sábado, 11 de julho de 2015

Democratização e Agitação Civil

Por Rodney Richards.


Durante as últimas duas décadas, os povos do mundo propagaram e experimentaram uma vaga de fundo de agitação civil devido a múltiplos motivos.

Revista Time, 2011
Há um motivo que se destaca: a desobediência civil usada para derrubar os líderes perversos e governos corruptos que esmagam os direitos humanos. Este tipo de agitação civil - por vezes designada como “Primavera” - tenta instalar a democracia onde a autocracia ou teocracia governaram há muito tempo. Ao longo do processo, perdem-se vidas em defesa dos direitos humanos, e perdem-se vidas a tentar suprimi-los. Estas batalhas são travadas internamente, dentro de fronteiras nacionais, com o objectivo de estabelecer repúblicas democráticas. Algumas dessas batalhas já deram resultados, e provavelmente outras também darão, criando um modelo de federalismo democrático que os ensinamentos Bahá'ís recomendam fortemente:
Podeis servir melhor o vosso país - foi a resposta de ‘Abdu'l-Bahá a um alto funcionário do governo federal dos Estados Unidos da América, que o tinha questionado sobre a melhor maneira como poderia promover os interesses do seu Governo e do povo - se vos empenhardes, na vossa qualidade de cidadão do mundo, para ajudar na derradeira aplicação do princípio do federalismo que existe no governo do vosso país às relações agora existentes entre os povos e nações do mundo. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u'llah, p. 37)
A federação de Estados (inicialmente, colónias) na América tornou-se um modelo de organização que muitas outras nações adoptaram posteriormente. No mundo do século XVIII, enquanto reis, rainhas e governantes autoritários lutavam para expandir os seus territórios e fronteiras, a ascensão da democracia na América e em França surpreendeu o mundo. Hoje, esses autocratas desapareceram, tal como Bahá'u'lláh prometeu que aconteceria se eles resistissem ao espírito da época. Desde então, o crescimento das democracias representativas superou qualquer outra forma de governo. Na imagem seguinte vemos como a democracia cresceu durante o século XX:



Além revelar a ascensão meteórica de nações democráticas, este gráfico também mostra, de forma clara, a crescente agitação, anarquia e guerras civis nos países sem representação democrática.

No fundo, a democratização tornou-se o processo genérico padrão que todas as nações e povos acabam por atravessar. O choque de opiniões fortes e a agitação civil parecem inevitáveis, a menos que os governantes autoritários abdiquem voluntariamente do seu poder e permitam que o povo governe. Este tipo de revoluções pacíficas já aconteceu em vários países: Filipinas, Polónia, Checoslováquia, Equador, etc. Mesmo depois de uma revolução não-violenta, porém, é difícil alcançar a democracia, leva-se anos para estabilizar o país, surgem conflitos (por vezes, sangrentos), e é necessário criar meios políticos para implementar as decisões sensatas de qualquer novo governo.

Mas as recompensas, quando alcançadas, são demasiado significativas para serem ignoradas. Igualdade de tratamento perante a lei, liberdade de expressão, liberdade de reunião, direito à propriedade, fim da escravidão e direito ao trabalho. Muitas pessoas morreram por estes direitos desde muito antes da Revolução Americana.

Num discurso público a uma congregação de uma igreja americana em 1912, 'Abdu'l-Bahá disse:
Considerai a grande diferença existente entre democracia moderna e as velhas formas de despotismo. Sob um governo autocrático as opiniões dos homens não são livres e o desenvolvimento é asfixiado, enquanto que na democracia, porque o pensamento e a expressão não são restringidos, testemunha-se o maior progresso. O mesmo acontece no mundo da religião. Quando a liberdade de consciência, a liberdade de pensamento e a liberdade de expressão prevalecem - isto é, quando cada pessoa segundo a sua própria idealização pode expressar as suas crenças - o desenvolvimento e o crescimento são inevitáveis. (The Promulgation of Universal Peace, p. 197)
A plena democratização de todos os 196 (ou mais) países do mundo de hoje ainda não foi plenamente realizada, mas a tendência é clara. Como 'Abdu'l-Bahá predisse nos Estados Unidos em 1912, o século XX "este século de luz" e as décadas iniciais do século XXI, criaram o cenário e colocaram em movimento as forças necessárias para realizar essa tarefa gigantesca .

