sábado, 10 de dezembro de 2016

Deus “faz” Milagres?



O meu amigo ateu "Maynard" faz esta pergunta: Deus pode interferir em eventos onde e quando quiser, infringindo as leis naturais e mudando o seu curso (isto é, realizar milagres)?

Deus intervém nos processos naturais? Eu terei que dizer: "Não sei", pela simples razão que não sei. Eu não sei tudo sobre as leis naturais e como elas funcionam e o que constitui a sua "infracção" em oposição à simples utilização dessas leis de formas anteriormente não concebíveis. Mas Ele pode? Certamente. Pessoalmente, penso que Ele intervém através dos processos naturais.

Houve uma época, não há muito tempo atrás, em que designávamos o voo humano como uma infracção das leis naturais. As pessoas não voam pela simples razão que as pessoas não têm asas. Os seres humanos não podem viver no espaço, mas nós também fizemos isso, utilizando cápsulas onde se replica a atmosfera que respiramos na terra. O que estes dois milagres exigem é uma compreensão tecnológica substancialmente avançada (que, como o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke referiu, é indistinguível da magia). Se conseguimos fazer essas coisas com o pouco de conhecimento subjectivo que temos, o que poderá fazer o Ser que criou todo o sistema e conhece o seu potencial?

Eu vejo as acções de Deus como racionais e como tendo um propósito. O que me intriga sobre alguns dos supostos milagres (estátuas sangrando, etc.) é o seu propósito. Eles provam alguma coisa? Se sim, o quê? 'Abdu'l-Bahá levantou a questão do propósito quando falou sobre o livro bíblico de Daniel:

[Milagres] não constituem provas e evidências para todos os povos da terra, e eles não são provas definitivas, mesmo para aqueles que os vêem; Eles podem pensar que eles são apenas feitiços. (Some Answered Questions, p. 37)

São atribuídos a Cristo muitos milagres físicos que parecem infringir as leis da natureza. Podem até não ser infracções das leis naturais, mas sim a manipulação dessas leis por um Ser que as entende muito melhor do que nós. Em qualquer caso, para mim, o maior milagre é o facto de um filho de um pobre carpinteiro das periferias do Império Romano, há 2000 anos atrás, inspirar milhões de almas que hoje valorizam as Suas palavras e se identificam com o Seu nome. Esquecemos completamente as pessoas desse tempo que tinham riqueza e poder; no entanto, Jehoshuah ben Joseph transformou inúmeras vidas durante dois milénios.

Apenas uma dúzia de pessoas em toda a história conseguiram este milagre. E, apesar da transformação das vidas humanas e das sociedades durante esse período de tempo não exigir a infracção das leis da natureza (embora alguns argumentem que sim), essa transformação foi miraculosa. Os Bahá’ís acreditam que esta é a principal forma de "intervenção" de Deus na história - enviando seres como Cristo, Moisés, Maomé, Krishna, Buda e Bahá’u’lláh para nos guiar através das Suas palavras e acções.

Isaías (por Miguel Ângelo)
Há uma passagem no livro bíblico de Isaías que descreve eloquentemente este assunto. Acho que todos concordariam que um mundo unido e a paz global seriam um milagre. O texto profético sobre esta eventualidade diz:

No fim dos tempos o monte do templo do Senhor estará firme, será o mais alto de todos, e dominará sobre as colinas. Acorrerão a ele todas as gentes, virão muitos povos e dirão: «Vinde, subamos à montanha do Senhor, à casa do Deus de Jacob. Ele nos ensinará os seus caminhos, e nós andaremos pelas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém, a palavra do Senhor. Ele julgará as nações e dará as suas leis a muitos povos, os quais transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices. Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se adestrarão mais para a guerra. Vinde, Casa de Jacob! Caminhemos à luz do Senhor. (Is 2:2-5)

Este texto demonstra a forma como Deus intervém. A Sua "casa" é estabelecida (Ele tem uma presença na terra) e as pessoas "visitam-na" de bom grado. A Sua lei é proclamada e, como resultado, a humanidade transforma "as suas espadas em arados" - isto é, transforma instrumentos de destruição em instrumentos produtivos. O ponto crítico? O que o versículo NÃO diz. Não diz que Deus fará essas coisas por nós. Diz que nós faremos essas coisas em resposta à presença e à lei de Deus.

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Aliança ou Convénio?

A literatura Bahá’í traduzida no Brasil e a terminologia usada pelos Bahá’ís de Portugal apresentam a palavra inglesa Covenant traduzida como Convénio.

No entanto, a palavra “convénio” é rara na literatura religiosa portuguesa. Não consta nas duas traduções mais comuns da Bíblia para português-PT (Capuchinhos e João Ferreira de Almeida), nem português-BR (Bíblia de Jerusalém). Também não a encontro nas obras do Pe. António Vieira.

