sábado, 30 de janeiro de 2016

Irão: 24 Bahá'ís condenados no Golestan

Um tribunal revolucionário na província de Golestan no Irão condenou 24 membros da Comunidade Bahá'í a penas de prisão que variam entre 6 e 11 anos. Os condenados tinham sido detidos em 2012 numa rusga contra os Bahá’ís da província.

Em Genebra, uma porta-voz a Comunidade Internacional Bahá'í, Simin Fahandej, afirmou que estas 24 pessoas estão presas apenas devido à sua fé religiosa, que não é reconhecida oficialmente pelo Irão.

Apesar de esta sentença ser passível de recurso, Fahandezh foi peremptória: "Estão inocentes! Não cometeram qualquer crime pois a única acusação contra eles é serem membros da comunidade Bahá'í." E acrescentou que as penas de prisão demonstram que "os direitos humanos não têm qualquer valor para as autoridades iranianas".

Fahandezh lembrou que os Bahá’ís iranianos enfrentam rotineiramente perseguições e que há actualmente mais de 80 Bahá'ís presos naquele país. Saliente-se ainda o facto da situação desta minoria religiosa não ter mudado desde que Hassan Rohani assumiu a presidência, apesar dele ter prometido melhorar a situação dos direitos humanos no Irão.

"Os Bahá'ís continuam detidos. Presos. Os jovens Bahá'ís ainda estão privados do seu direito de estudar, e aumentou o número de cemitérios Bahá'ís profanados", disse Fahandezh.

No ano passado, o relator especial das Nações Unidas sobre questões das minorias, Rita Izsak, pediu ao Irão que tomasse medidas concretas para proteger os Bahá'ís e outras minorias religiosas no Irão.

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FONTE: Iran Sentences 24 Baha’is To As Many As 11 Years in Jail (RFE)

“Imagine” de John Lennon e os ensinamentos Bahá’ís

Por Michael Day.

Quando falamos de canções inspiradoras, poucas conseguem igualar a popularidade do tema Imagine do falecido ex-Beatle John Lennon (1940-1980).

Foi o single mais vendido de um único cantor-compositor e está na lista das 100 músicas mais tocadas do século XX [1].

Conheço muitos Bahá'ís que gostam de cantar essa música, embora por vezes se questionem sobre partes da letra. Por esse motivo, pensei que, neste 35º aniversário da morte de John Lennon (foi em 08 de Dezembro de 1980) seria interessante olhar para a canção Imagine e tentar perceber o quão de perto está das nossas amadas crenças Bahá'ís.

Vamos começar com o primeiro verso:

 Imagine there’s no heaven
 It’s easy if you try
 No hell below us
 Above us only sky
 Imagine all the people
 Living for today...
 Imagina que não há paraíso
 É fácil se tentares
 Nenhum inferno abaixo de nós,
 Acima de nós apenas o céu
 Imagina todas as pessoas
 A viver para o hoje...

Estes versos parecem sugerir que John Lennon pensava que a vida após a morte era uma ficção e que seria melhor se nós vivêssemos para o momento presente em vez de esperar por algo melhor no futuro.

Na minha opinião os Bahá'ís podem, de certa forma, concordar com seus sentimentos. Nós não acreditamos nas chamadas visões tradicionais de céu e de inferno, como um lugar de recompensa eterna ou de castigo eterno depois de passar num teste espiritual.

Tal como como está escrito numa carta escrita em nome de Shoghi Effendi:
Céu e inferno são condições interiores aos nossos próprios seres. [2]
Pelo que entendo, os Bahá’ís vêem o "céu" após a morte como uma metáfora sobre a proximidade espiritual em relação ao Criador. Quanto mais perto estivermos, mais felizes seremos. E acreditamos que isso acontecerá através da graça de Deus, e que o nosso progresso, será muito facilitado se, enquanto estivermos na terra, seguimos os princípios orientadores conforme foram proclamados por Bahá'u'lláh nas Suas leis.

Quanto ao inferno, a visão de que eu tenho como Bahá’í não é de um lugar de tormento eterno num poço de fogo, mas antes um afastamento penoso em relação a Deus.

Assim, parece-me que, como Bahá’ís, não acreditamos no tipo de céu e inferno que John Lennon também não acreditava.



E sobre o "viver para o hoje"? Certamente como Bahá’í, penso que temos que ser pessoas de acção e não dos que têm saudades dos anos dourados do passado ou simplesmente se sentam e esperam por um futuro confortável e próspero.

E quem não estaria de acordo com uma outra frase de John Lennon: "A vida é o que te acontece quando estás ocupado a fazer outros planos" [3]

Mas viver conscientemente o momento não significa que devemos esquecer as lições do passado. Na verdade, a sabedoria pode ser descrita como a capacidade para reconhecer padrões do passado e aprender com eles - é por isso que muitas vezes ela vem com a idade. Também não devemos permitir que o “viver para o hoje” nos leve a negligenciar os planos para o futuro.

Por isso, reflectimos sobre o passado para desenvolver as nossas personalidades, e planeamos o futuro, para poder contribuir para o objectivo que Bahá'u'lláh estabeleceu para a humanidade: a construção de uma sociedade global unificada baseada na justiça e no amor.

Agora, os versos seguintes:

 Imagine there’s no countries
 It isn’t hard to do
 Nothing to kill or die for
 And no religion too
 Imagine all the people
 Living life in peace...
 Imagina que não existem países
 Não é difícil fazê-lo
 Nada pelo que matar ou morrer
 E também nenhuma religião
 Imagina todas as pessoas
 A viver a vida em paz

Quando John Lennon nos pediu para imaginar que não existem países, ele podia estar a pensar no mal que surge com a adesão rigorosa ao conceito da soberania absoluta de uma nação, "o nosso país, esteja certo ou errado".

No meu entendimento, os Bahá’ís afirmam que as fronteiras nacionais não devem existir para nos separar do resto da humanidade. Pelo contrário, elas existem com o objectivo de criar uma sociedade em funcionamento numa determinada área do globo, capaz de contribuir para uma sociedade global mais ampla.

Deveria existir um "nada pelo que matar ou morrer"? John Lennon escreveu a canção no tempo dos horrores da guerra do Vietname; por isso é compreensível que tenha escrito esta frase.

