domingo, 27 de novembro de 2016

As duas questões que mudaram a minha vida



A minha cidade natal, uma comunidade agrícola, tinha cerca de 3.000 almas, cinco igrejas e cinco tabernas. Em 1954, a minha mãe inscreveu-me na catequese na nossa igreja local. Todas as boas mães querem que os seus filhos passem nos exames de entrada no paraíso.

Os sacerdotes faziam-nos perguntas sobre a doutrina da igreja e nós, jovens esperançosos, éramos obrigados a ler em voz alta a resposta padrão. No entanto, eu já tinha, há muito tempo duas perguntas que queria colocar. Levantei a mão, e interrompi a leitura do pastor. "O que é?" perguntou ele. "Deus sabe tudo o que aconteceu e tudo o que vai acontecer. Certo?" "Correcto! Ele é Omnisciente." "Então porque é que Ele me criou se Ele soubesse que eu ia para o inferno?"

Aquilo perturbou o pastor. Mais uma vez, levantei a minha mão e interrompi as leituras. "O que foi agora?", perguntou o pastor. "Todas as pessoas que acreditam em Jesus são salvas, certo?" Finalmente, ele tinha uma resposta fácil. "É isso mesmo, meu filho." Eu continuei: "Então todas as pessoas nascidas antes de Jesus não foram salvo por ele." "Sim." Quase em sussurro, disse-lhe: "Eu não acredito nisso."

"Está dispensado da aula, jovem! Quero que vás para casa e digas à tua mãe como interrompeste a aula com as tuas perguntas disparatadas."

A minha mãe não gostou. "Não podes ir lá como uma pessoa normal e fazer apenas o que todos fazem? Não! Tu tens de ser o chico-esperto que se exibe à frente de todos!" Eu nunca tinha visto minha mãe tão zangada. Na verdade, ela até perdeu a voz e ficou exausta.

Mas para mim, eu estava secretamente feliz. Deixava de ir a uma aula incrivelmente chata e podia ficar em casa a ver o meu programa favorito: "Superman", que era emitido na mesma noite em que se realizava aquela aula semanal.

Por outro lado, aprendi uma lição importante: questionar sempre as coisas que não parecem verdadeiras.

Para tranquilidade da minha mãe continuei a cantar no coro e a ir à igreja ao domingo com o meu irmão mais velho. Mas só me tornei membro muito mais tarde, e de uma maneira invulgar, que vou explicar.

Deixei a universidade no meu segundo ano e alistei-me na Marinha num contrato de quatro anos. Nessa altura nada me ligava à religião, organizada ou não. Embora de ainda acreditasse num Ser Supremo, eu procurava o significado da vida na natureza e na literatura.

A vida num porta-aviões da Marinha no oceano Pacífico cria o seu próprio isolamento especial. Sempre que tínhamos licença para ir a terra no Hawai, China, Filipinas, Japão ou Okinawa, saía com os meus companheiros de copos e comportávamo-nos frequentemente como jovens idiotas. Comecei a ficar envergonhado de mim próprio e do meu comportamento.

Com o fim da nossa missão de seis meses no Pacífico, o meu navio foi colocado numa doca seca para manutenção e eu fui para casa durante as férias de Natal. Mas quando o meu navio voltou ao mar na primavera seguinte, eu ainda me sentia em baixo. Em desespero, comprei uma Bíblia. Os meus ex-amigos de copos viram-se com ela e começaram a chamar-me "Padre".

Tentei ler a Bíblia, mas parecia uma mistura confusa de histórias moralistas. Então abri aleatoriamente a Bíblia e apontei o meu dedo para ver se isso me guiaria. Por duas vezes consecutivas, encontrei versículos como "procurai e encontrareis" ou "batei, e hão-de abrir-vos". Decidi experimentar.

Uma noite fui ao convés do navio e olhei para a lua cheia. Então, proferi em voz alta a minha oração de poucas palavras: "Estou a bater." Nada. Olhei para a lua e nada aconteceu. Eu não sei o que esperava. O que me veio à ideia foram todas as experiências mágicas da Bíblia - como transformar a água em vinho ou andar sobre a água - que aconteceram há mais de 2000 anos atrás. Nada semelhante a isso estava a acontecer agora.