Nestas traduções Bíblicas - e na esmagadora maioria de literatura religiosa em Português - este conceito é descrito como Aliança. Assim, penso que é legítimo questionar a utilização do termo convénio na literatura Bahá’í.

Vamos começar por ver o que nos dizem os dicionários sobre o significado destas palavras.

No dicionário Inglês-Português da Porto-Editora, encontramos as seguintes traduções possíveis para a palavra Covenant:

covenant, 1. s. ajuste, pacto, tratado; convénio || Ark of the C. (bíbl.) Arca da Aliança || land of the C., terra Prometida; 2. vt. e i. concordar, convir

Podemos perceber que a tradução literal da palavra covenant para convénio está correcta. Mas num contexto religioso também é adequado usar a palavra aliança.

No dicionário de Língua Portuguesa da Porto-Editora (2004) encontramos as seguintes definições:

aliança s.f. 1. acto ou efeito de aliar; 2. laço entre pessoas ou entidades que se prometem mútuo auxílio; pacto; acordo; 3. anel de casamento; 4. casamento

convénio s.m. 1. convenção política; 2. pacto internacional; 3. ajuste; acordo

Graças a estas definições, percebemos que a palavra Aliança tem um significado mais amplo do que Convénio. Mais do que um mero acordo, uma Aliança implica um laço, uma ligação entre as partes envolvidas.

Vejamos agora como são usadas estas palavras na Bíblia.

Na tradução Capuchinhos (português-PT) da Bíblia encontramos diversas referências à aliança de Deus com os que aceitam a revelação do Seu Manifestante. Como sabemos, esta é a Eterna Aliança que se renova com o aparecimento de cada Manifestante de Deus. Vejamos alguns exemplos:

Abrão tinha noventa e nove anos, quando o Senhor lhe apareceu e lhe disse: «Eu sou o Deus supremo. Anda na minha presença e sê perfeito. Quero fazer uma aliança contigo e multiplicarei a tua descendência até ao infinito. (Gn 17: 1-2)

Deus respondeu: Vou fazer uma aliança contigo: na presença de todo o povo, realizarei prodígios, como jamais se fizeram em parte alguma, nem em nenhuma nação; e o povo que te cerca há-de ver então a obra do Senhor, porque espantosas são as coisas que vou fazer por teu intermédio. (Ex 34:10)

Em seguida, tomou um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: «Bebei dele todos. Porque este é o meu sangue, sangue da Aliança, que vai ser derramado por muitos, para perdão dos pecados. (Mt 26:27-28)

As traduções de João Ferreira de Almeida (português-PT) e Jerusalém (português-BR) também usam a palavra Aliança para definir este mesmo conceito. A palavra Convénio nunca está presente nestas traduções. Nas traduções inglesas da Bíblia, este conceito é descrito com a palavra covenant.

No entanto, esta mesma Aliança é referida como Convénio nas traduções Bahá’ís em português-BR e em português-PT.

Na minha opinião, a utilização da palavra convénio como tradução da palavra inglesa covenant, é uma tradução literal que empobrece e descontextualiza os textos.

Recordemo-nos que uma tradução não é apenas uma conversão de um texto de uma língua para outra. Frequentemente a tradução exige também a transposição de uma cultura para outra e até mesmo uma fusão de culturas.

No caso da tradução da palavra covenant para português, é necessário fazer a transposição cultural. O uso do termo convénio - estranho à cultura religiosa e à literatura religiosa portuguesa - não só empobrece o texto (retirando-lhe o significado mais correcto e abrangente) como também o torna mais difícil de perceber por pessoas de origens cristãs.

Uma tradução que considera o contexto religioso do texto - i.e., onde é feita a transposição cultural - leva-nos a usar a palavra aliança para descrever a ligação estalecida entre Deus e a Humanidade desde os tempos de Abraão (a “Eterna Aliança”) e a ligação estabelecida entre Bahá’u’lláh e os Seus seguidores para preservar a unidade da Comunidade (a “Aliança de Bahá’u’lláh”).

Por último, recordemo-nos que a Fé Bahá’í é herdeira das religiões do passado; por esse motivo deve usar terminologia conhecida quando se trata de designar os conceitos comuns a essas religiões.

Por todos estes motivos, sugiro que sejam corrigidas as traduções existentes.


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Exemplos de utilização da palavra “Aliança” na literatura Bahá’í.

