quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

9 Decisões Espirituais para o Ano Novo

Por David Langness.


Oh não! Estamos em 2015 e você ainda não tomou nenhuma decisão de Ano Novo? De qualquer forma… quem foi que inventou esta tradição?

Acontece que praticamente todas as culturas e religiões antigas têm alguma espécie de decisões de Ano Novo.

O deus Jano, da religião romana
É por isso que temos um mês chamado Janeiro - porque no início de cada ano gregoriano os antigos romanos fizeram promessas de auto-aperfeiçoamento a Jano (Janus, em latim), o deus dos começos e transições. Essa prática provavelmente também tem raízes nos antigos babilónios, que tinham de prometer aos seus deuses no início de cada ano que pagariam suas dívidas e devolveriam as coisas que tinham emprestado.

Durante o Ano Novo Judaico, que se inicia com o Rosh Hashanah, prossegue com as Grandes Festas e termina no Yom Kippur, os Judeus reflectem sobre suas faltas e pecados durante o ano anterior, e depois decidem pedir perdão e também oferecem o seu perdão aos outros.

Católicos e Anglicanos têm a Missa da Meia-Noite (também chamada Missa do Galo), concebida para ajudar a resolver os crentes a tornar o seu Ano Novo mais espiritual do que o anterior; outros cristãos têm a tradição das vigílias nocturnas, em que se preparam para o ano novo através de oração, reflexão e tomando decisões. John Wesley, fundador da Igreja Metodista, iniciou as suas vigílias em 1740, não só para oferecer uma alternativa às bebedeiras típicas da véspera de Ano Novo, mas também para cantar hinos, ler as Escrituras e decidir levar uma vida mais espiritual no ano seguinte. Wesley chamou a estas vigílias Covenant Renewal Services (Serviços de Renovação da Aliança).

Em muitas igrejas afro-americanas dos EUA, as vigílias assumiram um significado especial em 01 de Janeiro de 1863, quando os escravos negros americanos encheram as suas igrejas para aguardar e celebrar a assinatura da Proclamação de Emancipação, pelo presidente Abraham Lincoln.

Para os Muçulmanos e para os Bahá’ís, o Ano Novo do seu calendário (o que não ocorre no 1º de Janeiro) coincide com o fim do período de jejum anual, quando os crentes reflectem sobre o seu próprio desenvolvimento espiritual durante o ano anterior e comprometem-se a abster-se de desejos egoístas, a melhorar as suas vidas espirituais e a servir aos outros.

E para os Bahá'ís, o processo de tomar decisões de auto-aperfeiçoamento acontece não apenas anualmente, mas diariamente:
Examina-te a ti próprio em cada dia, antes de seres chamado a prestar contas, porque a morte não anunciada chegar-te-á e serás chamado a responder pelos teus actos. (Baha’u’llah, The Hidden Words, p. 11)
Assim, neste ano, seguindo o espírito de todas aquelas tradições culturais e religiosas, gostaria de propor um conjunto de decisões espirituais que todos podemos adoptar e pôr em prática. Vamos decidir com antecedência para evitar as resoluções típicas de ano novo - todos sabemos quais - perder peso, viajar mais, ter menos stress, passar mais tempo com a família, etc. Em vez disso, aqui fica uma sugestão para um conjunto de decisões espirituais com que todos (incluindo eu próprio) nos podemos comprometer:

  1. Decidi começar e terminar cada dia com uma oração de gratidão pela minha vida.
  2. Decidi mostrar activamente (não apenas falar) amor por toda a minha família - a família humana.
  3. Decidi trabalhar para me libertar dos meus preconceitos - toda a gente tem alguns, e todos nós estaríamos melhor sem eles.
  4. Decidi praticar um período de meditação todos os dias - ele não tem que ser longo ou complexo, mas tem de ser uma prática constante de estar sozinho a reflectir sobre os meus pensamentos e sentimentos.
  5. Decidi comprometer-me com uma meta de serviço aos outros, tornando pelo menos uma vida humana melhor no próximo ano do que foi este ano.
  6. Decidi sair dos meus grupos sociais e culturais normais deste ano - atravessando as barreiras raciais, de classe e de idade que a nossa sociedade nos impõe e fazer amizade com alguém que não seja exactamente como eu.
  7. Decidi fazer algo significativo neste ano com vista ao objectivo da paz no mundo, mesmo que seja apenas um pequeno compromisso voluntário na minha própria comunidade ou uma nova atitude sobre como lidar com conflitos de forma pacífica.
  8. Decidi mostrar activamente mais bondade, não só para com as pessoas ao meu redor, mas também para com os animais.
  9. E decidi ver o mundo como um local onde todas as minhas decisões podem fazer os outros - e eu próprio - mais felizes, mais radiantes e mais realizados espiritualmente.


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Texto original: 9 Spiritual New Year’s Resolutions (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Livro "Bahá'u'lláh e a Nova Era" proibido na Malásia.


O Ministério de Assuntos Internos da Malásia proibiu o conhecido livro Bahá’u’lláh e a Nova Era, uma obra frequentemente apresentada como uma introdução à Fé Bahá’í. Além deste livro Bahá’í foram também proibidos quatro livros islâmicos cujos conteúdos foram considerados “interpretações desviantes”.

O Ministério esclareceu que as publicações proibidas "podem perturbar a tranquilidade pública e alarmar a população pois contêm elementos que podem confundir os muçulmanos e danificar a sua fé." A impressão, importação, venda ou posse destes livros agora proibidos é punível com pena de prisão (até 3 anos) e/ou multa até 20.000 Ringgit (aprox. 4200 Euros)

Bahá’u’lláh e a Nova Era é um livro de introdução à Fé Bahá’í, originalmente escrito por John Esslemont e publicado em 1923. Foi revisto e actualizado várias vezes, e está disponível para leitura e download na Bahai Reference Library. No Brasil foram já publicadas várias edições deste livro.

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FONTES:
‘Baha’u’llah and the New Era’ banned in Malaysia (Sen's Daily)
5 publications banned for confusing Muslims (The Malasyan Insider)

domingo, 27 de dezembro de 2015

Paris, U2, e “Jesus, Jew, Muhammad, It’s True”

Por David Langness.


Nesta nova e maravilhosa dispensação os véus da superstição foram rasgados e os preconceitos dos povos orientais estão condenados. Entre certas nações do Oriente, a música era considerada repreensível, mas nesta nova era a Luz Manifesta, nas suas sagradas Epístolas, proclamou especificamente que a música, cantada ou tocada, é alimento espiritual para a alma e coração. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #74)
Quem foi ao recente concerto dos U2 no AccorHotel Arena, em Paris, juntamente com 20.000 de seus melhores amigos, ou viu o concerto na televisão em qualquer lugar do mundo, teve a oportunidade de viver um momento verdadeiramente notável. Muito mais do que apenas concerto de rock, esta actuação usou o poder da música para espalhar a verdade sobre a unicidade da religião.