Só uns anos mais tarde é que percebi a relação entre essa pequena oração e o que aconteceu depois. Quando o navio atracou em Pearl Harbor, o Oficial Superior que era meu "chefe" perguntou-me: "Gostava de terminar o seu contrato de serviço no Hawai? Você tem uma autorização superior e eles precisam de um escrivão administrativo na sede da Frota. Tem duas horas para abandonar o navio antes que zarpe hoje."

Abandonei o navio a tempo. Depois de uma semana no novo emprego, um dos meus colegas de trabalho perguntou-me se eu gostaria de ir a uma reunião Bahá'í. Eu disse: "É uma espécie de religião, certo?" Ele disse que sim e eu disse-lhe que não queria ter nada a ver com a religião organizada. Ele retorquiu: "A Miss Hawai vai lá estar." "A Miss Hawai é membro?” “Sim, ela também é amiga. Eu apresento-te."Aquilo soou como uma ideia maravilhosa.

Mas aconteceu que a Miss Hawai não veio a essa reunião. Eu tive um debate com o orador, que tinha afirmado a certo momento que "Deus não precisava de nós para nada." No meu modo usual de chico-esperto, respondi que era óbvio que nós éramos o produto de uma necessidade ou então Deus não nos teria criado.

Então, ele desafiou-me. "Hoje à noite, quando você voltar para o seu quartel, ore sobre isso e pergunte a Deus se isto é a verdade. Não se limite a fechar os olhos e a dizer algo rapidamente. Entre num estado profundo de oração e depois pergunte." Mas uma vez, o chico-espeto dentro de mim disse para mim próprio: "Sim, vou fazer isso e voltarei para dizer a todos que nada aconteceu!"

Bem… eu estava errado. Segui o conselho a sério e quando cheguei à pergunta, tive uma experiência que mudou a minha vida! Fui levado através de véus de luz. Uma agitação poderosa, semelhante a ondas atingiam o meu corpo dos pés à cabeça. Cada átomo do meu ser parecia vibrar com um êxtase indescritível! Eu era AMADO! Esta era a Verdade de Deus!

Na Bíblia diz:

Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente? (Lucas 11:11)

Mas se foi Deus nos criou, temos o direito de Lhe perguntar qual é o caminho verdadeiro. Certo? Se pedirmos sinceramente, Ele responderá sinceramente. Isto mudou aminha vida para sempre:

O Espírito tem uma influência; a oração tem um efeito espiritual. Portanto, oramos: "Ó Deus! Cura este doente!" Possivelmente Deus responderá. Importa quem reza? Deus responderá à oração de cada servo se essa oração for urgente. A Sua misericórdia é vasta, ilimitada. Ele responde às orações de todos os Seus servos... Portanto, é natural que Deus nos dê quando Lhe pedimos. A Sua misericórdia abrange tudo. ('Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 246-247)

E a propósito… a Miss Hawai acabou por ser uma das Damas de Honor no meu casamento.

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Duane Troxel aceitou a Fé Bahá’í há cerca de 50 anos em Honolulu. Desde então viveu na Nigéria e na Polónia, onde serviu nas respectivas Assembleias Espirituais Nacionais e ensinou em várias universidades. Actualmente vive em Evanston, Illinois (EUA) com a sua esposa.

sábado, 19 de novembro de 2016

Deus pode mudar o passado?

Por Maya Bohnhoff.


Vamos analisar três questões relacionadas que o meu amigo ateu, "Maynard", colocou a respeito de Deus. As duas primeiras são:

Deus pode mudar o passado? e Deus conhece o futuro?

Essas questões envolvem não só as nossas concepções de Deus, mas também a nossa concepção de tempo, uma dimensão que entendemos talvez menos bem do que as outras. De facto, deparamo-nos com problemas relacionados com o tempo quando tentamos medir simultaneamente a velocidade e a localização de um objecto. Graças ao cientista Werner Heisenberg, sabemos que quando tentamos fazer isso, o próprio acto de medição afecta o objecto a ser medido. Por exemplo: um filme é projectado a uma determinada velocidade; podemos isolar uma única imagem (“frame”) desse filme... mas como consequência já não podemos medir a velocidade do filme.

