sábado, 25 de abril de 2020

E se Deus fosse uma Mulher?

Por Nasim Mansuri.


A maioria das religiões refere-se a Deus com pronomes masculinos. Mas será que nos podemos dirigir a Deus como se fosse feminino?

Quando era criança, aceitei simplesmente que nos referíssemos a Deus como “Ele”, com todo o imaginário paternal mental que isso implica. Mas à medida que explorei o conceito Bahá’í de igualdade entre homens e mulheres, e participei em conversas sobre a linguagem de género, comecei a questionar a razão para haver um Deus “masculino”.

As Escrituras Bahá’ís têm muitas citações que abordam explicitamente a igualdade de género. Veja-se este exemplo: “Enquanto a realidade da igualdade entre homem e mulher não for plenamente estabelecida, o mais elevado desenvolvimento social não é possível”. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace). Mas as Escrituras também referem Deus com pronomes masculinos – e simultaneamente afirmam que Deus está para lá da imaginação humana:
Aquilo que imaginamos não é a Realidade de Deus; Ele, o Incognoscível, o Impensável, está muito além do mais elevado conceito do homem. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks)
Se Deus é incognoscível, porque O referimos com um pronome masculino, algo mundano como o género? (E também é verdade que a citação anterior também usa “homem” para se referir a toda humanidade. Falarei disso mais tarde)

Os ensinamentos Bahá'ís não descrevem Deus tal como Ele é frequentemente representado – um velho lá no céu. É mais correcto decrevê-Lo com outros termos populares, como “O Universo”, ou “A Verdade”, ou “Um Poder Superior”. Apesar de não serem muito precisos, estes termos fazem-nos lembrar algo muito mais intangível, muito mais abrangente.

Os ensinamentos Bahá'ís dizem claramente que Deus não tem uma forma física:
Dizer que Deus é uma realidade pessoal não significa que Ele tenha uma forma física ou que Se assemelhe a um ser humano. Manter essa crença seria mera blasfémia. (escrito em nome de Shoghi Effendi, numa carta a um crente Bahá’í)
No entanto, a humanidade durante muito tempo ao longo da sua história referiu-se a Deus com pronomes de género. No fundo, é mais fácil. E apesar de Deus não ser uma pessoa, Ele é uma realidade pessoal. Quando falamos da influência de Deus nas nossas vidas, do nosso sentido de lealdade e amor para com Deus, e dos ensinamentos de Deus, é muito mais fácil dirigirmo-nos a este Ser Supremos como se Ele fosse uma pessoa.

Na história da maioria das culturas, o conceito de um ser todo-poderoso apenas poderia parecer plausível se fosse atribuído a uma figura masculina. E ao longo dos séculos, os Manifestantes de Deus ao transmitirem os Seus ensinamentos à humanidade também tiveram de usar uma linguagem que as pessoas entendessem. O conceito de um Deus “feminino” poderia ter sido excessivo numa altura em que as pessoas mal compreendiam a noção elementar de igualdade de entre homens e mulheres. Também poderia ter provocado mal-entendidos sobre Deus, levando as pessoas a acreditar que existe mais do que um.

As Escrituras Bahá'ís esclarecem que Deus é uma realidade que transcende os aspectos materiais, nomeadamente o género. E explicam que o uso de uma linguagem de género, particularmente nos casos em que se dirige a toda a humanidade como “homem” não é apenas uma questão de convenção. É uma questão de linguagem e tradução; mas isso não implica que as mulheres sejam inferiores aos homens:
Homem é um termo genérico que se aplica a toda a humanidade. A frase bíblica “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” não significa que a mulher não tenha sido criada. A imagem e semelhança também se aplica a ela. Em persa e em árabe existem duas palavras distintas que foram traduzidas para inglês como homem: uma significa homem e mulher colectivamente, a outra distingue homem como masculino e mulher como feminino. A primeira palavra e o seu pronome são genéricos e colectivos; a segunda aplica-se apenas ao masculino. Acontece o mesmo em hebreu. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace)
Adoro o facto dos ensinamentos Bahá’ís serem tão claros sobre a igualdade de homens e mulheres, mesmo no tema da linguagem. Tanto Mulheres como homens podem manifestar atributos divinos; nenhum deles está acima do outro. Aos olhos de Deus, o género dos seres humanos não tem significado:
Na realidade, Deus criou toda a humanidade, e na perspectiva de Deus não existe distinção entre homem e mulher. Aquele cujo coração é puro, é aceitável aos Seus olhos, seja homem ou mulher. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace)
A Casa Universal de Justiça diz-nos que a linguagem de género ao referir-se a Deus não tem significado. A nossa percepção é profundamente influenciada pelos padrões patriarcais que prevalecem na nossa sociedade:
No caso dos termos genéricos das traduções em inglês das Escrituras Bahá’ís, a tendência de considerar estes termos como sendo aplicáveis apenas a seres masculinos é um reflexo de uma sociedade dominada por homens, que prevaleceu durante muito tempo, e em relação à qual existe uma reacção das mulheres que pretendem igualdade e um reconhecimento legítimo… a linguagem é um fenómeno vivo e, sem dúvida, o significado desejado dos termos genéricos tornar-se-á mais evidente à medida que a influência do compromisso Bahá’í com a igualdade dos sexos se espalhar mais amplamente na sociedade humana. (em nome da Casa Universal de Justiça, 26 de Setembro de 1993)
A Fé Bahá’í reconhece que a linguagem é uma “coisa viva” – constantemente sujeita às mudanças na nossa cultura e na nossa compreensão da realidade. À medida que as nossas palavras mudam, também muda o nosso entendimento de palavras já existentes. Assim, à medida que transformamos a sociedade, o nosso entendimento sobre Deus também se aprofundará.

Com esta transformação, a sociedade pode começar a compreender que as qualidades “masculinas” normalmente associadas com Deus – força, poder, conhecimento – também são femininas. E pode começar a ver as qualidades “femininas” – como amor, carinho e compaixão – como inerentemente divinas e, portanto, tão dignas de louvor quanto as qualidades viris que tendemos a considerar masculinas.

E será que isto significa que podemos referir Deus com pronomes femininos? Penso que sim. Mas referir Deus com um género específico apenas para facilitar um diálogo nunca deve obscurecer a verdade: Deus está para lá da compreensão humana, para lá do género, para lá de uma forma física ou qualquer conceito humano que possamos ter.

Ao trabalhar para estabelecer a igualdade entre homens e mulheres em todos os aspectos das nossas vidas, vamos compreendendo Deus cada vez mais.

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Texto original: Is God a Woman? (www.bahaiteachings.org)

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Nasim Mansuri é uma apaixonada pela escrita. Nascida no Paraguai, tem servido a comunidade Bahá’í em vários países. Actualmente estuda Engenharia Química e Escrita Profissional no Massachusetts, onde é activa na dinamização de várias actividades Bahá’ís.

sábado, 18 de abril de 2020

Reflexões sobre a Revelação do Báb

Por Ingo Hoffman.


Há mais de um ano, com o aproximar do bicentenário do nascimento do Báb, senti que devia tentar escrever um livro – como se fosse uma homenagem pessoal – dedicado a esta celebração Bahá'í global.

Enquanto escrevia os vários capítulos desse livro, fui levado a reflectir sobre o advento da revelação do Báb e nos sinais que apontam para ela, no seio da minha herança cultural, no coração da Europa.

Tornou-se claro para mim que a minha viagem espiritual se iniciou no capítulo 13 do livro Respostas a Algumas Perguntas, de 'Abdu'l-Bahá, e me trouxe às minhas grandes preocupações sobre o aquecimento global – um caminho que não foi fácil de percorrer, como percebi ao longo deste ano!

Vivo num país – a Alemanha – onde existe um consenso esmagador em todos os segmentos da sociedade que as alterações climáticas provocadas pelo homem estão bem fundamentadas em factos e análises científicas, e que a humanidade deve tomar medidas e assumir responsabilidade pelo aquecimento global.