Nas Escrituras do Báb

O Senhor do universo jamais levantou um profeta, nem fez descer um Livro, sem que tivesse estabelecido a Sua aliança com todos os homens, apelando à sua aceitação da Revelação seguinte e do Livro seguinte…  (Selections from the Writings of the Bab, pag. 88)

Nas Escrituras de Bahá’u’lláh

Recitai os versículos de Deus cada manhã e noite. Quem não os recita, em verdade falhou no seu compromisso com a Aliança de Deus e Seu Testamento, e quem, neste dia, se afastou deles, afastou-se de Deus desde os tempos imemoriais. (Spiritual Foundations, p. 1)

Este é o Dia, ó meu Senhor, que revelaste a toda a espécie humana como o Dia em que revelarias o Teu Próprio Ser... Além disso, celebraste uma aliança com eles, nos Teus Livros e nas Tuas Escrituras, nos Teus Pergaminhos e nas Tuas Epístolas, sobre Aquele que é a Alvorada da Tua Revelação, e nomeaste o Bayán para ser o Arauto do Teu Mais Grandioso e Todo-Glorioso Manifestante... (Prayers and Meditations, pag. 275)

... Os que violaram a Aliança de Deus desobedecendo aos Seus mandamentos e voltando as costas, esses têm errado severamente aos olhos de Deus, o Possuidor de Tudo, o Altíssimo. (GWB, CLV)


Nas Escrituras de ‘Abdu’l-Bahá

Enquanto não atingirdes esta condição, não podereis dizer ter sido fiéis à Aliança e Testamento de Deus. Pois Ele, através de Textos irrefutáveis, celebrou uma Aliança vinculativa com todos nós, exigindo que agíssemos de acordo com as Suas sagradas instruções e conselhos". (SWAB, #35)


Quanto à referência n'As Palavras Ocultas sobre a Aliança estabelecido no Monte Paran, isto significa que aos olhos de Deus, o passado, o presente e o futuro são um só e o mesmo... E é um princípio básico da Lei de Deus que em cada Missão Profética, Ele estabelece uma Aliança com todos os crentes – uma Aliança que se mantém até ao fim dessa Missão, até ao dia prometido em que a personagem estipulada no início da Missão se torna manifesta. Considerai Moisés... Em verdade, no Monte Sinai, Moisés estabeleceu uma Aliança referente ao Messias, com todos aqueles que viveriam no tempo do Messias. E essas almas, apesar de terem aparecido séculos depois de Moisés, estavam - no que se refere à Aliança que é intemporal - ali presentes com Moisés. (SWAB, #181)

... com a Sua própria pena Ele escreveu o Livro da Sua Aliança, dirigindo-se aos Seus familiares e a todos os povos do mundo, dizendo: «Em verdade, nomeei Aquele que é o Centro da Minha Aliança. Todos devem obedecer-Lhe; Ele é o Explicador do Meu Livro, e Ele está informado sobre o Meu propósito. Todos se devem voltar para Ele. Qualquer coisa que Ele diga está correcto...» O propósito desta afirmação é que nunca exista discórdia ou divergência entre os Bahá'ís, mas que estejam sempre unidos e em concórdia... Assim, quem obedece ao Centro da Aliança nomeado por Bahá'u'lláh obedece a Bahá'u'lláh; e quem Lhe desobedece, desobedece a Bahá'u'lláh... (PUP, pag. 322-323)

Os verdadeiros amantes da beleza de Abhá, e aqueles que sorveram do Cálice da Aliança, não temem calamidade, não desanimam na hora da provação... (SWAB, #229)


Nos textos de Shoghi Effendi

[Existe uma] Aliança geral que, conforme inculcam os ensinamentos Bahá'ís, o próprio Deus estabelece com a humanidade quando inaugura uma nova Dispensação. (WOB, pag. 137)

Então, [quando se estabelecer a Comunidade Mundial Bahá'í] a maturidade de toda a espécie humana será proclamada e celebrada por todos os povos e nações da terra. Então, o estandarte da Mais Grandiosa Paz será hasteado. Então, a soberania mundial de Bahá'u'lláh - o Fundador do Reino do Pai predito pelo Filho, e antevisto pelos Profetas de Deus antes e depois d'Ele - será reconhecido, aclamado e firmemente estabelecida. Então, uma civilização mundial nascerá, florescerá e perpetuar-se-á, uma civilização com uma plenitude de vida como o mundo nunca viu, nem pode ainda conceber. Então, a Eterna Aliança cumprir-se-á plenamente. Então, a promessa contida nos Livros de Deus será redimida, e todas as profecias proferidas pelos Profetas do passado cumprir-se-ão, as visões dos videntes e poetas realizar-se-ão. Então, o planeta... será... capaz de cumprir esse destino indescritível que lhe foi determinado desde tempos imemoriais, pelo amor e sabedoria do Seu Criador". (PDC, pag. 123-124)