No entanto, tenho a certeza que ele teria pensado que há algumas coisas em que vale a pena arriscar a morte - um pai a tentar salvar um filho, uma pessoa que protege os fracos e indefesos de um ataque assassino. Existe alguma coisa em que se justifique matar? A nossa resposta seria “normalmente, não”, embora esse acto possa ser considerado legítimo, como no caso de um polícia que mata um bandido que está prestes a assassinar outra pessoa.

E sobre as guerras? Os Bahá’ís não participam como combatentes nas guerras, embora estejam prontos para ajudar na prestação de cuidados médicos. Trabalhamos para evitar o “matar e morrer” nas guerras, construindo um mundo unido, criando bairros, cidades e países justos, amáveis e pacíficos.

Em seguida, temos a frase "E também nenhuma religião" que à primeira vista pode parecer contrária ao ponto de vista Bahá'í.

A Fé Bahá'í é uma religião mundial independente, com seu próprio Profeta-Fundador, lugares santos, leis e escrituras sagradas. Então, o que posso dizer sobre a frase "também nenhuma religião"?

A minha opinião é que quando John Lennon falava das religiões, referia-se a conjunto de interpretações humanas erradas, lei malignas e comportamentos prejudiciais dos homens; não se referia aos ensinamentos espirituais dos mensageiros divinos.

Como Baha'i, parece-me que é útil recordar as palavras de 'Abdu'l-Bahá que afirmou:
Qualquer religião que não seja uma causa de amor e unidade não é religião.[4]
Ao contrário desse tipo de "religião", uma fé de inspiração divina que seja fiel aos objectivos e às instruções do seu Profeta-Fundador é o elixir da vida, um guia para a felicidade, amor, justiça e prosperidade presente e futura.

Conheci um Bahá’í que costumava mudar esta frase do Imagine para "E também só uma religião". Com isso ele queria dizer a fé em que os Bahá'ís acreditam que é comum aos ensinamentos de todas as mensagens divinas. Tal como Bahá'u'lláh disse:
Esta é a imutável Fé de Deus, eterna no passado, eterna no futuro.[5]
Uma vez perguntaram a John Lennon sobre a substituição das palavras "e uma só religião também" mas ele rejeitou a sugestão. Se lhe tivessem perguntado sobre uma fé que unisse todas as religiões do mundo, vendo-as na sua essência como parte de uma só religião de Deus, a sua resposta talvez tivesse sido diferente.

A última parte deste verso - "Imagina todas as pessoas a viver a vida em paz" - está, certamente, em sintonia com os ideais dos Bahá'ís dedicados que passam a vida a trabalhar por um mundo pacífico e unido.

Os versos seguintes estão, obviamente, estreitamente alinhados com os valores de um Bahá'í.

 You may say I’m a dreamer
 But I’m not the only one
 I hope someday you’ll join us
 And the world will be as one.
 Podes dizer que sou um sonhador
 Mas eu não sou o único
 Espero que um dia te juntes a nós
 E o mundo será como um só.


Como Bahá’ís, não aceitamos o ponto de vista expressado às vezes que o objectivo de uma sociedade global pacífica é um sonho ou uma ideia impossível.

Muitos de nós vimos um mundo fracturado tornar-se uma sociedade global durante as nossas próprias vidas, apesar da sua natureza pacífica ainda não ter sido alcançada. Estamos confiantes que estamos no caminho certo, apesar das terríveis dificuldades e provações que parecemos destinados a enfrentar no futuro. Existem dois processos em acção: o colapso dos antigos métodos destrutivos da humanidade, e o crescimento dos ramos verdes de um mundo novo e unido.

E sim, nós esperamos que outros se juntem a nós e se tornem Bahá'ís; mas se eles não vêem isso como o seu caminho, ficaremos felizes por ser amigos e aliados num trabalho conjunto rumo a uma sociedade global justa e pacífica. Como disse John Lennon: "E o mundo será como um só."

Bahá'u'lláh disse algo semelhante:
A Terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos. [6]
O último verso é a repetição de um anterior, mas o penúltimo tem algumas ideias que merecem ser examinadas.

 Imagine no possessions
 I wonder if you can
 No need for greed or hunger
 A brotherhood of man
 Imagine all the people
 Sharing all the world...
 Imagina não existirem posses
 Pergunto-me se consegues
 Sem necessidade de ganância ou fome
 Uma fraternidade do homem
 Imagine todas as pessoas
 Partilhando todo o mundo...

Quando John Lennon nos pedia para "imaginar não existirem posses", ele não podia estar a referir-se ao seu significado literal. Penso que ele estava pedir-nos para termos uma visão diferente sobre as posses, como coisas que não devem ser adquiridas através da ganância... "sem necessidade de ganância".

Bahá'u'lláh dá-nos um conselho semelhante:
Porquê, então, mostrar tamanha ganância na acumulação de tesouros da terra, quando os seus dias estão contados e sua oportunidade está quase perdida? [7]
Quanto a "uma fraternidade do homem", esse conceito, que agora normalmente se expressa numa forma menos específica de género, como a família da humanidade, trata-se de uma crença fundamental da Fé Bahá'í: a unidade da humanidade. Somos todos parte da única família, uma fraternidade e irmandade - não separados por noções de raça, classe, género ou herança espiritual, mas unidos na nossa diversidade.

O convite de John Lennon para imaginar todas as pessoas a partilhar o mundo inteiro seria aceite por todos os Bahá'ís porque queremos trabalhar com outras pessoas bem-intencionadas, independentemente das suas crenças espirituais, ou a falta delas, para pôr em acção os processos que nos vão conduzir à paz global.

Queremos que todos os povos do mundo partilhem de forma justa e igual todos os aspectos das riquezas materiais e espirituais da humanidade.

Quando ouço a canção Imagine, com a sua melodia fascinante e letra maravilhosa, penso nela como estando em harmonia com os ensinamentos de Bahá'u'lláh.

Tento lembrar-me de orar pelo progresso da alma de quem, tomando nota da inspiração que lhe veio, sentou-se, escreveu a canção, e a enviou para o mundo.