Isto tem todo o tipo de ramificações. Se tentarmos observar um arco (falando metaforicamente) apenas podemos identificar um único ponto. Heisenberg provou que apenas podemos medir a velocidade ou a localização de uma entidade. Não podemos medir ambos. Não podemos ver o universo por mais de um ponto de vista. Deus - teorizou o meu filho quando estudava física na escola - pode ser capaz de ver não apenas pontos individuais, mas também arcos e ondas, incluindo o arco de tempo.

Em resposta à pergunta de Maynard, eu poderia admitir que Deus pode mudar o passado. Mas porque o faria? Os seres humanos por vezes desejam fazer isso, porque não têm qualquer noção sobre o que podem aprender com o passado. Numa maravilhosa história de amor, Bahá'u'lláh descreve n’Os Sete Vales os amantes separados, Majnun e Layli, que sentem saudades um do outro. Majnun passa por uma série de calamidades que por fim o levam ao jardim de Layli, onde os amantes finalmente se reúnem. Majnun percebe que a sua vontade mal informada em reescrever o passado (de modo a não ter que experimentar a calamidade) teria evitado o próprio encontro com sua amada.

Reescrever o passado significa que perdemos as lições que ali aprendemos - e nunca saberíamos a diferença.

A segunda destas questões pergunta se Deus conhece o futuro. As declarações de Bahá'u'lláh e de 'Abdu'l-Bahá sobre o futuro indicam certos arcos ao longo do tempo - Objectivos Divinos, podemos dizer – ocorrem de forma pré-determinada. Por exemplo: Deus coloca em movimento a revelação progressiva da religião e da maturação da humanidade de selvagem para civilizada, de material para espiritual, de irracional para racional, do egoísta para altruísta. Como é que acontece, quanto tempo demora e quanto sofrimento exige - isso depende de nós. Podemos apenas ficar sentados, desejando ou rezando pela unidade mundial, pela paz e pela compaixão, ou podemos aprender as competências necessárias para as alcançar e pô-las em prática.

Na minha escrita encontro uma analogia para isto. Em cada história que escrevo, existem momentos onde eu e as minhas personagens devemos tomar decisões sobre as suas linhas de acção. Sei que há certas coisas que devem acontecer no livro antes da trama se revelar completamente, mas a forma como as minhas personagens chegam ao momento final muda à medida que eles navegam pelos diferentes pontos de viragem da história. É claro que eu tenho uma visão na perspectiva de criadora de tudo isto; assim, posso ver vários rumos que a acção pode tomar e que conduzem aos pontos-chave que eu sei que devem ocorrer. Curiosamente, se eu fizer as coisas "correctamente", as interacções entre as personagens vão definir o seu rumo ao longo da história, em vez de ser eu a forçar uma determinada sequência de eventos.

Quando se trata de Deus e do futuro, nenhum ser humano pode responder a esta pergunta com qualquer certeza. Como é que um ser que só pode ver pontos responde a perguntas que se relacionam com o arco? É como se uma das minhas personagens num livro perguntasse a outra: "Sabes que existe um Escritor lá fora, que sabe exactamente o que eu vou dizer na página 123?"

No meu caso, a resposta é "não". Eu ainda não sei o que a minha personagem vai dizer na página 123, mas sei que ela, à sua própria maneira, vai ajudar a história a desenvolver-se. Será que Deus trabalha assim? Só Deus sabe. Além disso, os Seus educadores, os fundadores das religiões mundo, só podem dizer-nos aquilo que temos capacidade para entender.

E isto leva-nos à pergunta nº 6: Deus sabe absolutamente tudo o que acontece a cada momento, incluindo todos os pensamentos de todos os seres?

Esta questão lida com a omnisciência de Deus com relação ao tempo. Os seres humanos, com os nossos pontos de vista singulares e limitações perceptivas e intelectuais, não podem, por definição, ter alguma experiência da omnisciência. Nenhuma. Podemos ficar irritados com isso, mas é mesmo assim.