A agitação civil, com o objectivo de criar nações totalmente independentes, totalmente soberanas democraticamente eleitas, conforme evidenciam os surtos globais de movimentos de protestos, está agora a atingir o seu clímax.

Este clímax físico, infelizmente, deu origem ao terrorismo nos nossos tempos.

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Texto original: A Democratic Upsurge: Wars of Civil Unrest (bahaiteachings.org)

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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

domingo, 5 de julho de 2015

No Princípio era o Verbo

Por Deshon Fox.



O Evangelho segundo S. João inicia-se com uma frase misteriosa e muitas vezes mal compreendida: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus". No versículo 14 do primeiro capítulo desse mesmo Evangelho encontramos: "E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós… cheio de graça e de verdade".

A que início se refere esta frase? Como pode o Verbo estar com Deus e também ser Deus? E como pode o Verbo fazer-se carne?

S. João Evangelista
Os ensinamentos Bahá'ís afirmam que a própria existência não teve início. Os cientistas estimam que "o Big Bang" ocorreu há cerca de 14 mil milhões de anos, mas permanece uma questão profunda: o que existia antes daquele momento?

Com um pequeno raciocínio dedutivo, podemos perceber que a própria existência, possivelmente, não teve um início, porque se a existência teve um início, então temos de considerar a possibilidade da existência ter emergido da não-existência. Isso não é possível; de facto, a não-existência é inconcebível.

Com essa perspectiva, podemos abordar a frase de abertura do Evangelho de João de dentro para fora, em vez de fora para dentro. Dessa forma, poderemos ser capazes de perceber o seu significado subtil, para desvendar o seu mistério e perceber a sua verdade eterna.

Pensemos nisto desta maneira: "No princípio" refere-se a uma realidade eterna além do tempo, uma realidade que transcende toda a criação, que é imutável e não tem lugar, e, além disso, é a própria essência e fonte de tudo o que existe ou já existiu. Além do espaço e do tempo, além do aqui ou do ali, além do em cima ou em baixo, do quente ou do frio, além de qualquer dualidade ou forma, existe o "Eu sou", o único e indivisível, omnipresente e insondável "Verbo". No reino absoluto do eterno "Eu sou", o Verbo existe sem qualquer necessidade de expressão ou vocalização. Ele simplesmente é.

Para o Verbo se poder expressar ou revelar plenamente no reino material - o reino da forma e matéria - o Verbo deve manifestar-se através de uma forma humana. Quando o Verbo se expressa através de uma forma humana, também permanece eternamente na sua condição absoluta para além do tempo, forma e espaço. O Verbo, quando se manifesta através de uma forma humana, é, por assim dizer, simultaneamente, Deus num estado absoluto além do tempo, e também está com "Deus" na sua forma humana condicional relativa e limitada no tempo.

Os Cristãos acreditam que este fenómeno ocorreu apenas uma vez na história, na forma humana de Jesus Cristo. Os Bahá'ís acreditam que o fenómeno do Verbo a tornar-se carne (ou seja, a manifestar-se através de uma forma humana) é semelhante ao nascer e ao pôr do sol; é um processo contínuo que começou antes de história registada e vai continuar assim por muito tempo enquanto os seres humanos habitarem a terra.

Bahá'u'lláh - que os Bahá'ís acreditam manifestar o Verbo de Deus para este dia - escreveu:
Estando a porta do conhecimento do Ancião dos Dias assim fechada perante a face de todos os seres, a Fonte da graça infinita ... fez surgir aquelas luminosas Jóias da Santidade vindas do reino do espírito, na forma nobre do templo humano, e manifestarem-se a todos os homens, para pudessem transmitir ao mundo os mistérios do Ser imutável e descrever as subtilezas da Sua Essência imperecível.