Estou confortável ao afirmar isto após uma longa carreira como físico e como crente convicto no princípio Bahá'í de equilíbrio entre ciência e religião, como duas formas complementares para entender a realidade. Também acredito que tendo crescido numa área – Munique – onde não posso ignorar o significado da arte Cristã, como materialização daquilo que incitou as pessoas no íntimo dos seus corações e das suas crenças religiosas; a outra face da moeda é a realidade científica. No decorrer deste processo, muitas coisas ficaram mais claras para mim: o termo “apocalipse” tem um significado muito mais amplo do que a maioria das pessoas pensam.

Tendo em consideração a cada vez maior percepção dos desafios à nossa frente – não apenas as alterações climáticas, mas também os crescentes desastres ambientais e o aumento das ameaças à paz mundial – comecei a perceber que se está a espalhar entre nós um novo tipo de ansiedade secular apocalíptica. Percebo uma preocupação global crescente sobre um possível colapso de toda a nossa civilização, juntamente com uma percepção de que o nosso espaço de acção está a diminuir. Assim, não é surpreendente que a palavra “apocalipse” tenha vindo a ser mais utilizada em debates públicos e opiniões, durante a última década.

Quando pensava em tudo isto, lembrei-me da interpretação de 'Abdu'l-Bahá sobre algumas das visões proféticas de S. João de Patmos no livro do apocalipse, o último livro do Novo Testamento. De facto, a crença comum da Cristandade – partilhada por crentes antigos e actuais – sempre viu estes sinais apocalípticos como relacionados com o fim da “velha terra e do velho céu”. Tradicionalmente, os Cristãos conhecem estas profecias relacionando-as com o regresso de Cristo e a “Nova Jerusalém” descendo do “novo céu”.

No entanto, no livro Respostas a Algumas Perguntas, 'Abdu'l-Bahá comenta que há sempre um significado exterior nos versículos do Apocalipse, mas também uma interpretação mais profunda e um significado simbólico:
De igual modo, [no Livro do Apocalipse] a religião de Deus é descrita como a Cidade Santa ou a Nova Jerusalém. Claramente, a Nova Jerusalém que desce do céu não é uma cidade de pedra e cal, de tijolo e argamassa, mas antes, a religião de Deus que desce do céu e é descrita como nova. ('Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised version, p. 77)
Referindo-se ao capítulo 12 do Livro do Apocalipse, 'Abdu'l-Bahá apresenta um significado totalmente novo, descrevendo-o como uma narrativa alegórica do nascimento da revelação do Báb.

Para pessoas habituadas à perspectiva Cristã, isto pode ser surpreendente: abre-se um novo capítulo de leitura do apocalipse bíblico que nos leva à história e tradição Islâmicas, e não se fica pelo Cristianismo. Obviamente, o Báb apareceu neste horizonte e declarou a Sua missão em 1844 como a “porta” para Bahá'u'lláh – e simultaneamente alargou ainda mais os significados do Livro do Apocalipse.

A interpretação incrível de 'Abdu'l-Bahá descreve a “mulher no céu” da visão de S. João, que está vestida como uma noiva vestida com o sol, e coma lua debaixo dos pés:
Esta mulher é essa noiva, a religião de Deus que desceu sobre Maomé. O sol com que ela se vestia, e a lua sob os seus pés, são os dois governos abrigados à sombra dessa religião: o persa e o otomano, pois o símbolo da Pérsia é o sol e o do Império Otomano é a lua crescente. (Idem)
No Livro do Apocalipse, a mulher simbólica dá à luz uma criança – a revelação do Báb – enquanto um dragão vermelho com sete cabeças se prepara para devorar o seu filho assim que nascer. Na verdade, o dragão é uma metáfora que representa a dinastia Omíada que nos primeiros anos do Islão, ansiava matar todos os descendentes de Maomé por temer perder o poder.

Ao longo de dois mil anos de interpretação Cristã, esta mulher representou primeiramente a “verdadeira fé” (como mediador entre Deus e a Sua igreja), mais tarde representou a própria igreja e por fim representou Maria, a mãe de Jesus. O dragão foi sempre visto como o inimigo da igreja ou da verdadeira fé: nos primeiros anos era uma metáfora representando o rei Herodes ou o imperador Nero, e durante a Reforma era o Papa romano. Não esqueçamos o seguinte: no Livro da Revelação, S. João não atribui nomes às personagens das suas visões proféticas – provavelmente por uma boa razão. Isto abriu espaço para interpretações segundo as necessidades de cada época; mas o que acontece é que as profecias apenas ficam claras quando se cumprem.

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Texto original: Reflections on the Revelation of the Bab (www.bahaiteachings.org)

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Ingo Hofmann é doutorado em física pela universidade de Munique e professor na Goethe-University, em Frankfurt (Alemanha). Nos anos mais recentes trabalho como representante para assuntos externos da Comunidade Bahá'í da Alemanha É autor do livro Apokalypse im Umbruch der Zeit (BoD, 2019) onde apresenta e desenvolve o tema deste artigo.

sábado, 11 de abril de 2020

A bela e triste história de amor do Báb e Sua Esposa

Por Kathy Roman.


Sou uma pessoa muito sentimental e adoro ler uma emocionante história de amor - e quando a história é verdadeira, então ainda melhor!

Uma das minhas narrativas preferidas na história da Fé Bahá’í é a história do Báb e da mulher que Ele apreciava acima de todas as outras: a Sua esposa Khadijih Bagum.

Tudo começou quando o Báb e Khadijih eram crianças. Eram primos em segundo grau e brincavam juntos, até que chegaram à idade em que, segundo as tradições islâmicas da sociedade persa, já não era permitido que estivessem juntos e se vissem. Quando o Báb completou 23 anos, a Sua mãe começou a procurar uma esposa para Ele.

Na mesma ocasião, Khadijih, que tinha cerca de 20 anos, teve um sonho vívido:
Uma noite vi no mundo dos sonhos, Fátima, a filha de Maomé, vindo a nossa casa e desejando que uma de nós se casasse com o seu filho. Eu e as minhas irmãs recebemo-la com afecto e cortesia. Quando ela se sentou, olhou-nos intensamente; depois levantou-se, aproximou-se de mim e beijou a minha testa. (Munirih Khanum, Episodes in the life of Munirih Khanum, Marriage of Khadijah to the Bab, pp. 32-33.)
Khadijih, acrescenta:
Na manhã seguinte, levantei-me e senti-me leve e feliz, mas tinha vergonha de contar o meu sonho a alguém. Na tarde desse mesmo dia, a mãe do Báb veio a nossa casa. Juntamente com as minhas irmãs, recebemo-la, e para minha surpresa, tal como tinha visto no meu sonho, ela levantou-se, aproximou-se de mim sorrindo, beijou a minha testa e abraçou-me. Após uma conversa normal, ela saiu. A minha irmã mais velha segredou-me ao ouvido que ela tinha vindo pedir a minha mão para o filho. Respondi: “Tenho tanta sorte!” Depois relacionei o meu sonho da noite anterior e disse a realização do meu sonho tinha trazido imensa alegria ao meu coração. (Idem)
Carta do Báb à Sua Esposa
O Báb e Khadijih casaram logo a seguir; o jovem casal estava muito apaixonado. Mas pouco depois do casamento, Khadijih teve um sonho assustador. Um leão feroz apareceu no seu pátio e ela agarrou-o com os braços à volta do pescoço. O leão arrastou-a pelo pátio dando duas voltas e meia. Quando Khadijih acordou na manhã seguinte, contou o sonho horrível ao seu marido. Ele explicou-lhe o significado do sonho – as suas vidas juntas não durariam mais do que dois anos e meio. E assim começou uma mudança nas suas vidas, com o casal a preparar-se para as muitas adversidades que viriam.

Um ano mais tarde, Khadijih, grávida do primeiro filho, ficou muito doente durante parto, colocando em risco a sua vida e a vida do bebé. A mãe do Báb assustada pela mãe e pela criança, pediu ao Báb que salvasse ambos. O Báb pegou num espelho e escreveu nele uma oração. Pediu à sua mãe que segurasse o espelho em frente da sua esposa Khadiji. Seguidamente, nasceu um menino a quem deram o nome de Ahmad. Mas pouco depois do seu nascimento, o bebé morreu.

A mãe de Báb ficou muito zangada e perturbada por o filho não ter conseguido salvar a mãe e o bebé, mas o Báb explicou que Deus não o destinara a ter filhos.