Penso que o personagem de ficção científica, Buckeroo Banzai, descreveu isso de forma eloquente quando disse: "Lembra-te, não importa para onde vais, lá estás." Nós só temos o nosso ponto de vista singular, aquele microscópico "você está aqui" num mapa do cosmos. Não podemos saber o que um Ser super-eminente sabe ou não sabe, a menos que Ele nos diga (talvez o Seu Emissário nos diga), porque nós não temos capacidade para fazer mais do que imaginar o que significa a omnisciência.

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 12 de novembro de 2016

Deus é igual a nós?



O meu amigo neo-ateu, "Maynard", colocou várias questões sobre Deus aos crentes em geral. A questão nº 3 era: Deus é um ser senciente como nós, com pensamentos e sentimentos?

As escrituras (e aqui, refiro-me à totalidade dos textos de todas as grandes religiões, e não apenas à Bíblia ou às escrituras Bahá'ís) dizem-nos que somos criados à imagem de Deus. Ou isto reflecte a nossa realidade física (o que é improvável por variadíssimas razões) ou a nossa realidade espiritual. Isso significa que o nosso intelecto - a que Bahá'u'lláh chama a alma racional - reflecte o intelecto divino. Assim, considerando que nós somos sencientes, é lógico que se o nosso intelecto é um reflexo de Deus, então Ele também seja senciente.

S. Tomás de Aquino
Tal como disse S. Tomás de Aquino, “Deus é senciente numa forma super-eminente”.

O meu filho, que estudava física, também tinha algumas ideias sobre este assunto. Ele postulou uma dimensão adicional na qual Deus opera (ele designou-a como "a dimensão Deus", naturalmente), que é uma dimensão de perspectiva. Apesar de nós termos apenas uma perspectiva, Deus "vê" as coisas simultaneamente de todas as perspectivas. O mais próximo a que consigo chegar para apreciar isso é olhar para a génese do livro que estou a escrever. Faço a narração de uma história na perspectiva de meia dúzia de personagens diferentes e tenho que me colocar na pele de cada uma para fazer o meu trabalho.

Para mim, e em mim, isto significa que os nossos pensamentos e sentimentos são simultaneamente iguais e diferentes dos de Deus, da mesma forma que o reflexo de uma imagem num espelho é simultaneamente igual e diferente da imagem original. O objecto original tem pelo menos três dimensões; o espelho tem apenas duas. Deus (o Objecto Original) tem – como o meu filho gosta de dizer – outras dimensões que as Suas criações (incluindo nós) não têm.

É evidente que também devem existir outras diferenças. Muitos dos nossos pensamentos e sentimentos são resultado de interacções entre a nossas realidades material/física e espiritual/intelectual. Deus, não tendo componente material/física, não pode existir entre estas duas realidades tal como nós. As escrituras indicam que possuímos uma natureza material e também espiritual, e que o rumo das nossas vidas e a nossa educação leva-nos a fortalecer a parte espiritual, que é a que prevalece. Acredito que é a existência deste “espírito de Deus no homem” a que Bahá’u’lláh se refere quando afirma “Quem se conheceu a si próprio, conheceu Deus”

Por isso, quando recentemente alguém me perguntou “Porque é que Deus nos criou?”, respondi com umas palavras de Bahá’u’lláh:

Ó Filho do Homem! Velado no Meu ser imemorial e na eternidade antiga da Minha Essência, conheci o Meu amor por ti; por isso, criei-te, gravei em ti a Minha imagem e revelei-te a Minha beleza (Palavras Ocultas, Árabe #3)

A próxima pergunta, naturalmente, é “O que é que isso significa?” Se eu olhar para os meus próprios impulsos criativos quando escrevo ficção, compreendo – de forma parcial – a ideia de gostar de alguma coisa antes de ela existir. Antes de escrever uma palavra nos meus romances sobre as minhas personagens favoritas, eu amo-as, e esse amor por essas criaturas bidimensionais torna-se o impulso gerador que me leva a criar mundos para elas e a escrever sobre elas nesses mundos.

Assim, a minha resposta breve ao Maynard é: “Sim, Deus é senciente. E sim, Ele tem pensamentos e sentimentos que são simultaneamente iguais e diferentes dos nossos”

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Artigo Anterior: Onde está Deus?

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 5 de novembro de 2016

Onde está Deus?

Por Maya Bohnhoff.