Esses espelhos santificados, estes Alvoreceres da antiga glória, são, cada um e todos, os Expoentes na terra Daquele que é o Orbe central do universo, a sua Essência e o seu Propósito derradeiro. Dele provém o seu conhecimento e o poder; Dele deriva a sua soberania. A beleza do seu semblante é apenas um reflexo da Sua imagem, e a Sua revelação, um sinal da Sua glória imortal. Eles são os Tesouros do conhecimento Divino e os Repositórios da sabedoria celestial. Através deles é transmitida uma graça que é infinita e por eles é revelada a Luz que jamais se desvanecerá... Estes Tabernáculos da Santidade, estes Espelhos Primordiais que reflectem a luz da glória imperecível, são apenas expressões Daquele que é o Invisível dos Invisíveis. Com a revelação dessas Jóias de virtude Divina todos os nomes e atributos de Deus, como conhecimento e poder, soberania e domínio, misericórdia e sabedoria, glória, bênção, e de graça, tornam-se manifestos. (SEB, sec. XIX)
Hasan Balyuzi, autor e historiador Bahá’í, apresenta algumas ideias o fenómeno do "Verbo que se torna carne":
Os Manifestantes de Deus são o "Verbo (de Deus) feito carne." Eles revelam Deus ao homem. Através deles, e por eles, o homem conhece Deus e percebe o propósito de Deus. É apenas através dos Seus Manifestantes que Deus pode ser conhecido. Neles nada pode ser visto, salvo a glória e o poder, a majestade e a vontade da Divindade. Jesus disse que quem o tivesse visto, teria visto o Pai; que quem o tivesse conhecido, teria conhecido Deus. Todos os caminhos para o Criador do universo estão bloqueados, salvo através dos Seus Manifestantes, através dessas Figuras Divinas, esses Seres enaltecidos que conhecemos como os Fundadores das religiões da humanidade. Por isso Jesus disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim." (The Word Made Flesh, cap. 2)
As frases de abertura do livro de João, numa linguagem refinada e poética, revelam-nos uma verdade eterna e universal: Deus, a Essência eterna e Fonte de tudo o que existe, manifesta a luz da verdade à humanidade através da acção de um templo humano eleito, de tempos em tempos, a fim de "habitar entre nós" e para guiar a humanidade à verdade, para libertar os nossos corações e mentes.

Assim, nada nos pode dividir; nem a geografia, a história, a raça, a classe, a cultura ou as crenças. Na realidade, nós somos apenas um só, porque a nossa essência, aquilo que somos sob a forma mental do "Eu", vem de uma fonte eterna, única, intemporal e sem lugar: o Verbo. Se reflectirmos com corações e mentes abertas sobre a natureza da nossa existência comum, livre de condicionalismos que nos levam a considerar os outros como fundamentalmente diferentes de nós, abraçaríamos colectivamente o Verbo de Deus como irmãos e irmãs espirituais.

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Texto original: In the Beginning was the Word (bahaiteachings.org)

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Deshon Fox é o autor do livro The Middle Theory. Vive nas Bahamas com a esposa e três filhos. Tem um mestrado em Engenharia Civil pela Universidade de Minnesota e trabalha numa empresa de engenharia sediada nas Bahamas. Actualmente é membro da Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá'ís das Bahamas, um papel que ele teve desde 2009.

sábado, 27 de junho de 2015

Podemos acabar com a guerra?

Por Rodney Richards.


GUERRA, substantivo feminino. 1.conflito armado entre grupos ou estados que envolve mortes e destruição; luta; 2.conflito entre estados ou no interior de um estado que se caracteriza por coacção política, económica, psicológica ou militar; 3. conjunto de operações militares entre nações ou grupos; campanha; 4. situação de hostilidade entre pessoas ou grupos políticos; oposição.
Finalmente, a humanidade começou a ficar cansada da guerra.

