sábado, 27 de fevereiro de 2016

Acreditar na Criação ou na Eternidade?

Por David Langness.


Os filósofos da Grécia - como Aristóteles, Sócrates, Platão e outros - dedicavam-se à investigação dos fenómenos naturais e espirituais. Nas suas escolas falavam sobre o mundo da natureza, assim como o mundo sobrenatural. Hoje a filosofia e lógica de Aristóteles são conhecidas em todo o mundo. Porque eles estavam interessados tanto na filosofia natural como na divina, e promoviam o desenvolvimento do mundo físico da humanidade, assim como o intelectual, eles prestaram um serviço louvável à humanidade. Este foi o motivo do triunfo e sobrevivência dos seus ensinamentos e princípios. O homem deve continuar estas duas linhas de pesquisa e investigação para que todas as virtudes humanas, exteriores e interiores, se possam tornar possíveis. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 322)
Está preparado para um tema verdadeiramente profundo? Esta é uma das questões mais antigas e mais profundas da humanidade: Como começou a existência do universo? Ou será que nunca começou? Será que um Criador todo-poderoso (ou, talvez a própria energia e matéria) criou o universo num momento específico no tempo - ou será que sempre existiu? Dependendo de como se responde a essas perguntas, podemos ser "criacionistas" ou "eternalistas". Vamos examinar esse enigma basilar e cada um pode decidir por si próprio.

Na filosofia clássica, nenhum debate se prolongou tanto como este argumento da eternidade.

Um dos lados do debate, geralmente designado como "Criacionismo ex nihilo", argumenta que um Criador criou todo o universo ex nihilo , ou seja, a partir do nada .

O outro lado afirma que o universo é eterno, isto é, sempre existiu.

Nenhuma explicação científica, incluindo a Teoria do Big Bang, conseguiu provar de forma definitiva uma ou outra posição. Os defensores da teoria do Big Bang, incluindo o padre Lemaître, o sacerdote católico que primeiramente a defendeu em 1927, dizem que esta se encaixa o modelo criacionista. Os defensores da teoria eternalista afirmam que a ciência provou que nenhuma coisa pode emergir do nada, e que a natureza abomina o vazio.

Maimónides
A maior parte da defesa do Criacionismo ex nihilo veio de teólogos e de filósofos tradicionais que acreditavam na existência de um Deus. Filósofos Judeus, Cristãos e Muçulmanos (com algumas excepções, como o filósofo muçulmano Averróis) e o clero em geral apoiaram esta posição ao longo da história. Geralmente argumentam que a criação de Deus teve de começar a existir em algum momento no tempo; e que antes da criação de Deus, por definição, nada existia, excepto Deus. O famoso teólogo e filósofo Judeu Maimónides, provavelmente o mais conhecido dos criacionistas, apresentou fortes argumentos em defesa desta posição, que ele considerava uma verdade absoluta bíblica.

Do outro lado do debate, o chefe eternalista, o grande filósofo grego Aristóteles, desenvolveu vários argumentos científicos e filosóficos convincentes sobre a eternidade. Afirmou que "essa geração que ocorreria a partir do nada" era obviamente impossível, uma vez que sabemos que a matéria vem sempre de uma causa pré-existente ou outra forma de matéria. Acrescentou que a própria existência de movimento no universo significa que as coisas sempre se moveram. E afirmou que um vácuo completo é uma impossibilidade natural e, portanto, o vazio absoluto não pode existir, e nunca existiu.

Várias religiões orientais - Hinduísmo, Budismo, Jainismo - também apoiam o ponto de vista eternalista; as suas escrituras apontam que o universo não teve início.

Isto deixa-nos com a cabeça a andar à roda, não é? A minha fica, com certeza. Acho que é incrivelmente difícil conceber um universo atemporal, sem início nem fim, e acho que é igualmente difícil imaginar um vazio completo cheio de um nada absoluto. Na verdade, não consigo pensar em perguntas mais complicadas do que esta.

A resposta Bahá’í para este debate pode ser surpreendente:
Sabe que é uma das questões mais obscuras da divindade a de que o mundo da existência - isto é, esse infinito universo - não teve início.

... Sabe que um senhor sem vassalos não é imaginável; um soberano sem súbditos não pode existir; um professor sem alunos não pode ser nomeado; um criador sem a criação é impossível; um fornecedor sem os receptores é inconcebível - pois todos os nomes e atributos divinos apelam à existência das coisas criadas. Se fôssemos imaginar um tempo em que as coisas criadas não existissem, isso seria equivalente a negar a divindade de Deus.

Além disto, a não-existência absoluta não tem capacidade para alcançar a existência. Se o universo fosse um puro nada, a existência nunca teria acontecido. Assim, tal como a Essência da Unidade, ou o ser divino, é eterno e perpétuo - isto é, não tem início nem fim - sucede que o mundo da existência, esse universo ilimitado, da mesma forma, também não tem início. Para ter certeza, é possível que alguma parte da criação - um dos globos celestes - seja recém-formada ou se desintegre; mas os outros incontáveis globos continuarão a existir e o mundo da existência em si não se desfaz nem se destrói. Pelo contrário, a sua existência é perpétua e imutável. Agora, como cada globo tem um início, também deve inevitavelmente ter um fim, pois toda a composição, seja universal ou particular, deve necessariamente decompor-se. No máximo, alguns outros desintegram-se rapidamente e outros lentamente, mas é impossível que algo que é composto, não acabe, finalmente, por se decompor. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 207-208)
Os ensinamentos Bahá’ís afirmam claramente que a existência do universo “é perpétua e imutável”. No entanto, Bahá’u’lláh escreveu que toda a criação “é antecedida por uma causa”:
O Deus uno e verdadeiro existiu eternamente, e continuará a existir eternamente. A Sua criação, de igual modo, não teve início e não terá fim. Tudo o que é criado, porém, é antecedido por uma causa. Este facto, só por si, estabelece, sem sombra de dúvida, a unidade do Criador. (Bahá'u'lláh , Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh , LXXXII)
Poderia esta resposta nos dão um meio-termo entre o criacionismo e o eternalismo? Qual a sua opinião?

