sábado, 29 de julho de 2017

Aborto, Direito à Vida, Direito da Mulher a Escolher

Por John Hatcher.


Quando é que um ser humano se torna humano?

Apesar de não apreciar as controvérsias em si, sinto-me atraído por assuntos - o sentido da vida, a teoria do big bang, física de partículas e a morte - que levam, necessariamente, a diferenças de opinião. Infelizmente, alguns deles são expressados de forma litigiosa, com veemência, e, às vezes, com armas de destruição em massa (como o sistema de educação pública americano). Por agora, prefiro que usar as armas do discurso lógico relativamente perfeito.

Quando consideramos a natureza humana, especialmente a fase dos primórdios do nosso desenvolvimento, lançamo-nos, inevitavelmente no pântano revolto de questões profundamente ideológicas e teológicas: aborto versus o direito à vida; o direito à privacidade versus o bem público; o direito de ter o controlo sobre o próprio corpo versus a obrigação da sociedade para proteger os direitos das pessoas incapazes de se proteger; eutanásia versus leis contra o suicídio. Estas são apenas algumas das fortes questões de vida ou morte que estamos constantemente a debater.

Foquemo-nos nas implicações lógicas desta questão única: o direito a abortar um feto que esteja deformado ou seja mentalmente deficiente. A extensão lógica dessa questão leva-nos à possibilidade do direito a abortar um feto de sexo, raça ou deficiência indesejada ou com quaisquer outras características que estamos a aprender gradualmente a detectar de acordo com a amniocentese e outros testes pré-natal.

Actualmente, nos EUA, os direitos de uma mulher a decidir o destino de um embrião (as primeiras oito semanas) ou feto (mais de oito semanas) ou filho (feto viável) são determinados pelas leis do estado em que a mulher reside. Na maior parte, os direitos do nascituro evoluíram nos Estados Unidos desde a famosa decisão Roe v. Wade pelo Supremo Tribunal dos EUA - 22 de Janeiro de 1973 - declarando que uma mulher pode interromper a sua gravidez a qualquer momento, até que "ao ponto em que o feto se torna «viável» ". Decidida com base no direito constitucional à privacidade (parte da cláusula do devido processo legal da Décima Quarta Emenda), esta decisão afirma que aquilo que uma mulher faz com seu próprio corpo é apenas da sua conta, até que o seu corpo contenha outro corpo humano "viável", momento em que o feto assume direitos próprios.

Como qualquer pessoa não totalmente alheia à realidade da sociedade contemporânea sabe, este decisão com trinta e cinco anos de idade tem sido, desde o seu início, altamente controversa e divisiva devido aos problemas óbvios decorrentes da sua linguagem. Mas o problema na linguagem da decisão deriva do problema inerente às questões em consideração - não é quando começa a vida, mas em que momento pode uma entidade viva que está destinada a tornar-se um ser humano maduro, assumir os atributos, capacidades, e também os direitos de um ser humano.

Duas palavras na decisão que, obviamente, se destacam em particular, são "ponto" e "viável". A palavra ponto é particularmente inadequada porque o tempo e o desenvolvimento humano não param nesta vida. Não há pausa quando chegarmos a estas etapas que estamos a discutir. Uma vez posta em movimento por meio de fertilização ou de concepção, não há hesitações, mesmo que existam etapas explícitas, onde durante o desenvolvimento, também podemos mostrar o quanto progredimos.

Em suma, a ideia de que existe um "ponto" no processo de gestação (além da concepção) pressupõe algum evento biológico específico ou transformação de um estado ou etapa para outro. Mesmo a distinção entre os termos embrião e feto é apenas uma invenção útil para fins de discussão, e não um ponto real de alteração biológica, o que acontece de forma contínua.

Obviamente, a segunda palavra problemática na linguagem da decisão histórica Roe v. Wade é “viável”, uma palavra que o próprio Supremo Tribunal pensou necessário colocar entre aspas para indicar a necessidade de definição e clarificação. De acordo com o tribunal, o termo viável pretendia designar o momento a partir do qual um feto pode sobreviver fora do útero; em 1973, eram cerca de sete meses.

Aqui temos espaço para ainda mais ambiguidade. Com os rápidos avanços na ciência médica, este "ponto" de viabilidade já evoluiu para um período de tempo variável, que actualmente pode situar-se entre as vinte e duas semanas (menos de seis meses) e 500 gramas de peso, até ao padrão de vinte e oito semanas (sete meses) e mais de um quilograma. Por outras palavras, esse “ponto” tem agora um mês e meio de comprimento. Numa extremidade é um procedimento médico, enquanto no outro, o mesmo procedimento é o crime hediondo de infanticídio.

Um terceiro dilema, aliado e derivado deste intervalo na viabilidade de um determinado feto também é relativamente óbvio: o sistema legal, associado à profissão médica, está a definir em que momento surgem características humanas com base nos parâmetros de uma tecnologia que muda quase diariamente. Simplificando, em vez de definir os direitos humanos de forma eficaz, a decisão do tribunal, na realidade, obscurece a distinção útil entre o direito da mulher a um procedimento médico comum e o crime punível de assassinar uma criança por nascer.