Guerra Colonial Portuguesa - Guiné-Bissau
Até agora, no século 21 não tivemos qualquer guerra global generalizada, graças a Deus. Claro, que desde a Segunda Guerra Mundial, os governantes desencadearam dezenas de guerras: as guerras indo-paquistanesas, a Guerra da Coreia, a Guerra do Vietname, a Guerra dos Seis Dias, a Guerra Colonial Portuguesa, a Guerra Suja na Argentina, e até mesmo a Guerra do Futebol, em 1969. Mas desde o início deste século, as guerras têm vindo a diminuir e têm surgido pequenas "revoltas", "guerras de independência", "acções militares", e especialmente "agitações civis". Mas não nos enganemos: estas guerras "menores" ainda provocam o mesmo sofrimento absoluto que as grandes guerras. Miséria e destruição contínuas, êxodos de populações ao longo de grandes distâncias, e morte para dezenas de milhares. Mas neste século, o mundo ainda não teve uma guerra com os números de mortos na casa dos milhões.

Não há guerras ou conflitos de qualquer tipo na América do Norte, a menos que contemos os conflitos raciais e sociais e a "guerra das drogas" no México. A América Central e do Sul mantiveram-se relativamente tranquilas, com excepção de várias guerras civis, agora terminadas, na Nicarágua e em El Salvador, e a Guerra das Malvinas, de curta duração em 1982. A Europa, o progenitor da maioria das guerras na Terra no século 20, tem estado relativamente incólume. O Bloco de Leste e a sua ideologia desfez-se em 1989; vários conflitos de pequena dimensão surgiram na região, mas ainda não surgiu nenhuma guerra de grande dimensão. China tem estado calma. Em África têm ocorrido várias rebeliões e golpes, mas a maior parte do continente permanece calmo.

Porquê?

Os Bahá'ís acreditam que a humanidade está a atingir a sua maioridade - para trás ficam seis mil anos de guerra e derramamento de sangue constantes - e a tornar-se uma espécie mais cautelosa, compreensiva e espiritual:
... é nosso dever fazer os nossos maiores esforços e reunir todas as nossas energias, para que os laços de unidade e harmonia possam ser estabelecidos entre a humanidade. Durante milhares de anos, tivemos carnificinas e conflitos. Foi bastante; já chega. Agora é o momento de nos associarmos em amor e harmonia. Durante milhares de anos usámos a espada e a guerra; deixemos a humanidade viver em paz, pelo menos durante algum tempo. Revejam a história e considerem quantas selvajarias, quantas carnificinas e batalhas o mundo testemunhou. Foi devido a guerras religiosas, guerras políticas ou alguns outros choques de interesses humanos. O mundo da humanidade nunca teve a bênção da Paz Universal. Ano após ano, as ocorrências de guerra foram aumentando e aperfeiçoando-se. Consideremos as guerras dos séculos passados; apenas dez, quinze ou vinte mil, no máximo, foram mortos; mas agora é possível matar cem mil num único dia. Nos tempos antigos, a guerra era executada com a espada; hoje é com armas sem fumo. Antigamente os navios de guerra eram veleiros; hoje são couraçados. Consideremos o aumento e aperfeiçoamento das armas de guerra. Deus criou-nos todos humanos e todos os países do mundo são partes de um mesmo globo. Somos todos Seus servos. Ele é bondoso e justo para todos. Porque devemos ser cruéis e injustos uns com os outros? Ele ampara todos. Porque devemos despojar-nos uns aos outros? Ele protege e preserva todos. Porque devemos matar os nossos semelhantes? ('Abdu'l-Bahá, Foundations of World Unity, p. 50)
As guerras em que nos envolvemos dão para escrever milhares de livros. No entanto, a humanidade pode-se alegrar! Podemos regozijar-nos! As guerras, no sentido tradicional de manter ou expandir as fronteiras de um país contra outro, estão quase a acabar. As consequências da guerra moderna e das armas nucleares tornaram-se demasiado terríveis de suportar - ou desencadear. As escrituras Bahá'ís destacam isso:
Unificação da humanidade inteira é a marca distintiva da etapa que a sociedade humana actualmente se aproxima. A unidade da família, da tribo, da cidade-estado e nação foram sucessivamente tentadas e completamente estabelecida. A unidade do mundo é o objectivo para o qual a humanidade aflita se encaminha. A construção de nações terminou. A anarquia inerente à soberania do Estado está a dirigir-se em direcção a um clímax. Um mundo em amadurecimento deve abandonar esse fetiche, reconhecer a unidade e a integridade das relações humanas e estabelecer, de uma vez por todas, o mecanismo que melhor possa concretizar este princípio fundamental da sua vida. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u'llah, p. 282)
É verdade que tivemos algumas guerras no século 21 - Iraque, Afeganistão, Síria, para citar apenas três – mas estas assumiram a forma de um novo tipo de guerra travada por uma coligação de forças militares de diversos países. Estas guerras não pretendiam alterar fronteiras.