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Texto original: Do You Believe in Creation or Eternity? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Pode a Administração Bahá’í tornar-se um Governo Mundial?

Por David Langness.


Vários pensadores, sábios e filósofos contemporâneos (que não são Bahá'ís) sugeriram que o sistema de organização Bahá'í - uma estrutura eleita democraticamente, unificada, não-politizada e com órgãos de governo locais, regionais, nacionais e internacionais - pode servir como modelo para um futuro governo mundial; ou mesmo, um dia, tornar-se esse governo.

Alfred W. Martin, autor e estudioso da religião Unitária foi um dos primeiros a avançar com esta ideia, no seu livro de 1926 Comparative Religion and the Religion of the Future:
A coroa de glória do movimento Bahá'í é que, enquanto censura o sectarismo na sua pregação, tem praticado fielmente aquilo que pregou, evitando tornar-se ele próprio uma seita... Os seus representantes não tentam impor quaisquer crenças aos outros, seja por argumento ou suborno; em vez disso, preferem colocar crenças que iluminaram as suas próprias vidas ao alcance daqueles que sentem que precisam de iluminação. Não, não é uma seita, não é uma parte da humanidade isolada do resto, vivendo para si própria e com o objectivo de converter todo o resto em material para o seu próprio crescimento; Não, não é isso, mas um fermento, provocando uma fermentação espiritual em todas as religiões despertando-as com o espírito da catolicidade e do fraternalismo... Quem dirá que, tal como o pequeno grupo de viajantes do Mayflower, que desembarcaram em Plymouth Rock, provou ser o pequeno começo de uma poderosa nação, o embrião ideal de uma democracia que, se continuar fiel aos seus princípios, deve ainda alcançar todo o globo habitável, também o pequeno grupo de Bahá'ís exilados da sua casa persa pode ainda vir a ser o pequeno começo do movimento mundial, o embrião ideal da democracia na religião, a Igreja Universal da Humanidade? (pag. 88, 91)
No entanto, as escrituras Bahá'ís proíbem especificamente a Ordem Administrativa Bahá'í de "substituir o governo dos seus respectivos países."

Para eliminar qualquer confusão, 'Abdu'l-Bahá escreveu um tratado importante sobre o assunto chamado Resaleh-ye Siyasiyyeh, que foi traduzido em francês como La Politique (A Política) e em alemão como Eine Abhandlung Uber Politik (Um ensaio sobre Política). Os vários tradutores concordam na essência sobre a força principal deste importante texto Bahá'í: que as funções de líderes religiosos e as funções de líderes políticos devem permanecer separadas. No Seu tratado 'Abdu'l-Bahá afirma claramente que, sempre que os líderes da religião procuram uma função na esfera política, dissolve-se a unidade entre os crentes - e adverte os Bahá'ís não procurarem essas funções.

Mas vamos especular por um momento. E se os crentes ou a religião em si não procurassem essa função? E se a sociedade em geral escolhesse livremente a ser administrada e regida por princípios dessa religião, ou usasse a ordem administrativa religiosa como modelo para o seu governo civil?

Por outras palavras, poderia alguma vez o modelo de governação Bahá'í, a sua ordem administrativa democrática globalmente unificada, tornar-se mais do que apenas um modelo para um governo civil? Poderia a Fé Bahá'í um dia tornar-se a religião de estado de um país? Poderia esse país adoptar as leis Bahá'ís como suas? Poderia uma nação - ou o mundo - verdadeiramente utilizar a ordem administrativa Bahá'í como o seu órgão de governação em algum momento distante no futuro?

Sim, a Casa Universal de Justiça tem dito, que todas essas coisas são passíveis de acontecer, numa etapa futura em que sociedade esteja completamente despolitizada e unificada. Mas os próprios Bahá'ís não podem forçar qualquer uma dessas possibilidades - essa mudança radical no rumo da sociedade teria que ser uma escolha livre e sem constrangimento da própria sociedade. Assim, enquanto uma tal evolução parece agora remota e quase inconcebível, a Casa Universal de Justiça diz que um dia isso pode ocorrer:
Apenas à luz desses factos, é evidente que o crescimento das comunidades Bahá'ís para a dimensão em que um estado não-Bahá'í adoptasse a Fé como Religião do Estado, ou até mesmo a situação em que o Estado aceitasse a Lei de Deus como a sua própria lei e a Casa Nacional de Justiça como seu legislador, deverá ser um processo democrático e absolutamente voluntário. (Separation of Church and State, from The Universal House of Justice, April 27, 1995)
Membros eleitos da Casa Universal de Justiça
Vamos tentar imaginar. Dado um novo modelo pós-secular de harmonia e complementaridade entre uma ordem religiosa pluralista e o Estado, que trabalham de maneiras diferentes para o bem-estar da humanidade; e dado uma comunidade mundial unificada com um sistema federado de nações; e talvez até mesmo dada uma população maioritariamente Bahá'í, (ou que a maioria da população apoiasse os ideais Bahá'ís), então esse "processo democrático e absolutamente voluntário" teria que incluir dois aspectos críticos: protecção completa dos direitos de quaisquer minorias; e o acordo amplo e livre de toda a sociedade futura na adopção de princípios Bahá'ís.

Este tipo de mudança governamental e espiritual sem precedentes - que agora é tão difícil de antever, com o nosso mundo actual tão emaranhado e tão profundamente dividido entre interesses contrários e agendas políticas nacionais - exigiria, obviamente, um grande realinhamento de valores, interesses geopolíticos e perspectivas religiosas. Salvo uma mudança abrupta ou catastrófica nos destinos do mundo, levará provavelmente muito tempo, talvez séculos, para chegar à fase de maturidade humana colectiva necessária para tal acordo pacífico e democrático sobre um conjunto unificador de princípios espirituais.

Enquanto isso, o principal objectivo da Fé Bahá'í, independentemente da forma como isso acontece ou como poderá vir a acontecer, foca-se um objectivo final - a unificação pacífica de toda a raça humana.