Seguidamente o Báb, que amava imensamente a sua mulher, escreveu-lhe estas palavras de conforto:
Ó bem-amada!... Não serás uma mulher, como outras mulheres, se obedeceres a Deus na Causa da Verdade, a maior das Verdades… Sê paciente em tudo o que Deus decretou. Em verdade, o teu filho Ahmad está com Fátima, a Sublime, no Paraíso santificado. (H.M. Balyuzi, The Bab, p. 47)
Khadijih, iluminada e espiritualmente amadurecida, notou que o seu amado marido não era um homem como os outros. Mas não tinha percebido o quão diferente ele era, até uma noite inesquecível. Algum tempo antes do Báb declarar a Sua Missão, Khadijih Bagum teve um encontro fascinante com o seu marido. No meio da noite, o Báb levantou-Se da cama e não voltou durante horas. Preocupada, Khadijih foi à Sua procura.
... ela viu a sala superior da Casa imersa em luz. Perguntou a si própria qual seria a fonte de toda aquela luz, e de onde teriam vindo todas aquelas lamparinas. Mas esta não era luz tangível; era luz divina, e ela não estava a ver com os seus olhos físicos, mas com a sua visão interior… Ali viu um Sol que iluminava o mundo e uma lua brilhante no meio da sala, com as Suas mãos levantadas em direcção ao céu. Apesar dos seus olhos estarem fixos na luz deslumbrante que emanava do Seu ser, um sentimento de temor e medo apossou-se dela. Queria sair dali, mas não era capaz de se mover. O seu temor cresceu tanto que se sentia entorpecida. (citado por Baharieh Rouhani Ma’ani, Twin Divine Trees, p. 34)
Na manhã seguinte, o Báb disse-lhe:
Sabei que o Deus Omnipotente se manifesta em Mim. Eu sou Aquele Cujo advento o povo do Islão esperou durante mil anos. Deus criou-Me para uma grande Causa, e tu testemunhaste a revelação divina. Apesar de eu não ter desejado que Me visses nesse estado, Deus, porém, assim o quis para que não houvesse qualquer espaço no teu coração para dúvida ou hesitação. Idem, p. 35)
Khadijih Bagum disse que assim que ouviu O Báb a proferir aquelas palavras, ela acreditou n’Ele… e o seu coração ficou calmo e seguro. Posteriormente, o Báb revelou uma oração para a sua amada Khadijih, para ser recitada nos momentos em que Ele estivesse ausente ou quando ela receasse pela sua segurança. Ele disse:
Na hora da tua perplexidade, recita esta oração antes de ires dormir. Eu próprio aparecer-te-ei e afastarei a tua ansiedade. (Nabil, The Dawn Breakers, p. 143)
O Báb e a Sua esposa Khadijih partilharam uma vida intensa de sacrifício, num momento que seria mais tarde conhecido como “A Hora da Alvorada” – o início de uma nova religião mundial. Apesar da feroz perseguição religiosa, separação forçada, e perda trágica do filho recém-nascido, os dois permaneceram firmemente dedicados um ao outro, e a Deus. O Báb descreveu a mágoa que sentiu quando se separaram:
Meu doce amor... Deus é minha testemunha que desde o momento da nossa separação, a mágoa tem sido tão intensa que não se pode descrever... (H.M. Balyuzi, Khadijih Bagum: Wife of The Bab)
Os dois recém-casados, muito apaixonados, estiveram pouco tempo juntos neste mundo. Mas durante esse curto período de tempo apreciaram cada dia e superaram cada adversidade. O seu amor resistiu até ao fim do tempo e estarão unidos em todos os mundos de Deus.

Tal como o Báb predisse, dois anos e meio depois do sonho de Khadijih com o leão, Ele foi martirizado… mas essa é outra história bela e trágica.

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Texto original: The Bittersweet Love Story of The Bab and His Beloved Wife (www.bahaiteachings.org)

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Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

sábado, 4 de abril de 2020

A propósito da Quarentena, algumas analogias com Eventos na História Bahá'í

Por Irina Kenig.


Com a pandemia do Coronavirus (COVID-19) a paralisar o mundo, parece que a vida fez uma pausa e deu-nos tempos para reflectir sobre a condições actuais do mundo e reavaliar aquilo que é importante para nós. Apesar de serem tempos desafiadores, também são ricos em oportunidades que podemos descobrir. Como Bahá'í, tento perceber o sentido nestes tempos incertos, vendo-os com um olhar espiritual e uma perspectiva histórica.

Do ponto de vista espiritual, vejo este tempo como uma extensão do mês do Jejum Bahá'í. Nos próximos meses, vamos experimentar a privação, e praticaremos a moderação, a generosidade e a paciência. Tal como no Jejum, este é um momento em que podemos reflectir profundamente sobre como a situação actual nos pode ajudar a ficamos mais ligados aos princípios da Fé Bahá'í e como podemos servir melhor a humanidade.

Nestes dias podemos escolher, com mais frequência do que anteriormente, orações especiais para procurar ajuda e orientação. Na Epístola de Ahmad, Bahá'u'lláh diz:
Lembra-te dos Meus dias durante os teus dias, e da Minha angústia e Meu exílio nesta remota prisão.
Este versículo levou-me a traçar paralelos entre os eventos da história da nossa Fé e a actual situação em que nos encontramos. Assim, se estou preocupada sobre as semanas em que terei de ficar no conforto da minha casa e na companhia da Netflix (ha ha ha) quer dizer, da minha família, então talvez deva lembrar-me de como Bahá'u'lláh e os Seus companheiros ficaram presos na fortaleza de Akká durante dois anos. Quem já esteve em peregrinação e teve o privilégio de ver, sabe que a cela de Bahá'u'lláh ocupou era do tamanho de um pequeno quarto. E se me perturba o facto de não podermos apertar as mãos uns dos outros e termos de manter uma distância de dois metros entre nós, então o que pensar daqueles peregrinos que caminhavam durante dois meses desde a Pérsia até Akká para se encontrarem com a Abençoada Beleza, mas era-lhes negado o acesso à cidade e apenas tinham a oportunidade de O ver através da janela da Sua cela, a uma grande distância, acenando-Lhe e depois regressando a casa? [1]

Muitos países fecharam as suas fronteiras e algumas famílias estão separadas sem saber quando estarão novamente juntas. Graças a Deus, muitos de nós temos formas de manter o contacto através do Skype ou do Viber. No entanto, esse não foi o caso do Báb, quando foi expulso e exilado de Shiraz. Ele teve de ficar separado da Sua jovem esposa com quem tinha casado recentemente, e da Sua respeitável mãe. Infelizmente, nunca voltaram a estar juntos. Na verdade, durante muito tempo, estas duas importantes mulheres da Sua vida não tiveram conhecimento da Sua execução.[2] Numa outra ocasião, Bahá'u'lláh, apesar ter recebido a ordem de exílio para a Sua família, teve de deixar o Seu filho Mirza Mihdi, que tinha três anos de idade, devido à saúde do menino. A família tinha medo de que a longa e dura viagem de Teerão para Bagdade, durante o inverno, fosse um perigo para a sua vida. Mirza Mihdi só se juntou à família oito anos mais tarde.[3] Esta longa separação dos seus pais seria muito dolorosa para uma criança, mesmo nos nossos dias em que temos tecnologias que nos mantêm ligados. Então, quão mais difícil deve ter sido viver algo semelhante, no meio do século XIX, quando não existiam essas tecnologias?

A varanda de uma familia Baha'i, em Itália
Durante uma quarentena voluntária, ainda posso fazer compras de bens essenciais ou sair para passear; no entanto, durante o Seu encarceramento em Akká, Bahá'u'lláh não tinha esta possibilidade. Podemos imaginar o quão imensamente feliz Ele ficou quando, após sete anos de prisão domiciliária, entrou pela primeira vez no Jardim de Ridvan, tão carinhosamente preparado para Ele por 'Abdu'l-Bahá, para que pudesse apreciar aquela vegetação deslumbrante.