Guerras militares para colonizar ou construir nações praticamente acabaram, e hoje as disputas territoriais são feitas pela via diplomática ou nos tribunais. Podemos estar gratos pelo desaparecimento das guerras mundiais globais; no entanto, a agitação da humanidade cresce com o seu descontentamento em relação à velha Ordem Mundial, como tem sido claramente demonstrado por apelos de cidadãos em todo o mundo que reúnem em gigantescas manifestações de agitação civil.

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Texto original: Can we end War? (bahaiteachings.org)

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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sábado, 13 de junho de 2015

Conspirações e Pseudociência

Por David Langness.


Se for contrária à ciência e à razão, então é superstição. Uma teoria que não é aceitável para a mente do homem e que a ciência rejeita, está privada de realidade. ('Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 2, p. 7)
Ultimamente tenho notado que alguns dos meus amigos começaram a acreditar em coisas muito estranhas.

Já ouviram falar em "Geoengenharia" e "Rastos Quimicos” (chemtrails)? Essa ideia sustenta a existência de uma vasta conspiração entre os governos e as companhias aéreas para pulverizar a atmosfera superior com produtos químicos tóxicos. Supostamente, os produtos químicos são feitos para: 1) alterar o clima; 2) manipular psicologicamente os seres humanos; 3) fazer uma guerra biológica. Esta crença pressupõe a existência de um plano secreto e diabólico, que envolve 40 mil pilotos de companhias aéreas comerciais que participam numa conspiração para nos envenenar a nós, e aos seus próprios filhos.

Apesar da conspiração dos "Rastos Químicos" ter sido investigada e refutada por muitas universidades famosas e conceituadas, pelas mais conhecidas as organizações científicas, e pelas principais publicações científicas, ela ainda persiste.

Depois, há o “movimento da verdade”, uma teoria da conspiração sobre o “11 de Setembro”, na qual os cépticos afirmam que a tragédia terrorista do 11 de Setembro nos Estados Unidos foi "um trabalho interno", organizado secretamente e realizado por elementos conspiradores e ocultos dentro do próprio governo dos EUA.

O movimento dos “negacionistas” das alterações climática questiona a validade e o âmbito da ciência do clima, apesar do nível crescente do aquecimento global ter sido repetidamente provado e aceite pela grande maioria dos cientistas e organizações científicas mundiais.

E também já ouvimos falar do o movimento "anti-vacinação", que rejeita as vacinas para as crianças e usa "evidências" pseudocientíficas desacreditadas para provar suas alegações.

E há a ideia ridícula de que os governos ocidentais estão a monitorizar todas as nossas comunicações telefónicas e e-mail ... Umm, esperem. Esta tem um pouco de verdade, não é?

Como é que nós - cidadãos, membros do público, maioritariamente não-cientistas - avaliamos todas essas teorias e suas afirmações distintas? Como podemos distinguir entre a pseudociência e a realidade?

Os ensinamentos Bahá'ís recomendam dois rumos de acção muito claros para cada um de nós. Em primeiro lugar, educar; e, em segundo, investigar:
... A educação é a base indispensável de toda excelência humana e permite ao homem fazer o seu caminho até aos cumes da glória eterna. ('Abdu'l-Bahá, Seleção dos Escritos de 'Abdu'l-Bahá, nº 103)

Para encontrar a verdade, devemos desistir das nossas pequenas ideias. O facto de imaginarmos estar certos e todos os outros para estarem errados, é o maior obstáculo... Assim, devemos renunciar aos nossos próprios preconceitos e superstições particulares, se somos sinceros na nossa busca da verdade. A menos que façamos uma distinção clara entre dogma, superstição, preconceito, por um lado, e Verdade, por outro, nunca seremos bem sucedidos. Quando queremos encontrar uma coisa, procuramo-la em todos os lugares; por isso temos de seguir este princípio na nossa busca da verdade. A ciência deve ser aceite. A luz é boa em qualquer lâmpada que brilhe; uma rosa é bela em qualquer jardim onde cresça; uma estrela tem o mesmo brilho onde quer que surja. (‘Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 2, pp 3-4)