A questão nº2 do meu amigo ateu era: Deus existe no espaço?

Vejamos o que dizem alguns fundadores das grandes religiões:
Deus habita no coração de todos os seres, Arjuna. O vosso Deus habita no vosso coração. E o Seu poder maravilhoso move todas as coisas… (Krishna, Bhagavad Gita 18:61)

Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada (Cristo, João 14:23)

Ó Filho do Pó! Tudo o que está no céu e na terra eu ordenei para ti, excepto o coração humano, que Eu fiz habitação da Minha beleza e glória… (Bahá’u’lláh, Palavras Ocultas, #27)
As Escrituras destas religiões (Hinduísmo, Cristianismo e Fé Bahá’í) apesar de separadas por milhares de anos, falam do “lugar” de Deus como sendo o coração humano. Nas Escrituras Bahá’ís, Bahá’u’lláh e ‘Abdu’l-Bahá usam uma linguagem mais directa e atribuem este “reino” àquilo que Bahá’u’lláh refere como a “alma racional”, a faculdade de raciocínio que nos distingue dos animais. É assim que eu entendo o conceito (que surgiu nas Escrituras há milhares de anos) que a humanidade foi criada à imagem de Deus.

Sempre apreciei a forma como Krishna o descreve:
Brahman é o Supremo, o Eterno. Atman é o Seu Espírito no homem. Karma é a força da criação, da qual todas as coisas recebem a sua vida. (Bhagavad Gita, 8:3)
De que forma é que Deus habita nos nossos corações? Baseado na observação e no registo das Escrituras, diria que Ele habita ali quando vivemos segundo os princípios e práticas espirituais que podem transformar a vida e o carácter humano.

Quão literalmente podemos entender isto? No fundo, o coração físico não é o centro das nossas emoções, independentemente da forma como este e outros órgãos reagem quando um ser humano fica alegre, triste, com medo ou desmaia. Assim, diria que uma resposta à pergunta original é que Deus existe dentro de nós de uma forma que experimentamos, mas apenas podemos usar metáforas para descrever isso.

Haverá mais do que isso? Certamente, mas, tal como referi na resposta à primeira pergunta, Deus está de alguma forma inter-ligado à Sua criação e existe para além dela. Tal como Krishna disse:
Sabei que com uma única fracção do meu Ser, penetro e suporto todo o universo e sabe que eu SOU. (Bhagavad Gita 10:42)
Krishna atribui a Deus a existência absoluta (um conceito repetido em fontes tão distintas como as escrituras Hebraicas, Budistas e Bahá’ís) assim como a capacidade para penetrar e suportar todo o universo sem ficar dentro dele. E Buda refere-Se a este Ser absoluto nestes termos:
Existe, ó monges, um Não-Nascido, Não-Originado, Não-Criado, Não-Formado. Não fosse, ó monges, este Não-Nascido, Não-Originado, Não-Criado, Não-Formado, não haveria saída do mundo do nascido, do originado, do formado. (Udana 80-81)
Dei por mim a pensar o seguinte: o intelecto humano, entre tudo o que existe na criação, tem a capacidade para sair do mundo “do nascido, do originado, do formado”. Por outras palavras, pode escapar à condição animal e às limitações impostas pela natureza, não apenas através do pensamento abstracto, mas também observando, articulando e manipulando a realidade.

Se, como as Escrituras sugerem, somos “descendentes de um Bloco Divino”, porque é tão difícil para alguns de nós aceitar a ideia de um Ser sem lugar e ainda mais poderoso que o nosso intelecto, e ainda mais capaz de criar e manipular a realidade?

Parece-me que quando negamos a possibilidade da existência de Deus, também estamos a pôr em dúvida a realidade da nossa própria existência.

Mas já me afastei do meu assunto. Para resumir, Deus não está num “local” físico do céu - especialmente se com isso nos referimos ao espaço. Na verdade, Bahá’u’lláh refere-Se a Deus como o Sem Lugar. Claramente, quando as escrituras falam dos “céus”, não se referem aos céus físicos em torno do nosso planeta ou o cosmos, mas algo completamente diferente. Bahá’u’lláh refere repetidamente “o céu da vontade de Deus”, o que é algo que podemos encontrar através de uma busca intelectual em vez de uma busca física.