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Texto original: Could the Baha’i Administration Ever Become a World Government? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Comissão da ONU exige que Irão deixe de identificar alunos Bahá'ís

A Comissão da ONU sobre os Direitos da Criança exigiu ao Irão que deixasse de identificar nas escolas as crianças de famílias Bahá'ís, e parasse de intimidá-las e expulsá-las.

Num relatório divulgado no início deste mês, a Comissão, constituída por 18 peritos independentes, afirmou estar preocupada com a discriminação contra as minorias religiosas no Irão, salientando que muitas dessas crianças foram privadas dos direitos existentes na Convenção sobre os Direitos da Criança, de que o Irão é signatário.

A Comissão declarou estar "particularmente preocupada com a hostilização, a intimidação e prisão de pessoas da Fé Bahai, incluindo os seus filhos, devido à sua religião."

Entre outras coisas, a Comissão chamou a atenção para a prática de aprisionar as crianças Bahá'ís com suas mães, acrescentando que algumas têm "desenvolvido problemas de saúde devido às más condições de vida a que estão sujeitas nas prisões." Também preocupação com a "identificação, intimidação e hostilização de crianças Bahá'ís em escolas e a falta de acesso para essas crianças ao ensino superior", apelando ao Irão para pôr termo a essas práticas.

Diane Ala'i, representante da Comunidade Internacional Bahá'í nas Nações Unidas em Genebra saudou os comentários da Comissão: "Desde a revolução islâmica de 1979, os Bahá'ís têm sido alvo de perseguição, intimidação e discriminação apenas devido às suas crenças religiosas, e as crianças Bahá'ís são particularmente afectadas por estas políticas.

"As crianças Bahá'ís têm sido isoladas e maliciosamente excluídas, marginalizadas, e intimidadas nas suas escolas devido às suas crenças. Foram expulsas quando, de forma correcta e honesta, preencheram declarações obrigatórias da religião em formulários de inscrição, ou quando expressaram a sua opinião e não ficaram em silêncio quando os professores faziam falsas acusações sobre a sua religião nas salas de aula”, acrescentou a Srª Ala'i.

"E os jovens Bahá'ís continuam a ser impedidos de ingressar no ensino superior; e os poucos que são aceites acabam por ser expulsos assim que se torna aparente que eles são Bahá'ís", concluiu a Srª Ala'i.

As observações finais da Comissão podem ser lidas aqui.

Um relatório da BIC (Bahá'í International Community) à Comissão sobre a actual situação no Irão pode ser lido aqui.

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FONTE: UN Committee calls on Iran to stop identifying Baha’i schoolchildren (BIC)

O fogo dos preconceitos religiosos


sábado, 13 de fevereiro de 2016

Política, Religião e Tirania

Por David Langness.


Os ensinamentos Bahá’ís opõem-se de forma determinada e veemente ao despotismo e à tirania.

Durante os últimos quarenta anos da Sua vida, Bahá'u'lláh sofreu a tortura, o exílio e a prisão; tudo isso foi decretado e executado por tiranos e déspotas dos governos persa e otomano. Ele manifestou-Se repetidamente contra esses déspotas e seus regimes opressivos; chegou mesmo a enviar de uma série de cartas e epístolas aos Reis, governantes e líderes religiosos do mundo, anunciando a revelação que Ele tinha recebido e convocando-os para a paz universal, unidade e cooperação internacional.

Bahá'u'lláh pediu aos líderes políticos do mundo que estabelecessem a paz com outras nações, tratassem dos seus assuntos com justiça, reduzissem a impostos injustos destinados a financiar armas e guerras, e enfrentassem a terrível pobreza entre os seus povos. Além da forte oposição de Bahá'u'lláh ao poder dos governos tirânicos, as escrituras Bahá'ís defendem um modelo de federação de nações numa ordem mundial unida. 'Abdu'l-Bahá expressou este princípio Bahá'í fundamental a um alto funcionário do governo dos Estados Unidos, dizendo:
Podeis melhor servir o vosso país se, na vossa capacidade de cidadão do mundo, envidardes todos os esforços que contribuam para a aplicação futura do princípio do federalismo subjacente ao governo do vosso próprio país nas relações já existentes entre os povos e nações do mundo. (The World Order of Baha’u’llah, p. 37)
Assim, considerando este sólido conceito Bahá'í de uma federação descentralizada de nações sem tirania ou despotismo, podem os Bahá'ís participar na actividade política?

Não. Os Bahá'ís evitam a política partidária, e vêem a sua fé como essencialmente não-política.

Então como é que os Bahá'ís concebem uma futura ordem mundial, se não como uma organização política? E muitas pessoas perguntam como pode mesmo existir uma ordem mundial sem algum tipo de embate e envolvimento político? Não é o sistema político partidário algo inevitável? E quanto ao princípio Bahá'í da unidade mundial: se isso acontecer, não irão os Bahá'ís querer participar na governação do mundo?

Para começar a responder a essas perguntas, vamos começar por analisar como os ensinamentos Bahá'ís concebem uma futura ordem mundial, a partir dos escritos de Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í:
A unidade da raça humana, tal como previsto por Bahá'u'lláh, implica o estabelecimento de uma comunidade mundial em que todas as nações, raças, credos e classes estão íntima e permanentemente unidas, e em que a autonomia dos seus Estados membros, e a liberdade e iniciativa pessoais dos indivíduos que as compõem estão definitiva e completamente salvaguardadas. Esta comunidade deve, tanto quanto a podemos visualizar, incluir um parlamento mundial, cujos membros, enquanto fideicomissários de toda a humanidade, irão, em última análise, controlar todos os recursos de todas as nações que o constituem, e promulgar leis que sejam necessárias para regular a vida, satisfazer as necessidades e organizar as relações entre todas as raças e povos. Um executivo mundial, apoiado por uma força internacional, executará as decisões e aplicará as leis promulgadas por este parlamento mundial, e protegerá a unidade orgânica de toda a comunidade mundial. Um tribunal mundial julgará e emitirá o seu veredicto vinculativo e final em todas e quaisquer disputas que possam surgir entre os vários elementos que constituam este sistema universal. (The World Order of Baha’u’llah, p. 202)