Tudo começou a acontecer quando U2 tocaram os seus comoventes hinos à paz, igualdade e liberdade com paixão e vigor. Os concertos da banda em Paris, originalmente programados para começar no dia seguinte aos ataques de 13 de Novembro, assumiram uma nova e simbólica importância, com o seu regresso desafiador.

Os nomes de todas as vítimas dos atentados de Novembro foram projectados num
enorme ecrã onde se viam as cores da bandeira francesa e um símbolo da paz.
Bono criou a dinâmica ao falar (em francês e inglês) entre as músicas, sobre a tragédia dos ataques terroristas de Paris. "Somos todos parisienses", afirmou. E acrescentou que o terrorismo não pode parar a música e que tínhamos de transformar o medo em amor.

O entusiasmo e a intensidade na arena aumentaram ainda mais quando a banda tocou o tema icónico "Pride: In the Name of Love", sobre Martin Luther King, Jr. e outros defensores da liberdade. A canção foi um hino de homenagem às 130 pessoas que morreram nos ataques de Paris, ao mostrar os nomes de cada vítima num enorme ecrã de vídeo, juntamente com os símbolos da paz e do amor.

A multidão ovacionou, obviamente inspirada pela solidariedade que sentia.

Então Bono surpreendeu todos os presentes quando teve a coragem de dizer: "Nós estamos com aqueles cujas vidas foram dilaceradas por uma ideologia que é uma perversão da bela religião do Islão."

E continuou: "Tanto quanto sei, o Islão significa ‘submissão’". E então pediu à multidão para alargar a sua simpatia e orações às famílias e parentes dos próprios terroristas, "por muito difícil que isso seja".

Esse momento unificador lembrou concertos dos U2 após os ataques terroristas do 11 de Setembro nos Estados Unidos e depois dos atentados de 2005 em Londres, quando Bono usou a faixa "Coexist" no cenário do palco, e num apelo à unidade religiosa, cantou “Jesus, Jew, Muhammad, it’s true. All sons of Abraham. Father Abraham, speak to your sons. Tell them ‘No More!’” ("Jesus, Judeu, Maomé, é verdade. Todos os filhos de Abraão. Pai Abraão, fala aos seus filhos. Diz-lhes 'Nunca Mais!'")

Membros da banda U2 colocaram flores junto ao Bataclan,
numa homenagem às vítimas dos atentados de Paris.
Para os Bahá'ís, a declaração de Bono tem um nível especial de percepção, não só sobre a descendência de Abraão, mas sobre a ligação progressiva de todas as religiões:
... os descendentes de Abraão receberam a bênção especial de todos os Profetas da Casa de Israel terem surgido no seu seio. Isto é uma bênção que Deus concedeu a essa linhagem. Moisés, tanto através do Seu pai e da Sua mãe; Cristo, através da Sua mãe; Maomé; O Bab, e todos os profetas e os Santos de Israel pertencem a essa linhagem. Também Bahá'u'lláh é descendente directo de Abraão, pois Abraão teve outros filhos além de Ismael e Isaac, que naqueles dias emigraram para as regiões da Pérsia e Afeganistão, e a Abençoada Beleza [Bahá'u'lláh] é um dos seus descendentes. ('Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 246-247)
Depois veio o final, uma apoteose musical inspiradora em que os membros do público e da banda cantaram a plenos pulmões, com uma vontade profunda que o amor, a alegria e a música triunfem sobre o medo.

Há pouco mais de cem anos atrás, em Paris, a cidade dos corações, ‘Abdu'l-Bahá fez soar o apelo unificador da Fé Bahá'í, agora transmitido para todo o mundo:
Todos os Profetas de Deus vieram por amor a este único e grande objectivo.

Vede como Abraão se esforçou para trazer a fé e o amor entre o povo; como Moisés tentou unir o povo através de leis sólidas; como o Senhor Cristo sofreu a morte para levar a luz do amor e da verdade a um mundo em trevas; como Maomé tentou conseguir a unidade e a paz entre as várias tribos incivilizadas com quem Ele habitava. E por fim, Bahá'u'lláh sofreu quarenta anos pela mesma causa - o propósito nobre e único de espalhar o amor entre os filhos dos homens - e para a paz e a unidade do mundo o Bab deu a Sua vida.

Assim, esforçai-vos para seguir o exemplo destes Seres Divinos, bebei da Sua fonte, iluminai-vos com a Sua luz, e sede para o mundo como símbolos da Misericórdia e do Amor de Deus. Sede para o mundo como chuva e nuvens da misericórdia, como sóis da verdade; sede um exército celestial, e, na verdade, conquistareis a cidade de corações. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp 171-172)
Por vezes é necessário partilhar experiências culturais e emocionais como esta para entender que a sociedade pode realmente reencontrar-se em amor, perdão, compaixão espiritual e unidade.

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Texto original: Paris, U2, and “Jesus, Jew, Muhammad, It’s True” (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Mais um gesto corajoso do Ayatollah Tehrani

No Irão, o Ayatollah Abdolhamid Masumi Tehrani, um clérigo muçulmano dissidente, manifestou em diversas ocasiões a sua solidariedade para com a comunidade Bahá’í do Irão. Em 2013, este clérigo xiita criticou publicamente a violação dos direitos civis dos Bahá’ís; em Abril do ano passado criou e ofereceu aos Bahá’ís de todo o mundo uma iluminura com uma frase das Escrituras Bahá’ís.

Recentemente, num artigo publicado no seu website, dedicou uma nova peça de caligrafia - com outro excerto das Escrituras de Bahá'u'lláh - aos Bahá'ís que foram presos com base em acusações infundadas no passado mês de Novembro. O texto escolhido é um excerto do livro "As Palavras Ocultas" e é uma homenagem à resposta destemida da comunidade Bahá'í iraniana face à perseguição contínua e sistemática de que é alvo.

Familiares de alguns dos Bahá'ís detidos em Novembro exibem a peça de caligrafia oferecida pelo Ayatollah Tehrani
Esse artigo manifesta a esperança de que seu acto "possa elevar a consciência dos meus compatriotas a pensar em aumentar o seu respeito pela dignidade humana e não focar sua atenção nas diferentes etnias, línguas e religiões". Neste texto, os iranianos também são desafiados a examinar o abismo entre os valores defendidos pela sua religião e os actos de opressão perpetrados em seu nome.

