sábado, 31 de outubro de 2015

Ensinar Crianças a Odiar

Por Shirin Sabri.


Há muito exemplos históricos de sociedades que se esforçam por manter os seus preconceitos mais profundos.

Morris Fraser, um psicólogo infantil que trabalhou em Belfast com crianças traumatizadas pelo conflito na Irlanda do Norte, descreveu uma situação em que as crianças de cada lado viam as pessoas do outro lado como criaturas monstruosas:
... os equívocos e os preconceitos das crianças, como seria de esperar, reflectem os dos mais velhos - a sua única fonte de informação na ausência de experiência. Para a criança Protestante, o católico é um preguiçoso, desonesto, sujo, um criador de grandes famílias, gerador de pobreza comunitária... Na atitude da criança católica há um medo mais consciente. Para ela, o protestante é a pessoa que quer queimá-la, matá-la, privá-lo do seu lar e dos seus pais (Children in Conflict, p. 139)
Esta percepção preconceituosa e exagerada tornou-se uma parte significativa do trauma infantil.

Na Irlanda do Norte,
uma criança tenta falar com um militar britânico
Se pegarmos na citação anterior e substituirmos a palavra "Católica" por "Preto" e a palavra "Protestante" por "Branco", o texto poderia igualmente descrever de forma correcta as crianças em algumas áreas dos Estados Unidos. E poderíamos, igualmente, substituir a palavra "católica" por "Cigana" ou "Palestiniana", e a palavra "protestante" por "Checa" ou "Israelita". A imagem preconceituosa parece encaixar-se sempre. Isso dá-nos sinais fortes de que o preconceito não é sobre o grupo-alvo. Quando os fanáticos lançam os mesmos insultos humilhantes através das linhas de separação, sabemos que esses insultos são criados pelos sentimentos e desejos pessoais, e têm pouco a ver com as características observáveis nos alvos em causa.

Quando crianças irlandesas do doutor Fraser conheceram e falaram pela primeira vez com pessoas católicas (ou pessoas protestantes, conforme o caso) o seu terror e ódio desapareceram. No fundo, eram apenas pessoas; não eram as criaturas repugnantes e más que tinham imaginado. No seu livro, Fraser afirma que as crianças da Irlanda (e sociedade irlandesa como um todo) beneficiariam muito com uma educação integrada. Quando o livro foi escrito, todas as crianças católicas frequentavam a escolas católicas e todas as crianças protestantes frequentavam escolas públicas. Fraser salientou que todos os esforços para mudar esta situação enfrentaram uma resistência vigorosa, tanto do Estado como da Igreja. E acrescenta:
Os líderes da Igreja em Ulster não gostam da palavra "segregação"; preferem dizer que o sistema é simplesmente de "educação separada." Dizem-nos que as crianças podem brincar nas ruas depois da escola, pois não existe qualquer proibição sobre isso. "Lamentável absurdo", escreveu um professor no Irish News. "Lamentável, porque soa como a justificação agradável para qualquer leitor que não conhece o Ulster. Absurdo, porque, num sistema de gueto, isso é uma impossibilidade física." - Ibid., P. 168.
Cada grupo quis manter o que entendia ser o seu território, a sua área de poder e de controlo. Era contra os seus próprios interesse deixar que as crianças se misturassem, vissem as coisas com os seus próprios olhos e aprendessem por si próprias.

Preconceitos, deliberadamente atiçados por quem está no poder, criam uma atmosfera que produz atrocidades. No período que antecedeu os 1994 massacres de Tutsis e Hutus moderados em Ruanda, "foram distribuídos cartazes e folhetos que desumanizadas Tutsis como «cobras», «baratas» e «animais»" (Leia uma crónica dos acontecimentos que ocorreram no Ruanda, em 1994). Esta desumanização deliberada permitiu o genocídio que ocorreu depois.

Os Bahá'ís compreendem esse tipo de preconceito, porque eles próprios, por vezes, sofrem com essa eliminação deliberada da sua humanidade. Desde a revolução no Irão, por exemplo, os trabalhadores de recenseamento muitas vezes informam que aldeias predominantemente ou exclusivamente Baha'is não têm população. E quando lhes pedem para explicar a discrepância, respondem friamente: "eles não são humanos seres" ou "eles são apenas Bahá'ís" (Peter Smith, In Iran: Studies in Babi and Baha’i History, p. 218).

'Abdu'l-Bahá sugere:
Não se enalteçam acima dos outros, mas considerem todos como vossos iguais, reconhecendo-os como servos do Deus uno. Saibam que Deus é compassivo para com todos; portanto, amem a todos das profundezas dos vossos corações, dêem preferência aos seguidores de todas as religiões antes de vós próprios, tenham pleno amor por todas as raças e sejam amáveis com pessoas de todas as nacionalidades. Nunca falem de modo depreciativo sobre os outros, mas elogiem sem distinção. Não manchem as vossas línguas a falar mal dos outros. (The Promulgation of Universal Peace, p. 452)
Nestes tempos, temos muitas oportunidades para observar os resultados da educação das crianças numa atmosfera de preconceito, e da sua alimentação com imagens manipuladas e fantasiosas sobre "o mal dos outros." Quando as crianças não podem investigar a verdade por si próprias, elas aprendem a ver o outro lado como o bicho-papão, pois eles são facilmente doutrinadas. Muitos tornaram-se crianças-soldados, tragicamente incapazes de ver os seus inimigos como seres humanos. Um jovem que fugiu à vida de criança-soldado no Sudão recorda: "O meu desejo era matar o maior número possível de muçulmanos e árabes, e o segundo era que eu queria uma bicicleta" (leia esse relato a partir de uma ex-criança-soldado no Sudão).

Estas atitudes desenvolvem-se numa atmosfera de desconfiança e ódio entre adultos. As crianças da comunidade absorvem as atitudes dos adultos. Isso não surpreende, nem assusta, os adultos envolvidos, até que eles percebam que a criança reflecte algo bizarro, distorcendo e exagerando tudo o que vê, por vezes transformando uma simples aversão e desprezo num desejo selvagem de aniquilação, tal como acontece em muitas comunidades divididas. Em todo o mundo, os filhos de adultos preconceituosos e intolerantes entram na sua própria vida adulta cheios de necessidade de justificar as suas próprias acções repletas de ódio, culpando ainda mais as suas vítimas. E depois, a sociedade que semeou ventos começa a colher tempestades.