Montesquieu
A visão Bahá'í de uma nova comunidade mundial das nações inclui os três elementos clássicos - um órgão legislativo mundial democraticamente eleito; um executivo mundial; e um tribunal mundial. A ideia destes componentes governamentais equilibrados é familiar para os cidadãos de muitos países soberanos do mundo; foi proposta pela primeira vez por Aristóteles, usada pelos gregos e romanos nas suas incipientes democracias, e, posteriormente, desenvolvida em 1748, por Montesquieu, o filósofo político francês do Iluminismo. Designado sistema tripartite, esta separação interna de poder político entre os três ramos do governo - legislativo, executivo e judicial - evita a excessiva centralização e a potencial tirania de uma oligarquia ou ditadura. Os governos democráticos mais avançados de hoje usam este sistema, e os ensinamentos Bahá'ís recomendam a sua aplicação numa escala mundial.

As escrituras Bahá'ís afirmam que esta visão de uma comunidade mundial, o sonho de poetas, filósofos e profetas durante milénios, só pode acontecer quando:
... um certo número de seus soberanos ilustres e magnânimos ... deve, para o bem e a felicidade de toda a humanidade, erguer-se, com firme determinação e visão clara, para estabelecer a causa da Paz Universal. Eles devem fazer da Causa da Paz o objecto de consulta geral, e procurar, por todos os meios ao seu alcance, estabelecer uma União das nações do mundo. Eles devem criar um tratado vinculativo e estabelecer uma aliança cujas cláusulas sejam sólidas, invioláveis e bem claras. Devem proclamá-la a todo o mundo e conseguir para ela a sanção de toda a raça humana. Este empreendimento supremo e nobre - a verdadeira fonte de paz e bem-estar de todo o mundo - deve ser considerado sagrado por todos os que habitam na terra. Todas as forças da humanidade devem ser mobilizadas para garantir a estabilidade e permanência dessa Mais Grandiosa Aliança. Neste Pacto abrangente, os limites e fronteiras de cada nação devem ser claramente fixados, os princípios subjacentes às relações entre governos devem ser definitivamente estabelecidos, e todos os acordos e obrigações internacionais devem ser averiguados. De igual modo, a dimensão dos armamentos de cada governo deve ser estritamente limitada, pois se fosse permitido aumentar os preparativos para a guerra e as forças militares de qualquer nação, isso despertaria a suspeita das outras. (Abdu'l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p. 64)

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Texto original: Politics, Religion and Tyranny (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O virus Zika e a saúde pública num Mundo Global

Por David Langness.


Há um novo vírus a assustar o mundo - o Zika - e, como consequência, uma nova emergência de saúde pública internacional.

Tendo começado a ser transmitido por mosquitos, o vírus Zika teve provavelmente origem nos climas tropicais quentes da África e Ásia. Talvez seja surpresa para alguns leitores saber que o vírus não é novo e que existe há décadas. Inicialmente isolado a partir de um macaco-reso na floresta de Zika (que significa "demasiado crescido", na língua Luganda) no Uganda, em 1947, o vírus provavelmente espalhou-se entre os seres humanos muito antes disso. Como sabemos? Um estudo de 1952 na Índia mostrou que o sistema imunológico de muitas pessoas respondia ao vírus, o que indica que ele se tinha disseminado amplamente entre as populações humanas há já algum tempo.

Possivelmente não foi detectado durante muito tempo, porque a doença que o vírus Zika produz, a chamada febre Zika, apenas provoca sintomas leves - dores de cabeça, erupções cutâneas, uma temperatura ligeiramente elevada - que regra geral desaparecem no espaço de uma semana. A maioria das pessoas - cerca de 80% que contraem o vírus - não tem qualquer sintoma. Não se conhece qualquer fatalidade resultante da doença, e isso é outra razão pela qual o vírus se manteve relativamente desconhecido e pouco estudado; e é por isso porque que ainda não existe qualquer vacina contra o Zika.
Informações sobre o virus Zika (clique na imagem para ampliar)
(imagem de http://www.folhape.com.br/)
Agora, porém, devido aos muitos milhares de casos de malformações em recém-nascidos (como a microcefalia) que podem estar ligados ao vírus, e por causa das novas provas que sugerem que o vírus pode também pode ser sexualmente transmissível, algumas das organizações mundiais de saúde emitiram um alerta sem precedentes: as mulheres grávidas, ou aquelas que podem ficar grávidas e os seus parceiros, devem evitar viajar para as regiões tropicais onde florescem os mosquitos activos durante o dia, como o do tipo Aedes. Os governos têm avisado que as mulheres em idade fértil que vivem nessas regiões para evitar engravidar, pelo menos até que seja desenvolvida uma vacina. Mas quanto tempo é que isso vai demorar? Ninguém sabe; mas as estimativas variam entre dois anos e uma década antes que uma vacina deste tipo possa ficar amplamente disponível.

Isso nunca aconteceu antes. Com outras doenças mortais como a SIDA/AIDS e o Ébola, as organizações de saúde emitiram avisos de advertência, mas nenhum vírus alguma vez os levou a dizer às mulheres que parassem de ter filhos. Nem sequer sabemos se é possível interromper o ciclo natural de reprodução do ser humano. Em muitos dos países onde Zika se espalhou, o controle da natalidade não está amplamente disponível, não é acessível ou culturalmente aceite.