No que respeita ao significado da Aliança Bahá’í, duas formas de Aliança... A primeira é a Aliança que todos os Profetas fazem com... o Seu povo para que aceite e siga o Manifestante seguinte... A segunda forma de Aliança é do género que Bahá'u'lláh fez com o Seu povo para que aceitassem o Mestre. Isto é apenas para estabelecer e fortalecer a sucessão de uma série de Luzes que surgem após cada Manifestante. Sob a mesma categoria encontra-se a Aliança do Mestre feita com os Bahá'ís para que aceitassem a Sua administração depois d'Ele... (Escrito em nome de Shoghi Effendi, Lights of Guidance, pag. 147)


Nos textos da Casa Universal de Justiça

Existe, por exemplo, a Grande Aliança que todos os Manifestantes de Deus fazem com os Seus seguidores, prometendo que na plenitude dos tempos será enviado um novo Manifestante, e recebendo deles o compromisso de O aceitarem quando isso ocorrer. Também existe a Aliança Menor que o Manifestante de Deus faz com os Seus seguidores para que depois d'Ele aceitem o Seu sucessor nomeado. (The Power of the Covenant, Part II, 4)

[É] a Aliança de Bahá'u'lláh… que liga o passado e o futuro com etapas progressivas em direcção ao cumprimento da antiga Promessa de Deus... Concentração neste tema permitir-nos-á a todos obter uma mais profunda apreciação do significado e propósito da Sua Revelação As questões a que este estudo cuidadoso deverá responder devem indubitavelmente incluir o significado da Aliança Bahá'í, a sua origem e qual deve ser a nossa atitude em relação a ela" (Mensagem de Ridván, 1987)


Cada Bahá'í é livre, ou melhor, é instado, a expressar livremente a sua opinião e compreensão sobre os Ensinamentos, mas tudo isto está numa categoria totalmente diferente de um Bahá'í que se opõe claramente aos Ensinamentos de Bahá'u'lláh, ou que expressa a sua opinião como uma interpretação correcta e autorizada dos Ensinamentos, e que ataca ou opõe-se às próprias instituições que Bahá'u'lláh criou para proteger a Sua Aliança. Quando uma pessoa declara a sua aceitação de Bahá'u'lláh como Manifestante de Deus, ela torna-se parceira da Aliança, e aceita a totalidade da Sua Revelação. Se ela depois muda de posição, ataca Bahá'u'lláh ou a instituição central da Fé, ela viola a Aliança. Se isto acontece, devem-se fazer todos os esforços para ajudar essa pessoa a ver o erro e falta de lógica das suas acções; mas se ela persistir, de acordo com as instruções do próprio Bahá'u'lláh, ela deve ser afastada como violadora da Aliança. (carta de 23/Março/1975)

domingo, 27 de novembro de 2016

As duas questões que mudaram a minha vida



A minha cidade natal, uma comunidade agrícola, tinha cerca de 3.000 almas, cinco igrejas e cinco tabernas. Em 1954, a minha mãe inscreveu-me na catequese na nossa igreja local. Todas as boas mães querem que os seus filhos passem nos exames de entrada no paraíso.

Os sacerdotes faziam-nos perguntas sobre a doutrina da igreja e nós, jovens esperançosos, éramos obrigados a ler em voz alta a resposta padrão. No entanto, eu já tinha, há muito tempo duas perguntas que queria colocar. Levantei a mão, e interrompi a leitura do pastor. "O que é?" perguntou ele. "Deus sabe tudo o que aconteceu e tudo o que vai acontecer. Certo?" "Correcto! Ele é Omnisciente." "Então porque é que Ele me criou se Ele soubesse que eu ia para o inferno?"

Aquilo perturbou o pastor. Mais uma vez, levantei a minha mão e interrompi as leituras. "O que foi agora?", perguntou o pastor. "Todas as pessoas que acreditam em Jesus são salvas, certo?" Finalmente, ele tinha uma resposta fácil. "É isso mesmo, meu filho." Eu continuei: "Então todas as pessoas nascidas antes de Jesus não foram salvo por ele." "Sim." Quase em sussurro, disse-lhe: "Eu não acredito nisso."

"Está dispensado da aula, jovem! Quero que vás para casa e digas à tua mãe como interrompeste a aula com as tuas perguntas disparatadas."

A minha mãe não gostou. "Não podes ir lá como uma pessoa normal e fazer apenas o que todos fazem? Não! Tu tens de ser o chico-esperto que se exibe à frente de todos!" Eu nunca tinha visto minha mãe tão zangada. Na verdade, ela até perdeu a voz e ficou exausta.

Mas para mim, eu estava secretamente feliz. Deixava de ir a uma aula incrivelmente chata e podia ficar em casa a ver o meu programa favorito: "Superman", que era emitido na mesma noite em que se realizava aquela aula semanal.

Por outro lado, aprendi uma lição importante: questionar sempre as coisas que não parecem verdadeiras.