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Texto original: Teaching Children to Hate (www.bahaiteachings.org)

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Shiring Sabri é professora de história e Literatura na Townshend International School na Republica Checa. Tem vários ensaios e poemas publicados, nomeadamente The Incomparable Friend: The Life of Bahá’u’lláh Told in Stories (2006), The Pinckelhoffer Mice (1992) e  The Purpose of Poetry (the Journal of Bahá’í Studies Vol.1, no.1).

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Realeza da Noruega promove diálogo inter-religioso

Um encontro inter-religioso promovido pelo rei Harald e pela rainha Sónia da Noruega contou com mais de 90 participantes de diversas religiões, incluindo vários membros da Comunidade Bahá’í. O objectivo deste evento era aumentar o diálogo e a compreensão inter-étnica e inter-religiosa. No seu discurso de abertura, o rei Harald da Noruega expressou o seu desejo de contribuir para a unidade do país, cuja população se está a diversificar cada vez mais rapidamente.

"Quando a rainha e eu viajamos no nosso país sentimos a diversidade de culturas e religiões muito de perto, através da comida, da cultura e de conversas com as pessoas que têm raízes noutras partes do mundo" declarou o Rei Harald da Noruega aos presentes, que também incluíam budistas, cristãos, judeus, muçulmanos.

"Então reflectimos: Esta é a Noruega. Esta é a Noruega no ano de 2015. E só isso é tão emocionante... A identidade norueguesa - os múltiplos povos que agora constituem os noruegueses - está em constante mudança. Precisamos de solidariedade. Isto é importante para recordar, especialmente nestes dias."

No seu discurso, Rainha Sónia da Noruega salientou a importância da união de esforços das organizações religiosas na promoção da unidade.


"Este evento, iniciativa da família real em cooperação com o Conselho Inter-religioso, é um evento único e, como tal, representa um modelo para o diálogo para o resto da sociedade", disse Arne Kittang, um dos representantes da comunidade Bahá'í da Noruega, que participou do evento.

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FONTE: Norway royals host interfaith dialogue (BWNS)

sábado, 24 de outubro de 2015

O Fim do Mundo

Por Deshon Fox.


No Evangelho de S. Marcos encontramos um interessante diálogo sobre este assunto entre Cristo e os Seus Discípulos, quando estavam no Monte das Oliveiras.

Perplexos com a profecia de Cristo sobre a destruição do templo, os discípulos pedem a Jesus que diga uma data em que acontecerá essa destruição. Em resposta, Jesus refere uma série de eventos que irão ocorrer antes do fim do mundo. Estes eventos incluem coisas como falsos profetas que enganam os fiéis, guerras e rumores de guerras, fomes, epidemias e terramotos. Além disso, Cristo promete que o Seu evangelho seria pregado em todo o mundo e a todas as nações antes da chegada do fim:
Jesus começou a dizer-lhes: «Acautelai-vos para que ninguém vos iluda. Surgirão muitos com o meu nome, dizendo: 'Sou eu'. E seduzirão a muitos. Quando ouvirdes falar de guerras e de rumores de guerras, não vos alarmeis; é preciso que isso aconteça, mas ainda não será o fim. Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino; haverá terramotos em vários lugares, haverá fome. Isto apenas será o princípio das dores.» (Marcos 13:5-8)
Evangelho de S. Marcos
Estas frases intrigantes captam a nossa atenção e soam como um presságio sobre o fim do mundo. Mas poderá o fim de que Cristo falava já ter ocorrido e estarmos agora a viver um novo período da existência humana? Poderão as "dores de parto" que Cristo descrevia simbolizar as enormes convulsões mundiais dos últimos dois séculos?

À primeira vista não parece possível. O fim significa sempre o fim; não seria um acontecimento que passasse despercebido. Os finais são cataclismicos, apoteóticos e derradeiros - ou não será assim? Alguém consegue indicar o momento exacto em que terminou a sua infância e começou a sua adolescência? Os finais assinalam sempre o início de uma experiência nova e totalmente diferente. No entanto, ocorrem frequentemente de forma subtil, simples e discreta.

A Fé Bahá’í afirma que as profecias dos "fins dos tempos" que se encontram na Bíblia e noutros Livros Sagrados referem-se a ciclos de orientação divina que o Criador proporciona à humanidade. Esses ciclos - e os Mensageiros que os trazem - iniciam-se com a alvorada ("o princípio") da nova revelação de Deus à humanidade. Também possuem a suprema autoridade divina enquanto estão na terra ("o fim"); e actuam como portas para o reino celestial, pontes para uma mais profunda consciência da alma sobre a sua ligação eterna com o seu Criador.

Os Bahá’ís entendem as coisas desta forma: sempre que um novo profeta e mensageiro é enviado do reino celestial, nós vivemos o fim do anterior ciclo da orientação divina e, simultaneamente, o início de um novo ciclo. Inícios e fins caminham sempre lado a lado:
Sabe tu que o regresso de Cristo, não significa aquilo que as pessoas acreditam, mas sim quer dizer que o Prometido viria depois d’Ele. Ele virá com o Reino de Deus e o Seu poder que envolve o mundo. Este domínio está no mundo dos corações e dos espíritos, e não na matéria... Em verdade, Cristo veio com o Seu Reino, desde o início, que não teve início, e virá com o Seu Reino para a eternidade das eternidades, pois neste sentido, "Cristo" é uma expressão da Realidade Divina, a Essência elementar e Entidade celestial, que não tem início nem fim. Existe surgimento, ascensão, manifestação e declínio em cada um dos ciclos. (‘Abdu’l-Bahá, quoted by Dr. J. E. Esselmont in Baha’u’llah and the New Era, p. 224)
Desta maneira, podemos compreender, de uma forma nova e mais profunda, as profecias de Cristo sobre o fim dos tempos conforma registadas nos Evangelhos.