Como é que a Fé Bahá'í lida com esta questão moral espinhosa? Os Bahá’ís acreditam que a alma humana começa a existir no momento da concepção; que devemos abster-nos de matar e, portanto, de praticar o aborto; mas que, por outro lado, o aborto pode, por vezes, ser medicamente justificado. Por essas razões, os ensinamentos Bahá’ís deixam essas decisões difíceis para os pais e o médico:
... Toda a questão [do aborto] é deixada para as consciências de todos os interessados, que devem pesar cuidadosamente o aconselhamento médico sobre o caso à luz da orientação geral dada nos Ensinamentos [Bahá’ís]. (A Casa Universal de Justiça)
Outro aspecto da dificuldade e complexidade em definir a "viabilidade" de um ser humano é que a decisão do tribunal, nunca sugere viabilidade sem ajuda externa ou de ajuda artificial. Na verdade, de todos os mamíferos, o ser humano é, sem dúvida, o que tem a menor viabilidade, sem ajuda externa ou ajuda artificial. Se é verdade que alguns mamíferos complexos podem treinar e proteger a sua descendência durante meses ou anos, poder-se-ia argumentar que o ser humano não alcança a verdadeira viabilidade, pelo menos, algum tipo de autonomia, até que possa responder com convicção à pergunta "você gostaria de batatas fritas com quê?" E mesmo assim, devemos presumir que a criança foi suficientemente bem treinada para ter a disciplina de viver com um salário mínimo. Também devemos presumir que, se a criança sobreviver após os quarenta anos de idade, ela não come qualquer um dos produtos que produto que se vendem através de uma janela de drive-through.

Em conclusão: nem a ciência, nem os tribunais definiram, nem jamais serão capazes de definir, qualquer ponto, além da concepção, em que um ser humano se torna distintivamente humano e, com isso, merecedor dos direitos civis humanos. Quando todo o processo é posto em movimento com a fertilização ou a concepção, não há nenhuma pausa, nenhuma transformação súbita, nenhum momento ou vários momentos em que esse crescimento evolutivo seja outra coisa que não um ser humano no processo de desenvolvimento, um processo que atinge maturidade física perto dos quinze anos de idade e o seu auge com cerca de vinte e um ou mais.

Podemos simplesmente concluir que o debate sobre o assunto vai continuar até que surja algum consenso sobre quando é que um ser humano se torna um ser humano. (...)

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Texto original: Abortion, the Right to Life, and a Woman’s Right to Choose (www.bahaiteachings.org)

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John S. Hatcher é formado em Literatura Inglesa pela Universidade de Vanderbilt e Doutorado em Literatura Inglesa pela Universidade da Georgia (EUA). É professor Emérito na Universidade de South Florida (Tampa, EUA). É também conhecido como poeta, palestrante e autor de numerosos livros sobre literatura, filosofia e teologia e escrituras Baha’is. Entre as suas obras contam-se Close Connections; From the Auroral Darkness: The Life and Poetry of Robert E. Hayden; A Sense of History: The Poetry of John Hatcher; The Ocean of His Words: A Reader's Guide to the Art of Baha'u'llah; and The Purpose of Physical Reality; The Kingdom of Names.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Opinião de 'Abdu'l-Bahá sobre a Bíblia

Em Setembro de 1911, em Londres, ‘Abdu’l-Bahá falou pela primeira vez para uma audiência ocidental, no púlpito do City Temple. Posteriormente teve a oportunidade de escrever as seguintes palavras numa das Bíblias que era usada pelos pregadores daquela igreja.


sábado, 22 de julho de 2017

O propósito da Religião – Agora e Sempre

Por Behrooz Sabet.



Os ensinamentos Bahá'ís apresentam uma forma completamente nova para compreender a religião: a revelação progressiva.

As escrituras Bahá’ís identificam dois objectivos para a religião: construir uma relação espiritual perpétua entre Deus e a humanidade; e adaptar-se às exigências de cada era na história humana.

O primeiro objectivo - a relação perpétua entre Deus e a humanidade - impulsiona o processo de crescimento espiritual em que a humanidade, reconhecendo aquele que é objectivo de todo conhecimento, aprende a desenvolver as suas potencialidades internas. Este primeiro propósito da religião é universal e eterno no seu percurso e acumulativo no seu conteúdo.

O segundo objectivo da religião provoca mudanças e renova as condições sociais dentro do contexto de uma determinada cultura e no âmbito do conhecimento humano. Este objectivo da religião é relativo, temporário e sujeito a mudanças de acordo com as exigências do tempo e do lugar. As escrituras Bahá'ís explicam estes dois objectivos nestes breves textos:
As religiões divinas possuem dois tipos de mandamentos. Primeiro, há aqueles que constituem o essencial ou o espiritual. Essas são a fé em Deus, o adquirir de virtudes... Este é o aspecto fundamental da religião de Deus... Este é o fundamento essencial de todas as religiões divinas, a realidade em si, comum a todas... Em segundo lugar, existem leis e mandamentos que são temporárias e não-essenciais. Estas referem-se aos afazeres e relações humanas. São acidentais e sujeitos a mudanças de acordo com as exigências do tempo e do lugar. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 403)

O propósito de Deus ao enviar os Seus Profetas aos homens é duplo. O primeiro é libertar os filhos dos homens das trevas da ignorância e guiá-los à luz da verdadeira compreensão. O segundo é assegurar a paz e tranquilidade da humanidade, e fornecer todos os meios com os quais eles podem ser estabelecidos. (Gleanings from the Writings of Baha'u'llah, pp. 79-80)
Os dois propósitos da religião estão inter-relacionados e interligados. Cada nova revelação acrescenta mais conhecimento ao processo geral de crescimento espiritual da humanidade, que por sua vez cria um novo modelo para a organização da sociedade humana. Por exemplo, Bahá'u'lláh proclama que, neste dia, o princípio espiritual do amor encontrou um significado universal e um alcance mais amplo. Houve um tempo em que o amor à pátria era um elemento de espiritualidade; mas agora o amor à humanidade constitui a mais alta aspiração espiritual:
... não se deve vangloriar quem ama o seu país, mas quem ama o mundo. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, p. 95)
Consequentemente, como o significado do amor alarga o seu âmbito, a sua correspondente expressão social também precisa de um modelo universal. Nesse sentido, se o amor à pátria exigiu o modelo de Estados soberanos e a construção das nações, o amor ao mundo exige a unidade do planeta e o estabelecimento de uma ordem global.


