "ter ou adoptar" uma religião ou crença implica necessariamente a liberdade de escolher a religião ou crença, incluindo o direito de mudar a sua religião ou crença actual, ou a adoptar pontos de vista ateus... O artigo 18.2 impede a coerção que debilite o direito de ter ou adoptar uma religião ou crença, incluindo o uso de ameaça de força física ou sanções penais para obrigar crentes ou não-crentes a aderir às suas crenças e congregações religiosas, a negar a sua religião ou crença, ou converter-se.
Hoje vemos este direito humano fundamental - a liberdade de crença - ameaçado em muitos lugares por fanáticos religiosos, políticos e culturais. Os Baha'is acreditam que este fanatismo coercivo deve parar, a nível individual e social, em todas as culturas e todos os países:
Sejamos, pois, humildes, sem preconceitos, e preferindo o bem dos outros em vez do nosso! Que nunca digamos: "Eu sou um crente, mas ele é um infiel", "Eu estou perto de Deus, ao passo que ele é um proscrito." Nunca podemos saber qual será o juízo final! Portanto, vamos ajudar a todos os que necessitam de qualquer tipo de assistência.

Ensinemos o ignorante, e cuidemos da criança até que ela atinja a maturidade. Quando encontramos uma pessoa mergulhada nas profundezas da miséria ou do pecado, devemos ser bondosos com ela, levá-la pela mão, ajudá-la a recuperar o equilíbrio, a sua força; devemos guiá-la com amor e ternura, tratá-la como um amigo, e não como um inimigo. Não temos o direito de ver qualquer um dos nossos companheiros mortais como maligno. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 149)

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Texto original: Believe or I’ll Kill You—Religion by Force (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

domingo, 24 de maio de 2015

Rejeitar os Dogmas

Por Tom Tai-Seale.


Qual é o problema da maioria dos dogmas religiosos? Tendem a ser compromissos políticos, tentativas para conciliar pontos de vista diferentes.

Atanásio, Apolinário, e Cirilo - a facção de Alexandria nos primórdios da história cristã - defendiam a ideia de que o Logos era essencialmente Deus e, portanto, não podia ser dividido. Acreditavam que a divindade do Logos ficava comprometida se o Logos fosse visto como mais do que um; e que quaisquer limitações de Jesus como Logos deviam-se apenas ao facto de ter encarnado numa forma humana, e não eram atribuíveis ao Logos. Além disso, argumentavam que se Jesus tivesse duas naturezas então estaria em guerra consigo próprio. Assim, para este grupo o importante era afirmar que Jesus era uma única substância. Teodoro de Mopsuéstia e Nestório (que mais tarde se tornou arcebispo de Constantinopla) lideram o grupo de Antioquia. Acreditavam que o Logos encarnado não podia ser literalmente Deus, porque ele (Jesus) tinha sofrido. Além disso, consideravam que nós precisamos de um modelo humano de salvação em Jesus e ao fazê-Lo divino isso tornava-se impossível. Assim, para satisfazer estes dois grupos, o credo resultante afirmava que Jesus tinha duas naturezas.

Cirilo de Alexandria
Isto faz sentido? Maurice Wells, o teólogo cristão mencionado num post anterior, responde:
... quando se pede que acreditemos em algo que não se consegue descrever em termos inteligíveis, é altura de parar e recuar com a questão para uma fase anterior. Temos a certeza de que o conceito de um ser encarnado, que simultaneamente é plenamente Deus e plenamente homem, é apesar de tudo, um conceito inteligível? (The Myth of God Incarnate, p.5)
Outro teólogo cristão, Francis Young, prossegue:
Será que a fé cristã tem que estar presa a uma posição cristológica que nunca foi muito satisfatória e que certamente estava condicionada por um determinado ambiente cultural? (Ibid, p. 29)
Perante este cenário de controvérsia, vamos analisar a perspectiva Baha'i sobre a encarnação e a manifestação. Para começar, os Bahá'ís rejeitam, como muitos Cristãos o fizeram antes, acreditar que Deus transcendente, imutável e eterno, possa de alguma forma encarnar. Isto é uma consequência natural da definição de um Deus imutável. Bahá'u'lláh afirma:
Sabe tu com certeza que o Invisível não pode, de forma alguma, encarnar a Sua Essência e revelá-la aos homens. (SEB, XX).
E noutro texto:
Para todo o coração perspicaz e iluminado, é evidente que Deus, a Essência incognoscível, o Ser divino, está imensamente enaltecido acima todos os atributos humanos, tais como existência corpórea, ascensão e descida, saída e regresso. (Kitab-i-Iqán, p. 98)
O Guardião da Fé Bahá'í, Shoghi Effendi, resume:
Na verdade, à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh, o Deus que pudesse encarnar a Sua própria realidade, deixaria imediatamente de ser Deus. Uma teoria tão grosseira e fantástica de encarnação divina está muito longe, e é incompatível com os fundamentos da crença bahá'í, tal como as não menos inadmissíveis concepções panteístas e antropomórficas de Deus, que as palavras de Bahá'u'lláh repudiam enfaticamente e cuja falácia elas expõem." (The World Order of Baha’u'llah, pp 112-113)
Para os Bahá'ís e para muitos Cristãos, o que quer que nós podemos idealizar como sendo o Criador não é senão um conceito humano limitado. Imaginar um Ser Supremo numa forma mortal, por muito enaltecida que seja, é criar uma forma restrita e limitada de Deus. Além disso, assim que imaginamos Deus de uma forma, podemos sempre imaginar algo maior que não tem forma. Desta forma, o verdadeiro Criador estará sempre para além das nossas concepções, não importa o quanto tentemos. Mesmo que admitissemos que o Criador pudesse encarnar a Sua Essência, o que nós veríamos ainda estaria condicionado pelas limitações da nossa mente. Mesmo que houvesse uma encarnação da divindade, nós seríamos incapazes de percebê-la.
Não deixeis que as coisas do corpo obscureçam a luz celestial do espírito, para que, pela graça divina, possais entrar com os filhos de Deus no Seu Reino eterno. Esta é a minha oração por todos vós. (‘Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 44)

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Texto Original: Rejecting Dogma (bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sexta-feira, 22 de maio de 2015