Hoje se nos lamentamos pelo facto de termos de ficar em casa com todas as comodidades e na companhia dos nossos entes queridos, talvez seja útil lembrar o Báb. Privado de qualquer conforto, no frio intenso dos meses de inverno quando a Sua barba ficava coberta de gelo após as Suas abluções [4] e as Suas mãos gelavam e já não conseguia escrever, o Báb nem sequer tinha uma lamparina para iluminar o Seu quarto. Durante a maior parte do tempo de encarceramento em Mah-Ku, Ele apenas tinha um companheiro, Siyyid Husayn-i-Yazdi. [5] E se eu ficar sem víveres ou abastecimentos, tudo o que tenho de fazer é encomendar o que preciso com um clique do mouse. As minhas encomendas serão entregues à minha porta após algumas horas. No entanto, o Báb tinha de encomendar os abastecimentos através de um acompanhante de confiança, e tinha de esperar pela sua encomenda durante semanas ou meses. Numa ocasião, o Báb pediu que Lhe comprassem mel. Quando o recebeu, o Báb ficou desiludido porque tinha sido excessivamente caro. Pediu que o mel fosse devolvido e advertiu os comerciantes para que não cobrassem demasiado pelos seus produtos. [6] Isto é algo que podemos relacionar com estes tempos de crise, quando os retalhistas aumentaram os preços dos produtos mais essenciais.

Por fim, este tempo de angústia global faz-me pensar nos heróis de Shaykh Tabarsi. Isolados no interior do forte, privados de alimentos, comeram cintos de cabedal e ervas, mas não permitiram que os seus espíritos desanimassem ou que as suas mentes esquecessem o grande objectivo que pretendiam alcançar. [7] Sacrificaram-se tremendamente por todos nós, as futuras gerações de Bahá'ís que levariam o estandarte da unidade por todo o mundo. Que sejamos inspirados pelo seu heroísmo e sacrifícios, e guiados pelo seu exemplo, que consigamos espalhar os Ensinamentos de Bahá'u'lláh com que a humanidade encontrará consolo. Bahá'u'lláh deu-nos esta oração que podemos usar em momentos de crise:
Ó Tu Cujos testes são um remédio curador para aqueles que estão próximos de Ti, Cuja espada é o desejo ardente de todos os que Te amam, Cujo dardo é o desejo mais querido dos corações que por Ti anseiam, Cujo decreto é a única esperança dos que reconheceram a Tua verdade! Imploro-Te, pela Tua doçura divina e pelos esplendores da glória do Teu semblante, que faças descer sobre nós, do Teu retiro nas alturas, aquilo que nos permita aproximar de Ti. Torna firmes, então, os nossos pés na Tua Causa, ó meu Deus; e esclarece os nossos corações com o esplendor do Teu conhecimento, iluminando-os com o brilho dos Teus Nomes.

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NOTAS:
[1] - Baharieh Rouhani Ma'ani, Leaves of the Twin Divine Trees, p. 149
[2] - Idem, p. 40
[3] - Idem, p. 100
[4] - Nabil, The Dawn-Breakers, p 252
[5] - The Bab, Persian Bayan, Unit 2, chapter 1
[6] - Nabil, The Dawn-Breakers
[7] - Idem.
[8] - Baha'u'llah, Baha'i Prayers

Texto original: How Isolation Can Help Us Draw Parallels to Events in Baha'i History (www. https://www.bahaiblog.net/)

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Irina é uma Bahá'í que gosta de estudar a história da Fé Bahá'í. Vive na Califórnia com o marido e a filha. É artista, dedica-se à fotografia e dedica-se à escrita. Nos seus tempos livres gosta de cozinhar e de estar com a família. Aprecia o contacto com a natureza e cultiva árvores de fruto. Colecciona livros, lê muito e é visitante assídua de museus; gosta de viajar pelo mundo e explorar outras culturas.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

O Coronavirus, os nossos Idosos e a nossa Obsessão pela Juventude

Por Michelle Schiefelbein.


Como resultado do recente surto de coronavírus, senti uma necessidade urgente de reflectir sobre os nossos idosos na sociedade americana.

Refiro-me a eles como idosos, e não como velhos, porque muitas vezes a palavra “velho” é usada como sinónimo de decrépito ou frágil. O termo idoso sugere um ser humano que possui um grande conhecimento, sabedoria e experiência de vida para partilhar connosco.

No contexto do vírus, considero como idosos aquelas pessoas com mais de 60 anos, o limite do grupo etário mais vulnerável ao coronavírus. Esta pandemia colocou os nossos idosos no centro das atenções, fazendo-nos pensar colectivamente neles de uma forma que raramente o fazemos. Esta consciência faz-nos pensar no papel dos nossos idosos na nossa sociedade, a forma como os protegemos e evitamos magoá-los.

Apesar de alguns jovens não prestarem atenção a estes idosos, mostrando imprudência, a maior parte dos grupos sociais americanos está agora de olho nos nossos idosos. Sejam pai ou mãe, avós, tios ou tias, ou um colega precioso, ou um mentor ou amigo, todos estamos provavelmente a pensar nos idosos que queremos ajudar a sobreviver a esta pandemia. Tal como sugerem os ensinamentos Bahá’ís, devemos considerar destes idosos nas nossas vidas como parentes próximos:
Não fiqueis satisfeitos enquanto cada um daqueles com vos preocupais seja para vós como um membro da vossa família. Considerai-vos uns aos outros como um pai, ou como um irmão ou como uma irmã, ou como uma mãe, ou como um filho. Se conseguirdes isto, as vossas dificuldades desvanecer-se-ão, e sabereis o que fazer. Este é o ensinamento de Bahá’u’lláh. ('Abdu'l-Bahá, Abdu’l-Baha in London)
Ao reflectir sobre os nossos idosos, penso essencialmente no seu valor, comparado com a posição em que a nossa sociedade os coloca na hierarquia social. De uma forma geral, a nossa cultura, com as suas normas sociais orientadas aos jovens e a sua natureza materialista, não parece valorizar ou respeitar de alguma forma os nossos idosos.

Estou a falar de uma forma geral, porque existem certamente na nossa sociedade indivíduos, famílias e micro-sociedades que valorizam os seus idosos, e que têm um grande respeito pelas suas opiniões, experiência e sabedoria que partilham. Nestas circunstâncias, os idosos são vistos como parte de um todo – um valor que nos leva a procurar os seus conselhos e opiniões.

Mas a sociedade americana em geral não funciona assim. Em vez disso tende a privilegiar os jovens em vez dos idosos, e consequentemente, desvaloriza a sabedoria e a experiência adquirida. Se querem um exemplo, vejam a mentalidade “OK, boomer”, para usar o slogan que despreza e rejeita os pensamentos e opiniões de toda uma geração mais velha.

Claro que os Estados Unidos, devido ao seu colonialismo inicial, são uma sociedade essencialmente materialista, predominantemente liderada homens brancos jovens. Têm dúvidas? Prestem atenção aos programas de TV, filmes, administradores de empresas, apenas como exemplo. Os ensinamentos Bahá'ís dizem-nos que neste momento da história humana temos tendência a centrar as nossas atenções nos aspectos materiais da vida e não nos espirituais.
O amor é o princípio fundamental do propósito de Deus para o homem, e Ele ordenou que nos amassemos uns aos outros tal como Ele nos ama. Todas estas discórdias e litígios que ouvimos em toda a parte apenas tendem a aumentar o materialismo.

A maior parte do mundo está afundada no materialismo, e as bênçãos do Espírito Santo são ignoradas. Existem tão poucos sentimentos espirituais verdadeiros, e o progresso do mundo é maioritariamente material. Os homens estão a tornar-se como bestas mortais, pois sabemos que não têm sentimentos espirituais – não se voltam para Deus, não têm religião! Estas noções pertencem apenas ao homem e se ele não as tiver, ele torna-se um prisioneiro da natureza e não é melhor que um animal. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks)
Embora sempre tenha estado claro para mim, quanto mais velha fico, especialmente sendo mulher, mais óbvio para mim se torna este facto: a desvalorização e minimização dos nossos idosos. A maioria dos idosos confirma isso. Pessoalmente, considero o envelhecimento fascinante, especialmente quando começo a perceber as perspectivas que apenas a idade me pode dar.