... Temos de pôr de lado essas crenças e investigar a realidade. Aquilo que descobrirmos ser real e estiver conforme a razão deve ser aceite, e qualquer que a ciência e a razão não possam sustentar, deve ser rejeitado como imitação e não realidade. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 175
Os Bahá'ís confiam na ciência e não na superstição. Em matéria de política, facto e fé, os ensinamentos Bahá'ís dizem que os nossos sistemas de crenças devem todos ser objecto de análise lúcida da razão e da racionalidade:
[A religião] deve concordar com factos e provas científicas para que a ciência aprove a religião e a religião fortaleça a ciência. Ambas estão indissociavelmente ligadas e unidas na realidade. Se as afirmações e ensinamentos da religião forem contrários à ciência e à razão, então são resultado da superstição e da imaginação. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 175)
Assim, se podem existir cabalas e conspirações hostis, a nossa responsabilidade como indivíduos implica que nos informemos sobre os factos reais e usemos a razão e a ciência para determinar a verdade. Teorias da conspiração e pseudociência podem confortar-nos, levando-nos a acreditar que nós, humanos, construímos convulsões aleatórias e complexas que perturbam o mundo, e conseguimos ver padrões onde eles não existem; mas temos de ver para lá do conforto das nossas noções e descobrir a ciência e da base factual da realidade.

Se conseguirmos fazer isso nas nossas interacções diárias com o mundo, também podemos fazê-lo com as nossas crenças religiosas:
Se as afirmações e ensinamentos da religião forem contrários à ciência e à religião, eles são resultado da superstição e da imaginação. Inúmeras doutrinas e crenças desse tipo surgiram nos tempos do passado. Considerai as superstições e mitologia dos romanos, dos gregos e dos egípcios; todas eram contrárias à religião e ciência. Agora é evidente que as crenças dessas nações eram superstições, mas naqueles tempos eles acreditavam firmemente nelas. Por exemplo, um dos muitos ídolos egípcios era para essas pessoas um verdadeiro milagre, quando na realidade era um bloco de pedra. Como a ciência não poderia aceitar a origem e natureza milagrosa de um pedaço de rocha, a crença nela deve ter sido superstição. É agora evidente que era superstição. Portanto, devemos pôr de lado essas crenças e investigar a realidade. Aquilo que for considerado real e conforme a razão deve ser aceite, e qualquer coisa a ciência e a razão não possam suportar, deve ser considerado imitação e não realidade. Assim, as diferenças de crença irão desaparecer. Tudo se tornará como uma única família, um só povo, e a mesma susceptibilidade à generosidade e educação divina será testemunhada entre a humanidade. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp 175-176)

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Texto original: Conspiracies and Pseudoscience - How to Separate Fact from Theory (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 6 de junho de 2015

Deus criou a Matemática?

Por David Langness.


As únicas teorias físicas que estamos dispostos a aceitar são as bonitas. (Albert Einstein)

Se existe um Deus, ele é um grande matemático. (Paul Dirac)

As leis da natureza são apenas os pensamentos matemáticos de Deus. (Euclides)

Quando tento resolver um problema apenas penso na beleza quando termino; se a solução não é bela, então está errada. (Buckminster Fuller)

Regozijamo-nos, como se fosse um acaso favorável às nossas intenções, quando encontramos essa unidade sistemática entre leis meramente empíricas. (Kant)
Tenho fascínio por matemática e ciências.

Para mim, mesmo quando ainda estava na escola primária, adorava os novos conhecimentos que encontrava na ciência, e pensava que a matemática tinha uma pureza e uma verdade encantadoras. Os cálculos que aprendi, a álgebra, a geometria e a trigonometria, tudo parecia ter uma beleza abstracta suplementar que de alguma forma parecia genuína. Gostava especialmente das minhas aulas de geometria, onde conseguia de algum modo, olhar para aquelas formas e intuir as respostas. Eu ainda não percebo porquê.