Sem dúvida que já experimentámos as "guerras e os rumores de guerras" - as duas guerras mundiais no século XX, e a Guerra Fria que se seguiu encaixam-se perfeitamente nesta descrição. As fomes, certamente, custaram a vida de inúmeros seres humanos. E testemunhámos vários terramotos devastadores. Parece que já aconteceu o "fim" que estes sinais referem.

Então, o que acontece após o "fim do mundo"? A vida torna-se um vazio absoluto, ou existe simultaneamente, como com todos os fins, um novo início?

Os ensinamentos Bahá'ís dizem-nos que o fim do mundo profetizado por Cristo significa o fim de um ciclo divino e o início de um novo destinado a cumpri-lo.

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Texto original: The End of the World - and a New Beginning (www.bahaiteachings.org)

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Deshon Fox é o autor do livro The Middle Theory. Vive nas Bahamas com a esposa e três filhos. Tem um mestrado em Engenharia Civil pela Universidade de Minnesota e trabalha numa empresa de engenharia sediada nas Bahamas. Actualmente é membro da Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá'ís das Bahamas, um papel que ele teve desde 2009.

domingo, 18 de outubro de 2015

Parecia a Última Ceia


A exibição do programa Inside Iran’s Revolutionary Courts foi apenas mais uma demonstração da face tirânica e criminosa da República Islâmica do Irão. Essa face não foi expressão de um momento de paixões revolucionárias; pelo contrário, tornou-se uma das suas características mais marcantes e repetidamente afirmada desde 1979.

Surpreendeu pelo facto de exibir pela primeira vez um filme antigo com julgamento da AEN dos Bahá’ís do Irão. Ali se vêem 7 dos 8 membros detidos perante um tribunal Revolucionário. Por vezes o filme foca cada um dos sete; outras vezes mostra todo o grupo.

O programa recolheu também o testemunho de familiares destes dirigentes Bahá’ís executados. Viram o filme pela primeira vez e não conseguem conter as emoções. A carga dramática da imagem dos sete a serem julgados, evoca memórias e diversos comentários. Um dos familiares desabafa: “Aquela imagem dos sete durante o julgamento faz lembrar o quadro da Última Ceia.”

E é verdade. Ao longo do julgamento torna-se cada vez mais claro que o seu destino está traçado. Mas eles enfrentam serenamente as questões e opiniões de um juiz, cuja palavra era a lei. Aquela “Última Ceia” era o teste derradeiro à fé de cada um.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A Assembleia Espiritual que desapareceu

Por Sepehr Atefi (BBC-Persa).

No dia 11 de Novembro de 1979, o Dr. Alimorad Davoodi, secretário da Assembleia Espiritual Nacional (AEN) dos Bahá’ís do Irão, e professor de Filosofia da Universidade de Teerão, foi fazer o habitual passeio no parque Laleh de Teerão e nunca regressou.

Vários telefonemas ameaçadores recebidos nos dias anteriores e investigações dos seus amigos no próprio dia indiciam que se tratou de um rapto.

O Dr. Alimorad Davoodi, secretário da AEN dos Bahá’ís do Irão, e professor de Filosofia da Universidade de Teerão,
 raptado no dia  11 de Novembro de 1979 em Teerão.


A sua filha, Marjan Davoodi, que na época tinha 18 anos, recorda: “Fomos ao parque com alguns dos seus amigos à procura dele. O guarda vigilante do parque disse que apareceu um jipe e que ele foi forçado a entrar no carro. Assumimos que o jipe pertencesse ao governo, pois a maioria dos carros não pode entrar no parque. Quando os amigos regressaram ao parque no final desse dia, o guarda negou tudo”.

Alimorad Davoodi não foi o primeiro Bahá’í a ser raptado. Os raptos tinham começado vários meses antes, com o sequestro de Mohammad Movahed. Este tinha nascido numa família de clérigos de Shiraz e seguiu estudos islâmicos durante vários anos, durante os quais tinha conhecido e aceite a Fé Bahá’í. Ter-se tornado Bahá’í foi algo tão inacreditável para a sua família e amigos que ele foi internado numa instituição psiquiátrica, e posteriormente transferido para Teerão. Apesar das numerosas reuniões, demoradas discussões e até ameaças, ele nunca renunciou ou escondeu as suas crenças. Anos mais tarde, após a Revolução, a pressão aumentou. Finalmente após várias sessões de interrogatório e convocações pelo Comité Revolucionário, foi raptado numa rua, em Maio de 1979. O rapto seguinte que criou grande ansiedade na Comunidade Bahá’í teve lugar em Dezembro desse ano. Ruhi Roshani, secretário da Assembleia Espiritual Local (AEL) de Teerão, que tinha sido alvo de ameaças por parte de fanáticos religiosos após a publicação do seu livro “Khatamiyyat” (a crença de que o Profeta Maomé foi o último mensageiro de Deus) também desapareceu. O seu destino, tal como o de Davoodi e Movahed, permanece desconhecido.

Rapto dos Membros da AEN do Irão e Execução dos Membros da segunda AEN

Enquanto crescia a pressão sobre as instituições Bahá’ís, dois Bahá’ís de Shiraz foram acusados de “espiar para Israel” e executados em Abril de 1980. As instituições Bahá’ís (ou “Assembleias”) encarregam-se dos assuntos administrativos da Comunidade Bahá’í, e são constituídas por nove membros eleitos pela Comunidade Bahá’í em cada cidade ou aldeia. A negação de qualquer envolvimento pelas autoridades governamentais amplificava os rumores sobre o destino das pessoas desaparecidas. Marjan Davoodi afirma: “Apelámos a praticamente todos os organismos responsáveis, mas todos negaram envolvimento. Durante muito tempo tivemos esperança de encontrá-lo, mas suspeitávamos que, tal como outros durante esse período, ele tivesse sido torturado e forçado a negar a sua fé, ou a confessar-se culpado de uma acusação falsa. Estas especulações eram extremamente perturbadoras para nós”.