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NOTAS
[1] - https://en.wikipedia.org/wiki/Imagine_(John_Lennon_song)
[2] - De uma carta escrita em nome de Shoghi Effendi a um crente individual, 14 de Novembro de 1947, in Lights of Guidance, compiled by Helen Hornby, Baha’i Publishing Trust India, 1983, p.395, no. 1079. High Endeavours, Messages to Alaska, pp 49-50.
[3] - https://en.wikipedia.org/wiki/Beautiful_Boy_(Darling_Boy)
[4] - Paris Talks. UK Baha’i Publishing Trust, 1972, eleventh edition reprint. P. 130
[5] - Proclamation of Baha’u’llah, US Baha’i Publishing Trust, 1978 reprint. P. 119
[6] - Gleanings from the Writings of Baha’u’llah. US Baha’i Publishing Trust, 1990 pocket-size edition. P. 250
[7] - Ibid, p.127.

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Texto original: How the song “Imagine” by John Lennon Compares to Baha’i Beliefs (http://bahaiblog.net/site/)

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Michael Day é jornalista que já trabalhou para jornais diários na Austrália e Nova Zelândia. Entre 2003 e 2006, foi o editor do Bahá'í World News Service no Centro Mundial Bahá'í. Actualmente vive em Brisbane, onde trabalha como assessor de imprensa da Comunidade Bahá’í da Austrália. Os seus interesses focam-se na história Bahá'í, literatura, arte, râguebi, surf e mergulho

sábado, 23 de janeiro de 2016

E se o Universo não tivesse início?

Por David Langness.


Tal como escreveu um poeta persa: "O Universo Celestial está formado de tal maneira que mundo inferior reflecte o mundo superior." Isso quer dizer que tudo o que existe no céu é reflectido neste mundo dos fenómenos. - Abdu'l-Baha, Abdu'l-Bahá in London, p. 45.
Será que o universo sempre existiu, ou teve um início?

Vou responder a esta pergunta com outra pergunta: já ouviram falar de sacerdote Católico belga, astrónomo e físico chamado Georges Henri Joseph Édouard Lemaître?

Pe. Georges Lemaître
Não? Eu também não, até que comecei a recolher informação para uma série de artigos sobre a imensidão do universo. Acontece que o Padre Lemaître - falecido em 1966 - foi o primeiro a propor o conceito de Big Bang, também conhecida como a teoria da expansão do universo. A sua teoria é agora o modelo cientificamente (e publicamente) aceite sobre tempo e criação cosmológicos.

Quando ensinava física na Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, Lemaître fez a estimativa inicial, em 1927, daquilo a que a ciência agora chama a Constante de Hubble - a taxa de aceleração de todos os objectos no universo conhecido. Edwin Hubble, o famoso astrónomo americano, confirmou a teoria de Lemaître dois anos depois. Hubble recebe frequentemente o crédito pela descoberta, mas, na verdade, foi Lemaître quem chegou lá primeiro, quando concluiu que todo o universo tinha sido uma única entidade num ponto de ultra-massivo, extremamente denso e super-quente, que depois se expandiu para o infinito.

No início, poucos cientistas aceitaram o conceito do Big Bang. Ao contrário de um universo em expansão, a maioria acreditava num universo estático, estacionário e de dimensão finita, especialmente os físicos influentes como Albert Einstein. Einstein disse a Lemaître, "Os seus cálculos estão correctos, mas sua física é atroz." Até mesmo o nome popular da teoria (que Lemaître começou por designar como "hipótese do átomo primitivo"), veio de um programa de rádio da BBC em 1931, quando o astrónomo inglês Fred Hoyle se referiu sarcasticamente à ideia como "The Big Bang" (a grande explosão). O nome pegou, e agora é utilizado sem qualquer sarcasmo.

Einstein e Lemaître
(Talvez lhe interesse saber que que Einstein, para seu crédito, mais tarde chamou à sua teoria de universo estático o seu maior erro. Em 1931, foi especialmente até ao Observatório Mount Wilson, na Califórnia para agradecer a Edwin Hubble o facto de ter revolucionado a nossa compreensão moderna do universo. Dois anos depois, Einstein e Lemaître viajaram pela Califórnia para fazer uma série de palestras, e Einstein proferiu a famosa frase "Esta é a explicação mais bonita e satisfatória sobre a criação que eu já ouvi.")

Hoje, muitas pessoas concordam, e acreditam firmemente, no conceito do Big Bang - que o universo começou há 13.8 mil milhões de anos atrás, com uma explosão colossal de matéria e energia. Praticamente todos os textos sobre física contemporânea abordam a teoria de Lemaître como a ciência aceite. No entanto - e isto ilustra as limitações do nosso conhecimento científico - os físicos sabem que todos os conceitos sobre o princípio do universo são apenas um palpite. Isso porque as leis da física não se aplicavam no momento da criação, se é que houve esse momento. Além desse problema essencial, não temos nenhuma prova real de como o universo se formou, ou mesmo se se formou, porque não temos nenhuma maneira de testar a teoria do Big Bang.

Os ensinamentos Bahá'ís - que defendem a harmonia essencial entre ciência e religião como um princípio básico –apresentam outro ponto de vista, que se correlaciona muito bem com as mais recentes descobertas científicas:
O universo nunca teve um início. Do ponto de vista da essência, ele transforma-se. Deus é eterno na essência e no tempo. Ele é a sua própria existência e causa. É por isso que o mundo material é eterno em essência, pois o poder de Deus é eterno. (‘Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 107)
Alguns cientistas, entre os quais o famoso físico Roger Penrose, têm teorizado que existiu outro universo antes deste, e que o Big Bang foi possivelmente um de muitos eventos formativos. Outros concluíram que nunca houve qualquer Big Bang, e que o universo não teve um verdadeiro início. Recentemente, os físicos Ahmed Ali Farag e Saurya Das na Universidade de Lethbridge, em Alberta, Canadá, escreveram na revista Physics Letters B que o seu novo modelo da relatividade quântica mostra que o universo não teve início nem fim.

Difícil de imaginar? Os ensinamentos Bahá'ís proclamam há mais de um século:
Bahá'u'lláh diz: "O universo não teve princípio nem fim." Ele pôs de lado as teorias complexas e opiniões exaustivas de cientistas e filósofos materialistas com a simples declaração, "Não há princípio, nem fim." Os teólogos e religiosos apresentam provas plausíveis de que a criação do universo remonta há seis mil anos; os cientistas exibem factos indiscutíveis e afirmam: "Não! Essas evidências indicam dez, vinte, cinquenta mil anos atrás", etc. Há discussões intermináveis a favor e contras. Bahá'u'lláh deixa de lado essas discussões com uma palavra e afirmação. Ele diz: "A soberania divina não tem princípio nem fim." Com esta proclamação e sua demonstração Ele estabeleceu um padrão de concordância entre aqueles que reflectem sobre essa questão da soberania divina; Ele trouxe a reconciliação e a paz a essa guerra de opinião e discussão.