Ao apresentar provas da existência de Deus, Bahá’u’lláh cita Maomé:
“E também em vós próprios: não vedes aí os sinais de Deus?”
E depois acrescenta:
“Quem se conheceu a si próprio, conheceu Deus” (Kitab-i-Iqan, p. 102)

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Texto original: What’s God’s Address? (www.bahaiteachings.org)

Artigo anterior: O que é Deus?
Artigo seguinte: Deus é igual a nós?

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 29 de outubro de 2016

O que é Deus?



Um amigo ateu (a que vou chamar “Maynard”) colocou uma série de perguntas sobre Deus que achei suficientemente interessantes para lhe dar uma resposta.

Questão nº 1: Deus é uma entidade (a) material ou (b) não-material? (ou seja, Deus é feito do mesmo tipo de material como protões, electrões, etc., com propriedades como massa, carga, rotação, etc. tal como qualquer outra coisa existente no universo, ou é feito de algo não-material?)

Ciclicamente, alguém que afirma ser porta-voz de Deus tenta explicar isto à humanidade. Talvez isso seja um bom ponto de partida - a hipótese de um Ser original, uma Primeira Causa. Vejamos o que dizem os Profetas de Deus e os defensores deste conceito:

Todo o universo visível vem do meu Ser invisível. Todos os seres descansam em mim, mas Eu não tenho o Meu descanso neles, e na verdade eles não descansam em Mim. Considera o meu mistério sagrado: Eu sou a fonte de todos os seres, Eu apoio todos, mas Eu não descanso neles. (Krishna, Bhagavad Gita 9: 4)

Como escritora, eu "percebo" o que ele quer dizer. Eu posso dizer que estou "dentro" dos livros que escrevo. Eu criei as personagens e a história a partir da minha imaginação e dos meus pensamentos mais profundos, e as personagens continuam a viver e a crescer na minha mente. Mas eu não estou literalmente dentro livro. Não estou abrangida ou condicionada pela história nas suas páginas, nem tenho que respeitar as regras que estabeleci para o meu universo ficcional. No entanto, existe uma grande quantidade de "mim" nele. O livro reflecte as minhas emoções sobre certas coisas e pessoas; revela os meus processos de pensamento e, em alguns casos, mostram vislumbres de minha vida.

Assim, tal com Krishna, eu posso dizer "Todo o meu universo literário visível vem do meu ser invisível. Todas as personagens têm o seu descanso (e origem) em mim, mas eu não descanso nelas. Na verdade, eles não descansam em mim. Eu sou a sua fonte, e apoio-os a todos ao escrever sobre eles, mas eu não estou dentro eles." Por outras palavras, eu não sou definida por eles ou limitada por eles. Eu não começo nem termino neles, mas transcendo-os. A sua realidade reflecte a minha realidade e o meu intelecto.

Bahá'u'lláh (o fundador da Fé Bahá'í) afirma que Deus está num plano de existência acima da nossa compreensão, tal assim nós estamos acima da compreensão, digamos, de uma personagem fictícia. Deus não está limitado, estritamente falando, pelas leis do universo físico que Ele criou, tal como eu não estou condicionada pelas leis que criei para um mundo de fantasia num dos meus romances.

E sobre isto, Bahá'u'lláh também diz algo mais interessante, que ecoa antigas vozes profética:

"Quem se conheceu a si próprio, conheceu Deus." (SEB, XC)

Nós, seres humanos somos, de alguma forma essencial, criados à imagem de Deus. Krishna diz que o atman (alma) é "o espírito de Deus no homem" e que atman torna o ser humano precioso aos olhos de Deus e leva-nos a procurá-Lo. Bahá'u'lláh escreveu sobre a capacidade da alma humana para reflectir os "nomes e atributos de Deus".

Quando Bahá'u'lláh diz:
"Eu amei a tua criação, e por isso te criei"

Eu sei em certa medida, o que Ele quer dizer. Eu conheço o amor indescritível e profundo que precede os meus próprios actos de criação. Eu sei que as personagens que crio e os mundos que lhes dou para habitar são a expressão desse amor.