Conhecemos uma fórmula que se aplica de forma geral à sociedade americana: Juventude + Beleza = Poder

Há muito tempo que isto é uma verdade. Claro que as definições de beleza variam, assim como as razões para as pessoas idosas terem um papel menos relevante na sociedade. Por exemplo, os idosos em cargos proeminentes na sociedade são maioritariamente homens brancos – incluindo a maioria dos 500 CEOs da revista Fortune – e o seu estatuto sénior pode apenas indicar que já foram jovens naquela mesma posição. Algumas mulheres também chegam lá, mesmo não sendo jovens ou bonitas; mas não são a norma.

Talvez seja necessária uma pandemia para mudar tudo isto - para nos fazer tomar consciência dos contributos poderosos e profundos que os idosos podem ter.

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Texto original: Coronavirus, Our Elders and a Youth-Obsessed Society (www.bahaiteachings.org)

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Michelle Schiefelbein tornou-se Baha’i em 1998. Vive no Missouri com a sua família. É assessora jurídica, proprietária de uma empresa e foi directora executiva da Thunder Eagle Ridge Youth Camp & Retreat, Inc

sábado, 28 de março de 2020

Compreender a nossa Responsabilidade Colectiva durante a Crise

Por Makeena Rivers.


Perante a epidemia do coronavírus (COVID-19), tornou-se evidente que no nosso papel de membros da família humana temos de cuidar uns dos outros. É óbvio que todos estamos interligados.

À medida que os vários governos e instituições sociais foram agindo, as desigualdades sociais que afligem a humanidade tornaram-se o centro das atenções. Em meados de Março, quando se começou a falar do encerramento das escolas publicas, muitos de nós em Nova Iorque começámos a ficar preocupados com as crianças que não têm comida ou estabilidade em casa devido à pobreza ou negligência sistemática que moldou as suas vidas. Com o desenrolar da crise do coronavírus, fiquei a pensar sobre a instabilidade habitacional e a quantidade de pessoas sem abrigo que existem na minha cidade. Tenho pensado sobre como as pessoas em países com sistemas de saúde mais limitados tem mais probabilidade de sofrer do que nos países economicamente mais desenvolvidos. E nos Estados Unidos, os especialistas dizem que existe uma disparidade significativa na quantidade e na qualidade dos recursos de saúde disponíveis.

As Escrituras Bahá'ís enfatizam que nos devemos afastar de um pensamento centrado em nós próprios e nas nossas famílias e, em vez disso, pensar no bem-estar de toda a humanidade:
Toda a alma imperfeita está centrada em si própria e pensa apenas no seu próprio bem. Mas à medida que os seus pensamentos se expandem, ela começa a pensar no bem-estar e conforto da sua família. Se as suas ideias se alargarem um pouco mais, a sua preocupação será a felicidade dos seus concidadãos; e se continuarem a expandir-se ela pensará na glória da sua terra e da sua raça. Mas quando as ideias e perspectivas alcançam o maior grau de expansão e atingem o estado da perfeição, então ela estará interessada na exaltação da humanidade. Então ela será uma amiga de todos os homens e uma buscadora do bem-estar e prosperidade de todas as terras. Isto é um indicador de perfeição. (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, #34)
Pessoas sem-abrigo, Lisboa
Para encontrar soluções, temos de aprender a libertarmo-nos do individualismo e da ganância que contribuíram para a forma como este vírus atingiu a humanidade. Podemos aprender mais com este momento; não devemos ficar apenas a aprender a criar rotinas de isolamento para o nosso próprio conforto. Podemos pensar na forma como a sociedade funciona – na forma como não promove a sustentabilidade e como o enorme fosso entre ricos e pobres conduziu às circunstâncias desesperadas dos historicamente oprimidos entre nós. Podemos pensar como, devido ao nosso sistema económico e ao nosso materialismo, sentimos muitas vezes que não podemos dar prioridade à nossa saúde em detrimento do nosso emprego. E o individualismo é tão grande que frequentemente respondemos a uma crise pensado apenas naquilo que nós vivenciámos.

Em vez de pensar apenas em nós próprios, podemos usar este tempo a contribuir para o bem daqueles que estão ao nosso redor. Podemos olhar para nós próprios e meditar sobre os obstáculos que nos impedem de sermos generosos, conscienciosos e amorosos uns com os outros. Tal como dizem as Escrituras Bahá'ís:
É homem aquele que se esquece dos seus próprios interesses para bem dos outros. Ele abdica do seu próprio conforto pelo bem-estar dos outros. Ou melhor, ele deseja abdicar da sua própria vida pela vida da espécie humana. Um tal homem é a honra do mundo da humanidade. Um tal homem é a glória do mundo da humanidade. Um tal homem é aquele que alcançou a bem-aventurança eterna. Um tal homem está perto do limiar de Deus. Um tal homem é a própria manifestação da alegria eterna. (‘Abdu’l-Bahá, Foundations of World Unity, p.42)
No decorrer dos próximos dias, independentemente do que possa acontecer, poderemos ver que temos de pensar nos outros. Temos de tomar cuidados de distanciamento social conscientes de que mesmo a mais insignificante das nossas decisões pode ter um impacto significativo em pessoas por todo o mundo. Podemos ocupar o nosso tempo a confortar os outros ou a procurar novas formas de aliviar o sofrimento dos outros. Também podemos desenvolver uma consciência profunda sobre a complexidade dos problemas da humanidade e tentar perceber que mesmo algo tão difícil quanto isto tem implicações morais.

Quando mudamos a forma como andamos pelo mundo, mudamos a nossa cultura. Quando fazemos isto, estamos a dar o primeiro passo para transformar o mundo.

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Texto original: Embracing Our Collective Responsibility During Crisis (www.bahaiteachings.org)

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Makeena Rivers é uma recém-graduada pela Columbia School of Social Work (Nova Iorque) onde se focou em assuntos de raça, reclusão, educação e classe. Anteriormente tinha estudado psicologia e sociologia na Emory University.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Iémen: autoridades houthis ordenam a libertação de todos os prisioneiros Bahá’ís

Numa mensagem televisiva emitida hoje no Iémen, o presidente do Conselho Político Supremo Houthi, Mahdi al-Mashat, ordenou a libertação de todos os prisioneiros Bahá’ís e perdoou o Sr. Hamed bin Haydara, cuja sentença de morte havia sido decretada há três dias por um tribunal de recurso em Sana’a.

A Comunidade Internacional Bahá’í saudou este anúncio e apelou à sua rápida aplicação. Os seis Bahá’ís a serem libertados – cujo encarceramento ilegal em Sana’a durante vários anos se deveu às crenças religiosas, tendo que enfrentar acusações infundadas – incluem Hamed bin Haydara, Waleed Ayyash, Akram Ayyash, Kayvan Ghaderi, Badiullah Sanai, e Wael al-Arieghie

Espera-se que a decisão de hoje implique a anulação das acusações contra um outro grupo de 20 Bahá’ís, a devolução de todos os bens e propriedades Bahá’ís e a autorização de funcionamento das instituições Bahá’ís. Tal como outros cidadãos iemenitas, aos Bahá’ís deve ser permitido praticar livremente a sua religião, segundo o princípio universal da liberdade de crença ou religião. Os Bahá’ís do Iémen contribuíram e continuarão a contribuir para a vida do seu país e bem-estar dos seus compatriotas.

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FONTE: Houthi authorities order the release of all Baha’i prisoners in Yemen (BIC)

Unir o Mundo para Combater Pandemias

Por David Langness.


Imaginem este cenário: algures no mundo surge uma nova pandemia no mundo, uma ainda mais séria e mortal que o Covid-19, e um governo global recém-estabelecido age rapidamente para resolver a crise.

Porque os departamentos de saúde e agências de investigação dos vários países do mundo – finalmente interligados e adequadamente financiados para a investigar e divulgar informação sobre novos surtos – têm capacidade para descobrir e isolar infecções virais emergentes mais rapidamente do que no passado, podemos agora identificar rapidamente a nova doença, mesmo antes dela se disseminar para fora do país onde surgiu.