Resumidamente, houve muitos ciclos universais anteriores a este em que vivemos. Eles consumaram-se, concluíram-se e os seus vestígios foram obliterados. Neles, o propósito divino e criativo foi a evolução espiritual do homem, tal como é neste ciclo. O círculo de existência é o mesmo círculo; ele retorna. A árvore da vida já gerou o mesmo fruto celestial. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 220)
Se o nosso universo não tem princípio nem fim, o que isso significa para o nosso conceito de um Criador e uma criação? Vamos abordar essa questão fascinante e intrigante no próximo artigo nesta série.

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Texto original: What if the Universe had no Beginning? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

BBC: O Homem por detrás da mais famosa Torre do Irão

Por Rozita Riazati.


Durante 45 anos o mais famoso monumento moderno iraniano - a Torre Azzadi ("Liberdade"), em Teerão - tem sido o cenário das principais notícias que saem do país.

Na praça, que tem servido para celebrações, aniversários, paradas militares e ponto de encontro de manifestações de massas, a torre (com 50 metros de altura) testemunhou alguns dos mais importantes acontecimentos políticos do Irão.

O edifício foi construído em 1971 para representar um símbolo da modernidade e projectar o caminho futuro do Irão.

Mesmo quando o projecto terminou, o arquitecto Hossein Amanat não esperava que “se tornasse um ícone, tão popular entre o povo do Irão”.

Originalmente designado "Memorial do Rei", ou Shahyad, estava planeado para assinalar os 2500 anos do Império Persa, celebrando a riqueza da história e cultura persa.

Hossein Amanat era uma estrela nascente no palco da arquitectura iraniana, quando, em 1966, ganhou o concurso nacional para desenhar o monumento.

O Arquitecto Hossein Amanat vive actualmente em Vancouver, no Canadá
Localizada na zona oeste de Teerão, na estrada que faz a ligação ao antigo aeroporto internacional, o monumento é feito de mármore branco e situa-se numa praça onde há jardins, fontes, um museu e um centro de exposições.

Em meados dos anos 1960, o Irão já era um grande exportador de petróleo, e isso levou o Xá Mohammad Reza Pahlavi a empreender um ambicioso programa de modernização e industrialização.

Durante esse período, a arte moderna no Irão estava a florescer. Era uma espécie de “mini-renascença”, afirma Amanat.

Artistas, poetas e músicos tentavam criar os seus próprios estilos originais, distintivos mas também recebendo inspiração do Ocidente. E no entanto também tinham os seus olhos em elementos tradicionais da cultura persa.

O sr. Amanat afirma que o estilo do Shahyad era também uma manifestação deste período: moderno mas muito persa, com aspectos de arquitectura pré e pós-islâmica.

A Torre foi inaugurada em 1971
A Torre Azzadi levou 30 meses a ser construída; foi inaugurada no Outono de 1971 e aberta ao público em 14 de Janeiro de 1972.

Nessa ocasião, o cilindro de Ciro, considerado por muitos historiadores como a primeira declaração de direitos humanos, foi emprestada pelo Museu Britânico para exibição no museu da Torre.

Símbolo do Irão

Durante a revolução de 1979, a praça ao redor da Torre tornou-se ponto de encontro de manifestantes; e essa atracção pelos que afirmam publicamente a sua dissidência continua até hoje.

Mais recentemente, as enormes manifestações que se seguiram às eleições presidenciais de 2009 chamaram milhares de pessoas à Torre Azzadi, onde exigiram uma recontagem dos votos.

O Sr. Amanat afirma que, de todos os acontecimentos que a Torre testemunhou, este foi “memorável”.

Para muito iranianos que vivem fora do Irão, este surpreendente rumo dos acontecimentos aparenta mostrar um lado diferente da nação.

Para o Sr. Amanat, as cenas eram simultaneamente pessoais e tocantes; afirma que o edifício era como "o abraço de um pai, que abraçava todas estas pessoas à sua frente".

Manifestantes junto à Torre Azadi,
durante a Revolução de 1979
O seu ímpeto histórico, acredita ele, está na evolução da Torre como “símbolo do Irão”, um ícone estético da capital que é intensamente iraniano e islâmico ao mesmo tempo.

Muito iranianos que deixaram o Irão durante ou após a revolução, saíram do país devido a uma grande diversidade de motivos: pessoais, políticos, religiosos ou devido a ligações com o antigo regime.

O Sr. Amanat também abandonou o Irão após a revolução e nunca mais voltou.

Apesar da Torre Azzadi ter sofrido estragos ao longo do tempo, o Sr. Amanat afirma que nunca foi abordado pessoalmente, nem nunca lhe foi pedida ajuda ou conselhos, sobre a sua manutenção.

Actualmente vive em Vancouver, no Canadá, onde criou uma bem-sucedida empresa de arquitectura e tem desenhado edifícios para todo o mundo.

Membro da Fé Bahá’í, a maior minoria religiosa do Irão, o Sr Amanat também foi o responsável pelo desenho do centro administrativo mundial da [Fé] Bahá'í, em Haifa, Israel.

Manifestantes junto à Torre Azzadi,
durante os protestos de 2009
Desde a revolução de 1979, os membros da comunidade Bahá’í no Irão têm sido privados de muitos dos seus direitos civis e centenas têm sido presos e até mesmo executados devido às suas crenças.

Muitos iranianos que vivem no Ocidente, incluindo os Bahá’ís, que desejam regressar e visitar a sua pátria têm medo de fazê-lo.

Sinto muitas saudades do Irão, o meu país, mas neste momento sinto que não quer lá ir”, afirma o Sr. Amanat.

Sente que a arquitectura do Irão é “única” e lamenta não ver mais do seu país quando ele tinha pouco mais de 30 anos.

Compensa isso com um livro especial que preenche com os seus próprios desenhos de importantes edifícios históricos iranianos e locais que visitou durante a sua infância.

Sonho sobre isso… na minha imaginação viajo muitas vezes [até lá]

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TEXTO ORIGINAL (em inglês): The man behind Iran's most famous tower (BBC)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O Simbolismo de Sodoma

Por Frances Worthington.