Para tranquilidade da minha mãe continuei a cantar no coro e a ir à igreja ao domingo com o meu irmão mais velho. Mas só me tornei membro muito mais tarde, e de uma maneira invulgar, que vou explicar.

Deixei a universidade no meu segundo ano e alistei-me na Marinha num contrato de quatro anos. Nessa altura nada me ligava à religião, organizada ou não. Embora de ainda acreditasse num Ser Supremo, eu procurava o significado da vida na natureza e na literatura.

A vida num porta-aviões da Marinha no oceano Pacífico cria o seu próprio isolamento especial. Sempre que tínhamos licença para ir a terra no Hawai, China, Filipinas, Japão ou Okinawa, saía com os meus companheiros de copos e comportávamo-nos frequentemente como jovens idiotas. Comecei a ficar envergonhado de mim próprio e do meu comportamento.

Com o fim da nossa missão de seis meses no Pacífico, o meu navio foi colocado numa doca seca para manutenção e eu fui para casa durante as férias de Natal. Mas quando o meu navio voltou ao mar na primavera seguinte, eu ainda me sentia em baixo. Em desespero, comprei uma Bíblia. Os meus ex-amigos de copos viram-se com ela e começaram a chamar-me "Padre".

Tentei ler a Bíblia, mas parecia uma mistura confusa de histórias moralistas. Então abri aleatoriamente a Bíblia e apontei o meu dedo para ver se isso me guiaria. Por duas vezes consecutivas, encontrei versículos como "procurai e encontrareis" ou "batei, e hão-de abrir-vos". Decidi experimentar.

Uma noite fui ao convés do navio e olhei para a lua cheia. Então, proferi em voz alta a minha oração de poucas palavras: "Estou a bater." Nada. Olhei para a lua e nada aconteceu. Eu não sei o que esperava. O que me veio à ideia foram todas as experiências mágicas da Bíblia - como transformar a água em vinho ou andar sobre a água - que aconteceram há mais de 2000 anos atrás. Nada semelhante a isso estava a acontecer agora.

Só uns anos mais tarde é que percebi a relação entre essa pequena oração e o que aconteceu depois. Quando o navio atracou em Pearl Harbor, o Oficial Superior que era meu "chefe" perguntou-me: "Gostava de terminar o seu contrato de serviço no Hawai? Você tem uma autorização superior e eles precisam de um escrivão administrativo na sede da Frota. Tem duas horas para abandonar o navio antes que zarpe hoje."

Abandonei o navio a tempo. Depois de uma semana no novo emprego, um dos meus colegas de trabalho perguntou-me se eu gostaria de ir a uma reunião Bahá'í. Eu disse: "É uma espécie de religião, certo?" Ele disse que sim e eu disse-lhe que não queria ter nada a ver com a religião organizada. Ele retorquiu: "A Miss Hawai vai lá estar." "A Miss Hawai é membro?” “Sim, ela também é amiga. Eu apresento-te."Aquilo soou como uma ideia maravilhosa.

Mas aconteceu que a Miss Hawai não veio a essa reunião. Eu tive um debate com o orador, que tinha afirmado a certo momento que "Deus não precisava de nós para nada." No meu modo usual de chico-esperto, respondi que era óbvio que nós éramos o produto de uma necessidade ou então Deus não nos teria criado.

Então, ele desafiou-me. "Hoje à noite, quando você voltar para o seu quartel, ore sobre isso e pergunte a Deus se isto é a verdade. Não se limite a fechar os olhos e a dizer algo rapidamente. Entre num estado profundo de oração e depois pergunte." Mas uma vez, o chico-espeto dentro de mim disse para mim próprio: "Sim, vou fazer isso e voltarei para dizer a todos que nada aconteceu!"

Bem… eu estava errado. Segui o conselho a sério e quando cheguei à pergunta, tive uma experiência que mudou a minha vida! Fui levado através de véus de luz. Uma agitação poderosa, semelhante a ondas atingiam o meu corpo dos pés à cabeça. Cada átomo do meu ser parecia vibrar com um êxtase indescritível! Eu era AMADO! Esta era a Verdade de Deus!

Na Bíblia diz:

Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente? (Lucas 11:11)

Mas se foi Deus nos criou, temos o direito de Lhe perguntar qual é o caminho verdadeiro. Certo? Se pedirmos sinceramente, Ele responderá sinceramente. Isto mudou aminha vida para sempre:

O Espírito tem uma influência; a oração tem um efeito espiritual. Portanto, oramos: "Ó Deus! Cura este doente!" Possivelmente Deus responderá. Importa quem reza? Deus responderá à oração de cada servo se essa oração for urgente. A Sua misericórdia é vasta, ilimitada. Ele responde às orações de todos os Seus servos... Portanto, é natural que Deus nos dê quando Lhe pedimos. A Sua misericórdia abrange tudo. ('Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 246-247)

E a propósito… a Miss Hawai acabou por ser uma das Damas de Honor no meu casamento.