O Ayatollah Tehrani publicou ainda um comunicado na sua página do Facebook (disponível aqui em Inglês) onde convida "as pessoas progressistas do Irão a evoluir no tema dos direitos civis para todos os iranianos, independentemente da religião, género, raça e etnia. "

"A identidade nacional - e não as diferenças religiosas - deve ser considerada como o elemento unificador de todos os cidadãos deste país. Aumentar as diferenças em vez de acentuar as semelhanças apenas provoca opressão e corrupção", acrescenta o comunicado.

O protesto do Ayatollah Tehrani surge ao mesmo tempo que um número crescente de intelectuais e artistas iranianos, dentro e fora do Irão, têm vindo a defender publicamente uma cultura de justiça e de coexistência, falando em nome dos Bahá'ís e de outros grupos reprimidos no Irão.

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FONTE: In another brave gesture, senior cleric calls for justice (BWNS)

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Os Bahá'ís celebram o Natal?

Por Annie Reneau.


Naturalmente, nesta época festiva do ano, as pessoas gostam de perguntar aos Bahá’ís se celebram (ou não) o Natal. E a resposta é simples: Não. Sim. Mais ou menos. Às vezes. Depende.

Isto não é exactamente uma resposta elucidativa, pois não?

A confusão aqui, acho eu, reside mais na própria pergunta do que na resposta. A minha resposta confusa acima é adequada para a pergunta "Os Bahá'ís celebram o Natal?" porque essa questão específica contém várias questões distintas mas relacionadas entre si.

Para esclarecer as coisas, pensei que podia tentar separar essas questões tanto quanto me fosse possível (com a ressalva de que estas respostas são baseadas na minha própria compreensão, que dificilmente é infalível). Assim, aqui ficam algumas perguntas que geralmente estão associadas à questão mais genérica sobre se os Bahá'ís celebram (ou não) o Natal, e minhas respostas a essas perguntas.

Os Bahá'ís acreditam em Cristo?

Sim, acreditamos.

Aqui fica um resumo da perspectiva Bahá'í sobre Jesus:
Quanto à posição do Cristianismo, diga-se sem qualquer hesitação ou equívoco que a sua origem divina é reconhecida incondicionalmente, que a Filiação e Divindade de Jesus Cristo são destemidamente declaradas, que a inspiração divina do Evangelho é plenamente reconhecida, que a realidade do mistério da Imaculabilidade da Virgem Maria é confessada, e o primado de Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, é mantido e defendido. (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, pag. 109)
O Fundador da Fé Cristã é referido por Bahá'u'lláh como o "Espírito de Deus", é proclamado como Aquele que "apareceu do sopro do Espírito Santo" e é enaltecido como a "Essência do Espírito". A Sua mãe é descrita como "aquele belíssimo semblante velado e imortal", e a condição do seu Filho elogiado como uma "condição que está enaltecida acima das imaginações de todos os que habitam na terra", enquanto Pedro é reconhecido como aquele a quem Deus fez "os mistérios da sabedoria e da expressão fluir da sua boca."

Além disso, Bahá’u’lláh afirmou: "Sabe que quando o Filho do Homem entregou o espírito a Deus, toda a criação chorou num grande pranto. Ao sacrificar-Se, porém, uma nova capacidade infundiu-se em todas as coisas criadas. As suas evidências, como se testemunha em todos os povos da terra, estão agora manifestas diante de ti. A sabedoria mais profunda que os sábios pronunciaram, o conhecimento mais profundo que qualquer mente explicou, as artes que as mãos mais hábeis produziram, a influência exercida pelo mais poderoso dos governantes, são apenas manifestações do poder vivificador libertado pelo Seu Espírito transcendente, omnipresente e resplandecente. Testemunhamos que quando Ele veio ao mundo, Ele derramou o esplendor da Sua glória sobre todas as coisas criadas. Através d’Ele, o leproso recuperou da lepra de perversidade e da ignorância. Através d'Ele o ímpio e rebelde foram curados. Através do Seu poder, nascido do Deus Todo-Poderoso, os olhos dos cegos abriram-se e a alma do pecador santificou-se… Ele é Quem purificou o mundo. Bem-aventurado o homem que, com um rosto radiante de luz, se volveu para Ele." (SEB, XXXVI)

Portanto, a resposta é sim. Nós veneramos e adoramos Cristo e acreditamos n’Ele como um Mensageiro Divino (Para mais informações sobre a relação entre a Fé Bahá'í e o Cristianismo, clique aqui.)

Os Bahá'ís celebram o Natal como comunidade religiosa?

Não. Nós aceitamos Cristo com todo o coração, e, portanto, honramos a celebração do Seu nascimento; mas a nossa comunidade não celebra o Natal. Também aceitamos e veneramos Moisés, Buda, Krishna, Zoroastro, Maomé e outros Mensageiros Divinos; mas se celebrássemos todos os seus nascimentos e outros dias santos associados a cada um deles... estaríamos em festa durante todo o ano. Por muito divertido que isso possa parecer, não tem muito sentido lógico. E também não faria sentido celebrar apenas alguns, e não outros. Assim, enquanto comunidade, apenas comemoramos os dias sagrados e feriados do calendário Bahá'í.

Mas os Bahá'ís PODEM celebrar o Natal?

Sim, não apenas entre Bahá’ís. Muitos de nós participamos alegremente nas celebrações de Natal organizadas pelas nossas famílias e amigos. Como indivíduos, somos livres de participar em quaisquer actividades religiosas que não interfiram directamente com os ensinamentos Bahá'ís. Na verdade, a partilha de tradições espirituais é uma das melhores maneiras de criar laços de comunhão e unidade entre pessoas de todas as fés. Isto é um dos ensinamentos centrais de Bahá'u'lláh: "Associai-vos com os seguidores de todas as religiões num espírito de amizade e camaradagem."

Então os Bahá'ís têm Árvores de Natal, fazem bolos de Natal, colocam enfeites de Natal, trocam prendas de Natal, etc.?

Talvez. Às vezes. Mais ou menos. Depende. Parte da confusão é que o Natal tornou-se um feriado cultural para muitas pessoas. Todos os ateus e agnósticos que conheço ainda montam Árvores de Natal, cantam canções de Natal, e trocam prendas de Natal. Para a maioria dos Cristãos, é um dia santo. Para pessoas não-religiosas, é um tempo para a família e para a tradição. Para os Bahá'ís, pode ser os dois e pode não ser nenhum; tudo depende da perspectiva. Isolar práticas culturais de práticas religiosas numa época festiva é o suficiente para deixar muita gente baralhada.