Especialistas em saúde pública temem que a situação possa ficar muito pior. Como nosso clima continua a aquecer, o habitat natural dos mosquitos que transmitem Zika tem aumentado, e continuará a aumentar. Esses mosquitos passaram de zonas tropicais para as mais temperadas como o sul dos Estados Unidos. Um dos muitos efeitos imprevistos das alterações climáticas, a propagação da doença em áreas cada vez maiores será crescentemente desafiadora e exigirá uma resposta global a uma só voz e um plano de acção para novas pandemias virais semelhantes ao Zika. À medida que o mundo aquece, que os vírus sofrem mutações e se espalham, e que microorganismos resistentes a antibióticos surgem mais forte e mais difíceis de combater, muitas destas novas potenciais pandemias vão ameaçar-nos a todos . Assim, o vírus Zika é apenas uma entre muitas doenças anteriormente desconhecidas que nos próximos anos ameaçarão a humanidade, e que exigirão uma reacção rápida, enérgica e simultânea de todo o planeta.

Hoje, a comunidade internacional precisa de um mecanismo global bem coordenado e eficiente para responder a esses tremendos desafios de saúde pública actuais e futuros. A Organização Mundial da Saúde e outras agências oficiais médicas e de saúde pública, a nível nacional e internacional, não têm financiamento suficiente, pessoal ou recursos de investigação - que certamente necessitam e poderiam desenvolver no âmbito de um sistema de governação mundial mais unificado, melhor coordenado e mais cooperativo. Os ensinamentos Bahá'ís defendem esse empreendimento global e unificado de saúde pública:
Pedimos a Deus para dotar as almas humanas com a justiça, para que possam ser justos e se possam esforçar para proporcionar o conforto a todos, para que cada membro da humanidade possa passar a sua vida no máximo conforto e bem-estar. Então este mundo material tornar-se-á o próprio paraíso do Reino, esta terra elementar estará num estado celestial e todos os servos de Deus viverão na alegria, felicidade e alegria extremas...

Tudo o que é necessário para a saúde pública deve ser providenciado. Devem-se secar os pântanos, deve-se levar a água; tudo o que é necessário para a saúde pública. (
'Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 10, pp 118-119)
Este foco na saúde de todas as pessoas está numa longa lista de despesas públicas globais necessárias que os ensinamentos Bahá'ís defendem, incluindo a redução da pobreza, cuidados para doentes e órfãos, a organização e o financiamento das escolas públicas de ensino obrigatório universal e a prestação de serviços para surdos e cegos. No futuro estado pacífico e unificado da sociedade humana que os ensinamentos Bahá'ís antevêem, os recursos do mundo irão garantir o âmbito global desses objectivos de importância vital:
As rivalidades nacionais, os ódios e as intrigas cessarão e a animosidade e o preconceito raciais serão substituídos pela amizade, compreensão e cooperação raciais. As causas de conflitos religiosos serão eliminados permanentemente, barreiras e restrições económicas serão completamente abolidas, e a desmesurada diferença entre as classes será obliterada. A destituição por um lado, e excessiva acumulação de bens por outro lado, irá desaparecer. A enorme energia que se gasta e desperdiça na guerra, seja económica ou política, será consagrada a objectivos, como o alargamento do alcance das invenções humanas e do desenvolvimento técnico, ao aumento da produtividade da humanidade, ao extermínio da doença, à extensão de investigação científica, à melhoria do nível de saúde física, ao aperfeiçoamento e refinamento do cérebro humano, à exploração dos recursos insuspeitos e não utilizados do planeta, ao prolongamento da vida humana e à promoção de qualquer outro meio que estimule a vida intelectual, moral e espiritual de toda a raça humana. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, p. 203)
Para elevar o nível de saúde física e exterminar a doença, o mundo precisa de uma autoridade de saúde global melhor financiada e melhor organizada, como parte de um modelo democrático de governação mundial. Se começarmos a criar agora os alicerces desse trabalho, podemos conseguir exterminar a próxima pandemia planetária antes que ela provoque um sofrimento humano incalculável.

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Texto original: The Zika Virus, Public Health and One World (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Os Bahá’ís e a Teocracia

Por David Langness.


Teocracia - (1) preponderância do clero no governo de uma nação; (2) forma de governo em que o poder político, encarado como uma emanação de Deus, é exercido por uma casta sacerdotal, por um soberano considerado a encarnação da divindade ou por alguém que se acredita ter sido por ela escolhido

Há algumas semanas atrás, um website chamado Common Ground publicou um dos nossos textos do www.bahaiteachings.org e um leitor perguntou: "A Fé Bahá'í é uma teocracia?"

A sua preocupação, exposta em vários comentários, centrava-se na forma como a Fé Bahá'í surgiu historicamente a partir das suas origens islâmicas. Várias das suas perguntas também se baseavam na convicção, incorrectamente aceite no Ocidente, de que todas as sociedades Muçulmanas têm governos teocráticos. Ele perguntou: "No futuro, quando a Fé Bahá'í se expandir ainda mais do que hoje, irá assumir o controlo do governo? E que tipo de governo vão os Bahá'ís construir?" E também questionou "E as leis Bahá'ís? Serão aplicadas a toda a gente numa sociedade predominantemente Bahá'í?"

Vamos tentar responder a estas perguntas perspicazes e importantes.

Mas antes de aprofundarmos estes temas e procurar algumas respostas, gostaria de deixar um aviso - não existem especialistas sobre estas matérias. Eu sou apenas um Bahá'í, e estas são apenas as minhas humildes opiniões sobre os ensinamentos Bahá'ís. A Fé Bahá'í não tem clero, e toda a sua liderança administrativa é eleita democraticamente, o que significa que não há "especialistas Bahá'ís" ou pessoas com qualquer autoridade sobre outros Bahá'ís. Assim, encorajo o(a) leitor(a) a investigar este assunto complexo e formar as suas próprias opiniões.

Quem lê este site (www.bahaiteachings.org) com regularidade, sabe que a Fé Bahá'í, de acordo com o texto de referência The World’s Religions in Figures (“As Religiões do Mundo em Números”) "é a única religião que têm crescido mais rapidamente em todas as regiões das Nações Unidas ao longo dos últimos 100 anos passados do que a população em geral; assim, [a Fé] Bahá'í foi a religião com crescimento mais rápido entre 1910 e 2010, crescendo pelo menos duas vezes mais rápido que a população de quase todas as regiões da ONU".