Bahá'u'lláh ensinou que as grandes religiões mundiais, tal como as revelações do propósito de Deus para o desenvolvimento espiritual e o progresso social da humanidade, têm uma linha comum subjacente à sua natureza básica, valores e propósito; todas elas têm origem divina e juntas constituem uma religião permanente. As revelações sucessivas representam um processo progressivo semelhante aos passos sequenciais de aprendizagem. Na verdade, as escrituras Bahá'ís usam os termos "professor" e "educador" para referir os Profetas e os Manifestantes de Deus e enfatizam que não há diferenças de estatuto entre os Manifestantes de Deus. Diferenças nas afirmações dos vários mensageiros reflectem apenas diversos níveis da maturidade espiritual dos povos de diferentes época, e diferentes exigências do tempo em que a revelação ocorreu:
Atribuímos duas condições a cada um dos Luminares que Se elevam nas Alvoradas da santidade eterna. Uma dessas condições, a condição da unidade essencial, já a explicamos. "Nenhuma distinção fazemos entre qualquer um deles." A outra é a condição da distinção, e pertence ao mundo da criação e às suas limitações. Neste aspecto, cada Manifestante de Deus tem uma individualidade distinta, uma missão definitivamente prescrita, uma Revelação predestinada e limitações especialmente designadas. Cada um deles é conhecido por um nome diferente, é caracterizado por um atributo especial, cumpre uma Missão precisa e é-Lhe confiada uma Revelação particular. (Baha'u'llah, O Livro da Certeza, parag. 171)

É claro e evidente para ti que todos os Profetas são os Templos da Causa de Deus, Que surgem vestidos com diferentes trajes. Se observares com olhos que discernem, contemplá-los-ás habitando no mesmo tabernáculo, voando no mesmo céu, sentados no mesmo trono, proferindo o mesmo discurso e proclamando a mesma Fé. Assim é a unidade dessas Essências do ser, aqueles Luminares de esplendor infinito e imensurável. Portanto, se um desses Manifestantes da Santidade proclamar: "Eu sou o regresso de todos os Profetas", Ele, de facto, fala a verdade. (Idem, parag. 162)

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Texto original: The Purpose of Religion—Now and Forever (www.bahaiteachings.org)

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Behrooz Sabet é professor universitário, doutorado pela State University de Nova Iorque, em Buffalo. Durante mais de 20 anos fez estudos e investigações sobre os cruzamentos entre religião, ciência e cultura no Médio Oriente. É um estudioso de religião, movimentos e pensamento político contemporâneo no Irão. Traduziu e escreveu muito sobre religião, ética, educação, filosofia e temas sociais.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Irão: Pelo menos 11 lojas pertencentes a Bahá’´s encerradas em Ahvaz

Ignorando um veredicto recente do Gabinete Administrativo de Justiça, as autoridades na cidade de Ahvaz encerraram  e selaram as lojas e empresas de pelo menos 11 Bahá'ís, que fecharam os seus negócios em observação de um feriado religioso (entre 8 e 10 de Julho).

De acordo com a lei, os cidadãos podem fechar o estabelecimento comercial até 15 dias por ano, sem qualquer razão específica ou específica. No entanto, esta lei não parece ser aplicável aos cidadãos Bahá'ís. Sempre que os Bahá'ís fecham os seus estabelecimentos ou empresas para observar os seus feriados religiosos em que o trabalho deve ser suspenso, as autoridades são rápidas a actuar e a selar as empresas.

Segundo o HRANA (Human Rights Activists News Agency), a notificação de encerramento oficial declarava que "este encerramento foi ordenado pela Autoridade Judicial (Ministério Público-Adjunto) e será realizado pelas forças de segurança".

Recentemente, o Gabinete Administrativo de Justiça emitiu um veredicto favorável aos cidadãos Bahá'ís de Mazandaran, cujos estabelecimentos e empresas tinham sido encerrados de forma similar, afirmando tinha sido ignorado que o direito legal desses cidadãos de fechar os seus estabelecimentos até 15 dias por ano.

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FONTE: Closure of at Least 11 Baha’i-Owned Businesses in Ahvaz (IPW)

sábado, 15 de julho de 2017

Os Bahá’ís são pacifistas?

Por David Langness.


Pacifismo (nome masculino): 1. atitude de quem rejeita e condena qualquer forma de violência; 2. doutrina que defende o desarmamento das nações e que advoga a resolução dos conflitos internacionais por meios pacíficos
O texto anterior desta série terminou com uma importante citação do Livro Mais Sagrado de Bahá'u'lláh sobre o acto de matar:
... que nenhuma alma mate outra; isto, na verdade, é o que vos foi proibido num Livro que esteve oculto no Tabernáculo da glória. O quê! Mataríeis aquele que Deus ressuscitou, a quem Ele dotou de espírito através de um sopro Seu? Severa, pois, seria a vossa transgressão perante o Seu trono! Temei a Deus, e não levanteis a mão da injustiça e da opressão para destruir o que Ele próprio ressuscitou; pelo contrário, andai no caminho de Deus, o Verdadeiro. (The Most Holy Book, p. 45)
Considerando esta proibição clara como água no livro Bahá’í das leis, como é que os Bahá’ís vêem a autodefesa, a guerra e toda a questão da pena de morte? Mais especificamente, como é que o Livro Mais Sagrado de Bahá’u’lláh, que também permite a aplicação da pena capital para certos crimes, lida com a aparente contradição interna entre essas duas importantes leis sobre o acto de pôr termo a uma vida humana?

Seguramente, este assunto profundo daria facilmente para escrever muitos livros.