Conheço algumas famílias Bahá'ís que montam Árvores de Natal; mas diria que a maioria não o faz. Pessoalmente, adoro partilhar bolos. Alguns Bahá'ís oferecem presentes às suas famílias e círculos de amigos, especialmente aqueles cujas famílias não são Bahá'ís. Temos um grande feriado chamado Ayyam-i-Ha no final de Fevereiro, em que oferecemos presentes; por isso, normalmente guardamos as prendas maiores para essa época.

E o Pai Natal?

Tenho que reconhecer que vou escrever algo que pode irritar algumas pessoas. Como adulta e mãe, toda a história do Pai Natal me chateia (isto não é o ensinamento Bahá'í oficial, apenas para que fique claro!) Isso deve-se ao facto de muitas pessoas perguntarem constantemente aos meus filhos o que foi que o Pai Natal lhes deu. Nós não nos mascaramos de Pai Natal; por isso, a coisa fica estranha.

A outra parte é apenas a minha própria análise pessoal. Penso que São Nicolau (o verdadeiro) foi uma maravilhosa inspiração, dando generosamente aos pobres e salvando as meninas de terem de se prostituir. Mas o Pai Natal que temos na tradição - na minha opinião - não tem uma imagem assim tão perfeita. Primeiro, é suposto que ele apenas dá prendas às crianças que se portam bem. Lá se vai o ensinamento da generosidade para com todos. Em segundo lugar, em qualquer outro contexto, um velho que convida crianças que não conhece para se sentarem no seu colo e oferecendo-lhes doces é... esquisito. Em terceiro lugar, perguntar repetidamente às crianças o que elas querem para o Natal tende a perpetuar o materialismo e o consumismo que todos reclamam durante os feriados. Acho que seria preferível se o Pai Natal perguntasse às crianças o que elas gostariam de dar. Em quarto lugar, mentir às crianças para manter viva uma fantasia não faz sentido. Em quinto lugar, quando as tradições culturais se formam e, em seguida, se misturam com actividades comerciais e sentimentalismos nostálgicos, é muito fácil que estas se transformem em algo que lembra vagamente a ideia original; assim, acabamos por dizer que isso é uma importante tradição de longa data sem a questionar.

Eu sei, eu sei. É uma tradição inofensiva e eu sou uma velha rabugenta. Penso que é importante deixar as crianças terem as suas fantasias. Mas os nossos filhos têm vidas com muita fantasia (por vezes, demasiada) sem o Pai Natal. Eu cresci sem acreditar no Pai Natal, e apesar disso gostava desta época festiva. Por isso, não me parece que as crianças estejam a perder muita coisa...

Na verdade, e talvez ironicamente, eu adoro os filmes com o Pai Natal. Devo ter visto o Miracle on 34th Street uma dúzia de vezes quando era criança. E gostamos imenso dos filmes do Tim Clause sobre o Pai Natal. Deve ter sido desde que me tornei uma mãe excessivamente analítica que o alegre velho barbudo me sensibilizou.

E incomoda se as pessoas lhe desejam um Feliz Natal?

De maneira nenhuma. Pessoalmente, adoro todos os bons votos da época, e não entendo como as pessoas se podem ofender com isso. No entanto, o que eu realmente gostaria de ver era as pessoas a desejarem umas às outras votos de felicidade em qualquer época festiva. Desejar Feliz Natal aos seus amigos cristãos, um feliz Hanukkah aos seus amigos judeus, um feliz Kwanzaa aos seus amigos afro-americanos. Porque não há nada de errado em desejar boas festas. Tudo é dito com boa vontade, e eu penso que nós devemos tomá-lo como tal.

Portanto, agora que já expliquei como é que os Bahá'ís celebram o Natal de forma sim/não/mais ou menos/talvez/às vezes, e que já denegri completamente a amada instituição chamada Pai Natal, pergunto: o que faz a sua família no Natal?

Nós aproveitamos a festa e calor da época festiva, e maravilhamo-nos com as iluminações e as Árvores de Natal dos nossos amigos. Como eu disse, gostamos de filmes do Pai Natal porque às vezes as coisas que fazemos não fazem um sentido perfeito. Havarti é um grande fanático de LEGO, e nós temos uma cidade do inverno da LEGO que nós colocamos sobre um manto. Também sempre gostei de nozes, por isso temos uma pequena colecção de quebra-nozes usamos durante os meses de inverno. Também gosto de decorações com bonecos de neve, que eu penso que ajuda as crianças a não se sentirem estranhas por não terem algum tipo de decorações festivas no mês de Dezembro. Contamos às crianças as histórias de Hanukkah, da Natividade e da Kwanzaa, e participamos em quaisquer festividades para que sejamos convidados, e falamos sobre a importância de respeitar as celebrações de todos.

(...)

Espero que as coisas tenham ficado claras. Depois disto sinto uma vontade irresistível de escrever uma carta de desculpas ao Pai Natal. Coitado!

Que todos tenham um Feliz Natal, um Feliz Hanukkah, um feliz Kwanzaa, e uma época festiva calorosa (qualquer que seja a celebração!).

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Texto original: Do Bahá’ís Celebrate Christmas? (Motherhood and More)


sábado, 19 de dezembro de 2015

Lições profundas num funeral

Por Jaine Toth.


Há alguns anos atrás fui ao funeral de uma familiar, uma mulher vibrante que vi crescer desde que era uma menina exuberante com seis anos de idade até se tornar uma mãe admirável com um sorriso constante e disposição alegre. Subitamente foi atacada por várias crises, incluindo um divórcio inesperado e indesejado que provocou problemas financeiros e a doença da sua mãe; ficou profundamente perturbada. E mesmo assim, foi um choque saber que o seu desespero a levara ao suicídio.

Apesar das circunstâncias, a cerimónia religiosa celebrou verdadeiramente a sua vida, deixando toda a gente sorrindo entre lágrimas e sentindo-se melhor do que quando chegaram. Assim, muitas das coisas que se disseram no funeral e a subsequente reunião acabaram por reflectir Have a Little Faith, de Mitch Albom, um livro que li quando voltei a casa. Coincidência? Isoladamente seria inspirador, mas com os acontecimentos acabou por suscitar uma profunda reflexão.