Assim que este processo científico ocorre, o parlamento mundial reúne numa sessão de emergência, decidindo selar as fronteiras do país onde surgiu o novo surto e parando as suas fábricas e indústrias. Nesse país em quarentena, não voam aviões, e não há automóveis, comboios ou navios que atravessem as suas fronteiras – mas os médicos e enfermeiras das ONG’s do mundo e as agências humanitárias acorrem ao país para ajudar a salvar a enorme quantidade de doentes afectados pelo vírus.

Então, num espírito de unidade, o resto da humanidade mobiliza-se rapidamente para ajudar os seus semelhantes humanos na nação atormentada. Cientistas e organizações científicas, agora livres de regulamentações restritivas e burocracias, desenvolvem rapidamente novas vacinas e tratamentos. A ajuda económica de todos os outros países é enviada para auxiliar aqueles que ficaram temporariamente sem emprego, ou cujas empresas foram afectadas. Todo o planeta e todos os seus recursos se dedicam à contenção, isolamento e alívio da crise num local antes que esta se espalhe por todos os outros locais.

Não surpreendentemente, esta nova abordagem global unida tem menos custos e salva muito mais vidas do que o antigo método em que se permitia que todo o mundo fosse infectado e depois tentava-se resolver o problema em cada país.

Esta breve futurologia sobre um mundo futuro potencialmente unido dirigido e governado por um governo soberano internacional é apresentado pela Fé Bahá’í, a religião global que propõe um grande princípio singular: a unificação de toda a humanidade:
Não haja dúvidas quanto ao propósito que anima a Lei mundial de Bahá'u'lláh. Longe de visar a subversão das fundações existentes da sociedade, procura alargar a sua base, remodelar as suas instituições de forma harmoniosa com as necessidades de um mundo em constante mudança. Ela não pode entrar em choque com nenhuma lealdade legítima, nem pode debilitar as lealdades essenciais. O seu propósito não é abafar a chama de um patriotismo inteligente e são nos corações dos homens, nem abolir o sistema de autonomia nacional tão essencial para evitar os males da centralização excessiva. Não ignora, nem tenta suprimir a diversidade de origens étnicas, de clima, de história, de língua e tradição, de pensamento e hábitos, que diferenciam os povos e as nações do mundo. Ela exige uma lealdade mais ampla, uma aspiração maior do que qualquer outra que tem animado a raça humana. Insiste na subordinação dos impulsos e interesses nacionais às necessárias exigências de um mundo unificado. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha'u'llah, pags. 41-42)
Hoje, infelizmente, ainda não alcançámos esse mundo unificado. Em vez disso, estamos a funcionar com um sistema antiquado de duzentas nações soberanas, em que nenhuma tem os recursos, a autoridade ou o dinheiro necessários para combater as graves crises virais mundiais, que cada vez mais poem em perigo todo o planeta e todos os povos.

Assim, se o objectivo de um governo é a protecção dos seus cidadãos, então os governos falharam tremendamente.

Muitas destas falhas devem-se ao nosso sistema nacionalista descoordenado e gerador de conflitos, que já existe há alguns séculos, e que agora tenta actualizar-se com as realidades do comércio internacional, da tecnologia, da crescente consciência de cidadania mundial e da cada vez maior inter-dependência entre as pessoas deste planeta. Na verdade, as nações do mundo continuam a funcionar com uma miscelânea de estruturas e sistemas ineficientes, leis e regulamentos desajustados, todos eles dificultando a sua capacidade para responder de forma rápida, adequada e eficiente às verdadeiras ameaças globais.

Devido a este não-sistema confuso e desordenado, somos constantemente forçados a enfrentar novos desafios com velhas ferramentas. Não conseguimos responder adequadamente a ameaças mundiais com uma mescla de métodos e abordagens marcadamente nacionais, especialmente quando muitas nações dão mais importância ao desenvolvimento económico do que à saúde da população. Em vez de proteger e salvaguardar o ambiente natural, a maioria dos países (e os seus sistemas legais) privilegiam o dinheiro e o poder em detrimento do povo. Gastamos mais no poderio militar do que na educação e na saúde. Uma amálgama de leis e regulamentos contraditórios entre si impedem o progresso e atrasam a resposta a qualquer verdadeira emergência, com uma pandemia.

É verdade que temos organismos internacionais como a Organização Mundial de Saúde e várias agências das Nações Unidas, mas estas padecem de sub-financiamento e restrições constantes que as impedem de fazer mais do que lançar advertências não vinculativas às várias nações. Consequentemente, as nações desperdiçam constantemente os seus recursos, competem desnecessariamente com outros países com armamentos e guerra, e não conseguem colher os benefícios da força, da protecção, da segurança e economias de escala que um mundo federado poderia proporcionar.

Cientificamente, sabemos agora que as doenças se espalham para lá das fronteiras nacionais devido à falta de unidade e coordenação. Pandemias como o Covid-19 têm facilidade em espalhar-se pelo mundo e infectar-nos a todos, principalmente devido às nossas estruturas governativas do século XVII, tristemente desactualizadas, que não conseguem tratá-las e contê-las de forma rápida e eficiente.

No fundo, os vírus não são nacionais, nem estrangeiros; são universais – o que significa que para os derrotar necessitamos uma abordagem universal.

Sabemos agora, cientificamente, que iremos experimentar muitas mais destes ataques virais globais no futuro. O Covid-19, apesar de ser mortal para alguns, pode vir a mostrar-se menos maligno e potencialmente menos perigoso do que a febre hemorrágica Crimeia-Congo, o vírus Ébola, o vírus Marburg, a febre de Lassa, o vírus Nipah e outras doenças henipavirais, a febre do Vale do Rift, e muitas outras doenças infecciosas virais ainda não identificadas. De facto, os recentes surtos de SARS, MERS e Covid-19 representam o início de uma era de patogenias desconhecidas com potencial para provocar graves pandemias internacionais.

Imaginemos o seguinte: o que aconteceria se um novo vírus, diferente e mais mortal que o Covid-19, surgisse amanhã? Teria o seu país de origem capacidade, clarividência ou autoridade para fazer imediatamente tudo o que fosse possível para evitar e estancar a disseminação da doença? Provavelmente, não. Em vez disso – e porque temos uma confusão e desorganização de centenas de governos nacionais com insuficiente capacidade de coordenação entre si – essa nova doença espalhar-se-ia rápida e furiosamente, tal como fez o Covid-19, e ameaçaria o bem-estar físico e económico de todo o mundo.

Claramente, esta pandemia está a enviar-nos um aviso bem perceptível: livrem-se do velho e ineficiente sistema de governação humana antes que a confusão dos conflitos e interesses cruzados permitam que aflições ainda piores aconteçam. Temos de implementar um sistema universal capaz de resolver problemas universais. Não podemos esperar que os vírus respeitem as pessoas. Eles aguardam oportunidade de se propagar, não olhando a nacionalidades, religiões, classes ou raças. É toda a espécie humana que está a ser atacada. E isso significa que temos de responder urgentemente como espécie, como uma família humana unida.

E quais são as alternativas que os ensinamentos Bahá'ís recomendam? Acima de tudo os Bahá'ís acreditam que devemos juntar as nações deste planeta numa única comunidade, um sistema de governo federal:
A unidade da raça humana, tal como antecipada por Bahá'u'lláh, implica o estabelecimento de uma comunidade mundial em que todas as nações, raças, credos e classes estão íntima e permanentemente unidas, e em que a autonomia dos seus Estados membros, e a liberdade e iniciativa pessoais dos indivíduos que as compõem, estão definitiva e completamente salvaguardadas.

Nessa sociedade mundial, ciência e religião, as duas mais poderosas forças da vida humana, reconciliar-se-ão, cooperarão e desenvolver-se-ão harmoniosamente...