Para entender esses princípios, temos de os colocar no contexto de todo o corpo das leis Bahá’ís, que não exige um pacifismo estrito da parte da própria sociedade. Por um lado, os Bahá’ís acreditam que os indivíduos nunca devem prejudicar ou matar outros. De facto, Bahá'u'lláh diz que dar a própria vida é preferível a tirar a vida de outra pessoa:
... prestar auxílio a Deus, neste dia, não consiste nem consistirá, em confrontar ou disputar com qualquer alma; pelo contrário, o que é preferível aos olhos de Deus é que as cidades dos corações dos homens, que são governadas pelas hostes do ego e da paixão, sejam subjugadas pela espada da palavra, da sabedoria e do entendimento. Assim, quem procura ajudar a Deus deve, antes de tudo, conquistar, com a espada da explicação e do significado interior, a cidade do seu próprio coração e protege-la contra a lembrança de tudo salvo Deus, e só então partir para subjugar as cidades dos corações dos outros.

Esse é o verdadeiro significado de prestar auxílio a Deus. A sedição nunca foi agradável a Deus, nem os actos cometidos no passado por certos loucos foram aceitáveis aos Seus olhos. Sabei que ser morto no caminho da Sua complacência é melhor para vós do que matar. (The Summons of the Lord of Hosts, pp. 109-110)
Por outro lado, os Bahá’ís também acreditam que a sociedade, como um todo, tem o direito de usar a força para se defender e proteger:
Os Bahá’ís reconhecem o direito e o dever dos governos a usar a força para a manutenção da lei e da ordem e para proteger o seu povo. Assim, para um Bahá’í, o derramamento de sangue com essa finalidade não é necessariamente um erro essencial. A Fé Bahá’í estabelece uma distinção muito clara entre o dever de um indivíduo de perdoar e "ser morto em vez de matar" e o dever da sociedade de defender a justiça... Na actual condição do mundo, os Bahá’ís tentam manter-se fora dos conflitos mortíferos que assolam os seus semelhantes e evitam derramar sangue em lutas, mas isso não significa que sejamos pacifistas absolutos. (A Casa Universal de Justiça, 9 de Fevereiro de 1967)
Assim, numa perspectiva Bahá’í, as sociedades têm a opção, em circunstâncias terríveis, de usar a força defensiva:
É verdade que os Bahá’ís não são pacifistas, pois defendemos o uso da força ao serviço da justiça e da defesa da lei. Mas não acreditamos que a guerra seja muito necessária; a sua abolição é um dos propósitos essenciais e promessas mais brilhantes da Revelação de Bahá'u'lláh. O seu mandamento específico aos reis da terra é: “Se algum de vós pegar em armas contra outro, levantai-vos todos contra ele, pois isso não é nada senão justiça manifesta”. (Tablet to Queen Victoria, The Proclamation of Baha'u’lláh, 13) O amado Guardião explicou que a unidade da humanidade implica o estabelecimento de uma comunidade mundial, um sistema federal mundial, "... livre da maldição da guerra e das suas misérias... em que a Força se torna serva de Justiça..." cujo executivo mundial "apoiado por uma Força internacional... salvaguardará a unidade orgânica de toda a comunidade". Obviamente isso não é guerra, mas a manutenção da lei e da ordem à escala mundial. A guerra é a tragédia final da desunião entre as nações, onde não existe qualquer autoridade internacional suficientemente poderosa para as impedir de perseguir os seus próprios interesses limitados. Os Bahá'ís pedem, portanto, para servir os seus países de uma maneira não-combatente durante esses conflitos; eles servirão, sem dúvida, numa tal Força internacional como Bahá'u'lláh antevê, quando esta surgir. (De uma carta escrita em nome da Casa Universal de Justiça, 11 de Setembro de 1984)
Da mesma forma, as pessoas quando são atacadas têm o direito à autodefesa, desde que essa autodefesa não degenere em retaliação:
... um Bahá’í não deve se render, mas deve tentar, na medida do possível, defender-se e, mais tarde, apresentar uma queixa às autoridades governamentais. (A Casa Universal de Justiça, 26 de Maio de 1969)
Isto significa, tendo em conta o princípio do direito de uma sociedade a proteger-se, que pode, em casos extremos, executar um criminoso perigoso:
Um indivíduo não tem o direito de procurar vingança, mas o corpo político tem o direito de punir o criminoso. Essa punição tem o objectivo de dissuadir e impedir outros de cometerem crimes semelhantes. É para a protecção dos direitos do homem...

Mas o corpo político tem o direito de preservar e proteger. Não guarda rancor e nem nutre inimizade para com o assassino, mas escolhe prendê-lo ou puni-lo apenas para garantir a protecção dos outros. (‘Abdu'l-Baha, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 309-310)
(...)

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Texto original: Let No Soul Slay Another: are Baha’is Pacifists? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

domingo, 9 de julho de 2017

Dr. William Cormick, o médico que tratou o Báb


Durante o seu cativeiro final, o Báb ficou ferido (mais do que o pretendido) ao ser espancado pelos guardas. Talvez porque os seus ferimentos eram visíveis para todos, as autoridades chamaram o melhor médico da região, o Dr. William Cormick, para O tratar. O relato do Dr. Cormick sobre os seus encontros com o Báb agora é parte da história Bábí-Bahá'í.

Cormick geralmente é descrito (não muito correctamente) como "um médico ocidental" ou "o único ocidental que conheceu o Báb" ou (incorrectamente) como "um médico inglês". Cormick nasceu em Tabriz, filho do Dr. John Cormick, do condado de Kilkenny, na Irlanda. E sua esposa era uma persa cristã. O Dr. John Cormick estabeleceu um consultório médico bem-sucedido e enviou o seu filho William para a Europa para ser educado e formado em medicina. Concluiu os seus estudos de medicina na Universidade de St. Andrews na Escócia, e depois regressou a Tabriz, onde trabalhou como médico.