Muitas pessoas falaram no funeral; a maioria tinha sido ajudada por ela, quando os seus próprios problemas pareciam insuperáveis. Ela tinha sido a sua rocha, o seu ouvido atento, a única pessoa que acreditava neles e os alimentava durante os seus sofrimentos. O último a partilhar pensamentos e recordações foi o  filho. Lembrou-nos que a mãe nunca julgou ninguém. Estava orgulhoso da mãe que compreendia que as circunstâncias poderiam prejudicar as opiniões das pessoas, mas que estas poderiam ser gentilmente levadas ao caminho certo. Ela nunca guardou ressentimentos ou rancor e era rápida a perdoar, afirmou ele. Acrescentou ainda que ela ensinara os filhos que, mesmo que estivessem zangados com os seus entes queridos, deviam expressar-lhes o seu amor. E de facto, garantiu ele, sentia um conforto especial pelo facto das suas últimas palavras para a mãe terem sido "Eu amo-te". Perante as muitas pessoas que perguntavam "Como posso ajudar-vos?" a ele e à sua irmã, ele sugeriu que a melhor maneira de ajudar seria viver de acordo com o exemplo e os conselhos da mãe: "Não julgar. Perdoar. Ser um exemplo".

No livro de Albom, um padre, incomodado com a abertura de sinagoga perto da sua igreja, fez um comentário ofensivo a um dos fiéis judeus. Isto levou a uma conversa entre ele e o rabino. Pouco depois, o padre e o rabino são vistos andando de braço dado no pátio da escola religiosa. Albom escreve: "Algumas crianças olharam surpreendidas. Outras olharam fixamente. Mas todas elas repararam." Estes sacerdotes pararam de julgar. Perdoaram. Tornaram-se um exemplo vivo.

Para o funeral, o irmão e a irmã tinham convidado o padrasto. Ao início, ele não queria comparecer, porque receava: "Toda a gente me vai odiar!" Mas eles garantiram-lhe que seria bem-vindo. E ele veio; a sua dor era visível e real. Talvez viesse de um sentimento de culpa, talvez de algum sentimento de perda. A sua capacidade de engolir o seu orgulho e enfrentar o seu medo, o facto da família aceitar a sua presença, ainda que em alguns possa ter sido relutante, iniciou uma cura para todos eles.

Quando li no livro de Albom uma lição que ele recordava da sua educação religiosa, lembrei-me da magnanimidade dos irmãos:
Depois dos israelitas atravessarem o Mar Vermelho em segurança, os egípcios que os perseguiam afogaram-se. Os anjos de Deus queriam para celebrar a morte do inimigo. De acordo com o comentário, Deus viu isso e ficou zangado. Ele disse, em resumo: “Parem de celebrar. Aqueles também eram meus filhos".
Albom e seu rabino debateram o facto do maior medo da maioria das pessoas em relação à morte é que podem ser esquecidas e que seria como uma segunda morte. O rabino tranquilizou-o:
Em resumo, a resposta é simples. Família. É através da minha família que eu espero viver durante algumas gerações. Quando me lembro, eu vivo. Quando eles oram por mim, eu vivo. Temos todas as recordações, os risos e as lágrimas.
Esta minha familiar não vai sofrer essa segunda morte. Ela vai viver através de todas as memórias especiais que ela criou para todos aqueles que ficaram.

Fiquei confortada ao saber que a bela alma daquela jovem, que deu tantos conselhos sábios aos outros e se esqueceu ela própria de os seguir, continuará a progredir. Os ensinamentos Bahá'ís dão-me essa tranquilidade e conforto:
Agora, consideremos a alma. Vimos que o movimento é essencial à existência; nenhuma coisa que tem vida é imóvel. Toda a criação, seja do reino mineral, vegetal ou animal, está obrigada a obedecer à lei do movimento; deve subir ou descer. Mas com a alma humana não há declínio. O seu único movimento é em direcção à perfeição; apenas o desenvolvimento e o progresso constituem o movimento da alma.

A perfeição divina é infinita; por isso, o progresso da alma também é infinito. Desde o nascimento de um ser humano, a alma progride, o intelecto desenvolve-se e o conhecimento aumenta. Quando o corpo morre, a alma continua a viver. Todos os diferentes graus dos seres físicos criados são limitados, mas a alma é ilimitada! 
Em todas as religiões existe a crença de que a alma sobrevive à morte do corpo. São feitas invocações pelos mortos queridos, são feitas orações pelo seu progresso e pelo perdão dos seus pecados. Se a alma perecesse com o corpo, tudo isso não teria sentido. Além disso, se não fosse possível à alma avançar em direcção à perfeição depois de se libertar do corpo, para que serviriam todas essas preces afectuosas de devoção? ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 89)
Todos nós podemos orar pelos nossos amigos e família que nos precederam na próxima vida, e esperamos as suas orações quando fizermos essa viagem.

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Texto original: Deep Lessons, from a Funeral (www.bahaiteachings.org)

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Jaine Toth é actriz, escritora e formadora. Vive no Arizona (EUA), perto do Desert Rose Baha'i Institute. É autora de uma coluna semana num jornal.

sábado, 12 de dezembro de 2015

A Consciência Humana é uma prova da existência de Deus?

Por David Langness.


Consciência: (1) conhecimento imediato da própria actividade psíquica; (2) faculdade de se conhecer intuitivamente; (3) sentimento de si próprio; (4) conhecimento espontâneo e mais ou menos vago; impressão; (5) [psicologia] parte da actividade psíquica de que o sujeito tem um conhecimento intuitivo; (6) [filosofia] estado no qual o sujeito se conhece enquanto tal, e se distingue dos objectos que o rodeiam; (Dicionário Porto-Editora)

... o mais longo alcance da evolução, talvez seja (apenas talvez) a consciência de um indivíduo atingir, de facto, o infinito ... (Ken Wilber)
Pense rapidamente num número entre um e dez. Pensou? O facto de conseguir fazer isso prova que você é humano. Porquê? Porque os seres humanos têm o dom único e notável da consciência, o conhecimento interior de si próprios como seres sensíveis, o que nos dá a capacidade de pensar em termos abstractos.

Todas as grandes conquistas da civilização humana vieram da nossa consciência.

Todos os filósofos e os neurocientistas tentaram definir essa qualidade humana indescritível chamada consciência, com diferentes graus de sucesso. A maioria, porém, concordaria que consciência significa que temos pensamentos, sentimentos e auto-percepção. Temos uma vida interior na mente, no coração e na alma. A capacidade de estar ciente de nós próprios é o que nos torna humanos.