Se pesquisarmos na internet, podemos encontrar milhares de referências a livros que dizem algo sobre o simbolismo de do episódio bíblico de Sodoma.

Estes livros variam na forma como vêem Sodoma: um mandamento claro para sermos hospitaleiros com estranhos; um modelo das mais baixas formas de desejo físico; uma advertência sobre as consequências do pecado; uma descrição literal do castigo espiritual que aguarda os pecadores; uma sentença contra a homossexualidade; uma comparação entre a forma como se espera que os seguidores de Deus ajam e a maneira como os descrentes se comportam; e um aviso sobre o que pode acontecer aos crentes como Lot, que erguem a sua casa entre os ímpios. Também tem sido entendido como um sinal de que apenas os descendentes físicos de Abraão seriam os herdeiros das bênçãos das suas alianças com Deus: apesar de ser um crente fiel, Lot não era descendente directo de Abraão e, por isso, não estava destinado a ser o fundador de uma tribo que iria continuar a jurar lealdade à nova revelação.

Mas outra perspectiva, espiritualmente mais credível, para ver o episódio de Sodoma e Gomorra é entendê-lo como uma descrição do que pode acontecer quando um grupo de pessoas aceita uma religião em palavras, mas não em actos:
Ó Povo! A palavra deve ser demonstrada com actos, pois o testemunho íntegro da Palavra é a acção. Um sem o outro não aliviará a sede dos necessitados, nem abrirá a porta dos olhos dos cegos. (Bahá'u'lláh, Star of the West, Volume 1, p. 7)
Nesta perspectiva, o episódio olha para a história e também apresenta uma profecia, pois o mesmo tipo de hipocrisia religiosa ocorreu repetidas vezes durante os últimos milhares de anos. Os profetas e mensageiros angélicos representam as religiões enviadas por Deus - tais como a religião de Noé, a religião de Moisés, e a religião de Jesus - enquanto Sodoma representa aqueles que afirmam ser seguidores destas religiões. Quando os anjos examinam o comportamento dos sodomitas, torna-se óbvio que, apesar de fingirem ser religiosos, eles foram pervertendo o verdadeiro objectivo da sua fé.

A sua perversão é mostrada pela forma anti-natura com que desejam os anjos - querem usar os anjos para os seus próprios propósitos, em vez de os tratar com honra. Quando Lot tenta afastar os sodomitas das suas perversões (ou seja, ele oferece-lhes os ensinamentos de uma nova e pura Palavra de Deus, simbolizado pelas suas duas filhas virgens), os homens recusam-se inflexivelmente a mudar o seu comportamento. Eles estão satisfeitos com aquilo que são - desobedecem à antiga religião e ignoram a nova. A sua cegueira espiritual significa que eles não conseguem ver qualquer razão para fugir à maldade da desobediência, e por isso a sua aniquilação (física, espiritual ou ambas) é inevitável.

Avisados pelos anjos, Lot reúne os membros da sua família e abandonam Sodoma antes da sua destruição. A esposa de Lot, descrita por Maomé como sendo falsa ao marido, lamenta amargamente ter que deixar a cidade onde foi feliz. Ela volta-se e olha para trás, sentindo saudades da maldade que deixara, um acto de deslealdade que a congela numa estátua de sal.

As implicações místicas desta imagem cristalina podem ser exploradas se examinarmos as propriedades úteis e nocivas do sal tal como são descritas nas Escrituras. Uma das primeiras passagens sobre sal que vem à mente é a pergunta de Jesus: "Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar?" (Mt 5:13)

De acordo com 'Abdu'l-Bahá, Jesus refere-Se aos perigos das "dissensões e falta de unidade entre os Seus seguidores", salientando que se os apóstolos - o "sal" - não estiverem unidos, o delicioso sabor do trabalho que fazem será perdido. Existem vários outros versículos bíblicos que usam sal como metáfora de uma qualidade que é desejável ou valiosa, incluindo esta de S. Paulo: "Que a vossa palavra seja sempre amável, temperada de sal, para que saibais responder a cada um como deveis." (Col 4:6)

Maomé usa as imagens do sal de várias formas, mas uma das mais intrigantes é a maneira pela qual Ele fala do reino espiritual e o mundo material como oceanos gémeos. Um oceano contém água (espiritual) fresca, enquanto o outro é salgado. Ambos os oceanos proporcionam comida e riqueza, mas apenas a água fresca é doce e agradável de beber:
Ele libertou os dois mares que se conheceram um ao outro ... De cada um, ele trouxe pérolas grandes e pequenas... Nem os dois mares são parecidos: o fresco, doce e agradável de beber; o outro salgado, amargo; no entanto, de ambos comeis peixe fresco, e exibis ornamentos para usais... (Alcorão 35:13; 55: 19-32)
Os ensinamentos Bahá'ís usam o mesmo contraste entre água doce e salgada para demonstrar a insensatez de rejeitar a doçura da espiritualidade e favorecer a amargura do materialismo:
Sim, uma vez que os povos do mundo não procuraram nas Fontes luminosas e cristalinas do conhecimento divino o sentido interior das santas palavras de Deus, então ansiaram, afligiram-se e vaguearam sedentos no vale da vã fantasia e da desobediência. Desviaram-se para longe das águas frescas que aliviam a sede e reuniram-se ao redor do sal que arde amargamente. (Baha’u’llah, The Book of Certitude, parag. 111)
Aplicando todos estes exemplos das Escrituras à mulher de Lot, ela torna-se sal que perde o sabor. Ela está em desunião com a verdade religiosa, porque está mais ligada aos tesouros do mar salgado, simbolizadas por Sodoma, do que às verdades frescas trazidas por Abraão e pregadas pelo seu marido. Ela recusa beber das nutritivos e vivificantes "fontes cristalinas do conhecimento divino" e apenas pretende imergir no oceano amargo da existência física, um desejo que faz com que ela fique coberta com os seus sedimentos que a imobilizam espiritualmente.

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Texto original: The Symbolism of the City of Sodom (www.bahaiteachings.org)

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Frances Worthington é uma escritora apaixonada por bibliotecas, jardins e diálogo inter-religioso. É autora do livro Abraham: One God, Three Wives, Five Religions (Abraão: um Deus, três Esposas, cinco Religiões) e vive em Greenville, South Carolina.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Quando a Psicologia e a Espiritualidade se encontram

Por David Langness.