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Duane Troxel aceitou a Fé Bahá’í há cerca de 50 anos em Honolulu. Desde então viveu na Nigéria e na Polónia, onde serviu nas respectivas Assembleias Espirituais Nacionais e ensinou em várias universidades. Actualmente vive em Evanston, Illinois (EUA) com a sua esposa.

sábado, 19 de novembro de 2016

Deus pode mudar o passado?

Por Maya Bohnhoff.


Vamos analisar três questões relacionadas que o meu amigo ateu, "Maynard", colocou a respeito de Deus. As duas primeiras são:

Deus pode mudar o passado? e Deus conhece o futuro?

Essas questões envolvem não só as nossas concepções de Deus, mas também a nossa concepção de tempo, uma dimensão que entendemos talvez menos bem do que as outras. De facto, deparamo-nos com problemas relacionados com o tempo quando tentamos medir simultaneamente a velocidade e a localização de um objecto. Graças ao cientista Werner Heisenberg, sabemos que quando tentamos fazer isso, o próprio acto de medição afecta o objecto a ser medido. Por exemplo: um filme é projectado a uma determinada velocidade; podemos isolar uma única imagem (“frame”) desse filme... mas como consequência já não podemos medir a velocidade do filme.

Isto tem todo o tipo de ramificações. Se tentarmos observar um arco (falando metaforicamente) apenas podemos identificar um único ponto. Heisenberg provou que apenas podemos medir a velocidade ou a localização de uma entidade. Não podemos medir ambos. Não podemos ver o universo por mais de um ponto de vista. Deus - teorizou o meu filho quando estudava física na escola - pode ser capaz de ver não apenas pontos individuais, mas também arcos e ondas, incluindo o arco de tempo.

Em resposta à pergunta de Maynard, eu poderia admitir que Deus pode mudar o passado. Mas porque o faria? Os seres humanos por vezes desejam fazer isso, porque não têm qualquer noção sobre o que podem aprender com o passado. Numa maravilhosa história de amor, Bahá'u'lláh descreve n’Os Sete Vales os amantes separados, Majnun e Layli, que sentem saudades um do outro. Majnun passa por uma série de calamidades que por fim o levam ao jardim de Layli, onde os amantes finalmente se reúnem. Majnun percebe que a sua vontade mal informada em reescrever o passado (de modo a não ter que experimentar a calamidade) teria evitado o próprio encontro com sua amada.

Reescrever o passado significa que perdemos as lições que ali aprendemos - e nunca saberíamos a diferença.

A segunda destas questões pergunta se Deus conhece o futuro. As declarações de Bahá'u'lláh e de 'Abdu'l-Bahá sobre o futuro indicam certos arcos ao longo do tempo - Objectivos Divinos, podemos dizer – ocorrem de forma pré-determinada. Por exemplo: Deus coloca em movimento a revelação progressiva da religião e da maturação da humanidade de selvagem para civilizada, de material para espiritual, de irracional para racional, do egoísta para altruísta. Como é que acontece, quanto tempo demora e quanto sofrimento exige - isso depende de nós. Podemos apenas ficar sentados, desejando ou rezando pela unidade mundial, pela paz e pela compaixão, ou podemos aprender as competências necessárias para as alcançar e pô-las em prática.

Na minha escrita encontro uma analogia para isto. Em cada história que escrevo, existem momentos onde eu e as minhas personagens devemos tomar decisões sobre as suas linhas de acção. Sei que há certas coisas que devem acontecer no livro antes da trama se revelar completamente, mas a forma como as minhas personagens chegam ao momento final muda à medida que eles navegam pelos diferentes pontos de viragem da história. É claro que eu tenho uma visão na perspectiva de criadora de tudo isto; assim, posso ver vários rumos que a acção pode tomar e que conduzem aos pontos-chave que eu sei que devem ocorrer. Curiosamente, se eu fizer as coisas "correctamente", as interacções entre as personagens vão definir o seu rumo ao longo da história, em vez de ser eu a forçar uma determinada sequência de eventos.

Quando se trata de Deus e do futuro, nenhum ser humano pode responder a esta pergunta com qualquer certeza. Como é que um ser que só pode ver pontos responde a perguntas que se relacionam com o arco? É como se uma das minhas personagens num livro perguntasse a outra: "Sabes que existe um Escritor lá fora, que sabe exactamente o que eu vou dizer na página 123?"

No meu caso, a resposta é "não". Eu ainda não sei o que a minha personagem vai dizer na página 123, mas sei que ela, à sua própria maneira, vai ajudar a história a desenvolver-se. Será que Deus trabalha assim? Só Deus sabe. Além disso, os Seus educadores, os fundadores das religiões mundo, só podem dizer-nos aquilo que temos capacidade para entender.