Isso não significa que somos pequenos deuses. Um dos maiores problemas no mundo de hoje é que muitas pessoas acreditam verdadeiramente nisso. Penso que é mais correcto reconhecermos a singularidade de nossa própria faculdade racional, e com isso teremos uma pista sobre o tipo de inteligência que os seres humanos reflectem no universo.

Então aqui está uma reviravolta: as escrituras das religiões mundiais dizem-nos que o espírito humano é um reflexo de Deus, que por Sua vez está na origem do Universo. Parece apropriado, portanto, que este espírito nos predisponha a questionar: "Por que estamos aqui?" e "Como chegámos aqui?" (que não são a mesma questão) e esperar seriamente encontrar uma resposta. Podemos empregar essa faculdade racional para chegar à ideia de que existe logicamente um Deus transcendente, não-material.

Como assim? Se postulamos que Deus é, como nós, feito de material cósmico (átomos, etc), então vamos acabar com uma regressão infinita. Ou seja, se Deus faz parte deste universo físico e está sujeito às suas leis, em seguida, a conversa nunca mais acaba. Temos de perguntar o que causou Deus. Na verdade, qualquer que seja a Origem das leis que regem o funcionamento deste universo, ela não pode, em si, estar sujeita às leis universais. Deve ser algo fundamentalmente diferente.

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Regime Iraniano tenta esmagar minoria Bahá’í

Tradução de notícia da Associated Press divulgada em vários sites noticiosos.
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A Comunidade Internacional Bahá'í declarou esta terça-feira (25/Outubro) que os esforços do Irão para esmagar a minoria religiosa prosseguem e até se intensificaram em algumas frentes, apesar das promessas do presidente Hassan Rouhani para acabar com a discriminação religiosa.

Num relatório de 122 páginas, a Comunidade afirma que o governo de Rouhani intensificou a sua "campanha para incitar o ódio contra os Bahá’ís", inclusive através da divulgação de mais de 20.000 peças de propaganda anti-Bahá’í na comunicação social iraniana.

Segundo o relatório, desde que Rouhani tomou posse em Agosto de 2013 pelo menos 151 Bahá'ís foram presos e pelo menos 388 casos de discriminação económica foram documentados, incluindo ameaças e intimidações para forçar o encerramento de estabelecimentos comerciais.

O relatório também declara que, com Rouhani, milhares de Bahá’ís foram impedidos de frequentar universidades e 28 alunos Bahá’ís foram expulsos.

(…)

Em 2013, líder supremo do Irão, Ayatollah Ali Khamenei emitiu uma fatwa (decreto religioso) incitando os iranianos a evitar todas as relações com os Bahá'ís.

O relatório também afirma que "o governo iraniano está enfrentando pressão em todas as frentes para acabar com a perseguição sistemática dos Bahá’ís que dura há décadas."

Mas, em vez de cumprir as suas promessas para acabar com a discriminação religiosa, prossegue o relatório, "o governo mudou a sua estratégia de opressão, trocando as detenções e prisões, por medidas com menor visibilidade como a exclusão económica e educativa".

Bani Dugal, a principal representante Bahá’í na ONU disse que "ao todo, o que temos visto é uma mudança geral nas tácticas do governo iraniano, aparentemente como parte de uma tentativa de esconder da comunidade internacional os seus esforços em curso para destruir a comunidade Bahá’í como uma entidade viável".

Num âmbito mais alargado, o relatório afirma que, desde o governo anterior de Mahmoud Ahmadinejad começou-se a intensificar a perseguição aos Bahá’ís em 2005; mais de 860 seguidores foram detidos, cerca de 275 foram condenados à prisão, houve 950 incidentes de supressão económica e 80 ataques violentos (fogo posto ou vandalismo) contra empresas ou propriedades Baha'is.

O relatório apela à comunidade internacional para continuar a pressionar o Irão para acabar com a discriminação contra os Bahá'ís.

"O que se conclui do relatório é que a pressão internacional sobre o Irão, seja pelas Nações Unidas, pela comunicação social, por activistas ou até mesmo pelo público em geral, continua a ser um meio essencial de protecção contra um ataque mais amplo que tem como alvo a maior minoria religiosa não-muçulmano do Irão", disse Dugal.

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