A espada de um carácter virtuoso e uma conduta íntegra é mais afiada do que lâminas de aço. (Bahá'u'lláh, Epistle to the Son of the Wolf, p. 29
Honestidade, virtude, sabedoria e um carácter santo redundam na exaltação do homem, enquanto desonestidade, impostura, ignorância e hipocrisia levam ao seu rebaixamento. Pela Minha vida! A distinção do homem não está nos ornamentos ou na riqueza, mas sim na conduta virtuosa e na verdadeira compreensão. (Bahá'u'lláh, Tablets of Baha’u’llah, p. 57
Ó povo de Deus! Não vos ocupeis com os vossos próprios interesses; deixai que os vossos pensamentos se fixem naquilo que reabilite os destinos da humanidade e santifique os corações e as almas dos homens. Isso pode ser conseguido melhor através de actos puros e santos, através de uma vida virtuosa e um comportamento admirável. (Bahá'u'lláh, Tablets of Baha’u’llah, p. 86)
A ciência da psicologia, desde que surgiu há quase um século, teve dificuldades para reflectir e estudar sobre as virtudes humanas. O "modelo médico" da psicologia e psiquiatria iniciais começou por se focar nas nossas perturbações, doenças e deficiências, ignorando os aspectos positivos do carácter humano. Em vez de estudar o carácter e a moralidade, a psicologia designava os aspectos positivos e as virtudes como "impulsos inconscientes."

Em 2004, as coisas começaram a mudar quando Peterson e Seligman publicaram o livro Character Strengths and Virtues Handbook. Eles mostraram convincentemente que "uma atenção exclusiva naquilo que está errado nas pessoas pode levar-nos a ignorar o que é certo e exclui a possibilidade de que uma das melhores maneiras de destruir a fraqueza de alguém consiste em encorajar as suas forças." (pags 55. -56)

Esta revolução na psicologia realçou toda a área dos atributos, características e virtudes que os seres humanos podem desenvolver; mas além disso, conseguiu fazer uma convergência dos pensamentos mais avançados no estudo da psique humana e da alma humana.

A psicologia positiva e os novos ensinamentos espirituais da Fé Bahá'í reflectem-se mutuamente, salientando que os seres humanos são essencialmente nobres e têm capacidade para reflectir as mais excelentes das virtudes. Podemos desenvolver, com empenho e reflexão, uma realidade interior saudável, estável e radiante, encontrar um caminho para uma vida boa cultivando conscientemente as nossas virtudes espirituais. Além de apresentar conselhos práticos para a felicidade, os ensinamentos Bahá'ís afirmam que o caminhar para atingir as virtudes humanas representa o nosso objectivo fundamental como seres humanos:
O propósito da criação do homem é o alcançar das virtudes supremas da humanidade através da obtenção das dádivas celestiais. ('Abdu'l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, p. 4)
Esta nova união entre psicologia e espiritualidade tem profundas implicações na forma como vivemos as nossas vidas. Exige-nos que nos voltemos para o nosso interior e exploremos as nossas almas, para contemplar e desenvolver conscientemente as nossas mais altas e ditosas características e virtudes humanas, para encontrar maneiras de transformar a nossa realidade interior em acção no mundo exterior.

O seguinte excerto das Escrituras de Bahá'u'lláh simboliza esse caminho positivo psicológico e espiritual:
Sê generoso na prosperidade e grato no infortúnio. Sê digno da confiança de teu próximo e dirige-lhe um olhar brilhante e acolhedor. Sê um tesouro para o pobre, um conselheiro para o rico, uma resposta ao pranto do necessitado, e preserva a santidade da tua promessa. Sê recto no teu julgamento e comedido nas tuas palavras. Com ninguém sejas injusto e mostrai toda a brandura a todos os homens. Sê como uma lâmpada para os que caminham nas trevas, uma alegria para o triste, um mar para o sedento, um refúgio para o aflito, um apoiante e defensor da vítima da opressão. Que a integridade e a rectidão distingam todos os teus actos. Sê um lar para o forasteiro, um bálsamo para o sofredor, uma fortaleza para o fugitivo. Sê os olhos para o cego e um farol para os pés dos que se perdem. Sê um adorno para o semblante da verdade; uma coroa na fronte da fidelidade; um pilar no templo da rectidão; um sopro de vida no corpo da humanidade; um estandarte das hostes da justiça; uma estrela sobre o horizonte da virtude; uma gota de orvalho no solo do coração humano; uma arca no oceano do conhecimento; um sol no céu da generosidade; uma jóia no diadema da sabedoria; uma luz radiante no firmamento da tua geração; um fruto na árvore da humildade. (Bahá'u'lláh, Epistle to the Son of the Wolf, p. 93-94)

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Texto original: Psychology and Spirituality Come Together (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

9 Decisões Espirituais para o Ano Novo

Por David Langness.


Oh não! Estamos em 2015 e você ainda não tomou nenhuma decisão de Ano Novo? De qualquer forma… quem foi que inventou esta tradição?

Acontece que praticamente todas as culturas e religiões antigas têm alguma espécie de decisões de Ano Novo.

O deus Jano, da religião romana
É por isso que temos um mês chamado Janeiro - porque no início de cada ano gregoriano os antigos romanos fizeram promessas de auto-aperfeiçoamento a Jano (Janus, em latim), o deus dos começos e transições. Essa prática provavelmente também tem raízes nos antigos babilónios, que tinham de prometer aos seus deuses no início de cada ano que pagariam suas dívidas e devolveriam as coisas que tinham emprestado.

Durante o Ano Novo Judaico, que se inicia com o Rosh Hashanah, prossegue com as Grandes Festas e termina no Yom Kippur, os Judeus reflectem sobre suas faltas e pecados durante o ano anterior, e depois decidem pedir perdão e também oferecem o seu perdão aos outros.

Católicos e Anglicanos têm a Missa da Meia-Noite (também chamada Missa do Galo), concebida para ajudar a resolver os crentes a tornar o seu Ano Novo mais espiritual do que o anterior; outros cristãos têm a tradição das vigílias nocturnas, em que se preparam para o ano novo através de oração, reflexão e tomando decisões. John Wesley, fundador da Igreja Metodista, iniciou as suas vigílias em 1740, não só para oferecer uma alternativa às bebedeiras típicas da véspera de Ano Novo, mas também para cantar hinos, ler as Escrituras e decidir levar uma vida mais espiritual no ano seguinte. Wesley chamou a estas vigílias Covenant Renewal Services (Serviços de Renovação da Aliança).