Em 1850, o Dr. William Cormick estava apenas em Tabriz como resultado da política. Tinha sido médico do Príncipe Herdeiro da Pérsia, Nasir'd-Din Mirza e esperava-se que fosse com ele para Teerão como médico da corte quando o príncipe se tornou Shah em 1850. No entanto, esta deslocação impedida por motivos políticos e ele ficou em Tabriz, onde prosperou a exercer medicina; ficou rico e recebeu várias honras oficiais.

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Sobre este assunto:
-- The man who met the Báb
-- CORMICK, WILLIAM (Encyclopedia Iranica) 
-- Dr William Cormick
-- Dr. Cormick's Accounts of his Personal Impressions of Mirza 'Ali Muhammad, The Báb

sábado, 8 de julho de 2017

Quem tem o direito de matar outra pessoa?

Por David Langness.


No início de 2016, vários relatos de testemunhas de massacres na cidade iraquiana de Mosul começaram a espalhar-se pelo mundo. Diziam que o ISIS - o chamado Estado Islâmico - tinha executado publicamente 19 meninas e mulheres Yazidi prisioneiras inocentes por se recusarem a ter relações sexuais com combatentes do ISIS. As mulheres foram queimadas vivas em gaiolas de ferro, afirmaram várias fontes.

Só o acto de escrever estas palavras já me revolta. Lê-las provavelmente também revoltam o leitor.

Tal como acontece com todas as demonstrações de vil selvajaria humana, eventos como este despertam várias emoções dentro de nós - raiva, fúria, vingança. Queremos compensar esses crimes punindo severamente os perpetradores. Naturalmente, queremos vingança por actos tão hediondos. Após essas mortes horríveis, surgiram apelos de todo o mundo exigindo uma retribuição severa, pedindo que os assassinos fossem levados à justiça, julgados, condenados e executados - pelo fogo.


Supondo que os assassinos tivessem sido capturados, o que recomendaria o leitor que se fizesse com eles? Concordaria que um castigo apropriado seria exactamente o mesmo tipo de terror, dor e morte que infligiram àquelas mulheres inocentes? Esse tipo de justiça olho-para-olho - típica do Antigo Testamento - ainda poderia ser aplicado no mundo de hoje? Temos o direito, enquanto comunidade global, de queimar aqueles que queimam as suas vítimas inocentes?

Os ensinamentos Bahá’ís aparentemente dizem sim a essa questão:
Se alguém destruir intencionalmente uma casa pelo fogo, também a ele queimareis; se alguém deliberadamente tirar a vida de outro, também a ele o matareis. (Bahá'u'lláh, The Most Holy Book, p. 41)
Seguidamente, no mesmo livro, porém, a Casa Universal de Justiça escreve:
Em relação ao incêndio, isso depende do "casa" que é queimada. Há, obviamente, uma tremenda diferença no grau de ofensa entre a pessoa que incendeia um armazém vazio e a que deita fogo a uma escola cheia de crianças. (Idem, P. 204)
Isto indica que existe na lei Bahá’í um reconhecimento do "nível de ofensa" entre crimes contra a propriedade e crimes contra pessoas. Mas no caso das supostas execuções do ISIS, é difícil imaginar um crime mais cruel e premeditado cometido contra tantas pessoas absolutamente inocentes.

Mesmo uma percentagem significativa dos que se opõem à pena de morte, na grande maioria dos casos afirma que a pena de morte deve ficar reservada para alguns dos crimes humanos mais hediondos. Assassinatos em massa, genocídio, tortura e crimes horríveis contra os inocentes geralmente caem nessa categoria. Então, vamos considerar essa questão numa perspectiva Bahá’í: quando - se é que alguma vez – devemos usar a pena de morte?

Em primeiro lugar, os ensinamentos Bahá’ís dizem claramente que apenas a autoridade governamental devidamente constituída pode tomar a decisão final sobre tirar uma vida; nenhum indivíduo, grupo ou organização religiosa pode fazer a mesma coisa:
Os instrumentos que são indispensáveis à protecção imediata, à segurança e à tranquilidade da raça humana foram confiados às mãos dos governantes da sociedade humana. Este é o desejo de Deus e o Seu decreto... (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, CII)
Em segundo lugar, os ensinamentos Bahá’ís dizem que as velhas leis religiosas de um olho por olho foram revogadas e substituídas por novas leis mais humanas:
... de acordo com a lei da Torá se um homem cometesse roubo de um determinado montante, eles cortariam a sua mão. Será praticável e razoável nos dias de hoje cortar a mão de um homem por roubo de um dólar? Na Torá há dez sentenças relativas ao assassinato. Poderiam ser aplicadas hoje? Sem dúvida que não; os tempos mudaram. De acordo com o texto explícito da Bíblia, se um homem alterar ou violar a lei do sábado, ou se ele mexer no fogo durante o sábado, ele deve ser morto. Hoje essa lei está revogada. A Torá declara que se um homem disser uma palavra desrespeitosa ao seu pai, ele deve sofrer a pena de morte. Isso é possível aplicar isto agora? Não; as condições humanas sofreram mudanças. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 404)