Rivalidades, ódios e intrigas entre nações cessarão e a animosidade e o preconceito racial serão substituídos pela amizade, compreensão e cooperação raciais. As causas de luta religiosa serão permanentemente removidas, as barreiras e as restrições económicas serão completamente abolidas, e a desmesurada distinção entre classes será suprimida. A indigência, por um lado, e a acumulação grosseira de bens, por outro, desaparecerão. A enorme energia que se gasta e desperdiça na guerra, seja económica ou política, será consagrada a objectivos, como o alargamento do alcance das invenções humanas e o desenvolvimento técnico, o aumento da produtividade da humanidade, o extermínio da doença, o alargamento da investigação científica, a melhoria do nível de saúde física, o aperfeiçoamento e refinamento do cérebro humano, a exploração dos recursos insuspeitos e não utilizados do planeta, o prolongamento da vida humana e a promoção de qualquer outro meio que estimule a vida intelectual, moral e espiritual de toda a raça humana. (The World Order of Bahá'u'lláh, p. 203)
Consegue imaginar isto? Na verdade, é o que desejam os Bahá'ís. E os Bahá'ís até fazem mais do que isso: eles trabalham activamente todos os dias para a unificação mundial. Gostaríamos de contar com a sua ajuda.

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Texto original: How World Unity Could Stop Pandemics (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA. 

sábado, 21 de março de 2020

Escolher entre o Amor e o Pânico durante a epidemia de Coronavirus

Por Gouya Zamani.


Tenho notado o quanto ficámos nervosos na última semana – correndo em pânico para os supermercados, açambarcando comida enlatada, comida congelada, papel higiénico e desinfectante para as mãos como se fosse o fim do mundo. Isto fez-me pensar muito sobre a forma como estamos a enfrentar esta crise do coronavírus. Esta enorme incerteza deixou as pessoas muito ansiosas, e assim surgiu a tempestade perfeita.

A cobertura mediática constante mostrando consumidores a comprar freneticamente quantidades insensatas de bens essenciais assusta muitos de nós e leva-nos a fazer a mesma coisa. Mas o que é que se passa realmente? As pessoas estão à procura de uma sensação de controlo fazendo compras desenfreadamente, e isso pode ser uma falsa sensação de controlo. Não me interpretem mal. Todos precisamos de estar preparados com comida e outros bens, mas uma acumulação exagerada mostra que a nossa mentalidade de privilegiados não permite que os outros tenham o suficiente.


Como podemos evitar esta armadilha da ansiedade? Lançarmo-nos ainda mais no consumismo pode não ser aquilo que agora precisamos. Talvez existe uma visão mais clara que possamos adoptar durante esta epidemia para que não fiquemos tão perturbados pela incerteza dos acontecimentos.

Podemos usar este tempo em que estamos a trabalhar em casa ou em quarentena para reflectir e pensar mais profundamente sobre o significado da mensagem que estamos a ser forçados a enfrentar. Como evitamos a armadilha da ansiedade? As Escrituras Bahá’ís dizem-nos claramente que existe uma lição espiritual em tudo o que a humanidade enfrenta. Esta crise do coronavírus pode ser o impulso para ficar espiritualmente preparado para qualquer emergência ou desastre que possa acontecer. Açambarcar ou acumular em excesso não alivia a nossa ansiedade. Na verdade, até pode aumentá-la.

As Escrituras Bahá’ís também nos dizem que existe uma força espiritual em jogo. A força óbvia neste momento é a força da unicidade da humanidade. Bahá’u’lláh, o Profeta fundador da Fé Bahá’í, escreveu que “o bem-estar da humanidade, a sua paz e segurança são inatingíveis excepto quando a sua unidade estiver firmemente estabelecida” (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, CXXXI).

Vemos ao nosso redor que a aflição é uma só, e que é uma aflição para todos. Tal como Bahá’u’lláh escreveu, “somos todos frutos de uma só árvore e folhas do mesmo ramo”.

Assim, posso começar por mim própria. Pergunto-me como posso pôr os meus princípios em prática junto da minha família e dos meus vizinhos? Como pode cada um de nós fazer a diferença neste momento?

Em vez de açambarcar, podemos continuar a construir comunidades relações de vizinhança onde partilhamos bondade, sabedoria, alimentos e bens essenciais, para nos ajudarmos uns aos outros durante estes tempos difíceis. A nossa família decidiu contactar os vizinhos, abrir a despensa à comunidade e fazê-los saber que é melhor para todos nós sofrermos um pouco do que uma família sofrer muito. Fizemos saber aos nossos vizinhos que os amamos, e que este vírus é uma advertência de que estamos todos juntos nisto. As Escrituras Bahá’ís dizem-nos:
A interdependência dos povos e nações da terra, independentemente do que os líderes das forças divisivas possam dizer ou fazer, é um facto consumado. A sua unidade na esfera económica é agora compreendida e reconhecida. O bem-estar de uma parte significa o bem-estar do todo, e a aflição de uma parte leva a aflição ao todo. (Shoghi Effendi, The Promised Day Is Come)
Sejamos realistas! É com unidade, amor, empatia e consciência espiritual que aliviamos o medo e a ansiedade que vemos à nossa volta. E com amor que podemos enfrentar os maiores obstáculos neste mundo, mesmo quando se trata do coronavírus.

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Texto original: Choosing Love Over Panic During the Coronavirus Outbreak (www.bahaiteachings.org)

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Gouya Zamani é administradora da Cake Second Skin Jewelry e colaboradora do Tahirih Justice Center. Licenciou-se no Art Institute de Seattle e fez a sua carreira no mundo da moda. Tem uma vasta experiência como empresária tendo gerido operações nos EUA, Brasil, China e Itália. Acredita firmemente que a educação é a única forma de diminuir a ignorância e todas as formas de preconceito. A sua missão como Bahá’í e activista inspira pessoas de todas as religiões na defesa de crianças desfavorecidas.

quinta-feira, 19 de março de 2020

5 Passos para manter a paz de espírito durante o surto de COVID-19

Por Kathy Roman.


Uma nova epidemia - que agora se tornou pandemia - está a perturbar o equilíbrio do mundo. Como estamos a reagir? Sentimo-nos ansiosos ou calmos?

No dia 11 de Março de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o surto de COVID-19 como pandemia. Esta nova pandemia é provocada por um membro da família do coronavírus que nunca tinha estado em contacto com os humanos. O COVID-19 é uma doença respiratória que os especialistas acreditam ter origem animal.

Apesar do vírus poder ser mortal, as estatísticas preliminares indicam que a maioria dos infectados com o vírus apenas tem sintomas moderados, e a esmagadora maioria das pessoas que contrai a doença pode recuperar plenamente.

No entanto, já morreram muitas pessoas devido ao COVID-19, e na China, onde a doença teve origem, a taxa de mortalidade atingiu os 2,3% - um valor mais elevado do que a pandemia da Gripe Espanhola no início do século XX. (ver relatório do Centro Chinês de Controlo e Prevenção de Doenças, de Fevereiro de 2020, Journal of the American Medical Association, aqui)

Assim, é importante ter presente que, enquanto os cientistas trabalham diligentemente nas soluções e tentam desenvolver uma vacina, há uma coisa que continua plenamente sob nosso controlo: a nossa paz de espírito.

Com base nisto, aqui ficam cinco estratégias para nos ajudar a navegar nestas incertezas:

1. Manter a Calma

O pânico durante a doença não ajuda ninguém. Não precisamos de ser vítimas do medo ou da incerteza, que podem ser contraproducentes e consumir a nossa energia. Uma atitude positiva e um sistema imunitário forte são a nossa melhor linha defensiva. Os ensinamentos Bahá’ís lembram-nos que manter a situação em perspectiva e focarmo-nos na gratidão e em vez do medo são o melhor remédio para a ansiedade.
Mantem-te calmo, sê forte, sê grato e torna-te uma lâmpada cheia de luz, para que as trevas da tristeza sejam aniquiladas e o sol da alegria eterna se erga no lugar da alvorada do coração e da alma, brilhando resplandecente. (‘Abdu’l-Bahá, Tablets of ‘Abdu’l-Bahá)

Quando a calamidade atacar, sê paciente e fica tranquilo. Por muito aflitivos que os teus sofrimentos possam ser, não te perturbes, e com confiança perfeita na graça abundante de Deus, enfrenta a tempestade de tribulações e provações ardentes. (‘Abdu’l-BaháSelections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, #35)

2. Estar informado

A desinformação é agressiva; por isso, não podemos ficar à mercê de informação pouco fiável ou sensacionalista. Infelizmente, no início do surto do COVID-19 houve pessoas de origem asiática que foram vítimas de agressões raciais e disseminaram-se os preconceitos contra os asiáticos. Segundo um artigo recente no The Washington Post: “A OMS pediu aos organismos governamentais que tomassem medidas para impedir a discriminação contra populações específicas, pois a estigmatização pode acelerar a disseminação da epidemia ao levar os indivíduos marginalizados a esconder as infecções e a evitar procurar tratamento.”