Em muitas igrejas afro-americanas dos EUA, as vigílias assumiram um significado especial em 01 de Janeiro de 1863, quando os escravos negros americanos encheram as suas igrejas para aguardar e celebrar a assinatura da Proclamação de Emancipação, pelo presidente Abraham Lincoln.

Para os Muçulmanos e para os Bahá’ís, o Ano Novo do seu calendário (o que não ocorre no 1º de Janeiro) coincide com o fim do período de jejum anual, quando os crentes reflectem sobre o seu próprio desenvolvimento espiritual durante o ano anterior e comprometem-se a abster-se de desejos egoístas, a melhorar as suas vidas espirituais e a servir aos outros.

E para os Bahá'ís, o processo de tomar decisões de auto-aperfeiçoamento acontece não apenas anualmente, mas diariamente:
Examina-te a ti próprio em cada dia, antes de seres chamado a prestar contas, porque a morte não anunciada chegar-te-á e serás chamado a responder pelos teus actos. (Baha’u’llah, The Hidden Words, p. 11)
Assim, neste ano, seguindo o espírito de todas aquelas tradições culturais e religiosas, gostaria de propor um conjunto de decisões espirituais que todos podemos adoptar e pôr em prática. Vamos decidir com antecedência para evitar as resoluções típicas de ano novo - todos sabemos quais - perder peso, viajar mais, ter menos stress, passar mais tempo com a família, etc. Em vez disso, aqui fica uma sugestão para um conjunto de decisões espirituais com que todos (incluindo eu próprio) nos podemos comprometer:

  1. Decidi começar e terminar cada dia com uma oração de gratidão pela minha vida.
  2. Decidi mostrar activamente (não apenas falar) amor por toda a minha família - a família humana.
  3. Decidi trabalhar para me libertar dos meus preconceitos - toda a gente tem alguns, e todos nós estaríamos melhor sem eles.
  4. Decidi praticar um período de meditação todos os dias - ele não tem que ser longo ou complexo, mas tem de ser uma prática constante de estar sozinho a reflectir sobre os meus pensamentos e sentimentos.
  5. Decidi comprometer-me com uma meta de serviço aos outros, tornando pelo menos uma vida humana melhor no próximo ano do que foi este ano.
  6. Decidi sair dos meus grupos sociais e culturais normais deste ano - atravessando as barreiras raciais, de classe e de idade que a nossa sociedade nos impõe e fazer amizade com alguém que não seja exactamente como eu.
  7. Decidi fazer algo significativo neste ano com vista ao objectivo da paz no mundo, mesmo que seja apenas um pequeno compromisso voluntário na minha própria comunidade ou uma nova atitude sobre como lidar com conflitos de forma pacífica.
  8. Decidi mostrar activamente mais bondade, não só para com as pessoas ao meu redor, mas também para com os animais.
  9. E decidi ver o mundo como um local onde todas as minhas decisões podem fazer os outros - e eu próprio - mais felizes, mais radiantes e mais realizados espiritualmente.


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Texto original: 9 Spiritual New Year’s Resolutions (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Livro "Bahá'u'lláh e a Nova Era" proibido na Malásia.


O Ministério de Assuntos Internos da Malásia proibiu o conhecido livro Bahá’u’lláh e a Nova Era, uma obra frequentemente apresentada como uma introdução à Fé Bahá’í. Além deste livro Bahá’í foram também proibidos quatro livros islâmicos cujos conteúdos foram considerados “interpretações desviantes”.

O Ministério esclareceu que as publicações proibidas "podem perturbar a tranquilidade pública e alarmar a população pois contêm elementos que podem confundir os muçulmanos e danificar a sua fé." A impressão, importação, venda ou posse destes livros agora proibidos é punível com pena de prisão (até 3 anos) e/ou multa até 20.000 Ringgit (aprox. 4200 Euros)

Bahá’u’lláh e a Nova Era é um livro de introdução à Fé Bahá’í, originalmente escrito por John Esslemont e publicado em 1923. Foi revisto e actualizado várias vezes, e está disponível para leitura e download na Bahai Reference Library. No Brasil foram já publicadas várias edições deste livro.

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FONTES:
‘Baha’u’llah and the New Era’ banned in Malaysia (Sen's Daily)
5 publications banned for confusing Muslims (The Malasyan Insider)

domingo, 27 de dezembro de 2015

Paris, U2, e “Jesus, Jew, Muhammad, It’s True”

Por David Langness.


Nesta nova e maravilhosa dispensação os véus da superstição foram rasgados e os preconceitos dos povos orientais estão condenados. Entre certas nações do Oriente, a música era considerada repreensível, mas nesta nova era a Luz Manifesta, nas suas sagradas Epístolas, proclamou especificamente que a música, cantada ou tocada, é alimento espiritual para a alma e coração. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #74)
Quem foi ao recente concerto dos U2 no AccorHotel Arena, em Paris, juntamente com 20.000 de seus melhores amigos, ou viu o concerto na televisão em qualquer lugar do mundo, teve a oportunidade de viver um momento verdadeiramente notável. Muito mais do que apenas concerto de rock, esta actuação usou o poder da música para espalhar a verdade sobre a unicidade da religião.

Tudo começou a acontecer quando U2 tocaram os seus comoventes hinos à paz, igualdade e liberdade com paixão e vigor. Os concertos da banda em Paris, originalmente programados para começar no dia seguinte aos ataques de 13 de Novembro, assumiram uma nova e simbólica importância, com o seu regresso desafiador.

Os nomes de todas as vítimas dos atentados de Novembro foram projectados num
enorme ecrã onde se viam as cores da bandeira francesa e um símbolo da paz.
Bono criou a dinâmica ao falar (em francês e inglês) entre as músicas, sobre a tragédia dos ataques terroristas de Paris. "Somos todos parisienses", afirmou. E acrescentou que o terrorismo não pode parar a música e que tínhamos de transformar o medo em amor.