[Na Torá] há dez mandamentos sobre o assassino. É possível fazer isso? Essas dez sentenças, relativas ao tratamento dos assassinos, podem ser aplicadas? Os tempos modernos são tais que até a questão da pena de morte - a forma que algumas nações decidiram aplica-la a um assassino - é uma questão debatida. Os sábios estão a consultar quanto à sua viabilidade. ('Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 4, p. 123)
Moisés viveu no deserto. Não havia prisões para castigar os criminosos. Portanto, de acordo com a exigência do tempo, a lei era olho-por-olho e dente-por-dente. É possível aplicar essa lei agora? Na Torá há dez mandamentos referentes ao assassinato. Estas dez sentenças, relativas ao tratamento dos assassinos, não podem ser aplicadas agora. Mesmo em relação à pena de morte, os sábios estão estudando esta questão, pois sustentam que a pena capital deve ser abolida. ('Abdu'l-Bahá, Mahmud’s Diary, p. 320)
Em terceiro lugar, e talvez o mais importante, a lei Bahá’í proíbe matar:
... que nenhuma alma mate outra; isto, na verdade, é o que vos foi proibido num Livro que estava oculto no Tabernáculo da glória. O quê? Mataríeis aquele que Deus despertou, a quem Ele dotou de espírito por um sopro Seu? Severa, pois, seria a vossa transgressão perante o Seu trono! Temei a Deus, e não levanteis a mão da injustiça e da opressão para destruir o que Ele próprio criou; pelo contrário, andai no caminho de Deus, o Verdadeiro. (Bahá'u'lláh, The Most Holy Book, p. 45)
Será que isso significa, no contexto da lei Bahá’í, que qualquer uso de força mortal por um governo é errado - ou só se aplica a indivíduos? Vamos explorar essa questão crucial no próximo texto nesta série.

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Texto original: Who has the Right to Kill another Person? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Os lírios do conhecimento antigo...



Esta citação permite uma leitura mais profunda das palavras de Jesus: “Olhai para os lírios do campo, como eles crescem: não trabalham, nem fiam; E eu vos digo que, nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.” (Mat 6:29-30)

sábado, 1 de julho de 2017

Pena de Morte: Sim ou Não?

Por David Langness.


Uma execução não é simplesmente a morte. É tão diferente da privação da vida como um campo de concentração é da prisão. ... Para que houvesse equivalência, a pena de morte teria de castigar um criminoso tivesse advertido a sua vítima da data em que lhe infligiria uma morte horrível e que, a partir desse momento, o confinasse à sua mercê durante meses. Um tal monstro não se encontra na vida privada. (Albert Camus, Reflexions sur la Guillotine)
Há algumas semanas, um de nossos leitores no site BahaiTeachings escreveu: "Como os é que seguidores Bahá’ís justificam a pena de morte? É um enorme ponto de desencontro com a sua prática. Isto é apenas meu ponto de vista e eu estou à procura de uma resposta."

Por pura coincidência, quando ele enviou o seu comentário, eu já tinha começado a escrever esta série de ensaios sobre a pena de morte; e naquele mesmo dia, votei por correio nas eleições gerais aqui na Califórnia. Nessa eleição, cada eleitor do meu estado teve que fazer uma escolha assustadora sobre a pena capital, e decidir sobre duas propostas de lei sobre a pena de morte.

A Proposta 62 revoga a pena de morte na Califórnia. A Proposta 66 pretende manter e reforçar a pena de morte acelerando o processo de recurso nos casos de pena de morte, que são tipicamente demorados nos tribunais. Se a Proposta 62 passar, o Estado da Califórnia perderá o seu direito de aplicar a pena de morte. Se a Proposta 66 passar, o Estado executará mais pessoas. Eu tive que decidir, como todos os eleitores da Califórnia, se eu queria parar ou acelerar a pena de morte para as mais de 700 pessoas que estão no Corredor da Morte na Califórnia.

Considere estas opções contrastantes. Como seria o seu voto? Poucas eleições resultam realmente em decisões imediatas de vida ou morte. Mas nesta eleição, e em muitos referendos similares sobre pena capital em todo o mundo, o seu voto sobre a pena de morte pode realmente resultar na execução de alguém - ou salvar a vida dessa pessoa.

Qual a sua opinião sobre esta pesada questão moral sobre a pena de morte? Alguns acham que a pena capital é necessária para a justiça e a dissuasão; outros consideram que isso equivale a castigo desnecessariamente cruel e incomum - e que o Estado nunca deve assumir o papel de um assassino.

Estudos de opinião globais sobre o assunto mostram que a pena capital tende a polarizar as pessoas. A organização Gallup, que tem feito estudos em diferentes países sobre a questão, encontra apoio e oposição à pena de morte em níveis aproximadamente iguais na maioria das nações. Um grupo sem fins lucrativos, o The Death Penalty Information Center, recolhe e colige regularmente várias pesquisas de diferentes países e relata os seus resultados. Essas sondagens indicam que uma pequena maioria (52%) dos russos, por exemplo, apoia a pena capital; enquanto dois terços dos australianos preferem a prisão perpétua pelo crime de homicídio e não a pena de morte. Na Grã-Bretanha, o apoio à pena de morte caiu para menos de 50% pela primeira vez. Nos Estados Unidos, de acordo com o Pew Research Center, cerca de metade de todos os americanos (49%) apoiam a pena de morte, enquanto 42% se opõem a ela - o nível mais baixo de apoio em mais de quatro décadas.


A maioria dos países do mundo aboliu a pena de morte, na prática ou por lei. Cinquenta e oito países ainda utilizam a pena de morte; por outro lado, 134 países tornaram-na ilegal ou deixaram de a aplicar. Há seis países a mantêm apenas para circunstâncias especiais como crimes de guerra e genocídio.

As Nações Unidas apresentaram o Segundo Protocolo Facultativo à Convenção Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, que exige uma moratória sobre a pena de morte - e 81 países ratificaram-na. A União Europeia proíbe a pena de morte, tal como o faz o Conselho da Europa. Apenas dois governos democráticos do mundo desenvolvido - Estados Unidos e Japão - ainda a permitem; e 19 dos 50 estados americanos proíbem a pena de morte; em breve serão 20 estados se a Proposta 62 da Califórnia passar.