E isto leva-nos à pergunta nº 6: Deus sabe absolutamente tudo o que acontece a cada momento, incluindo todos os pensamentos de todos os seres?

Esta questão lida com a omnisciência de Deus com relação ao tempo. Os seres humanos, com os nossos pontos de vista singulares e limitações perceptivas e intelectuais, não podem, por definição, ter alguma experiência da omnisciência. Nenhuma. Podemos ficar irritados com isso, mas é mesmo assim.

Penso que o personagem de ficção científica, Buckeroo Banzai, descreveu isso de forma eloquente quando disse: "Lembra-te, não importa para onde vais, lá estás." Nós só temos o nosso ponto de vista singular, aquele microscópico "você está aqui" num mapa do cosmos. Não podemos saber o que um Ser super-eminente sabe ou não sabe, a menos que Ele nos diga (talvez o Seu Emissário nos diga), porque nós não temos capacidade para fazer mais do que imaginar o que significa a omnisciência.

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 12 de novembro de 2016

Deus é igual a nós?



O meu amigo neo-ateu, "Maynard", colocou várias questões sobre Deus aos crentes em geral. A questão nº 3 era: Deus é um ser senciente como nós, com pensamentos e sentimentos?

As escrituras (e aqui, refiro-me à totalidade dos textos de todas as grandes religiões, e não apenas à Bíblia ou às escrituras Bahá'ís) dizem-nos que somos criados à imagem de Deus. Ou isto reflecte a nossa realidade física (o que é improvável por variadíssimas razões) ou a nossa realidade espiritual. Isso significa que o nosso intelecto - a que Bahá'u'lláh chama a alma racional - reflecte o intelecto divino. Assim, considerando que nós somos sencientes, é lógico que se o nosso intelecto é um reflexo de Deus, então Ele também seja senciente.

S. Tomás de Aquino
Tal como disse S. Tomás de Aquino, “Deus é senciente numa forma super-eminente”.

O meu filho, que estudava física, também tinha algumas ideias sobre este assunto. Ele postulou uma dimensão adicional na qual Deus opera (ele designou-a como "a dimensão Deus", naturalmente), que é uma dimensão de perspectiva. Apesar de nós termos apenas uma perspectiva, Deus "vê" as coisas simultaneamente de todas as perspectivas. O mais próximo a que consigo chegar para apreciar isso é olhar para a génese do livro que estou a escrever. Faço a narração de uma história na perspectiva de meia dúzia de personagens diferentes e tenho que me colocar na pele de cada uma para fazer o meu trabalho.

Para mim, e em mim, isto significa que os nossos pensamentos e sentimentos são simultaneamente iguais e diferentes dos de Deus, da mesma forma que o reflexo de uma imagem num espelho é simultaneamente igual e diferente da imagem original. O objecto original tem pelo menos três dimensões; o espelho tem apenas duas. Deus (o Objecto Original) tem – como o meu filho gosta de dizer – outras dimensões que as Suas criações (incluindo nós) não têm.

É evidente que também devem existir outras diferenças. Muitos dos nossos pensamentos e sentimentos são resultado de interacções entre a nossas realidades material/física e espiritual/intelectual. Deus, não tendo componente material/física, não pode existir entre estas duas realidades tal como nós. As escrituras indicam que possuímos uma natureza material e também espiritual, e que o rumo das nossas vidas e a nossa educação leva-nos a fortalecer a parte espiritual, que é a que prevalece. Acredito que é a existência deste “espírito de Deus no homem” a que Bahá’u’lláh se refere quando afirma “Quem se conheceu a si próprio, conheceu Deus”

Por isso, quando recentemente alguém me perguntou “Porque é que Deus nos criou?”, respondi com umas palavras de Bahá’u’lláh:

Ó Filho do Homem! Velado no Meu ser imemorial e na eternidade antiga da Minha Essência, conheci o Meu amor por ti; por isso, criei-te, gravei em ti a Minha imagem e revelei-te a Minha beleza (Palavras Ocultas, Árabe #3)

A próxima pergunta, naturalmente, é “O que é que isso significa?” Se eu olhar para os meus próprios impulsos criativos quando escrevo ficção, compreendo – de forma parcial – a ideia de gostar de alguma coisa antes de ela existir. Antes de escrever uma palavra nos meus romances sobre as minhas personagens favoritas, eu amo-as, e esse amor por essas criaturas bidimensionais torna-se o impulso gerador que me leva a criar mundos para elas e a escrever sobre elas nesses mundos.