Em circunstâncias semelhantes, vários homens invadiram a casa do Hossein Naji, membro da AEN do Irão, para prendê-lo; não o tendo encontrado em casa, detiveram a sua esposa, Vajdieh Rezvani. Esta recorda: “Vieram à nossa casa quatro vezes; de cada vez eram sete ou oito homens armados. Na primeira vez disseram que procuravam armas; mas nas ocasiões seguintes queriam ver o Dr. Naji, e uma vez levaram-no para ser interrogado”.

Em 21 de Agosto de 1980, homens armados prenderam todos os membros da AEN (na foto), assim como dois dos seus colegas.
Essas 11 pessoas raptadas nunca mais foram vistas por familiares e amigos.

Hossein Naji escreveu ao Ayatollah Khomeini, ao Presidente Abul-Hassan Bani-Sadr, ao Ministro da Saúde Hadi Manafi, e ao Procurador-Geral do Tribunal Revolucionário Ayatollah Ali Qodusi, descrevendo as rusgas em sua casa por homens armados e a detenção da sua esposa, e solicitou uma investigação. Mas os seus apelos enfrentaram uma total ausência de resposta pelas autoridades, e nenhum organismo assumiu a responsabilidade pela detenção da sua esposa.

Finalmente em 21 de Agosto de 1980, homens armados prenderam todos os membros da AEN, assim como dois dos seus colegas, quando realizavam uma reunião rotineira. As 11 pessoas raptadas nunca mais foram vistas por familiares e amigos.

A investigação aos desaparecimentos começou imediatamente. As famílias reuniram-se com o Procurador-Geral do Tribunal Revolucionário, o Chefe do Sistema Judicial Iraniano e o Presidente do Parlamento.

Vajdieh Rezvani recorda: “Fomos a todos os locais que podíamos pensar… esta prisão, aquela prisão; fomos ver o Ayatollah Beheshti, o filho do Ayatollah Montazeri, o Ayatollah Behjat, o Ayatollah Gilani… todos negaram saber qualquer coisa, mas descobrimos mais tarde que eles os tinham executado na primeira noite... apesar de 35 anos depois ainda não sabemos o que aconteceu verdadeiramente”.

Numa reunião com o Presidente do Parlamento, Akbar Hashemi Rafsanjani, este prometeu investigar os desaparecimentos. Alguns dias mais tarde, ele confirmou que tinha sido emitida uma ordem de detenção para os onze Bahá'ís, mas que eles deviam permanecer incomunicáveis até que os interrogatórios estivessem concluídos. Menos de um mês depois, Rafsanjani negou a sua primeira declaração e culpou um grupo independente pelos desaparecimentos. Os membros da Comunidade Bahá'í do Irão também suspeitavam de outros grupos - incluindo a Sociedade Hojjatieh [1] - estarem envolvidos nos desaparecimentos.

Em Dezembro de 1981, durante uma das raras ocasiões em que oito dos nove membros da AEN seguinte estavam reunidos, todos foram detidos. Farideh Samimi recorda: “…não nos mostraram um mandado de captura. O Sr. Amin Amin, que era advogado, perguntou se eles tinham um mandado para os prender; não tinham um mandado - a sua palavra era a lei”.

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Mina Yazdani, historiadora, comenta a extensão do envolvimento do governo nos raptos[2]: 
No caso do Dr. Davoodi e de Mohammad Movahed, não há dúvida que algumas organizações governamentais estiveram envolvidas. O facto de todos os apelos por justiça terem sido ignorados, e o facto de algum tempo mais tarde se ter sabido que um poderoso e influente membro do clero tinha decretado a execução de Mohammad Movahed, não deixa qualquer dúvida que alguns ramos do governos estiveram envolvidos”.

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Após o rapto da primeira AEN formada após a Revolução, foi formada uma segunda AEN. Esta tratou dos assuntos da comunidade Bahá’í durante um ano com condições extremamente difíceis. A pressão e execução de membros das AEL's de Yazd, Hamadan, Tererão e Tabriz, e a execução de dois Bahá’ís de Mashad por um pelotão de fuzilamento, foram alguns dos tormentos sentidos pela Comunidade Bahá’í entre 1980 e 1981.

Mais tarde, em 27 de Dezembro de 1981, os oito membros da AEN foram mortos por um pelotão de fuzilamento. Inicialmente, a sua execução foi negada, mas acabou por ser posteriormente confirmada pelo Chefe do Sistema Judicial Ayatollah Ardebili, que anunciou que eles tinham sido executados devido a “espionagem para potências estrangeiras”. Assim, a prisão e execução dos Bahá’ís tornaram-se oficiais.

Dissolução das Instituições Bahá’ís e execução de vários membros da terceira AEN

Em 29 de Agosto de 1983, Hassan Mousavi Tabrizi, Procurador-Geral do Tribunal Revolucionário afirmou:
 “As instituições Bahá’ís são consideradas... como renegadas e conspiradoras, e qualquer colaboração com estas está proibida”.

Em 29 de Agosto de 1983, Hassan Mousavi Tabrizi, Procurador-Geral do Tribunal Revolucionário afirmou numa entrevista: “Os Bahá'ís fazem espionagem; são arruaceiros... Hoje, proclamo que devido às suas actividades imorais e subversivas, as instituições Bahá’ís são consideradas pelo Procurador-Geral do Tribunal Revolucionário da República Islâmica como renegadas e conspiradoras, e qualquer colaboração com estas está proibida”.

Na sua última mensagem aos amigos Bahá’ís do Irão, a terceira AEN anunciou a suspensão de todas as actividades Bahá’ís, de acordo com o princípio Bahá'í de obediência às leis do governo. Simultaneamente, enviou uma carta aberta a dois mil dos mais influentes e proeminentes membros do governo, pedindo o fim das perseguições, detenções, torturas e execuções de Bahá’ís. Nessa carta questionava: “Como pode um homem com 85 anos de idade de Yazd, que nunca saiu da sua aldeia, ser um espião? Como se pode acusar de espionagem estudantes, donas de casa, meninas inocentes e homens e mulheres idosas? Que documento e informações secretas tinham? Que aparelhos de espionagem possuíam?