Essa consciência plenamente desenvolvida sobre a vida e a ordem do universo, é na sua forma mais elevada, aquilo a que chamamos iluminação. Esta faculdade humana distingue-nos de qualquer outra coisa na criação:
Na diferenciação da vida no mundo de existência, existem quatro níveis ou reinos, - o mineral, vegetal, animal e humano. O reino mineral possui uma determinada qualidade que designamos coesão. O reino vegetal possui a qualidade da coesão e ainda o poder do crescimento ou o poder aumentativo. O reino animal possui as qualidades do mineral e do vegetal, acrescidos dos poderes dos sentidos. Mas o animal, embora dotado de sentidos, está totalmente privado de consciência, absolutamente sem contacto com o mundo da consciência e espírito. O animal não possui qualquer poder com o qual possa fazer descobertas que estejam além do domínio dos sentidos. Ele não tem poder de criação intelectual. Por exemplo, um animal localizado na Europa não é capaz de descobrir o continente da América. Apenas compreende fenómenos que estejam no âmbito dos seus sentidos e instintos. Não consegue raciocinar de forma abstracta. O animal não pode conceber que a terra seja esférica ou que rode sobre o seu eixo. Ele não consegue perceber que as pequenas estrelas no céu são mundos enormes, imensamente maiores do que a terra. O animal não tem raciocínio intelectual abstracto. Não está dotado com esses poderes. Portanto, esses poderes são característicos do homem e torna-se evidente que no reino humano há uma realidade que o animal não tem. Qual é essa realidade? É o espírito do homem. Por isso o homem distingue-se acima de todos os outros reinos materiais. Embora ele possua todas as qualidades dos reinos inferiores que ele está ainda dotado da faculdade espiritual, o dom celestial da consciência. ('Abdu'l-Baha, Foundations of World Unity, pp. 90-91)
E porque existe consciência, os filósofos têm afirmado que ela deve ter sido criada por uma consciência maior, uma fonte derradeira. Aqui fica a estrutura desse raciocínio lógico sobre a existência de um Criador, que os filósofos designam como o argumento da consciência:

  • A consciência faz-nos humanos;
  • A nossa consciência deve ter uma origem;
  • Nada mais na natureza tem uma consciência humana;
  • Por definição, a parte não pode possuir qualquer coisa que não exista no todo;
  • Nós somos parte de um todo maior do que a natureza;
  • Esse todo maior só pode ser representado por uma Consciência Superior.

Esta prova da existência de um Criador tem subjacente uma lógica particularmente subtil e perspicaz. Numa carta ao famoso cientista suíço Auguste Forel, 'Abdu'l-Bahá explica:
... A mente prova a existência de uma Realidade invisível que envolve todos os seres, e que existe e se revela em todas as fases, cuja essência está além do alcance da mente. Assim, o mundo mineral não entende nem a natureza, nem as perfeições do mundo vegetal; o mundo vegetal não entende a natureza do mundo animal, nem o mundo animal entende a natureza da realidade do homem, que descobre e envolve todas as coisas...

O homem tem os poderes da vontade e compreensão, mas a natureza não os tem. A natureza está limitada; o homem é livre. A natureza está privada de raciocínio; o homem raciocina. A natureza não tem conhecimento de eventos passados; mas o homem está ciente deles. A natureza não prevê o futuro; homem com o seu poder de discernimento vê o que está para vir. A natureza não tem consciência de si própria; o homem tem conhecimento sobre todas as coisas.

... A alma sábia e pensante saberá, com certeza, que este universo infinito com toda a sua grandeza e ordem perfeita não poderia ter vindo à existência por si próprio. ('Abdu'l-Baha, Tablet to Auguste Forel, pp 10-17)
Este argumento da consciência apresenta uma prova particularmente moderna sobre a existência de Deus:
A prova racional da imortalidade do espírito é esta: nenhum efeito pode ser produzido a partir de uma coisa inexistente; ou seja, é impossível que qualquer efeito possa aparecer do nada absoluto. Porque o efeito de uma coisa é secundário à sua existência, e o que é secundário está condicionado pela existência daquilo que é primário. Assim, a partir de um sol inexistente nenhum raio pode brilhar; de um mar inexistente nenhumas ondas podem surgir; a partir de uma nuvem inexistente nenhuma chuva pode cair; de uma árvore inexistente nenhuma fruta pode aparecer; de um homem inexistente nada pode se manifestar ou produzir. Portanto, porque os sinais da existência são visíveis, estes provam que existe o autor desse efeito...

Esta questão é muito subtil; considere-a atentamente. Estamos a apresentar uma prova racional, que as mentes racionais podem avaliar na balança da razão e da imparcialidade. ('Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 259-260)

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Texto original: Does Human Consciousness Prove that God Exists? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A Virgem Maria: uma perspectiva Bahá'í


Em muitos livros e websites Bahá’ís onde se apresenta uma perspectiva sobre o Cristianismo, é frequente encontrar as seguintes palavras de Shoghi Effendi:
Quanto à posição do Cristianismo, diga-se sem qualquer hesitação ou equívoco que a sua origem divina é reconhecida incondicionalmente, que a Filiação e Divindade de Jesus Cristo são destemidamente declaradas, que a inspiração divina do Evangelho é plenamente reconhecida, que a realidade do mistério da Imaculabilidade da Virgem Maria é confessada, e o primado de Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, é mantido e defendido. (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, pag. 109)
Porque hoje muitos cristãos celebram a Imaculada Conceição, parece-me oportuno apresentar alguns excertos das Escrituras e de textos oficiais Bahá’ís que descrevem a perspectiva Bahá’í sobre a Virgem Maria. Uma breve análise destes Textos permite-nos perceber que a Mãe de Jesus é uma figura profundamente respeitada na Fé Bahá’í. Esse respeito, porém, não justifica qualquer culto mariano por parte dos Bahá’ís, nem a crença no nascimento virginal de Jesus eleva o Seu estatuto acima de qualquer outro Mensageiro de Deus.

Nas Escrituras Bahá’ís

Nas Escrituras Bahá’ís a expressão “Filho de Maria” é frequentemente usada nas referências a Jesus Cristo; na minha opinião o uso repetido desta expressão mostra-nos que a identidade de Jesus não é dissociável da Sua mãe. Das traduções em inglês das Escrituras Bahá'ís, a mais reveladora sobre Maria encontra-se no Kitab-i-Iqán (O Livro da Certeza):
De igual modo, deves reflectir sobre o estado e a condição de Maria. Tão profunda foi a perplexidade desse belíssimo semblante, tão penosa foi a sua situação, que ela lamentava amargamente ter nascido. Disto dá testemunha o texto do sagrado versículo onde se menciona que Maria, depois do nascimento de Jesus, chorou a sua situação e gritou: “Oxalá eu tivesse morrido antes disto e tivesse sido esquecida, completamente esquecida!”[1]. Juro por Deus! Essas lamentações consomem o coração e abalam o próprio ser. Tão grande consternação da alma, tão grande desespero, não foram causados senão pela censura do inimigo e pelos comentários dos infiéis e dos perversos. Reflecte: que resposta poderia Maria ter dado às pessoas ao seu redor? Como poderia ela afirmar que um Bebé Cujo pai era desconhecido tinha sido concebido pelo Espírito Santo? Por isso, Maria, aquele semblante velado e imortal, pegou na sua Criança e regressou ao seu lar. Logo depois, os olhos do povo caíram sobre ela e levantaram a voz dizendo: “Ó irmã de Araão! O teu pai não foi um homem perverso, nem a tua mãe foi impura.”[2]

E agora medita sobre esta grandiosa convulsão, esta dolorosa provação. Apesar de todas estas coisas, Deus conferiu àquela essência do Espírito, Àquele conhecido entre o povo como não tendo pai, a glória da missão Profética, e fez d’Ele um testemunho para todos os que estão na terra e no céu.