O entusiasmo e a intensidade na arena aumentaram ainda mais quando a banda tocou o tema icónico "Pride: In the Name of Love", sobre Martin Luther King, Jr. e outros defensores da liberdade. A canção foi um hino de homenagem às 130 pessoas que morreram nos ataques de Paris, ao mostrar os nomes de cada vítima num enorme ecrã de vídeo, juntamente com os símbolos da paz e do amor.

A multidão ovacionou, obviamente inspirada pela solidariedade que sentia.

Então Bono surpreendeu todos os presentes quando teve a coragem de dizer: "Nós estamos com aqueles cujas vidas foram dilaceradas por uma ideologia que é uma perversão da bela religião do Islão."

E continuou: "Tanto quanto sei, o Islão significa ‘submissão’". E então pediu à multidão para alargar a sua simpatia e orações às famílias e parentes dos próprios terroristas, "por muito difícil que isso seja".

Esse momento unificador lembrou concertos dos U2 após os ataques terroristas do 11 de Setembro nos Estados Unidos e depois dos atentados de 2005 em Londres, quando Bono usou a faixa "Coexist" no cenário do palco, e num apelo à unidade religiosa, cantou “Jesus, Jew, Muhammad, it’s true. All sons of Abraham. Father Abraham, speak to your sons. Tell them ‘No More!’” ("Jesus, Judeu, Maomé, é verdade. Todos os filhos de Abraão. Pai Abraão, fala aos seus filhos. Diz-lhes 'Nunca Mais!'")

Membros da banda U2 colocaram flores junto ao Bataclan,
numa homenagem às vítimas dos atentados de Paris.
Para os Bahá'ís, a declaração de Bono tem um nível especial de percepção, não só sobre a descendência de Abraão, mas sobre a ligação progressiva de todas as religiões:
... os descendentes de Abraão receberam a bênção especial de todos os Profetas da Casa de Israel terem surgido no seu seio. Isto é uma bênção que Deus concedeu a essa linhagem. Moisés, tanto através do Seu pai e da Sua mãe; Cristo, através da Sua mãe; Maomé; O Bab, e todos os profetas e os Santos de Israel pertencem a essa linhagem. Também Bahá'u'lláh é descendente directo de Abraão, pois Abraão teve outros filhos além de Ismael e Isaac, que naqueles dias emigraram para as regiões da Pérsia e Afeganistão, e a Abençoada Beleza [Bahá'u'lláh] é um dos seus descendentes. ('Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 246-247)
Depois veio o final, uma apoteose musical inspiradora em que os membros do público e da banda cantaram a plenos pulmões, com uma vontade profunda que o amor, a alegria e a música triunfem sobre o medo.

Há pouco mais de cem anos atrás, em Paris, a cidade dos corações, ‘Abdu'l-Bahá fez soar o apelo unificador da Fé Bahá'í, agora transmitido para todo o mundo:
Todos os Profetas de Deus vieram por amor a este único e grande objectivo.

Vede como Abraão se esforçou para trazer a fé e o amor entre o povo; como Moisés tentou unir o povo através de leis sólidas; como o Senhor Cristo sofreu a morte para levar a luz do amor e da verdade a um mundo em trevas; como Maomé tentou conseguir a unidade e a paz entre as várias tribos incivilizadas com quem Ele habitava. E por fim, Bahá'u'lláh sofreu quarenta anos pela mesma causa - o propósito nobre e único de espalhar o amor entre os filhos dos homens - e para a paz e a unidade do mundo o Bab deu a Sua vida.

Assim, esforçai-vos para seguir o exemplo destes Seres Divinos, bebei da Sua fonte, iluminai-vos com a Sua luz, e sede para o mundo como símbolos da Misericórdia e do Amor de Deus. Sede para o mundo como chuva e nuvens da misericórdia, como sóis da verdade; sede um exército celestial, e, na verdade, conquistareis a cidade de corações. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp 171-172)
Por vezes é necessário partilhar experiências culturais e emocionais como esta para entender que a sociedade pode realmente reencontrar-se em amor, perdão, compaixão espiritual e unidade.

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Texto original: Paris, U2, and “Jesus, Jew, Muhammad, It’s True” (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Mais um gesto corajoso do Ayatollah Tehrani

No Irão, o Ayatollah Abdolhamid Masumi Tehrani, um clérigo muçulmano dissidente, manifestou em diversas ocasiões a sua solidariedade para com a comunidade Bahá’í do Irão. Em 2013, este clérigo xiita criticou publicamente a violação dos direitos civis dos Bahá’ís; em Abril do ano passado criou e ofereceu aos Bahá’ís de todo o mundo uma iluminura com uma frase das Escrituras Bahá’ís.

Recentemente, num artigo publicado no seu website, dedicou uma nova peça de caligrafia - com outro excerto das Escrituras de Bahá'u'lláh - aos Bahá'ís que foram presos com base em acusações infundadas no passado mês de Novembro. O texto escolhido é um excerto do livro "As Palavras Ocultas" e é uma homenagem à resposta destemida da comunidade Bahá'í iraniana face à perseguição contínua e sistemática de que é alvo.

Familiares de alguns dos Bahá'ís detidos em Novembro exibem a peça de caligrafia oferecida pelo Ayatollah Tehrani
Esse artigo manifesta a esperança de que seu acto "possa elevar a consciência dos meus compatriotas a pensar em aumentar o seu respeito pela dignidade humana e não focar sua atenção nas diferentes etnias, línguas e religiões". Neste texto, os iranianos também são desafiados a examinar o abismo entre os valores defendidos pela sua religião e os actos de opressão perpetrados em seu nome.

O Ayatollah Tehrani publicou ainda um comunicado na sua página do Facebook (disponível aqui em Inglês) onde convida "as pessoas progressistas do Irão a evoluir no tema dos direitos civis para todos os iranianos, independentemente da religião, género, raça e etnia. "

"A identidade nacional - e não as diferenças religiosas - deve ser considerada como o elemento unificador de todos os cidadãos deste país. Aumentar as diferenças em vez de acentuar as semelhanças apenas provoca opressão e corrupção", acrescenta o comunicado.

O protesto do Ayatollah Tehrani surge ao mesmo tempo que um número crescente de intelectuais e artistas iranianos, dentro e fora do Irão, têm vindo a defender publicamente uma cultura de justiça e de coexistência, falando em nome dos Bahá'ís e de outros grupos reprimidos no Irão.

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FONTE: In another brave gesture, senior cleric calls for justice (BWNS)