Apesar disso, a perseguição aos Bahá’ís e a hostilização das Assembleias Espirituais locais e nacional não parou. Nos meses seguintes, sete membros da terceira AEN formada após a Revolução - Jahangir Hedayati, Shapour Markazi, Farhad Asdaqi, Farid Behmardi, Ardeshir Akhtari, e Amir Hossein Naderi - foram presos e executados.

Os Bahá’ís e a Revolução Islâmica

Apesar dos Bahá'ís também terem sido alvo de discriminação durante o regime de Pahlavi, com o advento da Revolução Islâmica a discriminação intensificou-se e institucionalizou-se. A Constituição da República Islâmica distingue claramente os seguidores do Islão Xiita de outras minorias reconhecidas. Ao excluir os Bahá'ís das “minoria não-reconhecida” criou o pretexto para pressioná-los. O Ayatollah Khomeini, que nunca escondeu a sua hostilidade aos Bahá’ís, afirmou numa entrevista em Dezembro de 1978 com o professor James Cockroft da Rutgers University, em resposta a uma questão sobre a liberdade religiosa e política dos Bahá’ís sob o novo regime: “A liberdade não será concedida a pessoas que são perigosas para o país”.

Assim, não foi surpreendente que desde os primeiros anos da Revolução os Bahá’ís, perseguidos pelos inimigos do passado, também o fossem pelo poder dominante.

Mas qual foi a reacção dos Bahá’ís à Revolução? Mina Yazdani, professora de história que é Bahá’í, afirma: “Considerando as circunstâncias e eventos desse período, por exemplo, os incêndios de residências Bahá’ís em Shiraz dois meses antes da Revolução, as premonições dos perigos que se adivinhavam não tiveram grande impacto. Muitos de nós sentíamos que haveria dificuldades e sofrimento no futuro”.

As confiscações das suas propriedades, as expulsões das escolas e universidades, os despedimentos nos empregos, a proibição de transacções legais etc - foram alguns dos efeitos da Revolução para os Bahá’ís.

Três décadas após a Revolução, os direitos humanos dos Bahá'ís não melhoraram. Por exemplo, sete membros da comunidade que administram os assuntos da comunidade (na ausência de uma instituição eleita) estão actualmente a cumprir 20 anos de prisão cada um.

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FONTE: The Spiritual Assembly that Vanished (Iran Press Watch, via BBC-Persian)

REFERÊNCIAS:
[1] - Para mais informações sobre a Sociedade Hojjatieh, ver este link na Wikipedia
[2] - O artigo completo da Drª Yazdani: The Islamic Revolution’s Internal Other: The Case of Ayatollah Khomeini and the Baha’is of Iran

sábado, 10 de outubro de 2015

Pessoas e Armas de Fogo

Por Rodney Richards.


... os armamentos, até agora limitados, estão agora a crescer numa escala colossal. As condições estão a extremar-se, aproximando-se do ponto em que os homens combatem nos mares, combatem nas planícies, combatem na própria atmosfera com uma violência desconhecida em séculos anteriores. Com o crescimento do armamento e dos preparativos, os perigos são cada vez maiores. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 321)
A maioria de nós somos pessoas inteligentes em muitos aspectos; mas todos nós conhecemos a frase, "as pessoas inteligentes podem fazer coisas estúpidas". Eu sei que faço. Na verdade, conclui que a estupidez do homem só está limitada pelo desejo pessoal de agradar a si próprio.

Ou, como disse Albert Einstein: "Há duas coisas que são infinitas: o universo e a estupidez humana; mas não tenho certeza sobre o universo". Claro que isto é uma frase irónica de um dos nossos maiores pensadores e cientistas; e ele nem sequer via exemplos sucessivos de estupidez nos noticiários na TV todas as noites, ou diariamente quando conduzia um carro numa estrada. Talvez nas nossas próprias palavras e acções impensadas ou descuidadas, todos nós tenhamos feito algo estúpido recentemente. Exemplos da vida real abundam quando consideramos a nossa própria estupidez e a dos outros, ou melhor, acções estúpidas.

Felizmente, sabemos que as pessoas têm capacidade para se elevar acima de palavras e acções estúpidas:
O poder do intelecto é uma dos maiores dádivas de Deus aos homens; é o poder que o torna uma criatura maior do que o animal. Enquanto, século após século, era após era, a inteligência do homem cresce e torna-se mais perspicaz, a do animal permanece a mesma. Eles não são mais inteligentes hoje do que eram há mil anos! Existe uma prova maior do que esta para mostrar a dissimilaridade do homem para a criação animal? É, certamente, claro como o dia. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 72)
Os seres humanos podem ter uma natureza animal inferior, mas a nossa vontade e inteligência podem superar e dominar os nossos instintos, vontades e desejos mais básicos. Os nossos espíritos-inatos - os nossos corações, mentes e almas - podem superar a natureza mais baixa, a velha natureza, da humanidade como um todo.

Por exemplo: vejamos o desejo aparentemente interminável por armas aqui nos Estados Unidos, onde vivem mais de 311 milhões de pessoas. De acordo com uma sondagem (2007 Small Arms Survey), nos Estados Unidos, existem 88,8 armas por 100 residentes, um valor superior ao existente na Sérvia, Iémene, Arábia Saudita ou Iraque. De facto, os EUA estão em primeiro lugar. A Tunísia, o último classificado, tem um décimo de uma arma por 175 habitantes. A partir de 2009, "o número total estimado de armas de fogo disponíveis para civis nos Estados Unidos aumentou para cerca de 310 milhões: 114 milhões de pistolas, 110 milhões de espingardas e 86 milhões de caçadeiras."

Isto significa que, estatisticamente, cada homem, mulher e criança nos EUA tem agora uma arma de fogo.

Você, eu e a maioria dos americanos conhecemos estas estatísticas, e conhecemos cada vez mais tragédias pessoais devidas ao uso de armas de fogo. A nossa inteligência informa-nos sobre os factos, e nós queremos conter a onda de violência armada. A mudança está a chegar devagar; aparentemente não chega a algumas áreas, mas atinge rapidamente outras.