Ao obtermos informações de fontes credíveis e cientificamente correctas, evitamos superstições, preconceitos e reacções ilógicas. As fontes credíveis incluem:



3. Estar Protegido

Segundo o Center for Disease Control and Prevention, “a melhor forma de prevenir a doença e evitar ficar exposto a este vírus”. As formas de nos protegermos incluem:

  • Tapar a boca e o nariz quando se espirra.
  • Lavar as mãos durante 20 segundos (pelo menos) antes de comer e frequentemente ao longo do dia, especialmente quando se regressa a casa depois de ter estado num espaço público.
  • Manter objectos em que tocamos regularmente (computadores, telemóveis/celulares, interruptores, etc) minuciosamente limpo. Evitar tocar no nariz, boca e olhos.
  • Beber muitos líquidos.
  • Ingerir comida saudável e evitar comer fora de casa.
  • Manter o nível de stress no mínimo.


4. Ficar em casa

Os especialistas recomendam que todas as pessoas devem praticar o distanciamento social; é importante manter espaço físico entre as pessoas para diminuir a velocidade de disseminação do vírus.

Se você se sentir doente, a melhor solução para uma recuperação rápida pode passar por ficar em casa, descansar e ter cuidado consigo próprio. Fale com o médico (ou com as linhas telefónicas de emergência) se tiver sintomas semelhantes à gripe. As pessoas vão ser compreensivas; ir adoentado para a escola ou para o trabalho não ajuda ninguém. Existe a opção de fazer compras online com entregas em casa.

5. Lembre-se que Deus está consigo

A oração e a meditação trazem alívio e conforto. Podemos renovar a nossa paz interior ao voltarmo-nos para os ensinamentos espirituais dos fundadores das grandes religiões. Agora é um momento de oração, reflexão e desprendimento. No meio de experiências difíceis, renovamos a nossa fé e focamo-nos no espírito. Lembremo-nos que Deus está connosco:
Estamos convosco em todos os momentos e fortalecer-vos-emos através do poder da verdade. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, LXXI)
Que se apeguem à orla do Deus Omnipotente e ponham a sua fé na Beleza do Altíssimo; que confiem na ajuda infalível que vem do Reino Antigo e se entreguem ao cuidado e protecção do Senhor generoso. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #2)
Sabemos que nos próximos dias o COVID-19 vai continuam a espalhar-se; mas podemos preparar-nos física e espiritualmente para que o medo não invada os nossos corações e mentes. Se nos unirmos como um só planeta e percebermos o quanto precisamos uns dos outros, então certamente que encontraremos soluções.

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Texto original: Overcoming Fear: 5 Ways to Find Peace of Mind During the COVID-19 Outbreak (www.bahaiteachings.org

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Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

domingo, 15 de março de 2020

Disparidade de Rendimentos num tempo de Crise Global

Por Sayona Kahnamooei Freeman.


Enquanto observamos ao nosso redor o mundo a parar gradualmente, vemos muitas empresas a pedir aos seus trabalhadores que fiquem em casa e façam teletrabalho. Em Stanford, onde o meu marido trabalha, todos os trabalhadores não essenciais devem ficar em casa até aviso em contrário. Na universidade, as aulas deixaram de ser presenciais e passaram a ser à distância, por vídeo-conferência.

Tudo isto pode parecer maravilhoso e pro-activo, e vejo muitas pessoas que gostam de trabalhar à distância ainda com o pijama vestido. No entanto, e mais uma vez, em tempos de calamidade, a disparidade entre ricos e pobres parece ampliada. Nestes tempos, penso naquilo que Bahá’u’lláh – o profeta fundador da Fé Bahá’í – escreveu no Seu livro As Palavras Ocultas:
Ó Filho do Ser! Não te ocupes com este mundo, pois com o fogo testamos o ouro, e com o ouro testamos os Nossos servos.
Estas palavras sempre me tocaram. São tão simples, tão puras e tão poderosas. Vemos a humanidade a ser testada pelo mundo material e percebemos que perdemos de vista a nossa humildade – e por vezes até a nossa humanidade. Neste tempo de crise global, as pessoas em todo o mundo vivem num estado de pânico e ansiedade. Em Itália, todo o país entrou em quarentena até dia 3 de Abril. Nos Estados Unidos, o próprio presidente esteve exposto ao COVID-19 na conferência do CPAC, demonstrando que ninguém, independentemente da sua riqueza ou estatuto, está a salvo.

Estes são tempos de provação para todos os cidadãos do mundo. No entanto, aqueles com quem nos devemos preocupar mais são os que têm menos segurança laboral e financeira. São os que não têm possibilidade de realizar tele-trabalho porque trabalham em mercearias ou bombas de combustível. São os que não conseguem viver se a empresa fechar durante duas semanas. Na escola onde trabalho, todas as viagens e reuniões foram canceladas. Apesar de alguns pais lamentarem o cancelamento dos eventos escolares, fiquei a pensar nos pais que tinham poupado algum dinheiro para que os filhos pudessem ter essas experiências – e naqueles que ficam nervosos com a possibilidade da escola encerrar. Provavelmente, estão preocupados para saber como poderão ficar em casa e, simultaneamente, manter o emprego.

Segundo o Census dos EUA de 2018, 13,1% dos americanos vivem na pobreza. Isso são aproximadamente 44 milhões de homens, mulheres e crianças. Novamente, serão os mais vulneráveis da nossa sociedade global que mais sofrerão com esta pandemia. As Escrituras Bahá’ís dizem-nos:
Aqueles que possuem riquezas, porém, devem ter o maior respeito pelos pobres, pois é grande a honra destinada por Deus àqueles pobres que forem firmes na paciência. Pela Minha Vida! Não existe outra honra que se possa comparar a esta honra, excepto aquilo que Deus deseje conceder. Grande é a bênção que aguarda os pobres que resistem pacientemente e ocultam os seus sofrimentos, e felizes os ricos que concedem as suas riquezas aos necessitados e os preferem antes deles próprios. (Bahá’u’lláh, Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, C)
Se esta crise global nos ensinou alguma coisa, é que estamos todos interligados. Este é um momento de provação para a humanidade e já não podemos já podemos negar que quando algo acontece aos nossos irmãos do outro lado do mundo, todos devemos reagir num espírito de unidade para sermos bem-sucedidos. Somos agora forçados a perceber que os nossos actos individuais podem ter impacto na comunidade global. Nesta crise vimos as pessoas mostrando a sua natureza mais básica e lutar por bens essenciais. Vimos os governos a recriminarem-se mutuamente e alguns optando pela negação ou pela inacção, acreditando que, de alguma forma, as fronteiras criadas pelos humanos seriam uma protecção.

Nestes tempos de provação, porém, também vimos vitórias. Vimos vizinhos cuidando uns dos outros, fazendo compras para os que estão mais expostos. Vimos empresas mostrando compaixão até com funcionários essenciais. Vimos governos tomando decisões pelo bem-estar de todos os cidadãos. Na altura em que escrevo, a Itália fechou as suas fronteiras até 3 de Abril, e Israel vai colocar em quarentena todos os visitantes durante 14 dias.

Se esta pandemia ainda não atingiu o pico – com predizem os especialistas – então, para salvar os que forem atingidos, poderemos ser forçados como se fossemos uma única família, a tomar decisões que terão impacto em todo o globo. Tal como Bahá’u’lláh escreveu há mais de um século, “Não se deve orgulhar aquele que ama o seu próprio país, mas aquele que ama todo o mundo. A terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos”.

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Texto original: Income Disparity In a Time of Global Crisis (www.bahaiteachings.org)

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Sayona Kahnamooei Freeman é empresária, consultora de relações públicas, esposa e mãe de 3 rapazes. Vive em Silicon Valley, dedicando a maior parte do seu tempo à família, ao Tahirih Justice Center e ao serviço na sua comunidade Bahá’í.