Apesar desse crescimento, os Bahá'ís ainda representam apenas uma pequena fracção da população total global, com estimativas que variam entre 5 e 8 milhões de aderentes em todo o mundo - talvez um décimo de um por cento da humanidade. Mas com a expansão contínua - o que certamente ocorreu com as anteriores religiões mundiais em etapas comparáveis do seu desenvolvimento - esses números podem subir muito rapidamente. Considerando essa possibilidade futura, as dúvidas sobre a Fé Bahá'í e a sua filosofia e estilo de governação começam a assumir uma nova importância. Mas vamos explorar algumas informações básicas antes de tentar responder.

Em primeiro lugar, a Fé Bahá'í baseia todos os seus princípios e leis nos ensinamentos de Bahá'u'lláh, o seu Profeta-Fundador. Os Bahá'ís, como o nome sugere, são seguidores de Bahá'u'lláh, e seguem as orientações espirituais que Ele ensinou. Bahá'u'lláh escreveu mais de cem volumes, incluindo um grande livro de leis chamado o Kitab-i-Aqdas (O Livro Sacratíssimo) e muitos outros: O Livro da Certeza, As Palavras Ocultas, os Sete Vales, etc., etc. A Fé Bahá'í não tem falta de orientações autorizadas do seu Fundador.

Em segundo lugar, quando Bahá'u'lláh faleceu em 1892, Ele deixou um testamento detalhado, uma aliança em que enunciava claramente quem seria o Seu sucessor - o filho mais velho 'Abdu'l-Bahá, que Ele nomeou o Centro da Aliança e o Exemplo dos ensinamentos Bahá'ís. 'Abdu'l-Baha orientou sabiamente o desenvolvimento dos Bahá'ís e a sua Fé nos 29 anos seguintes, até à sua morte em 1921.

Em terceiro lugar, quando Abdu'l-Bahá faleceu, Ele deixou um documento com a Sua Vontade e Testamento em que ampliou de forma clara as provisões da Aliança Bahá'í, e a liderança da Fé Bahá'í, para o Seu neto, Shoghi Effendi. 'Abdu'l-Bahá nomeou-o como o Guardião, um título que reflectia a autoridade de Shoghi Effendi para orientar os Bahá'ís, proteger a Fé contra o facciosismo, e interpretar as escrituras de 'Abdu'l-Bahá e de Bahá'u'lláh.

Membros da primeira Casa Universal de Justiça
Esta sucessão de liderança constituiu quase cem anos de direcção e orientação contínua (1863-1957), ininterrupta e autorizada. E, efectivamente, impediu que a Fé Bahá'í desenvolvesse grandes cismas, divisões e seitas tal como têm acontecido noutras religiões mundiais, após o falecimento dos seus Fundadores. Hoje a Casa Universal de Justiça eleita democraticamente, protege a unidade da Fé e orienta os Bahá'ís em todo o mundo. Dentro de poucas décadas, a Fé Bahá'í terá 200 anos de idade, e durante todo esse tempo manteve a sua unidade essencial.

A linha ininterrupta de orientação Bahá'í também teve outros efeitos positivos. Principalmente, impediu o desenvolvimento de um corpo de tradições orais (e sem fundamento nas Escrituras), e contribuiu para um nível sem precedentes de clareza e precisão nas leis Bahá'ís - especialmente quando se trata do tema da política e do governo.

Bahá'u'lláh deu o tom, o espírito e a substância da visão Bahá'í de envolvimento na política quando Se dirigiu aos Reis e governantes do mundo, dizendo:
Pela rectidão de Deus! Não é Nosso desejo deitar as mãos aos vossos reinos. A Nossa missão é capturar e possuir os corações dos homens. Neles se fixam os olhos de Baha. Disso dá testemunho o Reino de Nomes, se apenas o pudésseis compreender. (Bahá'u'lláh, O Kitab-i-Aqdas, parag. 83)

Ninguém deve argumentar com aqueles que exercem autoridade sobre o povo; deixai-lhes o que é deles, e volvei a vossa atenção para o coração dos homens. (Bahá'u'lláh, O Kitab-i-Aqdas, parag. 95)
Este poderoso tema - que o limite da religião, o coração humano, deve permanecer afastado do âmbito da política e da autoridade temporal - é apenas um dos muitos exemplos existentes nos ensinamentos Bahá'ís que separa a lei religiosa dos sistemas sociais e políticos que ela serve.

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Texto original: Baha’is and Theocracy (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Irão: 24 Bahá'ís condenados no Golestan

Um tribunal revolucionário na província de Golestan no Irão condenou 24 membros da Comunidade Bahá'í a penas de prisão que variam entre 6 e 11 anos. Os condenados tinham sido detidos em 2012 numa rusga contra os Bahá’ís da província.

Em Genebra, uma porta-voz a Comunidade Internacional Bahá'í, Simin Fahandej, afirmou que estas 24 pessoas estão presas apenas devido à sua fé religiosa, que não é reconhecida oficialmente pelo Irão.

Apesar de esta sentença ser passível de recurso, Fahandezh foi peremptória: "Estão inocentes! Não cometeram qualquer crime pois a única acusação contra eles é serem membros da comunidade Bahá'í." E acrescentou que as penas de prisão demonstram que "os direitos humanos não têm qualquer valor para as autoridades iranianas".

Fahandezh lembrou que os Bahá’ís iranianos enfrentam rotineiramente perseguições e que há actualmente mais de 80 Bahá'ís presos naquele país. Saliente-se ainda o facto da situação desta minoria religiosa não ter mudado desde que Hassan Rohani assumiu a presidência, apesar dele ter prometido melhorar a situação dos direitos humanos no Irão.

"Os Bahá'ís continuam detidos. Presos. Os jovens Bahá'ís ainda estão privados do seu direito de estudar, e aumentou o número de cemitérios Bahá'ís profanados", disse Fahandezh.

No ano passado, o relator especial das Nações Unidas sobre questões das minorias, Rita Izsak, pediu ao Irão que tomasse medidas concretas para proteger os Bahá'ís e outras minorias religiosas no Irão.