Mas as leis e regulamentos não nos levarão até onde precisamos ir. Em vez disso, precisamos reformar e renovar a própria natureza do homem: velho contra novo; crueldade contra simpatia; ódio, raiva e ganancia contra amor e generosidade e tranquilidade.


Quando era jovem fiquei impressionado com o facto dos polícias britânicos não andarem armados. Não sabia que alguns esquadrões de elite usam armas, mas, em geral, os polícias ainda não usam armas de fogo. Para citar a Wikipédia, "No ano de 2011-12, havia 6756 Agentes Autorizados com Armas de Fogo, houve 12.550 operações policiais, em toda a Inglaterra e País de Gales, em que foram autorizadas armas de fogo e 5 incidentes em que foram utilizadas armas de fogo convencionais. Desde 2004, as forças policiais têm usado cada vez mais tasers (armas de electrochoque) contra assaltantes armados. Os tasers são considerados pelas autoridades como uma alternativa não-letal às armas de fogo."

Então, é verdade! Existem alternativas às armas de fogo para manter a ordem social - quando a população não está mais armada do que a polícia. E mais importante que isso: a população tem de confiar na polícia, um tema sob um escrutínio nos EUA após as notícias de assassinatos cometidos pela polícia e, também, assassinatos de agentes da policia. Porque devem os cidadãos ser desconfiados? Este tema fracturante está agora a ser amplamente debatido com os proprietários e não-proprietários de armas de fogo. A rápida propagação da violência armada suscitou conversas abertas sobre a posse de armas letais (incluindo por agentes policiais) neste país.

Os Estados Unidos têm participado em negociações sobre desarmamento com outras nações durante décadas e a maioria tem sido bem sucedida. Porque não começar agora as suas próprias negociações internas sobre desarmamento? As alternativas - ainda mais armas e ainda mais assassinatos - não é em nada desejável para ninguém, excepto para os fabricantes de armas. Assim em vez de sermos estúpidos, podemos ser mais espertos sobre a nossa sociedade, e tentar encontrar uma maneira de desarmá-la.

Algo drástico tem de mudar nas nossas ideias sobre liberdade pessoal e o "direito à posse de armas". Nos nossos braços devemos levar os nossos filhos para os seus berços e camas; não para as suas sepulturas.

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Texto original: The Right to Bear Babies, Not Arms (www.bahaiteachings.org)

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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sábado, 3 de outubro de 2015

Aceitar a Fé Bahá’í é trair Jesus?

Por David Langness.


... a imitação cega do passado inibe o desenvolvimento da mente. Mas quando cada alma investigar a verdade, a sociedade ver-se-á livre das trevas da repetição contínua do passado. (’Abdu’l-Baha, Selections from the Writings of ’Abdu’l-Baha, #202)

… a imitação cega entorpece os sentidos do homem, e quando se fizer uma pesquisa irrestrita da verdade, o mundo da humanidade será libertado dos grilhões da imitação cega. (’Abdu’l-Bahá, Letter to Martha Root.)

... imitações cegas e preconceitos hereditários tornaram-se invariavelmente causa de azedume e ódio e encheram o mundo com escuridão e violência da guerra. Por isso devemos procurar a verdade fundamental para nos libertarmos dessas condições e depois, com rostos iluminados, procurar o caminho para o Reino de Deus. (’Abdu’l-Bahá, Baha'i World Faith, p. 239)
Quando conheci a Mary, falámos do medo que surge quando mudamos as nossas crenças mais profundas. Tendo nascido numa família católica, ela desenvolveu desde a infância um amor por Jesus que ainda sente; suspeito que ela tem medo que “mudar de religião” seja uma traição a esse amor.

Não tive a oportunidade de falar muito mais com ela. Por isso vou abordar esse assunto aqui.

Se perguntarmos a alguém porque segue uma determinada religião ou sistema de crenças, a maioria das pessoas dirá que o faz porque a herdou. Os seus pais e os seus antepassados transmitiram-lhe essas crenças. Provavelmente foi educado(a) em criança para seguir a Fé dos seus pais e avós. E seguiu. E quando crescia percebeu a beleza dessa Fé, tentou compreendê-la e seguir os seus ensinamentos, e desenvolveu a sua identidade com base nessa perspectiva específica sobre o mundo. Se os seus pais não seguiam qualquer Fé, provavelmente também seguiu esse caminho.

Em qualquer dos casos, as suas crenças mais profundas podem estar incorrectas. Podem não lhe pertencer. Podem ser imitações cegas. Se não as questionou desde cedo, se não examinou verdadeiramente a sua realidade espiritual mais profunda, então talvez queira procurar uma verdade profunda começando por questionar aquilo que há muito tempo imita cegamente.

Quando os ensinamentos Bahá'ís nos apelam para evitarmos imitar cegamente os outros, também nos pedem que examinemos os nossos sistemas de crenças mais profundas. Mas em vez de seguir um conjunto de imitações de princípios e crenças, porque não procurar o original? Um dos principais princípios da Fé Bahá’í - a investigação independente da verdade - pede-nos que não nos fiemos nas percepções e opiniões de outros, mas que procuremos as nossas próprias crenças:
O homem deve ser justo. Devemos pôr de lado ideias pré-concebidas e preconceitos. Devemos abandonar as imitações dos avós e dos antepassados. Nós próprios devemos investigar a realidade e ser honestos nos nossos juízos. ('Abdu’l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, p. 346)
Essa justiça e honestidade significa que os Bahá’ís seguem todos os profetas de Deus. Os Bahá’ís acreditam no amor e veneram os profetas e fundadores das grandes religiões mundiais: Abraão, Moisés, Krishna, Buda, Zoroastro, Jesus Cristo, Maomé e agora, Bahá’u’lláh. Tornar-se Bahá’í não significa que estamos a rejeitar uma religião anterior. Os Bahá’ís não descartam as suas anteriores religiões; apenas as entendem sobre uma nova perspectiva - como parte integrante da unicidade da religião. Para um Bahá’í, a realidade fundamental da religião é uma e não múltipla.