(Bahá’u’lláh, Kitab-i-Iqan, parágrafo 59)
Nas suas Palestras em Paris, ‘Abdu’l-Bahá descreveu a filiação divina de Jesus como um obstáculo que impedia as pessoas de O reconhecer como Manifestante de Deus:
Bahá'u'lláh disse: "Quando Cristo veio pela primeira vez Ele veio sobre as nuvens"[3]. Cristo disse que Ele tinha vindo do céu, do Paraíso - que Ele tinha vindo de Deus - apesar d’Ele ter nascido de Maria, a Sua Mãe. Mas quando Ele declarou que tinha vindo do céu, é óbvio que Ele não se referia ao firmamento azul; Ele falava do Paraíso do Reino de Deus, e que desse Paraíso Ele desceu sobre as nuvens. Tal como as nuvens são obstáculos para o brilho do sol, também as nuvens do mundo da humanidade ocultaram dos olhos da humanidade o esplendor da Divindade de Cristo.

Homens disseram: "Ele é de Nazaré, nascido de Maria, conhecemos Ele e conhecemos os seus irmãos. O que ele quer dizer? O que ele está ele a dizer? Que Ele veio de Deus?"

O Corpo de Cristo nasceu de Maria de Nazaré, mas o Espírito veio de Deus. As capacidades do Seu corpo humano eram limitadas, mas a força do Seu espírito era vasto, infinito, imensurável.

(‘Abdu’l-Bahá; Paris Talks, 27/October/1911)
Em Paris, e posteriormente nos Estados Unidos (ver The Promulgation of Universal Peace, p.201, 347, 450), ‘Abdu’l-Bahá recordou as palavras de Maomé sobre Jesus e Maria:
No Alcorão lemos que Maomé falou aos Seus seguidores, dizendo:

"Porque não acreditam em Cristo e no Evangelho? Porque não aceitam Moisés e os Profetas, pois a Bíblia é, certamente, o Livro de Deus? Na verdade, Moisés foi um Profeta sublime, e Jesus estava cheio do Espírito Santo. Ele veio ao mundo através do poder de Deus, nascido do Espírito Santo e da abençoada Virgem Maria. Maria, sua mãe, era uma santa do Paraíso. Ela passava os seus dias no Templo em oração e a comida era-lhe enviada do alto. O seu pai, Zacarias, foi ter com ela e perguntou-lhe de onde vinha a comida, e Maria respondeu «Do alto». Certamente, Deus enalteceu Maria acima de todas as outras mulheres".

Isto é o que Maomé ensinou ao Seu povo a respeito de Jesus e Moisés, e Ele repreendeu-os pela sua falta de fé nesses grandes Mestres, e deu-lhes lições sobre verdade e tolerância. Maomé foi enviado por Deus para trabalhar entre um povo tão selvagem e incivilizado quanto os animais selvagens.

(‘Abdu’l-Bahá; Paris Talks, 27/October/1911)

Nos Textos Autorizados Bahá’ís

A perspectiva Bahá’í sobre a Virgem Maria foi objecto de diversos esclarecimentos por parte de Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í. Os seus textos são considerados interpretações oficiais das Escrituras Bahá’ís, e por esse motivo a sua leitura é inseparável das Escrituras.

Nascimento Virginal de Cristo
"Primeiro, sobre o nascimento de Jesus Cristo: à luz daquilo que Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá afirmaram a respeito deste assunto, é evidente que Jesus veio a este mundo através da intervenção directa do Espírito Santo, e consequentemente, o Seu nascimento foi absolutamente milagroso. Isto é um facto estabelecido, e os amigos não têm que se sentir surpreendidos, pois a crença na possibilidade de milagres nunca foi rejeitada nos Ensinamentos. A sua importância, porém, tem sido minimizada".

(Lights of Guidance #1637; De uma carta datada de 31 de Dezembro de 1937, escrita em nome do Guardião a um crente individual)

Os milagres são sempre possíveis
"Mais uma vez, no que diz respeito à sua pergunta relativa ao nascimento de Jesus: Ele deseja que eu a informe que não há nada mais que ele possa acrescentar à explicação que ele lhe deu na sua comunicação anterior sobre este ponto. Para uma coisa, porém, ele deseja chamar novamente a sua atenção, nomeadamente, que os milagres são sempre possíveis, apesar de não constituírem um canal regular, pelo qual Deus revela o Seu poder à humanidade. Rejeitar os milagres na terra porque eles implicam uma violação das leis da natureza é um argumento muito superficial, quase obtuso, na medida em que Deus, Que é o autor do universo pode, na Sua sabedoria e Omnipotência, realizar qualquer mudança, mesmo que temporária, na operação das leis que Ele próprio criou.

"Os Ensinamentos não nos falam de qualquer nascimento milagroso além de Jesus."

(Lights of Guidance #1638; De uma carta datada de 27 de Fevereiro de 1938, escrita em nome do Guardião a um crente individual)

Os Ensinamentos Bahá'ís estão acordo com Doutrinas da Igreja Católica sobre o nascimento virginal
"Em relação à sua pergunta sobre o Nascimento Virginal de Jesus: quanto a este ponto, como em vários outros, os Ensinamentos Bahá'ís estão em pleno acordo com as doutrinas da Igreja Católica. No "Kitáb-i-Íqán" (Livro da Certeza) e em algumas outras Epístolas ainda não publicadas, Bahá'u'lláh confirma, ainda que indirectamente, o conceito católico do nascimento virginal. Também 'Abdu'l-Bahá no "Respostas a Algumas Perguntas", Cap . XII, afirma explicitamente que "Cristo veio à existência através do Espírito de Deus", uma declaração que implica, necessariamente, quando visto à luz do texto, que Jesus não era filho de José ".

(Lights of Guidance, #1639; de uma carta datada de 14 de Outubro de 1945, escrita em nome do Guardião a um crente individual)

Os irmãos e as irmãs de Cristo nasceram de forma natural
"Nós acreditamos que Cristo só foi concebido imaculadamente. Os Seus irmãos e irmãs terão nascido de forma natural e concebidos de forma natural."