Quando tinha 10 anos de idade, o meu professor, o Sr. Heikel viu que eu gostava de matemática. Sendo licenciado em matemática, interessou-se por mim, e desafiou-me a resolver alguns problemas "avançados" de matemática. Encontrei as respostas para alguns deles; mas houve outros que me deixaram perplexo. O meu professor apenas sorriu, e depois deu-me um artigo para ler, chamado A efectividade irracional da Matemática nas Ciências Naturais. Era escrito por um laureado Nobel chamado Eugene Wigner, mas eu não percebi muito daquilo - mas entusiasmei-me quando li sobre "a enorme utilidade da matemática nas ciências naturais é algo que se aproxima do mistério."

Wigner fez-me pensar: Como pode a matemática ser misteriosa? Dois e dois são quatro, certo?

O meu professor explicou o que Wigner queria dizer: o mundo natural tem uma ligação muito próxima e quase inexplicável com o mundo teórico da matemática, e essa ligação diz algo profundo sobre a criação. Talvez Deus fosse um matemático, disse o Sr. Heikel.

Se todo o universo funciona com base num conjunto fixo e sofisticado de leis científicas e matemáticas, pensei, faz sentido que essas leis tenham vindo de algum lugar.

Acontece que também é assim que pensam muitos cientistas e matemáticos. Nas disciplinas altamente sofisticadas de matemática avançada e física quântica, as teorias mais belas e elegantes teorias revelam ser as mais verdadeiras. E os filósofos acreditam que isso revela a existência de uma beleza e verdade superiores na própria criação. Suponho que podemos chamar a isso de uma prova científica de Deus.

Alguns cientistas dizem que encontram a mesma emoção e encanto na simplicidade e beleza de um teorema ou num conjunto de números que outros vêem na música, na arte, no cinema ou na literatura. A partir dessa perspectiva, a experiência estética inerente à ciência e à matemática pode levar-nos ao reconhecimento da beleza, harmonia e coerência existentes na própria criação, e ligar o espírito humano ao transcendente e à mística:
O espírito no mundo humano é o descobridor das realidades da existência. Todas as invenções, todas as ciências, todos os mistérios ocultos são trazidas à luz através da actividade do espírito no plano da vida. Enquanto vive no Oriente organiza os assuntos no Ocidente; enquanto vive na terra descobre as constelações celestes. Estes exemplos devem mostrar que o espírito da vida é omnipotente, especialmente quando estabelece uma comunicação com Deus e se torna o destinatário da eterna luz - então ele transforma-se num raio do esplendor do sol eterno. (‘Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 165)

Os mais eruditos e versados teólogos, os mais ilustres sábios, estudaram diligentemente aqueles ramos do conhecimento cuja raiz e origem foram os filósofos gregos como Aristóteles e outros, e consideraram a aquisição dos textos gregos sobre ciências como a medicina e ramos da matemática, incluindo álgebra e aritmética, como um feito muito valioso. (‘Abdu'l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p. 30)

O espírito do homem é um poder envolvente que abarca as realidades de todas as coisas. Tudo o que vês ao teu redor - os produtos maravilhosos do engenho e da arte humana, as invenções, as descobertas e outras evidências semelhantes - cada um desses foi um segredo oculto ausente no reino do desconhecido. O espírito humano revelou esse segredo, e trouxe-o do invisível para o mundo visível. Há, por exemplo, o poder do vapor, a fotografia e o fonógrafo, e telegrafia sem fios, e os avanços na matemática: cada um destes foi outrora um mistério, um segredo bem guardado; mas o espírito humano desvendou estes segredos e levou-os do invisível para a luz do dia. Assim, é claro que o espírito humano é um poder envolvente que exerce o seu domínio sobre as essências interiores de todas as coisas criadas, descobrindo os mistérios contidos no mundo material. (‘Abdu'l-Bahá, Seleção dos Escritos de Abdu'l-Baha, nº 145)

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Texto original: Did God Create Math? (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.