Na verdade, ser Bahá’í, significa ser seguidor da luz e não da lâmpada:
... as religiões divinas dos santos Manifestantes de Deus são, na realidade, a mesma, embora sejam designadas por nomes diferentes. O homem deve ser amante da luz, não importa em que fonte ela apareça. Ele deve ser amante da rosa, não importa em que solo ela cresça. Ele deve ser um pesquisador da verdade, não importa de que fonte ela venha. O apego à lâmpada não significa amor à luz. (‘Abdu’l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, p. 151)
Assim, expliquei à minha amiga Mary que ela não tinha nada a recear. Quando alguém se torna Bahá’í não está a rejeitar a sua antiga religião ou o seu profeta; na verdade, está a aceitá-la e simultaneamente a alargar o âmbito das suas crenças, englobando ensinamentos e sabedoria de todas as religiões:
Ó tu que procuras a verdade! O mundo do Reino é um só mundo. A única diferença é que a primavera regressa vezes sem conta, e dá início a uma nova e grande agitação que afecta todas as coisas criadas. Depois, a planície e a colina ressuscitam; as árvores vestem-se de verde delicado; e as folhas, as flores e os frutos manifestam-se em beleza terna e infinita. Assim, as revelações das eras passadas estão intimamente ligadas com as que lhes sucederam; na realidade, são uma só, mas, à medida que o mundo cresce, o mesmo ocorre com a luz, com as chuvas das graças celestiais, e então o sol brilha no seu esplendor do meio-dia. (‘Abdu’l-Baha, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #29)
Os Bahá'ís não negam qualquer dos mensageiros de Deus, porque cada um representa o regresso prometido da mensagem de Deus. Ligados como uma corrente eterna de educadores divinos, os profetas e os fundadores das grandes religiões do mundo personificam um único sistema espiritual:
Vamos compreender o que constitui a realidade das religiões divinas. Se um cristão põe de lado as formas tradicionais e a imitação cega de cerimoniais, e investiga a realidade dos evangelhos, ele descobrirá que os princípios fundamentais dos ensinamentos de Sua Santidade Cristo eram misericórdia, o amor, o companheirismo, a benevolência, altruísmo, o esplendor ou brilho das dádivas divinas, a obtenção dos sopros do Espírito Santo e unidade com Deus. ('Abdu'l-Baha, Foundations of World Unity, p. 105)
Por isso, Mary, aceitar a Fé Baha'i não é trair Jesus; pelo contrário, é reconhecer a verdadeira realidade de Cristo.
É claro e evidente para ti que todos os Profetas são os Templos da Causa de Deus, que apareceram adornados com trajes diversificados. Se quiseres observar com olhos discernentes, verás que todos estão no mesmo tabernáculo, voam alto no mesmo céu, sentam-Se no mesmo trono, proferem o mesmo discurso, e proclamam a mesma fé. (Bahá'u'lláh, Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh, sec. XXII)

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Texto original: Does Becoming a Baha’i Betray Jesus? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Presidente Rouhani na ONU evita tema dos Direitos Humanos

A Comunidade Internacional Bahá'í lamentou o facto do presidente iraniano, Hassan Rohani, ter evitado abordar o tema dos direitos humanos no seu país durante o seu discurso de ontem (29/Setembro) nas Nações Unidas.

"Apesar de notarmos a promessa de convivência e diálogo com as outras nações que marcaram o discurso do presidente Rouhani, estamos profundamente desapontados por ele não referir qualquer iniciativa para melhorar a situação dos direitos humanos dos cidadãos iranianos", afirmou Bani Dugal, a principal representante da Comunidade Internacional Bahá'í junto das Nações Unidas.

A Sra. Dugal disse o presidente Rouhani não conseguiu acabar com a discriminação religiosa, apesar de ter prometido fazê-lo; esse facto foi referido na semana passada pelo Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon no seu relatório anual à Assembleia Geral sobre os direitos humanos no Irão.

É de salientar que nesse relatório o Secretário-Geral expressou preocupação com "relatos de discriminação persistente" contra as minorias étnicas e religiosas, acrescentando que o próprio presidente Rouhani tinha assumido o compromisso de "assegurar a igualdade, defender a liberdade de crença e de religião, oferecer protecção a todos os religiosos grupos e alterar a legislação que discrimina grupos minoritários".

"O presidente Rouhani já teve dois anos inteiros para cumprir as suas promessas sobre o fim da discriminação religiosa no Irão. Infelizmente, apesar de toda a sua conversa, poucos progressos foram feitos", disse Dugal. "No caso da comunidade Bahá'í iraniana, o governo tem intensificou a sua campanha de propaganda anti-Bahá'í nos meios de comunicação. A prisão arbitrária e a detenção dos Bahá'ís continuam; os jovens Bahá'ís ainda são expulsos ou impedidos ingressar de ensino superior."

A Sra. Dugal afirmou que foram publicados 7300 itens de incitamento ao ódio e propaganda anti-Baha’i nos meios de comunicação controlados pelo governo desde que o o presidente Rouhani assumiu o cargo em Agosto de 2013. O governo também continuou a repressão contra as empresas pertencentes a Bahá'ís, declarou a Sra. Dugal, acrescentando que há registo de mais de 200 ocorrências distintas de opressão económica contra os Bahá'ís sob a administração do presidente Rouhani.

"Com 74 Bahá'ís actualmente nas prisões iranianas, unicamente devido às suas crenças religiosas, é evidente que as promessas de mudança do presidente Rouhani não têm valor", disse a Sra. Dugal. "Num momento em que os líderes mundiais estão reunidos com o presidente Rouhani, o relatório do Secretário-Geral lembra-nos de forma sóbria que a situação dos direitos humanos no Irão tem necessariamente de permanecer na agenda internacional", acrescentou.

"Quanto tempo mais devem os Bahá'ís iranianos enfrentam estas perseguições? Quanto tempo mais devem esperar até poderem entrar na universidade, ter permissão para sepultar os seus mortos sem problemas, ou viver sem medo da prisão?" questionou a Sra. Dugal, que lembrou ainda um artigo recente publicado na revista americana Newsweek, onde o ex-jornalista Maziar Bahari escreveu que “a melhor maneira de testar a vontade do governo iraniano sobre uma nova etapa na sua relação com o resto do mundo é questioná-lo sobre a forma como tratam os 300.000 Baha’is iranianos.