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FONTE: Iran Sentences 24 Baha’is To As Many As 11 Years in Jail (RFE)

“Imagine” de John Lennon e os ensinamentos Bahá’ís

Por Michael Day.

Quando falamos de canções inspiradoras, poucas conseguem igualar a popularidade do tema Imagine do falecido ex-Beatle John Lennon (1940-1980).

Foi o single mais vendido de um único cantor-compositor e está na lista das 100 músicas mais tocadas do século XX [1].

Conheço muitos Bahá'ís que gostam de cantar essa música, embora por vezes se questionem sobre partes da letra. Por esse motivo, pensei que, neste 35º aniversário da morte de John Lennon (foi em 08 de Dezembro de 1980) seria interessante olhar para a canção Imagine e tentar perceber o quão de perto está das nossas amadas crenças Bahá'ís.

Vamos começar com o primeiro verso:

 Imagine there’s no heaven
 It’s easy if you try
 No hell below us
 Above us only sky
 Imagine all the people
 Living for today...
 Imagina que não há paraíso
 É fácil se tentares
 Nenhum inferno abaixo de nós,
 Acima de nós apenas o céu
 Imagina todas as pessoas
 A viver para o hoje...

Estes versos parecem sugerir que John Lennon pensava que a vida após a morte era uma ficção e que seria melhor se nós vivêssemos para o momento presente em vez de esperar por algo melhor no futuro.

Na minha opinião os Bahá'ís podem, de certa forma, concordar com seus sentimentos. Nós não acreditamos nas chamadas visões tradicionais de céu e de inferno, como um lugar de recompensa eterna ou de castigo eterno depois de passar num teste espiritual.

Tal como como está escrito numa carta escrita em nome de Shoghi Effendi:
Céu e inferno são condições interiores aos nossos próprios seres. [2]
Pelo que entendo, os Bahá’ís vêem o "céu" após a morte como uma metáfora sobre a proximidade espiritual em relação ao Criador. Quanto mais perto estivermos, mais felizes seremos. E acreditamos que isso acontecerá através da graça de Deus, e que o nosso progresso, será muito facilitado se, enquanto estivermos na terra, seguimos os princípios orientadores conforme foram proclamados por Bahá'u'lláh nas Suas leis.

Quanto ao inferno, a visão de que eu tenho como Bahá’í não é de um lugar de tormento eterno num poço de fogo, mas antes um afastamento penoso em relação a Deus.

Assim, parece-me que, como Bahá’ís, não acreditamos no tipo de céu e inferno que John Lennon também não acreditava.



E sobre o "viver para o hoje"? Certamente como Bahá’í, penso que temos que ser pessoas de acção e não dos que têm saudades dos anos dourados do passado ou simplesmente se sentam e esperam por um futuro confortável e próspero.

E quem não estaria de acordo com uma outra frase de John Lennon: "A vida é o que te acontece quando estás ocupado a fazer outros planos" [3]

Mas viver conscientemente o momento não significa que devemos esquecer as lições do passado. Na verdade, a sabedoria pode ser descrita como a capacidade para reconhecer padrões do passado e aprender com eles - é por isso que muitas vezes ela vem com a idade. Também não devemos permitir que o “viver para o hoje” nos leve a negligenciar os planos para o futuro.

Por isso, reflectimos sobre o passado para desenvolver as nossas personalidades, e planeamos o futuro, para poder contribuir para o objectivo que Bahá'u'lláh estabeleceu para a humanidade: a construção de uma sociedade global unificada baseada na justiça e no amor.

Agora, os versos seguintes:

 Imagine there’s no countries
 It isn’t hard to do
 Nothing to kill or die for
 And no religion too
 Imagine all the people
 Living life in peace...
 Imagina que não existem países
 Não é difícil fazê-lo
 Nada pelo que matar ou morrer
 E também nenhuma religião
 Imagina todas as pessoas
 A viver a vida em paz

Quando John Lennon nos pediu para imaginar que não existem países, ele podia estar a pensar no mal que surge com a adesão rigorosa ao conceito da soberania absoluta de uma nação, "o nosso país, esteja certo ou errado".

No meu entendimento, os Bahá’ís afirmam que as fronteiras nacionais não devem existir para nos separar do resto da humanidade. Pelo contrário, elas existem com o objectivo de criar uma sociedade em funcionamento numa determinada área do globo, capaz de contribuir para uma sociedade global mais ampla.

Deveria existir um "nada pelo que matar ou morrer"? John Lennon escreveu a canção no tempo dos horrores da guerra do Vietname; por isso é compreensível que tenha escrito esta frase.

No entanto, tenho a certeza que ele teria pensado que há algumas coisas em que vale a pena arriscar a morte - um pai a tentar salvar um filho, uma pessoa que protege os fracos e indefesos de um ataque assassino. Existe alguma coisa em que se justifique matar? A nossa resposta seria “normalmente, não”, embora esse acto possa ser considerado legítimo, como no caso de um polícia que mata um bandido que está prestes a assassinar outra pessoa.

E sobre as guerras? Os Bahá’ís não participam como combatentes nas guerras, embora estejam prontos para ajudar na prestação de cuidados médicos. Trabalhamos para evitar o “matar e morrer” nas guerras, construindo um mundo unido, criando bairros, cidades e países justos, amáveis e pacíficos.

Em seguida, temos a frase "E também nenhuma religião" que à primeira vista pode parecer contrária ao ponto de vista Bahá'í.

A Fé Bahá'í é uma religião mundial independente, com seu próprio Profeta-Fundador, lugares santos, leis e escrituras sagradas. Então, o que posso dizer sobre a frase "também nenhuma religião"?

A minha opinião é que quando John Lennon falava das religiões, referia-se a conjunto de interpretações humanas erradas, lei malignas e comportamentos prejudiciais dos homens; não se referia aos ensinamentos espirituais dos mensageiros divinos.