(Lights of Guidance, #1640; De uma carta escrita em nome do Guardião ao Dr. Shook, 19 nov 1945:. Bahá'í News, No. 210, p 3, Agosto de 1948)
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NOTAS:
[1] - Alcorão 19:22
[2] - Alcorão 19:28
[3] - João 3:13

sábado, 5 de dezembro de 2015

Eutanásia: uma opção certa ou errada?

Por Jaine Toth.


O campo florescente da bioética continua a apresentar novas propostas, cada vez mais complexas, cada vez mais controversas. Bebés proveta, barrigas de aluguer, investigação em células estaminais, determinação genética, selecção artificial e clonagem: tudo isto passou do reino da ficção-científica, ou da mera suposição, para a realidade. A sociedade agoniza com os seus méritos e a sua moralidade.

Talvez este último aspecto, a moralidade - com as suas comparações entre os impactos no mundo animal e suas implicações subsequentes para a humanidade - fez germinar as sementes há muito adormecidas de preocupações antigas plantadas no solo profundo do meu subconsciente. Agora nasceram, garantindo o seu lugar ao sol do conhecimento, exigindo ser alimentadas com água da compreensão.

As memórias florescem no campo fértil da minha mente - recordações que despertam outra questão bioética: o velho tema da eutanásia.

Rocky, o cão da nossa família que, como a maioria dos animais de estimação, era amado como se fosse um dos nossos filhos, tinha um grande tumor que lhe pressionava a garganta. A morte por asfixia parecia iminente. O veterinário sugeriu, e nós concordámos, que ele podia ajudar Rocky a adormecer num sono mais profundo, onde a dor e o sofrimento não existem.

Matthew, filho adorado do meu querido amigo Joe, tinha um grande tumor que lhe pressionava a garganta - a morte por asfixia era iminente. Os médicos recomendaram tratamentos caros para reduzir o tumor e a família concordou imediatamente; mas o cancro tinha-se infiltrado por todo o corpo. Matthew era um doente terminal dependente de altas doses de morfina que, juntamente com a família e amigos, aguardava o inevitável.

O veterinário pôs fim ao tormento do Rocky; o seu sofrimento terminou misericordiosamente. O tormento de Matthew continuou.

A quem mostramos bondade e misericórdia: Rocky ou Matthew? Apenas a um? Ou, talvez, a ambos? Este é o cerne da nossa moderna controvérsia bioética. Atrevemo-nos a fingir que somos Deus e permitimos que meros seres humanos decidam quando administrar a solução final a um dos seus?

Alguns respondem com um "Sim", defendendo veementemente o seu direito inalienável de fazer essa escolha, e a ajudar a aliviar o sofrimento dos seus entes queridos. Outros têm preocupações válidas de que a ganância, a inconveniência pessoal, ou receio de graves dificuldades financeiras se possam tornar os factores motivadores por trás das decisões tomadas pela família, sem a devida consideração pelos desejos do paciente.

Uns vinculados por uma pura convicção religiosa na sacralidade da vida, e outros que realmente esperam e acreditam em milagres, manteriam um corpo, mesmo numa condição de clinicamente morto, respirando artificialmente, por meios mecânicos e a qualquer custo. Será que os dias adicionais, com o seu sofrimento, dariam à alma do sofredor mais tempo para se preparar para a próxima vida? Ou será que retiram à alma o seu merecido descanso?

Podemos chegar a um compromisso são e aceitável - que não seja a mão que oferece libertação nem a que apresenta quaisquer tratamentos, além de aliviar a dor, tanto quanto possível?

Podemos permitir que a alma rompa a ligação com a sua gaiola mortal, no momento determinado? Em alguns casos, podemos, com a ajuda de uma Unidade de Cuidados Paliativos. Uma UCP e um auxiliar de enfermagem permitiram que eu e a minha irmã acompanhássemos a nossa mãe, em vez de sermos apenas suas enfermeiras. Isso ajudou-nos a tornar os últimos dias da mãe tão confortáveis quanto possível, sem esforços artificiais para prolongar a sua vida. Foi uma dádiva que nos ajudou a aproveitar nosso tempo juntos e nos preparou para aceitar e enfrentar a sua passagem quando a gaiola corporal liberta a alma.

Confrontada com esta escolha, procurei orientação nas Escrituras Bahá’ís. Mas sobre este e outros assuntos, nada definitivo foi ainda estabelecido. De uma forma geral, Bahá'u'lláh aconselhou os Bahá'ís a "procurar o aconselhamento de médicos competentes", consultar com todos os envolvidos e tomar uma decisão em conjunto. Aprecio profundamente este conselho da minha fé sobre tomada flexível de decisão, que felizmente não tem “uma medida igual para todos”, e que valoriza muito os conselhos de profissionais e a opinião das pessoas mais afectadas.

A Casa Universal de Justiça respondeu uma pergunta de um Bahá'í sobre este tema em 1974:
Recebemos sua carta ... em que solicita uma perspectiva Bahá'í sobre a eutanásia e sobre o desligar de sistemas de suporte à vida quando as intervenções fisiológicas prolongam a vida em situações de doenças incapacitante. Em geral, os nossos ensinamentos indicam que Deus, o Dador de vida, pode - apenas Ele - dispor dela como Ele considera melhor, e nada encontrámos no Texto Sagrado sobre estas questões especificas, salvo uma carta a um indivíduo por escrita em nome do amado Guardião pelo seu secretário sobre morte por misericórdia, ou a eutanásia legal, onde se declara: "... esta é também uma questão sobre a qual Casa Universal de Justiça terá de legislar." Até ao momento em que a Casa Universal de Justiça elabore legislação sobre a eutanásia, as decisões sobre o assunto a que você se refere devem ser deixadas à consciência dos responsáveis. (Lights of Guidance, pp 290-291)
Matthew recebeu os cuidados da UCP, mas com radiação suplementar. Será que isso prolongou os dias da sua vida? Será que isso tornou esses dias mais confortáveis? Possivelmente, sim; possivelmente não. Foi caro. Foi a escolha deles. Valeu a pena? Teria sido melhor não interferir? Teria sido mais caridoso ajudá-lo a morrer mais cedo? Estes argumentos continuam a ser debatidos. Muitas famílias enfrentam estas situações aparentemente insustentáveis. As suas decisões surgem após grande esforço e angústia.

Tenhamos presente que devemos respeitar as suas escolhas; não devemos julgá-los, pois também não gostaríamos que os outros nos julgassem.

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Texto original: Euthanasia - Right? Wrong? - Or In-Between? (www.bahaiteachings.org)

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Jaine Toth é actriz, escritora e formadora. Vive no Arizona (EUA), perto do Desert Rose Baha'i Institute. É autora de uma coluna semana num jornal.