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FONTE: Iranian President Rouhani's speech to UN falls short on human rights (BWNS)

Bem-aventurado...


sábado, 26 de setembro de 2015

Progressistas, Conservadores e a Paciência

Por David Langness.


O/A leitor(a) gostaria de ver mudanças significativas na nossa sociedade, ou sente-se geralmente satisfeito com a forma como as coisas estão? Pensa em si próprio como uma pessoa que favorece a mudança ou como alguém que prefere preservar o status quo?

Esta típica questão diferenciadora permite separar progressistas de conservadores. De uma forma simplista diríamos que uma pessoa que pensa de forma progressista considera que o estado actual das coisas deve progredir ou mudar. E de forma igualmente simplista, uma pessoa que pensa de forma conservadora olha para o estado actual das coisas e quer "conservá-las”, de modo que elas continuem tal como estão.

Isto não tem nada a ver com política partidária. Infelizmente, os sistemas políticos de muitos países apropriaram-se e distorceram estas definições tradicionais e usam-nas para os seus próprios fins: dividir e conquistar. As organizações políticas partidárias gostam de nos identificar com um desses rótulos ideológicos, e alinhar-nos nas suas agendas. Mas quando pensamos no propósito original daquelas palavras, e tentamos separar os seus significados reais do conteúdo que acumularam através da política partidária, estas revelam uma dicotomia gritante. Uma pessoa conservadora é, de acordo com o dicionário Webster, alguém "disposto a preservar as condições e instituições existentes", enquanto uma pessoa progressista é alguém que "favorece ou advoga o progresso, a mudança, a melhoria ou a reforma, ao contrário dos que desejam manter as coisas como elas estão."

De acordo com estas definições, os Bahá'ís encaixam-se, claramente, na descrição progressista. Os ensinamentos Bahá'ís apelam à mudança e à reforma em praticamente todos os sectores da actividade humana, dizendo que vivemos:
... um tempo de reforma universal. As leis e estatutos dos governos civis e federais estão em processo de mudança e transformação. As ciências e artes estão a ser novamente moldadas. Os pensamentos são transformados. As fundações da sociedade humana estão a mudar e a fortalecerem-se. Hoje, as ciências do passado são inúteis. O sistema ptolomaico de astronomia, incontáveis outros sistemas, teorias científicas e explicações filosóficas são descartados, e tornam-se conhecidos como falsos e inúteis. Antecedentes e princípios éticos não podem ser aplicados às necessidades do mundo moderno. Pensamentos e teorias de tempos passados são agora infrutíferos. Tronos e governos desintegram-se e caem. Todas as condições e requisitos do passado, inaptos e inadequados para o tempo presente, estão a passar por uma reforma radical. (‘Abdu’l-Bahá, Baha’i World Faith, pp. 228-229)
Num mundo onde vemos guerras constantes, os ensinamentos Bahá'ís defendem a paz. Onde vemos grandes diferenças entre riqueza e pobreza, os ensinamentos Bahá'ís incentivam um movimento progressivo em direcção à eliminação desses extremos. Onde vemos enormes disparidades entre os educados e os iletrados, os ensinamentos Bahá'ís apelam para o ensino obrigatório universal em todo o planeta. Onde experimentamos o ódio, o preconceito e a intolerância, os ensinamentos Bahá'ís exigem a todos nós que trabalhemos para a unificação e harmonia de toda a raça humana. Onde vemos enormes desigualdades e injustiças para com as mulheres, os ensinamentos Bahá'ís defendem a igualdade absoluta entre homens e mulheres.

Os Baha'is querem reformar o mundo. Bahá'u'lláh pediu que todos trabalhassem para o objectivo de um mundo sem violência, injustiça, opressão e ódio. Apelou a todos nós para que encontrássemos formas de aplicar os princípios Bahá'ís a um padrão consistente de reforma mundial, para construir uma nova civilização global, para desenvolvermos (e conservarmos) o progresso que fizemos no reino material das ciências e aplicá-lo com a mesma energia e cuidado no reino espiritual.

Como é que vamos lá chegar?

Paciência. As Escrituras Bahá'ís afirmam que toda a mudança duradoura leva tempo:
É certo que os empreendimentos monumentais não podem ser apressadamente concluídos com sucesso; nesses casos, a pressa só causaria estragos.
O mundo da política é como o mundo do homem; primeiramente ele é uma semente, e depois, passa gradualmente à condição de embrião e feto, adquirindo uma estrutura óssea, revestindo-se com carne, assumindo a sua própria forma especial, até que finalmente atinge a condição em que pode adequadamente cumprir as palavras: "o mais excelente dos Criadores". Tal como isto é um requisito da criação e baseia-se na Sabedoria Universal, o mundo político, da mesma forma, não pode evoluir instantaneamente do ponto mais baixo da imperfeição para o cume da rectidão e da perfeição. Em vez disso, as pessoas competentes devem esforçar-se de dia e de noite, e usar todos os meios que conduzem ao progresso, até que o governo e o povo se desenvolvam ao longo de cada vertente, de dia para dia e até mesmo de momento para momento. (‘Abdu'l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, pp. 105-106)
No entanto, para os Bahá'ís a paciência não significa esperar eternamente:
Se, porém, com atrasos e adiamento isso significa, que em cada geração apenas se realiza uma fracção das reformas necessárias, isso não é senão letargia e inércia, e nenhum resultado se conseguirá com esse procedimento, excepto a interminável repetição de palavras inúteis. Se a pressa é prejudicial, a inércia e a indolência são mil vezes pior. (‘Abdu'l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p. 106)
Activistas sociais, agentes de mudança e trabalhadores para a evolução social progressista, tenham coragem: os ensinamentos Bahá'ís homenageiam e incentivam a vossa devoção e as vossas acções. Simultaneamente, também apelam a uma abordagem paciente e humilde para reformar a sociedade.

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Texto original: Progressives, Conservatives and Patience (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.