Como Baha'i, parece-me que é útil recordar as palavras de 'Abdu'l-Bahá que afirmou:
Qualquer religião que não seja uma causa de amor e unidade não é religião.[4]
Ao contrário desse tipo de "religião", uma fé de inspiração divina que seja fiel aos objectivos e às instruções do seu Profeta-Fundador é o elixir da vida, um guia para a felicidade, amor, justiça e prosperidade presente e futura.

Conheci um Bahá’í que costumava mudar esta frase do Imagine para "E também só uma religião". Com isso ele queria dizer a fé em que os Bahá'ís acreditam que é comum aos ensinamentos de todas as mensagens divinas. Tal como Bahá'u'lláh disse:
Esta é a imutável Fé de Deus, eterna no passado, eterna no futuro.[5]
Uma vez perguntaram a John Lennon sobre a substituição das palavras "e uma só religião também" mas ele rejeitou a sugestão. Se lhe tivessem perguntado sobre uma fé que unisse todas as religiões do mundo, vendo-as na sua essência como parte de uma só religião de Deus, a sua resposta talvez tivesse sido diferente.

A última parte deste verso - "Imagina todas as pessoas a viver a vida em paz" - está, certamente, em sintonia com os ideais dos Bahá'ís dedicados que passam a vida a trabalhar por um mundo pacífico e unido.

Os versos seguintes estão, obviamente, estreitamente alinhados com os valores de um Bahá'í.

 You may say I’m a dreamer
 But I’m not the only one
 I hope someday you’ll join us
 And the world will be as one.
 Podes dizer que sou um sonhador
 Mas eu não sou o único
 Espero que um dia te juntes a nós
 E o mundo será como um só.


Como Bahá’ís, não aceitamos o ponto de vista expressado às vezes que o objectivo de uma sociedade global pacífica é um sonho ou uma ideia impossível.

Muitos de nós vimos um mundo fracturado tornar-se uma sociedade global durante as nossas próprias vidas, apesar da sua natureza pacífica ainda não ter sido alcançada. Estamos confiantes que estamos no caminho certo, apesar das terríveis dificuldades e provações que parecemos destinados a enfrentar no futuro. Existem dois processos em acção: o colapso dos antigos métodos destrutivos da humanidade, e o crescimento dos ramos verdes de um mundo novo e unido.

E sim, nós esperamos que outros se juntem a nós e se tornem Bahá'ís; mas se eles não vêem isso como o seu caminho, ficaremos felizes por ser amigos e aliados num trabalho conjunto rumo a uma sociedade global justa e pacífica. Como disse John Lennon: "E o mundo será como um só."

Bahá'u'lláh disse algo semelhante:
A Terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos. [6]
O último verso é a repetição de um anterior, mas o penúltimo tem algumas ideias que merecem ser examinadas.

 Imagine no possessions
 I wonder if you can
 No need for greed or hunger
 A brotherhood of man
 Imagine all the people
 Sharing all the world...
 Imagina não existirem posses
 Pergunto-me se consegues
 Sem necessidade de ganância ou fome
 Uma fraternidade do homem
 Imagine todas as pessoas
 Partilhando todo o mundo...

Quando John Lennon nos pedia para "imaginar não existirem posses", ele não podia estar a referir-se ao seu significado literal. Penso que ele estava pedir-nos para termos uma visão diferente sobre as posses, como coisas que não devem ser adquiridas através da ganância... "sem necessidade de ganância".

Bahá'u'lláh dá-nos um conselho semelhante:
Porquê, então, mostrar tamanha ganância na acumulação de tesouros da terra, quando os seus dias estão contados e sua oportunidade está quase perdida? [7]
Quanto a "uma fraternidade do homem", esse conceito, que agora normalmente se expressa numa forma menos específica de género, como a família da humanidade, trata-se de uma crença fundamental da Fé Bahá'í: a unidade da humanidade. Somos todos parte da única família, uma fraternidade e irmandade - não separados por noções de raça, classe, género ou herança espiritual, mas unidos na nossa diversidade.

O convite de John Lennon para imaginar todas as pessoas a partilhar o mundo inteiro seria aceite por todos os Bahá'ís porque queremos trabalhar com outras pessoas bem-intencionadas, independentemente das suas crenças espirituais, ou a falta delas, para pôr em acção os processos que nos vão conduzir à paz global.

Queremos que todos os povos do mundo partilhem de forma justa e igual todos os aspectos das riquezas materiais e espirituais da humanidade.

Quando ouço a canção Imagine, com a sua melodia fascinante e letra maravilhosa, penso nela como estando em harmonia com os ensinamentos de Bahá'u'lláh.

Tento lembrar-me de orar pelo progresso da alma de quem, tomando nota da inspiração que lhe veio, sentou-se, escreveu a canção, e a enviou para o mundo.

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NOTAS
[1] - https://en.wikipedia.org/wiki/Imagine_(John_Lennon_song)
[2] - De uma carta escrita em nome de Shoghi Effendi a um crente individual, 14 de Novembro de 1947, in Lights of Guidance, compiled by Helen Hornby, Baha’i Publishing Trust India, 1983, p.395, no. 1079. High Endeavours, Messages to Alaska, pp 49-50.
[3] - https://en.wikipedia.org/wiki/Beautiful_Boy_(Darling_Boy)
[4] - Paris Talks. UK Baha’i Publishing Trust, 1972, eleventh edition reprint. P. 130
[5] - Proclamation of Baha’u’llah, US Baha’i Publishing Trust, 1978 reprint. P. 119
[6] - Gleanings from the Writings of Baha’u’llah. US Baha’i Publishing Trust, 1990 pocket-size edition. P. 250
[7] - Ibid, p.127.

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Texto original: How the song “Imagine” by John Lennon Compares to Baha’i Beliefs (http://bahaiblog.net/site/)

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Michael Day é jornalista que já trabalhou para jornais diários na Austrália e Nova Zelândia. Entre 2003 e 2006, foi o editor do Bahá'í World News Service no Centro Mundial Bahá'í. Actualmente vive em Brisbane, onde trabalha como assessor de imprensa da Comunidade Bahá’í da Austrália. Os seus interesses focam-se na história Bahá'í, literatura, arte, râguebi, surf e mergulho