Numa perspectiva mundial, as sondagens mostram que o apoio e o uso da pena capital diminuíram durante as últimas cinco décadas. Essa tendência global de longo prazo, no entanto, afecta apenas 40% da população do planeta - uma vez que 60% ainda vivem em nações como a China, Japão, Coreia do Norte e Estados Unidos.

Então, como é que os ensinamentos Bahá’ís lidam com a punição dos crimes mais hediondos - estabelecem a pena de morte ou permitem a prisão perpétua? A resposta é ambas:
A lei de Bahá’u’lláh prescreve a pena de morte por assassinato e incêndio, com a alternativa de prisão perpétua. (The Most Holy Book, pág. 204)

... se alguém tirar deliberadamente a vida de outro, também a ele matareis. ... Se condenardes o incendiário e o assassino à prisão perpétua, isso será permitido de acordo com as disposições do Livro. (Bahá'u'lláh, The Most Holy Book, págs. 203-204)
Quando questionado sobre este versículo no Livro Mais Sagrado de Bahá’u’lláh, Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í:
"... afirmou que apesar da pena capital ser permitida, foi definida uma alternativa - prisão perpétua - com a qual os rigores de tal condenação podem ser seriamente atenuados." Ele afirma que "Bahá’u’lláh deu-nos uma escolha e, portanto, deu-nos liberdade para usar o nosso próprio critério dentro de certas limitações..." (Idem, págs. 204-205)
Claramente, então, um futuro sistema de jurisprudência Bahá’í oferece à sociedade uma opção entre a pena capital e a prisão perpétua para os crimes mais graves. Qual seria a sua escolha? Moralmente, qual é correcta?

Convido o leitor a explorar estas importantes questões nos próximos textos desta série. Examinaremos os ensinamentos e as leis Bahá’ís sobre pena de morte e sobre o assassinato; exploraremos como os Bahá’ís encaram esta questão moral crítica; e tentaremos prever a situação futura de uma sociedade onde a justiça prevalece. E também vos vou contar o sentido do meu voto.

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Texto original: Voting to Execute: Do You Believe in Capital Punishment? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

Traduções de Escrituras Bahá’ís e Traduções da Bíblia



É sabido que, actualmente, as Escrituras Bahá’ís são inicialmente traduzidas para inglês, e essas traduções em inglês são usadas como base para a tradução para outras línguas.

Também sabemos que as primeiras traduções oficiais das nossas Escrituras foram feitas por Shoghi Effendi. E sabemos que Shoghi Effendi ao traduzir as Escrituras Bahá’ís para inglês, adoptou o estilo literário da Bíblia versão King James.

A adopção desse estilo reflecte-se, entre outras coisas, na forma como são construídas algumas frases e na terminologia adoptada na tradução de alguns termos. Além disso, podemos perceber que quando os textos das escrituras Bahá’ís incluem uma citação bíblica, o texto dessa citação é igual ao que consta da tradução KJV.

Para o leitor de língua inglesa e de origem cristã, torna-se relativamente fácil identificar citações, reconhecer paralelismos entre os textos, identificar algumas raízes cristãs da Fé Bahá’í e apreciar a beleza das nossas Escrituras.

Assim, é legítimo questionarmos: se as traduções inglesas das Escrituras Bahá’ís reflectem um determinado estilo de linguagem bíblica, então que estilo de linguagem bíblica deveriam reflectir as traduções portuguesas das Escrituras Bahá’ís?

Encontrar uma resposta para esta questão deve preceder qualquer trabalho de tradução das Escrituras Bahá’ís para português.

Apesar das minhas limitações - não sou biblista, nem linguagista, nem exegeta e os meus estudos formais em religião são limitados - proponho-me fazer uma reflexão que ajude à escolha de um estilo para a tradução das Escrituras Bahá’ís e mostrar algumas consequências dessa escolha.

As traduções da Bíblia para português

A primeira questão que podemos colocar é: quais são as principais traduções da Bíblia em Português.

Poderíamos identificar algumas das principais traduções integrais:
Não incluo a tradução do Prof. Frederico Lourenço nesta lista apenas porque ainda não está completa.

A maioria dos comentários e opiniões que recolhi junto de amigos e conhecidos - que considero entendidos na matéria - indicam que a tradução de João Ferreira de Almeida (JFA) é preferível em relação às restantes.

Não vou contestar ou apoiar esse ponto de vista. Mas há um aspecto sobre a tradução JFA que me parece relevante: foi publicada em 1693. O seu estilo manteve-se e foi aceite por muitas igrejas. Tal como a tradução inglesa KJV (datada de 1611), a tradução de JFA parece ter passado o teste do tempo.

Note-se ainda que existem variantes da tradução JFA, nomeadamente a Revista e Corrigida (RC), a Revista e Actualizada (RA) e a Corrigida Fiel (CF). A variante RC é considerada a King James em língua portuguesa.

Assim, parece-me que existem algumas justificações para usar a tradução da Bíblia de JFA, na Edição Revista e Corrigida de 1898 (actualizada em 1968 e 2001) publicada pela Sociedade Bíblica de Portugal, disponível online aqui.

Vejamos alguns exemplos dos reflexos literários nos textos em inglês e as opções que temos em português.

A expressão Day of Judgment

Na tradução inglesa do Livro da Certeza, encontramos a seguinte frase no parágrafo 117:
… they have idly contended that whereas the Day of Judgment is inevitable…
Pergunta: qual a melhor tradução para a expressão Day of Judgment na frase citada?