Assim, a minha resposta breve ao Maynard é: “Sim, Deus é senciente. E sim, Ele tem pensamentos e sentimentos que são simultaneamente iguais e diferentes dos nossos”

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 5 de novembro de 2016

Onde está Deus?

Por Maya Bohnhoff.


A questão nº2 do meu amigo ateu era: Deus existe no espaço?

Vejamos o que dizem alguns fundadores das grandes religiões:
Deus habita no coração de todos os seres, Arjuna. O vosso Deus habita no vosso coração. E o Seu poder maravilhoso move todas as coisas… (Krishna, Bhagavad Gita 18:61)

Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada (Cristo, João 14:23)

Ó Filho do Pó! Tudo o que está no céu e na terra eu ordenei para ti, excepto o coração humano, que Eu fiz habitação da Minha beleza e glória… (Bahá’u’lláh, Palavras Ocultas, #27)
As Escrituras destas religiões (Hinduísmo, Cristianismo e Fé Bahá’í) apesar de separadas por milhares de anos, falam do “lugar” de Deus como sendo o coração humano. Nas Escrituras Bahá’ís, Bahá’u’lláh e ‘Abdu’l-Bahá usam uma linguagem mais directa e atribuem este “reino” àquilo que Bahá’u’lláh refere como a “alma racional”, a faculdade de raciocínio que nos distingue dos animais. É assim que eu entendo o conceito (que surgiu nas Escrituras há milhares de anos) que a humanidade foi criada à imagem de Deus.

Sempre apreciei a forma como Krishna o descreve:
Brahman é o Supremo, o Eterno. Atman é o Seu Espírito no homem. Karma é a força da criação, da qual todas as coisas recebem a sua vida. (Bhagavad Gita, 8:3)
De que forma é que Deus habita nos nossos corações? Baseado na observação e no registo das Escrituras, diria que Ele habita ali quando vivemos segundo os princípios e práticas espirituais que podem transformar a vida e o carácter humano.

Quão literalmente podemos entender isto? No fundo, o coração físico não é o centro das nossas emoções, independentemente da forma como este e outros órgãos reagem quando um ser humano fica alegre, triste, com medo ou desmaia. Assim, diria que uma resposta à pergunta original é que Deus existe dentro de nós de uma forma que experimentamos, mas apenas podemos usar metáforas para descrever isso.

Haverá mais do que isso? Certamente, mas, tal como referi na resposta à primeira pergunta, Deus está de alguma forma inter-ligado à Sua criação e existe para além dela. Tal como Krishna disse:
Sabei que com uma única fracção do meu Ser, penetro e suporto todo o universo e sabe que eu SOU. (Bhagavad Gita 10:42)
Krishna atribui a Deus a existência absoluta (um conceito repetido em fontes tão distintas como as escrituras Hebraicas, Budistas e Bahá’ís) assim como a capacidade para penetrar e suportar todo o universo sem ficar dentro dele. E Buda refere-Se a este Ser absoluto nestes termos:
Existe, ó monges, um Não-Nascido, Não-Originado, Não-Criado, Não-Formado. Não fosse, ó monges, este Não-Nascido, Não-Originado, Não-Criado, Não-Formado, não haveria saída do mundo do nascido, do originado, do formado. (Udana 80-81)
Dei por mim a pensar o seguinte: o intelecto humano, entre tudo o que existe na criação, tem a capacidade para sair do mundo “do nascido, do originado, do formado”. Por outras palavras, pode escapar à condição animal e às limitações impostas pela natureza, não apenas através do pensamento abstracto, mas também observando, articulando e manipulando a realidade.

Se, como as Escrituras sugerem, somos “descendentes de um Bloco Divino”, porque é tão difícil para alguns de nós aceitar a ideia de um Ser sem lugar e ainda mais poderoso que o nosso intelecto, e ainda mais capaz de criar e manipular a realidade?

Parece-me que quando negamos a possibilidade da existência de Deus, também estamos a pôr em dúvida a realidade da nossa própria existência.

Mas já me afastei do meu assunto. Para resumir, Deus não está num “local” físico do céu - especialmente se com isso nos referimos ao espaço. Na verdade, Bahá’u’lláh refere-Se a Deus como o Sem Lugar. Claramente, quando as escrituras falam dos “céus”, não se referem aos céus físicos em torno do nosso planeta ou o cosmos, mas algo completamente diferente. Bahá’u’lláh refere repetidamente “o céu da vontade de Deus”, o que é algo que podemos encontrar através de uma busca intelectual em vez de uma busca física.

Ao apresentar provas da existência de Deus, Bahá’u’lláh cita Maomé:
“E também em vós próprios: não vedes aí os sinais de Deus?”
E depois acrescenta:
“Quem se conheceu a si próprio, conheceu Deus” (Kitab-i-Iqan, p. 102)

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Texto original: What’s God’s Address? (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.