O dicionário da Porto-Editora apresenta as seguintes possibilidades para o termo Judgment:
1. julgamento;
2. sentença; decisão judiciária
3. discernimento; espírito crítico; bom senso;
4. opinião; parecer;
5. juízo
Perante estas possibilidades, é interessante lembrar que a expressão Day of Judgment é usada na tradução KJV. Vejamos alguns exemplos:

Mt 12:36
But I say unto you, That every idle word that men shall speak, they shall give account thereof in the day of judgment.
2Pe 2:9
The Lord knoweth how to deliver the godly out of temptations, and to reserve the unjust unto the day of judgment to be punished:
1Jo 4:17
Herein is our love made perfect, that we may have boldness in the day of judgment: because as he is, so are we in this world.

Estes versículos, na tradução JFA(RC) são:

Mt 12:36
Mas eu vos digo que, de toda a palavra ociosa que os homens disserem, hão de dar conta no dia do juízo.
2Pe 2:9
Assim, sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar os injustos para o dia de juízo, para serem castigados;
1Jo 4:17
Nisto é perfeito o amor para connosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós, também, neste mundo.

Estes três versículos levam-me a optar pela expressão “Dia do Juízo” para tradução da expressão Day of Judgment. Outros versículos bíblicos onde surge este termo confirmam esta opção.

Assim, a tradução para a frase da Livro da Certeza poderia ser:
…defenderam futilmente que como o Dia do Juízo é inevitável…

O termo Foolish

Na tradução inglesa do Livro da Certeza, encontramos a seguinte frase no parágrafo 28:
… when the reins of mankind will have fallen into the grasp of the foolish and ignorant.
Perguntamos: qual a melhor tradução para a palavra foolish na frase citada?

O dicionário da Porto-Editora apresenta as seguintes possibilidades para o termo foolish:
1. néscio, insensato, tolo
2. disparatado
3. louco
4. ridículo
Tendo presente estas possibilidades, é interessante ver como a palavra foolish é usada na tradução KJV. Podemos perceber que a palavra surge com mais regularidade na literatura sapiencial, nos textos de Jeremias e no Evangelho de S. Mateus. Vejamos alguns exemplos:

Pr 14:7;
Go from the presence of a foolish man, when thou perceivest not in him the lips of knowledge.
Je 5:4
Therefore I said, Surely these are poor; they are foolish: for they know not the way of the LORD, nor the judgment of their God.
Mt 25: 1-2
Then shall the kingdom of heaven be likened unto ten virgins, which took their lamps, and went forth to meet the bridegroom. And five of them were wise, and five were foolish.

As traduções JFA destes versículos são:

Pr 14:7
Vai-te à presença do homem insensato, e nele não divisarás os lábios do conhecimento.
Je 5:4
Eu, porém, disse: Deveras estes são uns pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do Senhor, o juízo do seu Deus.
Mt 25:1-2
Então o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo. E cinco delas eram prudentes, e cinco loucas.

Estes três versículos levam-nos a optar pelos termos “louco” ou “insensato” para tradução da palavra foolish. Outros versículos bíblicos onde surge este termo confirmam esta opção.

Assim, a tradução para a frase da Livro da Certeza poderia ser:
… quando as rédeas da humanidade tiverem caído nas mãos dos loucos e dos ignorantes.

O termo Chalice

Na tradução inglesa do Livro da Certeza, encontramos a seguinte frase no parágrafo 15:
By their sanction and authority, every Prophet of God hath drunk from the chalice of sacrifice…
Perguntamos: qual a melhor tradução para a palavra chalice na frase citada?

O dicionário da Porto-Editora apresenta as seguintes possibilidades para o termo chalice:
1. taça
2. RELIGIÃO cálice
Conhecendo estas possibilidades, constatamos depois que o termo chalice não consta na tradução KJV. No entanto, existe um episódio bíblico em que o conceito é referido, apesar de ser usada outro termo.

Lc 22:42
Saying, Father, if thou be willing, remove this cup from me: nevertheless not my will, but thine, be done.

Este versículo, na tradução JFA é:

Lc 22:42
Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálix, todavia não se faça a minha vontade, mas a tua.


Apesar do texto em inglês não usar o mesmo termo, podemos perceber o texto bíblico e Livro da Certeza referem o mesmo conceito. Por esse motivo, parece-me correcto usar a palavra “cálice”. Assim, a tradução para a frase da Livro da Certeza poderia ser:
Com a sua sanção e autoridade, todo o Profeta de Deus bebeu do cálice do sacrifício…

Conclusão

Em diversos textos das Escrituras Bahá’ís podemos encontrar citações de textos bíblicos devidamente referenciados; mas também podemos identificar alusões a episódios bíblicos e uso de conceitos bíblicos, apesar de não estarem referenciados na tradução inglesa.

Tal como dissemos anteriormente, se tradução inglesa reflecte o texto bíblico, então é expectável que a tradução portuguesa também o faça. Isto exige que o tradutor esteja familiarizado com os textos bíblicos e os seus diversos estilos literários, e as traduções actualmente existentes.

Actualmente, não existem na Comunidade Bahá’í de Portugal, biblistas, linguagistas, ou pessoas com estudos formais em religião que possam dar uma opinião devidamente fundamentada sobre a adopção de um estilo de tradução das nossas Escrituras.

Assim as opções que se tomarem em termos de adopção de um estilo de tradução poderão ser sempre questionadas. No entanto, e por uma questão de consistência, penso que as traduções em curso para português de Portugal deverão seguir um único estilo. E como referi acima, todas as informações que recolhi levam-me a acreditar que esse estilo seja o JF Almeida (Revisto e Corrigida).

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Referências:

-- Translation and provisional translations
-- Translating the Bahá’í Writings
-- When Baha'u'llah's writings were translated into English in the late 19th century/early 20th century, why did they not translate it into 20th century English
-- The King James Bible's Impact on the Translation of Scriptures in English